Terça-feira, 22/05/2012
Hoje tive o prazer de voltar ao Anfi-teatro 400 do prédio da General Carneiro da UFPR.
Há dez anos atrás eu freqüentava o prédio como aluno do Mestrado em História da UFPR.
Desta vez estive lá participando como convidado na Semana Acadêmica de História, dividindo a mesa com o colega historiador, músico e professor Fábio Poletto, da EMBAP.
Ambos fomos colegas na graduação, na pós, no mestrado e no doutorado. Uma amizade de longa data e um companheirismo em muitas aventuras acadêmicas, passando pelas dificuldades que acossam os estudantes e pesquisadores das áreas de Ciências Humanas e de Artes no Brasil.
Agora estávamos lá, os dois felizes por voltar à velha casa, e dividindo experiências com a nova geração de historiadores que estão se formando no glorioso DEHIS-UFPR.
Tivemos um interessante bate-papo sobre pesquisa em história e música, comentando nossos trabalhos, problemas metodológicos, concepções teóricas, fontes, arquivos, documentos, entre outras coisas.
Divulgação
A Música segundo Tom Jobim constrói narrativa a partir de sequência de canções sem muita preocupação com linearidade ou ordem cronológica(Ao lado, Tom Jobim, tema das pesquisas do prof. Fábio Poletto)
Casa cheia, audiência muito interessada, perguntas instigantes - tudo concorreu para um evento muito proveitoso, como tenho certeza que está sendo toda a programação da semana. Embora os compromissos diversos não me permitam acompanhar todo o evento.
Os slides que fiz para organizar minha fala e lembrar as coisas que queria discutir com o pessoal estão aqui.
Espero que as questões discutidas na semana levantem o interesse de novos pesquisadores para trabalhar com música no âmbito da história. Um assunto que tem muita coisa interessante para se fazer, e carecendo de abordagens coletivas e interdisciplinares.
Algumas das coisas que discutimos lá já são assunto neste blog e em outros lugares onde escrevo, então vão aqui alguns links:
História e música: os anos 60 - minha palestra no IFPR
José Miguel Wisnik - Machado maxixe: o caso Pestana
Sobre a relevância dos departamentos de música em Curitiba
Não temos na cidade um departamento de música significativo no meio acadêmico brasileiro.
Eu escrevi a frase acima num dos últimos textos que publiquei aqui no blog:
Curitiba pode ter música popular?
Era um texto comentando a absurda ação da polícia contra os foliões que curtiam o prá-carnaval do bloco Garibaldis e sacis. O contexto geral da frase acima era mais ou menos o de dizer que Curitiba já não é um polo de música clássica, e que deveria aceitar o fato de que está assumindo alguma importância na música popular.
Logo depois que publiquei o texto, a frase citada foi motivo de uma interessante conversa com o prof. Álvaro Carlini, que questionou minha afirmação, e levantou algumas questões sobre a relevância do curso de música da UFPR.
Desde então, fiquei devendo um texto sobre o assunto, que tratasse a questão com a produndidade que ela merece. Como o tempo para uma reflexão aprofundada nunca chega (como se pode perceber pela demora de mais de 3 meses para voltar ao tema), acabo fazendo mais um texto geralzão mesmo.
Mas ao menos espero esclarecer um pouco melhor o que penso sobre a questão, aproveitando para fazer uma análise geral da situação da música na academia em Curitiba.
Hoje temos 4 Instituições Ensino Superior que oferecem cursos de música em Curitiba: PUC-PR, UFPR, EMBAP e FAP.
O curso da PUC ainda é muito recente para ser avaliado. Entretanto, vários fatores apontam para limitações sérias da música como Departamento Acadêmico na instituição.
Em primeiro lugar, a PUC, apesar de ser uma instituição comunitária e confessional, tem comportamento de Instituição Privada. Ou seja, as limitações para se construir um departamento de música academicamente significativo estão todas atreladas a uma questão básica: não é interessante manter um curso cujas despesas não sejam pagas pelas mensalidades dos alunos.
A possibilidade de que um curso de música se pague por esta contabilidade simplória são absolutamente nulas.
Ou seja, o curso da PUC esbarra na limitação de ter de atrair alunos capazes de pagar mensalidade, ao mesmo tempo que as instituições públicas da cidade oferecem outros 7 cursos de graduação em música gratuitos para o aluno.
Nenhuma possibilidade de se construir um departamento universitário relevante por esta via.
Aniele Nascimento/ Gazeta do Povo
Embap: perplexidade diante do resultado do Índice Geral de Cursos do MECA grande limitação da EMBAP é que ela se estrutura como conservatório, e não como departamento universitário. Os cursos de Licenciatura em Música, Bacharelado em Instrumento e Bacharelado em Composição e Regência contam com um bom corpo de professores de instrumento. A EMBAP possui também um importante setor de atendimento à comunidade com os cursos de extensão, já muito tradicionais.
Ou seja, a EMBAP é o principal centro de formação de instrumentistas, cantores e regentes em Curitiba. Ali estão os melhores professores de instrumento e canto da cidade.
Mas a EMBAP não tem estrutura de pesquisa universitária, tem um corpo docente bem grande mas de pouca titulação, pouca produção científica e pouca articulação com outros departamentos universitários, agências de fomento, etc.
A FAP vive situação semelhante à EMBAP em certo aspecto. Ambas são faculdades isoladas (no sentido de não pertencentes a uma universidade) mantidas pelo governo do estado.
Esta limitação impõe diversas questões que são impossíveis de superar neste status. A FAP tem situação semelhante à EMBAP, com um agravante: possui um quarto dos professores na área de música. Ou seja, a FAP é como a EMBAP sem os professores de instrumento.
A principal diferença é que a FAP se beneficia da sua maior diversidade de cursos. Enquanto a EMBAP possui apenas as áreas de música e artes visuais (desenho, pintura, escultura e gravura), a FAP tem cursos nas áreas de Teatro, Dança, Artes Visuais, Musicoterapia e Cinema.
Na área de música são dois cursos: Licenciatura em Música e Bacharelado em Música Popular.
A exsitência de uma gama maior de cursos fez a FAP se parecer mais com o ambiente acadêmico universitário, principalmente pelo fato de existirem um núcleo comum de disciplinas de Ciências Humanas e Educação.
Isso levou a FAP a constituir alguma tradição em Iniciação Científica, além de ter um corpo de professores cuja titulação e produção é crescente, apesar de ainda baixa.
As limitações dos cursos de música são dadas pelo número reduzido de professores, e pela impossibilidade de contratações, bloqueadas por uma visão curta do governo do estado.
Boa parte das limitações descritas a respeito de FAP e EMBAP tem perspectiva de superação a médio prazo. Porque hoje existe uma perspectiva de que as duas instituições irão se fundir num Capus único na capital, integrando a UNESPAR, uma nova Universidade estadual multi-campi que já tem processo tramitando no Conselho Estadual de Educação.
Quanto a estas três instituições, creio não haver possibilidade de dúvida quando afirmo que não são departamentos acadêmicos significativos no meio brasileiro.
Resta o caso da UFPR, cujos cursos de música mantidos pelo DEARTES são efetivamente um departamento universitário.
A UFPR tem os cursos de graduação de Licenciatura em Educação Musical e Bacharelado em Produção Sonora. Além do Mestrado em Música.
O site do Departamento só informa o corpo docente do mestrado, constiuído de 12 professores, dos quais um é visitante de outra instituição. Pelo que sei, a graduação tem mais um professor que acaba de retornar de um doutorado na Inglaterra.
Ou seja, os cursos de música da UFPR contam com 12 professores, todos doutores e com significativa produção científica, bem como uma razoável interlocução com outros departamentos universitários nacionais e internacionais.
Que o setor de música do DEARTES UFPR é um departamento universitário de qualidade, não resta dúvida. Fica então a questão de saber se o departamento é "significativo no meio acadêmico brasileiro".
Isso poderia ser pensado sobre diversos aspectos. Se interpretarmos o conceito de "meio acadêmico brasileiro" como envolvendo apenas os departamentos de música existentes no Brasil, poderíamos entender que o DEARTES/UFPR é sim significativo.
Os professores produzem. Há um mestrado. O Departamento já organizou 5 Simpósios de Pesquisa de abrangência nacional (o último tem o anais aqui). Alguns membros do departamento mantém significativa participação nas atividades da Associação Brasileira da Cognição e Artes Musicais. O Departamento também mantém a Revista Música em Perspectiva, que tem Qualis B2 - o que não é ruim na área de música.
As limitações do Departamento se devem principalmente a duas questões: primeiro, é um departamento muito pequeno. Não sei como é possível manter duas graduações e um mestrado com apenas 12 professores. Acredito que a força política da área de música dentro da Universidade limita a possibilidade de alguma expansão - ou seja, isso aí corrobora um pouco o que estou dizendo: nossa cidade (e nossa Universidade Federal) não dão muito valor à área de música.
A outra questão é que o departamento é muito recente, a maioria dos professores estão lotados ali há não mais que 10 anos. O curso de mestrado foi aberto há pouco tempo, e a primeira avaliação trienal que recebeu da CAPES (2007-2009) o colocu com o conceito 4.
Foi uma melhora em relação ao conceito 3 aplicado na avaliação inicial da proposta do curso. Mas ainda é pouco para dizer que o departamento é relevante nacionalmente. Quando esta nota subir mais um pouco, e o departamento tiver autorização para ofertar também um doutorado, as coisas começarão a mudar de figura. Embora seja bem difícil fazer este up-grade com apenas 12 docentes.
Outros aspectos para pensar a relevância entre os departamentos de música do Brasil: a inserção dos professores do DEARTES/UFPR em órgãos associativos da área como a ABEM, a ANPPOM, as comissões de área do MEC e da CAPES, entre outras.
E se pensarmos a coisa de um modo um pouco mais amplo? Ou seja, pensemos o conceito de "meio acadêmico brasileiro" como não restrito à área de música.
Aí, o quadro é desesperador.
A área de música é uma área recente e pouco relevante no cenário acadêmico nacional. O Departamento de Música da UFPR não está entre os principais da área de música, fica ainda pior se pensarmos a questão de forma abrangente.
Ou seja, no frigir dos ovos, e sem querer simplificar demais as coisas, acho que minha afirmação se sustenta.
A música em Curitiba vive uma situação de perda de status. A cidade já foi um polo relevante, e aliás, o prof. Alvaro Carlini é o pesquisador que vem mapeando esses momentos históricos, investigando o trabalho de várias pessoas e instituições importantes do passado musical da cidade.
Hoje Curitiba vive uma situação de perda relativa de status, em comparação com meios musicais muito mais dinâmicos como os de Porto Alegre (a UFRGS tem o único departamento de música com avaliação máxima pela CAPES - conceito 7), São Paulo (OSESP e vida de concertos em geral, mas não os departamentos universitários), Rio de Janeiro, Campinas (a UNICAMP é um polo), Belo Horizonte (tanto a EM-UFMG como a Filarmônica de Minas Gerais), Goiânia (a UFGO está em franca ascensão), Salvador (especialmente o Neojibá).
A questão da relevância dos nossos departamentos universitários de música é uma questão menor. A questão é que Curitiba como um todo está perdendo significativamente o posto de cidade dinâmica e polo em ascenção. Nossa vida cultural não pode mais ser vista como um exemplo para o Brasil.
Curitiba está ficando velha, conservadora e acomodada.
Teremos força para reverter este este quadro?
Espero que sim. O primeiro passo é ter a consciência dos nossos problemas. Se continuarmos acreditando no velho mito da cidade modelo, e não trabalharmos duro para construirmos avanços significativos, ficamos para trás. Por que os outros estão se mexendo. E rápido.
A quaresma é um tempo muito peculiar de certa tradição cristã.
Não sei exatamente quando isso aconteceu, mas em algum momento o cristianismo foi se tornando um conjunto de superstições mórbidas, enfatizando a coragem dos mártires, ou fazendo que a paixão e morte de Cristo se tornassem algo mais relevante que sua vida, seu exemplo e seus ensinamentos.
Por tudo isso, a Quaresma se tornou um período que deveria ser cumprido com rigor: os quarenta dias que antecedem o período de celebração e memória da paixão, morte e ressurreição de Cristo.
Um período de contrição, em respeito ao sofrimento do Filho de Deus.
O Carnaval, inclusive, virou aquele "liberou geral" justamente para as pessoas agüentarem os 40 dias de restrições da Quaresma.
Entre as restrições, a probição de comer carne - somente o peixe é permitido. Também não se fazem festas e não se tocam os sinos das igrejas, por isso surgiu o costume dos padres saírem às ruas tocando suas matracas para conclamar os fiéis à missa.
Roland zh / Wikimedia Commons
Estátua do reformador de Zurich - Ulrich ZwínglioEntretanto, o caso que foi considerado o evento fundador da Reforma Suíça começou com uma quebra das restrições impostas pela tradição na Quaresma.
O epidsódio ficou conhecido como "o caso das salsichas", e ocorreu em Zurique, no primeiro domingo da Quaresma de 1522.
Nesta época, a Reforma já corria solta nos principados alemães, e Lutero era um dos maiores polemistas da Europa.
Zwínglio não lhe ficava muito atrás. Tinha sido eleito pregador da igreja de Zurique em 1519, e reunia uma turma para estudar e discutir a Bíblia na oficina do editor Froschauer.
Vale lembrar que, no início do século XVI os editores eram como hoje os blogueiros, tuiteiros e hackers - pessoas perigosamente inovadoras e radicais na defesa da possibilidade de usar novas tecnologias para difundir o conhecimento.
Muitas vezes se comenta que alguns radicais zwinglianos se empaturraram de salsichas na Quaresma, mas parece que o caso não foi bem assim.
Aconteceu que Froschauer tinha prazos a cumprir com algumas impressões para uma feira, e ele e sua equipe precisaram trabalhar dia e noite para isso. No meio da maratona de trabalho, não seria suficiente alimentarem-se somente com frutas, e o peixe era caro demais.
Então os trabalhadores comeram umas salsichas no desjejum, um fato que acabou escapando do âmbito da oficina do editor e terminou por levar Froschauer a depor perante o Conselho da cidade.
Froschauer argumentou com sua necessidade profissional, mas não deixou de apontar para a interpretação bíblica, digamos, mais flexível, de Zwinglio.
O renomado pregador poderia ter se desvinculado do episódio, e assumido uma posição de contemporização. Mas o que ocorreu foi que ele fez mais uma célebre pregação duas semanas depois, defendendo a liberdade de consciência dos cristãos para comerem o que quisessem na Quaresma.
Uma coisa tão banal como comer salsichas acabou se tornando no estopim de uma revolução no país, que ficou dividido entre cantões favoráveis a Roma e os classificados como "reformados". O próprio Zwinglio veio a morrer numa guerra entre cantões católicos e reformados.
E suas idéias teológicas deram origem aos grupos radicais anabatistas e também ao calvinismo, implantado a partir do também suíço cantão de Genebra.
Toda vez que chegamos na Quaresma eu não deixo de me lembrar deste curioso episódio, e de pensar o quanto a discussão teológica e as idéias religiosas já foram elementos progressistas e radicais.
Nunca me conformo que o cristianismo precise aceitar posições tão conservadoras como as que normalmente lhe são associadas.
E aproveitando o ensejo, vou passar a Quaresma comendo minhas salsichas.
P.S.: um pouco mais sobre a questão no livro de Carter Lindberg. E neste texto em alemão que não tenho exata certeza de que entendi tudo direito, nem cosegui descobrir o autor.
Felipe Rosa / Agência de Notícias Gazeta do Povo
Foliões fazem a festa ao som do bloco pré-carnavalesco Garibaldis e SacisCuritiba tem fama de ser uma cidade sisuda - o senso comum nos diz que somos alemães, italianos, polacos e outras etnias brancas e limpinhas que não se metem com essa coisa de carnaval e de música popular.
Wilson Martins já chegou a escrever (Um Brasil diferente, 1978) que o Paraná não tinha negros e não tivera escravos. Este argumento é desmontado por Otávio Ianni em Escravidão e racismo (1978), e o assunto também está muito bem discutido (com remissão aos dois autores) no livro de João Carlos de Freitas: Colorado: a primeira escola de samba de Curitiba.
Outras pesquisas que recentemente começam a ser desenvolvidas pelos pesquisadores Marilia Giller, Tiago Portella, Claudio Fernandes, entre outros, (algumas coisas deles estão neste blog) apontam para a existência de uma rica música popular em Curitiba desde a primeira metade do século XX.
Este tipo de informação fica nos estudos acadêmicos, e não chega ao senso comum. Nem à propaganda oficial, que prefere divulgar Curitiba como uma cidade européia, e um polo de música erudita.
Acontece que nos últimos anos Curitiba se afastou muito da condição de cidade com vida de concertos minimamente aceitável. O que temos de significativo nesta área são pequenas iniciativas ainda incipientes, como a Bienal Música Hoje ou um evento tradicional como a Oficina de Música. Nossas orquestras estão longe da qualidade das que existem em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador - a programação de concertos ainda é muito tímida. Não temos ópera e balé há tempos. Não temos na cidade um departamento de música significativo no meio acadêmico brasileiro.
Ao contrário disso, a música popular vem consolidando um polo importante na cidade.
Por exemplo, a FAP tem um curso de Bacharelado em Música Popular que tem poucos similares no Brasil (UNICAMP, UNIRIO e UFRGS - até onde sei).
Os grupos artísticos ligados ao Conservatório de MPB (vocal Brasileirinho, vocal Brasileirão, Orquestra à Base de Cordas, Orquestra à Base de Sopros) já se estabeleceram no cenário nacional. O núcleo de Música Popular da Oficina de Música já é mais relevante nacionalmente que o de Música Erudita.
Curitiba também sediou fenômenos recentes como A banda mais bonita da cidade (sobre a qual já escrevi um comentário aqui) e tem diversos artistas jovens se destacando merecidamente no cenário da música instrumental, do choro, entre outros gêneros musicais.
O bloco pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis pode ser considerado outro grande fenômeno nesta linha.
É por isso que o caso da violência policial impetrada no último domingo, e tão bem descrito na reportagem da Gazeta do Povo, assume contornos culturais mais dramáticos.
Sobre o aspecto da violência policial eu escrevi bastante em minha página pessoal.
Aqui eu quero chamar a atenção para o fato de que Curitiba tem optado por assumir a marca de uma cidade elitista, europeizada - o que é feito com conotações racistas e escamoteia a verdade que deve ser dita.
Curitiba é uma cidade que tem povo, sim senhor - tem festa, tem música popular. Pode e deve se orgulhar disso.
A foto que está em cima deste texto fala por si.
A questão que devemos enfrentar é: as políticas públicas e a propaganda oficial devem esconder, proibir, acabar com a música popular na cidade?
Ou seremos beneficiados em assumir esta outra faceta tão importante do jeito curitibano de ser?
AFP
José Saramago durante lançamento do livro "A Viagem do Elefante" em São Paulo no ano de 2008O Evangelho segundo Jesus Cristo é um livro intrigante, fruto de uma inteligência exponencial. Poderia se chamar, por exemplo, Confissões de Jesus Cristo, que teria o mesmo efeito.
Para escrever este livro, Saramago precisou mobilizar um conhecimento erudito sobre a vida do homem comum daqueles tempos, sobre os meandros do judaísmo e suas tradições, sobre história do cristianismo.
No início da leitura eu segui pensando que se tratava de um romance histórico, mais ou menos a vida de Jesus como teria sido sem os dogmas da concepção virginal, da filiação divina, etc. E estava muito interessado no fato de que a ficção de Saramago explorava justamente os períodos da vida de Jesus sobre os quais os Evangelhos canônicos nada falam.
Quando o texto chega à vida adulta de Jesus a coisa muda totalmente de figura. O romance assume outros contornos, abandona a verossimilhança histórica que procurou manter firme no início, e passa então a explorar as contradições da história apregoada nos Evangelhos.
Os milagres aparecem ali, a descoberta da filiação divina. O diálogo com Deus, no meio de um nevoeiro do Mar da Galiléia é talvez a peça mais importante do livro, tributária, certamente, do Elogio da loucura, de Erasmo. Ali Saramago satiriza com muita verve todo o Dogma do qual, como bom ateu, aprendeu a escarnecer sem medo.
O catolicismo como um todo sai muito ofendido do livro, que lá Maria não concebe virgem e tem ainda muitos filhos depois do que lhe nasceu da semente divina.
O protestantismo teria muito menos razões para bradar – Anátema!, contra o escritor. Mas pelo que sei, não quis deixar de fazê-lo, talvez com medo de parecer menos zeloso e piedoso.
O livro é um libelo criativo contra o Dogma, contra a religião toda ela. Contra o ridículo da fé e, principalmente, contra a inconsistência de uma narrativa histórica tão cheia de furos. A narrativa costura magistralmente um estilo no qual só há verossimilhança na informação histórica que se pode saber de fontes confiáveis. Aquela que só sabemos pelos Evangelhos tem amplificada o absurdo de sua impossibilidade.
Talvez mesclando a narrativa que se tornou canônica com tudo o que foi imaginado nos evangelhos hoje apócrifos (até o de Judas, recém-descoberto), o Evangelho de Saramago revela toda a humanidade de Jesus, como talvez ninguém tenha feito até hoje.
E aí ele sintetiza melhor do que qualquer tratado de cristologia toda a problemática filosófica que gerou intermináveis 7 séculos de controvérsias sobre quão humano e quão divino era o Galileu. Até que os cristãos desistiram de explicar o inexplicável (que Saramago retoma com fina ironia) e assumiram que a natureza do Cristo, para não por em perigo a religião que sobre a sua memória se construiu, é um mistério inexpugnável: totalmente divino ao mesmo tempo que totalmente humano.
Coisa que os teólogos deixaram de discutir depois dos concílios do 8º século, passando a eleger outras controvérsias mesquinhas (como as que Erasmo não cansou de ironizar pela voz da Loucura). Nem mesmo os reformadores do século XVI questionaram os dogmas centrais, dedicando-se a questões menores como o governo da igreja, o celibato clerical, o tipo de música que se deveria cantar na celebração cúltica, o grau de presença de Cristo nos elementos da Comunhão, o grau de importância entre as Escrituras e a Tradição Eclesiástica e o preço da salvação eterna.
Somente no século XIX, com o surgimento da pesquisa histórica como profissão, e da profusão de estudos científicos sobre a documentação histórica existente, é que se chegou a questionar a cristologia consolidada nos Mil Anos anteriores (dos séculos VIII ao XVIII).
Em fins de mil-e-oitocentos a teologia séria já estava obrigada a lidar com os fatos: não houvera concepção virginal, filiação divina, milagres nem ressurreição. A historicidade da fé cristã era totalmente absurda – luteranos e anglicanos iriam buscar novos fundamentos para sua fé, que já era desde sempre uma vivência comunitária bem mais que uma crença doutrinária.
Os católicos é que teriam os maiores problemas, pois teriam de continuar calcando sua autoridade na autoridade da Igreja e da Tradição – personificadas no papa.
Do outro lado, os calvinistas e pietistas articulariam um novo sentido para a fé, calcado na experiência individual de conversão, conceito surgido por volta de 1700 nos escritos de Spener e Francke e na devoção à Bíblia, que passou a ser (pela primeira vez na história) impressa aos milhões de exemplares pelas Sociedades Bíblicas.
Daí vieram os que no Brasil ficaram conhecidos como “os bíblias”, que andavam sempre com o exemplar encadernado nas axilas, que a sabiam de cor e salteado, sempre lida com acompanhamento da exegese dogmática, sob orientação do missionário ignorante, jamais pensada a partir da rica reflexão teológica que tinha sido obrigada a se defrontar com a verdade sobre o Dogma.
De modo que o livro de Saramago resgata a polêmica ao melhor estilo que alguém poderia fazê-lo: com verve literária e fina ironia. Nada melhor do que um livro de ficção para escancarar os limites ficcionais de certa fé no Dogma.
Porque sim, é isso que os cristianismos integrista e fundamentalista se tornaram no século XX. Há muito que não são uma fé no Cristo, e sim uma fé no Dogma. Porque, como sabem os que tentam ler os Evangelhos com o espírito livre, o Cristo é sempre um seríssimo problema para o Dogma.
É isso que o Evangelho de Saramago escancara, de modo magistral.
Alguém pode se perguntar por que falar de futebol num blog de História Cultural. Bem, em primeiro lugar por que este blogueiro gosta de futebol - e só isso já bastaria.
Mas, imaginando que eu quisesse ser rigoroso com a temática do blog, mesmo assim é um assunto bem pertinente neste espaço.
Sim, porque o futebol é uma expressão cultural importantíssima, especialmente no Brasil.
E o jogo em que o Santos perdeu por 4x0 para o Barcelona pela final do Mundial de Clubes da FIFA marca um ponto de inflexão muito importante no papel que o futebol tem na cultura brasileira.
A ascensão do futebol no Brasil é muito mais significativa do que uma simples vitória esportiva.
Em primeiro lugar porque o surgimento da moda dos sports, já no início do século XX, como bem assinala Nicolau Sevcenko em seu texto para o terceiro volume da História da Vida Privada no Brasil, marca uma valorização do corpo, do vigor físico e da aptidão rítmica. Por acaso, coisa que os descendentes de escravos africanos faziam com muita pertinência - e foi por isso que o futebol foi a primeira atividade profissional onde o negro brasileiro pode obter protagonismo.
Divulgação site oficial Barcelona
Pelé era o destaque do confronto entre Barcelona e Santos em 1963Muito sintomático que o auge do futebol como expressão do Brasil (um tema muito bem explorado no livro de José Miguel Wisnik) tenha se dado em torno de Pelé, jogador do Santos por quase vinte anos, vitorioso com a Seleção em 3 Copas (1958, 62 e 70) e campeão deste mesmo mundial em 1962 e 63.
Naqueles tempos o jeito espontâneo e alegre de jogar, o drible desconcertante, a inteligência espacial, a camaradagem entre grandes gênios da bola - tudo fazia da atuação dos escretes nacionais uma lufada de renovação no esporte europeu, tão marcado pela força física e pela aplicação tática.
Pode-se dizer que o futebol da era de outro do Brasil inseriu um novo jeito de pensar o Esporte, que coincidiu com um grande momento de afirmação da cultura brasileira com base em seus traços populares (a era de ouro da MPB coincidiu com a melhor época do nosso futebol), bem como o momento de ascensão econômica do Brasil.
Quando digo que o futebol brasileiro passa por longa e agônica decadência, é por que os problemas não são de hoje.
A última Seleção que eu consigo ver como representante da nação em seu futebol foi a que perdeu a Copa de 1982. Não é coincidência que o principal jogador daquela geração tenha morrido dias atrás, completamente desiludido com os rumos do nosso futebol.
Eu sou e continuarei sendo daqueles que acham que mais valeu perder jogando como em 1982 do que vencer jogando como em 1994, cuja final terminada em 0x0, e decidida com um pênalti desperdiçado por um jogador italiano foi exatamente paradigmática da derrota de tudo que o futebol brasileiro pretendeu algum dia representar.
Assim, é muito sintomático o desempenho da Seleção da CBF na última Copa América. Digo "Seleção da CBF" porque "nossa Seleção" é uma expressão que não uso faz tempo.
A derrota humilhante do Santos de Neymar no Japão não foi uma simples derrota de um clube. Foi a derrota total do futebol brasileiro, a apenas 2 anos e meio de sediar uma Copa do Mundo no nosso país.
Pelo visto passaremos muito mais vergonha do que simplesmente nos causarão os problemas de estádios ruins, péssima infra-estrutura urbana e péssimo atendimento aos turistas.
Sim, senhores, o futebol brasileiro está em situação irremediável simplesmente porque o Santos que foi enfrentar o Barcelona tinha os únicos jogadores incensados como capazes de ressuscitar o futebol arte outrora perdido: Neymar e Ganso. E tinha o único técnico considerado capaz de recolocar o futebol brasileiro nos bons momentos que viveu pela última vez com seu mestre. Aprendiz de Telê Santana, Muricy Ramalho levou a campo um Santos muito diferente do que podíamos esperar - apático, sem jogar futebol, sem lutar.
Impotente, incapaz do drible, da jogada desconcertante. Sequer da empolgação e da alegria de jogar futebol que já tivemos como marca, mesmo nos momentos em que éramos um país muito mais pobre e desigual do que estamos hoje.
O que temos visto ultimamente no ludopédio me faz pensar que é irremediável: o futebol aqui está virando apenas um esporte. Não é mais capaz de nos representar, de articular um jeito brasileiro de ser e enfrentar os problemas da vida.
Ou, pior ainda, é só mais um jeito de movimentar alguns bilhões de reais, boa parte disso engordando os cofres de cartolas corruptos, enquanto uma parte bem menor pinga na conta de garotos que ganham tanto que perdem até a vontade de jogar.
Imagem capturada de um programa de TV
Na última quinta-feira, o Conservatório Villa-Lobos de Curitiba completou 30 anos, e realizou um concerto comemorativo no Guairinha.
Eu estive lá, junto com outros ex-alunos convidados a integrarem uma orquestra de violões que fez o melhor possível - imagine a dificuldade de conseguir horários de ensaio que todos pudessem, além da complexidade de juntar violonistas ativos e outros completamente fora de forma como eu.
Superados os atropelos com as escalas rápidas do Concerto de Vivaldi, acho que ficou bonita mesmo a Valsa da despedida, de André Prodóssimo.
O concerto teve outros grandes momentos: começando com um conjunto de violões com adolescentes da Vila Audi, que tocaram um arranjo de Jingle Bells. Acontecimento muito importante para nos lembrar que o ensino de música no Brasil continua um privilégio de quem pode pagar uma escola de música, exceto quando algum músico dedicado (como é o caso do Valdomiro Prodóssimo) se propõe a realizar um projeto social.
Entre os muitos momentos mágicos da noite, o conjunto Harmonia, integrado pelos 6 irmãos Soares de Souza. Uma transcrição da Bachiana nº 5 de Villa-Lobos para harmônica, bandolim, violão, teclado, pandeiro e violoncelo - em belíssima execução. Funcionou como uma dupla homenagem: à obra do maior compositor brasileiro, cujo nome sela a dignidade do trabalho musical realizado pelo Conservatório nestes 30 anos. E ao maestro e professor João Soares de Souza, de Minas Gerais, já falecido. Pai dos seis músicos que integraram o conjunto, o maestro João Soares de Souza foi fundador e diretor de importantes Conservatórios estaduais em Minas Gerias, como o de Pouso Alegre e Ipatinga. E foi também o grande incentivador do trabalho de sua filha Jane Soares de Souza Prodóssimo, que transferiu-se para Curitiba para fundar junto com seu marido o Conservatório Villa-Lobos.
Eu fui aluno de teoria musical da profª. Jane, e dentre as muitas bagagens que levei para a vida musical, uma sólida formação em percepção e solfejo, estudado no método do maestro João Soares de Souza, que a profª. Jane sempre aplicou com carinho e precisão.
Mas acho que os maiores momentos foram os protagonizados por alguns grandes instrumentistas que mostraram porque Valdomiro Prodóssimo é um dos grandes professores de violão deste país.
Muito antes de 1981, quando começou o Conservatório junto com sua esposa Jane, o Valdomiro já era professor de violão, tanto em Curitiba como em Joinville, tendo um importante papel na formação de uma escola violonística em ambas as cidades.
Aluno de Jodacil Damasceno, Valdomiro foi reputado pelos que o viram tocar como um violonista de som magistral, grande técnica e interpretação soberba.
Eu não tive este privilégio, porque quando comecei a estudar no Conservatório, em 1985, Valdomiro já sofria de um problema muscular no dedo médio, que o impedia de seguir atividade como concertista.
Talvez tenha sido uma providência do destino, pois um concertista ativo não teria possibilidade de trabalhar tanto na condução dos seus alunos.
E o Valdomiro foi e é daqueles mestres como poucos - que tem a paciência de começar com um aluno que nunca segurou o instrumento, e conduzi-lo por anos de trabalho dedicado até formar e talhar um músico de alto nível.
E três grandes violonistas estavam no palco do Guairinha nesta quinta-feira, 8 de dezembro. Três gigantes do violão, que passaram pelas mãos de Valdomiro Prodóssimo, e tiveram sua condução segura em momentos importantes de sua formação.
O primeiro foi Luiz Claudio Ribas Ferreia. Um dos primeiros alunos do Conservatório Villa-Lobos, Luiz Claudio começou a se destacar já na década de 1980 quando venceu importantes concursos do instrumento e realizou sua primeira gravação.
Hoje Luiz Claudio é professor da EMBAP, onde tem formado novas gerações de grande talento. Vem driblando um grave problema de distonia, e retomando a atividade de concerto. Além de nos brindar com gravações primorosas, como esta que resenhei aqui.
Do novo disco que vai lançar em breve, Luiz Claudio tocou um Tango de Máximo Pujol - belíssima peça, onde o violonista mostrou toda sua segurança, grande precisão, conhecimento musical profundo que o capacita a destacar com exatidão os elementos musicais mais importantes de uma obra. E sobretudo aquela qualidade que o Valdomiro imprime desde cedo em seus alunos - uma sonoridade profunda e grandiosa, coisa das mais difíceis de se obter no violão.
Além do Luis Claudio, outro grande aluno do Valdomiro se apresentou: Davi Tavares, que saiu das classes do seu mestre em Curitiba para seguir carreira na Espanha, onde se instalou há décadas. Davi Tavares pouco vem a Curitiba, o que é um problema que precisamos resolver com urgência. Tenho escrito em algumas críticas que Curitiba precisa aproveitar os talentos seus que estão pelo mundo.
Davi Tavares trouxe dois CD's gravados na Espanha, um deles felizmente tem sido tocado pela Rádio Educativa. Entre as belas coisas que ele apresentou na noite de quinta-feira, estava sua composição Ojos negros, que pode ser vista neste vídeo em gravação profissional:
O segundo violão, foi tocado na quinta-feira por André Prodóssimo - filho do Valdomiro. Esse nasceu em meio aos violões, e cresceu sob a batuta do mestre e pai. Não poderia mesmo dar em outra coisa - se tornou um grande violonista, em fase de afirmação na carreira, mas já se destacando como alguém que não deve nada para os grandes talentos do violão brasileiro atual.
Acredito que é por aí que a gente reconhece o trabalho dos grandes mestres: o resultado apresentado por seus alunos. E disso o Valdomiro e a Jane podem se orgulhar como poucos.
Além destes grandes músicos de expressão profissional incontestável, há uma lista que não termina de grandes pessoas que tiveram sua formação musical nas mãos do Valdomiro e da Jane, e que estão trabalhando como músicos, professores, regentes de coral, entre outras coisas. (João Egashira, Bernardo Grassi, Indioney Rodrigues, Carlos Todeschini, para ficar apenas nos que eu conheço melhor.)
Maior do que tudo isso, são os inúmeros alunos que estudaram ali no Conservatório, e nunca quiseram trabalhar profissionalmente com música - simplesmente levaram sua formação musical como seres humanos dotados de sensibilidade, uma coisa que certamente faz muita falta no sistema educacional brasileiro, e que só aumenta o significado do trabalho destes dois grandes professores.
Deixo aqui minha homenagem a estes dois grandes nomes: Valdomiro Prodóssimo e Jane Soares de Souza Prodóssimo, batalhadores incasáveis da formação de tantos músicos, remando contra a maré de um país onde a cultura e a educação ainda são tão menosprezados.
WISNIK, José Miguel. "Machado maxixe: o caso Pestana". in Teresa, Revista de Literatura Brasileira. nº 4-5, 2003. p. 13-79.
A revista está disponível aqui em pdf.
E o texto já foi publicado em livro pela Publifolha, no momento esgotado.
Reprodução
Foto mostra Machado de Assis na juventude: maior escritor brasileiro era afrodescentente. Para Olavo Bilac, ele era “grego”O texto de Wisnik já um clássico da História Cultural, pelas amplas relações que consegue fazer entre História, Literatura, Música e um amplo espectro de análise sócio-cultural.
O professor da FFLCH-USP se debruçou sobre um conto do "Bruxo de Cosme Velho", intitulado Um homem célebre, reunido por Machado de Assis no volume Váris histórias, publicado em 1896. Se não me engano, como muita coisa do escritor, o conto já tinha sido publicado primeiro em jornal.
(O volume Várias Histórias está aqui, em domínio público. O conto começa na página 12.)
É impressionante a maneira como Wisnik extrai um panorama da criação cultural brasileira a partir do personagem machadiano: um compositor de polcas, que passa as noites em claro diante dos retratos de Mozart e Beethoven, tentando compor sonatas que nunca se materializam.
Para Wisnik, não é casual o fato de Pestana beber nos clássicos europeus. As polcas que compõe fluentemente pela manhã têm muito a ver com a experiência noturna frustrada com as sonatas.
Pestana, o compositor brasileiro arquetípico, compõe polcas por que são essas que lhe brotam espontaneamente - mais do que isso, são elas que têm razão de ser no Rio de Janeiro de fins do século XIX. O único gênero musical que efetivamente tem mercado.
Aliás, essa questão é muito bem explorada no conto machadiano, e desenvolvida por Wisnik: aquela vergonha tão conhecida de fazer sucesso comercial, como se isso fosse avesso à verdadeira arte. Como se ganhar uns caraminguás comprometesse a pureza artística de um criador, visão romântica explorada com ironia no conto.
Wisnik vai muito além, explorando as relações raciais que envolvem a criação musical em fins de oitocentos, ligando-as ao incipiente mercado musical (pré-fonograma), e associando os dilemas de Pestana aos problemas da criação cultural numa região tão distante dos centros de produção de cultura - no que o Pestana pode ser muito mais do que um compositor paradigmático, levando à possíveis associações com a própria figura de Machado de Assis. Um mulato que começou como tipógrafo (uma profissão proletária) e terminou como maior escritor da Literatura Brasileira, e quiçá da Língua Portuguesa (como hoje parece querer concordar a crítica internacional), e que foi chamado no estudo clássico de Roberto Schwarz de "um mestre na periferia do capitalismo".
O Pestana foi este mestre na periferia do capitalismo musical, como o foram também tantos compositores que se aproximam do modelo de desconforto cultural entre a Europa e os Trópicos: Carlos Gomes, Henrique Alves de Mesquita, Alberto Nepomuceno, Ernesto Nazareth,Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Mignone, Camargo Guarnieri, Pixinguinha, Tom Jobim, Caetano Veloso. No fundo todos são um pouco Pestana.
Os professores Edilson Chaves e Ederson Lima organizaram uma excelente Semana de História do Instituto Federal do Paraná.
Esperamos que seja a primeira de muitas, porque a programação foi bem interessante. Veja aqui.
Os professores gentilmente me convidaram para uma palestra sobre o tema título deste post.
O que é um assunto que dá muito "pano pra manga".
No caso brasileiro, pode-se dizer que os anos 60 começam com o surgimento da Bossa Nova. Acho que todos concordam que ela começa com a batida de violão de João Gilberto na música Chega de saudade, incluída no disco de Elizeth Cardoso Canção do amor demais (1958).
A voz de Elizeth representava o padrão do "vozeirão" da Era do Rádio: a cantora tinha potência, usava muito vibrato, portamentos e prolongava as vogais. Coisa que os jovens classe-média-zona-sul da época julgavam muito antiquado.
O violão de João Gilerto era a grande sacada. O cantor gravou novamente a canção em seu primeiro LP, de 1959. A interpretação vocal escolhida sugeria o que seria o novo estilo: a contenção, a economia de meios. Nada de vibrato, pouco volume, sem prolongamentos vocálicos a diluir a rítmica da canção.
Divulgação
João Gilberto, nos anos 50: revolucionário da música brasileiraEste projeto de fazer soar um Brasil moderno remontava às experiências musicais do modernismo, especialmente Villa-Lobos. Os modernistas haviam protagonizado uma representação musical do Brasil, mas aplicada à partitura que soava nas salas de concerto.
Desde a publicação da Revista de Música Popular (1954-56), ficava patente que um grupo de jornalistas e memorialistas começava a cultivar a idéia de que a representação sonora do Brasil se faria não mais pela aplicação de características da música popular às técnicas de composição de música erudita. Mas sim, os próprios compositores populares, calcados na idéia de que o samba dos anos 1920/30 representava a brasilidade autêntica, iriam processar a representação do Brasil moderno em suas canções.
A idéia estava perfeitamente na onda do entusiasmo desenvolvimentista de fins da década de 1950. Juscelino Kubitscheck chegou a ser apelidado de "presidente Bossa Nova".
Na virada de 1961/62 a coisa mudou completamente de figura: o entusiasmo de crescer "50 anos em 5" revelava sua face obscura. O crescimento acelerado foi feito com excesso de endividamento, comprometimento das finanças públicas, e dependência das multi-nacionais. O resultado foi a inflação descontrolada, e problemas no balanço de pagamentos.
A crise se agravou com a renúncia de Jânio Quadros, e as histórias em torno da luta para garantir a posse do vice-presidente eleito - João Goulart, estão muito bem contadas na biografia recém publicada pelo historiador Jorge Ferreira (fiz uma resenha disso aqui na Gazeta).
Ou seja, em 1962 , o Brasil vivia uma percepção aguda dos problemas sociais e do subdesenvolvimento. Às greves e à radicalização do clima político, equivalia uma agitação cultural sem precedentes, com o envolvimento da juventude universitária como grupo privilegiado de circulação e produção de uma cultura nacionalista e de esquerda.
Havia uma percepção de que a Bossa Nova tinha feito a necessária modernização estética, mas carecia de conteúdo.
Essa reviravolta nos conteúdos, construiu em cima das conquistas harmônicas e estéticas da Bossa Nova um novo gênero de canção, alcunhado Bossa Nova Nacionalista, ou Canção de Protesto, ou ainda, Canção Engajada.
Para percebermos estas mudanças, escutamos as seguintes canções:
Carlos Lira - Influência do jazz (1963)
Baden Powell e Vinícius de Moraes - Canto de Ossanha (1966)
Edu Lobo - Borandá (1967)
O auge dessa articulação entre juventude universitária, esquerda nacionalista, canção popular, modernismo estético, e mídia televisiva e fonográfica aconteceu em torno dos festivais de 1967-68.
Assistimos dois vídeos paradigmáticos dessa representação da Canção Engajada nos festivais:
Geraldo Vandré - Disparada, defendida por Jair Rodrigues no festival de 1966
Chico Buarque - Roda viva, defendida pelo compositor no festival de 1967.
Mas a partir do Festival de 1968 entrou em cena um movimento proposto a problematizar o espaço dos festivais como catarse da juventude de esquerda.
O tropicalismo.
Porque desde meados da década de 1950 estava em curso o desenvolvimento da música que representava a juventude como consumidora e produtora de cultura, nos EUA e depois na Inglaterra.
Assistimos a um vídeo de Elvis Presley, cantando Tutti Frutti.
O cantor, em geral fazendo cover dos artistas negros que ficavam restritos às Race Records, enquanto ele, branco, podia circular por uma das majors, representava a rebeldia e a contestação, visto como um perigo para a moral e os bons costumes da classe dominante tradicional. Por isso as câmeras focavam tanto seu rosto ou seu violão, tentando evitar os quadris, que chacoalhavam sem parar.
No Brasil, os jovens suburbanos da Jovem Guarda ou Iê-Iê-Iê já vinham reproduzindo este modelo, em versões em português ou composições próprias. Mas eram vistos como alienados, representantes do imperialismo num meio musical dominado pelo mito da pureza original e da autenticidade exclusiva do samba como matriz da música popular brasileira.
Mas a explosão das bandas britânicas a partir de 1965 (Beatles, Rolling Stones e The Who), não tardaria a causar repercussões no Brasil.
(Assistimos o vídeo de My generation, apresentado por The Who em um clube noturno de Londres.)
Foi assim que o grupo formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, somando-se aos Mutantes, e apoiados pelo trabalho de arranjo do compositor de vanguarda Rogério Duprat articulou uma representação concorrente de brasilidade.
Os tropicalistas incorporaram o ruído das guitarras, os gritos guturais. Abandonaram o discurso do romantismo revolucionário e passaram a retratar um Brasil contraditório, incorporando à "linha evolutiva de João Gilberto" o rock, a vanguarda e o kitsch.
Como exemplo, assistimos o vídeo de Gal Costa cantando Divino maravilhoso, de Caetano Veloso, no festival de 1968.
Pela trilha exposta acima, percebe-se o quanto foram agitados os anos 60, momento único de fusão entre engajamento político, modernização estética e repercussão midiática.
Um tempo que até hoje deixa saudades em muita gente, até porque a conjunção de fatores que produziu uma cultura musical tão representativa do Brasil nunca mais conseguiu se repetir com a mesma intensidade.
Só pra avisar que agora acabo de acertar como faço para liberar os comentários no blog.
Isso significa que tinha gente que tinha deixado mensagens de apoio ao blog, ou começado a debater alguma coisa e eu não tinha visto.
Algun comentários ficaram presos um tempão.
Peço desculpas. Agora acho que me acertei com a ferramenta de publicação.
Os textos anteriores do blog são:
Entre a História, a Música e a Teologia: o perfil do blogueiro
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