Terça-feira, 09/02/2010
Da coluna Caixa Zero, publicada hoje, na Gazeta do Povo:
Conheci Woody Allen, Ingmar Bergman e Federico Fellini da mesma maneira. Paguei uns poucos trocados na porta de um cinema de rua mantido pela prefeitura de Curitiba, entrei numa sala (normalmente cheirando a mofo, é verdade) e assisti a grandes filmes. Filmes que mudaram a minha vida. E que mudaram a vida de muita gente que conheço.
Ontem, fecharam o Cine Luz. O Ritz foi para o espaço antes disso. O Groff e o Guarani, então, nem me lembro mais há quanto tempo estão fora do circuito. Dos cinco cinemas que a prefeitura mantinha na cidade, sobrou a Cinemateca. Que, aliás, é o último cinema de rua da cidade. De resto, só em shoppings. De resto, só salas comerciais.
Curitiba ficou conhecida país afora (e até fora do país) por uma ou outra ousadia urbanística. A transformação da Rua XV em lugar exclusivo para pedestres é o exemplo mais famoso. Manter salas de cinema para que todo mundo possa conhecer os filmes que os multiplex se recusam a passar, até porque não dão lucro, é uma atitude, do meu ponto de vista, tão revolucionária quanto fechar uma rua para carros. É manter os olhos da cidade abertos para o mundo.
Agora, isso está acabando. É uma pena. Sim, todas as salas tinham problemas de projeção, de som, de cadeiras pouco confortáveis. Mas a melhor solução não parece ser, não pode ser, simplesmente fechar e ficar anos à espera de uma possível reforma, de um futuro substituto. Há quantos anos se promete a reabertura do Guarani? Alguém acha que reinaugurar o Luz vai entrar na prioridade da atual administração? Será que sai mesmo da promessa?
É preciso ser justo: a gestão de Beto Richa trouxe avanços importantes para a área da cultura em Curitiba. A inauguração da Capela Santa Maria e a reabertura do Novelas Curitibanas são bons exemplos. A inclusão do critério de mérito nos editais para seleção de projetos a ser financiados é também uma excelente notícia (é inacreditável a quantidade de bobagens que já foram financiadas com dinheiro público antes disso).
Até mesmo a criticada decisão de acabar com a modalidade do mecenato para financiamento de projetos é uma sábia escolha. Até aqui, havia duas possibilidades na Lei do Incentivo municipal. Numa, o município dava dinheiro de um fundo, que reúne 1% do dinheiro de ISS da cidade. Justo. No outro, a prefeitura abre mão do mesmo ISS. Só que quem leva a fama é a empresa que, ao invés de pagar o imposto, destina o recurso para o projeto. Transferir tudo para o fundo elimina o vexame dos artistas de passarem de pires nas mãos nas empresas, e dá crédito a quem merece.
Mas a demora em reabrir espaços importantes é um problema grave nessa gestão. Certo, todo mundo sabe que cultura nunca foi a prioridade de nossos governantes. O orçamento é curto, é preciso dar conta de tanta coisa importante que uma sala de cinema pode parecer uma bobagem. Mas não é. Conheço dezenas de pessoas que se formaram em universidade pública, conheceram o melhor do mundo em bibliotecas gratuitas, frequentaram sebos e teatro subsidiado. Boa parte de nossos jornalistas, escritores, professores universitários aprendeu a pensar assim.
O fechamento de mais um cinema de rua, ainda mais especializado em bons filmes, nos deixa um pouco mais provincianos. Eu, pessoalmente, nunca vou me esquecer do dia em que entrei pela primeira vez no Luz, para ver A Era do Rádio. Se fosse hoje, talvez o filme nem entrasse em cartaz por aqui. Vida longa à Cinemateca. É o que nos restou.
R.I.P. Luz... Vou sentir muitas saudades dos filmes "estranhos" (segundo meus amigos) que assisti lá... O Luz é tão especial para mim que foi durante a exibição de um filme lá (Frida) que me emocionei, não só pela história, mas havia entendido tudo sem ler as legendas... lembro como se fosse hoje, todo mundo inchado de chorar e eu com um sorrisão... eu havia conseguido "escutar" o filme!!! Uma pena... mesmo!
Denise | 16/11/2009 | 11:00O quê??? Não estava sabendo que fecharam o Cine Luz e fiquei chocada. Também assisti ali grandes filmes, que também mudaram a minha vida. Fiquei realmente triste com esta notícia. Muitos filmes que passaram por ali sequer existem nas locadoras daqui. Agora ficou mais difícil o acesso. Triste... mil vezes triste.
Daniel | 15/11/2009 | 22:56é uma pena. que absurdo provinciano. a cidade que é chamada de capital de tudo que é coisa não tem um cinema independente. sob meu ponto de vista, o pior de tudo, é ter de recorrer a "shoppings" para apreciar a sétima arte, pagando um preço absurdo que gira em torno dos quinze reais. nao sei quem tomou essa decisão, o certo é que são um bando de cabeça de camarão!
Francisco | 15/11/2009 | 17:49só me resta, realmente, as sessões quinzenais do Contra-mão.
PEDRO GIRARDI | 15/11/2009 | 10:06EU LEMBRO BEM NOS ANOS 60 EU TINHA 11 ANOS DE IDADE E MORAVA EM PASSO FUNDO RIO GRANDE DO SUL,,,E NA ÉPOCA ÉRA RARO UM CINEMA,E MESMO POR QUE NÃO PODIAMOS PAGAR INGRESSO,,TINHA UM PROJETO DO SENAC...OOU SENAI...QUE LEVAVA CINEMA AOS BAIRROS AO AR LIVRE NOS SABÁDOS Á NOITE APÓS 19H,,,TERMINAVAMOS NOSSAS TAREFAS, JANTAVAMOS, TOMAVA BANHO SE ARRUMAVA PARA O GRANDE EVENTO,,,,INCLUSIVE PASSAVA CREME GLOSTORA NO CABELO PARA FIXAR (POIS VENTAVA MUITO NA REGIÃO)E LÁ IAMOS TODA Á FAMILIA ASSISTIR UM FIL
Fabiano | 14/11/2009 | 22:55Segundo li, o cine Luz e o Ritz serão realocados na rua Riachuelo após a reforma em espaço renovado.
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