Segunda-feira, 21/05/2012

Lembro de ouvir pelo rádio partidas emocionantes do Operário lutando para voltar à primeira divisão na segunda metade dos anos 80. Os jogos jamais passavam na tv, ainda mais os da segunda divisão, então não me restava outra alternativa a não ser sintonizar a partida no velho rádio do meu avô e cruzar o máximo de dedos possíveis torcendo por dois preciosos pontos -naquele tempo as vitórias valiam dois pontos.
Meu avô havia sido um operário ferroviário de verdade e sentia um carinho especial pelo time. Ele dizia “para que torcer para time de fora? Temos que torcer pelo clube da cidade”. Foi o bastante para me convencer a torcer pelo Operário. E quando falo em torcer, não é simplesmente torcer para ele ganhar. É torcer para ele ter um time no ano seguinte, torcer para ele conseguir pagar a conta de água, luz e etc. Uma torcida afetuosa, acima de tudo.
Bem, por mais que o Fantasma não estivesse lá essas coisas em campo, aquela camisa de listras pretas e brancas fascinava os garotos da minha época. Todos os meus amigos torciam pelo Operário. Torciam, claro, para clubes do Rio ou São Paulo. No entanto, o Operário sempre teve um lugar de honra entre os átrios esquerdo e direito do pessoal do bairro.
Para nós era incrível ter um time de futebol da cidade. Soube inclusive que alguns colegas de infância no bairro Santa Paula chegaram a fundar torcidas organizadas, e viajam a todos os jogos do paranaense.
Os jogos da segunda divisão daquela época provavelmente não deviam ser lá essas coisas, mas a transmissão do radialista Osires Nadal deixava as partidas épicas e eletrizantes e eu ficava tenso com o ouvido colado no velho rádio do meu avô. Normalmente eram jogos duros que terminavam em 1 a 0 ou 1 a 1. Os principais rivais do Operário naquela luta –acho que isso foi em 87 ou 88- eram sempre a Platinense e o União Bandeirantes. Contra o Café, de Londrina, o Operário se dava bem. Mas Platinense e União era pedras no sapato.
Por falar em pedras, o principal jogador do time era um cara chamado Pedrada. Devia ser o camisa 8 ou 10, a bola sempre passava pelos seus pés, segundo a narração de Osires Nadal. Parecia que haviam uns 3 ou 4 Pedradas em campo. Lembro de outros jogadores dessa época: Charuto, Charrão e o atacante Dutra. Havia um zagueiro chamado Chicão que acho que jogou a carreira toda no Fantasma. O dono do gol era o mítico Pompéia, herdeiro do grande goleiro Dicar. Para mim, ele foi tão bom quanto o Jairo, do Coritiba.
O gol mais bonito da história do Fantasma, e que deve estar na mente de todos os torcedores, foi o gol espírita de Mica em cima do grande Cantarelli, do Flamengo. No final dos anos 80 os cariocas vieram disputar um amistoso em Ponta Grossa. Não trouxeram Zico, Bebeto e outros figuras. Mesmo assim foi 4 a 1 para o Mengo. Mas o gol do Mica...
Quase do meio campo, na lateral esquerda, Mica tentou levantar na área e a bola subiu, subiu, subiu e o vento mágico dos Campos Gerais a conduziu graciosamente para o fundo das redes, encobrindo o quase aposentado Cantarelli. Na Copa de 2002 quando Ronaldinho Gaúcho fez aquele golaço contra a Inglaterra, posso imaginar o Mica cochichando para os netos “ele quis fazer igual ao vovô”.
O bom de ser um torcedor de 13 anos e ouvir jogos no rádio é que, com os 22 jogadores, sua imaginação entra em campo junto e não importa se a partida é da primeira ou segunda divisão, se é campeonato paranaense ou a a Liga da Espanha. Os jogos são mágicos, podem ser o que sua imaginação quiser que seja. E pra mim, na distante Santa Paula da época, eram os jogos mais emocionantes do mundo.
Era para ter algo engraçado nesse texto. Bem, lá vai. Vocês sabiam que eu já fiz teste para ser jogador do Operário? Fui reprovado com quase tantos méritos quanto minhas reprovações em matemática na época. Para o bem do futebol e das canelas adversárias. Em 100 anos eu poderia ter sido o pior jogador da história do Operário, já pensou?
Benett, 30 de maio de 2012

Acho que nos últimos dias chafurdei tanto na política que estou com a cachola meio amortecida, formigando até agora. Tenho medo de desenvolver shell-shock.
É nesses momentos que me procuro me dispersar desenhando tiras em quadrinhos absurdas e pensando ilustrações divertidas para a coluna do Cristóvão Tezza.
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Por falar em humor político, quem diria, fui indicado ao Trofeu HQ Mix.
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Inexistente
Um dos desenhos deste post é do "objeto inexistente", feito para a coluna do Tezza de hoje. Mas também pode ser uma homenagem ao Cachorro e ao Punkada, que não mais existirão.
O Cachorro foi recolhido pela carrocinha da falta de inspiração. E o Punkada rumou para o limbo dos personagens que não serão mais desenhados por seus autores.
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CatDog
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Quantos livros você já largou pela metade este ano?
Não consegui ler nem metade de Um Trabalho Sujo, de Christopher Moore. Larguei, por enquanto, faltando uma dezena de páginas Religião Para Ateus, de Alain de Botton. A Love Supreme também está sendo um parto para terminar, mas este leio páginas aleatoriamente, então tenho esperanças. Também não fui muito longe com Tim Burton, de Peter Woods e nem cheguei próximo de terminar Valsa com Bashir. Mas ainda temos muito tempo até 2013.
Segue o texto publicado no último domingo na Gazeta do Povo. A segunda parte da minha aventura por Brasília. Com desenhos extras, que não couberam na página.

EM BRASÍLIA 19 HORAS
Penúltimo dia em Brasília. Hora de acompanhar o que acontece no lado ciomico, digo, côncavo do Congresso. O lado da Câmara dos Deputados. Onde habitam... Tiririca, Paulo Maluf e grande elenco!

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“Você quer falar com algum político?” “Não, melhor ficar só observando”, respondi. Eu não falo com políticos. Eu não gosto de políticos. Por que deveria me submeter a seus perdigotos, pensei. Millôr Fernandes: “A relação pessoal é um ato de conivência imediata”. Eu acredito nisso. Não tenho nojo de perfigotos. Mas tenho de políticos.

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O fato é que acabamos falando com dois políticos. De todo blablablá consegui filtrar do que disseram, duas frases ficaram. A primeira: “eu tenho um vereador lá na minha cidade”. Claro, muitos deputados criam cabeças de vereador em seus currais eleitorais, por que o espanto? Como sou leigo nessas coisas.

A outra frase, dita por um deputado do Paraná (vai com erro de concordância mesm): “90% das pessoas que está aqui é vagabundo”.
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Se você está no Congresso mas não sabe se está no lado da Câmara dos Deputados ou no lado do Senado, é só olhar para o chão: a única coisa que os difere é o carpete. O do Senado é azul, o da Câmara é verde. Agora, se você for daltônico meu amigo, talvez você fique na dúvida para todo o sempre...
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Ideia para um livro de ficção: Um contínuo entra no Congresso para entregar uma encomenda a alguém e nunca mais consegue achar a saída de volta, ficando lá preso para sempre e desenvolvendo todo tipo de trauma psíquico. O André Gonçalves ficou de escrever a história e eu de ilustrá-la.
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Besteira esse negócio de carpete verde na Câmara. Aquele lugar, para alguns, não passa de curral político. Então acho que se jogassem serragem estaria de muito bom tamanho.

A primeira coisa que vejo no plenário da Câmara é uma daquelas cenas que parecem saídas de um esquete do Justo Veríssimo, de Chico Anysio: um deputado escorre toda sua demagogia em um discurso viscoso para a assombrosa plateia de UMA pessoa. O tema? Realismo fantástico: como o senador José Sarney levou o desenvolvimento para o Maranhão!
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Pela sua descrição o Maranhão tem o IDH da Holanda, a renda per capita da Noruega e sua economia é mais ou menos do tamanho da Alemanha. Tá, e eu me chamo Stanislaw Ponte Preta e estou agora escrevendo um capítulo do Febeapá.

Cruzo duas vezes com ACM Neto pelos corredores. Ele é realmente baixinho. É praticamente um hobbit. Aquele terno com riscas de giz faz ele parecer um integrante da Quadrilha da Morte, aqueles gangsters nanicos que faziam a segurança de Penélope Charmosa no desenho da Hanna-Barbera, lembram?

Vemos o Tiririca em ação. A concentração dele é toda para não bocejar na frente da ministra da Cultura Ana de Hollanda, que presta contas aos deputados sobre alguma besteira que fez. Tiririca tem a atenção de um lontra numa ópera de Leoncavallo. O que o mantém mais ou menos esperto é o fato de estar sendo tietado por fotógrafos e bajuladores profissionais. Ele dá sorrisinhos, faz sinal de positivo, pisca e faz aquele beicinho clássico. Se pudesse jogava uma bolinha de papel na cabeça de Stepan Nercessian, o menino levado que sentado ao seu lado.
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Fui sacar dinheiro num caixa eletrônico dentro da Câmara. Passaram uns caras de terno e gravata e chamando uns aos outros de excelência. Fiquei com medo de cair no golpe da saidinha.
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Hoje é dia de votação no plenário. A Lei sobre liberação de bebidas nos estádios está em pauta. Há a muvuca de sempre, todos ao redor dos microfones, defendendo a mais nobre de todas as causas: a causa própria.
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É estranho estar ali. É estranho chegar perto de Anthony Garotinho, ver Inocêncio de Oliveira, João Arruda, Paulo Maluf, todos muito próximos uns dos outros. Me lembrou aquele filme Warriors- Guerreiros da Noite, que começa há uma convenção de gangsters de todo lugar do país.

O epíteto de alguns deputados devia ser “condenado” ou “investigado”. Depende do grau de importância do sujeito.
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Os chargistas desenham políticos como ratos, abutres, hienas, porcos. Chamam-nos de ladrão, mau caráter, corrupto. E eles nem dão bola. A partir de agora vou começar a chamá-los de “honesto” para ver se se eles ficam bravos.

Fiquei a dois polegares de Paulo Maluf. Achei que seria como me aproximar de Pat Garret ou Clyde, de Bonnie & Clyde. Mas não. A sensação foi exatamente ao contrário. Senti um certo desprezo. Me pareceu mesquinho, abraçando e fazendo piadas com outros deputados. Aliás, foi a mesma coisa com Renan Calheiros. Não era como se eu estivesse perto de alguém com a aura de um Vito Corleone. Não, eram apenas duas criaturas bivalves que estavam ali na luta pela sobrevivência da espécie.
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Se me perguntarem: o Congresso brasileiro funciona? Funciona, mas é como se fosse um transatlântico a base de manivela. Tudo é lento, complicado, frágil, suspeito, burocrático, atravessado. Mas sou otimista crônico e acho que, mesmo com essas pessoas conduzindo o transatlântico, ainda temos alguma chance de incluir positivamente as palavras “Brasil” e “civilizado” numa mesma frase.
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Em frangalhos. Os dias no Congresso são longos como os corredores do parlamento. Antes de dormir os nomes dos políticos povoam minha cabeça na voz de Alexandre Garcia. Mozarildo. Epitácio Cafeteira. Demóstenes Torres. José Agripino. Nomes que ouço há décadas na tv. Fico com medo de sofrer de Shell Shock depois de visitar o Congresso.

Fim de história. Hora de voltar para a casa, cansado, exaurido. Políticos me dão asco.
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Agradeço a André Gonçalves pela companhia e assistência e Marcos Tavares, pelo terno emprestado.
FIM

Para quem não viu na Gazeta do Povo ou nos sites, blogs e redes sociais, segue minhas impressões sobre o Senado -esim, estive em Brasília, espiando- em forma de quadrinhos. As cores e letras são uma homenagem ao Millôr Fernandes que, ao que me parece, com seu trabalho e postura profissional, formou o caráter da maioria dos cartunistas brasileiros pós ditadura militar.

André Dahmer ministra Oficina de Cartum na BPP

Estão abertas as inscrições para a primeira edição da Oficina BPP de Ilustração. Ministrada pelo quadrinista André Dahmer, a oficina trabalhará o Cartum, um dos estilos de humor gráfico em que o criador da tirinha Malvados se destaca na internet brasileira já há alguns anos.
A oficina acontece nos dias 25, 26 e 27 de abril. Os interessados tem até o dia 20 de abril para enviar e-mail para o endereço oficina@bpp.pr.gov.br. As primeiras 30 pessoas que se inscreverem serão selecionadas.
Ainda neste ano, a BPP promove outras quatro oficinas de ilustração. Em junho, é a vez do cartunista Allan Sieber trabalhar o tema Roteiro para Quadrinhos. Em agosto, Rafael Campos Rocha fala sobre Ilustração Editorial. A oficina de Tiras, com Benett, acontece em outubro, e a de Cartaz, com Ricardo Humberto, em novembro.
O cartunista
Carioca nascido em 1974, André Dahmer já teve suas criações publicadas no Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, no portal de internet G1 e nas revistas Piauí e Caros Amigos. O humor negro como crítica politicamente incorreta aos dias de hoje é uma constante em seu trabalho, especialmente em Os Malvados, sua tirinha mais conhecida. Além desta, o cartunista também é conhecido por ter criado o personagem Emir Saad, um ditador sádico e egocêntrico que governa o fictício reino do Ziniguistão. Entre um e outro de seus personagens, Dahmer se coloca como personagem autobiográfico e satiriza suas próprias memórias e paranoias.
Serviço
Oficina BPP de Ilustração - Cartum, com André Dahmer
Dias 25 a 27 de abril de 2012, das 14h às 18h.
Inscrições: até 20 de abril de 2012, pelo e-mail oficina@bpp.pr.gov.br.
Na Sala de Reuniões, no terceiro andar da Biblioteca Pública do Paraná (Rua Cândido Lopes, 133, Centro, Curitiba-PR), (41) 3221-4974.
Inscrições gratuitas. Vagas limitadas.
Brasília, 22 de março de 2012
A primeira pessoa "notória" que encontrei quando cheguei ao senado foi o Renan Calheiros. E ele é assustadoramente a cara do David Letterman. É como se ele fosse uma espécie de irmão gêmeo maligno do apresentador americano, mandado para longe (Alagoas), para não causar problemas para a família.
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Quase não acreditei. Fiquei e menos de meio metro do mito Paulo Maluf. Não chego tão perto de um bicho peçonhento desde que visitei aquelas cobras do Passeio Público.
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50% das pessoas que estão em Brasília estão fazendo algum tipo de lobby. As outras 50% estão sofrendo algum tipo de lobby
No congresso uma cena deprimente: o deputado Francisco Escórcio discursava para um plenário tão vaqzio quanto as palavras dele. Havia somente um deputado ouvindo o blablablá e que, por sinal, era citado no falatório. E sobre o que era o discurso do ancião deputado maranhense Francisco Escórcio? Adivinhou: sobre o prospero e pungente estado do Maranhão e seu dono, José Sarney. Taí porque ninguém estava lá ouvindo...
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Uma das coisas asquerosas por aqui é um certo clima de reverência irônica que os políticos fazem entre si. A palavra "nobre" vem carregada de um sarcasmo particular que parece que quer dizer "não sei qual de nós dois é mais sujo e eu te felicito por não estar atrás das grades".
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Se eu pudesse, faria um reality show no Congresso ou um desenho animado sobre a vida de um taquígrafo. Aliás, que profissão sofrida. Quem é que quer ser taquígrafo no Congresso? Aguentar as sessões nos plenários não é profissão, mas sim uma espécie de punição.
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Ouvi de um deputado ontem: "90% dos que estão aqui são vagabundos". 90%!!!!
Brasília, 19 de março de 2012
Um Dia Muito Esquisito
ou
A Odisseia de Uma Credencial de Jornalista
Quando penso na burocracia estatal imagino um daqueles monstros gigantes feito de algas surgidos de um acidente radioativo que lutava com o Spectremen (mais novos procurem no Google, please). O monstro tinha sempre um aspecto flácido, parecia pegajoso e se movimentava de forma lenta, quase se arrastando. Hoje, ao tentar tirar minha credencial prvosiória para escrever matérias "fofinhas" no Senado, me senti numa nave microscópica sendo enviado para as entranhas desse monstro radioativo flácido, pegajoso e que se move de forma lenta, quase se arrastando. Um crossover de seriado japonês com filme do Denis Quaid.
O chefe do credenciamento achava que eu não era jornalista mesmo com meu diploma em mãos. Ele me pedia uma matéria assinada recentemente. Não valia charge. Mostramos, o André Gonçalves, correspondente da Gazeta do Povo em Brasília testemunhou tudo, uma reportagem em quadrinhos. Não, isso não é jornalismo, é cartum. Ele já estava com meu registro profissional, RG, CPF, endereço, carta de solicitação da credencial assinada pela editora chefe do jornal... o que mais eu tinha que fazer, escrever uma matéria sobre como a falta de informação de informação pode complicar a vida de terceiros?
Por fim ele passou a bola para outro chefão que se sensibilizou: "Isso é Jornalismo, ok, ok". "Você vai espezinhar o Senado", disse. "Prometo ser imparcial", respondi. "É que você não faz ideia da quantidade de picareta que aparece por aqui", falou saindo da sala. " Pelo jeito eles se atraem", respondi me certificando que ele não ouviria.
A vantagem é que eu realmente não me irrito com situações surrealistas. Acho engraçadas. Por exemplo, a quantidade de vezes que tive de me cadastrar e passar no detector de metais foi uma coisa de louco. Se eu pisasse numa sala, tinha de entregar RG, CPF, endereço, teste da orelhinha...
O que valeu a pena foi que presenciei o discurso de um deputado maranhense enaltecendo o Sarney que valeu a pena. Ainda mais que haviam apenas dois deputados ouvindo. Os dois eram citados no discurso.
No final, me senti como naquele filme Depois de Horas em que um monte de acontecimentos sem sentido vão conduzindo sua vida para um lugar que você não sabe ao certo onde é.
Por fim, depois de horas, consegui minha credencial e, vejam só, quase perdi no táxi no trajeto de volta para o hotel. Sei que se isso acontecesse teria sido o final perfeito para um dia muito esquisito. Mas eu não daria esse gostinho para o azar.
Benett
P.S. - texto escrito sem revisar

Um grande amigo meu foi embora. Victor Folquening, uma das pessoas mais entusiasmadas com a vida que conheci, foi vítima da violência do trânsito curitibano. Ele era bem humorado, engraçado, espantosamente inteligente e culto. Mais do que tudo, era um cara íntegro, autêntico e generoso. Para lembrá-lo, segue uma série de tiradas e outras memórias que tenho de nossa longínqua convivência, que começou quando tínhamos 6 anos de idade e terminou, precisamente, há 15 dias.
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Professor em sala de aula, na 6ª Série do colégio Elzira Correia de Sá, em Ponta Grossa, ao ver o aluno mal humorado: - O Victor pelo jeito amarrou o burro.
Victor: - É, e você se soltou.
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Malaco dos grandes crescendo o olho para dentro do muro da casa do Victor: - Esse engradado de cerveja posa aí?
Victor: - Não, ele posa lá dentro na minha cama. Quem posa aqui sou eu.
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Malaco que tentava tirar onda de sua cara: - Quando você joga seu cabelo para trás ele pára?
Victor: - Não, ele sai correndo.
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Foi o Victor Folquening quem me acompanhou quando fui mostrar meus desenhos para o cartunista Ireno, em Ponta Grossa. Tínhamos 15 anos na época, e ficamos fascinados com o estúdio do cara. E mais ainda, pela receptividade do cartunista. Anos depois, o Victor escreveu um texto lindo sobre o Ireno, quando este ganhou o Salão Carioca de Humor.
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Mais ou menos nessa época fomos juntos comprar nossos primeiros discos de jazz. Não tínhamos ideia do que estávamos adquirindo, fomos escolhendo pela capa. Eu comprei o Uptown, do Duke Ellington e um disco do Leadbelly. O Victor acertou em cheio nas escolhas: Miles Davis Milestones (pode ter sido o Miles Ahead, não lembro direito) e o Side by Side, de Duke Ellington e Johnny Hodges. A partir daí, sempre empenhamos nosso miserável salário de balconistas em discos de jazz e blues.
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Quando trabalhamos juntos numa locadora de vídeo, estávamos no paraíso: tínhamos todos os filmes à nossa disposição. A grande ironia da vida é que nem eu, nem ele, tínhamos vídeo cassete (é, era no tempo das VHS). E sempre precisávamos ir na casa de alguém para assistir um filme. O que nos transformou em pessoas ligeiramente interesseiras.
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Quando conheci o Victor ele estava sempre num campo baldio cavando um buraco. Eu passava todo dia por ali a caminho da escola e ficava intrigado com aquele garoto. Um dia resolvi perguntar o que ele estava fazendo. "Cavando uma armadilha". Ficamos amigos na hora. Isso foi em algum momento de 1980.
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No dia 7 ou 8 de janeiro de 2007 publiquei minha primeira charge na Folha. O Victor foi até em casa e saímos para almoçar. Ele adorou a charge e aquilo, para mim, significava uma espécie de vitória nossa, de nossas ideias, de nossos projetos.
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Na escola fazíamos gibis em cadernos e trocávamos por réguas e canetas. Quando ficávamos com preguiça de terminar uma história, simplesmente arrancávamos as páginas e escrevíamos "FIM" abruptamente nas folhas. Lembro do nome de alguns desses gibis: O Furo, O Corvo, Almanaque UGA e coisas assim.
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Tínhamos outro amigo em comum, o James Sádico, hoje chargista do Jornal da Manhã. Tinham outros caras que desenhavam, o Lucio Mauro (artista plástico falecido há alguns anos), meu irmão Ricardo Humberto e o Carlo Rogerio Prestes, que desenhava super-herois. Éramos uma gangue de nerds.
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Quando trabalhava no Jornal da Manhã, em Ponta Grossa, Victor escreveu uma matéria sobre um político envolvido em corrupção chamado Messias. Ele bolou uma charge para eu desenhar: As três cruzes no gólgota e a legenda: o Messias é o da direita.
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Sempre tentei convencê-lo a ser cartunista, acho que o traço dele daria para algo como Jules Feiffer, de quem ele era fã.
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Na UEPG ele tinha um grupo musical de "air jazz" chamado Quarteto Octeto, formado por ele e mais um cara, o Ricardo Staut. Naquela época fizemos um zine chamado Woody Allen Tribune.
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Tem um texto dele chamado "Etiqueta para Jaguatiricas" na Zongo Comix. O título "O Nada ao Contrário", na capa da Zongo, foi criado pelo Victor.
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Aos 12 anos de idade ele escreveu essa música:
"Dependurarei-me na árvore mais alta/
E meu lindo pezinhos balançarão/
E quando os passarinhos chegarem fazendo festa/
Meus olhinhos castanhos comerão/
Farão ninhos com os fios dos meus cabelos/
e comerão até carcomerem o meu nariz/
Que alegria será do meu estômago/
Quando os pardais pedirem bis.
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Dois dias depois de conhecê-lo, sua mãe foi lá em casa me perguntar sobre o Victor. Ele tinha sumido. Apareceu horas depois, todo sujo e rasgado. "Tinha ido fazer uma expedição para caçar águias".
Esse era o Victor aos 6 anos. Mas podia ser aos 38 também.
Benett
Estou de férias. No andar de cima, a reforma da vizinha já dura 20 dias. Ao lado, uma britadeira incessante destrói lentamente minha paciência há quase uma semana. Em todos os cantos os cachorro latem como se fossem buzinas repetidas infinitamente. Na garagem, dispara o alarme do carro de um morador do edifício. Em frente de casa, um congestionamento monstro rege a sinfonia de motores ligados e buzinadas impacientes. A vendedora de dvds pirata não perde o fôlego ao anunciar "os mais novos lançamentos do cinema". Os caminhões retirando terra da construção na quadra de baixo passam acelerando alto, junto ônibus, motos e aquelas estúpidas caminhonetes tocando dance music/sertanejo em volume igualmente estúpido. Ah, agora uma furadeira ronca as paredes de casa. Talvez ela esteja tentando encobrir a música que vem do vizinho de cima do vizinho de cima. Ouço, longe, o carro sonho parado. (Se ele está sempre parado, porque vive dizendo que está "passando"?) Em meio a tudo isso, ainda consigo distinguir o barulho da chuva batendo no vidro da minha janela. E sinto uma felicidade indescritível.
P.S. - Curitiba está cada vez mais suja, violenta, corrupta e barulhenta.
Cachorro

Ilustrações publicadas na Gazeta do Povo ao longo do mês.
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e mais uma do Cachorro


Todo mês de janeiro eu lembro do primeiro cartunista de carne e osso que conheci na vida: o Ireno. Já escrevi sobre ele aqui antes. Foi em janeiro de 1998 que ele nos deixou. Nunca vou esquecer o dia em que um amigo meu chegou em casa e me deu a notícia. Eu fiquei atônito! Senti muito por isso. No encontramos apenas uma 4 ou 5 vezes, mas eu era seu fã e recortava seus desenhos do jornal.
Boleslau, personagem do Ireno que tentei redesenhar de memória...

Ontem a noite estava pensando no Ireno novamente. Se ele estivesse um pouco mais de tempo por aqui, tenho certeza que a internet iria colocá-lo em seu devido lugar como um dos grandes cartunistas do Brasil. Ele tinha cartuns tão legais, tão sutilmente engraçados. Um traço tão primoroso, elegante, econômico. Coisa que nunca consegui atingir com meus desenhos toscos.
O que me deixa frustrado é saber que o Ireno nunca pode lançar um livro com seus trabalhos. Acho que a cidade de Ponta Grossa deve isso a ele, à memória de um grande artista da cidade.
Vasculhando a internet em busca de referências sobre o Ireno - só achei um texto meu e uma comunidade do Orkut, que foi de onde roubei educadamente a foto dele- encontrei enfim o começo do reconhecimento: A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo publicou edital do Concurso Nacional de Histórias em Quadrinhos Ireno José Guimarães.
Sensacional. O Ireno ficaria feliz em saber que vai continuar influenciando novos desenhistas. Você pode obter mais informações aqui!
Mas ainda acho que cidade devia construir uma estátua de bronze do Boleslau, nos mesmos moldes que fizeram com os personagens do Schulz, em Santa Rosa, nos EUA. Clica aqui para ver.
Algumas ilustrações que tenho feito para a Gazeta do Povo...
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DOP Cucina e Templo da Cerveja promovem beer dinner hoje
ATUALIZADOhá 1h
ATUALIZADOhá 2h
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