Terça-feira, 22/05/2012
Xingu, épico de Cao Hamburguer sobre os irmãos Villas-Boas, é um dos fracassos do cinema nacional neste ano.Em 2012, a situação na melhorou:grandes lançamentos, como Xingu, de Cao Hamburguer, e Paraísos Artificiais, também naufragaram retumbantemente no nosso circuito.
Assim como Curitiba, Porto Alegre, onde o market share correspondente à produção nacional foi de 10,3%, também não teve nenhum longa brasileiro entre as dez maiores bilheterias no período. O diretor do Filme B, Paulo Sérgio Almeida, não acredita que haja exatamente um preconceito contra o cinema nacional no sul do Brasil, mas é fato que as produções feitas no país têm um desempenho pior na região. Em 2011, filmes brasileiros responderam por 14% do mercado, atingindo médias ainda maiores em cidades como Recife (19,5%), Salvador (19%), Rio de Janeiro (17,3%), Belo Horizonte (15,6) e Manaus (14,5%).
Embora não exista uma razão que explique o comportamento do público em Curitiba ou na capital gaúcha, há algumas hipóteses. A primeira delas, diz Almeida, está relacionada ao perfil dos filmes brasileiros mais vistos neste ano: De Pernas pro Ar, Cilada.com, Bruna Surfistinha, Assalto ao Banco Central e Qualquer Gato Vira-lata. Todos são produções que contam com copatrocínio, utilizado no lançamento e na divulgação, da Globo Filmes, e têm forte sotaque carioca, com o qual o público, tanto em Curitiba quanto em Porto Alegre, teria menor idetificação, afirma Almeida. “Sem falar que De Pernas pro Ar e Cilada.com são filmes muito escrachados, com um tipo de humor que eu acho que não cola aí no Sul.”
Para se ter uma ideia, Cilada.com, apesar de ser o brasileiro mais assistido do ano em Curitiba, teve, na capital paranaense, o menor público entre todas as cidades pesquisadas.
Mas há outros motivos que dificultam as carreiras dos longas brasileiros no Sul. Há, conta o diretor da Filme B, um consenso entre produtores e distribuidores de que Curitiba e Porto Alegre não são boas praças para o cinema nacional. Portanto, os filmes costumam demorar mais para serem lançados e não há tanto investimento na divulgação das produções. “Aqui no Rio, em São Paulo, e mesmo no Nordeste, os diretores e o elenco vão às universidade, às escolas, fazem um corpo a corpo com a comunidade. No Rio Grande do Sul, o Festival de Gramado já teve esse papel, mas não tem mais.”
Assim, cria-se uma espécie de círculo vicioso. Como o público é menor, investe-se menos no lançamento. E, se há uma divulgação mais tímida, a bilheteria é menor. “Quem teria de mudar esse quadro são os filmes, os produtores e distribuidores. Há mercado, mas é preciso investimento na formação de plateia”, afirma Almeida.
Filmes para a família
O mercado curitibano de cinema é um tanto paradoxal. A cidade teve em 2011 a quinta maior renda, entre as grandes cidades brasileiras, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. E conta com um circuito bastante robusto: tem cerca de 15 mil assentos distribuídos em 70 salas de exibição espalhadas pela cidade.
Por outro lado, esse público de quase 4,3 milhões acumulados até a penúltima semana de dezembro, segundo dados da Filme B, parece concentrar seu interesse, primordialmente, em blockbusters, em filmes voltados para a família, crianças e adolescentes. “Detectamos em nossas pesquisas um desinteresse acentuado por filmes de arte em Curitiba, por exemplo.”
Com o fechamento, ao longo dos últimos anos, de cinemas que focavam sua programação nesse tipo de cinema, como o Groff, o Ritz e o Luz, todas salas administradas pela Fundação Cultural de Curitiba, o hábito de assistir a títulos mais autorais parece ter desaparecido em certa medida. “Essa é uma cultura que Curitiba tinha e parece ter se perdido”, diz Almeida.
Além da Cinemateca, apenas o Espaço Itaú de Cinema e o Cineplex Batel abrem algum espaço para essas produções, mas essas salas não chegam a corresponder a 10% do mercado exibidor local, já que nem todas só exibem filmes mais alternativos.
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Será que o filme merece esse sucesso todo?
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O filme Sangue do meu Sangue, de João Canijo está no festival.Clara Gouveia
Breno Silveira: seu À Beira do Caminho foi o grande campeão da noite em Olinda.Pelo jeito, para ganhar prêmios no Cine PE, que se encerrou ontem em Olinda,a estratégia é ter problemas de projeção na sessão oficial. À Beira do Caminho, grande vencedor do festival (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante), e Boca, que ganhou em categorias importantes, como melhor direção e atriz (a recifense Hermila Guedes), enfrentaram esses percalços e acabaram sendo compensados pelo júri.
À Beira do Caminho, de Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco), foi exibido com sérios problemas de som na noite de abertura da mostra competitiva e foi reexibido dias depois. Conta a história de um caminhoneiro (João Miguel, melhor ator), que após sofrer um grande trauma em seu passado, cai na estrada sem olhar para trás. Tudo muda quando cruza seu caminho um garoto (Vinicius Nascimento, melhor ator coadjuvante) que acaba de perder a mãe e está a caminho de são Paulo, onde quer encontrar o pai que nunca conhceu.
Contruída em torno de canções de Roberto Carlos, a narrativa do filme peca pela obviedade do roteiro, que busca a todo custo emocionar o público com situações previsíveis e clichês, pontuada por frases de caminhão. Salvam-se a bela fotografia de Lula Carvalho, premiado por Paraísos Artificiais, e a participação breve, porém marcante, de Dira Paes.
O irregular Boca, de Flávio Frederico (melhor direção), teve seus rolos trocados, a sessão teve de ser interrompida e cancelada, no último domingo, e acabou sendo exibido na terça-feira. Conta a trajetória de Hiroito Joanides (Daniel Oliveira), que foi o rei do crime organizado na região da Boca do Lixo no centro de São Paulo, entre os anos 50 e 60.
Estradeiros, melhor filme segundo a crítica, não ganhou qualquer prêmio do júri. Estranho, não? A decisão do júri parece ter sido política, para apaziguar ânimos.
A boa notícia foi o Prêmio Especial do Júri concedido ao curta-metragem paranaense A Fábrica, de Aly Muritiba. Mais um troféu para a coleção já amealhada pelo filme.
Leia abaixo a lista oficial dos premiados:
OS VENCEDORES DO 16º CINE PE
MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS
Melhor Filme: “À Beira do Caminho”, de Breno Silveira
Direção: Flávio Frederico (Boca)
Ator: João Miguel (À Beira do Caminho)
Atriz: Hermila Guedes (Boca)
Atriz Coadjuvante: Divana Brandão (Paraísos Artificiais)
Ator Coadjuvante: Vinícius Nascimento (À Beira do Caminho)
Roteiro: Patrícia Andrade (À Beira do Caminho)
Fotografia: Lula Carvalho (Paraísos Artificiais)
Montagem: Quito Ribeiro (Paraísos Artificiais)
Trilha Sonora: BiD (Boca)
Direção de Arte: Alberto Grimaldi (Boca)
Edição de Som: Alessandro Laroca, Eduardo Virmond Lima, Armando Torres Jr. (Paraísos Artificiais)
Prêmio Especial do Júri Oficial: ao compositor e músico Jorge Mautner (“Jorge Mautner - O Filho do Holocausto”, de Pedro Bial e Heitor D´Alincourt)
Melhor Filme do Júri Popular: “À Beira do Caminho”
Prêmio da Crítica - “Estradeiros”, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro
Troféu Gilberto Freyre (honraria especial destinada à produção de longa-metragem que melhor expresse a valorização da identidade nacional): “À Beira do Caminho”.
MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS
Melhor Filme: “Até a Vista”, de Jorge Furtado
Direção: Thais Fujinaga (L)
Roteiro: Jorge Furtado (Até a Vista)
Fotografia: André Luiz de Luiz (L)
Montagem: Bruno Bini (Depois da Queda)
Edição de Som: Pablo Lamar (Dia Estrelado)
Trilha Sonora: Everton Rodrigues (Até a Vista)
Direção de Arte: Amanda Ferreira (L)
Ator: Felipe de Paula (Até a Vista)
Atriz: Sofia Ferreira (L)
Melhor Filme do Júri Popular: “Depois da Queda”, de Bruno Bini
Prêmio da Crítica: “Isso Não é o Fim”, de João Gabriel
Prêmio Especial do Júri Oficial: “A Fábrica”, de Aly Muritiba
Prêmio Aquisição do Canal Brasil (no valor de R$ 15 mil para o melhor curta-metragem escolhido por júri composto por jornalistas e críticos de cinema): “Di Melo – O Imorrível”, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro
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Fernando Meirelles recebe homenagem no Cine PE: decepção com Xingu.Em decorrência desse fraco desempenho, Meirelles, que pretendia filmar uma adaptação de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, depois de seu próximo filme, Nêmesis, disse que deve engavetar o roteiro de Braulio Mantovani (de Cidade de Deus). Segundo ele, o público brasileiro não estaria interessado nesse tipo de histórias.
O que você acha disso?
Divulgãção
Cena de Las Acacias, selecionado para o festival Olhar de Cinema.JURI
JÚRI
Competitiva Janela Internacional
Andrea Tonacci
Nasceu em Roma, Itália. Em 1953 a família transfere-se para São Paulo, onde reside até hoje. Dirigiu e fotografou curtas e médias metragens até 1970 quando realizou o clássico “Bang Bang”. Foi pioneiro na utilização de equipamento de vídeo portátil no Brasil e, entre 1977 e 1984, realiza ampla documentação de culturas indígenas das Américas. Profissionalmente produz, escreve, dirige e fotografa documentários, ficções e institucionais. É pesquisador de linguagem áudio-visual e atualmente dirige a Extrema.
Eloisa Solaas
Formada em Desenho de Imagem e Som (Univerdade de Buenos Aires), Eloísa Solaas colaborou na realização de filmes, desde o desenvolvimento do roteiro, como assistente de direção. Desde 2001 é parte da equipe de produção artística do festival BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente), e desde 2007 é membro do comitê de seleção e programação do mesmo festival. Também é professora de teorias do cinema em diversas faculdades de cinema de Buenos Aires.
Jose Luis Torres Leiva
Realizador chileno com importantes curta metragens e vídeos independentes, tais como “Ningún lugar en ninguna parte” (2004), “Obreras saliendo de la fábrica” (2005), “Trance” (2009), dentre outros com os quais participou de vários festivais internacionais. “O Céu, a terra e a chuva”, seu primeiro longa metragem de ficção, estreou no festival de Rotterdam de 2008, onde foi agraciado com o prêmio FIPRESCI. Seu segundo longa metragem, “Verano”, estreou na seção “Orizzonti” do Festival de Veneza.
JÚRI
Competitiva Olhares Brasil
Fernando Severo
Graduado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda (UFPR) e pós-graduado em Comunicação e Cultura (UTFPR). Ganhou mais de 60 prêmios como diretor de curtas, médias e longas metragem, roteirista e montador, Realizador de filmes de longa, curta e média-metragem como diretor, roteirista e montador, tornando-se um dos mais importantes cineastas paranaenses. Ele também é professor de cinema na FAP e na PUCPR. Desde 2011 ele é o diretor do Museu da Imagem e Som do Paraná.
Leonardo Cata Preta
Leonardo Cata Preta tem 36 anos, é profissional Independente de Cinema e Vídeo, Animador, Ilustrador, Designer e Artista Plástico. O filme Moradores do 304, foi o marco inicial de sua atuação cinematográfica, tendo recebido vários prêmios. Em 2009 produziu o Vídeo Clip Calango na Cidade, do músico Bilora. O Céu no andar de baixo, seu último trabalho como diretor, foi exibido em diversos festivais e mostras nacionais e internacionais e recebeu mais de 30 prêmios em apenas um ano. Atualmente está produzindo seu primeiro curta em live action (Até que não haja mais lugar) e também atua como diretor de arte no primeiro longa mineiro de animação (Nimuendaju).
Lina Chamie
Graduada e mestre em música e filosofia pela Universidade de Nova Iorque, trabalhou durante dez anos no departamento de cinema da universidade. Seu segundo longa metragem, A via láctea, estreou mundialmente na Semana da Crítica, em Cannes, e foi exibido em diversos festivais nacionais e internacionais. Além disso, ela foi professora de cinema na UFSCar e na FAP.

Raul Seixas – O Começo, o Fim e o Meio não vai decepcionar os fervorosos fãs do cantor e compositor baiano, um dos maiores ícones do rock nacional. Mas, ironicamente, o grande acerto do documentário de Walter Carvalho é o de não ter sido feito para eles. O diretor preferiu contrariar a frase de um dos principais, e mais polêmicos, entrevistados do filme, o escritor Paulo Coelho, para quem uma figura das dimensões do roqueiro não teria uma história, e sim uma lenda.
A opção de Carvalho é por problematizar o mito, buscando sua essência mais humana, não para necessariamente desconstrui-lo, mas para dar-lhe complexidade.
Lançado em 23 de março, Raul Seixas – O Começo, o Fim e o Meio já pode ser considerado um sucesso de bilheteria: depois de ter levado 26 mil espectadores aos cinemas no primeiro fim de semana de exibição, vem mantendo ótima média de público, um feito e tanto para um documentário. Esse êxito é mais do que merecido.
Para construir sua narrativa, Carvalho ouviu em torno de 70 fontes, de amigos de infância de Raul na Bahia ao porteiro do edifício onde o cantor deu seu último suspiro no dia 21 de agosto de 1989, aos 44 anos. Também estão no filme suas mulheres, filhas, o único irmão, a mãe, parceiros, amigos e fãs, além de críticos e jornalistas que o entrevistaram.
O diretor e sua equipe incorporaram ao documentário fotos, registros de shows, apresentações em programas de tevê, videoclipes, filmes, entrevistas, além de fotos e documentação em áudio. Ouvimos, por exemplo, a voz de Raulzito, ainda menino, cantando em inglês, já anunciando, em textos rabiscados nos cadernos escolares, que queria ser artista, brilhar no mundo.
Mas essa apuração detalhada não tem como meta uma precisão biográfica científica, mas a costura de um retrato multidimensional, que confirma a genialidade do artista e também a fragilidade do homem por trás de sua excêntrica e provocativa persona pública. O resultado, memorável, comove, faz rir, emociona e encanta em vários momentos. É uma aula de História Cultural do Brasil.
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O documentário Raul Seixas - O Início,o Fim e o Meio permanece inédito em Curitiba.Dois títulos nacionais, que mereceram destaque na imprensa nacional nas últimas semanas, permanecem inéditos na capital paranaense. Curiosamente, ambos os filmes falam de personagens importantes da história do país: Heleno, de José Henrique Fonseca, sobre o jogador de futebol Heleno de Freitas; e Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, que busca desvendar a trajetória do roqueiro baiano.
Atormentado
Estrelado por Rodrigo Santoro, Heleno conta, em preto e branco, a trágica história do atacante Heleno de Freitas, craque do Botafogo e do Vasco que tinha o apelido de “Gilda”, por conta de seu temperamento instável, semelhante ao da personagem da atriz norte-americana Rita Hayworth no filme clássico de Charles Vidor, realizado em 1946.
O longa de Fonseca, em cartaz no país desde 30 de março, em 60 salas, acompanha a vida do atacante nos anos 1940 e 1950, quando ele sonhava defender o Brasil em uma Copa do Mundo. No entanto, a Segunda Guerra Mundial fez com que os campeonatos de 1942 e 1946 fossem cancelados. No Campeonato Mundial de 1950, realizado no Brasil, Heleno estava em declínio e não foi convocado.
Mulherengo e boêmio, Heleno de Freitas ficou conhecido por ser irascível e pela falta de espírito de equipe. Em 1948, foi vendido para o time argentino Boca Juniors, na maior transação do futebol brasileiro registrada até então. Na década seguinte, foi internado como louco em um sanatório em Barbacena (MG), em decorrência de uma sífilis que não havia sido curada, e lá morreu.
A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato, por telefone, com a assessoria de imprensa da produção de Heleno, no Rio de Janeiro, e foi informada que o filme deve ser lançado em Curitiba, mas ainda não foi definida a data de estreia na cidade.
Há alguns indícios fortes que sustentam a hipótese de que esse atraso tem a ver com o fato de a capital do Paraná ser considerada um mercado ruim para produções brasileiras. A partir de dados coletados entre 1.º de janeiro e 31 de setembro de 2011 em dez cidades brasileiras, o site Filme B, o mais completo portal sobre o mercado cinematográfico do país, constatou que filmes nacionais respondem por apenas 8,9% da audiência curitibana, a menor média entre as praças analisadas, e nenhum dos longas-metragens brasileiros ficou entre os dez mais vistos na capital paranaense.
Esperança
Mas nem todas as notícias são ruins. O documentário Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio, que fez 83 mil espectadores até o fim de semana passado no país, um ótimo público para o gênero, deve estrear em Curitiba nos dias 20 ou 27 de abril, segundo previsões de sua assessoria.
O filme de Walter Carvalho, que estreou em 23 de março, é considerado um sucesso: em exibição em apenas 36 salas no país, manteve uma ótima média de 421 espectadores por sessão, superior à de Xingu (393), superprodução de Cao Hamburguer que estreou em 6 de abril, com um total de 77 mil ingressos vendidos, número bem abaixo do esperado.
Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio, premiado na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, desvenda diversas facetas de Raul, como as parcerias com Paulo Coelho, seus casamentos, a fase do sucesso e o impacto de suas composições sobre gerações de fãs.
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Mia Wasikowskabrilha como a protagonista do filme.A trama é, basicamente, a mesma do romance publicado em 1847. Jane, que no romance conta a própria história, é órfã de pai e mãe e vive na casa de uma tia (Sally Hawkins, de Simplesmente Feliz) que, por alguma razão, a hostiliza e humilha o tempo todo. Quando o relacionamento entre as duas se torna intolerável, Jane é expulsa de casa e enviada a uma escola, onde descobre o prazer da leitura e, aos poucos, conquista um pouco de autoestima. Depois de se formar e trabalhar por dois anos como professora, ela decide, enfim, retornar ao mundo.
Acaba sendo contratada como preceptora da jovem Adèle, a pupila de Edward Rochester (Michael Fassbender, de Shame), proprietário de uma grande residência rural no interior da Inglaterra, chamada Thornfield Hall. Arredio e misterioso, Rochester parece, em princípio, refratário à presença de Jane, mas acaba se rendendo à sua beleza tímida e a sua personalidade capaz de se impor ainda que com serenidade.
Um segredo no passado de Rochester impede que ele e Jane se unam e ela resolve fugir, se expondo a todo tipo de dificuldades, como o frio e a fome, até encontrar refúgio na casa de St John Rivers (Jamie Bell, o garoto, agora crescido, de Billy Elliot), de quem descobrirá ser aparentada e que se apaixonará por ela.
Heroína arquetípica da literatura da época, mais assertiva e potente que Catherine Earnshaw, protagonista de O Morro dos Ventos Uivantes, outro clássico do período, assinado por Emily Brontë, irmã de Charlotte, Jane se alinha mais às personagens femininas de Jane Austen, mais do início do século 19, ainda que essas sejam menos dramáticas. Mas também é uma jovem que busca escrever o próprio destino.
O que diferencia este Jane Eyre, dirigido pelo norte-americano Cary Fukunaga (do ótimo Sin Nombre), é o ótimo roteiro de Moira Buffine (de O Retorno de Tamara), que rompe a linearidade cronológica da história original, o que lhe acrescenta uma dose generosa de suspense, ainda que seja uma trama célebre, de domínio público. Outros trunfos são a bela direção de fotografia do brasileiro Adriano Goldman (de Xingu, que estreia na sexta-feira, e 360, novo filme de Fernando Meirelles), que reconstitui o clima de bruma e sombras do romance, e os figurinos de Michael O’Connor (de A Duquesa), indicados ao Oscar deste ano.
Além disso, Mia e Fassbender têm química perfeita, dando a Jane Eyre uma certa (e bem-vinda) dose de erotismo, ausente na maioria das versões anteriores.
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Divulgãção
A espacialidade tem papel fundamental no filme em 3d de Wim Wenders.“Seja um pouco mais louco” ou “Supreenda-me” são alguns dos conselhos que Pina costumava dar a seus bailarinos, que são ao mesmo tempo personagens e atores no comovente espetáculo audiovisual regido pelo diretor de Asas do Desejo (1997). Em alemão, russo, inglês, francês, português, espanhol ou japonês, entre outros idiomas, eles contam, muitas vezes em depoimentos sobrepostos a suas próprias imagens em silêncio, sobre o impacto transformador de terem convivido e compartilhado experiências criativas com Pina, para quem o trabalho era uma obsessão, um vício.
Faz sentido que, ao embarcar no Tanztheater, nome da companhia da coreógrafa, eles estivessem assinando um contrato que também previa profundos mergulhos existenciais. Uma das fundadoras de uma vertente da dança que dialoga intensamente com outras manifestações das artes cênicas, Pina queria mais do que pensar o movimento: buscava conhecer as motivações que o desencadeiam, para talvez, em certa medida, compreendê-las.
Por conta dessa busca pelo por vezes imponderável por trás do gesto, é totalmente justificável que Wenders tenha optado por realizar Pina em 3D. Afinal, é uma obra tridimensional em todos os sentidos. O recurso, que muitas vezes tem sido usado por mero exibicionismo tecnológico, pouco ou nada acrescentando aos filmes, aqui se revela essencial: capta, em detalhes, desde feixes de músculos que se movem a cada gesto até a respiração que acompanha expressões faciais, tão importantes ao conjunto da obra quanto saltos, quedas e contorções que tanto expressam por meio do corpo.
Também em decorrência do uso muito inteligente do 3D, o espectador se dá conta da importância da espacialidade no trabalho de Pina Bausch. Como seu foco sempre foi o humano, mas jamais o desvinculando do mundo, o entorno das coreografias é fundamental. Seja em palcos tradicionais, à beira de piscinas ou cânions, nas calçadas das ruas ou no algo surreal bonde suspenso de Wuppertal, cidade-sede do Tanztheater, os números de dança presentes no filme falam tanto das pessoas quanto do que as cercam. E a profundide de campo possibilitada pela tridimensionalidade nos permite estar mais próximos do que está na tela – e em vários sentidos.
Wenders, buscando escapar do acadêmico, do previsível, faz questão de trazer para o filme algumas das obras-primas de Pina, que só aparece em imagens documentais, cigarro em riste, sempre soberana como um espírito que paira e permeia o filme, sem se impor como protagonista. Está lá o Café Müller, obra magistral sobre solidão, incomunicabilidade e amor, dançada entre cadeiras ao som da música do compositor barroco Henry Purcell (1659-1695). Também aparece no documentário a desconcertante e ousada versão do Tanztheater para A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1882-1971), coreografada em 1913 por Vaslav Nijinsky. Mas nenhuma das peças surge inteira, linearmente, porque o intento do diretor alemão é transcender o registro e usar a criação como parte orgânica de um discurso sobre a criadora, sem defini-la, classificá-la.
Por fim, o que Pina revela de mais importante em sua estrutura fragmentada, pelo menos para mim, é o espírito libertário da artista. Avessa a fronteiras de qualquer ordem, tinha em sua companhia bailarinos de todo o mundo – que dão seus depoimentos no idioma que preferem – e das mais diversas faixas etárias. Uma das integrantes conta que Pina a fez descobrir a beleza e as muitas possibilidades de seu corpo de mais de 40 anos. E é um homem maduro, com o belo rosto marcado pelo tempo, que executa uma coreografia minimalista, porém muito expressiva, ao som da voz macia de Caetano Veloso, que canta “O Leãozinho”.
Outra bailarina, um pouco mais jovem, negra e brasileira, diz à câmera que sua forma de prestar tributo a Pina foi tentando materializar o intangível frente a sua ausência: a leveza, que ganha corpo e movimento em saltos, quase voos, entre cadeiras (elas de novo!) que tombam enquanto o corpo e seus movimentos triunfam em um momento de indiscritível beleza. Um entre tantos.
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