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Terça-feira, 22/05/2012

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Dias da Vida

Quem faz o blog
20/04/2012 às 16:25


Stock.Xchng

Stock.Xchng /

Eis que, em meio a tanta bandalheira e corrupção banhada em Cachoeira, nasce um sincero.

Seu nome é Tiago, sem o “h” superfaturado. Mas não é só isso. Tem a sinceridade no nome composto, bonito costume da família materna de origem japonesa de dar nomes compostos: Tiago Seiji. Seiji significa sincero -- autêntico, puro, leal, sem malícia. Começou bem.

Mas quem garante que ele vai cumprir o destino gravado em seu nome, que vai ser sincero, puro, leal? Não há garantia. Há a esperança que nasce com toda nova vida. Há também o amor que o cerca, a família estruturada que o abraça, os bons princípios que vão nortear a sua criação, os mesmos que orientaram a criação de seus pais, dos pais de seus pais... Isso é muito. Há de ser o suficiente. Assim esperamos todos.

Há quem diga que os tempos estão complicados e está muito difícil criar um filho. E os tempos foram descomplicados algum dia? Nem quando a humanidade se resumia a um casal em um belo jardim a vida era simples! E já foi fácil criar um filho? Se Deus, que é Deus, tem problemas para criar Seus filhos, e esquenta Sua cabeça aureolada por causa deles desde que Sua prole consistia unicamente naquele casal bagunceiro (hoje, com bilhões de herdeiros, Ele tem um exército de babás aladas e, mesmo assim, não dá conta), quem pode dizer que é fácil criar filhos? Também não é fácil ser criado!

E isso é desanimador? Não deve ser! É um bom desafio, o maior e mais belo deles, aliás. Um desafio tão constante quanto o surgimento de novas vidas, porque todos nascem assim: sinceros, puros, “seijis”, enfim.

Então, desejo ao Tiago, a seus pais, meus queridos amigos Bianca e Marcelo, a toda a família e a todos nós, humanidade, que o cercamos, muita sorte e muito sucesso nessa empreitada maravilhosa – e em todas as outras que acompanham cada coleguinha de fraldas do meu “sobrinho postiço”.

Não sou anjo, nem torto (só um pouco).
Também não sou poeta (quem me dera).
Mas, para a vida começar com poesia,
nasce a fórceps a rima querida:
Vai, Tiago! ser sincero na vida.

20/01/2012 às 16:35


Edward Topsell / The History of Four-footed Beasts (1607) / Wikimedia Commons

Edward Topsell / The History of Four-footed Beasts (1607) / Wikimedia Commons /

A bela caminha tranquila e feliz. É bela e sua vida é bela, não precisa se preocupar com ela. Aliás, não se preocupa com nada, só com ser bela, o que é sem fazer força, sem cansar sua beleza. Começa até a se sentir preocupada com tanta despreocupação, como se estivesse deixando de se preocupar com algo importante, tão despreocupada em sua vida bela. Logo afasta o pensamento cinza que não faz bom conjunto com sua mente cor-de-rosa.

A bela segue quase flutuando, até notar que, no mesmo caminho, vindo em sua direção, aproxima-se uma fera. A fera tem as unhas enormes, a bocarra contorcida, faminta. A bela se assusta, sente um calafrio enquanto imagina a fera destroçando-a com suas presas. Mesmo assim, a bela segue caminhando, enquanto se esforça para parecer natural: as feras farejam medo, o melhor a fazer é não demonstrar fraqueza.

Cada vez mais perto, a bela pode perceber que a fera está cansada, tem os olhos doentios. A bela sente pena, mas apenas por um segundo, logo volta a seu senso e se repreende: não pode se deixar enganar pela fera ardilosa. A bela sabe do que uma fera é capaz, há muitas histórias de terror sobre as horríveis feras, como aquela da bela desaparecida, encontrada na barriga de uma fera.

A fera vem vagarosamente, quase se arrastando. A bela desconfia do bote traiçoeiro. A fera continua com o olhar baixo, parece até sentir medo da bela. É assim que elas são mais perigosas, pensa a bela. A bela sua frio, apesar de quase já respirar o bafo quente da fera. De súbito, a fera se volta para a bela e escancara a boca devoradora, os dentes ameaçadores, um rugido começa a irromper, vindo das profundezas do estômago faminto. A bela se desespera, corre para o outro lado do caminho, grita por socorro.

Como num conto de fadas, ou numa vida bela, ao cruzar o caminho, em fuga, a bela se depara com um príncipe. O príncipe está acompanhado de um imponente cão de guarda. A bela se joga nos braços fortes do príncipe, passa a mão no pelo macio do cão, beija um (o príncipe, não o cão) e ordena que o outro (o cão, não o príncipe) dê um fim à fera bravia. O obediente cão avança em direção à fera, que parece já estar caída, certamente armando um ataque covarde ao cão. A bela fecha os belos olhos, para evitar a cena feia, mas não resiste e espia. A bela, então, fica chocada ao perceber que o cão lambe a fera caída. Morda essa fera, destrua esse bicho monstruoso, grita a bela ao cão. Mas o cão segue dando carinho à fera. A bela e o príncipe (que não sabe muito bem o que fazer, como quase todo príncipe), assistindo à inatividade da fera, aproximam-se. A fera está quase morta, mas não apresenta qualquer ferida causada pelo cão, que, ao contrário, parece querer curá-la. Essa fera terrível deve estar morrendo do coração, certamente pelo susto que levou com o ataque do meu cão, finalmente diz o príncipe, gabando-se. O cão segue lambendo a fera. A bela ouve um fraco rugido saído da boca escancarada da fera moribunda. De perto, a fera se parece com uma pessoa feia, pensa a bela, que se ajoelha ao lado do bicho e consegue ouvir, num último suspiro bestial, o que não sabe dizer se é um pedido ou uma ameaça: comida.


Joseph Jacobs e John Dickson Batten / Europa Fairy Book (1916) / Wikimedia Commons

Joseph Jacobs e John Dickson Batten / Europa Fairy Book (1916) / Wikimedia Commons /

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Depois de receber muitos pedidos (ok, foram apenas alguns... certo, foram dois ou três... tudo bem, confesso, apenas o meu pai pediu) para que eu voltasse a escrever no blog, resolvi começar meu ano blogueiro. Por conta de compromissos profisionais, ainda vai demorar um pouco para que eu consiga voltar a escrever toda semana, mas prometo que vou me esforçar -- afinal, pedido de pai-leitor é ordem! Abraço a todos e meus votos de um feliz 2012 (a todos mesmo, inclusive aos que não pediram a minha volta e até aos que torciam para que eu nunca mais voltasse)!

18/11/2011 às 10:25

Acordo em sobressalto,
despertador apitando alto,
levanto as mãos, acho que é assalto.
Meu Deus, que dia!

Vou para o banho contrariado,
hoje podia ser feriado,
trabalho chato, chefe malvado.
Meu Deus, que dia!

Chuveiro queima, que agonia,
saio tremendo da água fria,
derrubo a aliança no ralo da pia.
Meu Deus, que dia!

Esposa me vê sem a aliança,
diz que perdeu toda a confiança,
que vai embora com a criança.
Meu Deus, que dia!

Carro não pega, nem empurrando,
ainda em casa estou suando,
camisa nova já vai manchando.
Meu Deus, que dia!

O jeito é pegar o lotação,
numa freada eu vou ao chão,
e alguém ainda me passa a mão.
Meu Deus, que dia!

Não me seguro, falo besteira,
outro me xinga, levo rasteira,
quando percebo estou sem carteira.
Meu Deus, que dia!

Chego ao trabalho fora do horário,
chefe desconta do meu salário,
diz que eu sou um mau funcionário.
Meu Deus, que dia!

Café da firma está fraco e frio,
a estagiária me chama de tio,
quase a mando à que a pariu.
Meu Deus, que dia!

É muito trampo e pouco cascalho,
o chefe me empurra todo o trabalho,
aquele folgado do Carvalho.
Meu Deus, que dia!

Do Carvalho eu tenho a mesma idade,
mas faço o dobro e ganho a metade,
ah, se eu pudesse chutar o balde.
Meu Deus, que dia!

Computador que já era lento,
dá pau e eu é que me arrebento,
vou refazer todo o documento.
Meu Deus, que dia!

Se não bastasse esse desconforto,
colega ao lado me olha torto,
mas que vontade de vê-lo morto.
Meu Deus, que dia!

E já no fim do expediente,
todos pro bar numa tarde quente,
e eu recebo mais um cliente.
Meu Deus, que dia!

Depois à igreja para rezar,
tropeço e derrubo a cruz do altar,
o padre quer me excomungar.
Meu Deus, que dia!

Na volta encontro a casa vazia,
a esposa foi e levou cria,
estou sozinho, sem companhia.
Meu Deus, que dia!

Então eu sinto uma alegria,
quando percebo que ainda há poesia,
fica na rima a melancolia.
Meu Deus, que venha um novo dia!


Stephanie Jensen / Stock.Xchng

Stephanie Jensen / Stock.Xchng / Que venha um novo dia!Que venha um novo dia!

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Nota aos leitores

Queridos leitores, desculpem-me por não ter escrito nas últimas semanas. Por motivos profissionais, estou tendo (e terei, até o início do ano que vem) dificuldade para manter as publicações regulares no blog. Farei o possível para publicar mais alguns textos aqui até o final do ano. Em 2012, pretendo voltar a escrever todas as sextas-feiras, pelo menos. Agradeço a todos pela leitura, em especial aos que participam nos comentários e aos que me enviaram e-mails (viniciusandredias@gmail.com) "cobrando" novos textos. Muito obrigado! Tenham todos um final de semana com muita poesia!

P.S.: E sigam o blog no Twitter (@diasdavida)!

21/10/2011 às 17:05


Arte sobre imagem de Ingolfson / Thomas Hawk / Wikimedia Commons

Arte sobre imagem de Ingolfson / Thomas Hawk / Wikimedia Commons / Em que Em que "boite" está indo parar o dinheiro dos tributos que pagamos?

Noite dessas, ao voltar de um restaurante, fui abordado num semáforo pelo motorista do carro ao lado. O condutor e o passageiro pediam informação pela janela, em português carregado de sotaque (não identifiquei exatamente a origem): “Por favor, como fazemos para chegar à Praça Tiradentes”? Cansado depois de um dia cheio, no curto intervalo do sinal vermelho, não consegui traçar mentalmente um caminho facilmente explicável do ponto em que estávamos até a praça. Olhei para minha esposa, que saíra do restaurante passando mal, mas já dormia. Bondosa, ela certamente não se importaria se desviássemos do nosso caminho para ajudar alguém. Quando o sinal abriu, respondi que me seguissem. Eu os levaria até lá.

Depois de algumas voltas e ajustes de rumo, sempre cuidando para que os visitantes não ficassem muito para trás, chegamos à rua que leva diretamente à praça. Era só seguir reto. As torres da Catedral já podiam ser vistas, ao fundo. Eles emparelharam o carro e agradeceram. Senti-me um bom samaritano, um exemplo de que o curitibano é cordial, um afável anfitrião que, mesmo cansado e com a esposa passando mal, desvia do caminho de casa para garantir que os visitantes não caiam em mãos erradas e cheguem ao destino com segurança. “Mais um tijolinho em minha morada no Céu”, quase cheguei a pensar alto.

Eu já sonhava com as recompensas póstumas à minha boa ação, quando notei que, em vez de seguir até a Praça Tiradentes, os distintos senhores encostaram o carro diante de uma “boite” – com luz vermelha e tudo. Fiquei indignado. Nada exatamente contra a “boite” (numa próxima oportunidade eu explico o que penso sobre esse tipo de estabelecimento), mas me senti tapeado. Fiquei com uma sensação parecida com a que tenho quando vejo que boa parte dos tributos que pago, que deveriam seguir para hospitais, escolas e até praças, acabam parando nas mãos de políticos corruptos e afins – que costumamos chamar de algo como “filhos de trabalhadoras de ‘boites’”, nos raros momentos de revolta (o que, diga-se, é muito injusto com tais trabalhadoras, que dão duro por seu sustento).

Em ambos os casos (no dos gringos que levei para a “boite” e no dos tributos que são embolsados por governantes corruptos e afins), reconheço que boa parte da culpa é minha. Fui inocente. Não parei para pensar nos motivos que levariam dois estrangeiros de meia-idade à procura de uma praça à meia-noite – a uma missa na Catedral é que eles não estavam indo. Da mesma maneira, às vezes não paramos para pensar para onde vai o dinheiro dos tributos que pagamos.

A solução para tais desvios não é deixar de ser um bom samaritano para com visitantes estrangeiros, nem deixar de ser um bom contribuinte para com o Estado brasileiro. A solução é ser mais cauteloso ao distribuir votos de confiança – nas ruas e nas urnas. O que os senhores pretendem fazer em uma escura praça vazia de gente? E o que os senhores pretendem fazer com um escuso malote cheio de dinheiro? Temos de ficar atentos. Afinal, segundo o Impostômetro, o povo brasileiro já pagou R$ 1,1 trilhão em tributos neste ano. E o número cresce a cada segundo. Daria para construir e equipar mais de 4 milhões de postos de saúde, mais de 1 milhão de quilômetros de estradas asfaltadas, mais de 24 milhões de postos policiais e 84 milhões de salas de aula! Ora, se a Saúde está em estado terminal, o Transporte está parado, a Segurança está dando medo e a Educação está reprovada, é preciso que cobremos: em que “boite” está indo parar o nosso dinheiro?

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12/10/2011 às 14:25


Reprodução

Reprodução / A vingança do timão: o livro que mais marcou a minha vida!A vingança do timão: o livro que mais marcou a minha vida!

Hoje é dia das crianças. Qual é o presente que você comprou para as suas? Pergunto logo sobre os presentes, porque, infelizmente, parece que foi a isso que a data se reduziu. O dia das crianças deveria ser mais do que isso. Sabem quais são os melhores presentes para as crianças? O pai presente, a mãe presente, a família presente, os professores presentes, os amigos presentes, o Estado presente, a sociedade presente...

Mas hoje é feriado, a criançada corada quer rasgar os pacotes coloridos, brincar até cansar (ou até receber outro embrulho) com os brinquedos mais legais dos últimos trinta segundos, e venho eu com esse papo? Tudo bem, eu paro. Deixemos a reflexão para outro momento – os lojistas agradecem. Até porque, reconheço, também é preciso dar uns passinhos conforme a música. Assim como um tapinha (bem “inha”, quase um carinho) não dói, um presentinho também não. Por isso, dou a dica do presente perfeito para este dia das crianças: um livro! Sim, afinal, hoje também é dia nacional da leitura! É ou não é o presente perfeito para esse dia? Calma, não é preciso devolver na loja o bonequinho americano feito na China, mas, além dele, dê um livro adequado à faixa etária de sua criança – ela e a sociedade agradecerão, ainda que no futuro.

Para aquelas crianças que já leem com facilidade (talvez não mais exatamente crianças, mas pré-adolescentes ou já adolescentes, que continuam querendo e ganhando presentes no dia das crianças), eu dou uma dica de livro. Antes, uma história. Há alguns anos, durante uma espécie de entrevista coletiva em que este repórter virou entrevistado, ouvi a seguinte pergunta: “qual foi o livro que mais marcou a sua vida?”. Sem titubear, respondi: “A vingança do timão”. Pude notar a decepção de alguns dos entrevistadores, que certamente esperavam que eu desse uma resposta mais “convencional” e “intelectual”, citando algum dos “clássicos” da literatura – aqueles que, traumaticamente, nos são empurrados retina adentro, nos tempos de escola. Mas fui sincero. O livro que mais marcou a minha vida foi um que li pela primeira vez quando tinha dez ou onze anos: A vingança do timão (acho que a última edição é da Quinteto Editorial), do escritor gaúcho (ex-padre e preso político) Carlos Moraes.

Antes que alguém pergunte, respondo: não sou corintiano, torço pelo Botafogo. De fato, o título confunde – e o autor é corintiano. Mas o timão a que o título se refere é um inesperado time de futebol formado por meninos de uma localidade pobre do Rio Grande do Sul, que se preparam para disputar um torneio contra a equipe do colégio da meninada rica. Eu me identifiquei com a história, pois, na época, eu jogava bola na escola particular e no clube dos ricos, no interior do Paraná, e várias vezes enfrentei a gurizada dos times da periferia da cidade – nós tínhamos os uniformes impecáveis, chuteiras lustradas, corpos bem nutridos (no meu caso, até demais) e pouquíssimo talento; eles jogavam com qualquer camiseta de cor parecida, às vezes descalços, tinham corpos franzinos e muita habilidade. Perdi as contas de quantas vezes eu levei dribles desconcertantes de meninos com a metade do meu tamanho e um centésimo da minha mesada. Para eles, do timão dos injustiçados, eram pequenas vinganças. Para mim, eram grandes lições. Uma vez, depois de um jogo na favela, até resolvi dar minhas caneleiras novinhas para um piá que eu marquei (ou tentei marcar, já que nem com pontapés eu consegui pará-lo): para enfrentar as injustiças da vida e a violência dos campos, achei que ele precisava muito mais delas do que eu.

Com o futebol como pano de fundo, A vingança do timão reflete sobre desigualdade social (sutilmente, também sobre drogas e criminalidade), sobre família, sobre o primeiro amor e as demais crises da (pré-)adolescência, enfim, sobre todos os aspectos da vida de um jovem. A certa altura, Tucano, personagem principal, elabora: “A vida é engraçada. Às vezes, vem alguém todo certinho e nos inferniza a vida. Às vezes, vem alguém de bicicleta sem freio, rolando coxilha abaixo e nos ordena as coisas”. Indiscutível. Impossível não se identificar.

Na verdade, A vingança do timão é um livro para todas as idades. Quando criança, eu o li dezenas de vezes. Já adulto, encontrei-o em um sebo e fiquei com os olhos marejados. Comprei-o e li mais algumas vezes. Depois, descobri que o livro ganhou o prêmio Jabuti de 1981 (eu não era nem nascido), na categoria infanto-juvenil, que é leitura recomendada de muitas escolas e que há até uma comunidade no Orkut de pessoas que tiveram suas vidas marcadas pela obra. Encontrei, inclusive, uma crítica da revista Placar, de 3 de abril de 1981, afirmando que o livro era (é) um golaço, num país em que eram (são) raras as obras sobre futebol: “Não é um livro sobre o Corinthians, como pode parecer, e nem é apenas para os jovens. É, isso sim, leitura obrigatória para todos que já entraram num campo de futebol e um dia sonharam – de olhos abertos ou fechados – em ser o artilheiro, o herói do grande espetáculo da bola”. É, enfim, um grande presente!


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Agudas

- Esta é a publicação n.º 50 deste blog: cinquenta reflexões sobre os dias da vida deste Dias da vida. Há 35 anos, outro Dias da vida atingia uma marca cem vezes mais expressiva: meu avô paterno, José Wanderley Dias, publicava na Gazeta do Povo sua crônica n.º 5.000. De lá para cá, o Brasil melhorou e os meios de comunicação evoluíram. Já o cronista... Pobre de mim, ou de vocês, que me leem: meu avô escrevia muito, cem vezes mais e melhor do que eu (ou duzentas, já que ele passou das dez mil crônicas). Eu já suspeitava disso há bastante tempo, mas tive certeza quando comecei a ler seus livros de crônicas. “Dono de um verbo eloquente, o autor sabe dizer a palavra certa, no momento oportuno”. Quem fez esse elogio a meu avô não fui eu; foi Helena Kolody, ao apresentar o último livro dele, Ao som das flautas de bambu, de 1991. Se uma Helena Kolody afirmasse algo assim a meu respeito, acho que eu pararia imediatamente de escrever. Aliás, pararia com tudo. De tempos em tempos, um sorriso afloraria no canto da boca e eu murmuraria: “Dono de um verbo eloquente, o autor sabe dizer a palavra certa, no momento oportuno” (mais ou menos como o publicitário da famosa crônica do Verissimo). Meu avô escreveu até dias antes de passar para o “outro lado da rua da vida”, como ele costumava falar. Eu também pretendo escrever até o dia em que o sinal abrir e eu puder atravessar – espero que em uma faixa iluminada nas nuvens, com São Pedro vestido de guarda de trânsito e parando o tempo para eu cruzar em segurança. Se isso demorar a acontecer (oxalá), talvez eu consiga chegar às cinco mil crônicas. Provavelmente, não deixarei marcas tão significativas quanto as que meu avô deixou. Tudo bem. Já fico um tanto satisfeito por publicar este quinquagésimo texto, por às vezes receber alguns comentários (elogiosos ou não) e por aprender sempre. Como meu avô escreveu na intitulada Crônica número 5.000: “A grande mestra é a vida; os grandes catedráticos no assunto são os viventes; o aprendizado só é possível em convivência, em coexistência. Isso, que aprendi, procurei comunicar”.

- Outro que aprendeu muito com a vida e com seu avô foi o fantástico José Saramago, como se lê em seu discurso proferido na cerimônia de entrega do prêmio Nobel, há 13 anos. Aproveito para citar Saramago, pois é dele o livro que mais me impressionou em minha vida adulta (até o momento): Ensaio sobre a cegueira. Mas esse não é para as crianças.

- Quer mais opções de livros infantis? Veja aqui, em matéria da Gazeta do Povo.

- Por fim, peço desculpas aos leitores: na semana passada, por problemas técnicos (com meu computador), não consegui publicar a crônica de sexta-feira. Extraordinariamente, publico nesta quarta e volto a publicar na sexta-feira da semana que vem!


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30/09/2011 às 08:57


Sir Richard Steele e Washington Irving / Wikimedia Commons

Sir Richard Steele e Washington Irving / Wikimedia Commons / De toga, sem toga: há bandidos vestindo todos os modelos de roupa e atuando em todas as áreasDe toga, sem toga: há bandidos vestindo todos os modelos de roupa e atuando em todas as áreas

Alguém aí duvida que existam magistrados bandidos? E médicos safados? E policiais corruptos? E jornalistas mentirosos? E advogados trapaceiros? E padres pedófilos? Se você duvida, prepare-se para uma revelação que vai mudar a sua vida: tudo isso existe e, pior, Papai Noel não existe! Mas, calma, não é preciso perder as esperanças. Nem todos são maus. Também há os bons (diz-se, inclusive, que são a maioria e que bebem refrigerante). Há até, acredite, políticos honestos – que los hay, los hay.

Gracejos preliminares à parte, todos nós sabemos que há gente (mais ou menos) boa e gente (mais ou menos) ruim em todo lugar, ocupando toda espécie de cargo e vestindo todo tipo de roupa, inclusive a toga. Eu sei disso. Você sabe disso. A torcida do Flamengo sabe disso (está lá no cartaz: “Eu já sabia”). A ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, mostrou que, claro, sabe disso, ao afirmar recentemente que a magistratura “hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga”. Mas, incrivelmente, tem gente que parece não saber disso, gente que ainda deve esperar pelo Papai Noel na madrugada de Natal – ou, pior, que finge não saber e quer viver (ou fazer com que os outros vivam) uma ilusão.

Como se vem acompanhando pela imprensa, o ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criticou veementemente as afirmações da corregedora. Em nota de desagravo, que Peluso leu na frente de Eliana Calmon, o Conselho repudiou as declarações “que de forma generalizada ofendem a idoneidade e a dignidade de todos os magistrados e de todo o Poder Judiciário”. Penso que se combate com muito exagero as generalizações. Quase nunca elas são, efetivamente, generalizações, que abrangem todo um conjunto ou uma classe. Dizer que há “problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga” é muitíssimo diferente de dizer que “todos os magistrados são bandidos” – essa sim uma verdadeira generalização, e absolutamente incorreta.

Aliás, em março deste ano, em seminário sobre segurança pública realizado em São Paulo, o próprio Peluso, que repudia “generalizações”, disse que a corrupção policial é uma “questão crônica” no país. Na ocasião, ele citou três ou quatro casos de corrupção policial. Poderia citar centenas, certamente – assim como se poderiam citar diversos casos de corrupção na magistratura (já se puniu até ministro de tribunal superior por desvios). Por que o presidente do STF falou abertamente da corrupção policial? Porque todo mundo sabe que há policiais corruptos, ora essa! São todos? Não! Mas eles existem! E é motivo para os policiais perderem tempo negando o inegável? Não! É motivo, sim, para eles se esforçarem para acabar com a corrupção!

Enfim, como cidadão que sabe que há bons e maus magistrados (e que os bons são, realmente, a grande maioria), deixo aqui meu apelo ao CNJ, que tanto bem vem fazendo ao Judiciário (e espero que continue assim, com seus poderes de investigação e punição intactos), e aos magistrados que se sentiram ofendidos com as obviedades ditas pela ministra (como o óbvio é ignorado nesse país): não fechem os olhos, não finjam acreditar em Papai Noel! Uma infiltração não é uma inundação. Mas pode vir a ser, se ignorada. O espírito de corpo pode colocar tudo a perder: a infecção em um membro, se não for contida, pode se espalhar para todo o corpo. Às vezes, é melhor cortar a mão para não perder o braço. É triste, é dolorido, mas é como as coisas funcionam no mundo real. E todo mundo sabe disso, ou não?


Sérgio Moraes / Ascom / AGU

Sérgio Moraes / Ascom / AGU / A corregedora Eliana Calmon e o ministro Cezar Peluso, antes da A corregedora Eliana Calmon e o ministro Cezar Peluso, antes da "crise": muita briga por algo que todo mundo já sabia


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Agudas

- Concordo com a Dora Kramer: a reação desmedida dos magistrados ofendidos com as afirmações da ministra Eliana Calmon foi tiro nos pés bem calçados. Se não houvesse tanta revolta, as declarações da corregedora não teriam repercutido tanto.

- Se eu fosse o Peluso, presidente do CNJ, ficaria feliz por saber que minha corregedora está atuando com seriedade e firmeza, identificando a existência de bandidos de toga e trabalhando para extirpá-los e fazer do Judiciário um Poder livre de corrupção (já é o menos corrupto, na minha opinião) – afinal, em última análise, é essa a função da corregedora.

- A nota de desagravo do CNJ afirma também que as declarações da corajosa (no Brasil, é preciso ter coragem para dizer a verdade) ministra Eliana Calmon “desacreditam a instituição perante o povo”. Ora, alguém duvida que o Judiciário (como todos os outros Poderes e quase todas as instituições) já está, há muito tempo, desacreditado perante o povo? O último dado do Índice de Confiança da Justiça (ICJBrasil, elaborado pela Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas), do quarto trimestre de 2010, mostra que a população dá nota 4,2 ao Judiciário – nada menos que 64% das pessoas ouvidas pela pesquisa disseram que a Justiça é pouco ou nada honesta.

- Aliás, já está na hora de se abandonar esse “paternalismo” incapacitante, essa ideia de que não se pode falar uma verdade porque “todo mundo vai entender errado”, esse argumento ultrapassado segundo o qual o povo não entende nada direito e, por isso, é preciso iludi-lo com “mentirinhas” (“não existe nenhum bandido de toga”), como se faz com as crianças (“hoje à noite o Papai Noel vem”). Chega de pensar que todos os brasileiros são ignorantes (muitos são, nem todos)! Essa sim é uma generalização maléfica!

- Antes de terminar, quero confessar uma coisa: sou um grande admirador da magistratura. Penso não haver tarefa mais difícil a um ser humano minimamente consciente do que julgar os atos de outra pessoa, praticamente uma atribuição divina – tanto que se diz que “só Deus pode julgar” (infelizmente, alguns magistrados acham que julgar é fácil... pensam que são deuses). Quando comecei a estudar Direito, tinha certeza de que queria ser magistrado. Hoje, formado, já não sei... Se um dia eu sentir que é minha vocação, quem sabe... De qualquer forma, desejo sorte a todos os que já seguem ou pretendem seguir o caminho da magistratura. Espero que vocês tenham feito essa opção por amor à justiça, por apego à verdade, e não pelos três S (segurança, salário, status). Assim, um dia, espero, poderemos duvidar da existência de bandidos de toga.


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E você, o que pensa sobre o tema? Comente abaixo ou pelo Twitter!

23/09/2011 às 18:36


Arte sobre imagens de Wikimedia Commons e de Vitezslav Valka / Stock.Xchng

Arte sobre imagens de Wikimedia Commons e de Vitezslav Valka / Stock.Xchng / Pensando no horóscopo...Pensando no horóscopo...

Nunca fui de ler horóscopo – nunca diga nunca. Comecei de uns tempos para cá. Culpa do trânsito, dos sinais vermelhos. É que paro todos os dias em algum semáforo em que se distribui o Metro, aquele jornal gratuito que existe em quase todo o mundo. Nada contra o tabloide, que é bem feito e tudo, mas eu trocaria todas as suas edições por viagens sem sinais vermelhos da minha casa até o centro da cidade. Como isso é impossível, sempre abro a janela e pego uma edição do diário. E, a partir do sinal vermelho seguinte, passo a ler o jornal. Dez sinais fechados adiante, já não há mais nada para ler, a não ser o horóscopo – e algumas velhas propagandas de novos empreendimentos imobiliários. Com os preços dos imóveis nas alturas, em algum lugar entre Netuno e Plutão (o que me deixa plutão, por sinal), fico com a astrologia do jornal, que é de graça.

Se é verdade que grande parte das “previsões” sobre o meu signo se revelaram bastante equivocadas, confesso que outras tantas acertaram em cheio. Sempre algo bom, para minha sorte. Até que hoje, sexta-feira, 23 de setembro, o tal horóscopo prevê o seguinte: “Touro – Sua criatividade vai estar um pouco confusa, isso será ruim no seu trabalho e estudos”. Nunca havia tido (ou nunca havia notado) nenhuma previsão ruim. E me vem logo essa. Justamente a mim, um pobre e naturalmente limitado cronista. Se eu trabalhasse como legislador, talvez a falta de criatividade fosse algo positivo: eu não ficaria me coçando para inventar mais uma efeméride imbecil (o dia de qualquer coisa), por exemplo. Mas eu trabalho escrevendo, tentando ser minimamente original – vá lá que nem tudo o que escrevo é criativo, mas eu juro que me esforço. E logo hoje, dia de publicar um texto novo neste blog, minha criatividade está “um pouco confusa”!?

Arrasado, corri para ler o horóscopo publicado na Gazeta do Povo: “Touro – Situações desafiadoras exigem que você se posicione com toda a sua força pessoal”. E eu fiz força. Tanta, que quase fundi a cachola, mas não deu certo. Opa! “Fundir a cachola” é uma expressão mais velha do que andar para frente! Vixe! “Mais velha do que andar para frente” é do tempo do Epa! Epa! Perdoem-me, queridos leitores, isso nunca havia acontecido comigo antes... Macacos me mordam, a coisa está preta, desse mato não sai coelho! Minha criatividade foi para as cucuias! Vou ficando por aqui, sem fechar com chave de ouro. Espero que, na semana que vem, o horóscopo não seja uma pedra no meu sapato, e eu possa dar a volta por cima.

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E você, já foi influenciado pelo horóscopo? Acredita nesse tipo de coisa? Comente abaixo ou pelo Twitter!

16/09/2011 às 20:33


Sander Lamme / Wikimedia Commons

Sander Lamme / Wikimedia Commons / Reflexões à beira da janela: uma torre vista a partir de sua gêmea, no World Trade Center, em Nova York (foto de 1992)Reflexões à beira da janela: uma torre vista a partir de sua gêmea, no World Trade Center, em Nova York (foto de 1992)

Olho para os prédios ao redor e tenho crises de insignificância e finitude. Penso em quantas pessoas vivem e trabalham em cada um dos prédios, em suas histórias, suas vidas incertas, suas mortes certas. Por instantes, observando a passagem de vidas alheias, emolduradas por janelas de metal, quase como grades de celas que aprisionam, percebo que a minha também passa, que eu também estou preso à “realidade”. Essas crises duram pouco, pois logo desvio o olhar para algo que faz com que eu volte a mim, como a foto da minha esposa ou a tela do computador em que insistentemente escrevo mais um texto, partes que dão sentido a um todo.

Fazia algum tempo que eu não contemplava os prédios e refletia sobre a existência. Voltei a isso depois de assistir recentemente aos registros dos dez anos dos ataques ao World Trade Center. Como todo mundo em todo o mundo, fiquei muito impressionado com os atentados. Oito anos antes, em 1993, eu havia visitado aquelas torres e almoçado em uma delas – até hoje meu pai me lembra das menores e mais caras pizzas que comeu em sua vida. Dois anos depois do atentado, estive novamente em Nova York, e as torres não estavam mais lá. Em seu lugar, uma cratera imensa – pequena, se comparada ao buraco aberto na humanidade.

Pouco depois dessa segunda visita a Nova York, em 2003, escrevi um pequeno texto sobre minhas reflexões diante da janela, que reproduzo ao fim deste. Hoje, imerso no turbilhão cotidiano, paro pouco para contemplar a vida que passa do lado de fora da minha própria vida. Mas é importante recordar que sempre há alguém lá, do outro lado do vidro, no prédio ao lado, no carro que passa; alguém com as mesmas angústias, com os mesmos medos, na mesma busca por sentido. Quando todos compreenderem isso, não haverá mais aviões entrando pela janela.

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Talvez ela chore, talvez eu saiba

A moça que limpa os vidros parece triste. Ela está longe, no prédio ao lado, mas acho que chora. Acho que vejo lágrimas. Talvez causadas pelo produto químico usado na limpeza dos vidros – “antialérgico e biodegradável”, sei. Talvez causadas pela demissão recém-comunicada – “você é uma excelente colaboradora, conseguirá outra colocação”, sei. Talvez causadas pelo estranhamento da mãe com Alzheimer – “quem é você, eu não te conheço”, sei. Talvez causadas pelo desrespeito do filho – “não me enche, eu te odeio”, sei. Talvez causadas pelo próximo dia do pai, que sempre esteve longe – “está tudo muito corrido, mas um dia eu passo aí”, sei. Talvez causadas pelo caroço no seio, que o exame revelou – “acalme-se, você vai ficar bem”, sei. Talvez causadas pela corrupção estampada nos jornais – “as acusações são infundadas”, sei. Talvez causadas pelas palavras do ex-namorado – “o problema não é com você, a culpa é minha”, sei. Talvez causadas pela situação do rapaz drogado, que se arrasta na sujeira da calçada – “me dá um dinheiro, moça, não é pra droga, é pra comer”, sei. Sei? Talvez. Talvez eu veja um avião batendo no prédio ao lado. Talvez a moça que limpa os vidros veja um avião batendo no prédio em que estou. Talvez ela veja que eu também estou triste. Talvez ela não esteja triste. Talvez seja eu quem chora.

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09/09/2011 às 23:17


Montagem sobre imagens de Kevin Abbott e Ilker / Stock.Xchng

Montagem sobre imagens de Kevin Abbott e Ilker / Stock.Xchng / Vamos deixar os corruptos sem mandato: para eles, é uma fria maior que a SibériaVamos deixar os corruptos sem mandato: para eles, é uma fria maior que a Sibéria

Depois de ler, na semana passada, as irritantes notícias vindas do Congresso Nacional sobre muito crime e pouco (ou pior, nenhum) castigo, aproveitei o feriado prolongado desta semana para uma leitura revigorante: a narrativa de um caso em que o bandido sofre uma crise de consciência por conta de sua conduta criminosa e se entrega à polícia. Seria um refresco para a minha sede de justiça, não fosse o fato de se tratar de ficção (só podia ser): refiro-me ao livro Crime e Castigo, clássico do escritor russo Dostoiévski.

Peço desculpas por contar o final da história, mas, impressionado com a originalidade do desfecho da trama, não resisti à tentação. Originalidade, sim, ao menos para nós, brasileiros – apesar de Crime e Castigo ter sido publicado em 1866. Afinal, estamos acostumados a ver bandidos (especialmente os de colarinhos brancos ou colares de pérolas) negando até a última instância a autoria de crimes dos quais há provas incontestáveis, mentindo descaradamente, sem uma gota de remorso, sem um pingo de vergonha – ao contrário, até com um asqueroso orgulho de ter passado os outros para trás. E ficando sem castigo, é claro.

Protagonista de Crime e Castigo, o jovem Raskólhnikov elabora uma transtornada teoria segundo a qual a humanidade se dividiria grosseiramente em duas classes. Uma classe seria composta por pessoas inferiores, “unicamente proveitosa à procriação da espécie*”, homens “disciplinados, que vivem na obediência e gostam de viver nela*”; enfim, o que hoje se chama pejorativamente de “massa” ou “povão” – no Brasil, com pouquíssima disciplina, convenhamos. A outra classe seria formada por pessoas especiais, “homens extraordinários*”, que, por possuírem “o dom ou a inteligência*” (ou a cara-de-pau, acrescento) para alterarem os destinos da coletividade, teriam um “direito ao crime*”, podendo passar por cima dos outros sem se submeterem a regras – como os “legisladores e os fundadores da humanidade*” (figuras como Napoleão), que “tinham sido criminosos, se mais não fosse porque, ao promulgarem leis novas, aboliam as antigas*” e “certamente não se teriam detido perante o sangue*”.

Infelizmente, muitos dos nossos políticos parecem adotar de maneira torpe a teoria de Raskólhnikov: consideram-se especiais, acima das leis, portadores de um “direito ao crime”. E despudoradamente passam por cima de nós, os obedientes “inferiores” – que rima com eleitores. Na ficção, Raskólhnikov fica realmente doente por conta do turbilhão emocional que acompanha seu crime, mas não deixa de comparecer perante a autoridade policial para prestar esclarecimentos. Na realidade brasileira, políticos corruptos e afins inventam “doenças” para justificar ausências às convocações em investigações das quais são alvos. Na ficção, com muitas ponderações existenciais, o jovem russo se entrega à Justiça. Na vida real, com muitos recursos judiciais, os políticos corruptos brasileiros fogem da Justiça – que não os encontra, apesar de todo mundo saber onde eles estão.

Na Rússia de Dostoiévski, Raskólhnikov, que se julgara um “especial”, acima da lei, foi condenado a realizar trabalhos forçados na Sibéria. No Brasil de nossa gente, os criminosos com mandato ou cargos “especiais” julgam-se acima da lei e, muitas das poucas vezes em que são condenados pela Justiça, são “absolvidos” pelos eleitores. Somos todos Dostoiévskis e podemos escrever nossa História de outra forma, com um final mais feliz para todos nós – e menos agradável para os corruptos. Não precisamos mandá-los para trabalhos forçados na Sibéria (nem podemos), ainda que a vontade seja enorme. Basta que protestemos civilizadamente, mobilizemos nossas forças para uma pressão legítima e democrática contra os corruptos, e, sobretudo, que não os (re)elejamos. Afinal, para muitos dos políticos profissionais (os que são verdadeiros ladrões profissionais do setor público), ficar sem mandato e precisar trabalhar honestamente (se desonestamente, sem a graça do foro privilegiado) é uma fria pior do que a Sibéria.


*DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução de Natália Nunes. Porto Alegre: L&PM, 2007, pgs. 285-287.


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02/09/2011 às 11:57


Efeito sobre imagem de Lee Brimelow / Wikimedia Commons

Efeito sobre imagem de Lee Brimelow / Wikimedia Commons /

O UFC até pode ser coisa de louco, mas, como todo mundo, eu também tenho um pouco de louco. Aliás, talvez tenha muito de louco, pois sou pacífico, tenho pavor de sangue, nunca me meti em briga, mas confesso que gosto de assistir a algumas lutas das tais Mixed Martial Arts (Artes Marciais Mistas) ou MMA, que estão em evidência depois da recente passagem do Ultimate Fighting Championship (UFC), principal evento da modalidade, pelo Brasil. Repito: gosto de algumas lutas. Quais? Principalmente aquelas que apresentam mais técnica e menos sangue, aquelas em que não se arrebenta o adversário depois que ele já está caído. Enfim, aquelas que parecem lutas mesmo, não brigas.

Assisti em um bar de Curitiba ao UFC que ocorreu no Rio de Janeiro, no final do mês passado. Durante uma das lutas, enquanto os lutadores se batiam, lembrei-me dos meus tempos de escola, na década de 1990. Toda semana havia brigas nas imediações do colégio. Eu ficava aterrorizado com a possibilidade de me envolver em algumas delas, de ouvir o temível “te pego na esquina”. Por incrível que pareça, meu medo maior não era de apanhar, mas de bater. Nunca suportei a possibilidade de machucar alguém voluntariamente. Quando eu brigava com meu irmão mais novo, dava socos em seus braços, mas nunca ousei atingi-lo de forma mais contundente. Ou melhor, reconheço: uma única vez, depois de uma sessão de provocações, eu acertei um soco no nariz do meu irmão. Tínhamos uns 12 anos. Até hoje recordo a dor que senti ao perceber a dor que o havia feito sentir. Fiquei apavorado com o sangue, e eu mesmo o levei até minha mãe – chorando mais do que ele.

Naqueles tempos, eu via nas brigas de escola uma espécie de “código de conduta”. No fundo, ninguém parecia querer machucar e ser machucado – às vezes, os contendores ficavam apenas se encarando, empurrando-se, visivelmente esperando que alguém os separasse o mais rápido possível. Quando acontecia de alguém acertar o adversário, derrubando-o, a briga parava até que o outro se levantasse – era como o bom e velho boxe que eu assistia de madrugada. Se alguém sangrasse, quase que se pediam desculpas pela violência. Mais tarde, já saindo da escola, comecei a perceber que a coisa estava ficando mais séria, que o empurra-empurra estava virando briga de rua mesmo, com direito a soqueiras de metal e tacos de baseball – lembro-me até de um briguento que apareceu com tachinhas adaptadas nos bicos de seus tênis. Era o início da era da covardia – uma era que, infelizmente, ainda é. Nessa mesma época (coincidência?), começou a se popularizar o Vale-Tudo, luta de nome autoexplicativo: valia (praticamente) tudo mesmo. Até cheguei a assistir a algumas dessas lutas, mas não tive estômago para continuar: aquilo não era luta, era selvageria. Desisti de acompanhar a modalidade no dia em que vi um lutador “bater um pênalti”, com a cabeça do adversário como bola. Felizmente, a “bola” não saiu do estádio. Mas eu saí da frente da televisão.

Só voltei a assistir à modalidade quando ela mudou de cara (continua deformada, mas as plásticas já a fazem até simpática), chutando para fora o “vale-tudo” e acabando com alguns golpes covardes, como o pontapé na cabeça do adversário caído. Hoje, acho até que as MMA, rigidamente reguladas, podem servir para baixar a febre de violência que sempre esquentou os ânimos da humanidade. É fato: infelizmente, nunca vivemos em um mundo perfeito, com pôneis benditos saltitando alegres e gente se abraçando em ringues de harmonia. E não dá para nadar contra uma corrente tão forte quanto a criada por essa modalidade, que cresce a olhos vistos (e roxos) no mundo todo. Proibir esse tipo de evento de luta, como alguns defendem, seria um soco no próprio rosto: na clandestinidade, a coisa ficaria ainda mais feia. O jeito é usar a modalidade de maneira positiva, estimulando um direcionamento menos perigoso da ferocidade que transborda de alguns. É como dizem: “não brigue, lute” (da mesma forma que se diz, para quem gosta de dirigir em altas velocidades: “se quer correr, vá para o autódromo”). Para isso, é fundamental que as MMA tenham (já têm, mas é preciso reforçar cada vez mais) princípios e regras rígidas, eventos bem organizados e fiscalizados, com médicos e juízes preocupados em preservar (na maior medida possível) a integridade física dos participantes, e lutadores que se esforcem para mostrar que pode existir um esporte por trás da pancadaria (o Milton Neves duvida e chama a modalidade de “não-esporte”), tratando-se com respeito e pregando (e praticando) a não-violência fora dos octógonos. Como escreveu o jornalista Sidney Rezende, em artigo sobre o UFC: “A recomendação mais sensata não é acabar com lutas, que existem desde que o ser humano passou a viver em grupo, mas impor regras absolutamente dignas e que impeçam a destruição da vida humana sadia”.

***


Agudas

- Fui instigado a escrever este post por um leitor do blog, que, ao comentar o texto da semana passada (A pergunta difícil do menino sujo), pediu minha opinião sobre o UFC. Ele escreveu que, assistindo ao evento, ficou “extremamente assustado com a reação do público”, já que, enquanto um lutador “macetava o rosto do oponente, a multidão gritava enaltecida, enfurecida e vibrante”. E completou: “Fiquei muito chateado por perceber que continuamos sendo ‘homens das cavernas’”. De fato. Confesso que também tenho um pouco de homem das cavernas (todos temos, em alguma medida, creio) e vibrei com as vitórias dos brasileiros – mas também fico agoniado com os golpes mais violentos, como os socos no rosto do lutador caído (acho que os juízes deveriam interferir com ainda mais rapidez do que fazem hoje).

- Aliás, soube que houve briga entre os clientes do bar em que assisti ao UFC Rio, depois que eu já havia ido embora. Pode ter sido por conta da inflamação dos ânimos causada pelo evento? Pode. Mas esse tipo de coisa acontece (até em maior dimensão) em jogos de futebol, por exemplo – já soube de briga até em bingo de igreja. A culpa não é do evento, mas de algumas pessoas descontroladas, incapazes de refrear instintos e resolver conflitos por meio do diálogo, covardes que chutariam um “oponente” caído, estivessem eles em um bar, em um ringue, em um estádio, no trânsito ou em casa.

- Há quem diga que as MMA estão acabando com o boxe. Se não estão, parece, infelizmente. Sou do tempo em que se ficava acordado até altas horas da madrugada para ver o Mike Tyson nocautear o adversário em 30 segundos, sem tanto sangue como se vê nos octógonos de hoje. Aliás, eu gostaria mais das MMA se fosse adotada a regra do boxe que dá 10 segundos para o agredido se levantar antes de ser confirmado o nocaute. Poderiam ser cinco segundos. Não levantou? Nocaute! Essa regra protegeria o lutador de continuar levando pancadas enquanto estivesse caído – uma cena que impede que muita gente goste da modalidade. O agressor só poderia ir para cima do adversário caído se fosse para imobilizá-lo, forçando a desistência, com técnicas de jiu-jitsu, por exemplo. Enfim, acho que as MMA (sobretudo, via UFC, por ser o maior evento do gênero) vão conquistar ainda mais adeptos quando tiverem menos sangue e menos golpes vistos como covardes por boa parte das pessoas (eu, inclusive), sobretudo os que atingem o adversário caído. E quem quiser ver muito sangue, que vá para um açougue. E quem quiser golpear gente no chão, pelo simples prazer de machucar seu semelhante (os lutadores de verdade não sentem prazer em agredir o outro, apenas querem vencer a luta), que vá para a cadeia – ou para o hospício.

- Escrevi tudo isso, mas não sou especialista. Sou apenas um espectador que gosta um pouco e se preocupa muito com as MMA. Para acompanhar notícias sobre a modalidade, com opinião de gente especializada, recomendo outro blog deste portal: Luta Livre.

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