Terça-feira, 09/02/2010
Antônio Cruz/ ABr
Michel Temer (de braços cruzados) durante a convenção de sábado: Requião não foi à reunião, mas mandou representantes.O governador Roberto Requião esbravejou muito - e ainda esbraveja - contra a convenção nacional do PMDB realizada no último sábado em Brasília. Acusa a cúpula do partido, e Michel Temer, de "golpe" por causa da antecipação da reunião, marcada inicialmente para 10 de março.
Curioso é que o boicote promovido por Requião funcionou mais ou menos. Quatro aliados do governador participaram oficialmente da convenção - o delegado do diretório estadual Sérgio Ricci, os ex-secretários estaduais Renato Adur e Milton Buabsi e o ex-deputado federal e ex-suplente de Requião no Senado, Nivaldo Krüger.
Além deles, estava de "corpo presente" o presidente do diretório do PMDB em Curitiba, Doático Santos, que não assinou a presença.
É óbvio que Requião sabia e autorizou a presença de todos. Tanto que Buabsi e Krüger discursaram. O segundo aproveitou a cessão da palavra para defender fervorosamente a candidatura de Requião.
Se a convenção foi mesmo um golpe, pelo menos foi um golpe suave, já que todas as vertentes conseguiram falar. Até os intermediários que defendem a candidatura de Requião...
Pena que o próprio não esteve presente para falar o que pensa. Seria bem mais divertido. E com muito menos jogo de cena.
Divulgação
Jerusalém, cidade dourada.- Onde você comprou isso?
- Em Belém (Palestina).
- Por que você comprou?
- Porque achei bonito.
Depois do diálogo, mais uma hora de revista, nova sessão de raio-x, perguntas sobre como eu arrumei a minha mala, computador desmontado, arquivos pessoais abertos... Até que me liberaram e agora cá estou de novo em Brasília. Foi o último momento de uma viagem de três semanas a Israel para um curso sobre jornalismo em áreas de conflito com outros 23 colegas latino-americanos.
No avião, a mesma conclusão da chegada – como em qualquer guerra, nenhum dos dois lados tem 100% de razão no conflito palestino-israelense. O fato é que Israel tem supremacia militar e impõe as vantagens disso aos vizinhos. Por isso atrai toda a raiva do mundo árabe e vive o tempo todo no fio da navalha, obcecado pela defesa de um território dez vezes menor que o estado do Paraná.
Querer achar soluções ou culpados para um conflito milenar é muita pretensão para qualquer jornalista – ainda mais um brasileiro. Então é melhor falar sobre aspectos palpáveis. E, isolando a questão bélica, a organização social israelense é um caso de sucesso que merece ser estudado.
Em primeiro lugar, porque quase todo israelense é um soldado e, por incrível que pareça, isso não tem uma conotação ruim. O serviço militar de três anos para os homens e dois para as mulheres serve para reduzir diferenças culturais e gerar um verdadeiro sentimento de comunidade. Além disso, grande parte desse tempo é utilizada para serviço voluntário.
O período prolongado nos quartéis cria um clima de camaradagem e igualdade entre coronéis e recrutas que é levado para o resto da vida. Sim, o exército está integrado à sociedade, é uma ferramenta de inserção. E no Brasil?
Curioso desembarcar no país e dar de cara com as críticas do general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho sobre a presença de homossexuais nas Forças Armadas. Lembrei imediatamente das peripécias que quase todo jovem brasileiro faz para escapar do serviço militar. No fundo, eles têm razão: é difícil renunciar a um ano da juventude em prol de uma instituição com a qual é muito, muito difícil mesmo, se identificar.
Mas não é o exército israelense que mais impressiona em uma comparação com o Brasil. O trunfo inegável deles é a aposta na educação – em geral, mais de 50% do orçamento das prefeituras é gasto com isso. Vale ainda citar uma entrevista com o prefeito de Haifa, terceira maior cidade de Israel, em que ele sorriu ao explicar que administrava a única localidade na Terra na qual as grandes empresas de tecnologia (Google, Intel, IBM e tantas outras) não reclamavam de operar no mesmo parque industrial.
Por quê? Porque Israel gera uma mão-de-obra tão qualificada neste ramo que é impossível impor exigências. Lá, mais da metade da população chega à universidade.
No Brasil, o governo não consegue nem cumprir a meta de 15% de acesso ao ensino superior entre jovens de 18 a 30 anos. Sem educação, esse país não vai para frente.
No máximo, vai continuar sendo um mero exportador de commodities para que outros lugares como o minúsculo Estado de Israel continuem se desenvolvendo.
Vale o exercício de análise: quais dos principais candidatos a presidente do Brasil têm sido enfático nas propostas para melhorar a educação do país? Talvez eles nem toquem no assunto porque isso no fundo não dá voto. Bom mesmo é falar da progressão do Bolsa Família.
Ou sobre como somos um país abençoado por Deus por termos tantos recursos naturais e sermos tão pacíficos. Inegavelmente, são duas das maiores maravilhas possíveis para uma nação. A desgraça é não saber como usá-las.
Prezados leitores, ficarei fora do país próximas três semanas e por isso as notícias de Brasília vão ficar mais escassas. Viajo hoje para Israel, onde farei o curso de Jornalismo em áreas de conflito, promovido pelo Instituto Internacional de Lideranças. Os interessados em saber mais sobre o conflito no Oriente Médio nos próximos dias podem conferir as atualizações neste mesmo blog.
No auge das denúncias que o afastaram da Presidência da República, Fernando Collor de Mello fazia suas corridas matinais em torno da Casa da Dinda com a mensagem “O tempo é o senhor da razão” estampada na camiseta. O recado mais parecia uma profecia: independentemente da gravidade das maracutaias em que estivesse envolvido, um dia ele retornaria ao cenário político nacional.
Pode não ter sido uma volta triunfal, mas Collor é hoje senador e um prestimoso aliado do presidente Lula. Nada ruim para quem saiu escorraçado do Palácio do Planalto há menos de duas décadas.
Mais do que isso, o legado do alagoano entrou para sempre na cartilha dos políticos brasileiros. Entra ano, sai ano, os escândalos avolumam-se, mas as excelências que comandam o país continuam as mesmas.
Desde as últimas eleições nacionais, em 2006, há uma série de casos para comprovar o sucesso da tese. Em 2007, o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi o pivô de um furacão de denúncias que envolviam uma filha fora do casamento com a jornalista Mônica Veloso.
Renan não conseguiu comprovar de onde vinham os recursos para pagar a pensão da menina, mas escapou duas vezes da cassação em plenário. Renunciou ao cargo para encerrar a polêmica e desde o ano passado assumiu a liderança do PMDB na Casa, um dos cargos mais poderosos do Congresso Nacional.
Graças ao esforço pessoal de Renan, o também peemedebista José Sarney venceu as eleições para a presidência do Senado no ano passado. Apesar de ser o protagonista de pelo menos 11 escândalos divulgados pela imprensa nacional ao longo de 2009, Sarney manteve-se impassível no cargo e hoje pouco se fala em Brasília sobre os casos.
Agora é a vez do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), usar e abusar da velha máxima collorida. Filmado recebendo dinheiro vivo de caixa dois durante a campanha de 2006, ele nega até o último suspiro qualquer participação no mensalão de Brasília – mesmo depois de a polícia achar dinheiro de propina marcado em sua residência.
Arruda apelou na semana passada para o discurso de que, após as denúncias, ele tem sido culpado de tudo o que acontece na capital – até de ter recebido o prêmio de R$ 75 milhões da Mega Sena. Foi mais além e disse que perdoaria aqueles que o acusam, até porque quer ser perdoado dos seus pecados.
O fato é que o auge do escândalo Arruda realmente já passou e que em Brasília é mais fácil ver gente falando sobre os reforços do Flamengo do que da crise no governo. Por incrível que pareça, não bastaram as imagens nem outras dezenas de provas para o próprio governador tomar a iniciativa de largar o osso.
Com todo esse histórico (há dezenas de casos similares pelo Brasil afora), fica difícil dizer que Arruda, Sarney e companhia estão errados. Os vilões dessa história são os eleitores em geral, que não estão nem aí para quem colocam no poder.
No dia 29, a Gazeta do Povo publicou um levantamento do Paraná Pesquisas que apontou que 88% dos paranaenses não sabem em quem vão votar para deputado em outubro. Além disso, quem lidera a disputa para a Presidência da República em pesquisas espontâneas feitas em todo país é o presidente Lula.
Ora, se o povo não sabe que o atual presidente não pode se candidatar nem se preocupa em saber em quem votará para deputado a dez meses da eleição é porque merece conviver com o mar de escândalos da política brasileira. Ou talvez porque tenha a memória seletiva.
Na verdade, impera o pensamento de que a política é uma grande perda de tempo. Enquanto for assim, o mesmo tempo continua correndo a favor dos políticos de sempre.
Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
José Serra: influência no PR.Na verdade, as pesquisas divulgadas nas últimas duas semanas podem ter selado as perspectivas dos pré-candidatos a governador e ao Senado. Para os especialistas, não haverá mudanças no humor do eleitorado até o carnaval. Ou seja, os números estão consolidados.
O problema é que os dados estão truncados. Os três principais postulantes ao Palácio Iguaçu aparecem embolados, com leve vantagem para os nomes do PSDB. Segundo levantamento do Paraná Pesquisas feito com exclusividade para a Gazeta do Povo, o prefeito Beto Richa e o senador Alvaro Dias têm os mesmos cinco pontos porcentuais de vantagem sobre o segundo colocado Osmar Dias (PDT). Na ponta do lápis, há um empate técnico, que se repete no confronto direto entre os tucanos.
Com esse panorama, os critérios de desempate terão de ser subjetivos. A começar pela disputa interna do PSDB. Beto pode ser o candidato ideal para uma campanha pautada no conceito de renovação, mas Alvaro teria mais condições de neutralizar Osmar.
E é justamente a relação entre os dois irmãos que torna a disputa tão subjetiva. Ambos garantem que não vão competir entre si por razões óbvias. Ninguém sabe quais seriam os efeitos de uma eleição “fratricida” – a certeza é que o derrotado praticamente enterraria a carreira política.
Aparece então uma única hipótese de disputa competitiva: Beto versus Osmar. Nas outras duas, Alvaro ou Osmar participariam do pleito praticamente sozinhos, apenas com uma sombra distante do vice-governador Orlando Pessuti (PMDB). Os três cenários serão influenciados diretamente pelos interesses dos dois principais presidenciáveis, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT).
A ministra só pode contar com Osmar e terá de investir nisso se não quiser começar a campanha no Paraná com uma desvantagem de 30 pontos porcentuais para o rival. Já Serra tem um leque de opções. As melhores são as menos conflituosas e que reduzem os espaços de crescimento de Dilma.
O menor caminho para o paulista conseguir mais votos no Paraná é cooptar Osmar. Ou seja, bancar Alvaro em vez de Beto ou convencer o PSDB a abrir mão da candidatura própria para apoiar o pedetista. Se colocar em prática qualquer uma das duas alternativas, ele consegue pelo menos 1,5 milhão de votos a mais, que ajudariam a reduzir o impacto da provável vitória de Dilma nos estados do Nordeste.
A partir dessa perspectiva, fica fácil apontar quem será o “cara” na formação das alianças paranaenses. O apoio de Serra é, por enquanto, a chave para superar os adversários. Quem conseguir o aval do governador vizinho antes abrirá as portas para um 2010 promissor.
A largada já está dada e a prova é de velocidade.
Divulgação PMDB

Em uma de suas aventuras bizarras pela Europa Medieval, Brancaleone de Norcia se apaixona pela donzela Matelda. E a moça, que está prestes a se casar com um nobre, também ficou louca pelo maltrapilho. Só que ele recusa-se a deflorar a moça para não quebrar o “código da cavalaria”.
Várias peripécias depois, o sujeito não se dá bem com Matelda e acaba sendo preso em uma jaula até a morte sob a acusação de que teria abusado de uma virgem...
Ao lançar a candidatura para a presidência da República em Brasília, no dia 12 de novembro, Roberto Requião definiu os colegas que o apoiam no PMDB e ele próprio como o “Incrível Exército de Brancaleone”, clássico do cinema italiano que parodia Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.
A definição faz sentido. Até agora, o governador posa como o idealista que não aceita os acordos feitos a portas fechadas pelos peemedebistas que querem apenas o posto de vice-presidente na chapa da ministra Dilma Rousseff (PT).
Pois as aventuras de Requião começam a ter reviravoltas, assim como as de Brancaleone. Os atritos entre PT e PMDB curiosamente aumentaram nos últimos dias e, se a candidatura de Requião ainda não saiu do campo da sátira, pelo menos ele começa a ganhar espaço para ser ouvido.
Na cruzada pessoal pelo Brasil afora, o governador já passou pelo Distrito Federal, Santa Catarina, São Paulo e Goiás e começou a moldar um discurso próprio de “presidenciável”.
Em primeiro lugar, ele não confronta Dilma nem o candidato do PSDB, José Serra. Sabe-se lá se isso é de caso pensado ou não, mas Requião escolheu um alvo tão inusitado quanto certeiro para combater – o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, recém-filiado ao PMDB.
Meirelles é o preferido de Lula para ser vice de Dilma. Cada vez o presidente consegue esconder menos isso, como no episódio da tal lista tríplice de indicações peemedebistas que causou mal-estar ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, nome escolhido a fórceps pelo partido.
Requião desce a borduna impiedosamente na política do BC. Copiou de Mangabeira Unger o termo “capital vadio” (que define o recurso estrangeiro usado apenas para especulação financeira) e repete a tese em todo discurso que faz.
Na mais nova teoria, diz que o Brasil não pode ser uma nova China. Como solução para esses e outros males, Requião quer ampliar o papel do Estado na economia, mudar a política cambial, rever o papel das empresas estatais.
Assim como o governador dá uma tacada de mestre ao mirar no adversário certo, ele erra feio na argumentação. Lula não tem 83% de aprovação popular só porque é um bom contador de causos, mas porque a economia vai bem.
Meirelles até carrega o ônus de político insosso, mas tem o bônus de artífice desse bom momento para os brasileiros. Ao empolar o discurso e restringi-lo às teorias nacionalistas de Carlos Lessa e Mangabeira Unger, Requião perde o fio da meada.
O pior é que o governador tem sim o que mostrar exatamente na economia. Afinal de contas, o Paraná paga o maior salário-mínimo regional do país e tem uma interessante política de arrecadação de impostos, que foca nos grandes contribuintes e poupa os peixes pequenos.
São coisas simples, que Requião parece ter esquecido no bolso da camisa jeans azul. Prefere falar de excentricidades como a moeda única para o Mercosul e a praga do “capital vadio”.
Assim ele fica ainda mais parecido com Brancaleone. Resta saber se o seu exército vai conseguir tirá-lo da jaula, como acontece no filme.
A Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) marcou o primeiro gol ontem. Por consenso, aprovou a proposta que proíbe governadores, senadores e deputados de possuir emissoras de televisão. A decisão, que não possui valor legal, se estende até parentes em segundo grau.
O cálculo é que existem hoje no Brasil 271 políticos que são sócios ou diretores de 348 emissoras de rádio e televisão. A mistura explosiva é um dos fatores que levaram a política brasileira para a draga de hoje.
Pela lei atual, políticos em exercício de mandato podem ter emissoras, desde que não ocupem cargos de direção. Uma vedação quase infantil.
A ideia da conferência que ocorre nesta semana em Brasília é reunir propostas que sirvam de base para um futuro marco legal para o setor. Há discussões boas, como essa proposta, e outras nem tanto, como o avanço do intervencionismo governamental no setor e o estímulo às televisões estatais (emissoras que, na prática, são resumidas a instrumento de propaganda dos governantes de plantão).
O problema é que as boas - e as más - terão de passar pelo aval do Congresso Nacional para virarem lei. E lá, como se sabe, a programação é outra.
Ricardo Stuckert/Presidência
Os agricultores do Mercosul: "mira, Lula, mira como yo hago aqui en Venezuela."O resultado era esperado. A base aliada colocou o rolo-compressor para funcionar e não houve mais como protelar a decisão.
O argumento de que quem entra no bloco são os venezuelanos – e não apenas Hugo Chávez – faz sentido e é suficiente para a adesão.
Mas é inegável que Chávez será um tremendo enrosco. Primeiro porque tem ascensão ideológica sobre os governos de Argentina, Paraguai e Uruguai, o que não é nada bom.
Segundo porque a democracia venezuelana não é exatamente um modelo para a claudicante América Latina. Terceiro porque Chávez promete só largar o osso daqui a 15 anos (alguém tem dúvida de que ele consegue?).
Depois do Brasil, só faltam os paraguaios se manifestarem – o que não deve ser problema para a Venezuela. O resultado disso tudo é que, sim, o Mercosul ficará fortalecido economicamente.
Já no aspecto político, será uma longa década e meia pela frente.
Reprodução
Munhoz da Rocha (acima), em imagem de vídeo em que recebe R$ 20 mil...O escândalo de corrupção no governo do Distrito Federal atingiu o paranaense Paulo Henrique Barreto Munhoz da Rocha. Subsecretário de Transportes e diretor da autarquia Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans) desde janeiro de 2007, ele foi filmado supostamente recebendo propina de R$ 20 mil do ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa.
Paulo Henrique é neto e sobrinho dos ex-governadores do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879-1944) e Bento Munhoz da Rocha (1905-1972). Trabalhou no governo do estado durante o primeiro mandato de Jaime Lerner, entre 1995 e 1997, e em vários cargos da prefeitura de Curitiba durante a gestão Cassio Taniguchi, entre 1997 e 2004.
O vídeo, feito por Barbosa, foi divulgado na semana passada no site da revista Veja.
Além disso, ele é citado no inquérito da operação Caixa de Pandora três vezes, com o nome de “Paulo Roberto”. O depoimento de Barbosa ao Ministério Público da União que consta da investigação cita textualmente o pagamento de R$ 20 mil em propina para o “diretor do DFTrans, Paulo Roberto, pessoa oriunda do Paraná”.
Segundo o ex-secretário, o pagamento era “decorrente de contratos na área de informática”. A filmagem com Paulo Henrique dura apenas 1 minuto e 11 segundos.
Leia o resto da matéria aqui.
Nélson Jr./STF
Fachada do STF, com a sombra da estátua da Justiça da Praça dos Três Poderes.O Brasil é o único país no mundo que transmite ao vivo as sessões plenárias da Suprema Corte. Desde 2002, o “Big Brother” da Justiça é exibido às quartas e quintas-feiras. A iniciativa, louvável, é um dos motivos que acentua a popularização do Poder Judiciário.
A outra é a própria atuação recente dos 11 ministros. Nos últimos três anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi vanguarda na decisão de temas delicados. Liberou as pesquisas com células-tronco embrionárias, acabou com a infidelidade partidária e criou normas para a demarcação de reservas indígenas.
A mesma superexposição que deu glamour ao tribunal, no entanto, também permite comparações polêmicas. Assim como houve julgamentos que foram marcos para a democracia brasileira, existiram os que deixaram no ar a sensação de que o STF fugiu da dividida.
O primeiro foi o que acabou parcialmente com o nepotismo, em agosto do ano passado. Ao editar a súmula vinculante número 13, o Supremo abriu brechas para a nomeação de parentes para os cargos de “agentes políticos”. E os peixes graúdos - prefeitos, governadores e o presidente – continuaram liberados para escalar a parentada em secretarias e ministérios.
No mês passado, foi a vez do julgamento sobre a extradição do ex-terrorista italiano Cesare Battisti. Por cinco votos a quatro, os ministros decidiram extraditá-lo. A mesma sentença, porém, determinou que a decisão final cabe ao presidente Lula, o que na verdade terceirizou a decisão do Supremo.
Mas o comportamento titubeante ficou mais evidente em três julgamentos que trataram do conceito de liberdade de expressão. Em abril, o STF derrubou a Lei de Imprensa com a interpretação de que o texto, editado em 1967, era incompatível com a Constituição de 1988. Especialmente porque o artigo 5º da Carta Magna garante a liberdade de expressão e de informação como direitos fundamentais dos brasileiros.
Em junho, a mesma justificativa foi usada para desregulamentar a profissão de jornalista e extirpar a exigência do diploma para o trabalho nas redações, contida em um decreto de 1969. Embora o tema estivesse muito mais ligado a uma questão de organização de classe, o STF apareceu novamente como redentor da liberdade de imprensa. Foram dois julgamentos “fáceis”, nos quais caiu bem usar o argumento da democracia para derrubar leis criadas durante ditadura militar.
Eis que, na última quinta-feira, chegou aos ministros a reclamação do jornal O Estado de S. Paulo contra a censura prévia estabelecida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Há quatro meses e meio, a publicação está proibida de divulgar reportagens sobre a Operação Faktor. A investigação da Polícia Federal, que corre em segredo de Justiça, levou ao indiciamento do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney.
Embora os ministros tenham alegado que a decisão de arquivar a ação foi de caráter técnico-processual e não tratou do mérito do processo, vários deles recorreram à Constituição para, dessa vez, colocar a liberdade de expressão em segundo plano. Gilmar Mendes e Eros Grau, por exemplo, reforçaram que “cada caso é um caso” e que nesse julgamento o direito à inviolabilidade da intimidade superaria o direito à liberdade de expressão.
Resultado: as reportagens sobre Fernando Sarney, acusado de formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, permanecem embargadas.
Técnica ou não, a decisão remete à mesma ditadura que criou a famigerada Lei de Imprensa, como fez questão de ressaltar o ministro Carlos Ayres Britto (um dos votos vencidos do julgamento, que acabou em 6 a 3). A diferença é que naquela época eram os generais do Poder Executivo que cerceavam os jornais, não os juízes.
Tanta reviravolta parece trama de novela, mas não é. Para tirar a dúvida, é só ligar a televisão na TV Justiça. Pode ser meio soporífero, mas é de graça.
E, por enquanto, não tem censura.
Presentes de casamento: em que situações devem ser devolvidos?
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