Segunda-feira, 21/05/2012
O segredo é a alma do negócio. Sempre foi, e principalmente para determinados tipos de negócio. Depois de ler a respeito dos grandes segredos da história da humanidade e ver alguns filmes, como O Nome da Rosa e Enigma, este sobre o código secreto dos nazistas na II Guerra, o professor Afronsius tocou no assunto com Natureza Morta.
No dedo de prosa junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha, Natureza aproveitou para citar uma matéria da revista História Viva. “Para garantir o sigilo da correspondência trocada pelos reis da Idade Média e do Renascimento, foram criados sofisticados métodos de cifragem capazes de burlar as redes de espionagem da época”, informa o texto de Laurent Vissière.
- Dizem que, comparativamente, Cachoeira seria pinto em matéria de arapongagem – emendou Beronha.
Criptografia moderna
Do estudo da cabala, que buscava mensagens ocultas no Antigo Testamento, chegamos ao desenvolvimento da criptografia moderna. Mas, entre os antigos, fica-se sabendo que o imperador Júlio César (ou Gaius Julius Caesar, como prefere o solitário da Vila Piroquinha) foi um dos que recorreram aos códigos secretos, a partir de um sistema básico de substituição.
O Código Júlio César consistia em deslocar as letras do alfabeto para criar um "sistema de correspondências".
Vai daí, talvez para substituir as fofocas em tom reservado e cochichos a distância, que um amigo do Beronha optou por uma forma segura de comunicação. A de César.
Nosso anti-herói de plantão gostou, embora confesse que “não entendi bulhufas e continuo na mesma”. Mas apresentou ao professor Afronsius algumas mensagens do amigo, é claro, secreto. O repto. Ou desafio:
- Decifre se for capaz.
Mente superior
O professor não saiu do zero diante da primeira:
TPZZHV WHYH ZY ZWVJR SPNHY ALSLAYHUZWVYAL
BYNLUAL UV IHY SBGPAHUV
E muito menos da segunda:
NYHJPHZ NHUOVB JHTPZH KV UFQLAZ
Como também ficou boiando, Natureza decidiu apelar para uma mente superior, o Sr. Spock Macunaíma.
- Elementar, meu caro Natureza. A primeira mensagem, decodificada, diz: “Missão para Sr Spock ligar teletransporte urgente no Bar Luzitano”.
- E a segunda? - cresce a expectativa junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha.
- Lá vai: “Gracias ganhou camisa do NY Jets”. Essa, eu confesso que não entendi o recado...
Havia ainda uma que começava com YVZIPML e outra que terminava com BMH – MBP.
Sr. Spock:
- A primeira quer dizer Rosbife. Também não faço a menor ideia. A segunda, “ufa” “fui”.
Antes de bater em retirada (tinha alguma missão mais impossível pela frente em sua interminável jornada), o sr. Spock elogiou o Código de César. Simples e seguro. Seguro pelo menos naquela época.
- Coloca-se o alfabeto numa linha e o desloca para uma segunda, em grupos de sete letras. Teremos assim, na primeira linha
ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXZ
e, na segunda
HIJKLMNOPQRSTUVWYZABCDEFG
As letras da primeira fileira são substituídas pelas da coluna de baixo, de modo a obter a codificação.
E, aproveitando, despediu-se com a saudação na qual insiste em separar o mindinho e seu vizinho dos demais dedos:
- MPB IFL IFL!
CBKH SVUNH L WYVZWLYH!
Tradução? Recorram ao código.
ENQUANTO ISSO...

A baixa temperatura mexe com o comportamento das pessoas. Nenhuma novidade. A possível novidade: no trânsito de Curitiba há quem pense que, acelerando ao máximo, é possível se livrar do frio, deixando-o para trás. Isso sem fugir da cidade.
Sabe-se que, no inverno, o cabôco se alimenta mais porque precisa de mais energia para conseguir mais calor.
- Somos seres homeotérmicos, precisamos manter a mesma temperatura, mas isso não significa que é preciso recorrer ao acelerador, pisar fundo – acrescentou o professor Afronsius, cada vez mais preocupado com o trânsito na capital.
Natureza Morta concordou e foi em frente: - É de dar mais frio, frio na barriga.
Vícios urbanos
Do anexo II da biblioteca da mansão da Vila Piroquinha, Natureza sacou o livro “Trânsito Louco”, de Marcos Prado, 1973. Os problemas, efetivamente, não decorrem da temperatura. Entre as razões do trânsito que já era maluco naquela época, temos do arquiteto, ex-IPPUC e ex-Detran, que, em 1971, o desafio curitibano era “implantar um plano de trânsito numa cidade com vícios urbanos impermeável a qualquer modificação em sua estrutura viária tradicional”.
Para o ex-prefeito Jaime Lerner, na orelha do livro, trânsito era “assunto que mais preocupa do que entusiasma, embora num país onde os automóveis crescem em progressão geométrica e isso acaba por atingir a todos, indistintamente”.
Hora do psicotécnico
Implantado na década de 1970, o exame psicotécnico para obtenção de carteira de habilitação apontou, nas primeiras levas, que só em Curitiba “quase 10% dos candidatos mostraram ser neuróticos”.
E, conforme Marcos Prado, Curitiba, como todas as cidades “em crescimento espontâneo”, não possui uma infraestrutura para suportar o impacto da era industrial, “cujo efeito mais direto é o aumento progressivo da sua frota de veículos”.
Proporcionalmente à sua população, "a cidade apresentava uma das menores áreas centrais - aproximadamente 0,5 Km quadrados -, onde há excepcional concentração de atividades comerciais, bancárias, culturais e recreativas".
- Pois é, interrompe o professor Afronsius. Tanto é verdade que, até hoje, ainda ouvimos a clássica indagação: vai pro centro hoje?
Encerrando o dedo de prosa, Natureza aproveitou para reler mais um pedacinho do livro: “Os acidentes são hoje o nosso maior mal social. É um verdadeiro massacre que substitui as pragas da idade média, no Século XX”.
- Massacre que emplacou, sem trocadilho, e perdura o Século XXI.
Em tempo: Beronha, nosso anti-herói de plantão, não chegou a tempo para o bate-papo.
- Impossível. Parou tudo.
De fato. Houve ontem uma série de manifestações na área central.
ENQUANTO ISSO...

Frequentador assíduo das matinês de domingo no Cine Curitiba, o professor Afronsius comentava com Natureza Morta a importância que os gibis tiveram em sua infância e juventude. O solitário da Vila Piroquinha concordou, até porque não perdia, lá pelos anos 1950, as movimentadas sessões de troca de gibis (e figurinhas) diante do cinema, que ficava na Rua Voluntários da Pátria, ao lado do Instituto de Educação. Apesar das reprimendas e cara feia dos mais velho.
- Gibi era considerado coisa do demonho – como diz Beronha.
Vai daí, no dedo de prosa junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha, Natureza acionou a seção Achados&Perdidos, exclusiva do blog, que trouxe à baila A Explosão Criativa dos Quadrinhos, livro de Moacy Cirne, segunda edição, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1970.
Significação social
“Primeiro trabalho sistemático a aparecer em caráter pioneiro, como ressalta a apresentação do livro, não se trata de obra de simples informação, mas de um denso ensaio, no qual o autor estuda as características estéticas básicas do comics e procura desvendar a significação social do seu êxito no mundo contemporâneo”.
Sobre “coisa do demônio”, ou demonho, como prefere nosso anti-herói de plantão, Natureza citou um trecho do livro: “Durante muito tempo as estórias em quadrinhos foram tidas e havidas como uma subliteratura prejudicial ao desenvolvimento das crianças. Sociólogos apontavam-nas como uma das principais causas da delinquência juvenil”.
Também um gibizeiro
O livro de Cirne começa com uma proclamação de Federico Fellini:
- Os quadrinhos!
Não li quase outra coisa.
Conservo ainda com minha mãe
uma coleção de 1927 de
Corrieri dei Picoli...
Se pudesse filmar
Flash Gordon ou o Fantasma,
seria o mais feliz dos homens!
Fellini
Procede inteiramente: o cineasta (1920-1993) foi desenhista e cartunista na juventude. Ao elaborar roteiros para seus filmes, recorria aos desenhos. Principalmente das personagens mais exóticas que pretendia colocar em cena. E ia além. Trabalhou em trilhas sonoras, geralmente ao lado do compositor Nino Rota.
Mulheres e Luzes (Luci del varietà), de 1950, foi o primeiro filme de Fellini, com a colaboração do já experiente diretor Alberto Lattuada.
O professor Afronsius abriu o leque: todo mundo sabe, ou deveria saber, de cor os filmes de Fellini, como A Doce Vida (1960), que ganhou 4 Oscar (categoria melhor filme estrangeiro) e uma Palma de Ouro, em Cannes.
- E foi com o filme que surgiu o termo paparazzo, que era um fotógrafo amigo de Marcello Rubini, interpretado por Marcello Mastroianni.
- Paparazzo hoje seria a turma do grampo do Cachoeira? – interveio Beronha.
Cenas finais
Para encerrar, o solitário da Vila Piroquinha citou Roma de Fellini (1972), em especial a parte em que o diretor, câmera na mão e microfone aberto, persegue um morador, já no fim do documentário. Trata-se de uma senhora. Nada mais nada menos do que Anna Magnani, atriz de Mamma Roma (1962), de Pier Paolo Pasolini, que passava anônima junto aos muros de velhos casarões. No filme, ela interpreta a prostituta Mamma Roma.
A câmera vai em cima, persegue Anna, e o narrador (o próprio Fellini) que saber se ela poderia ser a encarnação da cidade – “loba, vestal, aristocrata e vagabunda”.
Anna abre um portão, entra e, finalmente, volta-se para encarar o inquisidor: dirige-lhe um palavrão (algo como “não encha, Federico”) e bate a porta na sua cara. Ou na câmera.
ENQUANTO ISSO...

O professor Afronsius chegou para o dedo de prosa portando uma dúvida:
- Só para confirmar. A tal Caixinha de Pandora não é aquele presente de grego de Zeus, o Big Brother de plantão no Olimpo, que continha todos os males e desgraças do mundo?
Diante da resposta afirmativa de Natureza Morta, o vizinho de cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha passou a comentar uma notícia da briosa, brava e indormida imprensa.
Palpite de gringo
Diretor de documentação sobre o Brasil no National Security Archive (Arquivo Nacional de Segurança), organização sem fins lucrativos vinculada à Universidade George Washington, Peter Kornbluh andou declarando que os Estados Unidos devem ajudar o Brasil a abrir a “Caixa de Pandora” do seu regime militar.
Para o professor Afronsius, não é bem “do seu”, mas também e principalmente “deles”. De qualquer modo, Kornbluh acredita que o Brasil deu “um passo histórico com a criação da Comissão da Verdade, após o qual será impossível retroceder”.
- Uma vez que a Caixa de Pandora do passado for aberta, será muito difícil fechar a tampa novamente - disse, referindo-se a segredos a serem revelados.
Ele acredita que as informações guardadas nos EUA podem ser valiosas para e na abertura de arquivos.
Nenhuma novidade
Kornbluh acha que, diante da pressão para ajudar o trabalho de comissões da verdade na América Latina, o governo americano tem liberado evidências que atestem suas “políticas externas desabonadoras, reprováveis e imorais do passado”.
- De fato – concordou Natureza, referindo-se às clássicas políticas externas desabonadoras, reprováveis e imorais. E aproveitou para comentar a série de fascículos sobre a ditadura, lançada pela Caros Amigos.
Lá, com farta documentação, temos que, já em 1962, “para deter a tendência vermelha”, Washington se propôs a doar “8 milhões de dólares para candidatos pró-americanos”.
Pedrinhas no sapato
Uma das “pedrinhas no sapato” do Tio Sam, entre outras, era o doutor Leonel. Quando governador do Rio Grande do Sul, Brizola desapropriou os bens da Companhia Telefônica Nacional, subsidiária da americana IT&T – International Telephone & Telegraph -, o que foi classificado de “um passo atrás” na Aliança para o Progresso.
A coisa já vinha azedando, e de maneira acelerada. Antes de Brizola, o governo brasileiro tinha cancelado autorizações ao truste Hanna Corporation para explorar jazidas de minério de ferro em Minas Gerais (na verdade, uma reserva estratégica, não do Brasil, mas dos EUA), restabelecido relações diplomáticas com a União Soviética e se recusado a aprovar sanções contra Cuba.
- O caldo estava fervendo – comentou Natureza.
Não demorou muito e desembocamos no abril de 1964, precedido, inclusive, pela visita do padre Peyton, “o padre da CIA”, com A Cruzada pelo Rosário e a Família, além da Operação Brother Sam (à frente o porta-aviões Forrestal) e da ameaça nada velada de Vernon Walters, adido militar no Brasil, que mandou o recado: “Cabe ação imediata”.
No dia 2 de abril, o presidente Lyndon Johnson festejava: “Estou feliz”.
- Pois é. A Caixinha de Pandora foi aberta de modo planejado, e em doses homeopáticas. Deu no que deu.
ENQUANTO ISSO...

O professor Afronsius não economizou elogios à matéria que leu segunda-feira na Gazeta do Povo, mostrando que “o som alto que vem dos bares e a barulheira das ruas da cidade são os ruídos que mais irritam os curitibanos”. Segundo levantamento do Paraná Pesquisas, dos 450 moradores da capital entrevistados, 44% afirmaram se incomodar com o barulho.
Um em cada quatro moradores considera barulhento o bairro onde reside, conforme a reportagem de Raphael Marchiori.
- Quando eu reclamo, dizem que sou um tremendo ranzinza – desabafou o vizinho de cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha, mas o que dizer quando os próprios bombeiros botam a boca no trombone?
Pior que sirene ligada
Natureza Morta concordou. Afinal, o comando do 2º Subgrupamento do Corpo de Bombeiros viu-se obrigado a equipar o dormitório com kits antirruído. Como informa a matéria “engana-se quem pensa na sirene como um incômodo para os bombeiros; era o barulheiro excessivo vindo da Rua Nunes Machado, onde fica o comando da corporação, que não dava sossego ao pessoal”.
Principalmente nos fins de semana, como suportar o som alto dos carros, buzinas e pessoas falando alto nas ruas? “Isso tudo acabava atrapalhando o descanso da equipe”, segundo o comando da corporação. O dormitório é ocupado em média por 15 bombeiros – que trabalham em regime de 24 horas por 48 horas de descanso.
Haja paciência
Beronha, que chegara silenciosamente para serrar o café da manhã, entrou no papo e manifestou solidariedade aos bombeiros.
- E olha que eles têm paciência de Jó. Principalmente quando algum mala liga pedindo ajuda para retirar o gato da madame que subiu no topo de uma árvore e não consegue descer... Ou quando o piá enfia a cabeça num penico e fica entalado.
Não bastasse tudo isso, tem ainda as pessoas que falam alto – e sem parar. No Bar VIP, aquele que nosso anti-herói diz “frequentar ocasionalmente todos os dias”, um desses que falam alto ganhou o apelido de Mário Cachoeira.
- Como?
- Cachoeira. Ele deve ter nascido e se criado ao pé de uma cachoeira, onde todo mundo é obrigado a falar alto.
Depois de breve silêncio, o trio encerrou o dedo de prosa. E se mandou de fininho.
ENQUANTO ISSO...

Enquanto a CPI do Cachoeira não deslancha (“espera-se que não seja mais uma cascata”, comentou o professor Afronsius), o assunto que abriu o dedo de prosa junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha foi uma notícia publicada pelo Daily Mail.
Segundo o poderoso rotativo daquelas bandas, médicos testam uma droga que acabaria com os efeitos colaterais do álcool mesmo quando a pessoa está de pileque.
Ao ouvir isso, Beronha reagiu:
- Como dizia meu amigo Asdrubal, citando outro amigo, o Colaço, beber para não ficar bêbado é jogar dinheiro fora...
Se for dirigir...
Natureza Morta e o professor Afronsius continuaram o papo: o tal de Iomazenil, ingerido antes da bebida alcoólica, poderia reduzir os efeitos do álcool sobre o cérebro. Os pesquisadores da Universidade de Yale dizem não pretender chegar a um medicamento que permita que as pessoas bebam mais. Espera-se, isso sim, que medicamento, ao interromper os efeitos do álcool em determinadas células, venha a ajudar fazendo com que as pessoas fiquem sóbrias. Como tem gente que insiste em beber e dirigir, seria, quem sabe, interessante.
- Mas, como ainda é uma coisa distante e bastante improvável, é preciso continuar combatendo os irresponsáveis que bebem e saem dirigindo – tascou o professor Afronsius.
O solitário da Vila Piroquinha concordou:
- Já não bastam os outros irresponsáveis, barbeiros e malucos, ao volante?
Beronha disse não botar a mínima fé no Iomazenil.
- Lembram-se daqueles remedinhos coloridos, em tubinhos de vidro, que, dizia a propaganda, cortavam a ressaca? Pura bucha – completou nosso anti-herói de plantão.
O que dá certo
A conversa continuou. O professor Afronsius comentou, então, notícia da Folha do Meio Ambiente, jornal de seu amigo Silvestre Gorgulho, que, aliás, assina a matéria: já existe fazenda que produz água. Ela fica no município de Baldin, em Minas Gerais. Seu proprietário, o ex-ministro Alysson Paolinelli (foi do Ministério da Agricultura), diz que “só não tem água em sua propriedade quem não quer”.
Basta recorrer à tecnologia e ao trabalho. Há 20 anos, água, na região, era difícil. E a erosão era outro problema. O “milagre”: nas encostas de serra, montes e pastagens onduladas, onde ocorria enxurrada, ele construiu pequenas barragens e, nos pontos mais fortes, açudes. “Barramos quase todas as enxurradas da fazenda. A água se multiplicou e a erosão acabou”.
A fazenda seca hoje é produtora de água. Assim, segundo o ex-ministro, podemos ter três tipos de fazendas: as produtoras de água, as fazendas mistas, produtoras e consumidoras, e as fazendas consumidoras de água.
- Palmas para ele! - comemorou Natureza.
ENQUANTO ISSO...

Em março, mais precisamente no dia 7, a Biblioteca Pública do Paraná completou 155 anos. Uma programação especial marcou a passagem da data. Comentando o assunto, no dedo de prosa diário junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha, o professor Afronsius voltou no tempo. Não a 1857, mas a 1968.
Natureza Morta endossou de pronto a homenagem, recordando alguns episódios (barra pesadíssima) da época em que a diretora da biblioteca era a professora Nancy Westphalen Corrêa.
- Aliás, foi a primeira bibliotecária a ocupar a direção da BPP – acrescentou o professor Afronsius.
Polícia x estudantes
Anos difíceis e conturbados, por conta da ditadura civil-militar, Curitiba registrou uma série de manifestações contra o regime. Natureza recorda que, numa das passeatas estudantis, em 1968, os manifestantes foram dispersados pela polícia, na Rua XV. Um grupo deles tratou de buscar guarida na sede do Danc - Diretório Acadêmico Nilo Cairo -, na Rua Ébano Pereira.
Foram cercados pela PM em frente à Biblioteca Pública, na Rua Cândido Lopes.
O trânsito parou e, aproveitando a presença de um ônibus, que cobria a visão dos policiais, estudantes passaram a lançar pedras sobre eles. O confronto não durou muito tempo. Enquanto alguns estudantes conseguiam chegar ao Danc, outros buscaram refúgio na Biblioteca.
Parte da força policial correu atrás, mas acabou barrada nas escadarias.
Uma mulher impedia a invasão do prédio. Era a professora Nancy.
- Os senhores não podem entrar. Aqui só se entra para ler, pegar ou devolver livros. Sem armas, cassetetes ou violência.
Berço de heróis
Diante do impasse, veio o comandante da tropa. Nada feito. O jeito foi bater em retirada, enquanto alguns jovens escapavam pela porta do depósito da Biblioteca, no subsolo.
Ainda sobre a brava professora Nancy, o professor Afronsius lembrou que, graças a ela, temos hoje o Museu da Imagem e do Som. A primeira sede foi uma pequena sala na BBP, inaugurada no dia 25 de março de 1969.
- Confirmou-se, no episódio da frustrada invasão policial, que a legendária cidade da Lapa é, de fato, berço de heróis.
ENQUANTO ISSO...

Dizem que todo homem tem seu preço. A propósito disso, o professor Afronsius comentou no dedo de prosa junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha ter relido Folclore Político, do jornalista Sebastião Nery.
- Sebastião que, inclusive, morou por uns tempos em Curitiba, onde fez muitos amigos – acrescentou Natureza Morta.
Ignorando o imperador
Professor Afronsius não resistiu e leu um dos casos, que levou o título “Honestidade não se compra”.
Segue o relato de Sebastião Nery: José Bonifácio e Martim Francisco, os irmãos Andrada e Silva, eram ministros de D. Pedro I. Cada um ganhava quatro contos e 800 mil réis por ano.
No fim do mês, José Bonifácio recebeu 400 mil réis, guardou-os no fundo de seu chapéu e foi para o teatro. Como safado é que nem capim e dá em qualquer lugar, alguém acabou roubando o chapéu e o dinheiro. Ao saber da história, o imperador chamou Martim Francisco, ministro da Fazenda, e ordenou que pagasse novamente a José Bonifácio. Mas Martim Francisco foi contra: Não, majestade. O ano tem doze meses, e não treze para os protegidos.
Conclusão: Martim Francisco teve que pegar o seu salário e dividi-lo com o irmão José Bonifácio.
- Pois é, como se vê, cada homem tem seu preço. O preço de alguns é não ceder, pactuar. Seu preço é não ter preço – finalizou o solitário da Vila Piroquinha, enquanto Beronha, nosso anti-herói de plantão, chegava à mansão.
Mera coincidência.
ENQUANTO ISSO...

A frase é atribuída a Beijoca, do Bahia: “Não ganhemo nem perdemo, empatemo”. Mas, no Sul, sofreu uma pequena metamorfose: “Nem ganhimo nem perdimo, empatimo”. Isso dentro de campo, porque, fora dele, o jogo pode ter um quarto resultado. A Copa de 70 é um exemplo. Além da linha burra, existia a linha dura.
Em torno disso, o professor Afronsius trouxe para o dedo de prosa, junto à cerca (viva), a conquista do mundial na Cidade do México, que, aliás, está prestes a comemorar mais um aniversário.
Primeiro tempo
Natureza Morta pediu um tempo e, graças à seção Achados&Perdidos, exclusiva do blog, voltou com um recorte. Um reencontro com o até então insuperável futebol brasileiro. Primeira página do jornal O Globo, do Rio, dia 22 de junho de 1970, uma segunda-feira: “TRI. Carnaval em junho”. Três fotos, da agência UPI – United Press International. Na primeira, com destaque, Pelé marcando de cabeça. Na segunda, sob o título “O goal do alívio”, Jairzinho, que fez o terceiro aos 27 minutos “num lance armado por Piazza e Pelé”. Na terceira, em uma coluna, sob o título “Tiraram as meias de Tostão”, a legenda explica que o jogador foi “submetido a um verdadeiro strip-tease, perdendo a camisa, as chuteiras e as meias”.
Beronha, nosso anti-herói de plantão:
- É, ainda bem, até porque seria terrível se ele perdesse as meias sem tirar as chuteiras.
O “homem comum”
Ainda na primeira página, com o devido destaque, é claro, o título “Médici acertou o placar”:
- O Presidente Médici, que acompanhou pela televisão todos os jogos da Seleção tricampeã do mundo, provou ser mesmo um entendido (sic) de futebol ao fornecer na sexta-feira a O Globo seu palpite para a finalíssima de ontem: Brasil 4x1. Ontem, logo após a emocionante vitória, o Presidente dirigiu mensagem à Seleção, na qual expressa que, como homem comum (sic), sente-se profundamente feliz, pois nenhuma alegria é maior no meu coração que a de ver a felicidade de nosso povo no mais puro sentimento patriótico.
Detalhe, devidamente apontado por Natureza: nenhum texto indica quem era o adversário. Ou seja, a Itália. Outra chamada anuncia no título “Facultativo hoje e amanhã”.
A demissão de Saldanha
Na página 3, o relato sobre o jogo: da Cidade do México, Ricardo Serran, especial para O Globo – via Embratel, pelo satélite. As fotos, agora, são da AP – Associated Press. Aí, a Itália teve uma colher de chá. É citada.
O solitário da Vila Piroquinha fez questão de alguns adendos: o panorama fora de campo, os interesses bem pouco ou nada esportivos. A Revista História da Biblioteca Nacional, edição de maio, maio, agora, contou que os arquivos da BN são o embrião de muitas produções para o cinema.
- Foi assim que André Iki Siqueira, autor do livro “João Saldanha – Uma vida em jogo”, e agora diretor do documentário “João Saldanha”, conta como o acesso aos jornais da época (1970) ajudou a entender o que havia por trás da demissão do técnico Saldanha. Pinçou uma informação de que "o Cláudio Coutinho, militar e membro da comissão técnica da seleção, tinha sido chamado a Brasília pelo ministro Jarbas Passarinho para articular a demissão do João, que era reconhecidamente um militante comunista. E eu encontrei uma matéria do jornal O Globo em que o coronel Ronaldo Coutinho, irmão do Cláudio, confirmava essa história".
O rebelde com causa
João Saldanha, o João Sem Medo, era comunista. E tinha temperamento muito forte. Ou, como escreveu Nélson Rodrigues, "circulava nas veias de João sangue e não água de bica". Depois de classificar o Brasil para a Copa, passou a ser um duplo risco para a ditadura civil-militar. Vivívamos o Brasil do "ame-o ou deixe-o", "ninguém segura este país".
- Já pensaram? O sonhado tricampeonato, com a posse definitiva da Jules Rimet, conquistado por um notório comandante inimigo do regime?
Uma tese sobre o golpe (em cima do João):
"Não havia espaço para a ditadura capitalizar a provável conquista do tri". E ele foi demitido no dia 17 de março.
No livro, Iki Siqueira conta que, nas viagens com a seleção, Saldanha sempre mantinha contatos com exilados e comunistas de outros países e denunciava a jornalistas o que acontecia no Brasil: repressão, tortura, perseguições, censura. “Há provas de que João estava sob vigilância do Dops. Os relatórios policiais eram despejados em algumas mesas em Brasília”.
O “aspecto ideológico” prevaleceu. João foi derrubado. O próprio Saldanha, ainda conforme o livro, brincou:
- Por que eu saí é muito fácil de entender. O que eu tenho dificuldade de explicar é porque eu entrei.
Encerrando o papo, Natureza e o professor Afronsius comentaram:
- O brasileiro sabe tudo de e sobre futebol. Será mesmo?
ENQUANTO ISSO...

Mesmo para quem vive no mundo da lua, como Beronha, é importante ter em mente que há informação e informação. Ou seja, é preciso estar atento – e, se possível, dispor de um repertório razoável para não ser passado para trás. Nosso anti-herói de plantão, por exemplo, contou ter dado o maior vexame em um concorrido restaurante de Santa Felicidade. Lá pelas tantas, dirigiu-se ao banheiro e entrou, evidentemente, no WC que ostentava o aviso “masculino”. Provocou uma tremenda gritaria. Lá dentro.
- Alguém, alguém, tinha trocado as placas, embaralhando a de “masculino”, “feminino” e até a de “fraldário”.
Natureza Morta lamentou o incidente, e não “acidente”, como classificou Beronha. Embora pudesse ter sido. O professor Afronsius acompanhou o voto do relator.
De olho, além da placa
Hoje, no cada vez mais admirável e fantástico mundo novo, ninguém escapa do intermitente bombardeio de informações. Verdadeiras ou deturpadas. Mais do que nunca é preciso estar atento à chancela, ou seja, à origem, à fé pública, à intenção/objetivo e procedência das coisas.
- Não raras vezes, e deliberadamente de propósito, empurram gato por lebre. Ou lebre por gato, tanto faz. É manipulação para esconder o que realmente se passou. Se passa ou vai passar.
Nesse ponto, a tal “informação de cocheira” levou o solitário da Vila Piroquinha a comentar que, embora consagrada principalmente pela briosa, brava e indormida imprensa, perdura a controvérsia quanto à origem da expressão.
Há quem defenda que, no início, o corrente era “informação de coxia”.
- Coxia? Não seria cotia? – interveio Beronha.
- Não, o nascedouro foi o teatro, e, assim, procede. Afinal, foi uma das primeiras formas de comunicação em maior escala. E propósitos.
Um belo exemplo
Máquina do tempo em ação. Na época em que qualquer jornal que se prezasse trazia obrigatoriamente pelo menos uma página dedicada ao turfe, a tal “informação de cocheira” era acatada com respeito geral.
Afinal, os então chamados cronistas de turfe eram altamente sérios e eficientes em seu trabalho. Destaque-se aí a figura inesquecível do jornalista Raphael Munhoz da Rocha, nos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná.
- Não errava um palpite para as apostas em corridas no Jockey Club, então localizado no Guabirotuba. Igualmente não errava quando se tratava da Gávea, Grande Prêmio Brasil – acrescentou o professor Afronsius, citando as famosas “barbadinhas do Raphael”.
De fato. Tanto que, no Concurso Carlos Dietzsch, destinado a apontar o jornalista de maior destaque na cobertura turfística, só dava Raphael. Todos os anos. O jornalista chegava cedinho ao hipódromo para acompanhar (nas cocheiras) o trabalho diário de treinadores, tratadores e jóqueis, medir a pulsação e a temperatura dos preparativos para as próximas corridas. E tornar-se-ia, simplesmente, o maior cronista de turfe do Brasil. Reconhecidamente o maior, o que era endossado, inclusive, pelo pessoal do eixo Rio-São Paulo.
- Para dar uma chance a seus colegas, a direção do Jockey criou um segundo concurso de palpites, paralelo – emendou o professor Afronsius. Fã também do Show de Jornal, na TV Iguaçu, Canal 4, “lá pelos anos 1960/70”, o vizinho de cerca (viva) não perdia o noticiário. Inclusive porque vinham “As barbadinhas de Raphael Munhoz da Rocha”.
Desse modo, e com maior respeito à coxia, Natureza prefere ficar com a informação de cocheira. Ressaltando, porém, que tudo depende da credibilidade de quem a fornece. Da cocheira ou coxia.
- É preciso ficar de olho em que dá ponto sem nó.
ENQUANTO ISSO...

DOP Cucina e Templo da Cerveja promovem beer dinner hoje
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