Investigação

Empresa da JBS e concorrentes são acusadas de formar cartel de frango nos EUA

Pilgrim’s Pride, pertencente ao Grupo JBS, e outras companhias foram processadas por supostamente formar conluio para aumentar os preços da carne de frango

Albari Rosa/Gazeta do Povo Quatro grandes produtores, incluindo a Pilgrim’s Pride, pertencente ao Grupo JBS controlam quase 80% do fornecimento de frangos nos EUA. | Albari Rosa/Gazeta do Povo

Quatro grandes produtores, incluindo a Pilgrim’s Pride, pertencente ao Grupo JBS controlam quase 80% do fornecimento de frangos nos EUA.

  • The Washington Post

As duas maiores distribuidoras de alimentos dos Estados Unidos declararam guerra à indústria de carne de frango nesta semana. Em dois processos separados, a Sysco Corp e a US Foods Holding Corp denunciam um conluio para elevar os preços da carne de frango no país.

Quatro grandes produtores, incluindo a Pilgrim’s Pride, pertencente ao Grupo JBS (além da Tyson, Perdue e Koch Foods) controlam quase 80% do fornecimento de frangos nos EUA.

As distribuidoras alegam que os produtores coordenaram um esquema para manter baixo o número de frangos produzidos e altos os preços da carne, chegando a matar galinhas responsáveis pela produção de ovos que geram frangos destinados ao mercado de carne.

Apesar de dramáticas, as acusações não são novas. Este é o terceiro processo em menos de dois anos, com a alegação da existência de uma conspiração generalizada para elevar o preço do frango. As companhias negam as acusações, enquanto os casos e as suspeitas continuam.

Cartel do frango

Ultimamente, dizem os críticos, essa é uma lição sobre a consolidação da indústria. Mas o que afirmam os processos?

Todas as ações possuem alegações similares contra os produtores de frango Tyson, Pilgrim’s Pride, Sanderson Farms, Perdue e Koch Foods, entre outros. O primeiro processo foi deflagrado pelo distribuidor de alimentos Maplevale Frams em setembro de 2016. O segundo veio alguns meses depois, em janeiro, pelas redes de varejo Bi-Lo Holdings e pela Winn-Dixie Stores. Últimas corporações a abrirem processos, tanto a Sysco quanto a US Foods se recusaram a comentar ações em andamento.

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Assim como em qualquer outra indústria, as empresas produtoras de frango são concorrentes. Contudo, no início de 2008, segundo os processos, teve início uma ação coordenada para cortar o suprimento de carne de frango, com o objetivo de elevar os preços.

Alguns grupos, inclusive, fecharam seus frigoríficos ou demitiram funcionários, conforme as acusações. Outros teriam quebrado ovos antes de eles chocarem, abateram ou exportaram galinhas poedeiras, fazendo o mesmo com pequenos frangos antes de os animais estarem prontos para o tamanho exigido pelo mercado.

Entre 2008 e 2009, o número de frangos produzidos no país caiu quase meio milhão, segundo o Departamento da Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Apesar de os números estarem aumentando, desde então, a produção não superou o ano de 2008.

Ação coordenada ou coincidência?

O juiz distrital Thomas Durkin acatou os pedidos quando foi solicitado para arquivar um dos processos em novembro: “As alegações tanto da acusação de conspiração quanto as explicações da defesa podem ser descritas como plausíveis”.

Os distribuidores de alimentos alegam que as companhias produtoras de frango estavam bolando estratégias conjuntas, inicialmente através de reuniões e conferencias, e depois através da manipulação de estatísticas acerca da produção e do preço do frango.

A outra acusação parte da formação de um relatório de mercado elaborado pela empresa Agri Stats. No processo judicial consta que, ao assinar o recebimento desse relatório, cada empresa produtora de frangos pode verificar exatamente quantos frangos, galinhas e ovos estão sendo produzidos pelos concorrentes - um bom indicador de quantos frangos serão produzidos, e um sinal de cortes para a própria produção.

O que dizem empregas de frango?

Em comunicado, Gary Michelson, porta-voz da Tyson, desmentiu os últimos processos, assim como os primeiros. “As queixas são comuns em litígios, mas elas não mudam nossa posição de que as acusações são infundadas. Vamos continuar a defender vigorosamente a nossa companhia”.

A Sanderson Farms se manifestou afirmando que irá se defender fortemente. As outras companhias envolvidas não se manifestaram. Apesar disso, a tendência jurídica é que todas neguem o envolvimento.

O frango ficou mais caro?

O preço da carne de frango no varejo cresceu levemente no período descrito pelos processos judiciais. Em 2007, quando teria começado a conspiração, o custo médio por dólar de 500 gramas seria de 136 centavos, já considerando o ajuste da inflação medido pelo The Washington Post. O nível máximo foi de 161 centavos por dólar em 2014.

Não está claro, contudo, se o crescimento no preço é resultado das ações das companhias, já que há uma série de variáveis que impactam o custo do frango, desde a demanda até o preço dos insumos.

Qualquer que seja a causa, o crescente aumento no preço provavelmente afetou os distribuidores, como a Sysco, que vêm reclamando dos preços em relatórios e conferências com investidores.

Investigações além das cortes

A Comissão de Câmbio e de Segurança e advogados do estado da Florida abriram investigações junto às companhias em 2017. Enquanto o inquérito da Florida continua ativa, a comissão concluiu seu levantamento em agosto emitir qualquer ação, informa a Tyson.

Os críticos da indústria do frango culpam o problema da consolidação de mercado. Segundo dados da WattAg, uma publicação da indústria do frango, três grupos produzem 46%dos frangos nos Estados Unidos, enquanto os dez maiores produtores controlam aproximadamente 80% do mercado.

O jornalista Christopher Leonard argumentou que as companhias de frango cresceram tanto que elas não precisariam formar um cartel. “Nos anos 1960, nenhuma companhia de frango tinha mercado suficiente para cortar suprimentos a ponto de aumentar os preços”, afirma no livro The Meat Racket (em tradução livre, A Gritaria da Carne). “Hoje, elas poderiam”.

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