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Clima

El Niño vai dosar renda no campo

Fenômeno promete chuvas bem distribuídas no Centro e Sul, mas amplia a pressão sobre os preços das commodities em época de desvalorização

Preços para vendas antecipadas são pouco animadores, avalia o produtor Edson Fosh, de MT |

Preços para vendas antecipadas são pouco animadores, avalia o produtor Edson Fosh, de MT

O clima deve ser um aliado dos agricultores do Centro-Oeste e Sul brasileiros em 2014/15. Após três temporadas consecutivas de neutralidade — que resultaram em secas localizadas—, os meteorologistas confirmam a ocorrência do fenômeno El Niño e, consequentemente, sua promessa de chuvas suficientes para a safra de verão. Mesmo com fraca intensidade, o evento favorece a produtividade. Por outro lado, antes mesmo do plantio da soja e do milho, essa tendência amplia a pressão sobre as cotações das commodities agrícolas.

A soja (a R$ 57 por saca no Paraná) vale 10% menos que nesta época do ano passado. O milho (R$ 18,5/sc) perdeu  20% do valor durante a safra de inverno. Quem vende feijão de cor (R$ 50/sc) ou preto (R$ 90/sc) recebe 60% e 35% a menos que em setembro de 2013, respectivamente.

Os efeitos do El Niño, confirmado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, vão começar a ser notados a partir de meados deste mês, aponta o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Luiz Renato Lazinski. “Essa condição deve se manter até o final da safra de verão”, pontua.

No Sul do país e em parte do Centro-Oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), a previsão é de “chuvas mais abundantes e acima da média”, indica Lazinski. Nos estados de Minas Gerais e São Paulo, que estão em uma região de transição, deve haver maior irregularidade. O contraste deverá ocorrer na região do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – o MaToPiBa. “Lá as chuvas podem ficar abaixo da média histórica”, detalha.

A última manifestação do evento foi em 2009/10, com uma intensidade maior que a atual, salienta a agrometeorologista do Instituto Agronômico do Paraná (Ia­­par), Angela Beatriz Costa. “Não deve haver risco para a a safra de inverno, que já está na reta final”, complementa.

Produtor adia vendas e busca produtividade

A chuva favorece cultivos como a soja, reforçando a perspectiva de safra cheia no Brasil e na Argentinta. Com o aumento na oferta global do grão — ante previsão de colheita acima de 100 milhões de toneladas nos Estados Unidos -- a pressão sobre os preços tem força dupla. Ante esse cenário, as cotações do produto caíram mais de 20% na Bolsa de Chicago, a US$ 11 por bushel.

No campo, os produtores assimilam a previsão de baixa, e buscam estratégias para tentar minimizar uma queda na renda bruta. Em Corbélia (Oeste do Paraná), o produtor Marcos Forte pretende iniciar o plantio dos 1,3 mil hectares de soja logo após o fim do vazio sanitário (15/09). Ele reduziu as vendas antecipadas e busca um salto produtivo. “A saída é investir mais no solo para tentar elevar a produtividade, mesmo que seja necessário gastar mais”, revela.

Em Canarana (Leste de Mato Grosso), o agricultor Edson Fosh adota tom cauteloso. Ele pretende ampliar em 7% a área de soja, para 214 hectares, com custos iguais ao da última safra. A estratégia foi reduzir a comercialização antecipada. “No ano passado os compradores vinham nos procurar pedindo produto. Vendi a R$ 55 por saca [60 quilos] na época, mas hoje estão oferecendo R$ 43 [na venda antecipada]”, reclama, na expectativa de preços melhores.

Para o analista da Agrin­vest, Marcos Araújo, as previsões climáticas terão um peso importante nas estratégias de comercialização. “O mercado opera com expectativa. Se surgir alguma perspectiva de problema climático, os preços podem mudar.” Ele avalia que ainda é possível obter renda positiva com a oleaginosa. “O produtor precisa aproveitar esses momentos, pois se a previsão não se confirmar ele vai acabar perdendo a oportunidade”, comenta.

Modoki

Meteorologistas não descartam reviravolta

Diante de dados contraditórios, alguns meteorologistas dizem que neste ano deve haver El Niño Modoki, ou El Niño falso. Essa avaliação surge porque as águas do Oceano Pacífico com temperatura acima do normal concentram-se ora na parte leste, ora na parte central do oceano, explica o agrometeorologista da Somar Meteorologia Marco Antonio dos Santos.

Ele argumenta que isso pode resultar em irregularidade na distribuição das chuvas até meados de outubro, sobretudo no Centro-Oeste do país. “Em Mato Grosso os produtores que gostam de plantar logo no fim do vazio sanitário [15/09] podem ter de esperar um pouco mais, devido à falta de chuvas”, indica.

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) orienta que a janela ideal de plantio é no mês de outubro, mas a entidade  prevê que, ainda assim, muitos produtores vão iniciar a semeadura já em setembro. A antecipação visa reduzir o impacto da ferrugem asiática, que ganha força a partir de janeiro, e reduzir a necessidade de aplicação de fungicidas.

Clima bom para inverno brasileiro e verão americano

No curto prazo, a possibilidade de ocorrência do El Niño não deve afetar nem a colheita da safra norte-americana e nem os cultivos de inverno do Brasil. No Hemisfério Norte, a tendência é de que o clima continue favorável, aponta o agrometeorologista da Somar Meteorologia, Marco Antonio dos Santos. “Vai chover bem nos próximos 15 dias nos Estados Unidos, mas em um volume que não vai atrapalhar o início da colheita.”

No Paraná, havia risco de ocorrência de geadas na semana passada, mas a possibilidade de ocorrência do fenômeno caiu substancialmente, indica a agrometeorologista do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Ângela Beatriz Costa. “Até 20 de setembro ainda é inverno, mas o risco de geadas é bem menor”, aponta.

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