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Sábado, 04/02/2012

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Certas Palavras

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06/12/2009 às 22:54


Valterci Santos/Gazeta do Povo

Valterci Santos/Gazeta do Povo / Campo de guerra: o Couto Pereira virou palco para um espetáculo de violência.Campo de guerra: o Couto Pereira virou palco para um espetáculo de violência.
Muito se tem questionado sobre a contribuição dos esportes profissionais para a sociedade. O futebol, paixão de uma grande parcela da população mundial, poderia dar o bom exemplo, mas a cada ano as decepções são maiores.
Quem, com tranquilidade, levaria a sua família a um estádio? Ir aos jogos causa o mesmo medo que se tem de ser assaltado ou assassinado ao sair nas ruas.

O jogo do Coritiba com o Fluminense mostra que para muitos seres humanos o bom senso e a paz não têm nenhum significado. No esporte, a derrota deve ser encarada com tanta naturalidade como a vitória. Podemos ficar tristes, chorar, berrar e protestar pacificamente. O que não pode é a barbárie.

Os desesperados torcedores do Coxa deram um mau exemplo. Não há justificativa para a violência registrada no Couto Pereira. O quebra-quebra e as agressões não vão mudar o resultado do jogo. Só vão piorar a situação do clube e do futebol paranaense.


 /
A socióloga Heloisa Reis, professora da Unicamp, fez um interessante estudo sobre a relação futebol x violência. Autora de um livro que analisa a reação dos torcedores, ela constatou que em alguns países em que a violência nos dias de jogos de futebol era um problema grave, houve alterações nas leis para punir exemplarmente os causadores de episódios de tumulto. Além disso, foram realizadas melhorias nas condições dos estádios para que o público pudesse desfrutar daquele momento da melhor maneira possível. Com isso, a própria população passou a enxergar o futebol de forma diferente, e a modalidade ganhou status de grande evento.

A socióloga defende uma série de medidas para diminuir a violência no futebol, entre elas a aprovação de uma legislação específica e a formação de policiais especializados em prevenção de confusões em eventos de massa.

Veja algumas propostas defendidas por Heloisa Reis:

- As autoridades governamentais responsáveis pela Comissão Nacional para a Segurança e a prevenção da violência nos espetáculos esportivos – nomeiem um grupo capacitado para geri-la, além de dar suporte para o trabalho da mesma.

- Apoiar as pesquisas sobre o tema, tanto as acadêmicas quanto as policiais. Investir em treinamento e equipamentos para a formação de policias especializados na prevenção da violência em eventos de massa.

- Incentivar e sensibilizar os deputados e senadores na aprovação de uma lei específica para atos de violência em eventos esportivos.

- Fiscalizar o cumprimento do Estatuto do Torcedor. Apoiar e sensibilizar o Congresso Nacional na aprovação do novo projeto de lei que propõe alterações para o Estatuto do Torcedor.

- Acabar com a impunidade.

- Punir os dirigentes, técnicos, jogadores, policiais, jornalistas e espectadores que provocarem (vierem a provocar) tumulto ou derem declarações à imprensa que possa incentivar a violência e a rivalidade entre os espectadores (torcedores).

- Coibir os excessos dos agentes de segurança pública com constante avaliação de suas atuações.

- Abrir um canal de denúncias anônimas sobre os abusos cometidos por policiais em eventos esportivos.

Quem sabe um dia poderemos ir aos estádios com a certeza de que voltaremos para casa sem presenciar ou ser vítima de nenhum ato de violência.

01/12/2009 às 21:48


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Divulgação / Cena da viagem da família de Lula, em pau-de-arara, do sertão nordestino para São Paulo.Cena da viagem da família de Lula, em pau-de-arara, do sertão nordestino para São Paulo.
Desde o pré-lançamento de Lula, o filho do Brasil no Festival de Cinema de Brasília, uma chuva de críticas inundou os jornais e revistas. Há entre os detratores do filme os que consideram a obra um disparate por se tratar da história de um presidente que está em pleno mandato. Classificam esse tipo de cinebiografia como propaganda política e acusam o produtor Luiz Carlos Barreto de querer criar um mito vivo.

A jornalista e escritora Denise Paraná, autora da biografia de Lula, diz que o filme é uma cópia fiel de seu livro. A obra da jornalista ficou conhecida em 2003, depois da eleição de Lula para a Presidência da República. Mas bem antes disso, em 1996, eu já conhecia o livro. Se o filme é fiel ao livro, tem tudo para não ser uma propaganda política, como querem muitos críticos.

Pode ser exagero condenar a obra só porque o personagem principal representa o presidente de um país em pleno exercício do mandato. 2 Filhos de Francisco, que narra a história da dupla Zezé di Camargo e Luciano, teve grande sucesso de público e nem por isso foi considerado uma tentativa de transformar os dois músicos de Goiás em mitos vivos.

Assim como a história de Zé di Camargo e Luciano, a biografia de Lula é interessante e ponto final. Aí está o motivo por surgirem livros, filmes, documentários e outras produções. É natural que isso ocorra. Nos Estados Unidos, após a eleição de Obama pipocaram publicações para todos os gostos sobre a vida do primeiro presidente negro do país. E já estão falando em transformar a biografia do menino criado no Havaí em uma megaprodução de Hollywood.

Se até a ex-governadora Alasca Sarah Palin, candidata republicana derrotada à vice-presidência dos EUA, publicou sua biografia e fez grande sucesso, por que a história de Lula não pode virar filme? Só porque ele é filho de retirantes nordestinos? Quem não gosta do presidente não precisa ir ao cinema.

Veja trailer do filme Lula, o filho do Brasil no endereço www.lulaofilhodobrasil.com.br

Em tempo: O Serra, governador de São Paulo, é um bom personagem para filme. Tem uma história de vida interessante: foi líder estudantil, lutou contra a ditadura militar e passou anos no exílio; voltou para o Brasil e deu a volta por cima.

30/11/2009 às 23:41


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Divulgação / Cartaz da campanha contra a construção de minaretes na Suíça. Cartaz da campanha contra a construção de minaretes na Suíça.
Caetano Veloso levou uma estrondosa vaia no III Festival Internacional da Canção, em 1968, com a música É Proibido Proibir. Nesses tempos de proibições, vale a pena rever um trecho da letra:

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças
Livros, sim...

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir...


A maioria da população da Suíça que participou de um referendo no domingo aprovou a proibição da construção de novos minaretes no país. Para quem não sabe, minaretes são aquelas torres que ficam altas nas mesquitas, usadas para convocar os fiéis para as orações.

Há pouco tempo, autoridades da União Europeia determinaram a retirada de crucifixos das escolas públicas da Itália. Na França, não é de hoje que o uso de véus nas escolas está proibido. E o presidente francês, Nicolas Sarkozy, defende o banimento do uso da burca –traje usado por mulheres muçulmanas que cobre até o rosto. Nos EUA existe gente que defende a proibição de enfeites de Natal nas ruas.


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Conheço pessoas que nunca vão a nenhuma igreja e tampouco gostam de religião, mas não se importam se as pessoas usam crucifixo ou véu. Também não estão preocupadas se constroem ou deixam de construir igrejas com imagens de santos ou mesquitas com minaretes.

É bem verdade que em alguns lugares a colocação de símbolos religiosos não convém. Fixar crucifixos nas salas de aulas das escolas públicas, por exemplo, não fica bem. E os alunos que não são cristãos? Sabemos que no mundo há adeptos do budismo, do islamismo, da seicho-no-ie e de outras religiões.

Mas proibir a construção de minaretes é outra história. Se a moda pega, daqui a pouco vão proibir as pessoas de usar crucifixos, imagens de santos em casa e outros símbolos religiosos.

18/10/2009 às 23:22


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Divulgação / Madonna será capa da revista Rolling Stone de novembro.Madonna será capa da revista Rolling Stone de novembro.
Tem gente que duvida como Madonna pode produzir tanto. Entre os incrédulos, há quem afirme que a estrela pop contrata ghost-writer (aquelas figuras que ganham para escrever para celebridades).

Pode haver muita inveja nas acusações. A realidade é que Madonna já escreveu 16 livros para crianças. Como ela arruma tempo? Bem, só ela pode explicar. No Brasil vários de seus títulos já foram traduzidos. As Rosas Inglesas fez o maior sucesso entre as meninas. E depois vieram As Maçãs do Sr. Peabody, Yakov e os Sete Ladrões e As Aventuras de Abdi.

Na música pop os números parecem ser insuperáveis. São dezenas de discos e mais de 300 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. É a cantora que mais vendeu na história da música mundial.
A rainha do pop tem fama ainda como compositora, dançarina, atriz e produtora musical e cinematográfica. Atuou em filmes como Evita e Na cama com Madonna.

Agora, Madonna está investindo em outro segmento cinematográfico. A ex-mulher do diretor inglês Guy Richie estaria escrevendo um roteiro. Batizado de We, o script conta uma história de amor. Segundo o site da revista Ok, Madonna estaria procurando por investidores para levar o filme para a tela grande. Usando de seu prestígio, a estrela pop também está pesquisando atores para os papéis principais.

O que a indústria cultural não faz?

08/10/2009 às 22:23


Creative Commons

Creative Commons /
A escritora alemã de origem romena Herta Müller, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009, tem 56 aqnos e foi crítica da ditadura de Nicolau Ceausescu, tendo sido censurada e perseguida pela polícia secreta da Romênia. Em 1987, fugiu para a Alemanha com o marido, o poeta Richard Wagner (homônimo do compositor). No Brasil, Müller teve um único romance publicado, "O Compromisso''. O livro saiu em 2004 pela editora Globo, com tradução de Lya Luft.

No romance, a escritora retorna ao passado e às suas próprias experiências para retratar as adversidades e humilhações por que passou na Romênia comunista onde viveu de 1953 até 1987. Sob um regime repressor, a delação se tornou uma instituição extra-oficial e a confiança no próximo, uma raridade.


Leia a seguir um trecho de O Compromisso:


*****



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"Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.
Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno.
No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono.
O bonde não tem horários fixos.
Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça.
Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé.
Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas.
Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar. Paul nem percebeu como eu estava com medo de que hoje Albu pudesse me levar para a cela debaixo do seu gabinete. Eu não lhe disse nada; se acontecer, ele vai saber logo. O bonde anda devagar. O chapéu de palha do velho tem uma fita manchada, provavelmente de suor ou chuva. Como sempre, Albu vai me saudar com um beijo na mão molhado de cuspe.
O major Albu pega minha mão nas pontas dos dedos e aperta tanto minhas unhas que quase solto um grito. Beija meus dedos com o lábio inferior, o superior fica livre para poder falar. Sempre beija minha mão do mesmo jeito, mas ao falar, cada vez diz uma coisa diferente:
Ora, ora, hoje seus olhos estão inflamados.
Parece que você está ficando com buço, meio cedo na sua idade.
Ora, hoje a mãozinha está gelada, espero que não sejam problemas de circulação.
Ora, ora, sua gengiva está murchando como se você fosse a sua avó.
Minha avó não envelheceu, eu digo, ela nem teve tempo de perder os dentes.
Albu deve saber o que aconteceu com os dentes de minha avó, por isso menciona o fato.
Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu. Toda a cabeça dele cheira a Avril, um perfume francês que meu sogro, o comunista de perfumaria, também usava. Nenhuma outra pessoa que conheço compraria esse perfume. No mercado negro custa mais do que um terno numa loja. Talvez se chame Setembro, mas eu sempre reconhecerei aquele odor amargo e fumacento de folhas queimando.
Quando me sento junto da mesinha, Albu vê que esfrego os dedos na saia, não apenas para voltar a senti-los, mas também para limpar o cuspe. Ele revira seu anel de sinete e dá um sorrisinho. E daí, a gente pode limpar o cuspe, ele seca sozinho e não é venenoso. Todo mundo tem cuspe na boca. Tem gente que cospe na calçada e esfrega com o sapato porque nem mesmo na calçada se deveria cuspir. Albu certamente não cospe na calçada, ele banca o cavalheiro refinado nesta cidade onde não o conhecem. Minhas unhas doem, mas nunca ficaram roxas do seu aperto. Elas acabam se descontraindo, como acontece quando está muito frio e a gente entra num lugar quente. O veneno é eu acreditar que meu cérebro escorrega para a frente, sobre a cara. É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras."

05/10/2009 às 00:01


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Poucos entenderam essa. Depois de cinco anos do lançamento de Memórias de Minhas Putas Tristes, seu autor, o Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, está sendo denunciado pela ONG Coalizão Regional Contra o Tráfico de Mulheres e Meninas na América Latina e Caribe (CATW-LAC) por apologia à prostituição infantil.

A ONG acusa o escritor de, ao ceder os direitos do livro para o cinema – o filme começa a ser rodado em breve--, "massificar a mensagem e reivindicar poeticamente como natural essa atividade (a prostituição), o que leva à normalização do fenômeno e o faz ser considerado lícito".

Se alguém tem dúvida, pergunte ao Gabriel García Márquez o que ele pensa sobre prostituição infantil. Por suas declarações sobre vários outros temos, certamente ele dirá que é inaceitável socialmente.

O romance narra a vida de um homem de 90 anos que decide presentear-se com uma noite de sexo com uma adolescente de 14 anos. Essa história, em livro de ficção, não pode ser confundida com apologia à prostituição infantil, um crime que deve ser punido com todo o rigor da lei.
Se fosse para condenar García Márquez por sua obra, todos os que escrevem sobre assassinatos, roubos, drogas e outros crimes também teriam de ser punidos.

A Literatura é uma representação da realidade. E a realidade tem dessas perversões: homens com 80/90 anos que sonham fazer sexo com uma adolescente. Em vez de ser considerado uma apologia à prostituição infantil, o livro pode ser uma denúncia de costumes impregnados na sociedade.

Memórias e Minhas Putas Tristes é uma obra inferior de Gabriel García Márquez se comparado com Cem Anos de Solidão, obra que marcou uma nova época na literatura mundial e um dos maiores romances do século 20. Para um leitor que nunca leu García Márquez eu diria “não perca tempo com Memórias de Minhas Putas Tristes”. O escritor tem obras muito mais interessantes, como O Outono do Patriarca, Crônica de Uma Morte Anunciada e Ninguém Escreve ao Coronel.

O filme será dirigido pelo dinamarquês Henning Carlsen, e protagonizado pelo ator mexicano Damián Alcázar. No Brasil, o livro foi traduzido por Eric Nepomuceno.


Trecho de Memórias de Minhas Putas Tristes


“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:

— É hoje.

Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.”

29/09/2009 às 16:00


Acervo pessoal de Alice Ruiz/Dico Kremer

Acervo pessoal de Alice Ruiz/Dico Kremer / Alice Ruiz com Paulo Leminski em 1980.Alice Ruiz com Paulo Leminski em 1980.
A poeta paranaense Alice Ruiz foi a vencedora do Jabuti 2009, o prêmio mais importante de Literatura do Brasil, com o livro Dois em Um, da Editora Iluminuras.

É o reconhecimento do trabalho de uma vida inteira. Alice começou a escrever bem cedo, ainda criança, mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos. De lá para cá foram 15 livros. Isso sem falar do trabalho como compositora.
Foi companheira do poeta Paulo Leminski com quem teve três filhos: Miguel Ângelo Leminski, Áurea Alice Leminski e Estrela Ruiz Leminski, que também é poeta.

Um poema de Dois em Um:

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei
parte da tua leitura

29/09/2009 às 00:21


Creative Commons/licenciado

Creative Commons/licenciado / Soldados reprimem cidadãos hondurenhos em Tegucigalpa: a difícil vida sob um regime autoritário.Soldados reprimem cidadãos hondurenhos em Tegucigalpa: a difícil vida sob um regime autoritário.
Alguns colunistas de grandes jornais e revistas do Brasil, talvez sem refletir o suficiente sobre a crise em Honduras, foram céleres em comemorar a deposição do presidente Manuel Zelaya. Foram mais longe: não mediram palavras para legitimar o governo que se apossou do país após o ato que ficou caracterizado pela comunidade internacional como um golpe de Estado.

Um dos mais ardorosos defensores do governo interino hondurenho é o colunista da Veja Reinaldo Azevedo. “O governo interino editou um decreto que lhe permite proibir protestos públicos, suspender direitos individuais e limitar a liberdade de imprensa. Como se supõe, a canalha já veio como enxame: ‘E agora? É ditadura ou não é?’ NÃO É!!!”, escreveu Azevedo em seu blog. Logo em seguida, o colunista cita artigos das Constituições do Brasil e de Honduras para justificar as medidas de exceção. A posição de Azevedo é defendida por gente como Diogo Mainardi e Cia.

Não pretendo fazer o papel de acusador desse ou daquele colunista ou jornalista defensor do golpismo. Acredito que muitos dos apoiadores do governo interino de Honduras não contavam com o endurecimento do regime.

As ditaduras de direita na América Latina sempre começam assim. Após a tomada do poder segue-se uma escalada gradual de repressão. Os direitos civis são suspensos, os meios de comunicação contrários ao regime são fechados e a resistência exterminada. Esse filme, mesmo os mais jovens, como eu, já viram.

As medidas anunciadas no fim de semana pelo governo interino de Honduras e as ações contra veículos de comunicação e jornalistas são a mais clara prova de que se trata de um governo ditatorial. No Brasil, a invasão e fechamento de emissoras de rádio e tevê foram condenados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Nacional de Jornais (ANJ), Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), cientistas políticos, sociólogos e defensores dos direitos humanos. Veja um resumo das medidas do governo hondurenho:

*****

O decreto anunciado pelo governo de exceção suspende por 45 dias as garantias previstas na Constituição.

DIREITO DE REUNIÃO
Não serão permitidas reuniões públicas não autorizadas, e a Polícia e o Exército têm poder para dissolvê-las. Podem dissolver também reuniões autorizadas que terminem em violência.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Fica proibida a emissão por meios de comunicação de mensagens “que ameacem a paz e a ordem pública ou que ofendam a dignidade humana ou autoridades públicas, ou ataquem a lei”. O Conatel pode suspender meios que incitem a revolta.

PRISÃO
Permite a prisão sem ordem judicial. Também permite desalojar prédios públicos que estejam ocupados.

DIREITO DE CIRCULAÇÃO
Fica suspenso o artigo que afirma que toda pessoa tem o direito de circular livremente, inclusive sair, entrar e permanecer no país.

LIBERDADES PESSOAIS
Fica suspenso o artigo que diz que a liberdade pessoal é inviolável e que só poderia ser restringida de acordo com as leis.

*****

Diferentemente dos colunistas que se empolgaram com a deposição do “caudilho” Zelaya, escritores e colunistas de bom senso, como Luis Fernando Veríssimo, não titubearam em criticar a ação em Honduras. Veja o que escreveu Verissimo:

“Em Honduras houve um golpe militar à antiga, que deve ter feito bater mais forte o coração de alguns nostálgicos. Lá também se invoca uma forma de “realpolitik” como justificativa, no caso a necessidade de prevenir um novo Hugo Chávez em formação. “Honduras” quer dizer “funduras”. Foram buscar lá no fundo da história latino-americana o modelo mais primitivo para troca de governos. O golpe hondurenho é uma versão grosseira de uma história conhecida, a da reação do conservadorismo a qualquer ameaça ao seu poder, e cujo protótipo é a reação da oligarquia mexicana à eleição do índio zapoteca Benito Juárez à presidência em 1858. A elite mexicana exagerou: para substituir o índio foi buscar um príncipe, o arquiduque Maximiliano, da Áustria, financiado por Napoleão III. Desde então nunca se chegou mais a tanto, mas a reação se repete através dos anos onde quer que um “índio” chegue ao poder. Sem imperadores importados, ultimamente sem militares golpistas, ainda é a mesma velha história.”

Defender a suspensão de direitos civis, com restrições à liberdade de expressão, não é papel de nenhum cidadão, muito menos de quem trabalha com comunicação.

21/09/2009 às 23:56


Creative Commons

Creative Commons / Parisienses passeiam de bicicletas, que são colocadas à disposição pelo poder público: um bom começo.Parisienses passeiam de bicicletas, que são colocadas à disposição pelo poder público: um bom começo.
O Dia Mundial Sem Carro, comemorado hoje, ajuda o mundo a se tornar melhor. São diversas atividades que possibilitam a um grande número de pessoas a tomada de consciência sobre a poluição no planeta. Mas também há muito discurso das autoridades e poucas ações.

A cada dia vemos mais incentivos ao uso do automóvel – veja os investimentos públicos dos EUA na indústria automobilística nos últimos meses e as isenções do governo brasileiro às montadoras – em detrimento dos transportes públicos.

No Brasil, a gasolina e o diesel são de péssima qualidade, aumentando a emissão de poluentes. Os carros saem das fábricas sem maiores exigências contra a poluição. E se fala pouco em inspeção dos veículos que estão circulando.

Curitiba está atrasada nas políticas de transporte coletivo não poluente. O sistema de ônibus da cidade pode até ser superior ao da maioria das cidades do país, mas não resolve o problema. A capital do Paraná fica atrás de muitas das capitais do país por não ter percebido que o metrô oferece serviço de melhor qualidade e não polui.

Nós todos devemos exigir das nossas autoridades soluções para o congestionamento de nossas ruas e o ar contaminado. Não adianta o prefeito e muitos vereadores deixarem o carro hoje em casa só para se promover. O ato simbólico pode até ter algum efeito positivo, mas é muito pouco.

*****


 /
Nesse dia em devemos refletir sobre a poluição do planeta, vale a pena ler um pouco. Os livros que tratam da questão da poluição são muitos. Para quem pretende ter um bom começo no tema, abaixo vão duas dicas:

O livro Aquecimento Global, de Fred Pearce, que escreve sobre ciências há mais de 20 anos e é consultor da revista inglesa New Scientist, relata como as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana constituem possivelmente a maior ameaça ao futuro da vida na Terra. Pearce examina causas e efeitos do aumento da temperatura no planeta e apresenta soluções para remediar a situação.


 /
No livro Uma Verdade Inconveniente – O que devemos saber (e fazer) sobre o aquecimento global, o ex-vice presidente americano Al Gore apresenta dados incontestáveis sobre a crise climática provocada pela ação do homem no planeta. Com base em pesquisas realizadas por especialistas e instituições de renome, e compilando dados e exemplos no mundo inteiro, Al Gore produz uma obra eficaz de alerta sobre o aquecimento global. Narra também parte de sua trajetória de vida, focando os pontos-chave que o fizeram voltar a atenção para o ambiente.

16/09/2009 às 22:59


Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Aniele Nascimento/Gazeta do Povo / Protesto de alunos da UFPR por melhoria no ensino.Protesto de alunos da UFPR por melhoria no ensino.
É “chover no molhado” dizer que a pobreza está relacionada ao investimento em educação. Todas as vezes que alguém toca no assunto, a conversa descamba para o eterno dilema do “ovo ou a galinha, quem surgiu primeiro?”.

Uns dizem que os países pobres não investem em educação por falta de recursos. Os opostos insistem que, por não investir os parcos recursos de que dispõem no ensino, esses países permanecem mergulhados na miséria.

Um dado é certo: a pobreza alimenta a ignorância e a falta de investimento em educação impede a superação da miséria.


 /
Um relatório recente da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) defende que a crise mundial seria facilmente enfrentada com mais investimento na educação universitária.

O documento, intitulado "Um olhar sobre a educação em 2009", destaca que frequentar uma universidade permite ao estudante obter uma série de benefícios mais tarde, com maiores salários, mais saúde e menos vulnerabilidade ao desemprego.

Essa tese não é novidade. Há um consenso de que o caminho é destinar mais esforços na educação. Mas quando olhamos os gráficos, constatamos o abismo entre pobres e ricos na questão do ensino

Como base de comparação, os Estados Unidos destinam US$ 13 mil anuais por aluno matriculado no ensino superior. No Brasil, são US$ 2 mil dólares, e no Chile, pouco menos de US$ 3 mil por aluno. A Espanha gasta US$ 8 mil.

Como chegar lá se, no Brasil, não conseguimos investir o suficiente no ensino básico?

Este é um espaço público de debate de idéias. O Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
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