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Terça-feira, 09/02/2010

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Populares

Quem faz o blog
Enviado por Marcos Xavier Vicente, 07/02/2010 às 15:17

Texto originalmente publicado na edição de sábado (06/02) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


Felipe de Lima

Felipe de Lima /
A lembrança veio em um domingo quente, termômetro na marca dos 30 e poucos graus, sensação térmica por volta dos 40. Um calor senegalês e ele largadão no sofá, olhando para as falhas da pintura no teto da sala. Foi ao se levantar para buscar o ventilador na despensa que ela veio à memória. Lembrou-se de que o eletrodoméstico já não estava mais no apartamento. Na partilha dos bens, o ventilador ficou com ela.

Do pouco que construíram juntos, constava a máquina de fazer vento, que agora a refrescava em um novo lar. A ele, restou o aquecedor elétrico. Divisão até certo ponto justa, levando-se em conta que ela sempre se disse mais calorenta do que ele.

O porém é que a primeira estação a chegar logo após a separação foi justamente o verão. E mesmo para ele, que não era muito dado a reclamar da estação mais quente do ano, a coisa estava difícil.

Domingo de tarde, um calor tremendo e ele sozinho no apartamento. Ninguém para conversar, para dar uma volta, beber um chopinho, tomar um sorvete ou assistir televisão. Com­­pletamente desesperado, ligou para ela:

– Alô.

– Oi, tudo bem?

– Nossa! Você?

– Pois é... Tudo bem?

– Tudo.

– Que bom. Desculpa ligar assim, meio fora de hora, sem avisar, mas queria conversar com você.

– Sobre o quê?

– Bom, não sei bem por onde começar...

– Tente começar pelo começo – ela, seca.

– Ok, ok. Sabe, tenho pensado em você, lembrado de umas coisas...

– É mesmo?

– Sim. Pensado muito, a toda hora. Principalmente nesses últimos dias.

– Nossa! A toda hora!

– Pois é, uma sensação estranha. Tem uma coisa me incomodando e que tenho que resolver com você.

– E o que é?

– Não sei se você tem essa sensação, mas parece que a gente acabou nossa relação rápido demais, sem conversar direito, sem uma postura mais adulta, discutindo nossas diferenças.

– Depois de dois meses separados você me liga numa tarde de domingo pra discutir isso?! Você não tem mais o que fazer não?!

– Tá, tá, sei que você tá cha­teada comigo. Aliás, você tem motivo mesmo pra isso. Mas, sei lá, hoje me deu uma vontade tão grande de te ligar e tentar resolver essa coisa que vem me dando essa angústia...

– Sei...

– É sério! Tô falando sério!

– Você nunca fala sério...

– Por favor me escuta. Só peço isso, me escuta.

– Certo, vamos lá.

– Eu sei que pisei na bola com você, que não fui muito legal e que realmente fiz bobagem. Mas, olha, eu tô desesperado. Tem uma coisa mal-resolvida entre nós e que se eu não conseguir tirar essa dúvida agora não vou conseguir dormir.

– Você tá falando sério mesmo? – ela já se enchendo de esperanças.

– Nunca falei tão sério na minha vida!

– Então diz o que está mal-resolvido entre a gente – o coração dela pulsando forte.

– É essa questão do ventilador ter ficado com você. Quem foi que disse que você é mais calorenta do que eu?

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 01/02/2010 às 16:37

Texo publicado originalmente na edição de sábado (30/01) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


Felipe de Lima

Felipe de Lima /
Depois de tantas reclamações que ouviu dos veranistas, o Sol resolveu chamar São Pedro pra um particular. Papo reto, cara a cara, de astro-rei pra santo. Era preciso aparar as arestas. Porque aquele clima – tanto o meteorológico quanto o de relacionamento entre os dois – não podia continuar do jeito que estava.

Onde já se viu, São Pedro querer mostrar trabalho bem no verão, mandar aquela água toda justamente na praia, eterno quintal do Sol? Era muito abuso.

Tudo bem que o vizinho de céu tem lá sua intimidade com o Homem. Mas mesmo pra uma entidade beatificada existem lá seus limites, inclusive os de ordem pluviométrica. Afinal, como o Sol poderia cumprir todas as suas metas de verão com aquela chuvarada? São milhões e milhões de corpos a serem bronzeados, um número sem fim de crianças a entreter, uma programação extensa de passeios, eventos familiares, shows musicais... Não dá pra deixar essa gente toda na mão.

– São Pedro, com todo o respeito que tenho pelo senhor, preciso da sua colaboração. O senhor precisa dar um tempo nessa chuva na praia.

– Desculpa, Sol, mas ando com muita água acumulada nas nuvens. Tenho que dar vazão ao estoque.

– Mas não dá pra ser em outra época do ano? E de preferência em outro lugar que não seja a praia? Poxa, as pessoas esperam o ano todo pelas férias no Litoral, aí o senhor me manda toda essa água...

– Entendo o seu lado. Mas este está sendo realmente um ano bastante atípico, meu caro. Veja pela minha planilha (São Pedro vira o notebook para o Sol com a tela mostrando um gráfico quase todo preenchido de bolinhas azuis, indicando as áreas com excesso de nuvens carregadas). Como disse, a produção nesta temporada foi muito grande. Estou sendo cobrado o tempo todo para girar o estoque, meu caro.

– Mas não dá pra enviar essa cota extra pra outros lugares? Sei lá, talvez o sertão, onde o povo realmente precisa dessa água.

– Aí o problema é de ordem logística. Como as nuvens estão muito carregadas, não tenho como percorrer toda essa distância. O risco de elas se romperem no trajeto é muito grande. Aliás, foi o que aconteceu esses dias. Comecei a manobra pra tirá-las do Litoral e no meio do caminho elas estouraram exatamente em São Paulo. Aquele caos... Cheguei a levar advertência do meu Superior...

– Então o que podemos fazer?

– Se você me permite uma sugestão...

– Diga.

– Por que você não aumenta sua intensidade? Isso ajudaria a evaporar mais rápido o meu estoque de água.

– Não posso. Meu sistema é uniforme. Se aumento a intensidade, a temperatura sobe pra todo mundo. E aí não haveria inverno no hemisfério norte. Iria desregular todo o sistema, que já anda me dando um trabalho danado com esse negócio de aquecimento global.

– Entendo.

– O senhor não tem nenhuma outra ideia?

– Ter, eu tenho...

– O quê?

– A maior parte dos vendedores de guarda-chuvas é de devotos meus. Se quiser, no momento da oração, faço uma aparição e peço a eles pra darem um desconto pra esse povo.

– De quanto?

– Ah, um bom desconto. Afinal, eles também querem se livrar do estoque.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 24/01/2010 às 14:10

Texto originalmente publicado na edição de sábado (23/01) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.



Felipe de Lima

Felipe de Lima /
Casal de namorados na loja, um dia antes de viajar para a praia:

- O que você achou desse?

- Lindo! Esse está ótimo!

- Você falou a mesma coisa dos outros...

- Não, sério, esse é o biquíni mais bonito que você provou até agora. Foi o que te caiu melhor. Pode comprar esse que não tem erro. Certeza!

- Mas você acabou de falar que o outro que eu vesti é que era o mais bonito.

- Até então era. Mas aí te vi vestida nesse e percebi que aquele era o segundo mais bonito. Esse é o mais lindão. Pode pedir pra moça embrulhar. O mais bonito! Sem sombra de dúvida!

- Ai, calma! Não posso decidir assim na correria. E para de me confundir. Fala sério: qual desses biquínis eu levo pra praia? Veja bem todos eles antes de dizer qual você acha o mais bonito. E se tiver dúvida, eu posso vestir de volta pra você não errar.

- Vestir todos de volta?! Você está maluca?! Olha a montanha de biquíni que tem em cima dessa bancada. Se for provar todos esses biquínis de volta a gente vai passar a noite aqui. Vamos ficar tão cansados que nem vamos conseguir acordar cedo pra viajar amanhã.

- Mas deixa de ser exagerado. Nem provei todos, não. Só provei alguns. Só os que eu mais gostei.

- Você só gostou dessa montanhazinha aqui...

- Não gostei, não!

- Tem razão. Na verdade você não gostou de nenhum. Por isso vai pedir para provar outros...

- Ai, que chato!

- Se você provou só os que achou bonito, leva um logo desses. Se quiser, até te ajudo. A gente pega um punhado, joga pra cima e faz aleluia. O que você pegar no ar, a gente leva. E pronto, acaba tua dúvida.

- Mas eu quero que você escolha o que fica melhor em mim. Deixa de ser rabugento. Já vamos embora. Só mais um minutinho!

- A gente já está aqui há quase duas horas vendo esses biquínis...

- Não é um simples biquíni. É o biquíni que vou passar as férias na praia.

- Você tem tanto biquíni em casa, nem precisa comprar outro.

- Eles estão velhos.

- Velhos? Têm uns lá que você nunca usou.

- Não usei porque depois eu vi que eles não eram tão bonitos como eu imaginava. Às vezes a gente se engana, ué.

- Sei...

- Vai, me ajuda!

- Já falei, o último ficou bem bacana, caiu bem legal. É o último, sério.

- Você só diz isso porque quer ir embora logo.

- Leva qualquer um, vai. Qualquer um vai te ficar bem...

- Poxa, como você é insensível! Eu aqui, toda preocupada em ficar linda pra você na praia, querendo te agradar, deixar você todo orgulhoso de mim e olha como você me trata.

- Ficar linda pra mim?

- Claro! É óbvio! Pra quem mais seria?! Eu só estou aqui por causa de você. Senão, como você mesmo disse, iria com qualquer um dos biquínis que já tenho. Quero te agradar, mas pelo visto, você não está nem aí. Posso ir de qualquer jeito mesmo que não faz diferença...

- ...

- Que foi?

- Nada não...

- Como nada? Eu te conheço...

- É que pensando bem, talvez seja melhor mesmo a gente dar mais uma olhadinha...

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 17/01/2010 às 20:05

Texto originalmente publicado no caderno Verão da edição impressa da Gazeta do Povo de sábado (16/01).


Benett

Benett /
Difícil ser humano com maior sensação de liberdade do que o marido que fica em casa enquanto a família passa férias na praia. Por mais que esse período seja curto, por mais que esses dias sejam contados, esse cara sabe que deve aproveitar cada milionésimo de segundo desse tempo livre. Afinal, liberdade é produto perecível na prateleira de um pai de família: se não consumir de uma vez, azeda.

A vida caminhava exatamente neste ritmo naquela semana. Esposa e filha pequena na praia, sossego e liberdade em casa. Sentia-se tão bem que nem o fato de ficar trabalhando na cidade, suando Cataratas do Iguaçu de tanto calor, o tirava do sério. Não fosse justamente o expediente no escritório, de que forma desfrutaria de toda aquela independência? Que viessem o terno e a gravata, porque a brisa da liberdade soprava a seu favor!

Já no primeiro dia daquela semana ele provou desse tempero. Foi ao futebol da segunda-feira – uma das poucas heranças que conseguira guardar dos tempos de solteiro – sem se preocupar com horário de voltar para casa. Após a pelada, ainda se arriscou em algumas partidinhas de truco, jogou uma boa conversa fora com a rapaziada e foi-se embora – sabe-se lá a que horas...

Chegasse às 9 da noite ou às 9 da manhã, não faria diferença. Ninguém o esperaria acordado para perguntar se aquilo eram horas ou se poderia preparar a mamadeira da criança que não conseguia dormir.

Melhor, muito melhor: não acordaria com a maldita dor nas costas que sempre o acompanha no dia seguinte a cada discussão com a patroa, quando é obrigado a dormir no sofá.

Nos outros dias, mais diversão. Na terça, chopinho com os colegas da firma. Na quarta, mãozinha de pôquer na casa do vizinho – que por sinal também estava com a família na praia. Na quinta, churrasco na casa do melhor amigo. Na sexta, bate-papo no balcão do boteco. No sábado... Bom, no sábado ele voltava à realidade. Depois do expediente no escritório no período da manhã, era hora de descer a serra pra rever mulher e filha.

Com o carro já na estrada, ainda lhe restava um último lampejo de liberdade. No aparelho de som, nada de músicas infantis. Só canções da preferência dele.

Mas ao buscar o estojo de CDs para trocar de música, reparou que a filha havia esquecido no carro o brinquedo de que mais gostava, presente da própria esposa no primeiro aniversário da criança.

Só então se deu conta de que os últimos dias foram pura ilusão. E de que na realidade nunca mais teria liberdade: estava definitivamente preso e amarrado pelos laços de carinho e afeto às duas mulheres de sua vida.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 10/01/2010 às 19:26

Texto originalmente publicado na edição impressa do caderno Verão da Gazeta do Povo do último sábado (09/12).


Benett

Benett /
- Amigo, um chopinho, por favor...

Em questão de minutos, era a sétima ou oitava vez que ele clamava pela atenção de alguma boa alma do outro lado do balcão. Balada lotada é assim: sempre um inferno pra se conseguir uma bebida. Um batalhão de gente sedenta em volta do bar, suplicando por uma cerveja gelada, uma caipirinha, um uísque com energético , uma vodca...

- Amigo, ô, amigo... Aqui, aqui, aqui... Tira um chopinho lá, vai, por favor... - outra tentativa frustrada.

Já ia desistindo, quando olhou para o lado e viu uma moça bonita, morena alta, cabelos lisos, olhos grandes, daquelas que todo cara dá atenção.

Estava ali a solução do problema!

Como se vestisse a nove no costado, partiu feito um centroavante rompedor em direção ao ataque. Daquele belo rostinho poderia sair não apenas o chope para matar a sede mas, por que não, o também chamado algo a mais.

- Oi, moça. Tudo bem?

- Tudo...

- Preciso de uma ajuda sua, por favor...

- Diga.

- Olha, eu estou aqui há não sei quanto tempo tentando pegar um chope, um simples chopinho. Só que nenhum daqueles caras ali do bar me dá a menor bola. Sei lá, parece que não me escutam... Então, pensei, “puxa, bem que aquela moça poderia me ajudar...”

- Como?

- Sabe como é, você é bem bonita. E esses caras ali, bom, esses caras sempre atendem às mulheres bonitas primeiro. Moças como você não precisam se humilhar, ficar implorando por uma bebida à beira no balcão. Daí, me veio a ideia: “Ela bem que podia me dar uma forcinha e pedir um chope pra mim...” Topa?

A moça riu do pedido – essa cantada nunca havia levado. Mas achou engraçada a história e aceitou ajudar.

- Tá bom, peço, sim. Deixa comigo!

Foi ela se virar em direção ao bar com a ficha de consumação dele na mão para que o barman viesse atendê-la no mesmo instante. Hipnose? Feitiço? Magia negra? Não. Nada além de um belo e eficiente sorriso utilizado com um propósito muito bem definido.

- Pois não, querida, diga! - veio com uma cara toda amável e fraternal de anjinho barroco o mesmo barman truculento que pouco antes havia dito a ele que outras pessoas estavam na frente pra serem atendidas.

- Um chope, por favor.

- É pra já, meu amor! - o barman foi logo enchendo o copo - Está aí. Algo mais?

- Não, só isso. Obrigada!

Ela entregou o chope ao rapaz, que não perdeu a oportunidade de engrenar o bate-papo:

- Você salvou minha vida! Não falei que pra mulher bonita a coisa é mais fácil...

Ele seguiu elogiando a menina, dizendo como ela era bonita e simpática. Ela achando tudo o que ele dizia engraçado, rindo de todos aqueles galanteios.

E quando ele finalmente se sentiu confiante para se arriscar em um lance mais ousado no gramado do jogo da sedução, chegou um sujeito muito do intrometido que a abraçou por trás e a beijou.

- Esse é meu namorado. Agora se você me dá licença, tenho que ir. Boa sorte aí no bar.

Diante disso, não restou outra opção a ele senão voltar ao balcão do bar e novamente suplicar ao barman:

- Amigo, um chopinho, por favor...

03/01/2010 às 16:34

Texto originalmente publicado na edição impressa do caderno Verão da Gazeta do Povo no sábado (02/01).


 /
- Pai, deixa eu levar o videogame? – pediu o menino em uma última súplica, desesperada, manhosa, recorrendo àquela cara de choro manjada. Era o último trunfo para tentar persuadir o velho a mudar de ideia minutos antes de a família viajar pra praia.

Ao ouvir a voz derretida, o pai deixou por um momento o desafio às leis da física de tentar encontrar espaço no carro para todas as malas da esposa e se agachou para conversar mais uma vez sobre aquilo com o menino.

– Filho, a gente já conversou... Papai já te explicou. Você não vai precisar de videogame lá na praia. Vai ter tanta coisa legal pra gente fazer. Futebol na areia, frescobol, caçar tatuí... Você gosta tanto de caçar tatuí. Não gosta?

– Gosto, mas quero jogar videogame também. E lá não tem. Quero o meu!

– Filho, teus amiguinhos de praia vão estar lá. E faz tanto tempo que você não fala com eles. Um ano! Ou vai me dizer que você não gosta mais de jogar betes, brincar de esconde-esconde...

– Ah, pai, deixa eu levar. Por favor! – olhou para o pai com um bico deste tamanho.

– Não, filho, você não vai levar. A gente já conversou, papai já te explicou direitinho porque você não vai levar. Você pode jogar videogame todos os dias aqui em casa. Lá na praia a gente vai fazer coisas diferentes. Não precisa de videogame. Deixa aqui.

– Mas e se um ladrão entrar na nossa casa e roubar o videogame? Depois nunca mais vou ter outro.

– Deixa de ser exagerado. Ninguém vai entrar na nossa casa. E pra garantir, nós dois vamos guardar o videogame em um lugar bem seguro, onde o ladrão não vai achar de jeito nenhum.

– E se ele achar?

– Se ele achar o papai compra outro.

– Compra outro?

– Compro.

– Um melhor ainda?

– Um melhor ainda! – prometeu ao guri, lembrando a si mesmo que ainda estava pagando prestações bem salgadas do aparelho.

– Mesmo?

– Mesmo! Fechado?

– Fechado!

– Toca aqui, campeão! – a mãozinha pequena bateu com força na palma do pai. Correram os dois para ver o melhor lugar onde esconder o aparelho. Botaram numa caixa de papelão e esconderam atrás da geladeira.

– Que ladrão vai adivinhar que tem um videogame aqui atrás da geladeira, hein? – disse dando uma piscadela para o menino.

Uma semana depois um ladrão aproveitou a falta de movimentação, entrou pelo muro e arrombou a janela dos fundos. Macaco-velho no ofício da mão grande, revirou os lugares mais inóspitos, onde as pessoas acreditam estar seguros seus pertences. Ao entrar na cozinha, puxou a geladeira de lado e deu de cara com a caixa de papelão. Abriu e encontrou o videogame.

– Mais fácil que encontrar tatuí na praia! – exclamou o gatuno, antes de partir com a caixa debaixo do braço.

Na volta, restou ao pai assumir mais prestações de um videogame novo – e mais moderno. Com a diferença de que nas próximas férias eles levariam o aparelho para a praia. E ele mesmo jogaria com o guri. Porque esse negócio de caçar tatuí na areia perdeu a graça. Esse bicho anda muito fácil de ser encontrado.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 26/12/2009 às 17:34

Texto originalmente publicado no Caderno Verão deste sábado, 26/12/2009.


 /
É um pouco mais de uma e meia da tarde. Acabei de acordar. Uma dor de cabeça... Nem sei como estou de pé. E também não me lembro a que horas cheguei em casa. Quando a gente está de divertindo nem vê o tempo correr. Parece que a noite passa em um segundo. Só me lembro que ao chegar em casa ela me ajudou a tirar a roupa antes de eu cair na cama. Estava tão cansado que nem isso eu conseguia fazer sozinho. Pobre coitada...

Por outro lado, que noite, meu amigo, que noite! Há tempos não tinha uma noitada dessas! Muito tempo. Fui de um lugar a outro conversando com as pessoas, abraçando todo mundo, dando atenção a cada um que passava por mim. Que noite! E nem me dei conta de que já era madrugada e ainda estava na rua.

Uahhhhhhhh, que sono... Melhor eu passar uma água no rosto. Pronto, acho que agora estou um pouco mais recomposto. Se ela me vê bocejando desse jeito, hum, aí sim que o caldo entorna. Seria o pretexto ideal pra me jogar na cara tudo o que está engasgado. Re­­clamar que não dou atenção a ela, que sempre apareço entediado quando estou do lado dela... Essas coisas que toda mulher reclama. Mas acho que dessas reclamaçõezinhas triviais eu até escapo hoje. Basta não bocejar na frente dela nem reclamar do sono. Duro vai ser fugir da bronca do horário. Dessa vai ser difícil...

Também, pudera!

Extrapolei todos os limites. Nesses anos de casados até cheguei tarde algumas vezes em casa. Meia horinha, uma hora, uma hora e meia de atraso no máximo! Mas ontem, ah, ontem eu perdi completamente a noção.

O que me deixa mais chateado é saber que ela passou a madrugada preocupada, esperando eu chegar, imaginando que talvez tivesse ocorrido algo. Como pude ser tão irresponsável?! Estou me sentindo o último dos homens, o sujeito mais vil, mais baixo do universo. Um tremendo sacana...

Nem ao menos liguei pra dizer onde estava e que chegaria tarde. Isso não me livraria da bronca, é claro, mas pelo menos aliviaria a preocupação dela. Mas não... Nem pra passar a mão no celular... Como fui burro! Se tivesse feito isso talvez hoje não houvesse nenhuma desconfiança, nenhuma cara feia, nada. Se arrependimento matasse...

Agora só me resta tomar coragem e encarar a fera. E o negócio é ficar quieto, bem mansinho. Deixar ela falar, soltar tudo em cima de mim. Nada de revidar, de mostrar que tem razão, de responder. Isso só vai piorar as coisas. Sei que não vai ser fácil. Mas do contrário. a coisa vai ficar feia.

Bastava uma ligação, uma ligaçãozinha só! Que vacilo, que vacilo!

Ele abre a porta da cozinha, onde a mulher o espera com o almoço já frio à mesa.

– Bonito, né, seu Noel?! Muito bonito...!

– Perdão, querida! Da próxima vez que a entrega dos presentes de Natal atrasar eu juro que ligo pra avisar. Eu juro! – disse a ela o bom velhinho.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 19/12/2009 às 15:40

Rapaziada, esse texto foi publicado originalmente na versão impressa do Caderno Verão da Gazeta do Povo de hoje (19/12). É o primeiro da série Crônicas de Verão, que serão publicadas todos os sábados até o fim da temporada. Acompanhe!

Abraços!
Marcos


Benett

Benett /
Hoje me peguei olhando a foto do Arturzinho na cabeceira da cama dele. Entrei no quarto pra recolher as roupas sujas que ele sempre deixa jogadas pelo chão e me deparei com aquela imagem tão singela: meu filho ainda criança, quase bebê, brincando na areia da praia. Confesso que me emocionei.

Como eram bons aqueles verões. Eu ainda jovem, recém-casada, vendo o Arturzinho crescer. Lembro que ele adorava fazer castelinhos na areia, cavar buracos imensos só pra ficar naquela poça de água que se formava. Dizia que ali era a piscina dele. Só dele. E ai de quem entrasse no seu reduto.

Mas o que o Arturzinho gostava mesmo de fazer na praia era correr na areia. E não podia ser qualquer areia, não. Tinha de ser fofa, bem fofa, pra formar pegada a cada pisada. E lá ia o Arturzinho fazer caminhos imaginários pela praia, uma hora em linha reta, outra hora em círculo, outra hora em zigue-zague.

No começo ele dizia que as pegadas serviam para encontrar o tesouro que ele mesmo enterrava na areia – no caso, algum brinquedinho que ele já não gostava tanto. Antes de esconder o “tesouro”, Arturzinho fixava algum ponto de referência na praia (um banco ou uma árvore), e contava a quantos passos dali iria enterrar o brinquedo.

Um ou dois dias se passavam e lá ia ele, a partir do ponto de referência, contar os passinhos de volta pra encontrar o que havia escondido. “Vinte e cinco passos da árvore, mãe, não falei pra você?”, vinha me contar todo alegre o meu pequeno pirata. Aliás, o Arturzinho também adorava pular carnaval na praia vestido de pirata.

Depois ele começou a marcar a areia com pegadas bem profundas a cada caminhada que fazíamos na praia. A cada passo parecia que ele tinha um peso de chumbo nos pés. O argumento era de que dessa forma, com aquele rastro pela areia, nós não nos perderíamos na volta pra casa. Coincidência ou não, nunca tivemos problemas no retorno.

Que coisa fofa era o pezinho do Artur. Um pezinho pequenininho, gordinho, cinco dedinhos bem delicados, como na marquinha com tinta guache na folha de papel sulfite que ele me entregou de presente em um Dia das Mães, trabalho de educação artística na pré-escola. Ficava aquela pegada certinha no papel e na areia.

Relembrando tudo isso, vendo esses pares de tênis do Arturzinho espalhados aqui pelo quarto, eu fico me perguntando: como foi que aqueles pezinhos tão bonitinhos que corriam pela areia se transformaram nesses pés gigantes, tamanho 45? A quem diabos esse menino puxou pra ter um pé deste tamanho?!

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 17/12/2009 às 13:35


 /
- Papai Noel, você chegou!

- Oi, Carlinhos!

- Trouxe meu presente?

- Claro que trouxe, meu filho. Em algum Natal deixei você sem presente? Trouxe sim, fica calmo. Só que antes a gente precisa conversar. Senta aqui do meu lado, senta.

- Papai Noel, quero dizer pro senhor que fui um bom garoto o ano todo e que...

- Eu sei, eu sei, Carlinhos. Você sempre foi um bom menino, sempre se comportou direitinho. Por isso que em todo Natal sempre ganhou o que me pediu. Eu sei muito bem disso. Mas não é sobre isso que eu quero falar com você, não.

- Não?

- Não!

- Sobre o que é então?

- Bom, é que...

- Fala, Papai Noel, fala. Se o senhor sem querer entregou o meu presente pra outro garoto, não tem problema. Não fico brabo, não. O senhor pode ir lá destrocar sem pressa. Fico aqui esperando.

- Não, também não é isso... Teu presente está certo. É aquilo mesmo que você pediu na cartinha.

- Um videogame novo?

- Sim, sim, teu videogame novo...

- De última geração?

- Ultíssima geração...

- Oba! E cadê ele, Papai Noel?

- Deixei no trenó, já vamos lá pegar. Porque antes, como já te disse, vamos ter uma conversa muito séria, meu filho.

- Mas eu já falei pro senhor que eu me comportei o ano todo. Pode perguntar pra minha mãe...

- Mas que guri teimoso! Já falei que não é sobre isso que eu quero falar com você.

- Tudo bem, Papai Noel, tudo bem, eu roubei do meu avô no jogo de damas... Desculpa... Mas foi só isso que eu fiz de ruim esse ano. Só isso! E foi uma vez só. Ele estava dormindo, fiquei com raiva que ele não prestava atenção no jogo e tirei uma dama dele do tabuleiro. Foi uma só! Eu juro!

- Não, Carlinhos, não é nada disso. Isso de dar uma roubadinha no jogo de damas eu também faço de vez em quando lá na praça central da Lapônia quando jogo com a turma dos aposentados. Não é nada disso. O que eu quero dizer é que...

- O senhor não vai mais trazer presente pra mim? É isso o que o senhor quer dizer?

-...

- É isso?

- ...É, Carlinhos, é isso sim... Desculpa...

- Por quê? Eu tenho me comportado tão bem... Não falo palavrão, não respondo minha mãe e nem meu pai, não brigo com meus amigos... Por que o senhor está brabo comigo?

- Eu sei, Carlinhos, eu sei disso tudo... E não estou brabo com você, não, meu filho. Você sempre foi um menino exemplar!

- Então por que o senhor não gosta mais de mim?

- Não falei nada disso. Em nenhum momento eu disse que deixei de gostar de você. Não bote palavras na minha boca, guri. Por favor!

- Então por quê, Papai Noel? Por que eu não vou mais ganhar presente de Natal do senhor?

- É que...

- Fala, Papai Noel!

- Tá bom, vou falar.

- Então fala!

- Carlinhos, com quase 30 anos na cara você já passou da idade de acreditar em Papai Noel. Larga esta merda de videogame e vai arranjar uma namorada, meu filho!


***
Crônicas de verão

Rapaziada gente boa, a partir deste sábado, dia 19, o Caderno Verão da Gazeta do Povo publicará crônicas assinadas pelo beque aqui até o fim da temporada, em fevereiro. Quem quiser acompanhar, será muito bem-vindo. Reforçando: todo sábado, na versão impressa da Gazeta.

Abraços
Marcos

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 03/12/2009 às 14:19


Hedeson Alves / Gazeta do Povo

Hedeson Alves / Gazeta do Povo / A rapaziada da Praça do Gaúcho não esperou pela burocracia e já está mandando ver novamente.A rapaziada da Praça do Gaúcho não esperou pela burocracia e já está mandando ver novamente.
Hoje de manhã fui resolver umas coisas ali pelas bandas do São Francisco e aproveitei pra dar uma passada na Praça do Gaúcho. Antes, li a matéria aqui no jornal, do Vinicius Boreki, mostrando que a rapaziada do skate não aguentou esperar. Decidiu por conta própria botar as rodinhas pra deslizar antes da inauguração oficial da pista recém-reformada. Gostei da atitude. Por que esperar a burocracia? Se está pronta, libera logo a pista pra moçada, oras.

Enquanto eu estava ali chegou um grupo de quatro adolescentes que, pelo tipo de cada um, ninguém imaginaria que fossem amigos. Tinha um ruivo alto, quietão, de bermuda e camiseta e cara de mau. Um gordinho de óculos, meio desajeitado, cabelo curto com gel e cara de CDF. E duas meninas baixinhas, com mochilas enormes, cabelos desgrenhados e de mãos dadas - depois confirmei minhas suspeitas referentes a elas. Tinham 13, 14 anos no máximo. Todos com um skate.

Sentaram-se os quatros na frente da pista e ficaram olhando outros caras nas suas manobras. Ninguém ali tinha a idade deles, eram todos mais velhos. Eu não entendo muito de skate, mas aqueles caras me pareciam bons naquilo, realmente ousados nas manobras. O que levou os quatro meninos a ficarem um pouco intimidados. Como se caso eles entrassem na pista estivessem invadindo o espaço daquelas feras.

Decidi ficar ali para ver qual deles seria o primeiro a pegar o skate e mandar ver. Dos quatro, apostaria no ruivo ou em uma das meninas. Não no gordinho.

No ruivo porque, como já disse, ele tinha cara de mau. Era o mais alto do grupo e chegou na praça à frente dos outros três, como que se abrisse caminho, como se estivesse defendendo os amigos. Parecia ser o líder da turma. Já nas meninas eu apostaria porque pra quem tem coragem de assumir sua opção sexual tão cedo, correr o risco de cair numa pista de concreto seria fichinha. No gordinho eu não apostaria porque ele era exatamente a antítese daquele clima de esporte radical - tanto que era o único que estava de calça e com a camiseta do colégio. Parecia ter sido vestido pela própria mãe.

Pois pra minha surpresa a iniciativa partiu do gordinho. O guri deu um toque com o pé na ponta do skate, pegou a prancheta na mão e foi decidido pra pista. Antes, olhou pros colegas sentados na calçada na esperança de que eles o acompanhassem. Como não viu nenhuma reação no semblante deles, partiu sozinho.

Quando entrou na pista, os caras mais velhos pareciam não ter curtido muito o fato de ele estar ali. Olharam com um pouco de desdém o gordinho desajeitado. O guri sentiu que não era bem-vindo. Mesmo assim não desistiu e começou a fazer suas manobras. Eram manobras limitadas, é bem verdade. Mas e daí? O importante é que ele estava lá.

Como não queria atrapalhar ninguém, humilde, ficou nos fundos da pista. Em nenhum momento ousou ir para o outro lado, onde o espaço era mais concorrido.

Fiquei com a sensação de que a qualquer momento os caras mais velhos tocariam o gordinho dali. Mas ele insistiu. Deu mais umas voltas e até trocou uma ideia com um loiro cabeludo, que parecia estar dando umas dicas pra ele.

Quando saiu da pista, o gordinho passou por mim e me olhou como se dissesse “eu tentei”. A sensação que tive é de que ele sabia que eu também fui gordinho na adolescência e que nunca aprendi a andar de skate. Se tivesse tentando, talvez hoje eu teria uma cicatriz no joelho pra contar história.

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