Terça-feira, 22/05/2012
Reprodução/Internet
Les Murray: gênio australiano.Les Murray virou monopolizador desse espaço para pequenos poemas traduzidos nas terças-feiras. O que se segue é um poeminha do último livro dele. Aliás, é o poema que traz o título de livro. “Mais alto quando de bruços”. E aqui dá para entender melhor o sentido disso...
Não sei se vocês também acham. Nem sei se a má tradução impede que fique bacana. Mas eu ando achando esse cara o máximo. Vejam aí.
As conversações
Uma lua cheia sempre nasce ao pôr-do-sol
e uma pessoa é mais alta de noite.
Muitos temem suas fobias mais que a morte.
O Rei de Vidro da França tinha medo de quebrar.
Os eunucos chineses mantinham seus testículos em álcool.
Seu cérebro pode sangrar por um espirro.
Uma lua cheia sempre nasce ao pôr-do-sol
e uma pessoa é mais alta quando está de bruços.
O Pato Donald uma vez foi banido da Finlândia
porque ele não usava calças,
Sua virilha era coberta de penas como a da Margarida
mas as avestruzes não escondem a cabeça na areia,
A cura para o escorbuto foi descoberta
depois ficou longamente perdida pela teoria médica.
O Começo é um firme som branco.
A lua cheia nasce ao pôr-do-sol
e os lêmures e macacos capuchinhos
esfregam uma centopeia para tirar
dele suas poderosas secreções. Colocando-as na boca
eles se contorcem no chão de prazer.
O coração de um cavalo tratado fica mais lento.
Um fato é uma pequena fé compacta,
um dado dos sentidos para os animais, um poder para o homem
mesmo se for verdade, mesmo enquanto for verdade -
nós lemos essas leis em Isaac Neurônio.
Uma mulher tinha sessenta e nove crianças.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes por dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua cheia sempre nasce ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora tomar o rumo de sua família.
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Graças ao programa Klezmer, que a eParaná exibe às segundas-feiras, sempre às 23 horas, descobri coisas sensacionais, como a banda que se exibe aí no vídeo acima. Fatima Spar e as batatas da liberdade: que nome! Freedom fries, aliás, é um jeito que os norte-americanos “patrióticos” usaram para não chamar as batatas fritas de “batatas francesas”, como manda o costume. Mas o que conta aqui mesmo é a música animadíssima, divertida e dançante. Ouça aí!
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Gustave Doré

A poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar
que esta lhe é superior
O trecho é de Caetano Veloso. E serve aqui para Cervantes como uma luva. No Quixote, a prosa chega a um ponto de excelência impressionante (aliás, dizem que Cervantes era um pouco frustrado por não ser tão bom na poesia e no teatro quanto era na prosa...) E a amizade tem um ponto sublime com Quixote e Sancho Pança.
Sancho é o segundo grande personagem do livro. Para muitos, é o favorito. Seu jeito atrapalhado, mas sempre honesto, sua ingenuidade carregada de bom senso, sua simplicidade em contestar os grandes da terra, inclusive o próprio fidalgo que lhe emprega, dão a ele o ar de um bom homem, um sujeito que pode não estar fazendo a coisa certa, mas está tentando.
Sancho aparece no livro como um artifício narrativo. Se Quixote viajasse sozinho, como o autor nos mostraria no que ele está pensando? Precisa que ele converse com alguém para expor suas ideias, o juízo que faz de cada batalha perdida. Não fosse por Sancho, o livro seria um longo monólogo, entremeado por cenas de ação e conversa com estranhos. Sancho é o companheiro, o psicanalista e o ouvinte de Quixote. Sancho somos nós, tentando botar juízo em seu amo destrambelhado.
É preciso lembrar que não se trata de um santo. Sancho começa na história a seguir Quixote por um plano bem egocêntrico. Quixote lhe promete uma ilha para governar caso sejam bem sucedidos (no segundo livro, isso chega a acontecer, e Sancho vira um belo governador!) O plano parece bom, e o gordinho, trabalhador, pé-de-boi e arrimo de família, vira estranhamente um assistente de cavaleiro andante.
Leal, Sancho não é só um aproveitador do plano de Quixote. E mesmo depois de perceber que a coisa não é bem como havia imaginado, segue ao lado dele, protegendo Quixote e às vezes até apanhando por ele.
Claro que não é burro. Arquétipo do matuto sabido de nossa literatura (e de várias outras, imagino), às vezes passa a perna em Quixote ou se livre do trabalho pesado em nome de um pouco de ócio, ou até mesmo por bom senso.
O fato é que os dois brigam direto (um não entende como o outro não percebe o mundo do mesmo modo que o outro). Mas sempre terminam dando mais uma chance. Sempre esperam que logo tudo vai dar certo. E acabam dependentes um do outro. Não por qualquer fim que juntos possam alcançar, mas já por gostarem de ir lado a lado, até mesmo meio sem rumo.
Sancho é a contraparte de Quixote. É o que lhe completa. E é um dos grandes amigos que todos nós podemos ter. Devemos agradecer a Dom Quixote por ter lhe dado o emprego. E a Cervantes por nos ter dado tão boa companhia para seguir o cavaleiro mundo afora.
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Neste ano, além de aniversários mais famosos, como o de Debussy (150 anos) e John Cage (100 anos), também se comemora entre os músicos o centenário de nascimento de um sujeito bem menos conhecido: Conlon Nancarrow.
Norte-americano, ficou famoso principalmente por suas composições para pianola. Alguém ainda se lembra o que é isso? Eram aqueles pianos automáticos que funcionavam à base de um rolo perfurado.
Assim, fazendo peças para execução automatizada, Nancarrow se libertava das limitações dos pianistas e podia escrever coisas complicadíssimas, como o estudo que abre esse post, da Suíte Boogie Woogie.
Aliás, o próprio título da suíte já mostra outra característica sua: a influência da música negra norte-americana. Ele chegou a tocar trompete em uma banda de jazz na juventude.
Exilado no México depois de lutar na Guerra Civil espanhola contra as tropas de Franco, descobriu a pianola e começou a fazer suas composições. Não ficaria conhecido, porém, antes dos anos 1980.
Fez peças cada vez mais complicadas. No estudo 37, por exemplo, há 12 linhas melódicas independentes se movendo em tempos diferentes uma da outra. Impossível para um humano tocar, tanto por falta de dedos quanto pela complexidade da compreensão dos tempos.
Depois que, finalmente, nos anos 1970, sua obra começou a ser gravada, Gyorgy Ligeti, o gênio húngaro, teria dito (ok, segundo a Wikipedia), a seguinte frase. Nancarrow seria “a grande descoberta desde Webern e Ives... o melhor de qualquer compositor vivo dos dias de hoje”.
Abaixo, ponho mais alguns trechos para pianola e uma composição para quarteto de cordas.
Bom domingo a todos!
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Por esses dias, Stephen Hawking apareceu no seriado "The big bang theory", falando com Sheldon Cooper, o sujeito mais engraçado que apareceu na tevê em muito tempo.
O professor, um gênio dos mais importantes da ciência moderna, fez uma cena de um minuto e trinta no seriado. Antes disso, porém, Hawking foi citado dúzia de vezes pelos personagens do programa.
Para quem não sabe, trata-se de um programa sobre nerds. Quatro guris viciados em ciência e isolados em um mundo meio infantilizado, de histórias em quadrinhos e que não sabem falar com as moças. E uma vizinha bonitona que se torna o objeto de desejo de um deles.
O seriado virou um tremendo sucesso. Por que? Acho que, além do fato de ser muito bem escrito e de ter um ator genial (Jim Parsons, o Sheldon do vídeo acima), o programa descobriu um filão.
Minha hipótese é que o seriado tinha tudo para decolar (houve tentativas anteriores, como "The IT crowd", que não funcionaram tão bem). E isso porque a informática vem criando pela primeira vez no mundo uma quantidade significativa de nerds.
Ou seja: antes, as ciências eram tão apaixonantes quanto. Mas um número restrito de pessoas estudava isso. E só elas discutiam isso, e em ambientes próprios, como salas de aula e congressos.
Com a informática, um bando de adolescentes passou a ver um uso prático para a ciência em seu dia a dia e se empolgou com a ideia de mergulhar naquilo. Tanto na engenharia (passo 1) quanto no que está por trás dela (a ciência, passo 2).
E como os computadores se espalharam e viraram uma imensa fonte de lucro, muita gente entrou nisso de cabeça. Pela primeira vez, assuntos como circuitos integrados ou coisas mais complexas como uso de energia em clusters de servidores, viraram "modinha".
Porque se criou um mercado consumidor grande o suficiente para isso. O que é genial. Os adolescentes, afinal, estão descobrindo, por meio do computador, todo um mundo científico. Não ficando na frente da tela, somente. Mas mexendo no software e no hardware de verdade.
E se isso faz Stephen Hawking ganhar minutos de tevê. Se faz com que a moçada se interesse por Newton e Einstein, tanto melhor. A história em quadrinhos não me empolga tanto.
Curiosamente, essa técnica toda, porém, ainda parece desvinculada de um segundo passo, que seria o interesse por um humanismo que certamente movia esses cientistas. Mas essa talvez seja uma segunda etapa. E não sei se a informática pode nos levar a ela.
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Já que hoje é dia de Austrália aqui no blog, vamos com uma música de Peter Sculthorpe, um compositor importante de lá. Nascido em 1929 na Tasmânia (sim, na Tasmânia), ele tenta retratar o clima do interior do país, assim como Les Murray. Fique aí com "Memento Mori".
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Ron Mueck

Ron Mueck

Ron Mueck

Ron Mueck

Pus por esses dias algumas fotos da nova exposição de Ron Mueck, o gênio hiperrealista australiano, que foi aberta em Londres. Agora ponho as imagens de todas as quatro esculturas novas que ele está expondo.
Como sempre, são reprodução praticamente fiéis da realidade, com seres humanos em situações cotidianas (como um sujeito boiando numa piscina), ou em atividades inusitadas (alguém nu carregando um imenso feixe de madeira), ou ainda em circunstância trágica (o menino atingido por uma facada).
O mais curioso dessa vez talvez seja a escultura de uma galinha gigante, abatida, pendurada do teto. Não fica claro se se trata de um manifesto de qualquer tipo contra o consumo de carne ou algo do gênero, embora possa ser visto assim.
O que vale é a junção da técnica espantosa de Mueck com os temas que ele consegue achar
Reprodução/Internet
Les Murray.Les Murray continua ocupando as terças-feiras aqui no blog, sempre com um poeminha traduzido especialmente. Esse aqui é considerado um dos clássicos do poeta, que continua sempre na ativa.
Sujeito bonachão e simpático, ele lançou ano passado mais um livro de poemas, com um nome difícil de traduzir. Em inglês se chama “Taller when prone”. Em português, seria algo como “Mais alto quando de bruços" (antes havia uma outra versão aqui, mas segundo o conselho editorial do blog ela estava errada.
Enfim, enquanto nenhuma editora lança nada dele por aqui, fique aí com uma tradução (ruim) de um belo poema.
Os Mitchells
Eu vejo isso: dois homens sentados num poste
que cavaram um buraco e vão, depois do almoço, erguer
acho que pra fiação. Água ferve numa lata.
Abelhas zunem seu turno na névoa do branco
florir das acácias, sob o meio dia das sebes.
Comem grandes sanduíches de carne de uma caixa
de isopor com alça. Se entreouve um falando:
seca aquele ano. É. Que nem arar a estrada.
O primeiro, questionado, diria Eu sou um dos Mitchells.
O outro olharia um instante, folhas secas na mão,
e levantando os olhos, com dor e sutil diversão,
diria Eu sou um dos Mitchells. Do par, um já foi rico
mas nunca deixou de usar seu velho chapéu manchado de óleo. Quase tudo
que eles dizem é ritual. Algumas vezes a cena é numa avenida.
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Já que falamos no maravilhoso Nino Rota, vai aí o tema de “Oito e meio”, de Fellini. Nem tem muito o que falar. É circo, alegria e diversão para encerrar um dos filmes mais exuberantes da história do cinema. Cai como uma luva para a catarse que Fellini proporciona. Dá quase para sair dançando...
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Nino Rota, o gênio das trilhas sonoras.Mais um post da série sobre os 40 anos de “O poderoso chefão”! Dessa vez, a pergunta é: por que Nino Rota não ganhou o Oscar de melhor música pelo tema do filme? Afinal de contas, a música se transformou imediatamente em um clássico, e há pelo menos duas melodias célebres associadas à produção.
O problema é que, em certo sentido, a trilha do filme não era 100% original. Não que Nino Rota tenha plagiado qualquer outro compositor. Ele plagiou foi a si mesmo. Mas isso teria sido suficiente para impedir que ele fosse escolhido para o prêmio.
Francis Ford Copolla diz que Rota estaa tendo problemas para encontrar um tema para o filme. Foi quando se lembrou de uma música que havia composto mais de uma década antes para uma comédia. Decidiu pegar o tema, torná-lo mais lento e transformar em algo dramático, quase trágico.
A música era do filme Fortunella, de 1958. O tema segue aí. E a partir de um certo ponto a semelhança é mesmo impressionante. O que, nem de longe, tira o mérito de Nino Rota de ter percebido o quanto a música podia se encaixar no filme de Copolla.
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