Terça-feira, 09/02/2010
Luiz Carlos da Cruz/Gazeta do Povo
Propaganda de inauguração de creche na Vila Guaíra, em Curitiba, no jornal Gazeta do Paraná, de CascavelAlguém aí consegue pensar numa desculpa válida para isso? Pois a máquina da prefeitura de Curitiba pensou numa desculpa rápida e prontamente. Se é boa o suficiente, julgue o leitor. (E o eleitor, claro).
Diz a prefeitura que o erro foi da agência de publicidade. A prefeitura autorizou sim a compra de espaço em jornais de outras cidades. Só que para pôr mensagens incentivando o turismo a Curitiba.
A agência, porém, se atrapalhou, e mandou o anúncio errado, falando de programas sociais feitos por Beto Richa. Ah, bom! Então, tudo ok.
O dinheiro público? Bom, a agência diz que vai arcar com isso.
E a mensagem para o pessoal do interior? Bom, aí talvez seja o caso de fazer um novo anúncio, pedindo dessa vez para eles esqueceram do que viram.
Então, fica combinado assim. Foi erro da agência. E fica combinado também que não tem problema fazer campanha de uma prefeitura em outras cidades. Basta dizer depois algo do tipo "foi mal" e fica por isso mesmo. Ok?
Normalmente não comento os comentários do blog. Aliás, usualmente publico quase todos. Excetuando os mais grosseiros e os que não fazem sentido, ponho lá. Dessa vez, porém, tive de filtrar bem os comentários. E explico o motivo.
É que, como minha sábia esposa diz, as pessoas não leem o que a gente escreve. Leem o que elas querem ler. E aí saem dizendo que você falou uma coisa que, na verdade, obviamente, você nunca disse.
A mensagem que eu tenho a dar sobre o caso Carli é clara. O cara errou? Puna-se. Errou feio? Puna-se duramente. Ninguém pode, como tudo indica que ele fez, sair dirigindo embriagado, acima do limite de velocidade, sem carteira, bater o carro, se envolver na morte de duas pessoas e sair por aí como se nada tivesse acontecido.
Só continuo cobrindo política porque mantenho minha capacidade de saber o que é certo, o que é errado, e mantenho minha capacidade de me indignar com o que não presta. (Apesar de que, ao contrário do que muita gente pensa, acho que falar de política não é só falar mal, nem só escrachar os políticos.)
Resumindo, para quem não quis entender: quero que o Carli responda pelo que fez, sim.
O que não posso aceitar é que a gente veja a porcaria que dá quando ultrapassa os limites e continue fazendo coisas semelhantes.
Vários dos leitores fizeram comentários do gênero "não é a mesma coisa dirigir a 72 km/h ou a 160 km/h". Claro que não é. Assim como não é a mesma coisa roubar R$ 2 ou roubar R$ 2 milhões. Em todo caso, nas duas situações é um roubo.
Não posso tolerar que as pessoas achem "normal" cometer "pequenos desvios". "Ah, mas eu tinha bebido só duas latinhas", diz um. "Ah, mas eu estava só a 80. Não dá nada", diz outro.
Dá, sim. Desrespeito às regras dá no que deu com o deputado. Uma coisa leva à outra e logo estamos nos dando o direito de fazer o que queremos.
Temos dois caminhos pela frente. Ou nós aprendemos que só o respeito ao outro nos mantém civilizados (e nesse caso seguiremos as regras que nos impedem de virarmos bárbaros); ou viveremos num mundo em que cada um determina o que pode fazer (um mundo de Carlis. Alguém quer isso?).
São Tomás de Aquino dizia que a soberba é a origem de todos os males. Se eu me considero superior aos outros, acho que tenho direito a mais do que os outros. Assim se justifica o roubo. Assim se justifica o assassinato. Assim se justifica andar acima da velocidade, e sob efeito de álcool.
Podemos todos entrar nessa. É o que ocorre às vezes. É o que causa o caos em que vivemos às vezes.
Portanto, fica o recado. É claro que é necessário gritar para que Carli pague pelos seus erros. O que não podemos é fazer isso e continuar desrespeitando a lei e aos outros o tempo todo. Pois isso, sim, pode doer nos ouvidos, mas é mera hipocrisia.
Para mim, não há dúvida: o caso Carli é o julgamento do ano no Paraná. Mais do que isso: é um dos fatos políticos mais importantes da história recente do estado. É o fato que nos fará ter uma ou outra opinião sobre os nossos poderes daqui por diante, e por um bom tempo. E me explico em seguida.
Tivemos muitos julgamentos de políticos em tempos recentes. Gente acabou tirada de cargos importantes, casos de caixa dois explícitos foram arquivados, alguns foram punidos criminalmente. Mas nada se compara ao caso Carli.
É que no caso atual o político em questão (ou ex-político, ao que tudo indica) está sendo julgado por um crime comum. Mais do que isso: por um crime que poderia ter sido cometido por qualquer um de nós.
Para matar alguém no trânsito não é preciso ter acesso a verbas públicas, não é preciso ter lugar na Assembleia Legislativa, não é necessário ter poder de lobby junto às autoridades.
Basta ter um carro. Basta não respeitar a lei. Basta não ser cuidadoso. Basta um momento de irresposabilidade.
Quando vemos um político sendo julgado por desvio de verba, mensalão ou fraude, ficamos indignados e gritamos. Mas não sabemos se estamos sendo totalmente sinceros. Quantos, do outro lado da linha, não fariam o mesmo?
Agora, não. O que ele fez, muita gente faz. Quantos não passam nos semáforos fechados, achando isso uma infração menor? Quantos não acham a restrição de velocidade nas ruas uma "bobagem" e decidem por conta própria ultrapassar esse limite?
Carli está sendo julgado por algo que nossos amigos e conhecidos fazem, quando não nós mesmos. É bom que estejamos indignados, mas melhor ainda é que alguém decida botar a mão na consciência e ver que é preciso que a gente, eu e você, não faça o mesmo.
Não é o que parece acontecer. Assim que a Justiça cancelou o contrato entre a prefeitura e a Consilux (um julgamento daqueles que nos indignam por se tratar de um erro "deles") mais de 10 mil pessoas num único dia passaram acima da velocidade pelos pontos onde os radares foram desligados.
Esqueceram o que aconteceu no caso Carli? Acham que, por não serem políticos, seu crime de ultrapassar a velocidade é menor? Acham que se garantem, que a lei não é para gente esperta como eles?
O fato é que desrespeitaram a lei em benefício próprio. Exatamente como parecem fazer diariamente nossos mandatários.
Não somos diferentes deles. E é por acharmos que esses "pequenos desvios" são aceitáveis que acabamos aceitando os grandes. E reelegendo quem muitas vezes não merecia. Perdoamos seus erros porque perdoamos os nossos.
Está na hora de acabar com isso. Que o julgamento do Carli nos lembre disso.
Henry Milléo/Gazeta do Povo
O ex-deputado Carli Filho: só mais um de nós?Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Os empresários criaram há alguns anos o impostômetro, destinado a medir diariamente quanto do parco conteúdo de nossos bolsos vai parar nos cofres públicos. Os números são altos e frequentemente levam a interpretações simplistas, do tipo: “se não houvesse os impostos, tal coisa seria muito mais barata”. É verdade. Por outro lado, se não houvesse impostos não haveria estradas, polícia, escola pública ou posto de saúde. Em última análise, não haveria país.
De qualquer jeito, a crítica é válida: pagamos muitos impostos e muitas vezes não vemos o dinheiro retornar como benefício para a sociedade. A corrupção e o mau uso do dinheiro público aumentam nossa indignação com a carga tributária. (Em outros países, como a Suécia e a Dinamarca, onde há a real social-democracia, que não é a dos “sociais-democratas” daqui, a carga é muito maior. Mas o povo recebe tudo de volta em serviços e a vida, segundo o IDH, é melhor do que em qualquer outro lugar no mundo).
O real problema, portanto, não está no imposto, e não pode ser medido pelo impostômetro. Só saberíamos o tamanho do buraco se tivéssemos um “desviômetro”. Ou, também, o meu favorito, um “sonegômetro”. Pois, sim, a nossa tributação é alta. Mas, mais do que isso, é injusta. Pagamos muito porque há muita gente que paga pouco. Ou simplesmente não paga. (E nunca esqueço aqui a grita contra a CPMF. Eram só 0,38%. O Imposto de Renda chega a 27,5%. Por que exigiam o fim do tributo menor, e não o do maior? A resposta é simples. A CPMF não dava para sonegar. Por isso esta Gazeta agiu certo ao defender a contribuição em editorial.)
E neste início de ano tivemos uma bela surpresa: o sonegômetro sofreu um abalo, uma diminuição significativa. Pressionado pela Receita Federal e pela Justiça, o Itaú se tornou o primeiro banco a pagar o PIS/Cofins devido. Os bancos há muito tempo vêm tentando engazopar o cofre público. Dizem que intermediação financeira (o grosso da renda deles) não pode ser encaixado como serviço nem como venda de produtos. Portanto, não se sentiam obrigados a pagar PIS/Cofins.
Agora, o Itaú pagou. E para inteirar o que faltava teve de entregar à Receita Federal R$ 1 bilhão. Vejam bem: só um banco teve de pagar isso. Só pela fatia que não pagava de um único tributo. Espera-se que todos os outros façam o mesmo em breve. E esse dinheiro, na maior parte, irá para a seguridade social, explica Gilberto Amaral, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. “E os bancos não podem aumentar juros alegando prejuízo com esse tributo, porque já vinham tendo de provisionar (reservar) essa quantia, já que o caso estava sendo disputado na Justiça”, acrescenta.
Elio Gaspari disse que o pagamento bilionário acaba com a arrogância dos bancos. “Sem se dar conta de que presenteava a Receita com um argumento capaz de provar a arrogância dos banqueiros, num mês de 2008, um banco pagou R$ 2,65 de PIS e Cofins”, disse o comentarista. Se todos pagarem seus impostos, será possível usar o dinheiro na seguridade, que inclui saúde, assistência social e também previdência. “Não reduz o rombo da Previdência, já que a arrecadação ainda é menor que a despesa com o pagamento de benefícios”, ensina Amaral. Mas dá um tremendo alívio nas contas públicas. E talvez ajude a fazer um país mais justo, onde quem tem menos paga menos. E quem tem mais paga mais.
Zart

Fiquei assistindo ontem à noite ao Estado da União - o discurso anual que o presidente dos EUA faz para o Congresso, contando como vão as coisas na nação (do ponto de vista dele, é claro.
Assisti porque é sempre interessante, como aula de democracia (os aplausos, mesmo dos adversários, nos pontos que são de comum acordo do país). E, no caso de Obama, em particular, porque, ao contrário de muita gente, não canso de me admirar com a habilidade desse homem. Em especial com a habilidade retórica, mas não só essa.
E ontem ele usou esse dom para dizer, de um jeito muito mais inteligente, algo que eu sempre insisto em dizer. Então, vamos ao trecho (na tradução tosca que eu consigo fazer).

Mas o que frustra o povo americano é uma Washington em que todo dia é dia de eleição. Nós não podemos manter uma campanha perpétua em que o único objetivo é ver quem consegue as manchetes mais embaraçosas sobre o outro lado -- uma crença de que se você perder, eu ganho. Nenhum partido deveria atrasar ou obstruir todo e qualquer projeto simplesmente porque tem o poder para isso. A confirmação de (aplausos) -- eu estou falando de ambos os partidos agora. A confirmação de servidores públicos bem qualificados não deveria ser ficarmos reféns de alguns projetos queridos ou do mau humor de alguns poucos senadores.
Washington pode pensar que dizer qualquer coisa sobre o outro lado, não importa quão falsa, não importa quão maliciosa, é só parte do jogo. Mas é exatamente essa política que impediu ambos os partidos de ajudar o povo americano. Pior ainda, está criando divisões ainda mais profundas entre nossos cidadãos, desconfiança mais profunda em nossos governo.
Então, não, eu não vou desistir de tentar mudar o tom da nossa política. Eu sei que este é um ano de eleição. E depois da semana passada, ficou claro que a febre da campanha começou ainda mais cedo do que o usual. Mas nós ainda precisamos do governo.
(...) Só dizer não para tudo pode parecer uma boa política a curto prazo, mas não é liderança. Nós fomos mandados para cá para servir os nossos cidadãos, não as nossas ambições. Então vamos mostrar o povo americano que nós podemos fazer isso juntos. (Aplausos)
O Congresso hondurenho aprovou em meio às cerimônias de posse do novo presidente, Porfirio Lobo, uma anistia ampla, geral e irrestrita a todos os "envolvidos" com o golpe de Estado praticado por Roberto Micheletti.
Por um lado, a anistia libera de possíveis condenações o ex-presidente Manuel Zelaya, acusado por seus opositores de tentar tramar sua permanência no poder por meio de uma reeleição (o fato de que a reeleição era impossível, porque a Constituinte atuaria já sob o próximo presidente, passou despercebido por quem prefere chamar Zelaya de golpista).
Por outro, alivia para todos que contribuíram para o golpe de Estado que tirou Zelaya do poder. Todos os que instalaram um governo ilegal. Todos os que implantaram "medidas de exceção". Todos os que levaram o presidente de pijamas para fora das fronteiras nacionais. Todos os que se recusaram a assinar um pacto pela volta do presidente ainda durante seu mandato. Todos os que cercaram a embaixada brasileira durante a permanência de Zelaya.
A anistia é necessária para a paz no país, para a reconciliação. Ok. Mas é uma pena ver que os golpistas conseguiram o que queriam (tirarm um presidente eleito do poder, abusaram da lei de formas variadas, elegeram um oposicionista, impediram a volta de Zelaya ao país) e vão sair por aí como se nada tivesse acontecido.
No fundo, é impossível não achar, no mínimo, estranho.
Aliás, além da anistia, a Suprema Corte de Honduras já havia inocentado os militares que comandaram a operação da retirada de Zelaya.
A matéria da BBC sobre a absolvição mostra bem o que aconteceu:
O presidente da Corte Suprema de Honduras, Jorge Rivera Avilés, no entanto, não acatou as acusações do Ministério Publico contra os seis líderes das Forças Armadas, aceitando os argumentos da defesa, que dizia que, na ocasião, os líderes militares teriam informações de que existiriam estrangeiros armados que representavam um "perigo para a segurança interna do país".
O magistrado também aceitou o argumento usado pela defesa dos militares de que a expatriação de Zelaya na ocasião "se justificaria", devido "ao grande perigo que corria o país e para proteger os bens e as vidas de hondurenhos e estrangeiros residentes".
Segundo o juiz, os acusados reconhecem que praticaram os atos considerados ilegais pelo Ministério Público, mas, diante "da falta de dolo", não é possível penalizá-los por terem cometido delitos.
José Cruz/ABr
Vamos à segunda candidata do mês para o prêmio de desculpa esfarrapada. Depois de uma pérola de Londrina, vamos a uma do governador Roberto Requião.
Quando foi (opa! novamente ela) a Londrina esses dias, o governador reclamou de uma manifestação popular contra a nova estação de tratamento da cidade. Não só não aceitou os argumentos como arranjou uma desculpa para lá de esfarrapada.
Foi armação da imprensa local, disse.
O povo reclamava que o local não era bom e que haveria mau cheiro por lá. Requião usou até o argumento da autoridade, de que não se deve interromper um governador.
Hoje, a Justiça impediu a estação. E Requião se saiu com mais uma série de esfarrapices. Vejamos:
"O que se ve em Londrina e a judicializacao da administracao. Ruim p/ o PR,ruim p/ Londrina,ruim p/ o BRASIL."
A declaração, com todos os erros de digitação, está no twitter do governador. Requião contou hoje 3 mil seguidores do seu bloguinho. Foram 3 mil testemunhas dessa desculpa da "judicialização". Se fosse decisão judicial a favor, ele só contaria vantagem. Ora, bolas.
Uma das minhas preferências na cobertura de política é acompanhar desculpas esfarrapadas. Aliás, estou pensando em organizar um concurso mensal, aqui no blog, de melhor desculpa furada do mês. Postarei no dia 1.º de fevereiro, indicando as concorrentes.
Até aqui, uma das minhas favoritas no mês veio de Londrina. A prefeitura subiu a passagem do ônibus para R$ 2,25. O Ministério Público contestou na Justiça, alegando que a lei impede dois reajustes em um período de 12 meses.
O que fez a prefeitura? Respondeu dizendo que não houve dois reajustes. E, sim, um reajuste em duas etapas! Fantástico.
Hoje, a descula mudou. Registra o Jornal de Londrina:
“Na verdade, não existe reajuste em relação ao transporte urbano, mas uma revisão de preços”, disse à reportagem A advogada da Companhia Municipal de Transporte Urbano, Cristel Rodrigues Bared.
Como assim? Bem, ela explica. “O reajuste é vinculado à inflação, mas a revisão de preços não é vinculado exclusivamente à inflação. A revisão tem influências de outros fatores, como insumos”
Ah, bom. Agora o pessoal de Londrina vai pagar os R$ 2,25 mais tranquilo.
Gilberto Abelha/Jornal de Londrina
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Ano novo, vida nova. É o que dizem sempre a cada janeiro. Sempre desejamos o melhor e acreditamos que tudo será diferente no ano que começa. E, às vezes, é mesmo. Na nossa vida particular, principalmente, vale a pena o esforço e a crença de que tudo vai melhorar. Mas aí a gente olha em volta e vê que, em alguns lugares, nada muda. E tudo volta a ser o que sempre foi.
Neste janeiro, por exemplo, já vimos alguns dos nossos mais antigos problemas se repetirem. A penitenciária de Piraquara teve uma rebelião. Numa cadeia velhíssima e, ao que tudo indica, terrivelmente mal cuidada, conseguiram não só dominar o presídio como destruir todas as portas das celas. Morreram seis. Já vimos esse filme. Por quanto tempo continuaremos vendo?
A rebelião mostrou outros problemas clássicos do sistema penitenciário do estado. Superlotação, presos com acesso a telefones celulares, infiltração do crime organizado nas cadeias (que o governo até hoje negava existir). Nas delegacias, uma vistoria feita pelo sindicato dos policiais mostrou mais uma vez o que já sabíamos: até 150 presos para um policial que, ao invés de ir às ruas investigar, fica preso à função de carcereiro.
Nas ruas, também vimos mais do mesmo. As cidades alagam a cada chuva, sempre nos mesmos pontos. Em Curitiba, os bueiros sujos, a falta de manutenção, as casas que a prefeitura sempre promete tirar da beira dos rios, mas que continuam lá – tudo favorece os alagamentos. E, desde 2004, o pedido do Ministério Público para que sejam tomadas providências continua numa gaveta qualquer esperando que alguém se lembre dele. Nem isso muda.
Quem saiu da capital para ir às praias de novo encontrou os mesmos problemas. Faltou até luz, para o deleite do governador, que fez piadinha dizendo que os veranistas deveriam “curtir a escuridão com mais alegria”. Aliás, nem as piadinhas do governador mudaram com o ano novo. Nem as suas obsessões. Nos últimos dias, em seu novo brinquedo, o Twitter, decidiu mais uma vez colocar a culpa de tudo na imprensa – até a manifestação popular que enfrentou em Londrina foi “armação da imprensa local”.
É preciso ter paciência para começar o ano já sabendo tudo o que nossos governantes vão fazer e dizer. É preciso ter muita paciência para saber que além de tudo é ano eleitoral e teremos de aguentar as mesmas mentiras, os mesmos ataques pessoais, as mesmas vociferações contra a imprensa e contra as pesquisas durante vários e preciosos meses de nossas vidas. E tudo isso para, ao fim e ao cabo, escolhermos entre os mesmos que já nos governam há tanto tempo.
Nietzsche, o filósofo bávaro que ficou conhecido por dizer coisas que nós temos medo até mesmo de pensar, tinha uma ideia que o apavorava. Era o “eterno retorno”. Era o medo de que tudo se repetisse infinitamente (e inutilmente) sem nunca acabar, sem nunca mudar. Se tivéssemos de viver nossas vidas infinitas vezes, sem poder mudar nem um pedacinho delas, não ficaríamos exatamente muito felizes.
Por sorte, nossas vidas não são assim. Podemos mudá-las. O duro é que a parte que não depende da gente, que depende dos poderosos de plantão, às vezes lembra demais o pesadelo de Nietzsche. Torçamos para que o retorno, em todo caso, não seja eterno.
Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
PCE: presos se rebelam de novo. Eterno retorno?O Caminhos do Campo, caderno da Gazeta do Povo dedicado à área rural, deu uma notícia nesta semana que passou meio despercebida. A Bayer anunciou em evento nos Estados Unidos que o glifosato, herbicida que mantém a soja transgênica viável, não está dando conta das ervas daninhas.
No Brasil, 20% das lavouras de soja já não ficam livres do mato usando o produto. No Paraná, são 40%. E não dá para usar agrotóxicos convencionais na soja "RR" porque eles matam a soja junto.
Os técnicos dizem que isso não acaba com a soja da Monsanto. Nem com o glifosato. Mas dizem que o produtor terá, quem diria, um aumento de custos para se manter no mercado.
Hoje, segundo a expedição Safra RPC (uma coisa fantástica articulada pelo coordenador da área, Giovanni Ferreira), 64% da soja plantada hoje no Paraná é transgênica. Aumento de custo para toda essa gente.
A verdade é que embora muita gente tenha alertado que apostar em soja transgênica era fria, poucos agricultores deram ouvidos. Era mais barato, pagava bem...
Mas, claro, a transgenia tinha seus truques. E não estou nem falando das dúvidas sobre os efeitos da planta na saúde e no meio ambiente.
A RR é um monopólio. Quem compra fica na mão da Monsanto. Na mão do glifosato. E cria uma dependência incrível, jamais imaginada em outras plantações: a semente não pode ser tirada da plantação, então é preciso comprar mais todos os anos.
E dois em cada três agricultores paranaenses caíram nessa armadilha. Agora, começarão a pagar mais caro. E recebem menos, porque a soja convencional já paga mais no mercado internacional.
Ou seja: a parte ruim da transgenia (dependência, dúvidas sobre os efeitos de longo prazo) continuam. E o lado bom (economia, lucro maior) vai buraco abaixo.
Era fria mesmo. Pena que muita gente entrou nessa. E não foi por falta de aviso.
Jonathan Campos/Gazeta do Povo
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