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Vacas leiteiras têm tratamento olímpico para melhorar desempenho

Elas simplesmente deixam a concorrência no chinelo. Entenda o porquê dos números imbatíveis das vacas holandesas das bacias leiteiras do Paraná.

Daniel Caron/Gazeta do Povo  | Daniel Caron/Gazeta do Povo
  • Marcos Tosi

Dieta rigorosa acompanhada de consulta com nutricionista todo mês, visita semanal do médico para exames físicos e de ultrassom, descanso obrigatório de 12 a 14 horas por dia, planilha individual de desempenho. O que parece uma típica rotina de atletas olímpicos, é o tratamento dispensado a pelo menos 65 mil vacas holandesas de bacias leiteiras do Paraná, cuja performance deixa no chinelo a concorrência nacional.

Enquanto a média diária brasileira de produção de leite é de 8 litros por vaca, cada “mimosa” paranaense que recebe acompanhamento médico e nutricional personalizado enche diariamente um balde de 26 litros, com alguns rebanhos alcançando média de 40 litros, e – lembre-se, estamos falando de atletas – há vacas-fenômeno que já batem a marca de 100 litros de leite por dia.

“Com certeza minhas vacas leiteiras têm acompanhamento médico melhor do que o meu. Eu deveria aprender com elas e me cuidar mais”, brinca o produtor Sigmund Schartner, criador de 200 vacas holandesas na colônia alemã de Witmarsum, no município de Palmeira, a 60 km de Curitiba.

As fichas de desempenho dessas vacas olímpicas são mantidas pelo laboratório de diagnósticos da Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), com sede no bairro Orleans, em Curitiba. “Nós somos os coaches dessas vacas, verdadeiras atletas de ponta. Temos a ficha completa de cada uma delas e damos suporte às ações de nossos colegas veterinários, agrônomos e zootecnistas e para mais de 2.200 criadores de leite”, diz Altair Valotto, superintendente da associação, criada em 1953.

Daniel Caron/Gazeta do Povo

As vacas de Sigmund Schartner produzem 5 mil litros de leite por dia

O laboratório da APCBRH é um dos dez credenciados no país para controle da qualidade do leite. A cada dia útil, o laboratório faz 10 mil análises. Com senha e login, os produtores acompanham os resultados pelo celular ou computador. Outros clientes são as indústrias, que, por lei, têm que mandar analisar mensalmente uma amostra de leite dos tanques refrigerados. A APCBRH faz o serviço para 230 empresas.

Para saber a qualidade do leite, e da saúde das vacas, um dos principais indicadores é a contagem bacteriana, associada ao bom resfriamento do leite e à higiene da ordenha e dos equipamentos. A contagem de células somáticas também é acompanhada de perto pelos criadores. Um número acima de 200 mil células por mililitro de leite aponta para problemas de mastite, uma infecção comum das tetas que derruba a produção de leite e ameaça a saúde da vaca.

Sem exagero, as vacas-atletas apresentam números de produtividade espantosos. A vaca número 358 da chácara Cristalina, em Witmarsum, produziu no dia desta reportagem 71 litros de leite – 39 na ordenha das 4h da manhã e 32 na ordenha das 5h da tarde. Egon Kruger, o dono da propriedade, não se lembrava do nome da vaca, só o número, como virou hábito entre os criadores.

Conheça a “atleta” Pinha


Resgatamos o nome de batismo da 358, e outros dados biográficos, nos registros da APCBRH. A vaca se chama Pinha, nasceu dia 30 de novembro de 2011 e já teve quatro crias (Em 1/11/2013, em 15/10/2014, em 8/12/2015 e em 8/4/2017). Em seis anos de vida, Pinha produziu 41 mil litros de leite com excelentes taxas de gordura, um quesito valorizado para a produção de queijo. A ficha cadastral mostra ainda, em detalhes, toda a árvore genealógica e os atributos genéticos da vaca.

Curiosamente, pelos registros, Pinha é “negativa” para produzir leite, ou seja, este não seria um atributo genético forte para passar aos descendentes. Numa analogia, Altair Valotto explica que seria “como a filha alta de um pai baixinho”. Mesmo tendo estatura mais elevada, a filha continua carregando genes de baixinhos. O desempenho da Pinha mostra, também, que “a vaca está dando o melhor de si, está em seu auge produtivo, e que o produtor está fazendo um manejo adequado, dando muito conforto, alimentação balanceada, água limpa e em boa quantidade para ela” – completa o veterinário.

Para produzir diariamente mais de 50 litros de leite, Pinha chega a consumir 70 kg de comida, divididos entre silagem de milho, ração industrial, pasto pré-secado e compostos minerais. Isso tudo dá sede, e Pinha bebe em média 150 litros de água. Se fizer calor, o consumo aumenta em 30%. Quando se aposentar, aos 10 anos, Pinha terá produzido 23 vezes o seu peso-vivo de 650kg.

Há poucos meses o produtor Egon Kruger associou-se ao vizinho e amigo de infância, Hugo Kreusch, e investiu na construção de um galpão para o sistema de confinamento “compost barn”, em que as vacas ficam sobre um “colchão” de serragem e têm mais espaço para se alimentar e circular. As novilhas ficam em um lote separado, para evitar o estresse pela implicância e perseguição das vacas mais velhas. O conforto proporcionado pelo galpão, associado ao acompanhamento médico-nutricional e a paz entre gerações bovinas, fez a produtividade saltar de 27 litros de leite por vaca para 34 litros, em apenas dois meses.

“Não dá mais para trabalhar só na intuição. O que a gente não quer é ter vaca doente. Temos que ter controle no papel, no celular e no computador. Isso ajuda bastante pra ter mais confiança naquilo que a gente está fazendo”, resume Egon Kruger.

Daniel Caron/Gazeta do Povo

Laboratório da APCBRH em Curitiba

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