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Sábado, 04/02/2012

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Enviado por Da Redação, 01/04/2011 às 16:18


Marcelo Elias/Gazeta do Povo

Marcelo Elias/Gazeta do Povo / O escritor e professor de literatura Paulo Venturelli: vida dedicada à leitura.O escritor e professor de literatura Paulo Venturelli: vida dedicada à leitura.

O Museu Guido Viaro (R. XV de Novembro, 1.348) promove a Semana Literária, de 4 a 9 de abril. A cada noite, a partir das 20 horas, autores participam de bate-papos e/ou performances. Na segunda-feira, dia 4, o escritor Paulo Venturelli (Fantasmas de Caligem) faz uma palestra sobre literatura e dialogismo. A entrada é franca. Confira a programação completa.

Enviado por ibn, 18/03/2011 às 12:06

Nas últimas três décadas de vida, Tolstói viveu um período de incertezas e procurou se aproximar da religião, escrevendo sobre suas leituras da bíblia, as ideias de religião, a fé e a moral.

Um seleção de 24 textos dessa época, em que o autor de Guerra e Paz procura também analisar o papel da arte na formação "espiritual" do indivíduo, acaba de ser publicado pela Penguin - Companhia das Letras.

A obra, Os Últimos Textos, ganhou um texto na edição impressa da Gazeta do Povo.


Divulgação

Divulgação / Fotografia de Liev Tolstói, feita por François Vizzavona, da Agência RMN. Imagem faz parte do acervo Druet-VizzavonaFotografia de Liev Tolstói, feita por François Vizzavona, da Agência RMN. Imagem faz parte do acervo Druet-Vizzavona

Enviado por ibn, 09/03/2011 às 14:42

Eu terminei de ler (na verdade, li numa sentada) "Um Quarto para Ela" e achei o livro fulminante. Daqueles que falam sobre a vida mesmo não querendo falar.

Como uma avó ranzinza e relutante que te dá um conselho sobre o que fazer num momento terrível e o conselho é genial, mas a velhinha não faz grande estardalhaço. Ela não está nem aí e não espera que você entenda o que ela está dizendo nem que siga o conselho que ela deu.

Essa é a sensação de ler "Um Quarto para Ela".

Serviço
"Um Quarto para Ela", de Helen Garner. Alfaguara, 152 págs., R$ 29,90.


Reprodução

Reprodução / Capa da edição inglesa do livro.Capa da edição inglesa do livro.

Enviado por ibn, 18/02/2011 às 18:46


Mandel Ngan/AFP

 Mandel Ngan/AFP / Estante com edições em inglês de livros de J.D. Salinger (1919-2010), autor de Nove Estórias e Apanhador no Campo de Centeio que venerava Tolstói e George Eliot, entre outros escritoresEstante com edições em inglês de livros de J.D. Salinger (1919-2010), autor de Nove Estórias e Apanhador no Campo de Centeio que venerava Tolstói e George Eliot, entre outros escritores

Faz tempo que não escrevo para o blog. No tempo que fiquei fora, algumas coisas aconteceram. Veja se interessa...

Depois de ouvir, da janela de casa, o Seu Zé do Bandoneon, desci até a Rua XV e a conversa com ele rendeu uma matéria.

Na coluna mensal, publicada na versão impressa da Gazeta, defendi fotografias fora de foco citando Robert Capa e Gerhard Richter.

Assisti a um filme imbecil.

Fiz uma matéria com duas pianistas que, inspiradas pela professora, tocam hoje e amanhã a obra de um compositor importante de música erudita, conhecido por explorar o silêncio e por inserir parafusos nas cordas dos pianos.

Conversei por e-mail com uma escritora gaúcha que acabou de lançar um romance sobre como a vida é feita de planos que não se realizam.

No próximo domingo, além de uma resenha do livro Minuto de Silêncio, de Siegfried Lenz, o Caderno G publica o perfil de um artista plástico incrível, que mora no bairro do São Lourenço, aqui em Curitiba.

Segunda-feira, o jornal trará uma matéria do New York Times sobre a biografia do J.D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio. O texto será ilustrado pelo Felipe Lima. O livro acabou de sair nos Estados Unidos. Confira abaixo um trecho da obra, traduzido por Christian Schwartz, com exclusividade, para a Gazeta.

Nas primeiras linhas de O Apanhador no Campo de Centeio, Holden Caulfield se recusa a compartilhar com o leitor o passado de seus pais, fazendo troça de um relato que contasse ‘o que meus pais faziam antes de eu nascer, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield’. ‘Meus pais’, ele explica, ‘teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles.’ Essa aparente discrição da parte dos pais de Holden derivava diretamente das atitudes do pai e da mãe do próprio Salinger. Sol e Miriam raramente conversavam sobre acontecimentos do passado, especialmente com os filhos, e essa postura criou uma atmosfera de segredo que permeava a casa dos Salinger e levou Doris e Sonny a se tornar pessoas extremamente reservadas.”

Trecho de J.D. Salinger – A Life, de Kenneth Slawenski, traduzido por Christian Schwartz (trechos citados: O Apanhador no Campo de Centeio, Editora do Autor).

Enviado por ibn, 08/02/2011 às 16:24


Cicero Rodrigues/Divulgação

Cicero Rodrigues/Divulgação / Martha Medeiros, autora do romance Martha Medeiros, autora do romance "Fora de Mim".

Fora de Mim, de Martha Medeiros, parte de um rompimento factual – dela, com o namorado – para criar um ficcional.

A história se divide em três partes e segue uma sequência não cronológica. Começa com os dias logo após o fim da relação para, no segundo capítulo, abordar os primeiros momentos da história do casal e terminar com a vida da narradora quatro anos depois da separação.

Amanhã (quarta-feira), na Gazeta do Povo, o Caderno G fala mais do livro. Aqui, você pode conferir a íntegra da entrevista feita com Martha Medeiros por e-mail, em que ela expõe ideias ótimas sobre o amor e a relação a dois.

*

Fora de Mim trata de amor num cenário bastante atual, com uma das narradoras se questionando, por exemplo, se deve ou não colocar o nome do ex na agenda de um celular novo. Como foi falar das dores do amor numa época em que as pessoas parecem ter dificuldade para levar relacionamentos “reais” (em oposição aos “virtuais”)?

Por mais que tenhamos hoje várias ferramentas virtuais para promover encontros, o amor real segue soberano. Creio que as pessoas seguem desejando um relacionamento intenso e profundo, mas ao mesmo tempo têm medo do envolvimento, pelo seu custo emocional. Então adotam as redes sociais para exercitarem o flerte sem maiores consequências.

Enquanto eu escrevia o livro e narrava aquela dor dilacerante de uma mulher que tentava se reconstruir depois de uma perda tão sofrida, imaginei que muitos leitores considerariam a reação dela muito medieval, na contramão dos tempos. Eu ria sozinha e pensava: isso está muito século 18 para uma época cujo slogan é “a fila anda”.

Mas me surpreendi com a quantidade de leitores, homens e mulheres, que se manifestaram dizendo: “já vivi isso, você contou a minha história”.

*

De certa forma, o livro parece ir contra a visão do amor como um porto tranquilo, o lugar onde todos os desejos se realizam. Poderia comentar um pouco essa ideia que perpassa a história?

Os amores não costumam ser fáceis, já que há sempre dois seres humanos distintos tentando se entender, e isso gera conflitos – até aí, normal. Mas não precisam ser tsunâmicos, desesperadores.

Uma relação bipolar, onde a paz não consegue ser mantida por mais de 20 minutos, é muito desgastante. As pessoas têm uma visão romantizada dessas relações perturbadas, desse vai-e-volta constante: há uma falsa impressão de que o tumulto credibiliza o amor e faz de seus protagonistas uma espécie de heróis, mas quis mostrar o quanto essa desestabilização corrói a saúde mental, emocional e até física.

Acredito muito em amores equilibrados, prazerosos, leves. Podem não gerar romances de ficção, mas são os melhores para se viver.

*

Qual foi o ponto de partida para escrever Fora de Mim?

Três anos atrás vivi um rompimento amoroso e comecei a colocar no papel as minhas inquietações em relação ao assunto. Não sabia se aquilo viraria um livro ou se era apenas uma catarse pessoal e íntima.

Em seguida, eu e meu namorado voltamos, mas achei que o material escrito até ali estava forte, vibrante. Mantive aquela dor, que passou a ser ficcional, e acabei levando o livro até o fim.

*

O escritor Cristovão Tezza diz que escrever crônicas para o jornal fez com que ele tomasse consciência do leitor pela primeira vez na carreira. O leitor de jornal pode escrever, comentar, reclamar e elogiar com mais facilidade do que o leitor de um livro. Para você, como é essa relação com os leitores? Ela a influencia na escrita de textos e de livros?

A crônica realmente elimina as fronteiras entre autor e leitor, ainda mais que a maioria dos colunistas publica seu e-mail, incentivando a interação.

Como tudo na vida, há aspectos bons e aspectos xaropes dessa proximidade. A parte xarope é que alguns leitores não se contentam em dar sua opinião, querem se tornar amigos, trocar correspondência frequente, e se magoam ao ver que a disponibilidade vai até a primeira resposta (em alguns raros casos, eu dou prosseguimento ao contato, mas sempre cuidando para não criar um vínculo vitalício, caso contrário não conseguiria trabalhar mais).

Há uma dezena de pedidos diários para ler blogs, e isso me deixa chateada pois não consigo dar conta, e sei o quanto de expectativa há nessas solicitações. Tudo isso é chato, mas administrável. A parte boa é que, além de recebermos massagens no ego (quando o leitor demonstra adorar nosso trabalho), há também críticas muito salutares ao nosso desempenho, mostrando o quanto é delicado ser generalista.

Todos os assuntos possuem ângulos diversos a serem abordados, e isso é impossível de fazer num espaço tão reduzido como o do jornal. Uma crônica não é um ensaio. Por isso, acho importante escutar o que o leitor tem a dizer, pois isso exercita a nossa humildade. O cronista está longe de ser o dono da verdade.

*

Muitos escritores falam que ver suas obras adaptadas pelo cinema é uma experiência traumática. Qual foi a tua sensação ao ver Divã virar filme?

Trauma é uma palavra forte. Acho que só se traumatizam os que levam tudo muito a sério, e eu costumo ser mais easy going nessa questão. Claro que sempre bate um estranhamento ao assistir pela primeira vez.

A obra deixa de ser propriedade privada para virar pública no sentido mais amplo do termo – há uma equipe inteira que se apropria do que inicialmente era só seu.

Sabedora disso, exercito meu desapego. Sei que nunca vou ver no palco ou na tela uma adaptação que seja fiel ao que me propus. Tudo bem. Procuro escolher com critério as pessoas a quem vou entregar o projeto e depois me afasto, deixando que trabalhem em paz.

Meu único pedido, sempre, é que evitem vulgarização. De resto, dou liberdade para que recriem a obra a partir do original, e até hoje não tive nenhum desgosto. Tanto o Divã, como o Doidas e Santas (peça com Cissa Guimarães) e Tudo o Que Eu Queria Te Dizer (monólogo com Ana Beatriz Nogueira) dão seu recado de forma agradável, divertida e honesta. Até aqui, não tenho do que reclamar, tudo tranquilo.

*

Dizem que a maioria das mulheres tem medo de homens inteligentes. Muitas preferem o sujeito básico, no estilo futebol-e-cerveja, que dá menos trabalho. Você acha que essa afirmação faz algum sentido?

Já ouvi dizerem o contrário, que homem é que tem medo de mulher inteligente... Enfim, se diz muita coisa por aí, mas não existe verdade universal nas questões amorosas.

Tudo depende da época da vida em que você está, quais são suas necessidades de afeto, até onde você está disposto a abrir mão da sua liberdade para se relacionar, quais são suas prioridades, enfim, cada ser humano é um universo complexo e vai fazer escolhas de acordo com seus desejos mais emergenciais. E às vezes nem consegue fazer essas escolhas de forma racional, simplesmente é tragado pelo inexorável da vida.

A gente pode até dizer por aí que “fulano não faz o meu tipo” ou “só me relaciono com homens assim ou assado”, mas, quando se trata de amor e paixão, podemos ser surpreendidos a qualquer momento.

***

Enviado por ibn, 21/01/2011 às 13:49

Amanhã, enfim, sai o Caderno G Ideias sobre “O Acaso”, com duas ilustrações arrebatantes e inéditas do artista gráfico Ricardo Humberto.

“Enfim” porque há mais de mês eu e o Breno (Baldrati, de Economia) estamos lidando com a pauta. Fizemos entrevistas com Malcolm Gladwell, Leonard Mlodinow e Luiz Felipe Pondé, perguntando, basicamente, qual é o papel do acaso na vida de todo mundo.

O jornalista britânico Gladwell, radicado em Nova York, escreve para a revista The New Yorker e é autor de livros que vendem muito, como Fora de Série, Ponto de Virada (os dois pela Sextante) e Blink (Rocco).

O físico norte-americano Mlodinow escreveu O Andar de Bêbado (também best-seller, da Zahar), usando teorias matemáticas e pesquisas científicas para falar da aleatoriedade.

O filósofo pernambucano Pondé lançou no fim do ano passado um livro extraordinário, Contra um Mundo Melhor (Leya), em que investe na “filosofia do cotidiano” e, no percurso, acaba falando de acaso.

No desenrolar da matéria, quis escrever sobre o documentário Francis Ford Coppola – O Apocalipse de um Cineasta (1991), lançado no Brasil em VHS, mas nunca em DVD.

Eleanor, a mulher do diretor que dá título ao filme, registrou a rotina insana nos bastidores de Apocalypse Now (1979), um drama de guerra que o próprio Coppola diz ter sido obra do acaso. Daí a vontade de incluir no material do jornal. Porém, o espaço é um editor com quem não dá para negociar – e o texto não vai entrar no papel.

Então resolvi postá-lo aqui como um aperitivo que antecede a edição de amanhã. Espero que gostem.

*

Um filme vulcânico

Quando realizou Apocalypse Now (1979), na segunda metade nos anos setenta, o cineasta Francis Ford Coppola levou ao extremo o seu “método” de trabalho: ligar a câmera e esperar que algo mágico acontecesse.

Ele contava com o acaso para captar momentos especiais, sempre espontâneos e únicos. Ele fazia o esboço de uma determinada cena e deixava os atores livres para improvisar.


Divulgação

Divulgação / Cena de Cena de "Apocalypse Now" (1979), de Francis Ford Coppola.

Todas as noites, Coppola reescrevia a parte do roteiro que seria filmada no dia seguinte. A produção era tão megalomaníaca quanto a própria Guerra do Vietnã que procurava simular – a equipe de filmagem tinha dinheiro, dispunha da força aérea filipina e estava vivendo, literalmente, no meio da selva.

Certo dia, um tufão levou os cenários. O dinheiro, que era muito, não demorou a acabar e Coppola teve de dar como garantia tudo o que havia ganhado ao dirigir os dois primeiros filmes da trilogia O Poderoso Chefão. Só assim teria chance de concluir Apocalypse Now.


Divulgação

Divulgação / Coppola e toda a equipe do filme foram enlouquecendo nas selvas filipinas.Coppola e toda a equipe do filme foram enlouquecendo nas selvas filipinas.

Esses bastidores doentes foram registrados pela mulher de Coppola, Eleanor. De início, por ser uma boa fotógrafa, o marido deu uma câmera para a mulher se distrair com algo além das crianças (todos o acompanhavam para onde quer que fosse). O passatempo virou um documentário incrível, chamado Francis Ford Coppola – O Apocalipse de um Cineasta (1991).

Com Marlon Brando, Coppola perseguia o acaso cegamente. O ator já era um dos mais respeitados e bem pagos do cinema – e também um dos mais difíceis e imprevisíveis. Brando, muito acima do peso, chegou às Filipinas com a cabeça raspada, um visual que criou sem consultar Coppola. E não se deu ao trabalho de decorar suas poucas falas.

O diretor improvisou e decidiu explorar luzes e sombras nas cenas do Capitão Kurtz, o personagem de Brando. Ligava a câmera e deixava o ator resmungar sobre qualquer absurdo em que estivesse pensando: delírios a respeito de lesmas que deslizavam em cima de navalhas e coisas desse tipo. Kurtz havia enlouquecido na selva e qualquer absurdo que Brando falasse casaria com a doidice do personagem.

Outra cena, com Martin Sheen, também feita de improviso, é a síntese da relação de Coppola com a aleatoriedade. Rodando sem a gravação direta de som, num quarto de hotel, o diretor interagia com o ator. A cena devia mostrar a agonia do capitão Willard, vivido por Sheen, cuja missão era encontrar Kurtz e acabar com ele, sob a alegação de ter se tornado uma ameaça para o exército norte-americano.

Willard está cansado e frustrado. Preferia estar em casa com a família. Sheen está numa situação semelhante e é exatamente nessa ferida que Coppola decide mexer e provoca o ator dizendo coisas como “Você não está com saudades da sua mulher?”.

Sheen, visivelmente bêbado, começa a chorar e a gritar. Até explodir de raiva e dar um murro num espelho de corpo inteiro, abrindo um talho na mão. Ele terminou de gravar a cena sangrando de verdade e só depois foi socorrido.

Em Apocalypse Now, é o momento em que Willard está no quarto de hotel, em Saigon. A cena incomoda porque não se trata de um ator interpretando um sujeito atormentado – é um sujeito angustiado de verdade. A aflição de Sheen é desconcertante.

No documentário, dá para ver como Coppola foi entrando em desespero pouco a pouco. Ver o modo como o filme foi feito e lembrar (ou rever) Apocalypse Now é impressionante. Os eventos que parecem desconexos nos bastidores ganharam propósito no resultado final. Nos bastidores, o próprio Coppola reclamava que a história não estava fazendo sentido e que não conseguia encontrar um fim para ela.

Com tudo para afundar, o cineasta conseguiu produzir um filme de guerra vulcânico, usando tudo o que o acaso largava pelo caminho.

***

Enviado por ibn, 23/12/2010 às 14:24

Uma entrevista depende só do entrevistado. Quando este está disposto a falar, as perguntas podem ser ruins e, ainda assim, a entrevista será boa.

O escritor gaúcho Charles Kiefer deu respostas muito boas para uma entrevista que saiu na Gazeta.

Cito Kiefer porque, durante a conversa, ele me disse que está lendo “uns 50 livros” ao mesmo tempo. Não que ele tenha desenvolvido uma capacidade sobre-humana de ler vários textos simultaneamente. Quando falo “ao mesmo tempo”, me refiro à situação em que o leitor transita por vários livros, largando um para pegar outro.

Cinquenta é um número impressionante. Deve ser difícil criar um revezamento com espaço de tempo razoável entre as leituras.

O escritor Philip Roth diz que o tempo ideal para se ler um romance médio (300 páginas) é de duas semanas. Mais que isso, ele acredita que a leitura fica comprometida. Concordo com ele. Depois de duas semanas longe de um romance, é preciso voltar um tanto para entrar de novo na história.

Fui ver e, hoje, estou lendo três livros e relendo dois (esse “reler”, na verdade, é uma consulta e não aquela leitura corrida, da capa à contracapa).

Para uma matéria especial sobre o acaso, a sair no Caderno G em janeiro, estou terminando de ler O Andar de Bêbado, de Leonard Mlodinow. Foi best seller no Brasil durante um bom tempo e a discussão sobre conceitos matemáticos relacionados à aleatoriedade é fascinante.

Entrevistei Mlodinow por telefone e a conversa foi muito breve. Ele parecia meio cansado de falar num livro que saiu anos atrás nos Estados Unidos e sobre o qual já deve ter dito tudo.

Para o mesmo artigo, leio Contra um Mundo Melhor, do Luiz Felipe Pondé. Ele é colunista da Folha de S.Paulo e escreve na "Ilustrada" às segundas-feiras. O fato é que o livro é diferente das crônicas que saem no jornal e está sendo uma das melhores coisas que li este ano.

O texto de Pondé sobre a dinâmica das relações entre homens e mulheres é genial. Outra parte fala que o valor da vida está, exatamente, no fato de ser desperdiçada. “Sua grandeza está em perdê-la”, escreve o filósofo.

Depois de uma indicação entusiasmada do escritor José Castello, comecei a ler Uma Viagem à Índia, do angolano Gonçalo M. Tavares, que saiu no Brasil pela Leya este mês. É o primeiro livro dele que eu encaro – deveria ter lido Jerusalém, que venceu o Prêmio Portugal Telecom, mas achava que ainda não era hora.

Uma Viagem à Índia deixa a sensação de que Tavares não é um escritor comum. Ele assume a tarefa de narrar uma epopeia que, na falta de uma definição melhor, parece um texto em prosa com estrutura de poesia. Inspirado por Os Lusíadas, de Camões, ele divide a história em cantos e quebra as frases como se fossem versos. Fazendo referências a muitas obras literárias, Tavares fala da viagem empreendida por Bloom de Londres até a Índia.

As releituras são todas para o texto do “acaso”: O Caderno Vermelho, de Paul Auster, mais dois de Malcolm Gladwell, Fora de Série e Ponto de Virada.


Bel Pedrosa / Divulgação

Bel Pedrosa / Divulgação / Gonçalo M. Tavares, autor angolano de Gonçalo M. Tavares, autor angolano de "Uma Viagem à Índia".

Enviado por Marcio Renato dos Santos, 12/12/2010 às 20:28


Priscila Forone/Gazeta do Povo

Priscila Forone/Gazeta do Povo / O professor Marcelo Sandmann, da Universidade Federal do Paraná, organizador de livro sobre a obra de Paulo Leminski.O professor Marcelo Sandmann, da Universidade Federal do Paraná, organizador de livro sobre a obra de Paulo Leminski.

Marcio Renato dos Santos, meu vizinho de computador na redação do jornal, entrevistou o professor Marcelo Sandmann, da Universidade Federal do Paraná, a respeito do livro A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos
sobre a Obra de Paulo Leminski
, com dez ensaios de 11 autores sobre
aspectos variados do trabalho do poeta.

A obra foi organizada por Sandmann, que também é poeta e escreveu, por exemplo, os versos de "Leminskiana": "meio op meio pop/
meio vladimir propp/ ao fim & ao cabo/ ops!/ muito rock'n'rollmops".

Sandmann concedeu, por e-mail, entrevista a Marcio Renato, que cedeu a íntegra da conversa para o blog. A matéria sobre o livro sai na edição impressa da Gazeta do Povo desta segunda-feira, no "Caderno G".

*

Quando você começou a pensar e a organizar este livro? Você pediu justamente dez ensaios? Quanto tempo os colaboradores tiveram para produzir os conteúdos?
A ideia me ocorreu no final de 2008, quando participei da comissão julgadora da edição do Concurso de Poesia Helena Kolody daquele ano, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Na ocasião,
tive contato com algumas publicações recentes da Secretaria, que me chamaram a atenção. Por que não um livro sobre Leminski? No início de 2009, contatei vários colegas do meio universitário, que se animaram de imediato com o projeto. No final daquele ano, havia reunido dez estudos.
Submeti o material ao Conselho de Editoração, que aprovou o livro no começo do primeiro semestre de 2010. Viemos trabalhando nele desde então, até a publicação agora ao final do ano.

Qual a sua ideia ao fazer o livro? Mostrar as muitas faces de Leminski?
Os ensaios conseguem jogar luz nas muitas áreas nas quais ele atuou?

Minha idéia era exatamente essa. Há estudos sobre a poesia, a prosa, a crítica, as relações com a propaganda, as traduções, os vínculos com a obra de James Joyce, a cultura latina, o interesse pelo simbolismo, pela canção popular etc. Alguns tratam de aspectos bastante conhecidos, às vezes num esforço de síntese, às vezes a partir de um enfoque renovado. Outros dão conta de assuntos que não haviam merecido ainda o devido aprofundamento.

A obra de Paulo Leminski segue, ainda em 2010, a despertar interesse e a render reflexões inéditas. A que você atribui isso?
Atribuo isso à riqueza da obra, tanto em termos quantitativos quanto em função da diversidade de gêneros e assuntos que ela abarca. Para além da obra, e muitas vezes se sobrepondo a ela, há também a personalidade do autor. Leminski foi um agitador cultural, um polemista, um apaixonado, que provocou reações extremas enquanto viveu. Depois de morto, tornou-se
uma espécie de mito. Mas é preciso desmontar o mito, e ler a obra com
cuidado.

Qual aspecto da obra de Leminski ainda merece atenção ou foi pouco estudado?
Com relação à obra em si, acredito que os aspectos principais vêm sendo estudados. Alguns com maior aprofundamento do que outros. Pessoalmente, penso que um assunto que mereceria abordagens mais consistentes é o que diz respeito à vida cultural em Curitiba à época em que o escritor gestou e produziu sua literatura. A biografia de Toninho Vaz, O Bandido Que Sabia Latim, lança alguma luz. É uma obra de referência desde já, escrita por um amigo que teve acesso franco àqueles que com ele conviveram. Mas seria importante avançar mais. Inventariar e estudar sua colaboração nos periódicos daqui. Cotejar sua obra com a de outros autores curitibanos. Fala-se muito das relações de Leminski com os poetas do grupo concretista, com os tropicalistas e pós-tropicalistas que passaram pela cidade, com jovens poetas paulistas da década de 70 e 80 com quem ele manteve correspondência. Mas e os conterrâneos? E os embates locais? E as trocas com tantos outros escritores e artistas radicados em Curitiba com quem ele conviveu? Sua literatura é também fortemente tributária desse ambiente e desse diálogo.

Como você conheceu a obra de Leminski, em que ano? Você, desde então, é um leitor de Leminski? Segue, continuamente, a ler o que ele deixou publicado?
Conheci o homem antes da obra, numa mesa-redonda sobre tradução na Biblioteca Pública do Paraná, promovida pelo Instituto Goethe, em algum momento da segunda metade da década de 80. Eu era aluno de Letras, estava na plateia e não me entusiasmei muito com sua intervenção, que tinha muito de histriônico para o meu gosto. Em janeiro de 1989, nas areias da praia de Guaratuba, li pela primeira vez um livro seu, Distraídos Venceremos, que me incomodou bastante. Não sabia dizer se havia gostado ou não, mas tive certeza de que o livro punha em xeque os meus referenciais de poesia àquela altura. Hoje é um dos meus preferidos do Leminski. Em junho daquele mesmo ano, com a morte do escritor,
deixei-me envolver pela comoção que a cercou. Acompanhei atento a primeira edição do Perhappiness, um evento que iria marcar, com altos e baixos, a cena literária da cidade pelos próximos 15 anos. Tornei-me um leitor assíduo, tanto da obra quanto da crítica que aos poucos se
construía à sua volta.

De que maneira e em que medida a obra de Leminski influenciou a sua trajetória, de professor, de letrista e de poeta (ele também foi professor, letrista e poeta)? Você dialoga com ele em sua atividade
inventiva?

Sei que Leminski lecionou algum tempo em cursinhos de Curitiba, mas nunca pensei nele como professor. Como compositor e letrista, apesar do meu especial interesse no assunto, não é propriamente a sua faceta que mais me entusiasma. Portanto, se for falar em diálogo, será certamente
com sua poesia e com uma certa imagem de poeta que ela projeta. Leminski transformou-se em personagem de mais de um poema meu. E por vezes brinco, em chave paródica, com procedimentos seus.

"Meio op meio pop/ meio vladimir propp/ ao fim & ao cabo/ ops!/ muito rock'n'rollmops."Leminskiana", poema de sua autoria, em alguma medida traduz a obra de Leminski. Poderia falar sobre "Leminskiana"?
"Leminskiana" é, escancaradamente, um desses casos. Ele integra o meu
primeiro livro, Lírico Renitente, publicado em 2000. Como outros desse livro, é um poema escrito "à maneira de". Trata-se de um misto de homenagem e sátira, que usa certos recursos característicos de sua poesia: as iniciais em caixa baixa, inclusive em nomes próprios; a rima inusitada em "óp"; a palavra-valise "rock'n'rollmops"; o misto de brinquedo verbal e nonsense. É um poema que convida os leitores sérios a torcerem o nariz, como tantos do próprio Leminski.

O que na obra do Leminski te anima, te deixa empolgado?
A vitalidade da obra. Os textos menos felizes nos provocam a corrigi-los. Os bons nos obrigam a ir além.

Enviado por ibn, 02/12/2010 às 11:00

A Associação Casa Azul acabou de divulgar a data da próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

No ano que vem, a 9ª edição do evento de literatura mais importante do país ocorre entre os dias 6 e 10 de julho, na cidade histórica de Paraty (RJ).

A curadoria será do crítico Manuel da Costa Pinto.


 / Festa muda a paisagem de Paraty - A Tenda dos Autores, refletida no Rio Pequerê-açú, é onde os autores participam das mesas. Uma segunda tenda, a do telão, montada do outro lado do rio ao lado da Praça da Matriz, no Centro Histórico, transmite as discussões ao vivo. A estrutura da Flip se completa com um café instalado na saída da tenda principal, uma livraria oficial (a Livraria da Vila), a loja de lembranças da festa (com canecas e bolsas disputadas a tapa) e o espaço para as sessões de autógrafos. Mesmo que você não consiga comprar ingressos para nenhuma das tendas, ainda é possível assistir às mesas nas redondezas da praça, de graçaFesta muda a paisagem de Paraty - A Tenda dos Autores, refletida no Rio Pequerê-açú, é onde os autores participam das mesas. Uma segunda tenda, a do telão, montada do outro lado do rio ao lado da Praça da Matriz, no Centro Histórico, transmite as discussões ao vivo. A estrutura da Flip se completa com um café instalado na saída da tenda principal, uma livraria oficial (a Livraria da Vila), a loja de lembranças da festa (com canecas e bolsas disputadas a tapa) e o espaço para as sessões de autógrafos. Mesmo que você não consiga comprar ingressos para nenhuma das tendas, ainda é possível assistir às mesas nas redondezas da praça, de graça

Enviado por ibn, 01/12/2010 às 13:48

Malcolm Gladwell é uma figura. Conversei com ele por telefone na semana passada sobre o livro mais recente que publicou, O Que Se Passa na Cabeça dos Cachorros (chances assim fazem do jornalismo a melhor profissão do mundo, parafraseando Gay Talese).

O volume compila textos que Gladwell escreveu para a revista New Yorker, uma das mais importantes do mundo, inclusive pela tiragem, de mais de 1 milhão de exemplares.

A ideia de falar com ele surgiu por causa de uma reportagem sobre o acaso que preparo com o jornalista Breno Baldratti, que trabalha em Economia, na Gazeta.

O próprio Gladwell se tornou jornalista por acaso e uma de suas qualidades mais evidentes é uma curiosidade sem tamanho.

Num dos textos de O Que Se Passa na Cabeça dos Cachorros, ele decidiu analisar o que havia por trás do fato de haver vários tipos de mostarda, mas apenas um tipo de catchup.

Se tiver um tempo, leia a entrevista que saiu na Gazeta impressa.

A reportagem sobre o acaso sai no sábado, dia 11 de dezembro.


Brooke Williams/Divulgação

Brooke Williams/Divulgação / “Quando você tem alguém de fora observando aquilo que você faz, é inevitável que surja uma maneira diferente – ou incomum – de encarar determinados fatos. Eu não faço parte do mundo deles, mas tenho interesse em saber como as coisas funcionam e quero conhecer suas histórias. A minha abordagem é diferente da de um especialista.” Malcolm Gladwell, escritor“Quando você tem alguém de fora observando aquilo que você faz, é inevitável que surja uma maneira diferente – ou incomum – de encarar determinados fatos. Eu não faço parte do mundo deles, mas tenho interesse em saber como as coisas funcionam e quero conhecer suas histórias. A minha abordagem é diferente da de um especialista.” Malcolm Gladwell, escritor

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