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Sábado, 13/03/2010

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Populares

Quem faz o blog
Enviado por Marcos Xavier Vicente, 02/03/2010 às 14:39

Dois caras chegam à lanchonete de madrugada. Depois de tanto beberem noite adentro, precisam de algo sólido no estômago. Passa o primeiro pela porta de vidro, depois o segundo. Olham as mesas no salão e escolhem uma nos fundos. Sentam-se e começam a passar o olho pelo cardápio.

- Vai comer o quê?

- O de sempre. Tô com uma fome...

- Olha aí, cara, agora tem petit gateau aqui.

- Que é isso?

- Ah, é um tipo de bolinho de chocolate quente, com um recheio bom pacas. Aí eles servem junto com uma bola de sorvete. É muito bom!

- Nunca comi...

- Se você quer impressionar uma mina, pede esse troço. Elas piram nesse tal de petit gateau. Esses dias saí com uma e quando eu pedi esse negócio você tinha que ver a cara dela. Ficou toda espantada. Fiz moral. Vai por mim, meu, pede esse troço quando sair com uma menina.

- Mas esse nome é meio afrescalhado.

- O nome é em francês. E tudo que é em francês é meio afrescalhado, né.

- Só...

- Vou pedir um pra mim. Vai encarar?

- Tá maluco! Vai pedir nada!

- Por que não?

- Pega mal dois marmanjos barbados pedindo um... um... como é mesmo o nome desse negócio?

- Petit gateau.

- Isso, petit gateau. Vai, pede o sanduba de sempre e vamos embora.

- Pior que agora me deu vontade de comer esse negócio. É muito bom!

- É mulher grávida agora pra ter desejo?

- Vai à merda... Só tô dizendo que quero comer o bolinho.

- Vai me fazer passar vergonha...

- Calma, vou dar um jeito nisso.

- Como?

- Deixa comigo. Fica frio.

- Olha lá o que você vai fazer...

- Confia em mim. Fica tranquilo. Ô chefe, chefe, por favor! – chamou o garçom.

- Pois não.

- Eu queria um.... um...

- Sim?

- Um... – olhou para o amigo, que já estava com aquela cara de “falei pra não pedir...”

- Sim?

Ele se ajeitou na cadeira, meio envergonhado, e falou com a voz grossa:

- Eu quero um petit gateau ... ... porra!

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 23/02/2010 às 17:33


 / A típica reação da molecada ao se deparar com um sorvetinhoA típica reação da molecada ao se deparar com um sorvetinho
Quando estou em casa, gosto de ver a movimentação de estudantes que passam pelo meu portão sempre que toca o sinal do fim de aula das duas escolas aqui perto. Vendo a molecada voltar pra casa, brincando, se divertindo, tirando sarro um do outro, lembro de quando eu, meu irmão e nossos amigos também voltávamos a pé ou de bicicleta pra casa depois da escola.

Ríamos sem parar, até chegar em casa, sentar à mesa e começar o almoço. Depois era assistir ao Globo Esporte, descansar mais um pouco, fazer a tarefa de casa e só então receber o alvará da minha mãe pra brincar na rua.

Pois ontem fui cortar o cabelo justamente no horário da saída da escola. E enquanto caminhava com o jornal debaixo do braço em direção ao salão do Zezinho – é, aquele mesmo -, uma enxurrada de crianças vinha em minha direção. Uns acompanhados dos pais, contando o que haviam aprendido naquele dia. Outros em turma, fazendo o que a criançada melhor sabe fazer: zoar um do outro. E uns sozinhos, chutando qualquer pedra que estivesse no chão ou tentando se equilibrar caminhando pelo meio-fio.

Cheguei ao barbeiro e havia outros três caras na minha frente. Como o calor era grande, decidi esperar do lado de fora. Busquei a sombra de uma árvore ao lado da sorveteria vizinha ao barbeiro, onde aguardei a minha vez. E quando eu ia abrindo o jornal, chegou uma mãe com os dois filhos à sorveteria – o mais velho com uns 8 anos, o menor, com no máximo 6, os dois com o uniforme da escola e mochilas nas costas. Ela explicava ao mais novo que ele não podia tomar sorvete porque estava com a garganta inflamada, por isso só compraria pro irmão dele. Como toda mãe, foi carinhosa em ressaltar que assim que ele se curasse tomaria um baita de um sorvete, do sabor que ele quisesse.

O pequeno não se importou muito com a momentânea impossibilidade. Tanto que foi logo dizendo ao sorveteiro “Moço, meu irmão quer um sorvete de morango!” E a mãe mais uma vez mostrou sua parcela de carinho. “Não, filho. Quem vai escolher o sabor do sorvete é o teu irmão. Ele é que vai tomar, não você. Escolhe, filho!”, virou-se ao mais velho, que, mantendo a tradição dos primogênitos, era muito mais envergonhado do que o caçula.

O guri mais velho pediu sorvete de chocolate. O sorveteiro pôs a bola na casquinha e entregou ao menino. E o mais novo ficou olhando com uma cara de quem também queria, mas não podia. Diante da feição tristonha do irmão, o mais velho não teve dúvida. No que a mãe foi pagar o sorveteiro, virou-se pro caçula e ofereceu uma lambida. O gurizinho foi com tanta vontade que abocanhou quase metade do sorvete.

Ainda com sorvete escorrendo pelos cantos da boca, o caçula levou uma bronca da mãe por desobedecê-la. E o mais velho não ficou imune: “Você sabia que teu irmão está com a garganta inflamada, que não pode chupar sorvete. Por que você ofereceu?”, ralhou a mãe.

Foram embora os dois de cabeça baixa, sinal de que assimilaram muito bem a bronca da mãe. Mas de cabeça baixa mesmo um olhou para o outro com aquele sorrisinho maroto que só a cumplicidade entre irmãos pode proporcionar.


Enviado por Marcos Xavier Vicente, 20/02/2010 às 19:20

Senhoras e senhores, com este texto - publicado originalmente no Caderno Verão deste sábado (20), na edição impressa da Gazeta do Povo - me despeço da série Crônicas de Verão. Retornaremos em breve à programação normal do Populares.

Abraços!
Marcos



Felipe Lima / Gazeta do Povo

Felipe Lima / Gazeta do Povo /
Duro não é a temporada de praia terminar. Duro é ter de voltar pra casa com toda aquela tralha que a família leva pro Litoral. Sim, porque classe média não viaja pra praia. Faz mudança!

É cadeira de praia, guarda-sol, ventilador... Depois vêm as roupas de cama, mesa e banho e as de uso pessoal – pelado é que ninguém volta para casa.

No tampão do porta-malas, um espacinho pros espetos de churrasco. Mas com muito cuidado! Melhor nem pensar se um dos filhos se furar no trajeto. Portanto, molecada, todo mundo com a cabeça pro lado. Quando chegar em casa, Gelol pra aliviar o torcicolo.

O engradado de garrafas já está amarrado no teto do bólido. Junto com o isopor, que não pode quebrar mas de jeito nenhum! Aquela caixa azul-ceroula tem um histórico, prestou muitos préstimos à família gelando cervejas em momentos memoráveis.

Os jogos de tabuleiro e o baralho já estão em uma das bolsas – só não se sabe qual.

Por fim, a vistoria no carro. CDs? Ok. Aquela toalha velha pra limpar o parabrisa? Ok. O volante do carro? Ok... Opa, o volante sempre esteve ali. Mas, pensando bem, melhor conferir. Vai que algum espertinho tira o volante só para ter um espacinho a mais pras suas quinquilharias.

Haja espaço... Haja paciência...

A coisa é tão traumática que o cabra já começa a ficar tenso uns quatro dias antes de ir embora. Podem reparar: o que tem de homem com a cara amarrada na areia da praia no final de temporada não é brincadeira. O caboclo já começa a suar frio só de pensar em ter de arrumar tudo aquilo no carro.

Isso sem falar nas discussões.

Aliás, todo sujeito que sonha em seguir carreira diplomática deveria passar um final de temporada na praia com a classe média. Porque mediar o diálogo do conflito árabe-israelense é melzinho na chupeta diante da tentativa de convencer todo mundo a deixar as coisas em ordem e a colaborar nas tarefas no retorno pra casa.

E nessa hora sempre pinta um reclamando que todos têm mais espaço do que ele para suas coisas. No que o outro rebate dizendo que está tendo que carregar as malas sozinho até o carro.

Mas o angu desanda mesmo quando aparece o mais velhaco da turma dizendo que está com uma dorzinha chata, que surgiu assim, meio de repente, meio sem explicação, e que por causa disso não vai poder ajudar.

Aí é que o catiripapo quase come solto. Só não dá briga porque o pai – velho e sábio patriarca – lembra todo mundo de um pequeno detalhe:

- Calma, pessoal! A gente ainda vai ter que guardar tudo isso quando chegar em casa...

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 14/02/2010 às 11:40

Texto originalmente publicado na edição de sábado (13/02) da versão impressa do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


 /
Toda moça solteira deveria olhar com bons olhos para o carnaval. Porque é nos blocos de rua e nos bailes da folia de Momo que floresce o melhor partido, o homem com quem todas sonham: o cara atencioso, inteligente e, principalmente, bem-humorado. Trata-se do folião, minhas amigas, o sujeito cuja colheita só ocorre por esta época do ano. Anotem: a boa safra de homens brota no carnaval.

Antes de mais nada, é preciso saber reconhecer o produto. E identificar o legítimo folião não é tarefa das mais difíceis. Exige apenas um olhar um pouquinho mais apurado.

O mais importante é não se confundir. O folião não é qualquer carinha que se veste com uma fantasia ridícula e sai pulando ao som das marchinhas de carnaval. Definitivamente, não. Você deve saber diferenciar muito bem o baladeiro do folião. São espécies de comportamentos parecidos. Costumam migrar para o Litoral, onde se misturam na primeira quinzena de fevereiro. Porém há de se ter atenção, já que a genética de ambos é completamente distinta. O baladeiro, salvo raras exceções, leva o DNA da traição em sua sequência genética. O folião, o da dedicação e da fidelidade.

Para o baladeiro, o carnaval é só mais uma das tantas festas de sua agenda repleta de eventos. O ano todo ele está na pista. É como o chuchu: pode até ter lá seus valores nutricionais, mas não tem gosto e sempre tem na feira. Já o folião, não. O folião é como as melhores uvas: tem o tempo certo de amadurecer, agrada aos paladares mais requintados e só é encontrado em casas especializadas. O baladeiro é a cachaça barata, que gera alegria curta, passageira, de tempo determinado. O folião é o fino trato, o vinho de boa cepa que impressiona.

E algumas de vocês, moças inquietas, devem estar a se perguntar “afinal, por que a massa deste pão só cresce em fevereiro?” E lá vou eu com a resposta. Porque o legítimo folião cria coragem de mostrar suas virtudes somente no clima de libertinagem do carnaval. É sujeito tímido, muitas vezes meio desengonçado, mas sempre de bom coração. E que, por excesso de humildade, não sabe se expor na vitrine. Por isso faz das marchinhas carnavalescas – que, ressalte-se, só são ouvidas no mês de fevereiro – o seu fermento. É no carnaval que ele realmente mostra suas virtudes de bom partido.

Não vou dizer que o folião não tenha lá seus defeitos. Tem, é bem verdade. Como uma certa predileção pela birita. Mas nada que o transforme em um desses bêbados inconvenientes, insuportáveis, que espantam qualquer rodinha de conversa. Pelo contrário. Quando abastece o tanque com certas doses, o verdadeiro folião fica até mais simpático. Um chopinho não lhe faz mal. Até realça suas qualidades.

Como aquele marido que diante das negativas da esposa em acompanhá-lo ao baile, decidiu cair sozinho na folia. Ela até o liberou para brincar o carnaval. Mas com aquela suspeita que toda mulher tem de que a qualquer oportunidade o companheiro vai traí-la. O que caiu completamente por terra quando ele chegou em casa, já com o sol batendo forte na janela, cansado de pular marchinhas e, por assim dizer, um tanto o quanto aperitivado. Em um estado em que até para tirar a própria roupa precisou da ajuda da companheira. E foi neste momento que o folião da mais pura estirpe mostrou seu valor:

– Pelo amor de Deus, moça, não faça isso porque sou casado. E minha esposa é uma mulher muito boa, que não merece que eu cometa uma bobagem dessas... – bradou ele com a língua torta dos embriagados.

Ao acordar, sem se lembrar de nada, ele foi recepcionado com um belo e farto café da manhã, recheado de muitos carinhos da esposa, orgulhosa da colheita que fez alguns carnavais atrás.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 07/02/2010 às 15:17

Texto originalmente publicado na edição de sábado (06/02) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


Felipe de Lima

Felipe de Lima /
A lembrança veio em um domingo quente, termômetro na marca dos 30 e poucos graus, sensação térmica por volta dos 40. Um calor senegalês e ele largadão no sofá, olhando para as falhas da pintura no teto da sala. Foi ao se levantar para buscar o ventilador na despensa que ela veio à memória. Lembrou-se de que o eletrodoméstico já não estava mais no apartamento. Na partilha dos bens, o ventilador ficou com ela.

Do pouco que construíram juntos, constava a máquina de fazer vento, que agora a refrescava em um novo lar. A ele, restou o aquecedor elétrico. Divisão até certo ponto justa, levando-se em conta que ela sempre se disse mais calorenta do que ele.

O porém é que a primeira estação a chegar logo após a separação foi justamente o verão. E mesmo para ele, que não era muito dado a reclamar da estação mais quente do ano, a coisa estava difícil.

Domingo de tarde, um calor tremendo e ele sozinho no apartamento. Ninguém para conversar, para dar uma volta, beber um chopinho, tomar um sorvete ou assistir televisão. Com­­pletamente desesperado, ligou para ela:

– Alô.

– Oi, tudo bem?

– Nossa! Você?

– Pois é... Tudo bem?

– Tudo.

– Que bom. Desculpa ligar assim, meio fora de hora, sem avisar, mas queria conversar com você.

– Sobre o quê?

– Bom, não sei bem por onde começar...

– Tente começar pelo começo – ela, seca.

– Ok, ok. Sabe, tenho pensado em você, lembrado de umas coisas...

– É mesmo?

– Sim. Pensado muito, a toda hora. Principalmente nesses últimos dias.

– Nossa! A toda hora!

– Pois é, uma sensação estranha. Tem uma coisa me incomodando e que tenho que resolver com você.

– E o que é?

– Não sei se você tem essa sensação, mas parece que a gente acabou nossa relação rápido demais, sem conversar direito, sem uma postura mais adulta, discutindo nossas diferenças.

– Depois de dois meses separados você me liga numa tarde de domingo pra discutir isso?! Você não tem mais o que fazer não?!

– Tá, tá, sei que você tá cha­teada comigo. Aliás, você tem motivo mesmo pra isso. Mas, sei lá, hoje me deu uma vontade tão grande de te ligar e tentar resolver essa coisa que vem me dando essa angústia...

– Sei...

– É sério! Tô falando sério!

– Você nunca fala sério...

– Por favor me escuta. Só peço isso, me escuta.

– Certo, vamos lá.

– Eu sei que pisei na bola com você, que não fui muito legal e que realmente fiz bobagem. Mas, olha, eu tô desesperado. Tem uma coisa mal-resolvida entre nós e que se eu não conseguir tirar essa dúvida agora não vou conseguir dormir.

– Você tá falando sério mesmo? – ela já se enchendo de esperanças.

– Nunca falei tão sério na minha vida!

– Então diz o que está mal-resolvido entre a gente – o coração dela pulsando forte.

– É essa questão do ventilador ter ficado com você. Quem foi que disse que você é mais calorenta do que eu?

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 01/02/2010 às 16:37

Texo publicado originalmente na edição de sábado (30/01) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.


Felipe de Lima

Felipe de Lima /
Depois de tantas reclamações que ouviu dos veranistas, o Sol resolveu chamar São Pedro pra um particular. Papo reto, cara a cara, de astro-rei pra santo. Era preciso aparar as arestas. Porque aquele clima – tanto o meteorológico quanto o de relacionamento entre os dois – não podia continuar do jeito que estava.

Onde já se viu, São Pedro querer mostrar trabalho bem no verão, mandar aquela água toda justamente na praia, eterno quintal do Sol? Era muito abuso.

Tudo bem que o vizinho de céu tem lá sua intimidade com o Homem. Mas mesmo pra uma entidade beatificada existem lá seus limites, inclusive os de ordem pluviométrica. Afinal, como o Sol poderia cumprir todas as suas metas de verão com aquela chuvarada? São milhões e milhões de corpos a serem bronzeados, um número sem fim de crianças a entreter, uma programação extensa de passeios, eventos familiares, shows musicais... Não dá pra deixar essa gente toda na mão.

– São Pedro, com todo o respeito que tenho pelo senhor, preciso da sua colaboração. O senhor precisa dar um tempo nessa chuva na praia.

– Desculpa, Sol, mas ando com muita água acumulada nas nuvens. Tenho que dar vazão ao estoque.

– Mas não dá pra ser em outra época do ano? E de preferência em outro lugar que não seja a praia? Poxa, as pessoas esperam o ano todo pelas férias no Litoral, aí o senhor me manda toda essa água...

– Entendo o seu lado. Mas este está sendo realmente um ano bastante atípico, meu caro. Veja pela minha planilha (São Pedro vira o notebook para o Sol com a tela mostrando um gráfico quase todo preenchido de bolinhas azuis, indicando as áreas com excesso de nuvens carregadas). Como disse, a produção nesta temporada foi muito grande. Estou sendo cobrado o tempo todo para girar o estoque, meu caro.

– Mas não dá pra enviar essa cota extra pra outros lugares? Sei lá, talvez o sertão, onde o povo realmente precisa dessa água.

– Aí o problema é de ordem logística. Como as nuvens estão muito carregadas, não tenho como percorrer toda essa distância. O risco de elas se romperem no trajeto é muito grande. Aliás, foi o que aconteceu esses dias. Comecei a manobra pra tirá-las do Litoral e no meio do caminho elas estouraram exatamente em São Paulo. Aquele caos... Cheguei a levar advertência do meu Superior...

– Então o que podemos fazer?

– Se você me permite uma sugestão...

– Diga.

– Por que você não aumenta sua intensidade? Isso ajudaria a evaporar mais rápido o meu estoque de água.

– Não posso. Meu sistema é uniforme. Se aumento a intensidade, a temperatura sobe pra todo mundo. E aí não haveria inverno no hemisfério norte. Iria desregular todo o sistema, que já anda me dando um trabalho danado com esse negócio de aquecimento global.

– Entendo.

– O senhor não tem nenhuma outra ideia?

– Ter, eu tenho...

– O quê?

– A maior parte dos vendedores de guarda-chuvas é de devotos meus. Se quiser, no momento da oração, faço uma aparição e peço a eles pra darem um desconto pra esse povo.

– De quanto?

– Ah, um bom desconto. Afinal, eles também querem se livrar do estoque.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 24/01/2010 às 14:10

Texto originalmente publicado na edição de sábado (23/01) do Caderno Verão da Gazeta do Povo.



Felipe de Lima

Felipe de Lima /
Casal de namorados na loja, um dia antes de viajar para a praia:

- O que você achou desse?

- Lindo! Esse está ótimo!

- Você falou a mesma coisa dos outros...

- Não, sério, esse é o biquíni mais bonito que você provou até agora. Foi o que te caiu melhor. Pode comprar esse que não tem erro. Certeza!

- Mas você acabou de falar que o outro que eu vesti é que era o mais bonito.

- Até então era. Mas aí te vi vestida nesse e percebi que aquele era o segundo mais bonito. Esse é o mais lindão. Pode pedir pra moça embrulhar. O mais bonito! Sem sombra de dúvida!

- Ai, calma! Não posso decidir assim na correria. E para de me confundir. Fala sério: qual desses biquínis eu levo pra praia? Veja bem todos eles antes de dizer qual você acha o mais bonito. E se tiver dúvida, eu posso vestir de volta pra você não errar.

- Vestir todos de volta?! Você está maluca?! Olha a montanha de biquíni que tem em cima dessa bancada. Se for provar todos esses biquínis de volta a gente vai passar a noite aqui. Vamos ficar tão cansados que nem vamos conseguir acordar cedo pra viajar amanhã.

- Mas deixa de ser exagerado. Nem provei todos, não. Só provei alguns. Só os que eu mais gostei.

- Você só gostou dessa montanhazinha aqui...

- Não gostei, não!

- Tem razão. Na verdade você não gostou de nenhum. Por isso vai pedir para provar outros...

- Ai, que chato!

- Se você provou só os que achou bonito, leva um logo desses. Se quiser, até te ajudo. A gente pega um punhado, joga pra cima e faz aleluia. O que você pegar no ar, a gente leva. E pronto, acaba tua dúvida.

- Mas eu quero que você escolha o que fica melhor em mim. Deixa de ser rabugento. Já vamos embora. Só mais um minutinho!

- A gente já está aqui há quase duas horas vendo esses biquínis...

- Não é um simples biquíni. É o biquíni que vou passar as férias na praia.

- Você tem tanto biquíni em casa, nem precisa comprar outro.

- Eles estão velhos.

- Velhos? Têm uns lá que você nunca usou.

- Não usei porque depois eu vi que eles não eram tão bonitos como eu imaginava. Às vezes a gente se engana, ué.

- Sei...

- Vai, me ajuda!

- Já falei, o último ficou bem bacana, caiu bem legal. É o último, sério.

- Você só diz isso porque quer ir embora logo.

- Leva qualquer um, vai. Qualquer um vai te ficar bem...

- Poxa, como você é insensível! Eu aqui, toda preocupada em ficar linda pra você na praia, querendo te agradar, deixar você todo orgulhoso de mim e olha como você me trata.

- Ficar linda pra mim?

- Claro! É óbvio! Pra quem mais seria?! Eu só estou aqui por causa de você. Senão, como você mesmo disse, iria com qualquer um dos biquínis que já tenho. Quero te agradar, mas pelo visto, você não está nem aí. Posso ir de qualquer jeito mesmo que não faz diferença...

- ...

- Que foi?

- Nada não...

- Como nada? Eu te conheço...

- É que pensando bem, talvez seja melhor mesmo a gente dar mais uma olhadinha...

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 17/01/2010 às 20:05

Texto originalmente publicado no caderno Verão da edição impressa da Gazeta do Povo de sábado (16/01).


Benett

Benett /
Difícil ser humano com maior sensação de liberdade do que o marido que fica em casa enquanto a família passa férias na praia. Por mais que esse período seja curto, por mais que esses dias sejam contados, esse cara sabe que deve aproveitar cada milionésimo de segundo desse tempo livre. Afinal, liberdade é produto perecível na prateleira de um pai de família: se não consumir de uma vez, azeda.

A vida caminhava exatamente neste ritmo naquela semana. Esposa e filha pequena na praia, sossego e liberdade em casa. Sentia-se tão bem que nem o fato de ficar trabalhando na cidade, suando Cataratas do Iguaçu de tanto calor, o tirava do sério. Não fosse justamente o expediente no escritório, de que forma desfrutaria de toda aquela independência? Que viessem o terno e a gravata, porque a brisa da liberdade soprava a seu favor!

Já no primeiro dia daquela semana ele provou desse tempero. Foi ao futebol da segunda-feira – uma das poucas heranças que conseguira guardar dos tempos de solteiro – sem se preocupar com horário de voltar para casa. Após a pelada, ainda se arriscou em algumas partidinhas de truco, jogou uma boa conversa fora com a rapaziada e foi-se embora – sabe-se lá a que horas...

Chegasse às 9 da noite ou às 9 da manhã, não faria diferença. Ninguém o esperaria acordado para perguntar se aquilo eram horas ou se poderia preparar a mamadeira da criança que não conseguia dormir.

Melhor, muito melhor: não acordaria com a maldita dor nas costas que sempre o acompanha no dia seguinte a cada discussão com a patroa, quando é obrigado a dormir no sofá.

Nos outros dias, mais diversão. Na terça, chopinho com os colegas da firma. Na quarta, mãozinha de pôquer na casa do vizinho – que por sinal também estava com a família na praia. Na quinta, churrasco na casa do melhor amigo. Na sexta, bate-papo no balcão do boteco. No sábado... Bom, no sábado ele voltava à realidade. Depois do expediente no escritório no período da manhã, era hora de descer a serra pra rever mulher e filha.

Com o carro já na estrada, ainda lhe restava um último lampejo de liberdade. No aparelho de som, nada de músicas infantis. Só canções da preferência dele.

Mas ao buscar o estojo de CDs para trocar de música, reparou que a filha havia esquecido no carro o brinquedo de que mais gostava, presente da própria esposa no primeiro aniversário da criança.

Só então se deu conta de que os últimos dias foram pura ilusão. E de que na realidade nunca mais teria liberdade: estava definitivamente preso e amarrado pelos laços de carinho e afeto às duas mulheres de sua vida.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 10/01/2010 às 19:26

Texto originalmente publicado na edição impressa do caderno Verão da Gazeta do Povo do último sábado (09/12).


Benett

Benett /
- Amigo, um chopinho, por favor...

Em questão de minutos, era a sétima ou oitava vez que ele clamava pela atenção de alguma boa alma do outro lado do balcão. Balada lotada é assim: sempre um inferno pra se conseguir uma bebida. Um batalhão de gente sedenta em volta do bar, suplicando por uma cerveja gelada, uma caipirinha, um uísque com energético , uma vodca...

- Amigo, ô, amigo... Aqui, aqui, aqui... Tira um chopinho lá, vai, por favor... - outra tentativa frustrada.

Já ia desistindo, quando olhou para o lado e viu uma moça bonita, morena alta, cabelos lisos, olhos grandes, daquelas que todo cara dá atenção.

Estava ali a solução do problema!

Como se vestisse a nove no costado, partiu feito um centroavante rompedor em direção ao ataque. Daquele belo rostinho poderia sair não apenas o chope para matar a sede mas, por que não, o também chamado algo a mais.

- Oi, moça. Tudo bem?

- Tudo...

- Preciso de uma ajuda sua, por favor...

- Diga.

- Olha, eu estou aqui há não sei quanto tempo tentando pegar um chope, um simples chopinho. Só que nenhum daqueles caras ali do bar me dá a menor bola. Sei lá, parece que não me escutam... Então, pensei, “puxa, bem que aquela moça poderia me ajudar...”

- Como?

- Sabe como é, você é bem bonita. E esses caras ali, bom, esses caras sempre atendem às mulheres bonitas primeiro. Moças como você não precisam se humilhar, ficar implorando por uma bebida à beira no balcão. Daí, me veio a ideia: “Ela bem que podia me dar uma forcinha e pedir um chope pra mim...” Topa?

A moça riu do pedido – essa cantada nunca havia levado. Mas achou engraçada a história e aceitou ajudar.

- Tá bom, peço, sim. Deixa comigo!

Foi ela se virar em direção ao bar com a ficha de consumação dele na mão para que o barman viesse atendê-la no mesmo instante. Hipnose? Feitiço? Magia negra? Não. Nada além de um belo e eficiente sorriso utilizado com um propósito muito bem definido.

- Pois não, querida, diga! - veio com uma cara toda amável e fraternal de anjinho barroco o mesmo barman truculento que pouco antes havia dito a ele que outras pessoas estavam na frente pra serem atendidas.

- Um chope, por favor.

- É pra já, meu amor! - o barman foi logo enchendo o copo - Está aí. Algo mais?

- Não, só isso. Obrigada!

Ela entregou o chope ao rapaz, que não perdeu a oportunidade de engrenar o bate-papo:

- Você salvou minha vida! Não falei que pra mulher bonita a coisa é mais fácil...

Ele seguiu elogiando a menina, dizendo como ela era bonita e simpática. Ela achando tudo o que ele dizia engraçado, rindo de todos aqueles galanteios.

E quando ele finalmente se sentiu confiante para se arriscar em um lance mais ousado no gramado do jogo da sedução, chegou um sujeito muito do intrometido que a abraçou por trás e a beijou.

- Esse é meu namorado. Agora se você me dá licença, tenho que ir. Boa sorte aí no bar.

Diante disso, não restou outra opção a ele senão voltar ao balcão do bar e novamente suplicar ao barman:

- Amigo, um chopinho, por favor...

03/01/2010 às 16:34

Texto originalmente publicado na edição impressa do caderno Verão da Gazeta do Povo no sábado (02/01).


 /
- Pai, deixa eu levar o videogame? – pediu o menino em uma última súplica, desesperada, manhosa, recorrendo àquela cara de choro manjada. Era o último trunfo para tentar persuadir o velho a mudar de ideia minutos antes de a família viajar pra praia.

Ao ouvir a voz derretida, o pai deixou por um momento o desafio às leis da física de tentar encontrar espaço no carro para todas as malas da esposa e se agachou para conversar mais uma vez sobre aquilo com o menino.

– Filho, a gente já conversou... Papai já te explicou. Você não vai precisar de videogame lá na praia. Vai ter tanta coisa legal pra gente fazer. Futebol na areia, frescobol, caçar tatuí... Você gosta tanto de caçar tatuí. Não gosta?

– Gosto, mas quero jogar videogame também. E lá não tem. Quero o meu!

– Filho, teus amiguinhos de praia vão estar lá. E faz tanto tempo que você não fala com eles. Um ano! Ou vai me dizer que você não gosta mais de jogar betes, brincar de esconde-esconde...

– Ah, pai, deixa eu levar. Por favor! – olhou para o pai com um bico deste tamanho.

– Não, filho, você não vai levar. A gente já conversou, papai já te explicou direitinho porque você não vai levar. Você pode jogar videogame todos os dias aqui em casa. Lá na praia a gente vai fazer coisas diferentes. Não precisa de videogame. Deixa aqui.

– Mas e se um ladrão entrar na nossa casa e roubar o videogame? Depois nunca mais vou ter outro.

– Deixa de ser exagerado. Ninguém vai entrar na nossa casa. E pra garantir, nós dois vamos guardar o videogame em um lugar bem seguro, onde o ladrão não vai achar de jeito nenhum.

– E se ele achar?

– Se ele achar o papai compra outro.

– Compra outro?

– Compro.

– Um melhor ainda?

– Um melhor ainda! – prometeu ao guri, lembrando a si mesmo que ainda estava pagando prestações bem salgadas do aparelho.

– Mesmo?

– Mesmo! Fechado?

– Fechado!

– Toca aqui, campeão! – a mãozinha pequena bateu com força na palma do pai. Correram os dois para ver o melhor lugar onde esconder o aparelho. Botaram numa caixa de papelão e esconderam atrás da geladeira.

– Que ladrão vai adivinhar que tem um videogame aqui atrás da geladeira, hein? – disse dando uma piscadela para o menino.

Uma semana depois um ladrão aproveitou a falta de movimentação, entrou pelo muro e arrombou a janela dos fundos. Macaco-velho no ofício da mão grande, revirou os lugares mais inóspitos, onde as pessoas acreditam estar seguros seus pertences. Ao entrar na cozinha, puxou a geladeira de lado e deu de cara com a caixa de papelão. Abriu e encontrou o videogame.

– Mais fácil que encontrar tatuí na praia! – exclamou o gatuno, antes de partir com a caixa debaixo do braço.

Na volta, restou ao pai assumir mais prestações de um videogame novo – e mais moderno. Com a diferença de que nas próximas férias eles levariam o aparelho para a praia. E ele mesmo jogaria com o guri. Porque esse negócio de caçar tatuí na areia perdeu a graça. Esse bicho anda muito fácil de ser encontrado.

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