Rpc.com.br
Gazeta do Povo
RPC TV
Jornal de Londrina
Jornal de Maringá
98 FM
Mundo Livre FM
Classificados
Guias e Roteiros

Gazeta do Povo

Blogs

Sexta-feira, 12/03/2010

Blogs > Livros

Livros

Quem faz o blog
Enviado por I. Baptista Netto, 09/03/2010 às 10:21


Reprodução

Reprodução / Capa de disco de Nina Simone.Capa de disco de Nina Simone.

Acabou de sair nos Estados Unidos uma biografia de Nina Simone (1933-2003), escrita por Nadine Cohodas, autora de um livro sobre a Dinah Washington.

Princess Noire – The Tumultuous Reign of Nina Simone (“Princesa Negra – O Reino Tumultuoso de Nina Simone”, da Pantheon Books), a julgar pelas resenhas publicadas na imprensa americana, poderia ser dividido em duas partes.

A primeira fala dos anos de formação, quando Nina começou a estudar piano numa comunidade negra da Carolina do Norte, na época da segregação racial. Ela se dedicava a Bach e sonhava em se tornar uma intérprete de música erudita.

Um momento-chave foi quando tentou entrar na prestigiosa Juilliard e não foi aceita. Há quem diga que a recusa teria sido motivada por questões raciais. A autora diz que, por melhor que fosse como pianista, havia muitos tão bons ou melhores do que ela.

De qualquer forma, Nina Simone não entrou na Juilliard, mas foi descoberta e promovida por algumas figuras influentes da época – um poeta escreveu elegias para a artista e logo Nina gravava seu primeiro disco. Em 1959, virou febre nacional com sua versão de “I Loves You, Porgy”, de George Gershwin.

A segunda metade do livro descreve sua decadência – uma descida ao inferno que envolveu casamentos frustrados, empresários inescrupulosos (que a exploraram e a deixaram sem um tostão) e uma doença nunca diagnosticada, que a biógrafa identifica como esquizofrenia.

No final da carreira, Nina Simone deveria ter sido tratada e tinha o direito de descansar e curtir a vida, mas não podia parar. Precisava de dinheiro e se obrigou a trabalhar até o fim, desmoronando no palco, na frente de todo mundo. Ela não se importava de interromper uma música e brigar com alguém na plateia que estivesse conversando alto.

No filme Antes do Pôr-do-Sol, Julie Delpy leva Ethan Hawke para tomar um chá em sua casa e, na conversa, lembra de quando assistiu à Nina Simone em Paris. Ela levantava do piano e caminhava até o público para responder às juras de amor, elogiar uma roupa ou não fazer nada. Essa memória parece mostrar uma Nina Simone mais em paz consigo mesma. Anos antes, ela esbravejava com uma plateia que não cantasse quando ela pedia. “Nunca serei palhaça de vocês”, disse durante uma apresentação em Cannes, em 1977. “Não uso um sorrisinho pintado na cara como Louis Armstrong.”

A certa altura de um concerto de 1978, no Royal Albert Hall, em Londres, Nina Simone disse ao público: “Talento é um fardo e não uma alegria. Eu não sou deste planeta. Não faço parte da sua espécie, não sou como vocês”.

Em meio às dificuldades que experimentou ao longo da vida, é confortante imaginar que ela ao menos parecia confiante e agia com arrogância. Talvez era de onde tirava suas forças.

Enviado por I. Baptista Netto, 02/03/2010 às 17:44

NA PRISÃO

Egon Schiele (1890-1918) foi preso por 24 dias sem nenhuma explicação. Passou 24 dias na prisão e escreveu e desenhou sobre a experiência. O resultado aparece em “Na Prisão”, livro que a Luzes no Asfalto, com o apoio da Embaixada da Áustria, publica no Brasil.

A edição em papel cuchê é linda e bilíngue. De início, é até difícil entender o sofrimento de Schiele. Afinal, você pode pensar, 24 dias não é tanto tempo assim.


Reprodução

Reprodução / Autorretrato de Egon Schiele.Autorretrato de Egon Schiele.

A questão é que o pintor austríaco era de uma sensibilidade enorme e a experiência o traumatizou profundamente. Como um personagem de Kafka, ele é trancafiado sem saber por quê. O motivo só foi revelado no final do calvário: expor imagens obscenas a crianças. Na verdade, ele argumenta, as obras são eróticas – como a de vários outros artistas – e foram expostas nas paredes de uma galeria em evento aberto ao público. Um absurdo, enfim.

*
NADA A DIZER

Elvira Vigna, no livro “Nada a Dizer” (Companhia das Letras), escreve sobre o trauma da traição vivido por uma mulher no casamento que dura mais de 30 anos. A desconfiança, a tristeza, a paranoia, a autodepreciação, todas as etapas estão descritas no romance.

Foi o cineasta Ingmar Bergman que disse, não exatamente nessas palavras, que poucas coisas são mais traumáticas do que um divórcio. Dito por um homem que se casou várias vezes (nove?). A frase aparece na abertura do filme “Infiel”, escrito por Bergman e dirigido por Liv Ullmann.

Elvira parece falar do trauma da conciliação impossível. A narradora-protagonista tenta perdoar o marido que a trai com uma amiga (dele, não dela), mas esbarra em obstáculos complicados. Ela não consegue esquecer dos lugares e das coisas que estão marcadas pela relação extraconjugal. Masoquista, ela quer saber detalhes de todas as situações. Se pudesse, pediria uma descrição anatômica da amante.

A autora tem uma voz muito própria. E, para citar o ensaísta A. Alvarez, de “A Voz do Escritor”, Elvira consegue “limpar” o texto de tudo que não é necessário. Adjetivos, metáforas e comparações são cirúrgicos e o texto carrega uma qualidade de essencial.

*

ESQUIMÓ

Não me considerava um leitor de poesia até encontrar o “Esquimó”, de Fabrício Corsaletti. (Os versos de Paulo Henriques Britto também são fantásticos e eu conheço apenas o “Tarde”.) Lançado pela Companhia das Letras, o livro tem versos que teimam em ficar contigo.

Nascido no interior do estado de São Paulo, Corsaletti usa referências do cinema e da música - notadamente, a atriz Eva Green e Bob Dylan – para falar sobre amor, culpa, saudade, rompimento, as dificuldades de ser quem se é (no caso dele, ser poeta) e o desejo de abandonar a cidade e viver uma rotina mais simples no interior.

A vontade é de copiar os versos e colocar em um lugar visível para ler várias vezes ao longo do dia enquanto se faz outras coisas. Seria a “pausa da poesia”, para citar um dos versos feitos pelo poeta.

Segue aqui um fragmento, o poema “Everything is broken” (referência à música de Bob Dylan), que abre o livro:

a rua está quebrada
minhas botas
estão quebradas
minha voz
está quebrada
meu pensamento
está quebrado
as portas
estão quebradas
o despertador está quebrado
a noite está quebrada
a manhã
será quebrada –

há uma pessoa no mundo
que não está quebrada
e eu estou ao seu lado
como se não estivesse quebrado –

a alegria
está quebrada
o cansaço
está quebrado
tudo está quebrado

Enviado por Baptista Netto, 23/02/2010 às 11:44

Sobre a Morte, o livro de Elias Canetti que a Estação Liberdade lançou no ano passado, é uma compilação de ideias que o autor, vencedor do Nobel de Literatura, passou a vida anotando.

Entre os textos curtos e as frases, um deles se sobrepõe aos outros. É o que Canetti fala sobre a morte do pai, quando o escritor tinha 7 anos de idade.

O casamento dos pais não ia bem e a mãe de Canetti viajou para outra cidade com a desculpa de que não gostava de morar na cidade em que a família estava (Ruse, na Bulgária? Não tenho certeza).


Divulgação

Divulgação / O escritor Elias Canetti (1905-1994).O escritor Elias Canetti (1905-1994).

O autor de Auto-de-fé (Cosac Naify) lembra que o pai havia escrito para a mulher, dizendo para ela voltar. Ela voltou, mas o homem não a recebeu bem e se recusava a conversar. Um dia, depois de brincar com os filhos (Canetti teve dois irmãos), ele desceu as escadas e, de repente, o menino ouviu a mãe gritar.

Saiu do quarto para ver o que se passava e encontrou o pai caído no chão. Ele tinha 32 anos de idade.

Nos anos seguintes, Canetti procurou entender o que havia acontecido. Em diálogos com a mãe, descobriu que ela havia dito que não amava mais o marido – por isso pensava que a morte teria sido de desgosto.

No texto, o escritor explora as informações que acumulou ao longo do tempo sobre a morte do pai, mas parece não aceitar nenhuma delas.

Todas fazem algum sentido, mas nenhuma delas é explicação suficiente.

Enviado por Baptista Netto, 16/02/2010 às 18:10

São muitos os motivos que levam alguém a escrever um diário. Kafka, por exemplo, fazia anotações diárias sobre o que estava produzindo (ou, nas palavras dele, falhando em produzir) como uma forma de não perder o embalo. Escrever sobre as dificuldades que sentia ao escrever aliviava o peso do mundo que carregava nas costas.

Virginia Woolf, de Mrs. Dalloway, mantinha um diário para recreação – era como ela espairecia depois de labutar o dia inteiro em seus livros.

O criador de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll, era, dizem, um grafomaníaco, assim como Virginia Woolf. Escrevia porque não conseguia parar de escrever. A extensão dos seus diários é impressionante, tem algumas milhares de páginas.


Divulgação

Divulgação / O escritor Franz Kafka (1883-1924).O escritor Franz Kafka (1883-1924).

Fazia tempo que eu procurava os diários de Kafka. Desde que li referências a ele feitas por Susan Sontag no primeiro volume dos seus Diários (Companhia das Letras).

Sontag ficou impressionada e parece ter se identificado muito com as dificuldades que o autor de A Metamorfose enfrentava.

Encontrei uma edição em inglês na Amazon, mas me enrolei para comprar porque era antiga, já com mais de 20 anos. Fui à Estante Virtual e encontrei uma edição mais antiga ainda, dos anos 60, em um sebo de Minas Gerais. As condições do livro não eram boas e fica difícil para alguém que tem rinite ler uma pilha de papel com meio século de idade.

No último sábado, meio por acaso, na internet, encontrei uma edição de O Diário Íntimo de Kafka – Único e Exclusivo no sebo Osório, aqui de Curitiba. Achei o título bizarro, mas fui até lá para ver o estado do livro. Fiquei impressionado. Apesar de ser uma edição simples, talvez dos anos 70, sem orelhas nem textos de apresentação, o volume está ótimo. As páginas não estão amareladas e não há nem sequer manchas de tempo.

Publicado por uma editora de que eu nunca ouvi falar (Nova Época, de São Paulo), com tradução de Oswaldo da Purificação (também desconhecido), o Diário Íntimo é um fragmento de quase 200 páginas que cobre o período entre 1910 e 1923. A versão em inglês é mais completa e tem 500 e tantas páginas.

O estranho é que a edição nacional não tem referência alguma aos anos em que Kafka produziu o diário. As entradas começam na primeira página, citando dia e mês, e só.

Na página 65, enfim, há uma dica da época e ela aparece quando Kafka escreve “Tenho quase trinta e um anos de idade”. O ano era então 1914.

“Tornou-se absolutamente necessário manter um diário novamente. A incerteza de meus pensamentos, F. (Felice Bauer, sua noiva), a ruína no escritório, a impossibilidade física de escrever e a necessidade íntima de fazê-lo”, diz Kafka.

O livro não poderia começar de modo mais kafkiano. Num domingo, 19 de julho (de 1910, provavelmente), ele escreve: “Dormir, acordar, dormir, acordar. Vida miserável!”.

Por baixo da atmosfera deprimente que pode te contaminar pelo resto do dia, por mais paradoxal que seja, o diário de Kafka consegue inspirar. Tanto pela determinação do escritor em fazer aquilo que julgava necessário (escrever apesar das dúvidas) ou pela sensibilidade que tinha em relação ao mundo, condição que o fazia sofrer demais diante de situações que outros considerariam parte da vida, como o trabalho num escritório, ou o casamento com a mulher que ama.

Enviado por Netto, 08/02/2010 às 14:24

Na apresentação de Em Busca da Memória, Eric R. Kandel escreve que o livro é “um relato de como meu esforço pessoal de entender a memória se entrecruzou com esse grandioso projeto científico – a tentativa de compreender a mente em termos celulares e moleculares”.


Divulgação

Divulgação / O cientista Eric R. Kandel, vencedor do Nobel de Medicina e autor de O cientista Eric R. Kandel, vencedor do Nobel de Medicina e autor de "Em Busca da Memória".

A obra, lançada no fim do ano passado pela Companhia das Letras (552 págs., R$ 69), pode ser incluída entre os principais eventos do mercado editorial em 2009.

Kandel, que venceu o Prêmio Nobel de Medicina, fala sobre o que é considerado “o nascimento de uma nova ciência da mente”, quando a Biologia assume um de seus maiores objetivos: a compreensão da natureza biológica da mente humana.

Falando sobre as descobertas ocorridas nos últimos tempos, Kandel defende que elas “não se originaram nas disciplinas relacionadas à mente – filosofia, psicologia, psicanálise –, mas da fusão dessas três com a biologia do cérebro, impulsionada pelas conquistas da biologia molecular”.

E continua: “O resultado disso foi uma nova ciência da mente, uma ciência que utiliza o poder da biologia molecular para examinar os grandes mistérios da vida que ainda estão por ser elucidados”.

O cientista diz que a biologia da mente deve marcar o século 21 tanto quanto a biologia do gene marcou o anterior.

“Meu propósito é explicar em termos simples o modo como essa ciência nasceu a partir das teorias e das observações dos cientistas do passado que fizeram da biologia a ciência experimental que ela é hoje”, diz o autor a respeito do livro.
Publicado em inglês em 2006, Em Busca da Memória chega ao Brasil com tradução de Rejane Rubino.

*

Enviado por Netto, 22/01/2010 às 17:29

Vi um livro de Thomas Bernhard pela primeira vez numa prateleira de livraria. Era O Náufrago. A capa reproduzia um trecho do romance – exatamente o que explica o título – dei uma olhada nas primeiras páginas e li a orelha, escrita por Bernardo Carvalho.

Gostei do que li, mas ainda não me sentia preparado para encarar Bernhard. Eu me preocupava com detalhes nada-a-ver. Por exemplo, o livro tem quatro parágrafos, dois com três linhas de texto, um com duas linhas e um com 131 páginas. Eu ficava impressionado: um parágrafo de 131 páginas! Bernhard venceu o Saramago e o Roberto Bolaño (eu acho).


Divulgação

Divulgação / O escritor austríaco Thomas Bernhard.O escritor austríaco Thomas Bernhard.

Lembrei essa história só agora, escrevendo para o blog. Decidi ler O Náufrago no fim do ano passado e o número de parágrafos não fez diferença alguma. O livro é perturbador de várias formas.

Três músicos – o narrador e mais dois – se conheceram numa academia famosa da Áustria, a Mozarteum. Foram alunos do pianista Wladimir Horowitz (1903-1989). Um dos estudantes, Glenn Gould, se tornou um dos maiores pianistas do século, conhecido pela interpretação das “Variações Goldberg”, de Bach. Não apenas no livro, mas também no mundo de fato.

Essa é só uma das peculiaridades do romance: colocar personagens fictícios ao lado de outros de osso e carne. (Descobrir que o próprio Bernhard estudou música estimulado pelo avô e chegou a cursar o Mozarteum ajuda a embaralhar ficção e fatos.)

Dos três estudantes, apenas um é genial, Gould. Outro é o narrador e o terceiro, Wertheimer, é o náufrago. Um sujeito que se via predestinado à música, mas foi destruído pelo talento de Gould. O narrador não demorou a desistir da música, mas Wertheimer não conseguiu se livrar dela e acabou se suicidando, sozinho e esquecido.

“Nascer é uma infelicidade” e “viver significa desesperar” são ideias que o narrador arremessa contra o leitor. É atordoante.

Enviado por Netto, 18/01/2010 às 15:52

Pode parecer excêntrico para alguém que não se interessa por livros – ou soar como “coisa de jornalista” –, mas gosto de saber mais sobre os hábitos de leitura, os métodos e as manias dos outros.

Se prefere ler sentado ou deitado, se usa marcadores ou dobra as páginas (ou apela para as orelhas do livro), se lê um volume de cada vez ou vários ao mesmo tempo e, sobretudo, se tem o costume de fazer anotações nas margens. Se a resposta for sim para esse último item, surgem várias outras perguntas.


Antônio Costa/ Gazeta do Povo

Antônio Costa/ Gazeta do Povo /

Levei muito tempo para conseguir escrever a lápis nos meus livros. Antes disso, minha postura era indiana: livro é um negócio sagrado, é preciso respeitá-lo e nunca deixá-lo tocar o chão. E, mais importante, jamais, em hipótese alguma, deve-se rabiscar as suas páginas. Hoje, quando leio para mim ou para o trabalho, continuo usando lápis. Não só porque ele pode ser apagado (curiosamente, nunca apago nada), mas, pensando agora, porque o lápis é esteticamente superior.

O grafite funciona melhor com as letras impressas e, além disso, o universo do lápis é atraente. Basta lembrar do William Faulkner, o autor de Enquanto Agonizo, que costumava apontar dezenas de lápis (com estilete e não com apontador) antes de começar a escrever.

O embate entre lápis e caneta é semelhante ao da máquina de escrever com o computador. O escritor Will Self diz odiar computadores porque eles são feios do ponto de vista estético e prefere as máquinas de escrever até pelo som que fazem. O barulho das teclas o embala durante a escrita, como se entrasse numa espécie de transe.

O lápis também faz barulho contra o papel, ao contrário da caneta. E esse barulho do lápis é poderoso. Às vezes, sou arrebatado por uma memória: quando era criança, prestava atenção em adultos que escreviam a lápis e sentia um conforto incrível de ouvir o grafite arranhar o papel. Hoje, lendo na cama, o barulho embala meu raciocínio.

Uma garota de quem eu gosto muito tem um desapego invejável com objetos. Ela é do tipo que sorri quando uma louça se espatifa no chão da cozinha. No que se refere aos livros, ela escreve neles com o que tiver à mão – pode ser lápis de olho, batom, canetinha, giz de cera, qualquer coisa.

Há ainda a tendência de se escrever nos livros informações que não têm nada a ver com a leitura. Uma lista de mercado, por exemplo. Admito que já anotei números de telefone, dicas de filmes, músicas e livros. Se uma ideia fulminante me parece boa, rabisco nas últimas páginas de um livro sem pensar duas vezes.

Costumo destacar passagens e palavras, fazendo observações nas margens. Nas páginas finais, como num índice remissivo, listo as páginas anotadas seguidas de palavras-chave. É um hábito que adquiri por culpa do jornal. Para escrever resenhas, esse índice me ajuda bastante e funciona como uma síntese de leitura.

Umberto Eco diz que só usa lápis nos livros (a caneta é um desrespeito). Um outro escritor (vou lembrar o nome daqui a pouco) afirma que você só lê de verdade quando o faz usando um lápis. O romancista Dennis Lehane disse que nunca anotava nada ao ler, mas passou a fazê-lo quando encontrou um livro que o envolveu profundamente – era Desonra, de J.M. Coetzee.

De início, eu anotava por obrigação. Hoje, não consigo ler de outra forma. Mas sempre com lápis.

Enviado por Netto, 12/01/2010 às 17:21

A revista literária McSweeney's Quarterly Concern, editada em San Francisco, nos Estados Unidos, tem a pecha de ser cultuada por um grupo de leitores afetados, do tipo que gosta de bancar o intelectual com consciência ecológica, voltado para questões sociais, ao mesmo tempo bem-humorado e sensível.

A revista virou até piada no filme Juno, quando a personagem principal dispensa um tipo de garota “que lê McSweeney's”.


Divulgação

Divulgação / O escritor Dave Eggers.O escritor Dave Eggers.

Apesar da fama, o grupo por trás da publicação – encabeçado pelo escritor Dave Eggers, do livro O Que É o Quê – tem ideias originais e é ousado, experimentando formatos diferentes e apostando em escritores desconhecidos e temas nada óbvios.

Entre as edições que planejaram, uma vinha com um conto na lombada, outra veio numa caixa com vários livrinhos individuais e uma terceira foi dedicada a histórias em quadrinhos.

A última deles foi criar um jornal.

O San Francisco Panorama vem no formato standard e tem mais de 300 páginas. Entre os colaboradores, estão autores muito populares e outros menos conhecidos, mas com trabalhos de fôlego. Stephen King escreveu sobre as finais do beisebol e crianças resenharam o filme O Fantástico Senhor Raposo.

William T. Vollmann (respeitado nos EUA e inédito no Brasil), Junot Diaz (A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao) e outra centena de autores participam da empreitada.

O editor Eggers, formado em Jornalismo, conta que cresceu lendo o Chicago Tribune. Ele adorava o jornal e esperava ansioso pelo poster anual do time de futebol americano (os Bears), além de ler os quadrinhos e, obviamente, o noticiário.

Como escritor, ele criou uma escola beneficente chamada 826 Valencia, com o propósito de estimular jovens talentosos a escrever. Nas conversas com os alunos, percebeu que a imensa maioria não se importava com jornais, não os liam e nunca haviam comprado um exemplar na vida.

A pergunta que ele mais ouvia dos jovens era: “Mas o que há no jornal para mim?”.

Disposto a mostrar um futuro possível para a mídia impressa e a conquistar o público jovem, Eggers bancou o Panorama, aliando uma quantidade grande de quadrinhos (16 páginas) a reportagens de fôlego. Pensando em gráficos ousados para explicar questões políticas no Congo. Robert Hess, por exemplo, escreveu sobre as eleições no Afeganistão em texto que já foi comparado ao clássico Hiroshima, de John Hersey.

Não faltam sudoku (dezenas de páginas), o poster destacando um jogador do San Francisco 49ers e até um carrossel para montar, criado por Chris Ware, quadrinista de Jimmy Corrigan, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Em princípio, o San Francisco Panorama terá uma edição única, que consumiu cinco meses de trabalho. É diferente de um jornal diário, mas continua sendo uma experiência ousada.

Enviado por Helena Carnieri, especial para o blog Livros, 06/01/2010 às 11:14


Helena Carnieri/Especial para o blog Livros

Helena Carnieri/Especial para o blog Livros / Em resposta aos pedidos que recebeu depois do texto publicado no fim do ano passado, Helena fotografou a estante organizada por cores.Em resposta aos pedidos que recebeu depois do texto publicado no fim do ano passado, Helena fotografou a estante organizada por cores.

Contemplando minha estante de livros, organizada por cores no apagar das luzes de 2009, consegui produzir uma resolução de ano-novo factível: arrumar a estante da garagem. Masmorra, depósito, viveiro de aranha-marrom, chame como quiser.

Lá estão uns 200 títulos (chute) que formam um conjunto pitoresco. Alguns são livros que comecei e parei (Tom Jones, Memorial do Convento). Espero um dia resgatá-los.

Outros tantos são paradidáticos acumulados a partir da 5ª série. E uma imensa maioria está em sueco. Sim, a biblioteca do meu avô, cujos primeiros exemplares ele trouxe de navio na década de 40, foi parar na garagem.

É difícil dar informações precisas sobre o que há ali porque o acesso é complicado. Não me refiro à acessibilidade linguística, já que minha mãe poderia traduzir um por um, e sim à montanha de caixas e bicicletas que barram a passagem. Mas o que minha miopia permitiu distinguir já pareceu interessante: Nordisk Familjebok, enciclopédia ilustrada em 22 volumes. Também tem figuras, e coloridas, Pirater I Karibiska ("Piratas no Mar Caribenho"), que, pelo jeito, conta a história de ladrões marítimos de verdade.

Quando estiver tudo arrumado (seria melhor por cores, tema ou ordem cronológica?), eu mostro. Por enquanto, fiquem com a imagem da estante colorida, que me servirá de inspiração para cumprir o desafio de 2010.

Enviado por I.B. Netto, 04/01/2010 às 16:34

Um tempo atrás, aqui no blog, escrevi sobre o livro Masculinidade para Amadores (Manhood for Amateurs, inédito no Brasil), de Michael Chabon. Era pouco mais que uma frase, mas parece que a palavra “masculinidade” bastou para chamar a atenção.


Divulgação

Divulgação / Cena do filme Cena do filme "Homem-Aranha", inspirado na HQ de Stan Lee.

Fui atrás do livro, uma compilação de textos de não-ficção, e, sem qualquer ambição de partir para a autoajuda, com passos a serem seguidos para você ser um bom pai, filho ou marido, o autor consegue escrever sobre sentimentos e experiências que, aos poucos, ajudam a formar o homem para cada um desses papéis. Quase sempre, alguém só vai perceber mais tarde que um fato foi determinante para sua formação.

Chabon conta, por exemplo, do dia em que decidiu, aos 10 anos, criar um fã-clube de leitores de histórias em quadrinhos. Inspirado pelos super-heróis que admirava e por Stan Lee, o criador do Homem-Aranha, ele colocou um anúncio no jornal dizendo que os interessados em se associar deveriam comparecer no endereço tal e pagar a taxa de um dólar.

A mãe de Chabon o ajudou com o aluguel de um salão para que o filho pudesse ocupá-lo durante um dia inteiro. Arranjou uma mesa e várias cadeiras. Chabon assumiu o seu posto pela manhã e, durante todo o dia, não fez sequer uma inscrição.

Um garoto apareceu com a mãe, mas, assim que entraram no lugar e o viram vazio, deram meia-volta com uma desculpa mal-disfarçada.

A frustração de Chabon foi gigantesca, do tipo que não se consegue superar jamais. Ele não lembra o que sua mãe fez, mas ela deu um jeito de apoiar o filho e consolá-lo diante do fracasso estupendo.

Agora, na condição de pai, ele diz que esses momentos – quando você consegue estar presente numa situação-chave, ou encorajar seu filho apesar de tudo – revelam muito sobre a paternidade (ou maternidade).

“O pai é um homem que falha todos os dias”, escreve Chabon. Mesmo quando você acerta, ainda assim, o sucesso “não muda o fato de que o fracasso ameaça tudo o que você faz. Mas você sempre soube disso. Ninguém passa dos dez anos sem adquirir esse conhecimento. Bem-vindo ao clube”.

Em posts futuros, posso voltar ao livro de Chabon.

Este é um espaço público de debate de idéias. A Rede Paranaense de Comunicação (RPC) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Classificados mais anúncios
Imóveis
7805 ofertas
Veículos
2778 ofertas
Empregos
761 ofertas
Shopping RPC

Os melhores preços estão aqui, clique e compare!


Powered by: Buscapé

Gazin.com.brDVD Player LG DV487 12 x R$16,58
Casas BahiaBarbeador Philips Série 6... 10 x R$23,90
VIDEOLAR.COMPen Drive Emtec C250 2GB 3 x R$11,33

Gazeta do Povo

SEÇÕES
Vida e Cidadania
Vida Pública
Mundo
Economia
Esportes
Caderno G
Educação
Últimas Notícias
Edição do Dia
Opinião
Charges
Colunistas
Cinema
Viver Bem
Caminhos do Campo
Saúde
Gente
Gazetinha
Animal
Tecnologia
Turismo
Automóveis
Imóveis
Bom Gourmet
Expediente
Edições Anteriores
Nova Ortografia
BLOGS
A Noite Toda
Arquibancada Virtual
Blog Animal
Buzz
Blog do Caderno G
Caixa Zero
Central de Cinema
Certas Palavras
Conexão Brasília
Conversa Temperada
Expedição Caminhos do Campo
Gazetinha
Blog do Guia
Hotel Terra
Los 3 Inimigos
Na Mira do Leitor
Populares
Relacionamentos
Sintonia Musical
Sobre Nada
Sobretudo
Tubo de Ensaio
Blog do Viver Bem
Blog Turismo
Vox Pop
ENTRETENIMENTO
Guia Gazeta do Povo
Cinema
Restaurantes
Bares
Cafés
Exposições
Passeios
Teatros
Shows
Guia Cultural
Compras
Quem é você?
Delivery
SERVIÇOS
Classificados
Fale Conosco
Horóscopo
Tempo
Assinaturas
Clube do Assinante
Anuncie no Jornal
Agência de Notícias