Segunda-feira, 21/05/2012
Soa um pouco arrogante um festival de música se adjetivar como “avançado”, em qualquer sentido. Mas a 2º versão brasileira do Sónar explicou do que se trata esse algo a mais, visível em diversos aspectos que não só as 48 atrações – entre elas DJs esquisitões, experiências silenciosas, Fifa 2012 e escoceses capazes de deixar um público estriquinado. A começar pelo espaço onde ele aconteceu, no último fim de semana, em São Paulo.
Nunca pensei que um centro de convenções poderia se tornar um lugar tão divertido. O Anhembi -- utilizado normalmente para exposições e eventos como Salão do Automóvel – é gigantesco (são 400 mil metros quadrados) e funcional, e recebeu com tranquilidade 16 mil pessoas na sexta-feira e 14 mil no sábado. Os shows aconteceram em três palcos cobertos, sendo um deles um anfiteatro, e ainda havia o SonarCinema, para projeções de documentários musicais.
Robson Bento/ Divulgação

O adjetivo “avançado” faz ainda mais sentido quando percebemos – e vivemos – algo que deveria ser sempre levado em consideração, não só em festivais de música, mas em qualquer situação em que haja um grupo de pessoas reunido: o bom senso.
Um exemplo. Para receber a pulseira que comprovava a maioridade, e por consequência liberava a compra e consumo de bebidas alcoólicas, não era necessário enfrentar uma fila imensa e específica para isso e mostrar seu RG – procedimento padrão em outros grandes festivais. No próprio bar, uma moça simpática verificava se você tinha ou não pelos na cara e já lhe dava a pulseirinha junto com a cerveja – Miller gelada, a R$ 7. Quem aparentava menos de 18 anos – a classificação indicativa do Sónar era de 16 --, aí sim tinha de mostrar o documento de identidade, sempre com aquela foto assustadora.
Robson Bento/ Divulgação

Outro ponto foi o cigarro. Por mais que seguranças circulassem pelo evento, várias pessoas fumavam normalmente. É proibido por lei fumar em locais fechados, e isso é indiscutível. Mas o Sónar optou por não coibir o cigarro, não totalmente, ao menos, deixando toda a discussão e suas possíveis consequências a cargo de quem realmente está envolvido no processo. Por isso mesmo vi e ouvi mais de uma vez uma pessoa pedindo educadamente a outra para que apagasse seu vício. O pedido foi atendido tranquilamente. O objetivo do blog não é levantar polêmica a respeito de uma das únicas leis que deu certo no Brasil, longe disso. O que creio é que as vistas grossas tenham sido mais um crédito de confiança do propriamente falta de rigor.
Isto posto, vamos à música.
Só estive no Sónar no sábado, dia 12. Perdi o show 3D do Kraftwerk – que foi espetacular, segundo relatos dos sobreviventes. Mas o real motivo da viagem foi o Mogwai, que só subiria ao palco do SonarHall – o tal anfiteatro – às 22h30. Como cheguei ao Anhembi 18h30, deu pra assistir a um punhado de coisa e perceber, de leve, para onde está indo a música contemporânea.
Foi ao som do beatmaker Pazes que entrei no Anhembi e já fui agraciado com um pacote de Doritos Ranch – muitos outros ainda surgiriam, mesmo se você não quisesse. Ainda ao som do brasileiro, dei uma circulada e vi que rolava um Fifa 2012 em um telão gigante. Não era o momento ideal para se jogar videogame, mas o Sónar começava a me conquistar.
Às 21h15, foi a hora da dupla Alva Noto & Sakamoto (Ajinomoto para muitos) valorizar o silêncio e inventar moda. A dupla nipogermânica, com laptop e piano, mistura elementos minimalistas a melodias sincopadas. A apresentação aconteceu no anfiteatro, e foi completamente contemplativa. Ouvia-se um silêncio respeitoso, digno daqueles que acontecem entre as partes de uma sinfonia.
Robson Bento/ Divulgação

A certa altura, o japonês do piano, como um John Cage menos radical, retransformou o instrumento, tocando diretamente em suas cordas e fazendo percussão em sua estrutura amadeirada. Bonito.
Saí um pouco antes do fim para ver o escocês Rustie e o que chamam de maximalismo eletrônico. A ideia parece ser abolir viradas, aceleração de batidas e alternâncias de ritmos, muito comuns na música eletrônica. Quando esse momento se aproximava, o óbvio passava longe e algo surpreendente surgia. Nas músicas melódicas, comparativamente, era como se a tensão nunca fosse aliviada, como se aquele acorde aconchegante jamais existisse. Interessante.
Chegava o momento Mogwai. E foi mais ou menos assim.
Imagine-se em um barco pequeno em alto mar. Nele, batem ondas gigantes, monstruosas. Mas, antes de entrar nesse barco, você sabe previamente que nada de ruim irá acontecer e que só resta, enfim, o prazer saboroso daquela sensação particularmente desafiadora.
Talvez por isso muitos logo depois do show andavam para lá e para cá como se, mareados, tentassem buscar uma resposta coerente ou racional para o que tinham acabado de presenciar.
Robson Bento/ Divulgação

Os escoceses voltaram ao Brasil depois de dez anos, divulgando o disco Hardcore Will Never Die But You Will. Expoentes do pós-rock, construíram no Anhembi um ambiente ao mesmo tempo violento e sublime. A alternância entre calmaria e estremecimento, uma das características do gênero do qual também fazem parte ótimas bandas como This Will Destroy You, God Speed You Black Emperor! e God is an Astronaut, foi exemplificada de forma assustadoramente contundente.
Exceto pelo guitarrista e vocalista Stuart Braithwaite, que parece sempre estar lutando com alguém invisível e que sorri em momentos incomuns, a banda, como um todo, não busca uma performance visualmente impactante, até porque isso funcionaria como um pleonasmo. Toda a proposta sonora de Mogwai ao vivo já é naturalmente grandiloquente.
Isso por causa das diversas camadas sonoras propiciadas pelas guitarras, ora sujas, ora angelicais; e do baixo, que nos faz lembrar que existe a palavra entropia. É uma mistura perfeita de força e destreza, euforia e plenitude. É do tipo de experiência que todo mundo deveria sentir. Por isso, fica difícil de responder quando alguém te pergunta simplesmente “ e aí, como foi?”
O som impecável do espaço foi ingrediente fundamental para um dos melhores shows que eu e muita gente presenciou em vida. Foram só dez músicas, a maioria do último disco. No final apoteótico, toda a força de "Batcat", segunda faixa de The Hawk is Howling (2008). O show acabou e algumas pessoas começaram a se abraçar. Outras olhavam para cima, como se buscassem uma resposta divina para o que tinha acontecido. Não há comparação nenhuma com o que se passou lá, mas eis o vídeo da última música:
Passada a catarse, vi o Four Tet em uma apresentação regular – os últimos trabalhos são bem menos interessantes do que os outros. E conferi rapidamente o neozelandês Munchi, cabeludo que brincou até com ritmos latinos. Mas não havia muito mais a se fazer a não ser procurar o silêncio do mundo depois de tanto barulho.
São 19h05 e o trânsito em São Paulo, para uma segunda-feira véspera de feriado, flui incrivelmente bem. O problema é o taxista. Mesmo com a ajuda de um GPS, ele se bate para encontrar o Cine Joia, local do único show que a banda britânica James fez no Brasil.
“Fica na Praça Carlos Gomes, número 82, perto da Estação Liberdade do Metrô”, digo, já meio indignado ao ver o taxímetro multiplicar os dígitos loucamente. “Recalculando a rota”, informa friamente o aparelho. “Recalculando a rota”, ouvimos de novo. As flechas malucas e coloridas apontam para diversas direções ao mesmo tempo, e a distância calculada até o destino varia incrivelmente de 150 m a 1,5km.
“Quer saber? Me deixa aqui mesmo. Vou a pé e pergunto como chega lá. Não deve ser longe.” “Ok. Vou dar cincão de desconto pela rodada aí, tá? Desculpa. É que esses aparelhos ficam malucos às vezes”, diz o taxista, me enganando diplomaticamente.
James nos anos 80: destaque esquecido da cena "Madchester".Tudo o que eu precisava era ir na direção certa.
“A Estação Liberdade é pra cá?”, perguntei a um senhor carrancudo que saía do trabalho. “Sim, é só descer aí. Fica do lado direito”.
No caminho – andei por oito quadras – refleti sobre toda a situação em que tinha me metido: havia trabalhado de manhã, engoli algo fingindo que era almoço e fui direto para outra cidade, tudo para ver o show de uma das bandas que mais ouvi na vida. Em cena quase patética, eu carregava uma mochila nas costas. Nas mãos, balançava uma pequena mala verde, que bem poderia estar em um filme de Truffaut. Mas àquela altura eu não sabia exatamente onde estava. Nem se o esquema do ingresso vip ia realmente dar certo, já que o email veio com informações desencontradas, e em inglês. Mas era James, oras. Era? Eu ainda duvidava.
Então as luminárias (em forma de globo ), a cor dos postes (vermelha), e os muitos orientais que andavam devagar pela região me diziam que havia chegado na Liberdade. Logo vi a estação de metrô, sem muito movimento. Agora, pensei, é o momento de perguntar onde fica o Cine Joia.
“Atravessando a rua. Fica naquele bequinho ali,” me informou um vendedor de jornais. Andando rumo à escuridão, vejo um grupo de pessoas, uma van prateada e três seguranças. Era ali.
Eu iria ver James num bequinho.
Hobbit e James Blunt
O Cine Joia fica numa rua secundária, estreita, escura e feia. Há pouco movimento e a casa de shows é circundada por construções abandonadas e pichadas. Ao lado, há um Centro Espírita que “atende diariamente”. Fazia um frio curitibano em São Paulo.
São 19h40 e digo ao segurança que tenho direito a entrar antes e ver a passagem de som daquela banda incrível, da qual sei detalhes inúteis.
Me dão um crachá bonito, que logo ostento no pescoço, como todas aquelas cerca de vinte pessoas que estão na mesma situação de, digamos, privilégio conquistado. “A entrada será liberada às 20 horas”, me informa um rapaz agitado. Sigo para o final da pequena fila, tiro a mochila e coloco a mala no chão. E aí ouço confissões que me dariam dicas sobre o público que estaria comigo naquela noite.
Encapotado em um paletó listrado e numa boina marrom de veludo, um sujeito baixinho e parrudo começa a falar de Batman Begins. Alguém da banda tinha feito uma ponta no filme, eles disseram, me ultrapassando, droga, no quesito “maior fã de James do mundo.”
“Só vai cair a ficha quando eu ver o Timzão lá”, disse logo depois o mesmo sujeito, referindo-se ao vocalista Tim Booth. A expressão que usa resume a idade que tem. O curioso, nesse caso, é que quem o acompanha é o filho adolescente. O garoto de olhos verdes passa frio e aperta o capuz em sua cabeça. “É, moleque. Teu pai te balançava no berço ao som de ‘Laid’”, lembra um outro homem, possivelmente tio do guri friorento.
A conversa prossegue, ainda cinematográfica. “Tentei ver Os Vingadores. Tudo lotado”, brada o da boina. “Mas não vejo a hora de ver O Hobbit. Esse sim!”, se anima. Talvez não seja tão difícil assim reconhecer um fã de James.
Já perto das 20 horas, alguém pede para que a fila seja organizada. Então a deixamos mais indiana do que brasileira, e nessa brincadeira acabo perdendo umas cinco posições. Na minha frente, agora, está um rapaz de casaco vermelho da Adidas. Tem uns 30 e poucos anos e uma estranha cabeça ovalada. “É complicado, é muito complicado”, diz ele a um amigo, tentando ainda se convencer de que o show realmente iria acontecer. “Quando vi que anunciaram, pensei: será que não é James Blunt”?
“Perguntas?”
Entramos no Cine Joia só às 20h30. Foi este mesmo lugar que recebeu recentemente as bandas The Vaccines e Nada Surf. A ideia, paradoxalmente criativa, parece ser trazer bandas que não lotam shows.
O Cine Joia é aconchegante e escurinho. No térreo, há um grande bar em formato de octógono. Atrás, há o acesso à chapelaria, aos caixas e ao lugar onde servem chopp. Na frente, um palco bem alto. Há um balcão também, em cima, que estava fechado naquela noite.
As vinte pessoas de crachá entraram e viram metade da banda no palco, mexendo em cabos e afinando instrumentos. Como se estivessem frente a uma aparição, simultaneamente congelaram suas expressões. Três corajosos deram mais alguns passos, de braços cruzados. Até que Saul Davies, guitarrista e violinista, disse “hi”, que soou como um “bu!”.
Comparativamente – para nós, os de crachá -- era como se um artista plástico visse de que maneira Picasso prepara sua aquarela. Como se Tarantino nos guiasse por seu set de filmagem, ou, para os fãs de futebol, experimentar o clima de vestiário em uma final da Copa do Mundo. Não fosse isso, exteriorizar a relação passional com o que víamos, seria chato demais ouvir músicas pela metade, instrumentos desafinados ou um técnico de som de cabelo estranho dizendo aos berros “stop, please”, criando a cada cinco minutos um coito interrompido em quem já cantava e dançava feliz da vida.
Tímidos aplausos foram ouvidos quando Tim Booth surgiu, vestindo uma calça de moletom larguíssima, uma camiseta qualquer e uma jaqueta marrom. Um gorro puído escondia a careca e parte das orelhas. Parecia que tinha acabado de acordar, e falou de maneira soturna e irônica: “Bem-vindos à passagem de som. Vocês escolheram isso, não tenho culpa”.
Divulgação
O vocalista Tom Booth, nos dias de hoje.Havia sempre um silêncio antes de cada questão. Era como se a miniplateia estivesse ao mesmo tempo com medo e afoita. E as respostas foram lacônicas, mas simpáticas.
“Vocês estão preparando algo de novo?”, perguntou alguém. “Não. No momento não”, disse Tim. “Mais perguntas?”, disparou ele, colocando um pé sobre a caixa de retorno.
“Como é o processo de criação da banda?”, quis saber um fã.“Ah, eu escrevo a maioria das músicas, mas sempre ganho contribuições do Larry [Gott, outro guitarrista] e do Jim [Glennie, baixista],” respondeu Tim, letrista de mão cheia.
A flor
A situação fã x artista se inverteu quando uma mulher baixinha ergueu o braço timidamente e chamou a atenção de Tim. Ela levantou a calça e mostrou sua perna. Perto do pé direito, a tatuagem revelava uma flor de pétalas brancas e miolo roxo: é o símbolo da banda. Larry saiu correndo do palco com a máquina fotográfica em punho e foi correndo registrar aquilo. “Incrível”, disse o britânico.
A banda tocou mais uma música e Tim Booth fez a pergunta derradeira. “Como está o som? Tudo ok?”. “Perfect!” O grito soou entusiasmado. Mas convenhamos. Mesmo que a guitarra estivesse com as cordas invertidas, que a bateria se transmutasse inexplicavelmente em bongô e que Tim Booth desse uma de Kelly Key, ninguém iria reclamar. Não naquela hora.
Madchester
A banda James foi formada em Manchester, em 1982, e foi essencial no movimento de pop alternativo que se denominou posteriormente de Madchester. Da cena, despontaram ótimas bandas contemporâneas ao grupo, como Stone Roses e Happy Mondays. Estas ganharam muito mais notoriedade, apesar de todas, inclusive o James, estarem sob a batuta da lendária gravadora Factory.
Há explicações possíveis para o relativo insucesso da banda. A falta de autopromoção, a discografia flutuante, apesar dos muitos “hits” e da colaboração genial de Brian Eno, e a própria cena de Manchester, qualitativamente autofágica, já que revela uma banda boa atrás da outra ainda hoje. É só pensar em Oasis, o caso emblemático.
Depois da parada de 2001, o James voltou à ativa em 2008, lançando o EP The Night Before e o disco The Morning After (2010).
Ossos e carvão
Era meia-noite e meia quando a banda subiu ao palco do Cine Joia. Havia cerca de 600, 700 pessoas, para ver o grupo, que hoje excursiona com sete integrantes. Da formação original, estão o vocalista Tim Booth e o baixista Jim Glennie. Gott entrou em 1983, e participou do primeiro disco, Stutter. Completam a atual formação Saul Davies, na guitarra e no violino; Mark Hunter, nos teclados; David Baynton-Power, na bateria; e Andy Diagram, no trompete.
“Dust Notes”, música de The Morning After, abriu o show de forma serena. Tim Booth tem uma voz realmente incrível. Seus agudos são penetrantes e o controle que tem sobre a melodia lembra o que poderia fazer um Ney Matogrosso, caso ele fosse roqueiro. A música foi cantada por muitos, mas não todos, já que a maioria, mesmo lá, esperava por “Sit Down”, “Born of Frustration”, “Laid” e cia. Pequenos hits.
“Laid”, aliás, foi a quinta do setlist. Tocada em sua versão original, a música que já foi detonada em uma versão para a trilha de American Pie deixou um gosto de quero mais. Foi tudo rápido e intenso, e por um momento me questionei. “Já foi?”.
Em “Born of Frustration”, a catarse. Nos shows da Inglaterra, Tim Booth tem a mania de ir no meio da plateia, cantar e dançar. Ninguém imaginava, entretanto, que ele faria o mesmo aqui no Brasil – e sem avisar ninguém.
Então seguiu o careca de cavanhaque, com sua regata listrada. Passou por uma multidão que não entendia bem o que acontecia, desviou de mãos marotas, de empurrões, de abraços furtivos e se aproximou do mezanino do bar central. O lugar em que sentou era de vidro. Dentro dele, havia uma decoração bizarra de ossos sobre carvão. Com cuidado – e cantando sem interrupções -- ele subiu ali. O barman o olhava de soslaio, com um sorriso bobo na cara. Foi assim:
Tim Booth estava há 3 metros de mim e confesso que não sabia o que fazer. Se cantava, se erguia as mãos. Se tirava uma foto ou se filmava aquilo, como a maioria fazia. Tirei algumas fotos – que ficaram uma porcaria – e decidi aproveitar o momento indubitavelmente único. Em outra música, imitando o patrão, o trompetista também subiu no mezanino. Ele vestia uma camisa da seleção brasileira, com nome e número nas costas: James. 7.
Na sequência, “Say Something” fez o que se esperava: levou muitos às lágrimas. A música é realmente grandiosa, e ao vivo ganha em sentimento. Há uma contradição estranha entre a densidade da canção e os movimentos de Tim, que ora lembra uma lagartixa em apuros, ora um Morrissey mais invocado. O resto da banda é quase impassível, talvez em busca de equilíbrio.
“She’s a Star” e “Sit Down” formaram um coro majestoso. Já no bis, “Come Home” e “Getting Away With it (All Messed Up) deram um choque em todos. Ao olhar para o lado, viam-se sorrisos espontâneos e duradouros. Quase ninguém conversava. A ordem ali era prestar atenção naquelas sequências de acordes, tão conhecidas, e naquelas letras, extremamente significativas.
Talvez como eu, muitos ali pensaram em que circunstâncias já tinham ouvido essas músicas. Em que ocasiões já haviam as mostrado para amigos, parentes, namorados. É o cerne da beleza invisível da música, mas que é facilmente compartilhada. E aí não é mais questão de ser fã ou não, é de compreender e levar em conta toda a sua história enquanto ouvinte passional e crítico. É, em suma, o que José Miguel Wisnik chama de “não tempo” no livro O Som e o Sentido.
“As melodias participam de um tempo circular, recorrente, que encaminha para a experiência de um não tempo. Essa experiência de produção comunal do tempo faz a música parecer monótona, se estamos fora dela, ou intensamente sedutora e envolvente, se entramos em sintonia.”
Sintonia.
“Sometimes” veio no segundo bis, e só não fez chover. “Foi nossa primeira vez no Brasil e esse show foi muito importante. Obrigado”, disse Tim Booth, nitidamente emocionado. Foi importante para nós também, Tim. Para nós também.
A banda gaúcha Apanhador Só, uma das melhores revelações do rock brasileiro dos últimos anos e um poço de criatividade quando o assunto é lançamento de novos trabalhos, confirmou show em Curitiba no dia 7 de julho. A apresentação acontece no Teatro Paiol.
Roberta Santanna/ Divulgação

Na ocasião, o grupo lança o compacto Paraquedas (Vinyl Land Records), que traz duas canções inéditas (“Paraquedas” e “Salão de Festas”) e tem produção de Curumin e Zé Nigro. Em edição limitada, o material sai em vinil de 7 polegadas. O show será “elétrico” (não-acústico) e os ingressos custarão R$ 25 e R$ 12,50 (estudante com carteirinha). Os pontos de venda serão divulgados em breve.
Clipe
Os gaúchos são donos de um dos melhores discos nacionais de 2010, e recentemente também lançaram o clipe da música “Nescafé” – veja abaixo. No elenco, há jovens artistas locais, e entre eles o cantor e compositor Ian Ramil, filho do bardo-milongueiro Vitor Ramil, um dos maiores nomes da música do Rio Grande do Sul.
Recentemente, a canção foi regravada por Filipe Catto no disco Fôlego (Universal Music). "Nescafé" ainda faz parte da fita cassete Acústico-Sucateiro (Independente, 2011). No trabalho, o Apanhador Só recria as faixas de seu debute fazendo uso de sucatas, brinquedos e objetos eletrônicos.
Novo álbum
Formada por Alexandre Kumpinski (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria), o Apanhador Só promete disco novo. O novo álbum começa a ser gravado no segundo semestre deste ano (julho ou agosto) e será lançado no verão de 2013.
Depois da inebriante apresentação no Lollapalooza Brasil -- o melhor show do evento na opinião deste blog -- os norte-americanos do Band of Horses retornam ao país para duas apresentações em maio.
O primeiro show acontece no Rio de Janeiro, no WCT Music Festival, dia 19. Os ingressos já estão à venda aqui.
Divulgação

No dia 21, o grupo de Ben Bridwell toca em São Paulo, no Beco 203. Mais informações, aqui.
Por enquanto, nada de Curitiba.
A banda de Seattle divulga o disco Infinite Arms.
Abaixo, a íntegra do inquestionável show do Band of Horses no Lolla Brasil.
Se for pra escolher um momento, recomendo ouvir a partir de 17min35. "Is There a Ghost" é de arrepiar.
“Deu um trabalhão.” Foi isso que me escreveu Nevilton de Alencar ao encaminhar as informações sobre o clipe de "Tempos de Maracujá", terceira faixa do ótimo disco De Verdade, lançado em outubro de 2011. A banda, você sabe, é a Nevilton, de Umuarama -- mais sobre como eles saíram de um bar da cidade para ganhar a vida com música, aqui.
Proponho o seguinte. Veja o novo clipe abaixo, pense como ele foi feito, e depois leia as explicações sobre o vídeo, na sequência do post.
O clipe é daqueles para ser assistido várias vezes, já que há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Em resumo, o Diabo (Tiago Lobão) tem a missão de bagunçar o “coreto”, enquanto anjos (Nevilton e Chapolla) tentam manter a ordem. No meio de tudo isso, matemática, improviso, uma balada bizarra e efeitos quase bobos, além de muitos cálculos, que dão ares OkGonianos ao clipe da banda do interior do Paraná.
“A intenção era criar um clipe matemático. Para ilustrar tal ideia apresentei uma série de filmagens aceleradas de mim mesmo, coladas toscamente num Final Cut. Com isso tentava convencê-los que aquilo iria virar uma contagem regressiva de relógio digital, com números perfeitos. Era um vídeo com três de mim -- ridiculamente vestidos de verde e abraçados a travesseiros da mesma cor --, ridiculamente deitados no chão e fazendo posições ridículas que lembravam números em contagem regressiva.
Basicamente ridículo”, diz o diretor Edson Oda.
Ele continua, agora destrinchando a técnica utilizada para a coisa toda. Sério, a explicação a seguir é exigente, mas essencial. Não se perca.
“Primeiro definimos a duração de cada segundo desse cronômetro humano. Analisando a batida da música, percebemos que cada 14 segundos tínhamos aproximadamente 10 tempos. Ou seja, 1 Tempo = 1,4 segundo. Assim, se a música tinha 4 minutos (240 segundos) ela teria uns 170 tempos nessa proporção. O que nos levou aos 2:20 iniciais.
Paralelamente começamos a trabalhar nas coreografias dos atores que provisoriamente éramos nós mesmos. Tínhamos que definir quais seriam as melhores posições para representar cada número, quanto tempo o ator ficaria fixo naquela posição e quanto tempo levaria para ele mudar para o próximo número.
Rafael Avancini

Nos testes vimos que o ator demorava sete vezes mais que o tempo normal para fazer tudo isso -- se fixar no número e mudar. Ou seja, se nosso 1 Tempo equivalia a 1,4 segundo, isso significava que precisávamos de 9,8 segundos (7x1,4) para toda transição (quatro segundos para firmar o número e o restante para a troca).
Como solução decidimos filmar tudo em 30 minutos de coreografia mais lenta e depois acelerar sete vezes para conseguir os quatro minutos do clipe.
Reprodução

A intenção, claro, era sincronizar todas as variações da música com coreografias específicas para cada variação do som. O problema, no entanto, era sincronizar a música de quatro minutos com essa filmagem sete vezes mais lenta de 30 minutos. Pra isso, tentamos reduzir a velocidade da canção sete vezes e tocar na filmagem. Mas isso só gerou um som irreconhecível do capeta.”
Tá tudo bem? Tem mais.
“A solução foi gravar um metrônomo que dividia a nossa unidade desacelerada de tempo (9,8s) em sete tempos. Um “tac, tac, tac, tac, tac, tac, tic” que nos orientaria quando as trocas de números deveriam ser feitas e quando deveriam começar e acabar as coreografias ao redor dos números.
E quando esses sete tempos de tic e tac fossem acelerados sete vezes, surgiriam tempos de 1,4s, o que faria tudo casar perfeitamente com nossa música em tempo normal.
Por fim, para nos guiar melhor na direção, todo o roteiro não seria escrito em papel, mas num vídeo de 30 minutos, ao som das sete batidas incessantes a cada 9,8 segundos, que nos indicavam toda as transições durante a filmagem.
Pronto.
Gravar esse clipe foi bem mais instrutivo que qualquer cartela de Kumon que eu tenha feito”, garante Oda.
Além do lançamento do novo clipe, a Nevilton é finalista do concurso Música Pra Todo Mundo, da Oi Novo Som, cujo prêmio é a gravação de um disco e a participação no Festival Música Pra Todo Mundo, no Rio de Janeiro, no segundo semestre desse ano. Para ajudar os caras, é só visitar o site http://www.mptm.com.br, clicar na foto deles e dar um “curtir”. Leva cerca de, hmm, 1,23 segundos.
É sim. A queridona Nada Surf confirmou uma noite de autógrafos na sexta-feira (27), às 19 horas, na Livraria Cultura do Shopping Curitiba.
A ação faz parte da nova turnê, que divulga o disco The Stars Are Indifferent to Astronomy (sexto autoral e sétimo da carreira) e que continua no sábado (28), com show no Music Hall – os ingressos do primeiro lote já estão esgotados.
Peter Ellenby/ Divulgação

E se você ainda não sabe, no palco o Nada Surf será um quinteto. Participam da turnê Doug Gillard (Guided by Voices) e Martin Wenk (do Calexico).
Serviço:
Noite de Autógrafos do CD The Stars Are Indifferent To Astronomy
Data: 27 de Abril
Horário: 19 horas
Local: Livraria Cultura (Shopping Curitiba)
Entrada Franca
Show Nada Surf
Data: 28 de Abril
Horário: 22 horas
Local: Music Hall (R. Engenheiros Rebouças, 1645)
Ingressos: 1º lote: Esgotado // 2º lote: R$ 120 (pista inteira) e R$ 60 (pista meia entrada). À venda pelo Disk Ingressos
Mesmo na festa mais eclética possível, numa utópica torre de Babel em que os andares seriam povoados por gêneros musicais distintos, ou num shuffle de iPod mais inspirado do que o normal, seria difícil ouvir Xuxa e The Fratellis quase ao mesmo tempo. Ou presenciar uma disputa entre uma canção folclórica portuguesa e a porno-nostálgica trilha sonora da Banheira do Gugu -- “umba umba umba, ê, lara, laralaralá”. Mas aconteceu. E, durante boa parte da noite da última-sexta feira, apesar das músicas avacalhadas, das dancinhas convidativas, dos resgates musicais apelativos e de todos os clichês indies, o Wonka Bar esteve no mais puro silêncio.
Pela segunda vez aterrisou em Curitiba a Shh (Club Silêncio), curiosa festa em que o headphone é item obrigatório. “É só pegar o fone e se divertir”, garantia, logo na entrada, uma moça de óculos, metendo a mão em uma grande caixa e retirando um dos 350 fones de ouvido disponíveis.
Com o aparelho em seu devido lugar, havia três caminhos a seguir, explicou ela: “trash funk”, “indie” ou “pop”. Três canais no fone, um clique para mudar de um para outro e barabim, barabum, barabeakman: você poderia se deparar rapidamente com Arctic Monkeys ou Gogol Bordello, dançar loucamente com Katy Perry, tentar compreender a letra de um funk esculachado ou rir ouvindo Xuxa -- e, discretamente, soltar um “ilari-lari-ê”, porque ninguém é de ferro.

No “palco”, três DJs representavam simultaneamente os três canais supracitados. Tocavam por cerca de uma hora, ao mesmo tempo, e aí outra leva de paladinos do silêncio entrava em ação. Durante toda a noite, foram doze DJs, em quatro entradas.
A festa silenciosa surgiu em 2005, no Festival de Glastonbury, e chegou ao Brasil em 2010, estreando no Rio de Janeiro. Nos principais festivais europeus, aliás, o “silent” já tem um palco próprio, movimentando muitas pessoas que poderiam até ser chamadas de “egoístas musicais”. Mas a versão brasileira da Shh provou o que já sabemos: a música – ou o gosto musical, em termos gerais – une mesmo aqueles que pensam estar em um universo paralelo por conta do canal escolhido.
Em rodinhas de amigos, de quatro, cinco pessoas, o que mais se via eram dedinhos em riste. Um, dois ou três, indicando ou perguntando qual o canal da vez. Quase sempre sinais afirmativos confirmavam o gosto similar. Amizade também é compartilhar preferências, afinal de contas. “Já já o pessoal começa a se empolgar e aí fica divertido”, alertou a certa altura Felipe Rocha, um dos idealizadores do modernoso evento.
Reprodução
"No hay banda". Nem música, apesar dos três DJs.Outro exercício divertido, já quando a festa engrenava, era retirar os fones durante aquelas músicas infalíveis, porém mais batidas do que a piada do Mário.
“Take me Out”, do Franz Ferdinand, por exemplo. Se em 2004 a moda era bater os pés no chão no ritmo da música, tal qual festa no Xingu, na Shh o que se ouvia era um coro igualmente empolgado e desafinado. Nessas músicas, o DJ colaborava, cessando temporariamente o som e deixando a continuação da dita cuja a cargo de quem estava no canal 2 – no 1, nesse momento, um funk carioquíssimo bradava “bate bate, eu tô doidinha”.
A DJ Juliana Juliana Anverce (DJ Judi) comandou o canal 2 por uma hora. Residente do VU às sextas-feiras, ela diz que não mudou o set por causa da festa, mais silenciosa do que o normal. “Não mudei nada. O que é legal de ver é o ‘duelozinho’ que acontece entre os DJs. Todos eles querem ouvir as pessoas cantando as músicas que colocam”, explicou a garota, que havia tocado Gogol Bordello (um rapaz vestido de branco lembrou Forrest Gump quando saiu alucinado cantando “Start Wearing Purple”), The Fratellis, Hot Chip e Cut Copy. “A festa é ótima porque, se a pessoa não está gostando do som, é só trocar”, completou Judi, levantando a bandeira da democracia musical.
Até o final da noite, outros duelos raros disputaram ouvintes e propiciaram caretas. “Pimpolho” venceu Katy Perry. Braga Boys – “para dançar isso aqui é bomba, para balançar isso aqui é bomba, para mexer isso aqui é bomba!” – desbancou “Marylou”, da Ultraje a Rigor; e, quem diria, as Spice Girls detonaram a “Mulher de Fases” dos Raimundos.
Quando “Tô Ficando Atoladinha” brigava pau a pau com “Mr. Brightside”, do Killers, resolvi devolver os fones – em caso de perda a multa é de R$ 350. Porque tem sempre um momento em que o silêncio é mesmo o melhor dos canais.
É praticamente impossível falar sobre uma banda nacional nova sem que haja um chato pra dizer: “parece Los Hermanos”. O interessante é que essa reação não é reservada a um gênero muito específico.
Enxerga-se algo de Los Hermanos em um
grupo de artistas que vai d’A Banda Mais Bonita da Cidade, por exemplo, ao grupo carioca Do Amor, que é chegado num carimbó.
De 15 anos para cá, misturar rock com samba, MPB, ou qualquer outro ritmo brasileiro virou quase o mesmo que ser influenciado por Los Hermanos.
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Los Hermanos ao vento: 15 anos de estradaIsso porque Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina formaram a maior banda brasileira da última década – e é lendo isso que alguns torcem o nariz. Lembre: era uma época de transição. Parte do rock brazuca era feito por zumbis (bandas dos anos 80 que sobreviviam do que haviam feito no passado) e parte por uma nova cena mineira, que surgia forte com Jota Quest, Skank e Pato Fu.
Houve rompantes de criatividade que deixaram um legado mais engraçado do que musical (Raimundos e Mamonas Assassinas) e finalmente as duas bandas que mais influenciaram o que veio na década seguinte: Chico Science & Nação Zumbi e Los Hermanos.
Nação Zumbi tem uma importância fundamental e alguns diriam até que poderia ter sido mais relevante do que o grupo carioca. Isso se a banda não tivesse surgido em Recife (aquela história de estar fora do eixo) e se Chico não tivesse morrido em um acidente bobo em 1997, justamente o ano de formação do Los Hermanos.
Pois bem. Comemorando os 15 anos da banda carioca, a Musicoteca teve a ideia de reunir parte dessa gente que “parece Los Hermanos” justamente para tocar Los Hermanos. O disco 1 da coletânea Re-Trato (baixe aqui) foi lançado na semana passada, e a segunda parte sai nesta quarta-feira (18). Fazem parte do projeto mais de 30 artistas, entre eles Pélico, Cícero, Tibério Azul, Barbara Eugênia, Banda Gentileza, e por aí vai... Ou por aí não vai também, como é o caso das versões de Anna Júlia feitas pela banda Velhas Virgens (sério).
Analisando pelas pontas – a faixa inicial e a final -, dá pra ter uma ideia da variedade do disco. Começa com “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, sob os tratos da banda Do Amor, que deu à música uma divertida versão “marchinha de carnaval”. A que fecha o álbum é uma versão em inglês de Anna Julia, feita pelo Velhas Virgens, que ficou meio sem sentido.
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Bizarrinho: até Velhas Virgens participou da coletânea Re-Trato. O Velhas Virgens nada tem a ver com a banda dos barbudos – os punks debochados estão comemorando 25 anos de carreira agora – mas também acabou sendo uma boa escolha para interpretar Anna Julia na versão em português. E vou te dizer por que. A música mais emblemática e polêmica da carreira do Los Hermanos acabou encontrando na imprevisibilidade uma boa saída pra ficar interessante.
A maioria das canções ficou bem com a cara daqueles que as retrataram, como “Condicional”, na voz de Pélico; “Deixa o Verão”, cadenciada por Tibério Azul; “Retrato pra Iaiá”, por nana (com letra minúscula mesmo) e “Além Do Que Se Vê”, no jeito de Cohen e Marcela. Os destaques, no geral, são as versões menos transformadas: “Morena”, por Tiago Iorc e “Dois Barcos”, pela Banda Mais Bonita. Há ainda a versão arrastada de “Primavera”, feita pelos também curitibanos da Banda Gentileza; e “Azedume”, única instrumental do disco, que ganhou um charme na melodia conduzida por sopros.
A coletânea não é algo excepcional, e nem era essa a proposta. Mas é, sim, uma homenagem justa e que merece ser ouvida pelos fãs, nem que seja pela curiosidade.
Além das músicas, quem baixa Re-Trato também ganha um bônus bem divertido. São ilustrações da artista plástica Luyse Costa, que criou uma série de gravuras exclusivas para o disco, em que cada desenho representa uma das músicas -- veja ali embaixo. Complemento de uma justa homenagem a Los Hermanos que, aliás, toca no Lupaluna, no BioParque, no dia 18 de maio.
Eles são como aquela tia que nos visita vez em quando, para a qual dizemos, por pura educação, “ah, venha mais vezes”. São iguais a um time simpático, embora sem projeção, que ostenta uma estrela -- prateada -- na camisa. Podem ser comparados, talvez, a um filme que você nem gosta tanto. Mas que faz questão de rever por causa de uma cena ou outra, que te tira do chão.
O grupo inglês Elbow teve um azar danado ao dar as caras em 1990, justo na época em que o britpop estourava. Em seus cinco discos, entretanto, compilou algumas obras primas que o credenciaram a ocupar, em um futuro próximo, o posto que é Radiohead – isso se a banda de Thom Yorke não estivesse sempre à frente do tempo.
Na Inglaterra, todos os seus discos figuraram no TOP 20 na época de seus lançamentos, e sete dos singles estiveram entre as quarenta músicas mais ouvidas na terra da rainha. Com o álbum The Seldom Seen Kid (2008), a banda deu mais um passo para sair do pseudoanonimato, já que venceu o prêmio Mercury.
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Com Build a Rocket Boys!, álbum recém-lançado no Brasil pela Universal Music, o grupo do rechonchudo vocalista Guy Garvey demonstra maturidade para ser a bola da vez – apesar de o Elbow e seu indie-art-rock estarem à sombra de outros grupos de Manchester, maior cidade perto de Ramsbottom, onde a banda teve origem.
A mensagem essencial de Build a Rocket Boys! parece ser um lamento tristonho sobre a passagem rápida do tempo. O Elbow de hoje quase soa envelhecido ou anacrônico. Mas, se colocarmos na balança a boa combinação entre simplicidade e sinceridade, característica da banda desde seu ótimo debute Asleep in the Back (2001), entendemos um pouco mais esse novo momento do quinteto inglês.
O Pista 1 conversou por telefone com Richard Jupp, baterista da banda, que estava na sua casa, numa cidadezinha ao lado de Manchester. E ele logo se saiu com essa frase quase paradoxal,que confirma que a água que os músicos de lá bebem é mesmo diferente.
“Não importa o quão grande sua banda seja. Sempre tem uma maior em Manchester”, disse ele. Parte da história dessa região, onde todos os integrantes do grupo viveram sua infância e adolescência, é o cerne do novo disco.
“Para compor, ficamos na ilha de Mull por algumas semanas e relembramos do passado. Toco bateria desde os seis anos e conheci os outros caras na escola. Foi incrível olhar para trás com a ajuda da música”, conta Jupp.
Talvez por isso o novo disco seja extremamente melancólico e poético. A ideia inicial para o álbum, diz Jupp, começou com “Jesus is a Rochdale Girl”, peça minimalista com um quê de Brian Eno baseada em um poema que Garvey escreveu, ora, sobre seu primeiro amor.
“Para ser honesto, é mais fácil escrever sobre coisas tristes. A música pop está cheia de artificialismos baratos que não duram”, cutuca o baterista.
A segunda faixa, “Lippy Kids”, confirma o posicionamento reflexivo da banda. A música já virou um pequeno hino, e é daquelas que crescem a cada audição. Mas alto lá porque nem só de introspecção vive o Elbow.

Em boa parte do tempo que passaram compondo o novo disco, o grupo viu as manifestações e protestos que tomaram conta de várias cidades da Inglaterra. Recapitulando: os confrontos encabeçados por jovens ingleses começaram com a morte de Mark Duggan, um rapaz negro de 29 anos, pai de quatro filhos, assassinado pela polícia sob circunstâncias obscuras em Tottenham, norte de Londres. Houve saques, vandalismo e confrontos nas ruas – não só em Londres, mas em outras cidades da Inglaterra -- por cerca de três semanas.
Para alguém sensível como Garvey, isso foi um prato cheio para novas inspirações.
“Vimos o que estava acontecendo com quem saiu às ruas. E isso foi um pouco triste, mas não necessariamente ruim. Acho que daqui a algum tempo as pessoas vão olhar para trás e pensar: essas pessoas fizeram algo a mais. E melhor”, disserta Jupp, com clareza impressionante e sotaque desafiador.
E por mais que você não vá correndo baixar Build a Rocket Boys!, provavelmente irá ouvir pelo menos uma música do Elbow nos próximos meses. Pois o grupo foi o escolhido pela rede de tevê britânica BBC para gravar o tema de transmissão das Olimpíadas de Londres, que começa no dia 27 de julho. God Save Elbow.
"O sucesso [com o prêmio Mercury] me fez viver em uma casa melhor, talvez. O prêmio foi incrível. Mas não mudou muito. O Elbow é assim. Já fizemos isso. O sucesso é diferente para nós. O encaramos como uma responsbilidade para continuar a fazer música."
“Tenho muito respeito pelo Radiohead porque eles são uma banda de massa mesmo não fazendo algo puramente comercial.”
"Sim, nós fizemos uma cerveja lager com o nome da banda. Há em um pub perto de Manchester. Vendeu bem, até. Não sei se tem mais. Vou lá hoje e verei isso."
"Manchester é uma cidade miseravelmente boa e rude. Nos últimos anos vemos as ruas cheias, há muitas pessoas fazendo muitas coisas. São cerca de 150 clubes aqui, então nunca falta lugar para tocar, embora não toquemos muito. Lembro de um tempo bom em que costumávamos ver shows de Oasis e James, por exemplo."
Passava das 19 horas quando chegamos ao estúdio Off Beat, que fica em uma rua tranquila do Campo Comprido, bairro da zona oeste de Curitiba. A entrevista com John Ulhoa estava marcada para as 18h30 daquela terça-feira, mas o trânsito empacado, já típico da cidade, atrasou tudo.
Eu, Mateus Ribeirete e o motorista do táxi em que estávamos praguejamos protocolarmente, como sempre acontece nestes casos. Pequena sorte, entretanto, foi ter a companhia de Morrissey, que no rádio do carro cantava “The First of the Gang to Die.” A música até combinava com o do pôr do sol outonal e alaranjado, que já muda a cara de Curitiba.
John Ulhoa, que está na cidade para produzir a segunda metade do disco da Lemoskine, recentemente tocou com Gruff Rhys, vocalista da banda Super Furry Animals, de quem é fã. O mineiro foi eleito o melhor guitarrista do ano de 1989 pela revista Bizz. Depois do fim do Sexo Explícito, sua primeira banda de “sucesso”, começou a se dedicar à produção musical. Isso em uma época em que as grandes gravadoras poderiam fazer, como ele mesmo diz, a “carreira de um músico”. Em meio a uma espécie de “turning point” do rock brasileiro, que via nascer Chico Science e Raimundos, fundou a banda Pato Fu, em 1992.
John Ulhoa conhece Rodrigo Lemos, também integrante da Banda Mais Bonita da Cidade, desde os tempos de Poléxia. O mineiro produziu a faixa “Você Já Teve Mais Cabelo”, presente no disco A Força do Hábito (2009). Na entrevista que você lê abaixo, eles falam sobre a cara que está ganhando o primeiro álbum da Lemoskine, as estatísticas realistas que apontam para o insucesso da maioria das bandas e também sobre as novidades da Pato Fu, que completa 20 anos de carreira em 2012.
Você já produziu discos de Arnaldo Baptista, Zélia Duncan, Wonkavision. O que te faz decidir com quem trabalhar?
John: não sou um produtor em tempo integral. Tenho minha própria banda. Então, meu “sim” depende de uma empatia totalmente genuína com o som e com as pessoas. Não considero esse meu emprego de fato. Quando vou fazer o som de outros, tenho que gostar do som e das pessoas. Se gosto do som, mas os caras são uns malas, não tem condição. Mas eu não coloco meu portfólio como produtor num site, por exemplo. Recebo muito pedido de gente, até escuto o som, mas às vezes digo: “isso não é o que eu faço”. No caso do Rodrigo, a gente se encontrou em shows antes. Eles me deram o disco, achei legal o som. Começou por um encontro, e não o contrário.
Lemos: é, foi algo engraçado. Comecei a fazer alguns singles depois que a Poléxia acabou. Passei um tempo sem lançar nada, aí comecei a mandar faixas de fim de ano, para amigos. Uma dessas eu mandei pro John, na época em que ele estava produzindo o disco da Zélia Duncan. Mandei e-mail pra um porrada de gente, e alguns respondiam. O John foi uma delas. Ele tinha mostrado pra Zélia, ela também tinha gostado. Fui voltando à coisa de “ah, quero ter um outro projeto, gravar e lançar.” Foi uma continuidade. Acho que dependeu bastante disso, de feedbacks de pessoas que estavam próximas, ou que admiro.
A Lemoskine faz um pop com boas referências, arredondado e pronto pra rádio...
John: Pois é. As coisas que ele me mandava, as prés-produções, sempre me davam a sensação de “ixi... e agora? Isso já tá pronto. Vou ter que chegar lá e fazer mais que isso.” O Lemos tem um padrão de qualidade de instrumentos e timbres que é muito elevado.
Lemos: “Yey!”
John: Chego aqui e tenho que tentar fazer o negócio ficar melhor. Mas há vários tipos de produtores. Tem o sujeito que é mais engenheiro, que gosta de ficar tentando achar o melhor timbre de bateria, por exemplo. Eu sou um pouco isso. E tem produtor que é só de clima, aquele que diz, “não, tem que ser mais rock!”, e o cara não saca nada de engenharia de áudio. Tento ser um pouco isso também. Mas de um jeito ou de outro, não sou aquele produtor que some no fim. Tem alguns que produzem um artista, mas você não identifica que ele estava por trás do trabalho. Isso pode ser bom também, mas não sou assim. Acho que quando os caras me chamam pra produzir, eles sabem que o troço vai ter um pouco da minha cara. E acredito que o Lemos gosta dessa cara. Eu deixo um rastro nas coisas que eu produzo, e os artistas têm que gostar disso.
Lemos: a interferência acabou virando o mote maior desse projeto. A Lemoskine deixou de ser uma coisa “Rodrigo tocando e gravando em casa sozinho” pra virar uma banda mesmo. O John tá conhecendo os garotos que tocam junto comigo... enfim, cada um interfere da sua maneira. Quem vai passando por esse universo das canções, vai deixando a sua marquinha, de forma que no fim das contas é algo que saiu de mim, mas é de todo mundo.
Há quanto tempo estão gravando?
Lemos: Começamos a gravar o disco em fevereiro. Fizemos pré-produção de duas semanas apenas. A primeira metade do álbum já gravamos e arranjamos, falta gravar voz. A segunda metade está sendo feita com a produção do John. E provavelmente haverá uma faixa ["Maria Lúcia Estava em Chamas"], remixada, para deixá-la mais no clima do disco. Ao longo da pré-produção fizemos vídeos também. Foram oito ensaios, cada um de uma música diferente. A gente compilava o material e o Vitor Moraes foi editando como se fosse um resumo. Funcionou como um backup. Se eu quisesse lembrar o que aconteceu na música, no arranjo, eu via os vídeos.
Hoje em dia a produção começa dessa forma, com outros elementos e linguagens?
John: hoje parece que é mais importante você ter um disco do que um single. As pessoas escutam música no YouTube. E não é questão de concordar ou não. É como é. Antigamente era importante você ter um single de rádio. Mas vá colocar um single na rádio agora... não existe mais o mecanismo pra isso. A gravadora, por exemplo, que promove, banca. Isso já era. Pra quem está fazendo as coisas com as próprias mãos, é mais importante você ter um vídeo legal no YouTube, porque isso pode se espalhar, do que você ter uma página no Myspace. Mas isso muda muito depressa, no ano que vem pode ser outra coisa. Mas nesse momento as coisas acontecem no YouTube ou no Facebook. Pouca gente está com paciência pra entrar no Myspace pra ouvir novas músicas de alguma banda.

A Lemoskine tinha isso na cabeça, sabia para onde ir nesse sentido?
Lemos: Eu nunca soube pra onde ir (risos). Mas acho que a verve mais legal da Poléxia, por exemplo, sempre foi essa. A gente não se importava em fazer o que todo mundo estava fazendo. E fazemos não de maneira pretensiosa, mas de uma forma que a gente se sinta à vontade, que não se sinta “estuprado”. A Poléxia foi uma banda que fez algumas coisas que na época não estavam rolando aqui. E talvez por isso teve um destaque não só musical. A forma como você mostra... acho que é isso. A forma ficou sobreposta à musica. Ontem estava falando com o John sobre o último disco do Flaming Lips. Os caras não fizeram uma prensagem, fizeram um feto, e na cabeça do feto tem um pen drive. Você ouve por ali. É a maneira de chamar atenção para o seu trabalho. A música, então, é a segunda porta. A primeira é como você vai se mostrar. É impossível você pensar num lançamento sem imagem. Por exemplo, quando alguém vai comprar um disco (veja, as pessoas ainda compram discos. Eu compro disco, risos) elas sentem falta de ter a referência visual.
John: o mais complexo é que as pessoas não tem um “goal” muito claro. O CD é um objeto de desejo de todas as bandas, mesmo hoje em dia. Apesar de as pessoas falarem que ninguém mais compra, as bandas falam: “quero fazer um disco”. É louco porque tem um descompasso entre o objeto de desejo dos músicos e do público. E alguns desses artistas não compram discos, mas querem que comprem o seu.
O lançamento será em CD?
Lemos: Também. Não planejei ainda como a gente vai fazer isso nas várias mídias. Mas com certeza vai rolar um lançamento na internet e um físico.
Como chama o disco, aliás?
Lemos: Toda Casa Crua.
Por que?
Lemos: Não tem um motivo específico. Mas junto com o Vitor, estávamos pensando: várias músicas apontam para o tema casa. Não só a palavra casa, mas estar dentro de alguém, dentro de alguma ideia. E a palavra casa se repete em várias músicas também. E aí rolou uma coisa de ele fotografar a casa de uma amiga, que estava em reforma. Ele me mostrou as fotos sem que eu tivesse pensado no nome do disco. Eu falei “cara, é muito legal.” Tinha reboco na parede, falta de pintura. E a gente achou que tinha a ver.
Quando o álbum será lançado?
Lemos: Até o meio do ano. Não temos muita pressa. A crueza permeia o disco de alguma forma. Tem algumas referências no trabalho de imperfeição, que às vezes são legais. Acontecem coisas do tipo, “pô, gravei, mas não com a sensação de que estava valendo.” E fica bom. Isso tem a ver com a estética do disco, até pela rapidez que estamos fazendo. Não vai ser uma coisa tão “em busca do take perfeito”.
John, qual sua relação com Curitiba? Você tem contato com outras bandas daqui?
John: Não tenho tanto contato. Há bastante tempo, gravamos umas coisas aqui com... uma banda... teve o Charme Chulo também, eles tocaram em alguns shows do Pato Fu. Mas produzi uma banda... ela tinha um nome estranho, isso era no fim dos 90. Não tomei droga nenhuma, mas não lembro... rapaz... tá um efeito Doppler na minha cabeça, “uooooon”, não vou lembrar...
O que a cidade tem de particular?
John: Da outra vez que vim produzir a Poléxia, fizemos um pocket show e um bate papo. E Falamos disso. Das bandas de Curitiba, “quando que vão acontecer, estourar”. Aí eu falei, “mas não teve o Bonde do Rolê?” E os caras, “nãããããão, bonde do role não.” Mas como não? Quando as pessoas não se identificam com aquele som, por algum motivo, vira uma briga entre guetos. Isso é o que rola. Em Minas teve uma onda de bandas pops que fizeram sucesso nos anos 90. Pato Fu, Skank e Jota Quest, e aí o povo do rock indie de BH fez cara feia.
Eu não conheço tantas coisas daqui. Mas é igual a todas as grandes cidades. As reclamações são as mesmas. “Não tem lugar pra tocar, a cena de tal gênero é excluída, tem uma panelinha de não sei quem, as bandas não se ajudam.” Eu ouço isso desde os anos 80. Sou velho, e já era essa mesma merda.

Por que o Pato Fu deu certo?
John: é inexplicável. Quer dizer, tem explicações que você consegue a posteriori. Eu comecei a tocar com 16 anos, isso era 1982. Tive 800 bandas lá em BH. Uma delas durou quase dez anos, que era o Sexo Explícito, e um dos caras dessa banda é meu parceiro até hoje. Eu mudei pra São Paulo, fomos contratados da BMG, Eldorado. Aí eu saí da banda em 1991 e ela acabou um ano depois. Os shows eram legais, as pessoas falavam que achavam massa, tinha uma turma de amigos que gostava. Com as outras bandas que tive era mais ou menos isso também, e aí achava que com música era assim: as pessoas achavam legal e beleza. No começo do Pato Fu, quando mandava demos ou fazíamos shows, as pessoas que ouviam ficavam com um sorriso desse tamanho – John coloca as duas mãos na cara e estica a boca – e eu falei: “putz, acho que fiz alguma coisa. Acho que acertei.” Hoje escuto o som que a gente fazia na época e penso, “pô, que coisa mais improvável.” É um projeto muito improvável que deu certo. Não se explicar. A gente fez alguma coisa que as pessoas queriam ouvir na época. Demos a sorte de aparecer fazendo essa coisa que chamou atenção bem na época que o rock brasileiro estava em transição, na época em que surgiu o Chico Science, Raimundos. As gravadoras estavam começando a por dinheiro nesse tipo de banda. A gente tava fazendo isso bem nessa hora. O Sexo Explícito começou no inicio do boom do rock dos anos 80. A banda, no começo, era muito amadora, muito fraca musicalmente. Quando o Sexo Explícito ficou bom, as bandas de rock estavam se despedindo. E a lambada chegando, lambando tudo. As bandas que sobraram dos anos 80, Paralamas, Titãs e Engenheiros do Hawaii, são as que estavam no mainstream. Nesse sentido a gente deu azar. Mas o Pato Fu fez algo, talvez, óbvio: um som que as pessoas estavam afim de ouvir na época.
Bom-humor, experimentalismo e a Fernanda Takai contribuíram...
John: Mas isso pode dar errado. Parece uma fórmula de anonimato até. Se você tem uma banda, provavelmente ela não vai fazer sucesso. Porque há zilhões de bandas. As estatísticas dizem que ela não vai dar certo. E algumas têm humor, tem uma menina bonita, sei lá. Nessa época eu tinha desistido de tentar fazer uma banda e batalhar, batalhar, ir pra São Paulo, morar lá. Arrumei um emprego, meu primeiro emprego na vida. Eu era sócio de uma loja de instrumentos musicais. Tinha a ideia de que, se não ganhasse dinheiro com música, iria ganhar dos músicos (risos). E aí falei “quero ter uma banda divertida pra cacete.” A Sexo Explicito não era tão legal assim. Fazíamos um som que a gente gostava, mas brigávamos com o público. Quando surgiu o Pato Fu, a primeira coisa que pensei foi: “quero que seja uma banda divertida pra cacete. Se fizermos dois shows e eles não forem divertidos, tá errado.” E aí rolou. Era pra funcionar só no fim de semana, mas a reação das pessoas era muito diferente de qualquer outra que já tínhamos visto antes.
E o Patu Fu, novidades?
John: estamos chegando aos 20 anos, né. A gente fez o Música de Brinquedo -- leia entrevista e resenha aqui. Teve show ao vivo, foi incrível. Parecia uma viagem de ácido “mucho louca” em um universo infantil, com aspirina e bala de goma. No lugar das crianças colocamos uns monstros. As crianças não podem entrar em turnê, né. Isso era um dos principais problemas. Tinha o problema técnico dos brinquedinhos no palco também, porque em estúdio eles são controláveis, mas no palco é uma desgraça muito maior. Pensamos: vamos fazer um ou dois shows, em BH, e tivemos ideias de colocar os monstros do Gira Mundo, um grupo de teatro legal. Eles cantaram com voz de monstro. Virou uma espécie de Muppet Show. Para os 20 anos, vamos fazer alguma coisa, não quero deixar passar batido. Enquanto isso, há as coisas paralelas. A Fernanda acabou de gravar um disco com o Andy Summers, do The Police. Ele fez um monte de músicas inéditas e ela foi gravar em Los Angeles. Está praticamente pronto. Queremos fazer um disco de inéditas do Pato Fu pro fim do ano, ou início do ano que vem. Talvez agora com instrumentos gigantes. A gente vai em Itu e compra instrumentos. Pode ser (risos).
O que a Lemoskine pretende levar da BMBC? Qual seria a diferença se estivessem gravando o disco agora sem terem passado por tudo que a banda mais bonita acabou gerando?
Lemos: Nenhuma. Do ponto de vista musical talvez nenhuma. Do ponto de vista de posicionamento de mercado, não sei. A forma como a banda foi revelada, como teve essa imposição sem querer, talvez faça você refletir sobre como lançar um produto, um disco. Esse álbum especificamente tem algo mais forte: eu precisava fazer isso. Ao mesmo tempo sei que é uma música diferente da musica que a Banda Mais Bonita faz. Talvez o público não tenha o mesmo perfil. É um projeto que tem uma exposição muito menor que a Banda Mais Bonita teve ou ainda tem, mas de qualquer maneira tem a mesma entrega. Ela é a mesma quando você só faz isso na vida (risos).
John: Achei massa o clipe de "Oração". Os músicos querem ter um disco ou um clipe estourado no YouTube? Não sei. É difícil você aplicar essa fórmula, não tem controle. É muito imponderável. Não existem mais os patrões na música, que são as gravadoras. O que é difícil hoje em dia é você sair do amadorismo. A internet é muito legal, muito divertida. Hoje é muito mais divertido do que nos anos 80. Nos anos 80 a gente fazia uma demo, uma fita cassete. Fazíamos 50 cópias, mandávamos pelo correio e recebíamos um silêncio sepulcral. Hoje em dia é muito mais legal. Você faz um som, um vídeo. Começa com 100 views, chega a 150 mil...
E já grava com qualidade
John: Isso nem se compara. O som que fiz com o Sexo Explícito nos anos 80 com produtor, em estúdio, é muito inferior do que a gente faz em casa hoje. Mas é o espírito da época. É muito mais divertido você ter banda hoje em dia. Você tem fãs, de uma certa maneira. E pode acontecer um fenômeno, como a BMBC -- mas estatisticamente não vai acontecer. A probabilidade de você fazer sucesso com a sua banda é muito pequena. Mas tem outra coisa: hoje é mais difícil as pessoas se profissionalizarem. É difícil largar o emprego. E, putz, não sou um velho arraigado nas velhas gravadoras, mas a diferença é que quando você tinha uma instituição que era seu patrão, você assinava um lance, e começava uma carreira musical. Você podia se ferrar, porque gravadora é um puta vespeiro. Mas você podia se dar bem.
Lemos: É como funcionam as empresas.
John. Exato. Tem gente que trabalha honestamente numa empresa cujo patrão é um mala. Mas ninguém fica falando: “briga com o seu patrão, não faz o que ele tá te mandando não.” Quando você entrava em uma gravadora, você largava o emprego. Os patrões hoje talvez sejam as leis de incentivo. Mas o sujeito tem que fazer isso pra cacete pra poder dar certo. Veja a BMBC. Em épocas passadas, provavelmente haveria um leilão para ver que gravadora iria bancar. E tenho certeza que eles receberam algumas ofertas, mas elas são risíveis. Eles não têm nada para oferecer. Porque não se vende mais disco. Então hoje você tem que ser muito mais criativo, e não só musicalmente. Empresarialmente.
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