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História Cultural

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13/02/2013 às 13:50

A decisão de Ratzinger de renunciar ao trono de São Pedro é inédita. O pouco que li das notícias sobre o acontecido informa que a renúncia é uma coisa rara, porque a última aconteceu há 600 anos. Mas era um contexto muito diferente, e as transformações ocorridas no papado neste meio tempo não foram irrisórias. Vale a pena pensar a diferença entre os dois casos, para ter a medida da importância histórica deste acontecimento.


REUTERS/Stefano Rellandini

REUTERS/Stefano Rellandini / Papa vai celebrar a missa da Quarta-Feira de Cinzas na Basílica de São Pedro, em vez de numa igreja menor de RomaPapa vai celebrar a missa da Quarta-Feira de Cinzas na Basílica de São Pedro, em vez de numa igreja menor de Roma

O último papa a renunciar foi Gregório XII, em 1416. Mas a situação era muito outra.

A renúncia de então não foi por motivo de saúde, nem algo próximo disso. Foi uma decisão política, necessária para acabar com os mais de 100 anos de duração do chamado Cisma do Ocidente, também apelidado de "cativeiro babilônico da Igreja", em referência ao episódio da história de Israel narrado no Antigo Testamento.

Desde o início do século XIV o papado viveu o constrangimento de ficar sob a interferência direta da monarquia francesa, que aprisionou o papa e forçou a transferência da corte papal para a cidade francesa de Avignon.

O historiador Paul Johnson enquadra este episódio no que considerou como um movimento político de oposição às pretensões do papado de exercer um poder totalizante na política européia. O auge do poder papal ocorreu sob o pontificado de Inocêncio III (1198-1216), que logrou subjugar as grandes monarquias aos interesses "espirituais" de Roma.

Ao mesmo tempo em que deu a maior demonstração de força da Igreja Romana em toda a história, Inocêncio III atraiu sobre o papado uma notável rivalidade geopolítica. Passou a fazer parte dos interesses de todos os monarcas seculares contrapor-se ao domínio do Bispo de Roma como prerrogativa para aumentar o próprio poder.

Em conseqüência, quase 100 anos depois do pontificado de Inocêncio III, a igreja via seu chefe maior submeter-se aos interesses do Rei da França.

Durante praticamente todo o século XIV, conviveu-se com dois papas, e somente a posteriori é que se pode considerar que os papas que tiveram sua corte em Avignon não fossem legítimos. A situação não deixava de ser confortável, afinal, mais ou menos como os presidentes brasileiros que gostaram de ir para Brasília para ficarem imunes às passeatas do Rio de Janeiro, da mesma forma o papado em Avignon era uma ótima maneira de escapar da influência perigosa da "turba de Roma", que influiu não poucas vezes nos rumos da política eclesiástica.

Afinal, desde o pontificado de Gregório Magno (590-604) o papado funcionou como liderança européia da Igreja e liderança política "normal" na região de Roma, incluindo a administração pública, as finanças e até os exércitos. A partir de então, o papado passou a funcionar como mais uma das muitas monarquias européias, com o diferencial de que tinha influência sobre as paróquias de todo o continente, situação para a qual a disciplina litúrgica construída por Gregório I foi fundamental.

Voltando ao caso da renúncia de Gregório XII.

Quando renunciou, em 1416, o papa que hoje é reconhecido como o único papa verdadeiro de então era na verdade apenas um entre 3 papas existentes. O de Avignon, posteriormente considerado como anti-papa, e mais um nomeado no Concílio de Pisa (1409) - aproveitando-se da ausência dos dois papas concorrentes no concílio que pretendia resolver a divergência.

Somente no Concílio de Constança (1416), a divisão foi resolvida definitivamente, e a renúncia de Gregório XII teve papel fundamental para unificar o papado. O esforço pela unificação daria mais um último século de relativa estabilidade ao papado como liderança eclesiástica e política na Europa.

A influência do Bispo de Roma seria definitavamente rompida nos processos políticos que costumam ser chamados de "Reforma Protestante", ocorridos 100 anos depois do Concílio de Constança. Ao longo do século XVI saíram da influência do papado vastos territórios da Alemanha e Escandinávia (que se tornaram estados luteranos), Inglaterra (Anglicana e/ou calvinista), Holanda, partes da Suíça (Igrejas Reformadas).

Mas há uma grande semelhança entre a importância histórica e estratégica das renúncias de Gregório XII e Bento XVI.

Naquele momento, uma renúncia para pacificar um papado dividido, e recuperar a autoridade da Igreja que tinha sido abalada pela subserviência ao Rei da França.

Nos dias de hoje, uma simples renúncia por motivo de saúde - fator completamente inédito, que revoluciona o direito canônico (disciplina mais antiga do conhecimento ocidental) e abre portas para mudanças na instituição mais tradicional e mais avessa à mudanças do mundo de hoje.

A Igreja de Roma anda às voltas com inúmeras dificuldades, e significativa perda de influência. A atitude de Ratzinger é de uma coragem inédita pois, assim como a de Gregório XII 600 anos antes, pode abrir caminho para mudanças pontuais mas significativas na forma como o papado exerce sua liderança.

Isso será fundamental para garantir mais alguns anos de estabilidade a uma instituição que funda sua autoridade numa tradição milenar e que vive em permanente conflito com o mundo contemporâneo.

12/08/2012 às 20:25

Foi uma ousadia de minha parte, achar que poderia postar com regularidade neste blog, mantendo a responsabilidade de colaborar num espaço cada vez mais de alto nível como este aqui.

Já faz tempo que não posto - idéias na cabeça não me faltam, mas o tempo para escrever textos bem cuidados anda escasso. De tanto adiar a próxima postagem chego à conclusão que o mais honesto é mesmo dizer aos eventuais leitores que já passaram por aqui: o blog está parado.

Não sei por quanto tempo. Vou conversar com os editores para saber que tipo de problema um blog parado causa ao portal.

Minha idéia pessoal é voltar a escrever quando eu estiver em condições de postar a cada 15 dias, como era a proposta inicial.

Num blog que se propõe a escrever sobre história, isso significa acompanhar lançamentos recentes de livros, ler teses ou dissertações que estão sendo defendidas, participar de eventos na área, discutir os assuntos que saem na imprensa relativos ao tema, escrever sobre os clássicos também, entre outras coisas. O excesso de compromissos não tem permitido.

Acredito que posso me organizar melhor para 2013 - ou talvez começar a engrenar ainda antes disso.

Por enquanto, peço mais da vossa paciência.

20/10/2011 às 22:06

Os professores Edilson Chaves e Ederson Lima organizaram uma excelente Semana de História do Instituto Federal do Paraná.

Esperamos que seja a primeira de muitas, porque a programação foi bem interessante. Veja aqui.

Os professores gentilmente me convidaram para uma palestra sobre o tema título deste post.

O que é um assunto que dá muito "pano pra manga".

No caso brasileiro, pode-se dizer que os anos 60 começam com o surgimento da Bossa Nova. Acho que todos concordam que ela começa com a batida de violão de João Gilberto na música Chega de saudade, incluída no disco de Elizeth Cardoso Canção do amor demais (1958).

A voz de Elizeth representava o padrão do "vozeirão" da Era do Rádio: a cantora tinha potência, usava muito vibrato, portamentos e prolongava as vogais. Coisa que os jovens classe-média-zona-sul da época julgavam muito antiquado.

O violão de João Gilerto era a grande sacada. O cantor gravou novamente a canção em seu primeiro LP, de 1959. A interpretação vocal escolhida sugeria o que seria o novo estilo: a contenção, a economia de meios. Nada de vibrato, pouco volume, sem prolongamentos vocálicos a diluir a rítmica da canção.


Divulgação

Divulgação / João Gilberto, nos anos 50: revolucionário da música brasileiraJoão Gilberto, nos anos 50: revolucionário da música brasileira
Em torno da interpretação de João Gilberto para as canções de Jobim foram surgindo uma série de músicos articulados com um projeto de representação moderna do Brasil através da música popular.

Este projeto de fazer soar um Brasil moderno remontava às experiências musicais do modernismo, especialmente Villa-Lobos. Os modernistas haviam protagonizado uma representação musical do Brasil, mas aplicada à partitura que soava nas salas de concerto.

Desde a publicação da Revista de Música Popular (1954-56), ficava patente que um grupo de jornalistas e memorialistas começava a cultivar a idéia de que a representação sonora do Brasil se faria não mais pela aplicação de características da música popular às técnicas de composição de música erudita. Mas sim, os próprios compositores populares, calcados na idéia de que o samba dos anos 1920/30 representava a brasilidade autêntica, iriam processar a representação do Brasil moderno em suas canções.

A idéia estava perfeitamente na onda do entusiasmo desenvolvimentista de fins da década de 1950. Juscelino Kubitscheck chegou a ser apelidado de "presidente Bossa Nova".

Na virada de 1961/62 a coisa mudou completamente de figura: o entusiasmo de crescer "50 anos em 5" revelava sua face obscura. O crescimento acelerado foi feito com excesso de endividamento, comprometimento das finanças públicas, e dependência das multi-nacionais. O resultado foi a inflação descontrolada, e problemas no balanço de pagamentos.

A crise se agravou com a renúncia de Jânio Quadros, e as histórias em torno da luta para garantir a posse do vice-presidente eleito - João Goulart, estão muito bem contadas na biografia recém publicada pelo historiador Jorge Ferreira (fiz uma resenha disso aqui na Gazeta).

Ou seja, em 1962 , o Brasil vivia uma percepção aguda dos problemas sociais e do subdesenvolvimento. Às greves e à radicalização do clima político, equivalia uma agitação cultural sem precedentes, com o envolvimento da juventude universitária como grupo privilegiado de circulação e produção de uma cultura nacionalista e de esquerda.

Havia uma percepção de que a Bossa Nova tinha feito a necessária modernização estética, mas carecia de conteúdo.

Essa reviravolta nos conteúdos, construiu em cima das conquistas harmônicas e estéticas da Bossa Nova um novo gênero de canção, alcunhado Bossa Nova Nacionalista, ou Canção de Protesto, ou ainda, Canção Engajada.

Para percebermos estas mudanças, escutamos as seguintes canções:

Carlos Lira - Influência do jazz (1963)

Baden Powell e Vinícius de Moraes - Canto de Ossanha (1966)

Edu Lobo - Borandá (1967)

O auge dessa articulação entre juventude universitária, esquerda nacionalista, canção popular, modernismo estético, e mídia televisiva e fonográfica aconteceu em torno dos festivais de 1967-68.

Assistimos dois vídeos paradigmáticos dessa representação da Canção Engajada nos festivais:

Geraldo Vandré - Disparada, defendida por Jair Rodrigues no festival de 1966

Chico Buarque - Roda viva, defendida pelo compositor no festival de 1967.

Mas a partir do Festival de 1968 entrou em cena um movimento proposto a problematizar o espaço dos festivais como catarse da juventude de esquerda.

O tropicalismo.

Porque desde meados da década de 1950 estava em curso o desenvolvimento da música que representava a juventude como consumidora e produtora de cultura, nos EUA e depois na Inglaterra.

Assistimos a um vídeo de Elvis Presley, cantando Tutti Frutti.

O cantor, em geral fazendo cover dos artistas negros que ficavam restritos às Race Records, enquanto ele, branco, podia circular por uma das majors, representava a rebeldia e a contestação, visto como um perigo para a moral e os bons costumes da classe dominante tradicional. Por isso as câmeras focavam tanto seu rosto ou seu violão, tentando evitar os quadris, que chacoalhavam sem parar.

No Brasil, os jovens suburbanos da Jovem Guarda ou Iê-Iê-Iê já vinham reproduzindo este modelo, em versões em português ou composições próprias. Mas eram vistos como alienados, representantes do imperialismo num meio musical dominado pelo mito da pureza original e da autenticidade exclusiva do samba como matriz da música popular brasileira.

Mas a explosão das bandas britânicas a partir de 1965 (Beatles, Rolling Stones e The Who), não tardaria a causar repercussões no Brasil.

(Assistimos o vídeo de My generation, apresentado por The Who em um clube noturno de Londres.)

Foi assim que o grupo formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, somando-se aos Mutantes, e apoiados pelo trabalho de arranjo do compositor de vanguarda Rogério Duprat articulou uma representação concorrente de brasilidade.

Os tropicalistas incorporaram o ruído das guitarras, os gritos guturais. Abandonaram o discurso do romantismo revolucionário e passaram a retratar um Brasil contraditório, incorporando à "linha evolutiva de João Gilberto" o rock, a vanguarda e o kitsch.

Como exemplo, assistimos o vídeo de Gal Costa cantando Divino maravilhoso, de Caetano Veloso, no festival de 1968.

Pela trilha exposta acima, percebe-se o quanto foram agitados os anos 60, momento único de fusão entre engajamento político, modernização estética e repercussão midiática.

Um tempo que até hoje deixa saudades em muita gente, até porque a conjunção de fatores que produziu uma cultura musical tão representativa do Brasil nunca mais conseguiu se repetir com a mesma intensidade.

26/09/2011 às 23:14

Só pra avisar que agora acabo de acertar como faço para liberar os comentários no blog.

Isso significa que tinha gente que tinha deixado mensagens de apoio ao blog, ou começado a debater alguma coisa e eu não tinha visto.

Algun comentários ficaram presos um tempão.

Peço desculpas. Agora acho que me acertei com a ferramenta de publicação.

Os textos anteriores do blog são:

Ateísmo em discussão

A importância da Música Nova

Entre a História, a Música e a Teologia: o perfil do blogueiro

A História Cultural e o blog

12/09/2011 às 13:53

Em muitos aspectos, é fundamental que haja um movimento ateu atuante e forte. Porque eu não tenho nem um tipo de saudade do mundo controlado pela religião. O mundo laico tem suas inúmeras vantagens.

Agora, existem muitos tipos de ateísmo. E certamente é mais do que necessário que os ateus se articulem, porque é inadmissível continuar imaginando um mundo onde pessoas possam ser perseguidas por crença ou descrença religiosa.

Mas acontece que existem algumas vertentes do ateísmo, que ganharam muita expressão polemizando recentemente com o cristianismo fundamentalista. O grande erro é tomar o fundamentalismo como a expressão legítima de fé. Não é não. Passa longe de ser a única, é talvez a que melhor se articula na política institucional, especialmente nos EUA e no Brasil. Mas é o lado do cristianismo mais frágil em questão de argumentação teológica.

Pode-se dizer, na verdade, que o fundamentalismo vive à sombra de um banimento e um interdição da teologia no meio eclesiástico - fenômeno que seria muito estranho na Europa, mas que é bem comum nestes lados mais para o ocidente.


Divulgação

Divulgação / Em O Debate sobre Deus, Eagleton rebate ideias do neodarwinista Richard DawkinsEm O Debate sobre Deus, Eagleton rebate ideias do neodarwinista Richard Dawkins
Esse cara da foto é o historiador Terry Eagleton. Marxista britânico, pode ser considerado membro da chamada Nova Esquerda Inglesa, que tem dado os melhores frutos do marxismo recente. Também pode ser inserido entre os pioneiros dos chamados Estudos Culturais, principalmente por seus trabalhos sobre literatura.

E o que tem ele a ver com o assunto aqui? Porque essa foto?

A foto serviu para ilustrar um texto do Paulo Camargo aqui no Caderno G alguns dias atrás. Uma dupla resenha de um livro do Eagleton e outro do historiador Paul Johnson.

Ambos os historiadores entram no debate com os ateus mais famosos - Richard Dawkins e Cristopher Hitchens. De Eagleton, a editora Nova Fronteira publicou uma série de conferências reunidas no livro O debate sobre Deus. De Johnson, a mesma editora trouxe uma biografia de Jesus. Johnson também é o autor da mais interessante História do Cristianismo disponível em português.

Certamente não são autores que pretendam qualquer apologia da religião. Eles são é muito críticos dela.

Difícil um historiador não ser.

Mas o problema é que simplesmente construir um discurso positivista e "científico" de que Deus não existe é um caminho fácil demais - e muito pobre.

Se os historiadores conhecem muito bem o problema da religião, pois se deparam com ela em muito de suas investigações, é certo que a ciência não oferece certezas melhores, nem uma coisa pode substituir a outra.

Entender como os cientistas fazem ciência e como os religiosos fazem teologia são assuntos muito interessantes para a História Cultural.

E combater o obscurantismo religioso não é só tarefa para ateus. É também para cristãos liberais como este blogueiro. O que não dá é para imaginar que a "verdade" religiosa possa ser substituída pela "verdade" científica. Ambos são discursos ideológicos com suas limitações inerentes.

Aliás, não custa lembrar, Eagleton tem um livro clássico sobre ideologia, publicado pela Boitempo.

24/08/2011 às 16:59

Existem muitas explicações para o surgimento da História como discurso verídico sobre o passado. Alguns reputam a cronistas da Antigüidade como Políbio, Heródoto ou Josefo, ou talvez ao evangelista Lucas.


gulsfisken/http://www.flickr.com/photos/guldfisken/398144161/

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Jacques Le Goff aponta como momento fundador a demonstração por Lorenzo Valla, no século XVI, da falsidade do documento conhecido como “Doação de Constantino”, atribuído ao imperador do Século IV e usado como fonte de legitimação dos Estados Papais. Ao estudar este documento, Valla demonstrou que os termos e a linguagem empregados não poderiam remontar ao século IV, confirmando a falsificação e estabelecendo a crítica documental, que seria a base da História como saber autorizado.

Afinal, se o historiador trabalha com documentos, nada mais importante que saber se o documento que servirá de base para o estabelecimento de um passado é confirmado e autêntico: ou seja, foi escrito por quem se diz que foi e no tempo em que se diz que foi.

Mas antes mesmo que Valla pudesse estabelecer a crítica verificadora, houve primeiro o surgimento do documento como tal: uma Europa urbana e comercial tornou-se cada vez mais um lugar onde os documentos escritos precisavam ser guardados. Fosse nos scriptoria de mosteiros e bispados, fosse nos baús de comerciantes ou de nobres ciosos de sua linhagem os suas terras. Reis que precisavam estabelecer seus domínios e sua reputação como parte de famílias de campeões.

No século XIX, a quantidade de documentos armazenada já tinha atingido uma quantidade exorbitante – era o caso agora de desenvolver as metodologias de organização dos museus e arquivos que os teriam sob guarda, bem como dos especialistas que se dedicariam ao seu estudo.

Surgiam ali os primeiros historiadores, no sentido moderno do termo – coisa que não pode ser desligada do interesse em fundamentar e articular o discurso moderno do Estado-Nação, que necessitava de fundamentos sólidos no passado – hoje sabemos, mais inventado do que real.

Mas foi o século XIX que criou os primeiros grandes eruditos da história, como Ranke, Coulanges, Michelet, entre outros.

No início do século XX a História já era uma disciplina mais do que estabelecida, tanto nas universidades, como em museus e em Sociedades e Institutos, além de movimentar uma parte considerável do mercado literário, e ter desdobramentos diversos, como a História da Arte, a História da Música, a História da Religião.

Como toda disciplina bem estabelecida, a História tinha adquirido um ranço particular, bem sedimentado, e difícil de ser revirado. Era uma sabedoria de eruditos, tinha apego ao documento oficial escrito, e se interessava principalmente por assuntos relativos aos “homens ilustres” - reis, generais, papas, grandes artistas, alguns heróis míticos fundadores de tradições, etc.

No século XX começou um movimento muito forte no sentido de destruir este belo castelo erigido a duras penas. Homens que transitavam dentro das Ciências Humanas, leitores de Marx, Durkheim ou Nietsche, capazes de perceber que a guerra de 1914-1919 havia destruído as velhas certezas sobre as quais a burguesia européia tinha construído suas formas de ver o mundo. Seria preciso derrotar as concepções positivistas e cientificistas de História, para que a disciplina se tornasse relevante no século XX, e não se prendesse ao saber mofado dos eruditos oitocentistas.

Um dos mais ativos combatentes por esta Nova História foi Marc Bloch, cujo livro Apologia da História é um grande clássico para se pensar estas transformações.

Várias gerações de historiadores se sucederam, e reformularam completamente a maneira de pensar e de fazer a história. Houve um movimento em direção ao homem comum, ao cotidiano, às mentalidades, à demografia, à alimentação, às idéias religiosas e/ou políticas, aos movimentos culturais e artísticos. Nada mais daquela “história de tratados e batalhas”, como criticava Bloch.

A história passou a ser vista não mais apenas da ótica das classes dominantes e dos homens ilustres, mas da ótica dos derrotados, dos trabalhadores, dos homens simples, muitas vezes tendo de contornar, para isso, a absoluta ausência ou omissão dos documentos oficiais escritos.

O historiador teve de aprender a se debruçar sobre romances, obras de arte, partituras, vestígios arqueológicos, ou mesmo teve de inventar maneiras totalmente novas de ler os velhos documentos. Agora era preciso fazer o documento dizer muito mais do que ele intencionava, e, para usar novamente a análise de Le Goff, o historiador teve de aprender que todo o documento, só de ser produzido e arquivado, já revela uma intencionalidade que precisa ser contornada pelo historiador. Ou seja, é preciso extrair do documento histórico principalmente o que ele não diz.

Assim, a atividade do historiador voltou a ser deveras empolgante – hoje não há assunto que não interesse ao estudioso de história. Aprendemos que não existe um passado definido, pronto a ser descoberto nos documentos. Existe uma relação passado-presente em permanente mudança.

Ou seja, ao olharmos o passado que pode ser entrevisto nas fontes históricas, estamos mesmo a olhar no espelho. A descobrir quem somos e para onde vamos.

E certamente, isso envolve aspectos muito além de saber quem é o rei ou o presidente, qual o PIB ou o valor da moeda, quem é o papa e qual a doutrina oficial. Há tantas abordagens possíveis quanto são possíveis os diferentes interesses humanos e os diferentes pontos de vista.

Ainda mais no Brasil, esse país tão particular. Uma nação moderna e arcaica, porque construída unicamente a partir dos domínios d'além-mar da monarquia portuguesa, tendo de trilhar os mais tortuosos caminhos para dar sentido a esta comunidade nacional que fala uma língua européia na terra de inúmeros povos ameríndios, e que se construiu sobre o sangue também de escravos trazidos da África.

Que implantou o cristianismo pela conversão e pelo batismo forçados, que estabeleceu um Estado moderno que fazia pouco sentido para a maioria dos trabalhadores rurais e da população analfabeta que estava espalhada num território extenso demais e pouco conectado por redes de transporte.

Se tentarmos entender como este país chegou a funcionar (é certo que há controvérsias quanto a isso), não poderemos usar aqui os conceitos desenvolvidos pela história européia. Nosso caso é por demais diferenciado. Ou, para usar um termo que Tom Jobim gostava de repetir: "o Brasil não é para principiantes".

Este blog aparece aqui na tentativa de caminhar por este universo por demais confuso em que se tornou a história como conhecimento possível. Servirá para aproximar o leitor desse mundo de discussões acadêmicas e de livros instigantes, para pensar junto sobre os pensadores que fizeram a história ser o que é. Mas, principalmente, para trazer questões sobre como se pode explicar historicamente muito do que somos, do que gostamos, das músicas e dos romances que nos tocam e fazem nossa identidade.

Ele serve para pensar o sentido de humanidade no século XXI, este momento mágico em que a maioria da população mundial não está mais diretamente ligada às lides necessárias para produzir o próprio alimento. Ou seja, estamos, a maioria de nós, humanos, no mesmo barco – inventando coisas inúteis para fazer e para dar sentido à nossa existência.

Isso é um dos significados mais fortes para o termo cultura. E é sobre como a cultura se articula numa relação entre passado e presente que estamos propondo pensar aqui neste espaço.

Quem for acompanhar este blog poderá esperar aqui comentários de livros clássicos, dicas culturais ligadas à história, comentários iconoclastas sobre nossos ídolos culturais, idéias esdrúxulas que podem dar resultados inesperados e nos levar a pensarmos de maneira nova. Poderá saber de novidades recém saídas das pesquisas acadêmicas, ou acompanhar de perto algumas coisas da nossa vida cultural – filmes, discos, shows, concertos, livros, exposições, tudo sob uma abordagem histórica.

E, ao contrário do que este primeiro texto pode ter deixado parecer, este blog não é um nicho para historiadores ou estudantes de história ou de pesquisadores da cultura. Ele parte do princípio que esses assuntos podem interessar a todos nós, o que significa que o leitor pode, e deve, se sentir à vontade para deixar aqui comentários, reclamar, perguntar e sugerir.

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