Divulgação

Sei que não sou a única. É só passear pela seção de autoajuda de qualquer livraria e sentir que tem bastante gente que também se sente perdida. Não é isso que me assusta – acho normal nos questionarmos sobre o que estamos fazendo (ou se estamos fazendo certo) nessa vida. O que me pega é ter tanta gente se sentindo confiante o suficiente para oferecer respostas!
Quem são essas pessoas que escrevem livros, estrelam reality shows e dão palestras se propondo a ensinar como viver melhor? Essa onda não é nada nova - dois exemplos históricos com resultados bem diferentes me vêm à mente: Rasputin e os Romanov (excelente nome para uma banda!) e o guru Maharishi Yogi e os Beatles - mas parece que recentemente este fenômeno tem se alastrado. Faz lembrar o Fernando Pessoa: “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”.
E sem querer me botar de professora aqui (o que iria contra o meu próprio propósito), mas sinto que mais importante do que aprender com os acertos de quem já sabe é ir atrás dos erros pessoais ou coletivos, reais ou fictícios de quem já errou. Para isso, nada melhor que ir direto à fonte: “O Diário de Anne Frank” me ensinou mais sobre a estupidez do preconceito que qualquer palestra; “1984” me mostrou o horror do fascismo e a necessidade de uma individualidade melhor do que qualquer best seller do momento; um livro que será lançado no Brasil este ano, “Infinite Jest”, me abriu mais para a humildade, empatia e consciência do que dez workshops – e melhor ainda, me fez abrir os olhos para como começar a exercer estas virtudes. Ainda estou longe de conseguir colocar tudo em prática. Mas estou no caminho. Errando, vendo outros errarem, enfim, vivendo.
Uma Escola da Vida para brasileiros
Quem quiser procurar uma resposta para minha pergunta inicial pode tentar o intensivo de uma semana da “Escola da Vida”, que acontece em São Paulo no mês de abril. Quem idealizou o projeto foi o filósofo suíço Alain de Botton, que co-fundou a primeira sede da escola em Londres. Os temas tratados pela Escola da Vida já viraram uma série de livros, lançada em Português pela Objetiva. Se existe algum diferencial em relação ao nicho da autoajuda, é que a Escola se propõe a fazer perguntas e botar os alunos para pensar e responder por si mesmos suas dúvidas. Saiba mais aqui.
>> Lívia Lakomy é jornalista e associada da Mensa Brasil.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

São mais crianças com acesso à escola e mais jovens cursando ensino superior; porém, a grande dúvida que assombra é: qual a qualidade disso tudo? A alfabetização é uma atividade complexa que envolve diversos fatores e realizada de maneira processual. Junto dela acontece o letramento, ou seja, ao passo que são apresentados instrumentos e recursos da linguagem para a criança, também é necessário prepará-la para que faça um uso eficaz deles. A medida que vai crescendo, cada pessoa pode se desenvolver ainda mais e atingir níveis cada vez mais elevados de letramento.
Um dos caminhos para que isso aconteça é a leitura. Mas nem essa vem sendo realizada pela população. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 75% das pessoas nunca frequentaram uma biblioteca. Sabemos que livros não são os únicos suportes de leitura. A leitura pode ser na internet, em jornais, placas, rótulos; enfim, são diversas as possibilidades. E ler contribui para que o sujeito possa crescer e entender ainda mais.
Porém, é válido salientar que não se podem transferir responsabilidades. Não basta alfabetizar, é preciso fazê-lo com qualidade, habilitando plenamente os que passam pelo processo. Pouco adianta um indivíduo ter uma overdose de leitura sem estar habilitado suficientemente para saber o que está lendo. Do contrário, não basta ensinar bem, se o saber daquele que aprende não se tornar fazer por conta própria, afinal cada pessoa também é responsável por construir sua história.
Everton Renaud é filósofo, pós-graduando em Organização do Trabalho Pedagógico na UFPR e gestor de projetos educacionais que atuam com mídia e educação no Instituto GRPCOM.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Eu fui um que fiquei chocado ao saber que 85% das escolas de São Paulo não têm acervo de livros, e que no Maranhão as que têm somam pífios 6%. O problema de dados como este são os buracos maiores que eles escondem – acreditem, a tragédia é mais complexa e, como sempre, esbarra na gestão. O que os números ocultam é como funcionam as poucas bibliotecas que existem. Livros fechados em prateleiras são tão inúteis quanto a falta deles. Muitas das escolas que têm um acervo, não têm programas ou metodologias que estimulem a criança e o jovem a abrir um livro e iniciar um gosto pelo universo literário. Não é incomum, Brasil afora, bibliotecas fechadas a chave, com horários de funcionamento curtos; o argumento para isso beira a mediocridade. Em minha vida de repórter cansei de escutar que os livros ficavam guardados porque os estudantes acabam por “estragá-los”.
Não diferente é, muitas vezes, a situação das salas de informática; gestores preocupados em manter os equipamentos “em ordem” limitam o seu uso. Ora, se todas as pesquisas apontam a crise da escola pública como uma questão de apelo e sentido, ou seja, o estudante do ensino evade principalmente porque a escola não cria vínculos com ele, a multiplicação de tecnologias educativas que conectem jovens aos livros à internet deve ser prioridade. Uma questão de gestão porque tange pela enésima vez a formação dos gestores e professores das instituições públicas.
Não nego que o acesso aos livros é um primeiro passo, mas não é suficiente; as bibliotecas precisam existir, mas hoje não há governos que gastem dinheiro em metodologias adequadas. A sociedade civil já desenvolveu dezenas de projetos de círculo de leituras e de produção de comunicação por jovens, mas têm dificuldade em criar alianças com o poder público para multiplicá-las em escala nacional.
Engana-se quem pensa que essa questão é apenas brasileira; as escolas canadenses começaram a sentir falta de frequência nas suas bem equipadas bibliotecas e resolveram isso de uma maneira simples, mas ousada: reinventaram-na, dessacralizando o livro e valorizando a linguagem. A estratégia foi aproximar os vídeo-games do mesmo espaço.
Em entrevista para site Cult Montreal, o CEO do arquivo nacional de Bibliotecas de Quebec, Dr. Guy Berthiaume, diz tratar-se de um efeito semelhante quando os quadrinhos e os jornais passaram a dividir espaço com a chamada “alta literatura”, para atrair públicos mais jovens às bibliotecas; novas linguagens se complementam num mesmo espaço e, segundo ele, uma estimula a outra. Alguns especialistas americanos vão um pouco além; a biblioteca atual deve ser um espaço de eventos, tecnologia e criação. No caso, há o resgate da velha garagem novamente em cena, como espaço criativo. Nesse sentido, devia preocupar os governos menos a meta de construção de 130 mil bibliotecas até o final de 2020, mas o que fazer para que as existentes não se tornem almoxarifados higiênicos ou templos de um saber inalcançável.
>> Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador. Desenvolve projetos interdisciplinares com foco em educação para escolas, governos e empresas. É autor do livro Idade Mídia: A Comunicação Reinventada na Escola, publicado pela Editora Aleph.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Divulgação
O pedido de que se fale da morte de 234 jovens na Boate Kiss está expresso na fala dos pais, amigos e sobreviventes. Dizem com voz embargado – “temos de lutar para que isso não se repita mais...”
A declaração, aliás, é clichê em toda e qualquer tragédia. Basta aparecerem os repórteres de tevê e pimba, sai a frase feita. Os estudiosos dos mecanismos da memória, como, Paolo Rossi, autor de O passado, a memória, o esquecimento (Unesp, 2010) são pródigos em afirmar que “nessas horas” recorremos não a um pensamento original, como é de se esperar, mas ao sentimento comum àquele que nos rodeiam. Passamos a contar uma história coletiva, não propriamente fidedigna, mas passada na régua.
Eis a questão. Quando o ocorrido em Santa Maria começar a ser tratado na sala de aula, o episódio tende a se desvincular das amarras da mesmice e ganhar sentidos. Será tema para tantas batalhas do conhecimento – para tratar da juventude, da violência, da ética, do civismo, da saúde. Mas um tema paralelo, em particular, há de se impor: o da comunidade.
Chama atenção no noticiário a informação de que caravanas de médicos, enfermeiros e psicólogos se mandou para Santa Maria, sem data para voltar. Atendem parentes das vítimas. São hospedados por cerca de duas mil famílias. Os relatos sobre o clima de solidariedade que se impõe, pouco a pouco, por sobre o cinza, é constante, mostrando não ser a impressão de um ou outro repórter, mas um fato tão eloquente quanto o próprio número de mortos e feridos.
Fico pensando em como tratar isso em sala de aula. Recorri ao livro Comunidade, uma das tantas joias raras do sociólogo Zygmunt Bauman. Logo às primeiras páginas ele dá um banho de água gelada. Diz que não existe mais comunidade. Que a sociedade líquida, expressão que lhe é cara, afirma a individualidade e nega o coletivo. Apresenta o outro como um perigo.
Quando estamos prontos a lhe perguntar por que, então, fala-se tanto em comunidade nesse século 21, ele mesmo se antecipa – a comunidade é como o mito do Éden. Nunca mais vamos recuperá-lo. Já perdemos a inocência. Tornou-se mais um ideal do que uma realidade possível. Volto a Santa Maria. Os gaúchos não recuperaram a ingenuidade perdida, é claro, mas precisam acreditar num mundo melhor. Do que contrário, não suportarão a dor desses dias. Suspeito que começaram a construí-lo por esses dias.
A escola, um dos espaços em que se tenta reinstalar o Éden perdido, entende como poucos o que acontece por lá. Saberá interpretar a realidade que se impõe por sobre a surrealidade. E ajudar a redefinir o termo comunidade.
>> José Carlos Fernandes é jornalista, doutor em Literatura Brasileira, professor nos cursos de Jornalismo da PUCPR e UFPR.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Daniel Castellano / Gazeta do Povo

Esta língua, um idioma fictício do romance, era produzida intencionalmente pelo homem. Isso quer dizer que todos os seus vocábulos eram cunhados de forma consciente, com um propósito já determinado. A ideia real dessa nova forma de fala era a supressão de alguns termos – como liberdade – a fim de que o conceito expresso pela palavra em questão desaparecesse também.
Por mais fantástico que pareça, a ideia é absurda, qualquer estudante da linguagem sabe que uma língua é completamente adaptada para o meio em que está inserida. A nomenclatura de algo só surge depois que tal coisa já exista, e não o contrário. Ou seja, quem vem antes é o pensamento, como no exemplo o conceito da liberdade, somente depois é que ele é denominado.
O problema é que atualmente algumas pessoas estão tentando trabalhar com essa ideia de mudança de vocabulário. Estamos vivendo em uma época do politicamente correto, e é inegável que grandes avanços têm sido feitos no que tange questões de preconceitos e direitos iguais, bem como respeito ao próximo. Porém, muitas pessoas acreditam que grande parte dos problemas pode ser resolvido com a mudança de vocabulário.
A questão em si não é o preconceito e nem sua origem, e sim sua expressão. Há uma grande vigília no que é dito, no que expresso e, portanto, há um grande medo de se expressar.
O surgimento do termo “afrodescendente” é um reflexo disso. Não vejo nada de errado em se dirigir a alguém dessa forma, mas também não existe problema com a palavra “negro”, o racismo não está associado ao vocábulo, e sim ao seu uso.
O mesmo aconteceu com as favelas: elas deixaram de existir, o que temos agora pelo país são “comunidades”. Já vi moradores destas ditas comunidades falando que a denominação de favela sugere um lugar sujo e violento, um lugar dominado pelo tráfico e esquecido pelos políticos. Mas a simples mudança de nome não fez com que estes problemas sumissem. Ainda existem comunidades em que a violência impera, em que não há saneamento básico nem segurança.
Outro caso semelhante foi o do Ministério Público Federal em Minas Gerais, que ordenou a retirada de uma das entradas no dicionário Houaiss do verbete “cigano” em que aparecia – pejorativo: ladrão. O juiz alegou que assim a língua ficaria mais limpa, e que o preconceito trazido pela leitura do termo sumiria.
Novamente caímos em um tipo de ignorância. Proibir um livro de publicar um termo não vai eliminar o preconceito. Quem já tem em seu vocabulário pessoal essa definição do termo em questão vai continuar a enxergar dessa forma. O problema real não está no nome da coisa, não surge na palavra utilizada para descrevê-lo – é claro que existem termos que são absurdamente preconceituosos e pejorativos – mas não é o que esta sendo discutido aqui. A questão não é que “afrodescendente” é um termo mais limpo e que “negro” acarreta preconceito. A questão é que mudar a palavra não muda o sentimento.
É louvável a tentativa de acabar com o preconceito, mas o desespero e a ignorância das pessoas que estão fazendo isso só estão tornando situação pior. Estamos vivendo cada vez mais no mundo de George Orwell – em reconhecimento ao talento do escritor, este ano foi celebrado pela primeira vez o “Orwell Day” na Inglaterra. Todos estão se conectando, todos estão se vigiando e tornando-se mais visíveis, algumas coisas precisam ser freadas, algumas atitudes precisam sim ser avaliadas com cuidado, mas o vocabulário não deve ser tratado como a raiz de todos os males.
>> Thiago Chab é mestrando em linguística, professor de português e membro da Associação Mensa Brasil.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Estar só, no silêncio de uma biblioteca ou livraria, nos conduz à serena paz de espírito, tão rara em qualquer outro ambiente. “O livro traz a dupla delícia de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”, – numa oportuna citação do escritor gaúcho Mário Quintana (1906-1994). Sim, o aconchego de um bom livro alimenta a alma.
Ler o que se gosta é um dos grandes prazeres da vida. É bálsamo para as horas de tédio ou de ausência de companhia. O dia termina em conflitos? Ofensas? Socorra-se em Montesquieu: “Jamais sofri qualquer mágoa que uma hora de boa leitura não tenha curado.”
Frente às fortes exigências da vida moderna, podemos experimentar duas formas de praticar a benfazeja catarse: nas páginas de um bom livro e nas caminhadas pelos aprazíveis parques da cidade. Sensação de bem-estar provocada pela serotonina. Está provado que tais atividades equilibram os níveis sanguíneos de adrenalina e cortisol.
Inerente ao ato de ler, há o prazer de citar frases dos autores. Assim, complemento o parágrafo anterior com duas citações: “Uma leitura prazerosa é tão útil à saúde como o exercício do corpo” (Emmanuel Kant); “Quem lê muito e anda muito, sabe muito e vive muito” (Miguel de Cervantes).
Nos últimos anos, o nosso colégio tem trazido a Curitiba escritores da Academia Brasileira de Letras para palestrar aos estudantes. Depois de um desses eventos, sorvendo um copo de vinho numa mesa de jantar, Nélida Piñon instiga Carlos Heitor Cony:
— A leitura é a coisa mais erótica da vida – provoca Nélida.
— A leitura é o maior prazer da vida, depois daquele outro – complementa Cony com um sorriso maroto.
Adentrar numa livraria ou biblioteca – e eu o fiz em centenas de cidades por este “mundo, vasto mundo” – causa uma volúpia inenarrável. Em suas estantes, cada obra a nos mirar, tal qual a esfinge com os seus enigmas. Instigantes são as palavras do escritor Cristovão Tezza: “Os livros vivem fechados, capa contra capa, esmagados na estante, às vezes durante décadas – é preciso arrancá-los de lá e abri-los para ver o que têm dentro.” Ou, tergiversando, os livros se parecem a milhares de conchas garimpadas em águas límpidas ou barracentas, da margem ao talvegue. E folhear as suas páginas equivale ao encantamento de abrir cada concha na busca de maravilhosas pérolas entre moluscos e nácares.
Concluo parafraseando Jorge Luís Borges (1899-1986), ao imaginar uma biblioteca como uma espécie de paraíso. É um espaço de enlevo, democrático e ao mesmo tempo mágico, pois quem lê desenvolve a boa escrita, a oralidade, a análise crítica, o pensamento autônomo, a abstração e a imaginação.
GAZETA - MEL GABARDO

>> Jacir J. Venturi é diretor de escola e autor de livros. Foi professor da UFPR e PUCPR. É vice-presidente do Sinepe/PR, instituição parceira do Instituto GRPCOM.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
Biblioteca Nacional da Espanha
Em Curitiba "500 Quixotes" atuam como agentes de leitura. O desafio é grande, mas a empreitada é encarada com criatividade e entusiasmoPudera. Parece que encontro de professores, via de regra, é feito para lamentar, lavar roupa suja, repetir a ladainha de que esse país isso ou aquilo. Não que não devamos, mas o culto ao fracasso, convenhamos, cansa mais do que a lida. Mas não foi assim dessa vez. Nossa sala de reunião era a biblioteca da Escola Municipal Maria de Lourdes Pegoraro, no Cajuru. Éramos em 12 pessoas, mais ou menos, e não fosse o sol se pôr, ainda estaríamos lá, partilhando experiências de leitura na escola.
Não se disse que nada que não se tenha ouvido. Os livros devem ser valorizados. Biblioteca não é lugar de castigo. Para cativar para a leitura tem de ser criativo. A diferença é que se disse tudo isso com exemplos, e não com conceitos. O famoso “como se faz” reinou no céu da pátria. Contar as estratégias de luta é coisa de gente apaixonada, capaz de fazer das coisas simples da vida um romance. Sabe-se que para fazê-lo é preciso deitar a cabeça no travesseiro e ficar matutando em como conseguir mudar a órbita da terra na manhã seguinte.
Parece ser o método daquelas professoras e professores, engajados no programa, hoje um grupo de nada menos do que 500 Quixotes. A cena da professora Juana Helena Colman, usando da notícia de um tsunami na América Central para convencer o pai mexicano de uma aluna a entrar na biblioteca, e ler, não é apenas hilária, é inspiradora. Quanto ao conceito que veio junto, de contrabando com a história, idem. Não se deve desistir do leitor.
Vejam bem – “não desistir” é uma frase que costumamos dizer quando se trata de um grande amor, de problemas no trabalho, dos parentes mais próximos, das fraquezas da alma que precisam ser vencidas. Mas aqui ela se aplica ao leitor, que para muitos é mais um na massa de brasileiros que, sem pudores, afirmam não gostar de ler. Sabe-se que eles são nada menos do que 55% da população, de acordo com a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.
É gente pra caramba – e esse é o tamanho do problema. Só com convicção no poder transformador da leitura para encarar esse exército tão numeroso e, não raro, disposto a permanecer onde está. Os convictos, à revelia de ser teimosos, tendem a ser criativos, para fazer valer a verdade que lhe corre nas veias. Foi o que percebi naquele dia. Aqueles professores, conversando sobre leitura como quem brinca de roda, tinham sido fisgados de fato pela leitura. Não falavam de abstração, mas de algo experimentado, e de cujas certezas não arredariam o pé.
Hora de ir embora, fazer o quê? Restou olhar para trás, me despedir de Margareth Caldas Fuchs, a cooordenadora do programa, e ter a certeza de que ainda se vai ouvir falar muito em agentes de leitura. Serão tão famosos como os agentes de saúde. Quiçá mais conhecidos que os agentes da rainha Elizabeth. Exagero? Pois dê um pulinho até junto deles para saber do que estou falando.
>> José Carlos Fernandes é jornalista, doutor em Literatura Brasileira, professor nos cursos de Jornalismo da PUCPR e UFPR.
>> Quer saber mais sobre educação, mídia, cidadania e leitura? Acesse nosso site! Siga o Instituto GRPCOM também no twitter: @institutogrpcom.
O que não falta para nós professores são vademécuns – aqueles documentos para carregar debaixo do braço. Vão do livro do Paulo Freire que modificou a nossa vida, e nos ajudou a não arredar o pé da sala de aula, ao último planejamento escolar e suas metas que beiram o impossível. Mas cá entre nós, mal não faria engavetar parte da papelada que nos curva as costas e substituí-la por um texto com sabor de pão quente que acaba de ser publicado. Chama-se Retratos da Leitura no Brasil, está disponível na internet e tem poder de fogo, como vem provando desde sua primeira edição, em 2001.
Divulgação

O efeito dessa pesquisa – agora encabeçada pelo instituto Pró-Livro – é semelhante à provocada por outra, A cabeça do brasileiro, do sociólogo Alberto Carlos de Almeida. Explico. A gente diz a torto e direito que só a educação pode salvar o país. Pois Alberto Carlos mostra em tabelas e mais tabelas, reunidas com a ajuda de perguntas inteligentes e desconcertantes, que quanto mais educada uma pessoa, menos fatalista, sexista e dependente da tutela do Estado ela é.
Pois a gente também diz que o brasileiro não lê, ou que lê mal, que não frequenta bibliotecas e não avança na escolha dos títulos e que por isso mesmo nos engatamos pelas beiras feito gravetos de enchente. Retratos... confirma tudo isso e um pouco mais, oferecendo aqueles dados que sempre sonhamos e nem imaginávamos que um dia pudessem se tornar realidade.
Tanto incenso é para dizer que depois de Retratos... é possível ir além da conversa pessimista na hora dos cafezinhos e entender o bicho que deu nesse país de poucos leitores. A edição de 2012 confirma, por exemplo, que o leitor depende da mãe para se interessar pelos livros, como a gente não cansa de dizer. Mas mostra que de uns tempos para cá os leitores infantes e adolescentes estão à mercê cada vez mais dos professores.
Sabemos o que isso significa: há mais pais ausentes, engolidos pelo trabalho e pela dinâmica da cidade, negligenciando o trato de seus filhos com as letras. E mais alunos entregues aos braços da escola – que ela cuide mais disso. Como não se dá esse ponto se nó, Retratos... aponta diminuição nos índices de leitura de 2008, ano da última pesquisa, para cá. Teríamos perdido 5% de leitores. E passado de 4.7 livros por ano para 4 – o que tirando os livros didáticos, sobre quase nada.
É um bom assunto para os professores na hora de recreio, observando pelo vitrô petizada que corre no pátio, vendendo saúde.
A abstinência dos livros pode ser culpa dos pais, da leitura ainda escolarizada – ditando o que deve ser lido, em que ordem e seguido de uma ficha de leitura, não conseguindo nada mais do matar o leitor no ninho. Mas a diminuição pode ser resultado da concorrência cada vez mais acirrada. Exato, concorrência. Os brasileiros de todas as idades andam lendo muito – “leem” TV a Cabo, mensagens no celular, sites na internet. Leem a arquitetura de outdoors e vitrines oferecida pelas ruas. Leem e se leem nas mídias sociais.
Não chega a ser mal. A questão é que no meio disso tudo, têm de arrumar tempo e lugar para o livro – que acaba ficando para depois, pois à medida que a idade avança, e que os pais e professores influenciam menos, mais os livros parecem uma prática do século 19. Por que digo isso?
Por que nas entrelinhas a pesquisa Retratos... parece gritar no nosso ouvido se achamos ou não que ler romances, poesia, ensaios ainda é importante. E nos põe à parede para saber se nos alistamos na turma do tanto faz. Ou se estamos afinados com a galera que diz que toda forma de leitura vale a pena, subentendo não serem necessárias competências diferentes para cada uma delas.
É conversa afiada. Pode pautar parte da vida escolar daqui pra frente. Pode marcar o dia em que deixamos passar o debate mais importante da educação nos últimos tempos. Melhor ficarmos espertos: Retratos de Leitura debaixo do braço.
>> José Carlos Fernandes é jornalista, doutor em Literatura Brasileira, professor nos cursos de Jornalismo da PUCPR e UFPR.
>> Quer saber mais sobre educação, cidadania, mídia e leitura? Acesse nosso site! Siga também o Instituto GRPCOM no twitter: @institutogrpcom.
A vovó já dizia que “as palavras comovem, os exemplos arrastam”. Mas não se trata de uma frase cheirando a naftalina. Trata-se, como se dizia nos tempos do Leite de Rosas, de “uma verdade cristalina” – em especial na educação, onde cada gesto dos educadores é um espelho para educandos. E não chamem isso de conversa fiada para, digamos, “reduzir a complexidade do debate educacional”. O efeito dos exemplos pode ser comprovado estatisticamente, fornecendo dados para moldar os programas e virar o jogo.
Os leitores bem se lembram dos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, lançado em 2008 [a próxima edição sai no final de março]. Pois são pródigos. Mostram com porcentos e quetais que pais estudiosos são modelo para seus filhos e tendem a alçá-los à mesma condição. Que filhos acompanhados por pais nas tarefas escolares têm desempenho melhor, inclusive de sociabilidade. Que as pessoas que ganharam livros de presente algum dia na vida tendem, em sua maioria, a ser leitores. Não deixa de ser um exemplo – se o livro é presente, aprendo a valorizá-lo. Sugiro a vovó para ministra da Educação.
Mas a conversa não acaba assim, parecendo uma bronca na antiga aula de Moral e Cívica. Andamos à volta, como nunca, com a teoria dos exemplos. A dizer: nos últimos cinco anos o que mais se fala no país é na ascensão da Classe C. De acordo com o Data Popular, ela é responsável por nada menos do que 71% do consumo no Brasil e congrega algo como 63 milhões de pessoas. Tornou-se a menina dos olhos.
Não é novidade, eu sei. A novidade, em se tratando da Classe C, é que ela cada vez menos se diferencia pelo número de eletrodomésticos, de banheiros na casa e de itens de consumo e cada vez mais é identificada pelos anos passados na escola. Alala-ô! Já não era sem tempo de a gente seguir os nórdicos e contabilizar o capital humano, acima de tudo – principalmente acima das tralhas eletrônicas que são, a rigor, um problema para os aterros sanitários.
Mas eis que nos surge um problema do tamanho do lixão de uma grande cidade. E diz respeito aos exemplos, o que francamente não é o nosso forte. Do contrário, filho de político estudaria na escola pública e usaria transporte coletivo, né.
GAZETA - Marco Andre Lima

E é esse o problema – o brasileiro que felizmente sai da linha da pobreza olha para frente e não vê, na classe média estabelecida, gente com livro na mão ou mudando sua relação clientelista com a escola. Como tende a copiar aquilo que planeja ser, copia também as coisas ruins. Perigo, perigo.
Em miúdos, os milhões de brasileiros que saem da zona de exclusão para a classe média baixa, e da média baixa para a intermediária estão mais propensos a comprar seios de silicone e automóveis do que empenhar os caraminguás na educação e na leitura, estacionando na frente de uma livraria. Como resolver isso, sabe-se lá.
Mas não custa nada olhar ao redor do mundo. A Índia, por exemplo. Assim como no Brasil, o país de Gandhi fez seu “arrancadão” no sistema de ensino, finca os pés entre os grandes, com sarongues e vacas na feira, banhos no Ganges e tudo. E ostenta índices de leitura briosos como nunca. O motivo é só um – a nova classe média indiana tem tanto nos colonizadores ingleses quanto na elite intelectual local a imagem de homens e mulheres com livros e jornais nas mãos. Quer ser como eles e os imita.
Já que a gente não tem o poder de criar salas de leitura nos shoppings, nem de convencer nossa elite da sua responsabilidade de ser exemplo nesse momento tão lindo, dá para aplicar mais um ensinamento da vovó: “façamos a nossa parte”. Sugiro que sejamos “leitores em praça pública”. Isso – quem vê alguém lendo no banco, no ônibus, num intervalo qualquer, fica sempre ressabiado. Epa! Para carregar um livro e um jornal, na bolsa cara e no banco traseiro do carro novo, é porque deve ser bom. Simples como isso. Experimente.
>> José Carlos Fernandes é jornalista, doutor em Literatura Brasileira, professor nos cursos de Jornalismo da PUCPR e UFPR.
>> Quer saber mais sobre educação, cidadania, mídia e leitura? Acesse nosso site! Siga também o Instituto GRPCOM no twitter: @institutogrpcom.
Tenha a Gazeta do Povo a sua disposição com o Plano Completo de assinatura.
Nele, você recebe o jornal em casa, tem acesso a todo conteúdo do site no computador, no smartphone e faz o download das edições da Gazeta no tablet. Tudo por apenas R$ 51,90 por mês no plano anual.
Só o assinante Gazeta do Povo Digital tem acesso exclusivo ao conteúdo do site, sem nenhum custo adicional ou limite.
Navegue com seu celular ou baixe todas as edições no tablet - um novo jeito de ler jornal onde você estiver.