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Ir e Vir de Bike

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Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Noordoewer, Namíbia | Tour d´Afrique 2013, 05/05/2013 às 16:08


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Bicicleta é o principal meio de transporte para população africanaBicicleta é o principal meio de transporte para população africana

O Brasil está fora do mapa do Tour d´Afrique Ltd., empresa que organiza expedições ciclísticas em mais de cem países nos cinco continentes do planeta. A companhia que encara de frente a instabilidade política do Quênia, o risco de ataques da guerrilha colombiana ou os regimes ditatoriais do Irã ou Sudão não tem coragem de enfrentar o perigo que representa um brasileiro atrás do volante.

“Os motoristas brasileiros brincam com a vida e tentam passar o mais próximo possível dos ciclistas. O país não é seguro o suficiente para receber um de nossos tours”, avalia o empresário Henry Goldman, idealizador do Tour d´Afrique e proprietário da TDA Ltd.

Em 2008 a Vuelta Sudamericana -- uma das expedições promovidas pela empresa na América do Sul -- partiu do Rio de Janeiro, passando por São Paulo, Curitiba e Foz do Iguaçu, rumo à Argentina.

Pedalando pelas estradas do país, o empresário sentiu na própria pele a insegurança quando um veículo invadiu a área de acostamento apenas para lhe dar uma “fina”. “Isso aconteceu bem na frente de um carro da polícia rodoviária, que não fez simplesmente nada a respeito”, relata.

Goldman garante que a exclusão do Brasil do roteiro não se trata de uma vingança pessoal após o episódio. Prova disso é que ele foi atacado por um elefante enquanto pedalava na Índia, sofrendo fraturas múltiplas e traumatismo craniano, e nem por isso eliminou a expedição indiana do portfólio da empresa.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Bahir Dar, na Etiópia: a Amsterdã africanaBahir Dar, na Etiópia: a Amsterdã africana

“Estatisticamente, é muito mais provável um ciclista morrer atropelado no Brasil do que atacado por um elefante na Índia”, compara. “É preciso encarar que isso é um negócio e que estamos trabalhando com vidas. É mais seguro um tour de bicicleta do Cairo à Cidade do Cabo ou de Shangai a Istambul do que nas estradas brasileiras”, avalia.

Entusiasta da bicicleta, Goldman conta que já estudou a possibilidade de criar um roteiro partindo da costa do Nordeste atravessando o país de Leste a Oeste pela Rodovia Transamazônica. Outro plano que não saiu do papel pelo mesmo motivo foi um tour temático, inspirado na Copa do Mundo de 2014. O roteiro começaria em Wembley, na Inglaterra – berço do futebol – até Lisboa, em Portugal – a antiga metrópole – para então sobrevoar o Atlântico até o Recife e continuar a pedalada pela costa até o Rio de Janeiro, coincidindo com o início do mundial no Brasil.

“É uma pena não ter o Brasil em um dos nossos tours. O cicloturismo é uma forma inteligente de estimular a economia local, gerando investimentos e empregos em localidades fora dos grandes circuitos. O Brasil tem uma natureza esplêndida, com uma cultura riquíssima e um povo incrível, mas, infelizmente, não tem uma cultura ciclística e de respeito no trânsito”, lamenta.

O empresário conta que já esteve em Curitiba para conhecer os projetos do arquiteto e ex-prefeito Jaime Lerner. “Toda essa história em torno das bicicletas começou pelo meu interesse por transportes. A bicicleta nada mais é que um formidável meio de transporte”.

Exemplos africanos


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Vilarejo no interior da Tanzania oferece ciclovia para garantir a segurança de quem pedalaVilarejo no interior da Tanzania oferece ciclovia para garantir a segurança de quem pedala

Mesmo com todos os problemas, a África tem iniciativas positivas para mostrar ao mundo no campo da ciclomobilidade. A cidade de Bahir Dar, na Etiópia, por exemplo, é um dos cases mais interessantes do continente.

Ao invés de apenas lamentar que a Etiópia não é uma Holanda, a administração local buscou educar a população e promover uma mudança positiva no comportamento da população. Hoje, ciclistas convivem com motoristas, que por sua vez respeitam a faixa de pedestres – guardadas as devidas proporções, mais ou menos como em Amsterdã. De quebra, a cidade ainda ensinou a população que lugar de lixo é na lata do lixo e ganhou um prêmio internacional de cidade mais limpa do continente – também guardadas as devidas proporções, uma espécie de “Capital Ecológica” africana.

Também no Malauí – um dos países mais pobres do continente --, a bicicleta é o principal meio de transporte da população. Nos rincões da Tanzania é possível pedalar em uma ciclovia paralela à rodovia principal, que garante a segurança de quem usa. Já na Zâmbia, o governo oferece em parceria com ONGs – incluindo a Fundação Tour d´Afrique – bicicletas para que os alunos pedalem até a sala de aula, aferindo excelentes resultados no desempenho escolar.

Enquanto isso, no Brasil, há quem defenda que não somos um país apropriado para o uso de bicicletas; e com razão. Enquanto houver quem se orgulhe do próprio subdesenvolvimento, continuaremos atrás não somente da Holanda e da Dinamarca, mas também de países como Turcomenistão, Bolívia e Malauí, perdendo oportunidades, investimentos e, acima de tudo, vidas.

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Maun, Botsuana | Tour d´Afrique 2013, 19/04/2013 às 11:25


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Placa alerta para a presença de elefantes nas estradas de BotsuanaPlaca alerta para a presença de elefantes nas estradas de Botsuana

A jornada ciclística pelo continente africano cruzou a fronteira de Botsuana dando início à penúltima etapa do Tour d´Afrique na famosa Elephant Highway (Rodovia dos Elefantes), cujo nome, por óbvio, é autoexplicativo.

Do ponto de quem pedala, atravessar longas estradas completamente retas e planas que parecem não ter fim não é das coisas mais emocionantes do mundo. Mas a situação muda drasticamente de figura e se torna uma experiência marcante quando, de repente, você é obrigado a parar sua bicicleta para ceder passagem para manadas de elefantes que atravessam a pista.

A rota rumo ao Sudoeste africano atravessa parques nacionais de Botsuana que, além dos gigantes paquidermes, também abrigam girafas, rinocerontes e outros animais selvagens que podem ser avistados ao longo da estrada.

Mas o safari sobre duas rodas também tem seus riscos. Para proteger os ciclistas– ou ao menos tentar passar um pouco a sensação de segurança – a organização do TDA contratou um especialista em comportamento de elefantes, que percorre a estrada em um jipe durante todo o dia para avaliar a situação.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Respeite o pedestre (e o elefante)Respeite o pedestre (e o elefante)

Darriel, conhecido por aqui como “The Elephant Guy” (O Cara dos Elefantes), é capaz de avaliar através dos sons, posição das orelhas e outros sinais se um elefante é apenas uma atração ou um risco em potencial. Segundo ele, os animais estão plenamente acostumados a conviver com carros e caminhões, mas é impossível prever a reação dos grandalhões diante de alguém sobre uma bicicleta.

Para evitar riscos, Darriel nos passou instruções óbvias como manter distância segura dos animais, não gritar ou tacar objetos e manter a calma (como se isso fosse fácil!) e pedalar, pedalar muito na direção contrária caso algum elefante corra em nossa direção.

Mas a convivência com a vida selvagem não se restringe apenas aos momentos em que estamos pedalando. Há poucos dias, em um dos acampamentos na beira da estrada (bush camp), recebemos o alerta da organização de não nos afastarmos do perímetro do acampamento durante a noite para “usar os arbustos” em momentos de necessidade pois a área é reserva natural e habitat de elefantes, leões e aranhas.

Bons ventos

Diferentemente dos outros países nos quais pedalamos até agora, em Botsuana quase não há cidades ou vilas ao longo da rodovia, o que torna a pedalada uma aventura solitária que nos coloca em contato com a natureza local.

Enfrentando dias largos nas últimas etapas, com quilometragem acima dos 150 quilômetros por dia em uma topografia totalmente plana (flat), o vento se torna fator fundamental para o desempenho da pedalada.

Quando o vento sopra a favor (tail wind), é possível pedalar 184 quilômetros em um dia (a etapa mais larga até agora), praticamente com o “pé nas costas” e uma média horária acima dos 30 km/h.

Por outro lado, quando o vento sopra forte na direção contrária (head wind) é difícil pedalar acima dos 20 km/h, mesmo colocando toda a energia nos pedais. Assim, chegar ao acampamento pedalando após oito horas sobre a bicicleta acaba sendo uma tarefa desgastante.

Nos próximos dias, para cruzarmos a fronteira entre Botsuana e Namíbia, enfrentaremos a temida etapa de 208 quilômetros em um único dia– a mais longa de todo o Tour d´Afrique, superando a marca de 185 km pedalados na última semana.

Para muitos dos participantes – inclusive para mim --, será um novo recorde de distância pedalada em um único dia. Que os bons ventos nos ajudem a superar mais esse desafio.

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Mbea, Tanzânia | Tour d´Afrique 2013, 02/04/2013 às 10:20


Din van Helden/Holanda

Din van Helden/Holanda / Drama na lama: atoleiro na Tanzânia desafiou ciclistas do Tour d´AfriqueDrama na lama: atoleiro na Tanzânia desafiou ciclistas do Tour d´Afrique

Alcançamos a zona tropical africana, onde a chuva se faz presente dia sim, dia também. Na Tanzânia, quinto país do Tour d´Afrique, aprendemos, na marra, o que é pedalar no molhado, rezando pela impermeabilidade das nossas barracas e por um pouco de piedade por parte de São Pedro.

O calor forte e a alta humidade por aqui dão a impressão de que estamos pedalando em uma imensa sauna. A sensação de desconforto, entretanto, é aplacada pela experiência de percorrer, sobre duas rodas, as incríveis paisagens do país, com estradas recortando pequenas vilas, plantações e trechos de mata tropical fechada, onde também é possível avistar famílias de babuínos e outras espécies de macacos.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Trecho lamacento nas estradas da TanzâniaTrecho lamacento nas estradas da Tanzânia

Nas terras altas, ao Sul do país, as plantações de chá – um dos principais produtos da economia local – ganham um tom de verde-dourado com o sol da manhã, exalando um perfume único e envolvente, que dá energia para seguir pedalando mesmo nos trechos de escalada mais rigorosos.

No total foram oito dias consecutivos na estrada, incluindo cinco etapas de off-road, entre Arusha e Mbea. Com as chuvas torrenciais no fim de cada tarde, o trecho de terra se tornou um verdadeiro atoleiro, que desafiou até mesmo os ciclistas mais experientes do Tour d´Afrique.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Jared Lester (Canadá), adepto da Jared Lester (Canadá), adepto da "lamaterapia tanzaniana"

Para alguns, colocar as rodas da bicicleta na lama foi um verdadeiro martírio. Para mim, ao contrário, foi pura diversão! Com uma mountain bike 29”, atravessei com prazer cada poça pelo caminho, espirrando água e lama por todos os lados.

Alguns ciclistas, que tentavam manter a roupa branca e as rodas limpas, me olhavam com um certo ar de desconfiança e incredulidade, como que pensando: “Que diabos este brasileiro pensa que está fazendo?”. Para estes, tentei transmitir, em inglês, o conceito de expressões como “If you are on the hell, hug the devil” (Se está no inferno, abrace o capeta) ou “Who is rain, is to get wet" (Quem está na chuva é para se molhar).

No segundo dia de off-road, a organizações do TDA deu o alerta: “Be ready for the mud drama” (Estejam preparados para o drama da lama). Como prefiro ver a poça d´água meio-cheia (ao invés de meio-vazia), acabei batizando a experiência de “lamoterapia”, que funciona mais ou menos assim: a lama suja a bicicleta, as roupas e o corpo; ao mesmo tempo em que limpa a cabeça e lava a alma. E deu certo e consegui compartilhar a experiência com alguns amigos, que perderam o trauma da lama e aprenderam que, sobre uma bicicleta, se sujar faz bem.

No fim do dia, no acampamento, a lamoterapia foi coroada por um lindo arco-íris e complementada com um delicioso banho de chuva, com direito a xampu e sabonete. A experiência na Tanzânia foi, realmente, de lavar a alma.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Fórmula perfeita: Bicicleta + Lama + Arco-íris + Banho de chuva = FelicidadeFórmula perfeita: Bicicleta + Lama + Arco-íris + Banho de chuva = Felicidade

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Nairóbi, Quênia | Tour d´Afrique 2013, 10/03/2013 às 08:10


Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike / Com a bicicleta no centro do Planeta TerraCom a bicicleta no centro do Planeta Terra

O Tour d´Afrique está no Sul do mundo. No último estágio no Quênia, antes de chegarmos à capital Nairóbi, atravessamos a linha imaginária que divide o mundo em dois hemisférios. A imaginação foi longe e a emoção tomou conta quando coloquei as rodas de minha bicicleta em paralelo à Linha do Equador, pedalando alguns metros exatamente no meio do Planeta Terra.

Olhar para o GPS e ver a coordenada geográfica N 0°00'00" é realmente interessante, assim como a experiência de parar exatamente sobre a linha, com um pé no Norte e outro no Sul do mundo, um no inverno e outro no verão.

Os dias no Quênia, entretanto, têm sido marcados mais pela frustração do que propriamente pelas pedaladas. A situação política é delicada por conta da realização das eleições gerais no país e, novamente, a organização do TDA resolveu cancelar mais um estágio.

A chegada em Nairóbi estava programada ontem (9/3), o exato dia em que a Comissão Nacional Eleitoral divulgou o resultado oficial das eleições no Quênia.

Temendo aglomerações e protestos nas ruas da capital, a organização preferiu colocar todos os ciclistas – e suas respectivas bicicletas – dentro de um ônibus. Ao todo, 6 dos 15 dias de pedal no Quênia foram abortados – representando mais de 50% da etapa Meltdown Madness.

Mas a situação por aqui aparenta estar tranquila até o momento. O candidato derrotado, Odinga, deu declarações contestando a vitória de Kenyata. Há sete anos, ao não aceitar a derrota Odinga deu início a violentos protestos, que resultaram em mais de 1,2 mil mortos. O perigo, portanto, existe.


Chris Walker/http://universallanguageblog.com/

Chris Walker/http://universallanguageblog.com/ / Riders do TDA em viagem de ônibus para evitar manifestações eleitorais em Nairóbi, no QuêniaRiders do TDA em viagem de ônibus para evitar manifestações eleitorais em Nairóbi, no Quênia

Nairóbi é a cidade mais “ocidentalizada” que visitamos aqui na África. Com uma economia relativamente bem desenvolvida, aqui estão presentes grandes companhias multinacionais , shopping center, concessionárias de veículos; tudo isso com um toque de subdesenvolvimento que lembra um pouco as metrópoles brasileiras.

No shopping de Nairóbi tivemos acesso a primeira bicicletaria decente desde o início da viagem. Aproveitei para comprar duas câmaras reservas – após 18 furos desde o início da viagem, já não me restava nenhuma das 4 câmaras sobressalentes que trouxe.

O campeão em pneus furados até agora é o irlandês Darragh, com 24 furos pelo caminho. Por outro lado, cinco sortudos já rodaram mais de 4,6 mil quilômetros sem um furo sequer.


Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike / Participantes do Tour d´Afrique em foto na Linha do EquadorParticipantes do Tour d´Afrique em foto na Linha do Equador

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Nanyuki, Quênia | Tour d´Afrique 2013, 04/03/2013 às 11:10


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Cartaz ensina funcionamento do sistema de votação nas eleições gerais do QuêniaCartaz ensina funcionamento do sistema de votação nas eleições gerais do Quênia

O Tour d´Afrique (TDA) chegou ao Quênia justamente na semana em que o país vai às urnas para as primeiras eleições gerais sob a nova Constituição, após o pleito que culminou no sangrento episódio de 2007, quando mais de 1,2 mil pessoas morreram e centenas de milhares tiveram suas casas incendiadas e ficaram na condição de refugiadas em seu próprio país.


A votação transcorre em aparente clima de tranquilidade no país nessa segunda-feira (4), mas o risco de uma nova onda de violência fez com que a organização do TDA cancelasse cinco dias de pedal (estágios) desta etapa da viagem.

Com isso, foi adotado um plano de contingência e percorremos de ônibus um trecho de mais de 360 quilômetros entre Moyale, na fronteira com a Etiópia, e Nanyuki, a cinco quilômetros ao Norte da Linha do Equador.

Perder cinco dias de pedal deixou muita gente chateada, mas o quadro poderia (e ainda pode!) ser muito pior. Em 2007, no auge da onda de violência, o Quênia foi simplesmente riscado do mapa e os ciclistas tiveram de sobrevoar o país.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Comício na véspera da eleição arrastou multidão de apoiadoresComício na véspera da eleição arrastou multidão de apoiadores

Desta vez, apenas o trecho considerado mais crítico foi abortado. A decisão foi para evitar que estivéssemos literalmente no meio do nada, sem acesso a comunicação e suprimentos, caso a situação se agrave.

A cidade de Nanyuki foi escolhida por abrigar uma base militar norte-americana e outra britânica que podem prestar apoio diante de qualquer necessidade. Além disso, há um aeroporto local que pode ser usado para deixar o país rumo à Tanzânia caso a situação se deteriore.

Embora as autoridades locais jurem de pé juntos que não há perigo de distúrbios políticos, observadores internacionais e fontes diplomáticas veem a situação com um pouco mais de cautela. Um suíço que participa do TDA e ocupa um cargo diplomático em Washington recebeu a recomendação pessoal do chefe do setor de segurança de seu país para não entrar no Quênia durante esse período. Outra fonte das Nações Unidas (ONU) consultada pela organização do Tour recomendou “cautela máxima” e disse que há risco de distúrbios violentos por conta do resultado das eleições.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Propaganda de candidatos em vilarejo no interior do QuêniaPropaganda de candidatos em vilarejo no interior do Quênia

Já o Itamaraty espera que as eleições transcorram de modo pacífico, mas recomenda cautela a viajantes brasileiros que visitam o país no período eleitoral. Para a comunidade brasileira residente no país, a representação brasileira em Nairóbi preparou um documento com recomendações de medidas de precaução. Por via das dúvidas, notifiquei à embaixada brasileira sobre minha presença no país e informei o número do celular via satélite da organização do TDA caso haja qualquer emergência.

A avaliação geral é de que em seis anos as feridas podem não ter cicatrizado o suficiente e o resultado das urnas pode ser o estopim para eclodir uma nova onda de violência intertribal.

Em 2007, Kibaki – representante da tribo Kikuyu, a maior das mais de 40 etnias que habitam o país -- foi declarado vencedor das eleições, mas seu rival Odinga – da tribo Luo – contestou o resultado, alegando fraude.

Cada lado foi às ruas defender seu líder, dando início a uma escalada de violência, que ganhou força com a histórica rivalidade entre as tribos, resultando em “alianças” com outras etnias que transformou a disputa política em uma verdadeira guerra, com pessoas mortas a golpes de facão e lanças e vilas inteiras incendiadas.

A violência só teve fim em fevereiro de 2008, após um acordo intermediado pelo ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que resultou na formação de um governo de coalizão com a criação de um gabinete de primeiro ministro para Odinga e impedindo Kibaki de concorrer a um segundo mandato.

Nestas eleições são oito candidatos disputando a presidência. Os dois principais são Raiala Odinga e Uhuru Kenyatta, que são filhos do primeiro vice e do primeiro presidente do país, respectivamente. Além deles, disputam a eleição Martha Karua – a única mulher --, Musalia Mudavadi, Peter Kenneth, Mohammed Dida, Paul Muite e James Ole Kiyiapi.

Todos se comprometeram publicamente em aceitar o resultado das urnas e não insuflar rivalidades étnicas. Espera-se que assim seja, para o bem de todos e principalmente para o bem do próprio Quênia.

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Addis Ababa, Etiópia | Tour d´Afrique 2013, 19/02/2013 às 13:54

Confira a videorreportagem especial do blog Ir e Vir de Bike no Tour d´Afrique, na etapa que atravessou o Desfiladeiro do Nilo Azul (The Gorge of Blue Nile).

A média de subida dos últimos oito dias na Etiópia foi equivalente a escalar, de bicicleta, o Monte Everest!

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Bahir Dar, Etiópia | Tour d´Afrique 2013, 12/02/2013 às 14:10

* You! Where are you go? (Você! Para onde você vai?)


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / País guarda surpresas a cada curvaPaís guarda surpresas a cada curva

Nas escaladas intermináveis das montanhas, nas descidas íngremes ou mesmo nas pequenas vilas, pedalar na Etiópia tem sido uma experiência intensa e reveladora. O país, encravado no Chifre Africano, guarda surpresas a cada curva -- e são muitas delas pelo caminho.

Deixamos para trás as áridas paisagens desérticas do Egito e Sudão para percorrer lindas paisagens recortadas por vales e montanhas. Ao longo do leito do Nilo Azul, encontramos campos férteis com diversas culturas agrícolas e criações de gado e cabras.

A parte triste surge com a constatação de que grande parte do trabalho tanto nas lavouras quanto no pastoreio do rebanho é feito por crianças, às vezes com apenas quatro ou cinco anos de idade.

Mas nem o trabalho precoce tira a alegria de viver desssas crianças. Em cada vila que passamos, somos saudados por uma sinfonia de pequenos dizendo ao mesmo tempo “Iu-iu-iu-iu-iu” (do inglês, you; você), uma forma local de se dirigir aos estrangeiros, enquanto nos acenam.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Criança etíope pastoreando gado: cena é comum no interior do paísCriança etíope pastoreando gado: cena é comum no interior do país

Ao contrário dos outros países, em que éramos recebidos por saudações como “hello” ou “Salam-aleikum”, aqui na Etiópia somos diretamente questionados: “You! Where are you go?” (Você! Para onde você vai?). Chega a ser engraçado e ninguém ainda conseguiu descobrir de onde vem essa curiosidade, que se repete exaustivamente praticamente a cada metro: Iu-iu-iu! Uerariugô?

Basta responder o nome da próxima cidade ou da capital, Addis Ababa, e recebemos de volta um sorriso e a confirmação: Yesss!!!

Outros, mais velhos (e mais espertinhos), tentam a sorte esfregando o polegar e o indicador enquanto gritam “Birr! Birr! Birr!” -- birr é o nome da moeda local – ou exercitam o que aprenderam nas aulas de inglês com “Money, money!”.


A Etiópia é um país extremamente pobre, mas o etíope tem um profundo orgulho de seu país. Essa é uma das nações mais antigas do planeta, tem uma língua própria (o amárico) e é um dos únicos países do continente que escapou relativamente ileso do processo de colonização europeu – apesar da investida da Itália na década de 1930.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Pausa para o cafezinho: produto é admirado em todo o mundo e ajuda a gerar emprego e renda na EtiópiaPausa para o cafezinho: produto é admirado em todo o mundo e ajuda a gerar emprego e renda na Etiópia

Mas todo esse orgulho é deixado de lado na hora de admirar outro país: o Brasil. Nas cidades ou vilas, não é difícil encontrar adultos e crianças vestindo roupas com a inscrição “Brasil” ou versões da camisa da seleção brasileira com nomes como Ronaldo, Ronaldinho ou Rivaldo.

Nas pausas para descanso ou paradas para um cafezinho, ostentar a bandeira brasileira no ombro é sempre um cartão de visitas que ajuda a conquistar a simpatia da população local.

E, por falar em cafezinho, na Etiópia, cafezinho (buna, em amárico) se prepara na rua, com água fervida na brasa. Enquanto prepara o café, eles colocam em um defumador a casca de uma planta local, que tem cheiro de incenso.

O café etíope, aliás, é considerado um dos melhores do mundo. Reza a lenda que foi por essas bandas que um pastor percebeu que suas cabras ficavam mais saltitantes quando comiam o fruto vermelho de um arbusto nativo da região.

Hoje o café é o principal produto de exportação do país e que mais gera emprego e renda na economia local. Uma xícara, nas vilas do interior do país, custa 3 birr (equivalente a R$ 0,32). É uma saborosa fonte de energia entre um pedal e outro!

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Dongar, Etiópia | Tour d´Afrique 2013, 09/02/2013 às 10:39


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Alvorada no acampamento do TDA no SudãoAlvorada no acampamento do TDA no Sudão

Atravessar a África de bicicleta não é tarefa fácil. A exigência física é intensa, mas é apenas uma fração da preparação necessária para superar as dificuldades do dia a dia. O lado emocional acaba sendo tão ou mais relevante que o condicionamento físico para lidarmos com as dificuldades e imprevistos que surgem durante a expedição.

Acordar cedo, para mim, é uma das tarefas mais ingratas. Estou acostumado a dormir tarde e acordar tarde, mas por aqui o toque de alvorada é antes mesmo do sol nascer para levantarmos acampamento e pegarmos a estrada aproveitando ainda os primeiros raios de luz do dia. Não raro, quando coloco a cabeça para fora da barraca já não há nenhuma outra em pé ao meu redor.

Começar o dia com um pneu furado ainda no acampamento também é uma situação frustrante -- os minutos que se perde remendando a câmara é um tempo que você poderia aproveitar conversando com a população local, tirando fotos ou simplesmente contemplando a paisagem.

Passei por isso três manhãs consecutivas, o que me fez levantar a hipótese de que há alguma versão africana do Saci Pererê, que fura seu pneu durante a madrugada. No total, foram 15 furos desde o início da viagem.


Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento - Arq. Pessoal/Ir e Vir de Bike / 3 manhãs consecutivas com pneu furado logo pela manhã. E outros 12 pelo caminho (até agora)3 manhãs consecutivas com pneu furado logo pela manhã. E outros 12 pelo caminho (até agora)

O calor, até agora, se mostrou o maior inimigo dos ciclistas. O termômetro do ciclocomputador de um dos participantes chegou a apontar a temperatura ambiente de 47°C – ainda que não se possa confiar na precisão, certamente o calor ultrapassou a marca dos 40°C, dando a sensação de você vai derreter enquanto pedala no deserto.

O corpo não chega a suar – o calor é tão intenso que o suor evapora instantaneamente, não dando tempo para o mecanismo natural de resfriamento funcionar adequadamente. Para contornar a situação é preciso usar boné, filtro solar e beber litros e mais litros de água – é possível sorver, sem muito esforço, um litro em apenas uma talagada.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Espinhos: vegetação nativa sabota os ciclistas na ÁfricaEspinhos: vegetação nativa sabota os ciclistas na África

Particularmente, tive apenas um momento mais crítico com quadro de início de desidratação e hipoglicemia (falta de açúcar no sangue). Ainda no Sudão, quando atravessávamos o Deserto de Núbis, acabei não me alimentando adequadamente pela manhã – normalmente, não tenho fome quando acordo -- e também relaxei um pouco na ingestão de líquidos durante o dia.

No meio da tarde, em uma parada em uma das vilas locais, desci da bicicleta cambaleando, com uma sensação de fraqueza e tremedeira e deitei no chão, exausto, para recuperar o fôlego. Foi então que a ciclista da Nova Zelândia Anne Cook, que é enfermeira, percebeu o quadro e veio me ajudar.

Ela molhou minha testa e nuca e comprou uma lata de abacaxi em conserva e pediu para que eu bebesse toda a calda, para repor o líquido e as energias perdidas. Demorei quase meia hora para me recompor, mas consegui seguir em frente e completar o dia pedalando.

Outra etapa bastante crítica foi o trecho off-road até atingirmos a fronteira entre o Sudão e Etiópia. Foram três dias em estradas secundárias de terra. A opção para pedalar era a de escolher entre a areia fofa – que pode provocar quedas e exige o dobro de esforço – ou as chamadas “costelas de vaca”, que tornam a pedalada um verdadeiro tormento.

No meu caso, entretanto, a parte off-road foi a que mais gostei até agora. Gosto de desafio de pedalar na terra, com a concentração totalmente focada na estrada, segurando para não derrapar a roda traseira da bicicleta e contornando buracos, poças, troncos e rebanhos de gado e cabras. Minha bicicleta é uma mountain-bike, com aro 29, um verdadeiro “jipe” capaz de encarar esse tipo de terreno com certa facilidade.

Além disso, o trajeto passou por vilas esquecidas no interior do Sudão, em aldeias sem luz elétrica ou água encanada, em que a população vive em cabanas de tijolo de barro e teto de palha, tendo como fonte de subsistência os cabritos e as cabeças de gado que conseguem criar.

Foi neste cenário que fui tocado pela primeira vez o espírito do continente africano. O engraçado foi que, no segundo dia de terreno off-road, cheguei ao acampamento com um sorriso no rosto, tomado por um misto de êxtase e alegria que aumentava a cada pedalada por estar vivendo essa experiência única e conhecendo, de bicicleta, locais tão especiais no coração deste continente mágico. Ao mesmo tempo, nove ciclistas literalmente tombaram de exaustão e precisaram de atendimento médico.



Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Hospital de campanha: 9 ciclistas precisaram de atendimento médico com sintomas de desidratação e insolação após etapa off-roadHospital de campanha: 9 ciclistas precisaram de atendimento médico com sintomas de desidratação e insolação após etapa off-road

Atrás do caminhão de apoio foi montado um hospital de campanha. A maioria apresentava quadro de desidratação severa e insolação. Mike, um norte-americano de 1,90 metro e mais de 100 quilos, desmaiou bem na minha frente e precisou tomar soro na veia para se recuperar.

Já na Etiópia, de volta ao asfalto, tivemos outro grande desafio: escalar, em apenas um dia, mais de 2,5 mil metros das lendárias montanhas de Simien, onde, segundo a bíblia, teria vivido a Rainha de Sabá.


Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike

Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Montanhas de Simian, na Etiópia: 2,5 mil metros de escalada em paisagens bíblicasMontanhas de Simian, na Etiópia: 2,5 mil metros de escalada em paisagens bíblicas

O trecho de mais de 30 quilômetro de aclive é feito em marcha levíssima, a cerca de seis quilômetros por hora – praticamente a velocidade de uma caminhada. O que significa que você pedala, pedala, e praticamente não sai do lugar. Some-se a isso outro desafio: as crianças, que não se contentam apenas em dizer “hello”, mas querem tocar em você, segurar a bicicleta – uma ciclista chegou a cair e torcer o tornozelo ao ser puxada por uma criança. Alguns simplesmente se atiram na sua frente e, não raro, algumas acabam sendo agressivas, tacando pedras ou pedaços de pau nos ciclistas.

O colega italiano Marco Panebianco adaptou uma expressão de seu país e sempre que vê alguém em alguma situação de dificuldade diz, com bom humor: “E você, o que pensava? Que viria à África pentear bonecas?”. Outra expressão comum em momentos de dificuldade é “Isso aqui é África! Não é a Disneilândia!”. E não é mesmo...

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Cartum, Sudão | Tour d´Afrique 2013, 31/01/2013 às 11:50


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Embarcação Sinai, durante a travessia da fronteira entre Egito e SudãoEmbarcação Sinai, durante a travessia da fronteira entre Egito e Sudão

Já estamos em Cartum, capital do Sudão, depois de aproximadamente 2 mil quilômetros pedalados desde a partida no Cairo. Aqui, o Tour d´Afrique encerra sua primeira fase, o Pharaoh's Delight (Deleite do Faraó), e inicia a segunda etapa, The Gorge (As Montanhas), até Adis Abeba, capital da Etiópia.

Peço desculpas pois acabei não conseguindo postar nenhuma atualização desde Luxor já que as cidades pelas quais passamos – Aswan, no Egito, Hadi Alfa e Dongola, no Sudão, não ofereciam conexão de internet com capacidade suficiente para postar algumas fotos.

A travessia da fronteira entre os dois países foi feita em uma embarcação, em uma viagem surreal de aproximadamente 20 horas, já que a estrada não oferecia condições de segurança e área é uma zona militar de segurança, por conta do Lago Nasser, que abriga das grandes usinas hidrelétricas entre o Egito e o Sudão.

O barco Sinai era uma verdadeira Babilônia, com pessoas de diversas partes do mundo -- em especial da África -- espalhadas pelo convés em cima de caixas, dividindo cada milímetro de espaço.

Ainda que não tenha sido um trecho pedalado, a experiência foi bastante interessante e deu a sensação de estarmos vivendo a realidade africana – é através desse tipo de viagem que pessoas e mercadorias transitam diariamente entre os dois países.

Já os primeiros dias de pedal no Sudão apenas comprovaram a certeza de que este é um país extremamente pobre e subdesenvolvido. Comparado ao Egito – em que as margens do Nilo se transformaram em extensas áreas agricultáveis, no Sudão, uma ínfima parte é aproveitada para o plantio e produção de alimentos.

O que se vê ao longo da estrada no imenso Deserto de Núbis são pequenas aldeias de casas de tijolos de barro vivendo da criação de cabras e usando jumentos como meio de transporte – aqui um parênteses: não fosse o turbante, as mesquitas e os camelos, a cena em quase nada difere da do sertão do Nordeste brasileiro.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Pausa no pedal para interagir com as crianças no SudãoPausa no pedal para interagir com as crianças no Sudão

Em algumas vilas, paramos para fazer contato com os locais e, surpreendentemente, mesmo nos confins do Sudão é possível encontrar alguém que domine ao menos o básico do idioma inglês, possibilitando assim algum tipo de comunicação. Até mesmo algumas crianças arriscam frases como "Ru arú?" (How are you?" ou "Aru from?" (Where are you from?".

Em um pequeno mercado ao Sul de Dongola, parei para tomar um chá em uma pequena vila, acompanhado de Michael (Mike), um ciclista inglês sexagenário. A percepção é de que a população vive dessa mesma forma há séculos, comercializando tâmaras secas, grãos, farinha, pão, leite e carne de cabrito – expostas às moscas e sem refrigeração.

E por falar em moscas, elas praticamente dominam o Sudão. Às margens do Nilo, é praticamente impossível respirar ou abrir a boca sem engolir alguns mosquitos. Mesmo com os ouvidos cobertos, o zumbido é capaz de deixa-lo quase a beira da loucura.

É como se os mosquitos fizessem parte da composição da atmosfera local. A população do deserto usa sobre o rosto uma espécie de uma tela fina, que impede a ingestão dos mosquitos ou que eles explorem suas narinas e ouvidos -- o que acabou acontecendo comigo.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Camping do Camelo Morto: não precisa explicar muito...Camping do Camelo Morto: não precisa explicar muito...

A quantidade é tão grande, que após alguns minutos de pedal minhas pernas e braços ficaram cheios de mosquitos grudados – como ocorre com o para-brisas de um veículo após uma viagem.

No jantar daquela noite no acampamento, o menu trazia apenas alguns vegetais cozidos e nada de carne. Ao ser questionado por um dos ciclistas porque não havia carne, o cozinheiro respondeu: “Vocês já tiveram sua dose de proteína diária enquanto pedalavam”, fazendo referência aos mosquitos ingeridos durante o trajeto.

No deserto, além dos mosquitos e de temperaturas acima dos 40ºC durante a tarde, enfrentamos também uma terrível tempestade de areia. Um brisa leve que começou mais ou menos na hora da parada para o almoço começou a empurrar um pouco de areia para a estrada. O vento foi ficando mais forte e, quando nos demos conta, não era mais possível enxergar mais de 20 metros s nossa frente.

O sol se apagou e o céu ficou tingido de vermelho, dando a sensação de que estávamos em uma paisagem marciana. A atmosfera ficou seca, praticamente irrespirável. A areia entra nos olhos, nos ouvidos, nas narinas e na boca -- e ode mais se puder imaginar.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Pedalada durante tempestade de areia no DEserto de Núbis, no SudãoPedalada durante tempestade de areia no DEserto de Núbis, no Sudão

Além disso, a mistura de camadas e mais camadas de protetor solar com o suor do corpo cria uma contição perfeita para aderir a areia. Assim, o corpo fica “empanado” de areia. No meu caso, era tanta areia aderida na minha perna que praticamente não conseguia mais ver minha tatuagem. Com a cara sua e areia colada por todo o corpo, o chefe do Tour chegou a brincar que eu estava parecendo o “Abominável Homem Areia”, um primo distante do famoso e lendário Pé Grande, que habita as montanhas congeladas do Canadá.

Mais tarde, soubemos que a tempestade de obrigou as autoridades sudanesas a desviar voos de Cartum para Adis Abeba, na Etiópia, por falta de segurança de condições de pouso. E nós, o intrépidos ciclistas do TDA, estávamos exatamente no meio da densa nuvem de areia.

Enviado por Alexandre Costa Nascimento (@irevirdebike) - Luxor, Egito | Tour d´Afrique 2013, 16/01/2013 às 13:38


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Estrada no deserto, rumo a LuxorEstrada no deserto, rumo a Luxor

Nesta quarta-feira (16) chegamos à Luxor para o primeiro dia de descanso desde o início do Tour d´Afrique. Descanso merecido: foram 768 quilômetros percorridos em apenas seis dias de pedal – uma média, nada desprezível, de 128 km/dia.

O primeiro dia após deixarmos Safaga foi o mais difícil do Tour (até agora) – nos primeiros 50 quilômetros, encaramos um trecho com 890 metros de elevação e vento forte soprando contra.

Nestas condições, não há marcha capaz de te dar um bom rendimento e parece que você pedala, pedala e não sai do lugar – tanto que a média, que no dia anterior havia passado dos 32km/h, dessa vez caiu para 12 km/h nesse trecho.

E, para piorar, tive um inflamação em um tendão da perna direita que está doendo horrores. A região está inchada e, a cada pedalada, é como se tivesse uma agulha entrando e saindo da minha perna. Estou tentando tratar com pomada de Diclofenaco e tomando Nimesulida como se fosse M&Ms para aliviar um pouco a dor. Mas é preciso encarar também esse tipo de contratempo: ninguém falou que seria fácil. Além do mais, não há glória sem sacrifício.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Paisagem fascinante, mas cansativa depois de alguns quilômetrosPaisagem fascinante, mas cansativa depois de alguns quilômetros


Nos dois dias seguintes, percorremos o deserto Arábico -- que faz parte do Saara oriental. O trecho exigiu bastante da parte física, mas não retribui com nada.

No início, a paisagem e o silêncio do deserto são fascinantes – mas, depois de um tempo, enjoa. Não há nada para se ver além da estrada, o horizonte, areia e pedras.

Em uma venda de beira de estrada (feche os olhos e tente imaginar o que é uma venda de beira de estrada no interior do Egito!) – parei apenas para esticar um pouco as pernas quando um jovem se aproximou.

Tentei iniciar uma conversa com algumas palavras em inglês, mas sem sucesso. Partimos então para a linguagem dos gestos e sinais: apontei para mim, dizendo meu nome e ele fez o mesmo, se identificando como Mahmud.

Disse a ele que vinha do Cairo. Ele apontou para a bicicleta, fascinado, e disse alguma coisa em árabe – claro que eu não entendi.
Arrisquei então uma das três palavras que sei no idioma: darraja (bicicleta). Ele sorriu surpreso e exclamou: darraja!

Ofereci então minha “darraja” para ele dar uma volta e ele aceitou, fascinado. Apontei novamente, perguntando se ele tinha uma bicicleta e ele, fazendo sinal de afirmativo com a cabeça e apontou para o câmbio, indicando que a dele só tem uma marcha.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Mahmud e a darrajaMahmud e a darraja

Antes te voltar para a estrada, o saudei com um “shokran” (obrigado), seguido de “Salam aleikum” (que a paz esteja convosco), gastando assim, de uma só vez, todo o meu parco vocabulário arábico.

A noite acampamos ao lado de uma estação de água, no meio do deserto, responsável pela captação no lençol freático, tratamento e distribuição para as cidades do estado de Qena. A área é vigiada por um posto policial e por guardas armados com AK-47.

Os guardas foram bem solícitos e até deixaram que usássemos o banheiro e o chuveiro, garantindo assim banho por dois dias consecutivos! Eles também nos ofereceram uma frutinha local, chamada Nabak -- que tem tamanho de uma acerola, é amarela, cítrica e amarra a boca, como banana verde. Descobri depois que a fruta é usada para produzir uma bebida narcótica!). Junto com os guardas também fumamos a chicha (narguilé), com um tabaco melado e de cheiro fortíssimo. Mesmo não sendo fumante, resolvi experimentar.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Fumando a chicha com os guardas do posto egípcioFumando a chicha com os guardas do posto egípcio

Na manhã seguinte saímos do estado do Mar Vermelho para o de Qena e deste para o de Luxor. Na metade do sexto dia deixamos para traz a parte desértica e reencontramos áreas agricultáveis e povoadas ao longo do leito no Rio Nilo.

Foram mais de 100 quilômetros de estrada margeada por casas e plantações, irrigadas por canais com a água bombeada do velho Nilo– tomate, arroz, feno e cana de açúcar, produção transportada em carroças puxadas por jumentos ou por comboio de tratores.

Na reunião do dia anterior, fomos alertados sobre o risco que teríamos ao passar por essa área povoada. As crianças locais, ao verem seres tão “diferentes”, costumam tacar pedras e até mesmo tentam derrubar os ciclistas.

E eu dei azar: logo na entrada da cidade de Qena, um grupo de mais ou menos seis garotos, um deles puxando um jumento, tentou fechar minha passagem em uma rua empoeirada. O maior deles – que devia ter por volta de uns 15 anos --, coçou o indicador com o polegar e pediu: “money”.

Fiz cara feia e parti para cima, como se fosse jogar a bicicleta para cima deles, e eles acabaram recuando. Não sem depois tentarem me acertar com algumas pedras – mas, felizmente, nenhuma me acertou.


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Alexandre Costa Nascimento/Ir e Vir de Bike / Crianças que vivem às margens do Nilo: a maioria saúda os ciclistas, mas algumas atiram pedras e pedaços de canaCrianças que vivem às margens do Nilo: a maioria saúda os ciclistas, mas algumas atiram pedras e pedaços de cana

Logo adiante, crianças mais pacíficas. Muitas saudavam e acenavam da outra margem ao nos verem passando, gritando saudações em árabe e “hallo”. Um ou outro grupo ainda insistiu com a tática das pedras. Também cheguei a levar duas ou três chibatadas no lombo com uma varinha de um grupo de meninos, mas, acredito eu, foi mais de molecagem, como quem toca o animal de uma carroça, do que para machucar.

Apuro mesmo passei alguns metros após o posto policial do estado de Luxor. Um trator carregado de cana de açúcar que passava no sentido contrário com umas dez pessoas no alto da carroceria e um garoto espírito de porco resolveu jogar contra mim um pedaço de cana-de-açúcar. Consegui desviar entrando na pista, mas quase fui atropelado por uma van, que passou a poucos metros em alta velocidade.

Xinguei, em português, todas as gerações do menino egípcio, mas, para ter certeza de que ele entendeu pelo menos alguma coisa, fiz para ele o gesto universal com o dedo médio levantado.

Em Luxor, no hotel, fomos recebidos por uma comitiva do governador do estado, Ezzat Saad, com uma equipe de assessores e puxa-sacos de toda sorte. Como era de se esperar, ele trocou algumas palavras com seu inglês egípcio, tirou fotos os os ciclistas e deu tapinha nas costas. Político, no fim das contas, é igual em qualquer lugar do mundo...


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