Domingo, 14/03/2010
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Roberto Requião chamou de “palhaços” os trabalhadores da Repar que ousaram vaiá-lo ontem, durante a inauguração das obras da refinaria. Disse que as vaias eram a “última coisa que esperava em uma empresa nacional”. Claro: como se considera um nacionalista e um defensor dos trabalhadores, acreditava que operários de uma estatal gostariam dele por princípio ideológico. Não é assim que as coisas funcionam.
O desgaste de oito anos no poder nitidamente afeta hoje a imagem do governador. E, embora ele continue sendo uma barbada para o Senado em outubro, há muita gente que não gosta de seu estilo. É natural. E qualquer um com um ego um pouco menos inflado entenderia que, numa democracia, é assim que as coisas funcionam. Mas, para Requião, nunca bastaram os milhões de votos que ele conquistou, os mandatos todos que ganhou nas urnas. Ele quer a unanimidade.
Requião eleva a um novo patamar o nível de autoritarismo do slogan de Médici. Na época, falava-se do país: ame-o ou deixe-o. Para o governador do Paraná, a questão é pessoal: me ame, ou seja um palhaço. Essa, digamos, falha de personalidade, talvez seja o que tenha impedido o governador de chegar mais longe na política nacional. Dificilmente algum partido grande lançaria alguém com tal potencial ofensivo numa campanha para a Presidência da República.
Aqui, na terra das araucárias, isso também trouxe suas consequências. O ego do governador impediu, por exemplo, que ele conseguisse conviver com alguém que lhe pudesse fazer sombra no governo. Foi o que levou Requião a mandar Gustavo Fruet, por exemplo, para fora do “velho MDB de guerra”. Fruet teria chances de ser um bom candidato à sucessão de Requião. Como foi rifado, agora o governo terá de se virar com Pessutão – que, convenhamos, não anda muito bem nas pesquisas.
Ao fim de seu primeiro governo, Requião concedeu uma entrevista para a tevê em que dizia que lamentava, acima de tudo, não ter feito um sucessor, não ter deixado à frente do Paraná um governo “solidário”. Novamente, agora, Requião não conseguirá fazer seu sucessor. Terá de entregar o poder a Osmar Dias (com quem se bica desde 2006) ou a Beto Richa (com quem se bica desde que esse apoiou o mesmo Osmar, no mesmíssimo 2006).
Um jornalista do estado, muitos anos atrás, afirmou que Requião era como um eucalipto. Frondoso, grande, imponente. Mas, no seu entorno, nada consegue crescer. Isso continua sendo a pura verdade. E a origem disso está na vaidade do governador. Dia desses, ouvi de um requianista ferrenho uma outra frase que define bem o governador. “A política dele é boa. Mas o homem é duro”, dizia ele.
A arrogância está cobrando seu preço. Hoje, em formato de vaias. Em outubro, será na forma de votos. Ao que tudo indica, a oposição a Requião assumirá o governo. A ele restará ficar, de sua cadeira do Senado, xingando aqueles que não permitiram a continuidade de seu governo. Milhões de paranaenses terão virado “palhaços” sem saber.
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Escritores geniais têm o dom de dizer em poucas linhas aquilo que nós, os outros, demoraríamos páginas para explicar. Veja o caso de Nelson Rodrigues. Querendo mostrar como pensava um juiz, em seu “Engraçadinha”, o autor põe o personagem para falar de si sempre como se estivesse falando do Judiciário como um todo.
“Hoje, fizeram uma com o Judiciário!”, diz ele, falando de si. “Veja você. Um garotão. Sujeito bonito, que devia estar cheio de mulheres e não tem mulher nenhuma. Deu uns petelecos no Judiciário! Uns safanões!” Sua indignação é engraçada antes de mais nada porque ele não acredita mais que é uma pessoa comum. Nem é o representante de um poder. É o próprio poder! Tem jeito melhor de mostrar a arrogância de um juiz?
E o estereótipo do Judiciário acabou sendo esse mesmo: o de um grupo de pessoas que, isoladas em palácios de Justiça, acabam se sentindo um pouco acima do chão. Nem todo estereótipo corresponde à realidade. Cabe ao leitor decidir se nesse caso a pecha faz ou não sentido.
O fato é que nos últimos tempos houve uma boa notícia no Brasil para quem considerava o Judiciário isolado demais, fechado demais, soberbo demais. E essa boa notícia tem nome: é o Conselho Nacional de Justiça. Ou, mais simplesmente, o CNJ. Para se ter uma ideia de como as coisas estão mudando, só aqui no Paraná e só nesta semana, há duas novidades para serem comemoradas.
A primeira delas é o Mutirão Carcerário. Com uma medida razoavelmente simples, o conselho conseguiu diminuir o efeito de um dos maiores descalabros do país. Em poucos dias de trabalho no Paraná, descobriu que mais de cem presos estavam na cadeia desnecessariamente. E mandou soltá-los de imediato.
Podemos pensar no efeito prático disso: as cadeias ficarão (um pouco) menos superlotadas. Mas, muito mais importante é que os direitos básicos da população passam a ser um pouco mais respeitados. É claro que todos esses presos são pobres. Gente que não tinha como pagar um advogado e que depende de Defensoria Pública. No Paraná, a inépcia dos governadores fez com que não existisse defensoria. Não estamos falando de presos políticos, mas de presos que são vítimas da política.
Aqui, o CNJ combateu a ineficiência do Judiciário, que nunca se mexeu antes para fazer algo simples como esse mutirão, algo necessário como esse mutirão. É o Judiciário saindo dos palácios e pondo o pé na porta da cadeia. É o Judiciário fazendo Justiça, e não apenas assinando sentenças.
A outra boa novidade tem como alvo outro problema. Falo da decisão do CNJ de reabrir as investigações sobre o caso do Anexo do Palácio da Justiça. A Comissão de Obras do TJ apontou dezenas de suspeitas de irregularidades na obra do prédio. Depois de uma auditoria, porém, a cúpula do Judiciário decidiu que não era o caso de punir ninguém. Pelo contrário, o prédio foi recebido sem maiores problemas.
Muita gente achava, porém, que ainda havia muita coisa mal explicada sobre o tal anexo. E com R$ 48 milhões não se brinca. Em outras épocas, o caso certamente teria parado por aqui. Agora, não. Foi possível achar quem abraçasse a causa e mandasse reabrir a investigação.
Não sei não. Mas acho que o juiz do Nelson Rodrigues deve estar se remoendo de raiva. Veja o que estão fazendo com o Judiciário!
Lembro sempre uma manchete que vi muitos anos atrás, quando ainda estava começando no jornalismo. Era um texto que perguntava de quantos desempregados a mais o governo precisava para derrubar a inflação.
Na época isso me chocou. E, claro, ainda me choca. No fundo, parece que todos os economistas concordam que existe um dilema cruel para ser resolvido. Você sempre vai ter ou um pouco a mais de inflação, ou um pouco a mais de recessão.
Escrevo esse texto hoje porque li algo que mudou meu jeito de ver esse dilema. É o livro "A sociedade justa", do economista canadense/americano John Kenneth Galbraith.
A tese dele é a seguinte (mais ou menos, claro). Hoje em dia, não haveria mais aquela distinção clássica feita por Marx, dividindo a sociedade em proprietários dos meios de produção e trabalhadores. Mas haveria, sim, uma divisão. Só que agora entre os afortunados e os excluídos.
A diferença é que, para ser afortunado, você não precisa ser dono da empresa. Pode ser bem sucedido em outras áreas, inclusive como profissional liberal. Inclusive como profissional da mídia.
E aí se cria um grupo que não quer inflação porque ela pode afetar seus lucros. E que prefere o desemprego (e a recessão) porque ela evita a inflação. E, está dito nas entrelinhas, porque o desemprego diminui o poder de negociação dos trabalhadores em questões salariais.
Assim, o discurso quase histérico contra a inflação que temos hoje, e que é parte do pensamento dominante no mercado, seria na verdade a defesa de um lado, o dos que estão na via boa, contra os que estão do outro lado, os que estão do lado de baixo.
E aí volto a insistir na questão do Banco Central independente. Quem regula os juros, e com isso define (até onde possível) os rumos da inflação, é o BC. É aí que se define, também, em grande medida, os rumos do emprego.
Vamos deixar isso na mão de um banqueiro? Sem poder haver interferência direta do presidente da República, eleito por nós?
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Um espectro paira sobre Curitiba. Calma: não é o que você está pensando. O fantasma que ronda a cidade é de outro tipo. É o das licitações frustradas. Recentemente, a prefeitura de Curitiba teve de licitar (inclusive por ordem judicial) vários de seus serviços mais caros e mais importantes. Radares para fiscalização de trânsito; serviço de funerárias; gerenciamento de lixo; e, finalmente, o maior orçamento de todos esses, o serviço de ônibus da cidade. Em todos os casos houve problemas e frustrações.
A das funerárias já deveria ter acontecido faz tempo (é lei). Mas nunca sai do papel, e as mesmas empresas de sempre continuam atuando como se a Constituição não existisse. A do lixo sofre um revés depois do outro: ontem mesmo a escolha do consórcio liderado por Salomão Soifer e Sílvio Name, dada como certa pela prefeitura, foi suspensa pela Justiça. E a partir de novembro ninguém sabe para onde vai o nosso lixo.
A dos radares e a dos ônibus saíram. E se encaixam num outro tipo de concorrência pública: aquela que não tem concorrentes. Na dos radares, até que algumas empresas mostraram interesse, mas não conseguiram passar da primeira fase. Só quem conseguiu habilitação foi a Consilux, que já opera o sistema desde 1998 e que ganhou todos os tipos de aditivos (de emergência ou não de emergência) nos últimos anos para estender o seu contrato.
Na do ônibus (o filé mignon da administração de Curitiba, com orçamento de R$ 8,6 bilhões para os próximos 15 anos) algumas empresas chegaram a mostrar interesse. Fizeram perguntas oficialmente à Urbs sobre o edital, conforme mostrou o repórter Heliberton Cesca, desta Gazeta. Um dos empresários ouvidos, da Trans Isaak, jurou que apresentaria proposta. No entanto, na hora H, só as empresas de sempre (algumas lucrando com os ônibus desde antes de o prefeito Beto Richa nascer) compareceram…
Por que terá acontecido mais essa frustração? Certamente não foi por falta de interesse de outros empresários no negócio. Quem não quer um investimento com retorno de 8,9% ao ano, num negócio de R$ 700 milhões ao ano? O que tornou o negócio pouco interessante, então? Seria a necessidade de pagar R$ 10 milhões pela inscrição? Ou a necessidade de pagar R$ 252 milhões pela outorga? Sendo assim, por que interessou às empresas locais participar da licitação?
Esses e outros mistérios poderão ser solucionados nos próximos dias. Para isso, será necessário primeiro que alguns empresários que pretendiam participar da licitação, que prometeram participar da licitação, expliquem por que desistiram, por exemplo. Ou será necessário saber por que para as empresas daqui os R$ 10 milhões pareceram um bom investimento.
O certo, até aqui, é que quem sai perdendo é o usuário do busão. Sim, porque uma licitação sem concorrentes depende unicamente do preço (e das condições) estabelecidas por aqueles que se apresentaram como únicos interessados no negócio. O capitalismo funciona assim: quando muita gente oferece um produto, há disputa pelo consumidor, o preço tende a baixar. E o serviço, em tese, melhora. Quando só há um fornecedor, o preço tende a subir. E o serviço, a piorar...
A licitação dos ônibus poderia ser o grande legado que Beto Richa deixaria para a cidade. Depois de décadas, teríamos gente daqui e de fora concorrendo para prestar um bom serviço à nossa população. Não foi isso que ocorreu. Ganharam os mesmos de sempre. E ficou no ar, mais uma vez, o gostinho da frustração.
A denúncia feita hoje pelo governador Requião contra o ministro Paulo Bernardo é grave, claro. Mas é preciso ficar com pelo menos um pé atrás em relação a esse tipo de coisa. Requião tem costume de denunciar sem provar. Faz o show e depois fica por isso mesmo.
A denúncia é de que Paulo Bernardo estaria tentando fazer por R$ 550 milhões um ramal ferroviário que, pelas contas do estado, sairia por R$ 150 milhões, entre Ipiranga e Guarapuava. Superfaturamento, fica a insinuação.
A história não seria de hoje. O que levanta o primeiro problema. Se Requião sabia disso faz tempo, por que só falar agora? Só denuncia quando alguém pisa no calo? Enquanto a pessoa está do lado dele não é grave? Só vale a denúncia em período eleitoral?
Mas não é só: a quem denuncia cabe apresentar as provas. Eu, que faço jornalismo, sei que antes de sair acusando alguém tenho de ter fatos e provas que embasem o que estou falando.
Para Requião, tudo é mais simples. Tem grana para pagar indenizações. Tem uma tevê para fazer seu show. E manda bala. É verdade? Não é? Quem vai saber?
Fica ele de campeão da moralidade. E, veja bem, não estou dizendo que o fato tenha ou não tenha acontecido. Justamente é esse o problema. Até aqui, parece impossível saber.
Tudo o que se sabe foi que o governador ficou bravo, bravíssimo porque o ministro do Planejamento disse que o Paraná recebe poucos recursos por não correr atrás. Requião entendeu que ele teria de ir de pires na mão a Brasília pedir dinheiro e não gostou.
Na verdade, a declaração de Paulo Bernardo mostra uma situação realmente complicada. Leva mais quem chora. Mas todo mundo sabe que é assim. Quem mostra projetos, cobra, vai atrás tem mais chance de receber.
Celso Nascimento mostrou na sua coluna quantas vezes o Paraná desperdiçou dinheiro do governo federal só por não ir atrás ou se desinteressar. Depois não adianta ficar fazendo espetáculo na tevê.
Governar é negociar, é fazer projetos, é ir atrás de oportunidades. Ficar botando a boca no trombone o tempo todo é, no máximo, atividade para quem está na oposição.
Mas é fácil e mais divertido. Então, o governador vai por esse caminho. O do menor esforço.
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Fui levado recentemente, por motivos que não cabe aqui explicar, a pensar sobre o que é justiça. E aprendi que a definição clássica é a de que ser justo é dar a cada um o que lhe é devido. A Justiça com “J” maiúsculo, portanto, tem essa como sua principal atribuição: não só dar bens a cada um conforme seja direito, mas também dar a cada um as punições que lhe sejam cabíveis, etc. Sem dúvida, uma boa definição.
De um tribunal de Justiça, espera-se que faça essa bela função. Principalmente, julgando com imparcialidade as ações que lá chegam. Mas é preciso mais. É preciso que o próprio tribunal seja justo. Com seus funcionários e com a população que banca o seu funcionamento. E é por isso que as informações reveladas nos últimos dias causaram, no mínimo, espanto na população.
Recapitulando: os salários dos servidores da Justiça estadual tiveram, por determinação do Conselho Nacional de Justiça, de ser colocados na internet, para que todos os cidadãos possam vê-los. Trata-se de transparência, um santo remédio contra vários vícios do poder público. Aliás, diga-se de passagem, o CNJ se tornou a melhor novidade do Judiciário em décadas. Está obrigando a Justiça brasileira a deixar uma posição confortável de enclausuramento e passar a prestar mais contas de seus atos à população.
O problema surgiu quando alguns salários se mostraram muito, muito acima do que a maioria das pessoas estaria disposta a compreender. Segundo as informações do próprio TJ, conforme mostrou ontem esta Gazeta, houve em dezembro um escrivão recebendo R$ 100 mil. Para esse e para mais um supersalário de mais de R$ 60 mil, o presidente do tribunal, desembargador Carlos Hoffmann, apresentou ontem uma justificativa: seriam casos excepcionais, de gente que recebe acima do teto legal até por força de decisão judicial. Ok. Princípio da presunção de inocência: até prova em contrário, acredita-se que tudo está dentro da lei.
Mas estar dentro da lei é pouco para que a Justiça esteja sendo feita. É preciso que cada um receba o que lhe é devido. Será que os supersalários se justificam nessa definição?
Esqueça os casos acima. Entre os salários recebidos estão, por exemplo, o caso de um copeiro que ganha R$ 8,5 mil. O de um auxiliar administrativo que recebe R$ 13 mil. Um ascensorista com salário de R$ 6,6 mil.
Claro que seria ótimo se todos os copeiros, auxiliares administrativos e ascensoristas pudessem ganhar isso. Mas essa, definitivamente, não é a realidade. Nem aqui, nem em qualquer outro país do mundo. O presidente do TJ deu ontem sua versão para o caso. “Não se pode comparar a atividade privada com a pública. A atividade pública tem uma disparidade de remuneração com a atividade privada. Agora, eu acho que a qualificação do profissional em qualquer setor público merece ser bem remunerada.”
A todos é dado o direito de opinião. O desembargador tem a sua. A população parece ter outra bem diferente. E é saudável a indignação da população. E é saudável que o TJ tenha de se explicar – coisa que nunca acontecia antes. Porque, afinal, para um tribunal de Justiça, fazer tudo dentro da lei é muito pouco. É preciso que se faça tudo de modo justo.
Lendo sobre a justiça vi que Kant escreveu uma frase forte. “Se a justiça desaparece, é fato sem valor os homens viverem sobre a terra”. Não sou Kant. E não sou juiz de ninguém. Mas para mim é claro que, quando o Judiciário perde credibilidade, nossa sociedade sofre um golpe sério. Tomara que as explicações que ainda hão de vir sejam mais detalhadas – e mais convincentes.
Roosewelt Pinheiro/ABr
Arruda: podemos imaginá-lo no Congresso daqui a uns dez anos.Quando um texto publicado na imprensa vai contar o que está para acontecer numa série de tevê ou numa novela, é de bom tom que se avise o leitor sobre isso: se ele não quiser saber, para ter a emoção de descobrir só na hora da transmissão, pule aquela matéria e pronto. É o que os americanos chamam de spoiler alert. Pois então: se você não quer saber o que vai acontecer com o caso Arruda, para sentir a emoção de seguir o noticiário no dia a dia, pode pular essa coluna e passar para o texto de baixo.
1) Nos próximos dias, Arruda vai apanhar como cachorro sarnento. O noticiário não o esquecerá. Os colunistas vão tratá-lo como inimigo número um do país. A população o amaldiçoará. Saia ou não saia da cadeia, renuncie ou não renuncie ao governo, Arruda será um proscrito. Seu antigo partido já finge desde há tempos que nunca ouviu falar dele. Seus ex-secretários jurarão que vão tomar mais cuidado com as companhias a partir de agora.
2) Durante a campanha eleitoral, o caso será lembrado várias vezes. O PT lembrará o escândalo para mostrar quem está do outro lado na disputa. O PSDB e o Democratas (que talvez mude de nome novamente para deixar para trás mais essa mancha em seu currículo, depois de tantas outras), dirá que os petistas também são mensaleiros. A disputa talvez não ocorra no centro do palco, caso os partidos tentem fazer do bom-mocismo uma arma. Nesse caso, deixarão seus aliados menores fazendo o jogo sujo.
3) Os eleitores do Distrito Federal vão às urnas em outubro ainda com o caso Arruda na cabeça – e, mesmo assim, cometerão novamente o erro de eleger Joaquim Roriz. É preciso lembrar: Roriz, que já foi governador por quatro mandatos, foi quem colocou Arruda na política, como seu secretário. Entre outras coisas, foi obrigado a renunciar a um mandato de senador devido a um escândalo bancário. Será um substituto à altura de Arruda e Paulo Octávio.
4) Com o tempo, o caso esfriará. Assim como nos esquecemos do caso do BRB que levou Roriz à renúncia, assim como nos esquecemos de outro governador preso no mandato nos anos 90 (Ronaldo Cunha Lima, na Paraíba), nos esqueceremos, paulatinamente, do escândalo de Arruda. Quem duvida? Afinal, quantos de nós ainda tínhamos em mente, antes do atual escândalo, o problema anterior de Arruda, com o painel do Senado?
5) A longo prazo, Arruda estará livre das acusações. Mais velho, voltará talvez a público para uma nova candidatura. Dirá que não faz isso por ambição, mas sim para limpar seu nome que foi injustamente jogado na lama. Terá de se candidatar por um partido pequeno, talvez. Mas se elegerá deputado federal com facilidade. Os mais jovens serão lembrados nos primeiros dias de mandato de que aquele senhor esteve envolvido em casos sérios de corrupção. Uma tevê mostrará as velhas fitas de um sujeito colocando dinheiro na meia. Mas, em poucos dias, todos se esquecerão.
Posso estar sendo apenas cético. Mas já vimos o filme antes, e quantas vezes. Sabemos, mais ou menos, adivinhar o final. O que nos restaria, é claro, seria fazermos a nossa parte e evitarmos a parte mais importante dessa tragédia cíclica: a da falta de memória. Ou da falta de cuidado que temos com a nossa memória política. Afinal, sobre Arruda já estávamos avisados. Sobre muitos outros, também. E continuamos votando neles, e os elegendo. Eis a nossa tarefa: dessa vez, podíamos aprender a lição.
Arruda foi para a cadeia. Ao que tudo indica, fez por merecer. Não só foi descoberto em seu governo um megaesquema de corrupção como, ainda, há todos os indícios de que o governador tentou atrapalhar a investigação.
O ponto, porém, é: será que temos o que comemorar? Claro, é sempre bom quando um dos grandes corruptores cai. Mas quantos do mesmo gênero andarão à solta por aí, fazendo o mesmo ou pior?
Me exmplico. Vejam como o caso de Arruda chegou ao público: um dos membros do seu governo filmou o ato de corrupção explícita (quem se esquecerá da cena das meias cheias de dinheiro?) e resolveu levar tudo para a tevê.
Não houvesse o denunciante, como saberíamos de tudo? E, no Brasil, tem sido sempre assim. Lembram do Collor? Quem denunciou foi o irmão. E o falecido Pitta? Quem denunciou foi a ex-mulher. O mensalão do atual governo federal? Quem denunciou foi o Roberto Jefferson.
O que se tira de tudo isso? Que se não houver alguém muito próximo ao esquema para, por um motivo de descontentamento qualquer, resolver dar com a língua nos dentes, de nada ficamos sabendo.
Como não é comum que interessados num esquema decidam sair falando tudo o que sabem, podemos com justiça supor que é a minoria dos casos que vaza. Assim, para cada Pitta e para cada Arruda descoberto, quantos haverá que ninguém nunca denunciou?
Isso revela a fragilidade do nosso sistema. Nossa polícia funciona assim em outras áreas também. Homicídios, na grande parte dos casos, só são resolvidos por denúncias da população. Dependemos de testemunhas, mais do que da busca por provas técnicas.
O sistema é frágil também em outra ponta. A população muitas vezes sabe no que está se metendo, mas elege picaretas mesmo assim. Veja o caso do Arruda: ele já tinha seus precedentes. Havia sido obrigado a renunciar ao mandato de senador junto com o também falecido ACM. Mas o povo insiste no erro.
Depois não é surpresa que aconteça o que aconteceu: mais escândalos, mais corrupção, mais dinheiro desviado.
A prisão de Arruda é um indício de que este Brasilzão está tomando jeito. Está na hora de ir mais longe. E os primeiros que precisam tomar jeito somos nós, os eleitores. Picaretas? Nunca mais.

Luiz Carlos da Cruz/Gazeta do Povo
Propaganda de inauguração de creche na Vila Guaíra, em Curitiba, no jornal Gazeta do Paraná, de CascavelAlguém aí consegue pensar numa desculpa válida para isso? Pois a máquina da prefeitura de Curitiba pensou numa desculpa rápida e prontamente. Se é boa o suficiente, julgue o leitor. (E o eleitor, claro).
Diz a prefeitura que o erro foi da agência de publicidade. A prefeitura autorizou sim a compra de espaço em jornais de outras cidades. Só que para pôr mensagens incentivando o turismo a Curitiba.
A agência, porém, se atrapalhou, e mandou o anúncio errado, falando de programas sociais feitos por Beto Richa. Ah, bom! Então, tudo ok.
O dinheiro público? Bom, a agência diz que vai arcar com isso.
E a mensagem para o pessoal do interior? Bom, aí talvez seja o caso de fazer um novo anúncio, pedindo dessa vez para eles esqueceram do que viram.
Então, fica combinado assim. Foi erro da agência. E fica combinado também que não tem problema fazer campanha de uma prefeitura em outras cidades. Basta dizer depois algo do tipo "foi mal" e fica por isso mesmo. Ok?
Normalmente não comento os comentários do blog. Aliás, usualmente publico quase todos. Excetuando os mais grosseiros e os que não fazem sentido, ponho lá. Dessa vez, porém, tive de filtrar bem os comentários. E explico o motivo.
É que, como minha sábia esposa diz, as pessoas não leem o que a gente escreve. Leem o que elas querem ler. E aí saem dizendo que você falou uma coisa que, na verdade, obviamente, você nunca disse.
A mensagem que eu tenho a dar sobre o caso Carli é clara. O cara errou? Puna-se. Errou feio? Puna-se duramente. Ninguém pode, como tudo indica que ele fez, sair dirigindo embriagado, acima do limite de velocidade, sem carteira, bater o carro, se envolver na morte de duas pessoas e sair por aí como se nada tivesse acontecido.
Só continuo cobrindo política porque mantenho minha capacidade de saber o que é certo, o que é errado, e mantenho minha capacidade de me indignar com o que não presta. (Apesar de que, ao contrário do que muita gente pensa, acho que falar de política não é só falar mal, nem só escrachar os políticos.)
Resumindo, para quem não quis entender: quero que o Carli responda pelo que fez, sim.
O que não posso aceitar é que a gente veja a porcaria que dá quando ultrapassa os limites e continue fazendo coisas semelhantes.
Vários dos leitores fizeram comentários do gênero "não é a mesma coisa dirigir a 72 km/h ou a 160 km/h". Claro que não é. Assim como não é a mesma coisa roubar R$ 2 ou roubar R$ 2 milhões. Em todo caso, nas duas situações é um roubo.
Não posso tolerar que as pessoas achem "normal" cometer "pequenos desvios". "Ah, mas eu tinha bebido só duas latinhas", diz um. "Ah, mas eu estava só a 80. Não dá nada", diz outro.
Dá, sim. Desrespeito às regras dá no que deu com o deputado. Uma coisa leva à outra e logo estamos nos dando o direito de fazer o que queremos.
Temos dois caminhos pela frente. Ou nós aprendemos que só o respeito ao outro nos mantém civilizados (e nesse caso seguiremos as regras que nos impedem de virarmos bárbaros); ou viveremos num mundo em que cada um determina o que pode fazer (um mundo de Carlis. Alguém quer isso?).
São Tomás de Aquino dizia que a soberba é a origem de todos os males. Se eu me considero superior aos outros, acho que tenho direito a mais do que os outros. Assim se justifica o roubo. Assim se justifica o assassinato. Assim se justifica andar acima da velocidade, e sob efeito de álcool.
Podemos todos entrar nessa. É o que ocorre às vezes. É o que causa o caos em que vivemos às vezes.
Portanto, fica o recado. É claro que é necessário gritar para que Carli pague pelos seus erros. O que não podemos é fazer isso e continuar desrespeitando a lei e aos outros o tempo todo. Pois isso, sim, pode doer nos ouvidos, mas é mera hipocrisia.
Scorsese faz de Ilha do Medo mais do que uma boa trama policial
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