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Quinta-feira, 28/08/2008
Reprodução site Francis Hime/autoria não informada
LANÇADO HÁ 26 ANOS, DISCO DE FRANCIS HIME É REEDITADO: SONORIDADE DE UM GRANDE CONSTRUTOR DA MÚSICA BRASILEIRA, QUE IMPRIME ASSINATURA NAS MELODIAS E ARRANJOS ESSENCIALMENTE ACÚSTICOS Alguns compositores me chamam a atenção pela forma como arquitetam suas melodias. Ouço quantas vezes forem necessárias – o tempo é quando! – a canção, tento compreender o “desenho”, as harmonias desenvolvidas a partir de uma célula melódica, a criação. As modulações de Francis Hime me instigam!
O primeiro disco dele que me caiu às mãos – ouvidos? - foi “Sonho de moço”, de 1981, em fita cassete. O lacônico “Francis”, do ano anterior, veio de uma em “sociedade” com Paulo, amigo meu. Morávamos em república. Ele ficou com o vinil e eu com o K7. Saíram de catálogos os projetos. Ficaram as músicas na cabeça, no coração, soltas no ar...
Francis, né? Seguinte: a Biscoito Fino reeditou “Pau Brasil”, sexto disco de Francis Hime lançado há 26 anos. Essencialmente acústico, o álbum tem leveza e transparência, adjetivos tão bem sintetizados no texto assinado por Aretuza Garibaldi, em 1982, e requentado no atual material de divulgação...
“Pau Brasil” é um projeto solar, conciso refinamento sonoro proveniente da fusão de alguns gêneros musicais. A começar pela faixa-título, parceria com o poeta Geraldinho Carneiro. Salsa enviesada com paso doble, na segunda parte. Aliterações evidenciadas pelo sotaque carioca de Francis (“era uma vez uma floresta cheia de festa e/ balangandã/ na noite fresca carnavalesca brilhava a estrela / Aldebarã). Contrastante melodia revestida com versos em referência às “rosas” de Gertrude Stein no estribilho: “uma maçã é uma maçã é uma maçã é uma maçã”.
Outro roçar de ritmos: “Cada canção”, vai da toada ao samba-choro com impressionante naturalidade. É de Francis e Olívia Hime, mulher e parceira, com quem inclui “Mente”, blues não muito, digamos, ortodoxo. Dos primórdios, Francis resgatou “A grande ausente”, feita com Paulo César Pinheiro e apresentada no Festival da Record, em 1968. Modulações magníficas, frases delicadas, constatações aparentemente simples da letra: “O amor parou e ela seguiu”.
Reprodução
COM DOZE FAIXAS, “PAU BRASIL” TEM DUAS PEÇAS INSTRUMENTAIS, FUSÃO DE GÊNEROS E PARCERIAS COM GERALDO CARNEIRO, CACASO, PAULO CÉSAR PINHEIRO, CHICO BUARQUE E VINICIUS DE MORAESCom o poeta Cacaso (1944 – 1987), “Pau Brasil ganha volume”. Quatro parcerias, entre elas a irreverente e calangueira “Língua de trapo”. Queixumes por uma certa desaforada, “má-dona, a filha de uma da zona”. O disco traz “Embarcação”, das mais perfeitas melodias de Francis com letra de Chico Buarque. Versos doídos tão bem encaixados na música. A música!
“Pau Brasil” tem cordas parcimoniosas. Nelas as cordas, enxutas ou exuberantes, Francis Hime - 69 anos, 44 anos de carreira, 17 discos e tantinho de DVDs gravados - imprime também assinatura. No álbum, há participações de instrumentistas em ascensão: Raphael Rabello (violão 7 cordas), Márcio Mallard (cello) e Jamil Joanes (baixo), além de Jane Duboc (backing vocal). Armadinho no bandolim elétrico destaca-se no frevo “Luar do Japão”. Show de solo!
“Pau Brasil” volta às bancas masterizado a partir da transcrição da fita matriz original, até então pertencente a Som Livre. Não se pode afirmar categoricamente ser o melhor disco de Francis Victor Walter Hime, carioca. Brilhante sim.
Talvez porque "Pau Brasil" seja do deus Tupã, cunhã e da maçã...
* Saiba mais sobre a trajetória de Francis Hime no endereço: www.francishime.com.br
Reprodução livro "Dorival Caymmi - o mar e o tempo"
DORIVAL CAYMMI DECLAROU CERTA VEZ: “ SEMPRE CHEGA AQUELE DIA EM QUE VOCÊ SABE QUE ESTÁ RUIM MESMO, FECHA OS OLHOS E VAI. E VAI COM PLENA CONSCIÊNCIA DE QUE ESTÁ INDO”“POBRE DE QUEM ACREDITA NA GLÓRIA E NO DINHEIRO PARA SER FELIZ”
(DORIVAL CAYMMI)
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Foi Júlio, taxista e homem de impressionante sensibilidade musical, quem deu a notícia tão logo entrei no carro. Era de manhã, pensamentos se reordenando, cabelos molhados, sono ainda. Mais um dia de trabalho pela frente. O motorista esperou eu colocar o cinto de segurança, raro silêncio de meia quadra... Sinal fechado! Baixou o volume do rádio.
- Você soube que o Caymmi morreu? Por qual caminho nos vamos?
- Dorival Caymmi morreu? Quando foi que ele morreu?
- Vou pegar a Espírito Santo, pode ser?
- Caymmi morreu?
- Morreu...
- Sério, Júlio? Meu Deus! Jesus!
- Ouvi agora há pouco... Chato, né?
- Triste... Posso acender um cigarro?
- Pode.
Tragadas vigorosas. Uma vontade de chorar, aquela coisa de “me deu um negócio estranho por dentro”. Eu tão entregue às coisas que a vida vem me remetendo em série ultimamente. A cidade vinha. Fui ficando num silêncio absurdo. Não refleti sobre a vida e morte, algo comum a essas situações de pavor. Outro sinal fechado. Joguei os olhos fora.
- Pega a Castro Alves, Júlio!
- Nossa, Júnior, cê está triste?
Estava triste. Estou Triste. Não abalado, triste. Não desesperado, triste. Tristeza não pede acréscimos. Triste! Cheguei ao trabalho, um café – raramente tomo -, outro cigarro e a pergunta aos primeiros: “Dorival Caymmi morreu, vocês viram?”. Viram na televisão. Nenhum comentário sentido ou comovente. Nem um “putz” ou "pois é". Morreu. A morte dói mais próxima.
Talvez Lufã me falasse palavras mais ou menos sentidas. Torpedo: “Tô triste! O mar perdeu seu cantador: Caymmi”. Retorno, voz.
- Não entendi o que você escreveu
- Caymmi morreu!
-...
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”Ioiô falou de mim?”, recordou Dona Maria dos Palcos! “Meus companheiros também vão voltar”. Rosa. Ventos.
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Dorival Caymmi, carne do Brasil, músculo do Bahia. De todos os Santos. Aiyê/ Orun. Sábado, dia de Oxum e Iemanjá – águas dourada e verdazuis-sal -, 16 de agosto de 2008. 94 anos. Sinhozinho (Solange lembrou esse termo) das singelezas, olhos de tantas ondas. Canções praieiras, urbanas. Ori ungido por Xangô e Iemanjá. Kawó Kabyesilé, Odô iyá. Oba de Xangô, título da roça Axé Opó Afonjá. Irmão de esteira de Carybé e Jorge Amado.
Vamos chamar o vento?
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Buda Nagô. “Gosto desse título. É um misto de África, Bahia e Índia, ou seja, aquele sorriso, aquela sabedoria... Eu tenho muito disso”, comentou com candura sobre a música que Gil fez em sua homenagem. Dorival é impar, Dorival é par. A voz de Caymmi ao telefone.
Fato: Stella Caymmi estava escrevendo a biografia do avô (“Dorival Caymmi - o mar e o tempo”, Editoria 34, primeira edição em 2001). Em Salvador, 1999, comentei com um colega jornalista o fato. Contou-me que demorou um bocado para entrevistar Dorival. Que estava passando uma temporada numa casa em Pequeri, Minas Gerais, por conta da recuperação de sua mulher, Dona Stella Maris.
- Me dá o contato dele, você tem?
Tinha. Passou o telefone de uma senhora muito amiga da família Caymmi mediante a recomendação de que fosse bem discreto na abordagem. Fui. Liguei. A senhora – cujo nome sinceramente não me lembro – falou que Dorival e Stella eram amáveis, que os conhecia há muito tempo, que isso e aquilo e que e que e que... tinham retornado ao Rio de Janeiro.
- A senhora poderia me passar o telefone?
- Será? Olha lá, hein!?
Falei para Célia, minha editora, sobre o fato.
- Vamos fazer essa matéria para domingo?
Liguei. O telefone chama, chama, chama: “Alô”. Apresento-me à empregada, digo o que quero, que falaria rapidamente e que e que e que e que... “Um momento”
O momento:
- Alô?
- Dorival?
- Sim...
Nova apresentação.
- Prometo não tomar muito seu tempo...
- Fique à vontade.... Você é de Londrina?
- Sou sim. A Bahia está viva ainda lá?
- Ah, essa frase é minha, por isso, desculpe o excesso de vaidade... A Bahia está viva ainda lá, com a graça de Deus ainda lá.
Caymmi em prosa. Quase uma hora de entrevista. Esperava um “não” ou algumas “ palavrinhas” . Palavrinhas? Hum, volumes de reflexão. No final da entrevista, me pediu:
- Você poderia me mandar um xérox do sua reportagem? Anote meu endereço...
Achei tão simples a palavra xérox. No envelope, alguns exemplares. E agradecimentos. Amor!
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Entrevista emoldurada. Na parede. Vira e mexe passo o dedo indicador e a leio.
Existe uma fórmula para o homem se feliz?
Não existe uma fórmula. Você tem que condensar uma porção de coisas e eliminar da mente, de preferência na meditação noturna ou no amanhecer ou numa caminhada solitária, os pensamentos marrons. É preciso eliminar os pensamentos escuros; tem que ficar com a mente no azul, no verde claro, no branco, na paz. Tem que usar todos os sentidos para ver a beleza, sentir a beleza. Tem que definir bem o que cheira bem e o que não cheira bem. Ir sempre para o lado da rosa.
A morte lhe assusta?
Não, não me assusta porque a morte é condição natural como o nascimento. A gente adquire o conhecimento de que vai morrer um dia. Nascer para mim é que continua sendo um mistério por mais que a ciência explique. Agora, sempre chega aquele dia em que você sabe que está ruim mesmo, fecha os olhos e vai. E vai com plena consciência de que está indo.
Reprodução livro "Dorival Caymmi - o mar e o tempo"
AUTO-RETRATO DE DORIVAL: ARTISTA COM TRAÇOS E CORES BEM DEFINIDOS DEIXA CONSISTENTE LEGADO PARA A MÚSICA BRASILEIRA
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É noite em Londrina. José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski – pescadores de pérolas. Aos poucos. Ribalta do Teatro Ouro Verde iluminada; público respeitoso; poesia nas letras das canções. Muito silêncio. O silêncio das noites de luto cheias.
Wisnik interrompe o transcurso natural do roteiro:
- 16 de agosto de 2008. O dia em que Dorival Caymmi se tornou, definitivamente, música: “Coqueiro de Itapuã, coqueiro... “
Hai-kai de Buda Nagô. Pouquíssimas palavras evocando turbilhão de imagens- sensações: coqueiro, areia, morena, vento, flor. Águas (salgadas). Eu nunca tive saudade igual, Caymmi. A jangada voltou só no mar dos meus pensamentos. Cantei com Wisnik o réquiem que brotou de seus dedos, no sagrado violão. Quem nos trará notícias daquela terra? Eu nunca fui à Bahia, meu nego. Foi ioiô - homem de bom peito; pra cantar não tinha vez - quem me trouxe todos os cheiros, gostos e visões desta gente morena.
No bis , “ Maracangalha”. Londrinenses em coro. Caymmi em domínio público. Wisnik de uniforme branco. Diz a lenda que ele demorou sete anos para finalizar “Maracangalha”. O que se faz com tempo, o tempo respeita, sim. Dorival sabe exatamente a extensão do eterno. Pouquíssimas canções ao longo da vida: todas para sempre.
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“E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra
Não há.”
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"Se sabe que muda o tempo, sabe que o tempo vira, aí o tempo virou"
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O Brasil todo – até aquela parcela afeita a obituários e comoções voláteis – já sabe que Caymmi fechou os olhos, deixou 120 músicas registradas em 20 discos solos. É por aí... Minha casa em silêncio está; sem disco, sem som, sem harmonia.
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Dorival, eu sinto muito...
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(Colaborou o jornalista Renato Forin Jr.)
DANIEL DÓREA
EM “CIDADE E RIO”, O COMPOSITOR E PESQUISADOR BAIANO ROBERTO MENDES IMPRIME PROTESTO E LIRISMO PARA FALAR DAS “PESADAS” ÁGUAS DO RIO SUBAÉ E DAS RIQUEZAS RÍTMICAS DA TERRA NATAL: “O DISCO É UM CANTO DE MEMÓRIA”Baiano de Santo Amaro da Purificação, o compositor e pesquisador Roberto Mendes, 55 anos, só deixa a terra natal para cumprir compromissos profissionais.
”Bicho-do-mato”, retorna o mais rápido possível a seu povo marcado pelas tradições culturais e perversos despejadores de toneladas de Cádmio e Chumbo no rio que banha o município. “Desgraçaram a cidade inteira”, diz ele com veemência, referindo-se à Cobrac, subsidiária da empresa francesa Perranoya Oxide S/A.
O rio Subaé é ponto de partida de “Cidade e rio”,nono disco de Roberto Mendes dedicado a Santo Amaro e a Maria Bethânia, que desde 1983 dá voz às muitas águas - plácidas, inclusive - e confluências rítmicas do compositor. “Eu componho pensando nela”, admite.
A capa de “Cidade e Rio” remete imediatamente a “Pirata”, lançado por Bethânia em 2006 e de onde foram reeditadas “Memória das águas” (letra de Jorge Portugal) e” Francisco, Francisco” (poema de Capinan).Do “Mar de Sophia”, o desdobramento de salgadas águas, foi selecionada “Beira-mar” (com Capinan). Outro diálogo restabelecido com a "voz" das suas canções: "Esse sonho vai dar", de 1984.
O conceito de “Cidade e rio” apóia-se também no acento da chula, gênero musical nascido da mestiçagem portuguesa, africana e brasileira. A sobrevivência dessa manifestação popular, principalmente no recôncavo baiano, se deve a Roberto Mendes. Juntamente com o jornalista Waldomiro Júnior, lançou recentemente "Chula - comportamento traduzido em canção”. "A chula é música orgânica, comportamental", sintetiza o pesquisador.
Com andamento de chula e citação de “Peixe vivo”, “Purificar o Subaé” (Caetano Veloso) é a única faixa não autoral do disco de Roberto Mendes, que apresenta músicas confeccionadas com parceiros bissextos: Nelson Elias (“Linda morena”) e Herculano Neto (“Deu saudade”).
Convidados foram os violonistas Guinga e Marco Pereira, além do violoncelista Márcio Mallard. Leonardo Mendes, co-produtor e filho de Roberto, imprimiu leves e inovadoras sonoridades acústicas. Pedro Luis e a Parede e Lenine ajustaram-se perfeitamente a “Cidade e rio” sem ofuscar as raízes primárias de Alcione e do Grupo de Chulas de São Braz. “Não faria essas coisas modernas por falta de competência”, diz o compositor bem-humorado.
"Cidade e o rio" tem narrativa substanciosa. “Bom começo” é tão bonita quanto reverencial, melodia e palavras: “Bom começo de todo começo, senhor do meio e do fim/ Oxalá! / Nunca eu fique sozinho”. Lindo isso!
"Cidade e o rio" é trabalho de um músico de rara sensibilidade. De um homem extremamente interessante, que deixou de ser professor de matemática para se tornar um formador e informador musical.
A seguir, trechos da entrevista que Roberto Mendes concedeu ao blog Sintonia Musical.
“Cidade e o rio” tem um tom de denúncia, certo?
O disco é um canto de memória. Eu convivo com a degradação, com a linha evolutiva que Santo Amaro tem passado por conta de uma empresa francesa que desgraçou a cidade inteira. Não devemos aceitar esse progresso cruel! Essa visão “civilizada” de progresso tem destruído de maneira violenta a nação brasileira. É um processo muito sério! Temos o Brasil oficial que é tão ausente do Brasil real que se cria, entre um e outro, o Brasil clandestino.
O disco conserva as tradições musicais do recôncavo baiano, mas há uma sonoridade moderna que não arranha seu trabalho. Como se deu isso?
Essa parte moderna foi feita em especial pelo meu filho, Leonardo Mendes. Eu jamais faria isso por falta de competência. Todos os convidados foram brilhantes. De Guinga, costumo dizer que a canção o escolheu para representá-la na terra. Já Lenine eu gosto o pela capacidade de conservar o sotaque dentro de um conceito moderno.
Reprodução
COM DOZE FAIXAS, ÁLBUM TEM PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS DE GUINGA, PEDRO LUÍS E A PAREDE, LENINE, ALCIONE E GRUPO DE CHULAS DE SÃO BRAZ: TRADIÇÃO COM LEVE SONORIDADE CONTEMPORÂNEACantor, compositor e pesquisador, podemos assim sintetizá-lo?
Sou um artista, um trovador que fala com paixão pela minha terra. Minha criação artística é sustentada pelo seguinte binômio: a cidade de Santo Amaro e Maria Bethânia, que dá voz ao meu canto. Eu me tornei uma ponte para quem quer voltar porque nunca quis sair daqui de Santo Amaro. Nem sairei.
Não é muito “provincianismo” pensar dessa maneira?
Acho que sim... Eu não consigo ver o mundo através dos meus próprios olhos; eu o vejo através dos olhos dos que saíram como Jorge Portugal, Capinan, Caetano, Gil, Bethânia... Fui a Cuba no ano passado e depois de cinco dias eu me toquei que não tinha ligado para Santo Amaro. Deu-me vontade de ir embora porque não admito ficar numa cidade e sentir saudade da minha.
(risos) Interessante essa conclusão...
Isso não pode acontecer, é uma traição. Eu adoro Santo Amaro, é minha vida e minha alma.
Por você faz música?
O que me levou à música foi a perda meu pai. Eu tinha 13 anos de idade e fiquei com uma dificuldade imensa de entender essa perda. Fui para a matemática, dei aulas, mas essa razão cruel me cansou. Com a música houve uma freqüência que provocou uma outra relação com a vida. Daí, virei devoto da canção.
O disco é dedicado a Maria Bethânia. Essa amizade vem desde quando?
A amizade surgiu a partir do momento em pude estar perto dela profissionalmente. Bethânia é a voz das minhas canções e intenções musicais, mas a coisa do fã, de admiração não mudou não.
Sou “desesperado” pela arte dessa mulher!
Eu também, Mariano! Sou ousado por gravar uma canção depois de Bethânia porque não existe nada mais próximo do silêncio que um verso dito ou cantado por essa mulher.
Religiosamente como você se situa, Roberto?
Sou de Oxalá do Bonfim, Oxalá velho (Oxalufã). Sou apaixonado pelo candomblé porque conceitua melhor a minha fé.
Você é um homem satisfeito com a vida?
Não tenho do que me queixar!
DANIEL DÓREA
ROBERTO DEDICA O DISCO A MARIA BETHÂNIA, QUE DÁ VOZ ÀS SUAS CANÇÕES E INTENÇÕES MUSICAIS: “NÃO EXISTE NADA MAIS PRÓXIMO DO SILÊNCIO QUE UM VERSO DITO OU CANTADO POR ELA”NELSON FARIA/DIVULGAÇÃO
Veteranos e novatos interpretam obras emblemáticas de Noel Rosa: Roberta Sá é quem mais se destaca no único projeto de visibilidade que assinalou os 70 anos de morte do “Poeta da Vila” ou “Filósofo do Samba”, no ano passadoRomeu e Julieta morreram ignorando-a. Acho,porém, que a relação seja a mesma que existe entre a casca de banana e o escorregão.
(Resposta atribuída a Noel Rosa)
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O Brasil das datas redondas não deu tratos à bola nos 70 anos de morte de Noel Rosa, no ano passado. Quer dizer, um tributo aqui, ali, acolá houve, porém a data passaria batidinha no mercado não fosse o disco “Uma noite...Noel Rosa”. O DVD, aportando em breve, também integra a parceria entre a MP, B Discos e Universal Music.
O projeto coletivo sustenta-se com canções emblemáticas compostas por Noel e parceiros entre 1929 e 1937. Veteranos e novatos alternam-se nas 15 faixas. A moçada diz mais!
Roberta Sá é o grande destaque. Única representante feminina, Ela interpreta com segurança e elegâncias três faixas: “O X do problema”, “Pela décima vez” e “Silêncio de um minuto” (com as cordas graves do violão dando um acento “fúnebre”). Roberta não precisa provar mais nada: o samba lhe cai tão bem quanto sua voz de delicada modulação.
Diogo Nogueira e Maurício Pessoa ficaram, ao menos no CD, com apenas uma faixa cada. O primeiro vem com dolência – e timbre próximo do pai, João Nogueira – e dá recado certeiro em “Conversa de Botequim” (Noel-Vadico). Ao segundo coube a pouco conhecida “Você vai se quiser” (1929). Deveriam ter mais espaço.
Há quem não dê muito bem conta do recado. Faltou imponência ao cantor e compositor Rodrigo Maranhão na mais delineada (melodia e letra) declaração de amor à Vila Isabel (“Feitiço da vila”, com Vadico). Maranhão acerta mesmo nos tons menores e reergue-se no dueto com Zé Renato (“Palpite infeliz”) e na solo “Pra que mentir?” (Noel-Vadico) tão bem compreendida ao violão de sete cordas(Marcello Gonçalves) e acordeon (Marcelo Caldi).
“Uma noite.. Noel Rosa” foi gravado ano vivo: mesmo com algumas performances burocráticas, disco comprova a atualidade literária e melódica do artistaTodos com participação vocal com exceção de Sérgio Krakowski (pandeiro e reco-reco) e Dr. Guilherme (percussão). O pessoal encerra o disco no pot-pourri “Adeus/ O orvalho vem caindo/Até amanhã”. O disco tem presença de outros músicos como Alfredo Del Penho (violão de sete cordas) e Eduardo Neves (sopros).
Zeca Pagodinho e João Bosco gravaram, respectivamente, em estúdio, “Fita amarela” e “Um gago apaixonado”. Pagodinho e aquela coisa de sempre. Bosco recorre às características firulas vocais e pronto.
Ney Matogrosso – o tempo é favorável a esse homem! – participa ao vivo em “Último desejo” e “Três apitos”. O canto dele é tão digno quanto o de Araci de Almeida e Marília Batista, que souberam maximizar o que provinha do “filósofo do samba”, como o locutor César Ladeira se referia a Noel.
Zé Renato é quem faz a ponte entre emergentes e incensados. Sintonizado com as tradições e o canto orgânico, a ele foram destinadas “Com que roupa” e “Rapaz folgado”. Essa última acendeu o estopim da polêmica - a MPB agradece – entre Noel Rosa e Wilson Batista.
As “farpas” teriam começado em 1933 quando Batista compôs – e Sílvio Caldas gravou – o samba “Lenço no pescoço”, que Noel não gostou nadinha por fazer apologia ao malandro. Respondeu com “Rapaz folgado” (o subtítulo é “deixa de arrastar o teu tamanco). Sucederam-se “respostas” sarcásticas (“Mocinho da vila”/Batista; “Palpite infeliz”/Rosa) e até pesadas (“Frankstein da vila/Batista; “João ninguém”/Noel - nessa paira a dúvida se era para o rival, o folclore é maior).
REPRODUÇÃO
Em 26 anos de vida, Noel de Medeiros Rosa compôs mais de 250 canções: boêmio, homem de muitos amores, gênio da raçaVida desregrada, boêmio, admirador de Sinhô, pretenso “doutor” (abandonou a faculdade de Medicina no terceiro ano), violonista (começou tocando bandolim), homem de amores, intenso! Noel veio sob pressão do fórceps que causou afundamento maxilar. Lutou contra a tuberculose, perdeu.
Legado musical, mais de 250 obras. “Era um compositor maravilhoso mesmo sem parceiros, pois, além de ser um dos nossos melhores letristas de todos os tempos, era também um craque para compor melodias”, escreveu Sérgio Cabral.
Ano passado marcou também os 97 anos do nascimento de Noel Rosa. No centenário haverá tributos de todas as espécies. Por favor, não esqueçam de incluir Roberta Sá. A moça sabe de tudo o mais.
REPERTÓRIO DE “UMA NOITE...NOEL ROSA”
* Fita amarela (Noel Rosa) – Zeca Pagodinho
* Um gago apaixonado (Noel Rosa) – João Bosco
* Conversa de botequim (Noel Rosa- Vadico) – Diogo Nogueira
* O X do problema (Noel Rosa) – Roberta Sá
* Pela décima vez (Noel Rosa) – Roberta Sá
* Silêncio de um minuto (Noel Rosa) – Roberta Sá
* Com que roupa (Noel Rosa) – Zé Renato
* Rapaz folgado/Deixa de arrastar o teu tamanco (Noel Rosa) – Zé Renato
* Feitiço da vila (Noel Rosa- Vadico) - Rodrigo Maranhão
* Palpite infeliz (Noel Rosa) – Zé Renato
* Pra que mentir (Noel Rosa-Vadico) – Rodrigo Maranhão
* Você vai se quiser (Noel Rosa) – Maurício Pessoa
* Último desejo (Noel Rosa) – Ney Matogrosso
* Três apitos (Noel Rosa) – Ney Matogrosso
* Adeus (Noel Rosa-Ismael Silva-Francisco Alves) / O orvalho vem Caindo (Noel Rosa- Kid Pepe) / Até amanhã (Noel Rosa) – Anjos da Lua
SÉRGIO HUOLIVER
EM “MACAO”, JARDS MACALÉ RELÊ CANÇÕES PRÓPRIAS E DE OUTROS AUTORES DE MODO PECULIAR QUE O FAZ UM DOS INTÉRPRETES MAIS CRIATIVOS DA MÚSICA BRASILEIRA: TRADIÇÃO E EXPERIMENTALISMOS HARMÔNICOSAos mais íntimos, Macao. O tratamento carinhoso abriga onze faixas do novo disco de Jards Macalé, que entrou no estúdio da gravadora Biscoito Fino para registrar canções afeitas às suas inquietudes e vontades. “Macao” não se afirma em conceitos ou temas interligados, mas nas vibrações idiossincráticas de Macalé.
Décimo disco-solo do cantor, compositor e instrumentista carioca, “Macao” soaria apenas em voz e violão. A dobradinha aparece em quatro canções: “Farinha do desprezo” (com quatro violões sobrepostos; composta com Capinan e registrada em 1973, no primeiro disco de Macalé), “Um favor” (releitura contemplativa do clássico de Lupicinio Rodrigues), “Corcovado” (emblemática canção de Jobim traçada para reverenciar Johnny Alf e “a cidade de São Paulo”...conexões macaleneana) e “Só assumo só” (Luiz Melodia).
As demais canções receberam acréscimos instrumentais do maestro e pianista Cristóvão Bastos,líder de um time de músicos excepcionais. São eles: João Lyra (violão), Dirceu Leite (flauta e clarinete), Jurim Moreira e Carlos Balla (bateria), Rômulo Gomes (baixo), Ricardo Pontes (saxofone), Alceu Maia (cavaquinho), Ovídio Britto e Don Chacal (percussão).
“Macao” contém canções próprias – primordiais -e de autores com timbragem distintas e nominados (Paulo Vanzolini, Jacques Brel, Tom Jobim, Melodia) ou subliminarmente evocados como Paulinho da viola na inédita e dolente “ Engenho de dentro” (Macalé e Abel Silva). “Se você quiser” (maxixe composto com Xico Chaves) e “Balada (dueto com a parceira de Ana de Hollanda) são temas da nova safra.
Junção de tradições e experimentalismos harmônicos, “Macao” contém gratas surpresas. “Boneca semiótica” reaparece com mínimas intervenções eletrônicas feitas pelo grupo Laptop&Violão. Registrada oficialmente em 1975, a canção de Macalé, Rogério Duarte, Chacal e Duda tem a orquestração de Wagner Tisa sampleada.
Refeita, “The archaic lonely star blues” (dele e Duda) distancia-se da de Gal Costa no antológico “Le- gal” (1970). Boa sacada de Jards Anet da Silva, 65 anos, carioca da Tijuca, que “desencantou” e gravou “Ne me quitte pas” (Jacques Brel), só ao piano.
Wally Salomão, parceiro mais constante, não está em “Macao”; ficou eternizado para sempre no álbum anterior, “Real grandeza” (2005). Jards Macalé (apelido tascado por amigos de infância, numa referência a um dos piores jogadores do Botafogo) também para sempre estará associado a canções gravadas por Gal Costa (“Vapor barato), Maria Bethânia (“Movimento dos Barcos”), Nara leão (“Amo tanto”) , Clara Nunes (“O mais que perfeito”), além dos arranjos e direção musical de “Transa” (1972, Caetano Veloso).
SÉRGIO HUOLIVER
DISCO CONTÉM APENAS TRÊS CANÇÕES INÉDITAS E VERSÕES SURPREENDENTES PARA “NE ME QUITTE PAS”, “CORCOVADO” E “UM FAVOR”Bendito Macao que mais uma vez comprova ser um artista atemporal. A seguir, um rápido bate-papo com Jards Macalé.
Fiquei instigado com a inclusão de “Ne me quitte pas” no repertório. De onde veio esse impulso?
Sempre gostei dessa música. Há muito tempo eu ouvi Maysa cantando e, mais recentemente, a gravação espetacular de Nina Simone. É linda! Quando fui a Barcelona, minha companheira, Ana de Hollanda, me pediu para trazer um disco de Jacques Brel (autor da música). Eu encontrei uma caixa belíssima de Jacques Brel e vim ouvindo. Pintou de novo na minha cabeça o “Ne me quitte pas”. Para esse disco eu tinha um roteiro com muitas músicas que gostaria de cantar, mas fui limpando, limpando e “Ne me quitte pas” foi ficando, ficando e até que ficou.
Olha só...
Aí eu disse: “agora vou desencantar mesmo”. E também foi uma forma de justificar meu nome, Jards Anet da Silva (risos)
Nessas “limpezas” o que ficou de fora?
“Estrupício”, do Itamar Assumpção, caberia, mas eu estava tão assoberbado para pegar o violão, estudar... Teria que parar e dar a atenção necessária a essa música, mas “Estrupício” entra no show e, daqui a pouco, vem à tona num próximo disco, quem sabe.
No encarte, você escreveu não temer o “pudor do ruído” assim como Baden Powell e Nelson Cavaquinho. Existem ruídos com aspas ou sem aspas nesse disco?
Sem aspas. O violão passa pela camisa e faze um “rec” ,o dedo passa por uma corda nova e faz um “shiii”, um ruidinho... Podíamos tirar isso , mas não quis. Por que sempre ficar com a coisa séptica se a gente pode ser normal? (risos)
SÉRGIO HUOLIVER
“EM ALGUNS MOMENTOS DA MINHA CARREIRA ARTÍSTICA EU FUI MARGINALIZADO POR TOMAR CERTAS POSIÇÕES. MAS FORAM POSIÇÕES TOMADAS COM CONSCIÊNCIA”, AFIRMA JARDS MACALÉPor exemplo?
Com “Gotham City eu fui vaiado solenemente por todo o Maracanazinho, quer exemplo melhor que esse?
Nana Caymmi também foi vaiada ao interpretar “Saveiros”, em 1966, e hoje é uma das maiores, assim como você. Vai entender a “cultura” da vaia, né?
É, acho que o processo não devia ser assim, mas é...O fato é que é que amo a música, sou músico, tenho esse dom, e me divirto muito com isso. Sinto um prazer incomensurável ser músico e isso é o que me importa.
Você ainda defende a mudança do lema da bandeira brasileira para “Amor, ordem e progresso”?
Sim, claro, sempre. Se puserem o “amor”, quem sabe – quem sabe!- a geração que nascer sob a égide do amor talvez melhore as coisas. Minha parte até hoje faço. Meu lema, aliás o lema da minha geração, ainda é paz e amor.
RENATO FORIN JR.
CIDA MOREIRA NO CABARÉ BRECHETIANO: CONVIDADA ESPECIALÍSSIMA DO 28 FESTIVAL DE MÚSICA DE LONDRINA, ONDE APRESENTOU DOIS ESPETÁCULOS, INTÉRPRETE ARREBATOU PLATÉIAS COM PERFORMANCES DISTINTAS.É uma intérprete com fartos recursos. Cida Moreira comoveu, instigou, dividiu opiniões, arrancou gargalhadas, enfim, não passou batida nos dois espetáculos que trouxe ao 28 Festival de Música de Londrina (a programação artística prossegue até dia 26 de julho, confira no site www.fml.com.br )
Nos dois shows, Cida utilizou-se de particularíssimas figuras de linguagem – metáforas pessoais, em especial – e cumpriu o sagrado ofício de artista. Por etapas. “Modinhas e canções do Brasil”, um recital, ocupou o Teatro Zaqueu de Melo.
Denso e por arrepiar lentamente – com comentários a respeito do repertório - o espetáculo calçou-se em canções colhidas em 1936 por Mário de Andrade (1893-1945, condensadas em “Modinhas imperiais”, publicação de 1964).
Mais autores e datas: Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935), Heitor Villa-Lobos (1887 -1959), Jayme Ovalle (1894- 1955), cuja biografia, “O santo sujo”, de Humberto Werneck, teve lançamento oficial na Flip 2008) e canções anônimas (a preferida de Cida tem o singelo título “Se te adoro”).
Passos firmes, vestida de lilás e preto sobrepostos, cabelos cor de idéias quentes, Cida entra em cena. Ao piano, executa- mãos agudas - a instrumental “A última sessão de música”, extraída de “Milagre dos Peixes” (Milton Nascimento, 1973).
Quase colada, “Quem sabe?” (canção de Carlos Gomes com fragmentos do poeta sergipano Bittencourt Sampaio). “Tão longe de mim distante, onde irá teu pensamento?”. Em que canto da memória deixamos esse Brasil lírico, tátil e, por que não, idílico?
Acompanhada do violonista Camilo Carrara – virtuosismo sem derrapagem em malabarismos harmônicos – Cida Moreira configurou-se em técnica e emoção. Voz alternando suavidade, aspereza e dramaticidade cabíveis a sentimentos inexatos dos dias de então.
RENATO FORIN JR.
NO RECITAL “MODINHAS E CANÇÕES DO BRASIL”, CIDA PROPORCIONOU LIRISMO E INTIMISMO COM PEÇAS COLHIDAS POR MÁRIO DE ANDRADE E TAMBÉM PRECIOSIDADES DE CHIQUINHA GONZAGA, JAYME OVALLE, HECKEL TAVARES E VILLA-LOBOS: UM BRASIL DO TEMPO DA DELICADEZAOu mesmo “Leilão” (Heckel Tavares-Joraci Camargo)e versos tão encharcados de saudade e dor ? (“E nesse dia minha veia foi comprada/numa leva asseparada prum sinhô mocinho ainda/minha veinha que era a frô dos cativeiros)... Lindo!
O público respondeu positivamente aos signos emitidos por Cida, que buscou o tempo das singelezas e sinceridades musicais e literárias. Com ou sem os óculos de leitura, refez por momentos uma nação que muitos duvidam ter existido. Existiu!
“Modinhas e canções do Brasil” - concebido originalmente em 2004 para um evento sobre Mário de Andrade, em Araraquara, interior paulista – deve transformar-se em disco. O lirismo desse projeto, adiado e função de “Angenor” (gravadora Lua Music, maravilhoso tributo a Cartola, comprem!!!), necessita ter registro audiovisual. Para causar bem-estar a qualquer hora!
RENATO FORIN JR.
“ONDE IRÁ, ONDE IRÁ TEU PENSAMENTO": “QUEM SABE?, MELODIA DE CARLOS GOMES E POEMA DE BITTENCOURT SAMPAIOPronto, acabou o show! Não? “O que vocês querem ouvir?”, indagou Cida aos pagantes. Um gaiato gritou: “se vira”. A resposta veio na lata: “Se vira é bom! Agora eu senti que estou em Londrina”. Risadas.
Alguém sugeriu Cartola. Cida pediu e o violonista Camilo Carrara rumou ao camarim à cata de uma certa pasta preta com a partitura de “Autonomia”. Ela andando para lá e para cá no palco. “Pois é...” Mãozinhas para trás. Risos.
Aproveitou para falar sobre o espetáculo “Cabaré” brechetiano que apresentaria dias depois no Bar Valentino (“vai ser uma loucura, mas não é coisa de putaria como alguns podem imaginar”). E a partitura não vinha. Goles no copo d´água. “Minhas primas de Rolândia vieram?”. Sim, levantaram os braços.
RENATO FORIN JR.
CIDA PROTEGIDA POR APARECIDA, SENHORA MAIOR“FALE BAIXINHO QUE ESTOU CANTANDO”- A “cantriz” subiu palco do Bar Valentino. Piano e voz. Dama de taça com conhaque na mão – seria mesmo? - e charuto de ponta cuspida ao chão, Cida abriu seu “Cabaré” sorvendo um texto de Bertolt Brecht (1898- 1956) lido pelo ator londrinense Remir Trautwein. Referência direta ao subtítulo do espetáculo, “Aos que ainda estão por vir”. O ator gaúcho Antonio Carlos Brunet cantou e declamou.
“Cabaré” - aos moldes brechetiano, décadas de 20 e 30 - tem pegada, maquiagem, performances, sotaques, histórias e ironias fortes. Cores compactadas, vermelho! Fumaça! Muitos elementos e informações. Reverberações de Brecht e Kurt Weill (1900- 1950) num disco antológico lançado há exatas duas décadas. Marco Antônio de Almeida – pianista e diretor do Festival de Música de Londrina -tocou uma peça e Cida cantou. Marco é um homem admirável!Ganhou selinho de Cida! Amigos!
Ah, o Valentino! Uns e muitos pendem ao descaso a quem no palco está, mesmo em show blocados, temáticos, quadrados, redondos, vazios, cheios de reverências mil...Isso é comum!
Cida não é comum! Conquistou a atenção dos muitos. E mandou “Balada do soldado morto”, “Surabaya Johnny”, “Balada da inutilidade do esforço humano”, canções de lugares e gente tristes, alegres, excluídos, desapegados...
A pouquíssimos mandou breves recados: “O que cantei também pode ser traduzido como `fale baixinho que eu estou cantando, eu estou cantando”. “Speak Low” (Kurt Weill- Ogden Nash), fantástica! Ou “O Cabaré tem a necessidade da inteligência da platéia”. Tom Waits. O bis: “Summertime”(George-Ira Gershwin-Heyward DuBose). A pedidos. Quase uma catarse coletiva
Depois do camarim, foi ao salão do Valentino. Muitos cumprimentos. Eu me senti tão pequeno diante daquela mulher... Beijo na mão, na face, abraço, obrigado. Muitíssimo obrigado pela deferência, Cida! Recomendações às primas de Rolândia, viu? Até a próxima!
RENATO FORIN JR.
COM O VIOLONISTA CAMILO CARRARA, A INTÉRPRETE ESTABELECEU LIGAÇÕES MUSICAIS GENEROSAS: “NEM TODOS OS DIA SE HARMONIZA O DENTRO COM O DE FORA”
Maristela Martins/Divulgação
CANTORA, COMPOSITORA, POETA E ATRIZ, BEATRIZ AZEVEDO PÕE NA RODA “ALEGRIA”, DISCO QUE DIALOGA COM O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO, TROPICALISMO E ATÉ MANGUE BEATBeatriz Azevedo conjuga como poucos o verbo devorar. Antropofágica, apreciou Elza Soares e Billie Holiday dançando um samba de gafieira intitulado “Não é da conta de ninguém”, faixa que serve como respiradouro a quem, em seta, mergulhar no terceiro projeto musical da cantora, compositora, atriz e poeta paulistana. Mulher inteligente!
“Alegria” sugere simplicidade, coisinhas momentâneas, né? Qual o quê! O conteúdo requer ouvidos tais para compreender como Beatriz apanhou ritmos brasileiros (maxixe, coco, embolada, frevo, maracatu, samba) e os reordenou de acordo com suas necessidades artísticas. Que remetem ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, ao Tropicalismo e até mesmo ao mangue beat e suas saídas sonoras interessantes que muitos ainda teimam em chamar de movimento - não é!
Beatriz conecta música e literatura. Fornece pistas através de “devorações”, apêndices atrelados às letras do encarte riquíssimo concebido por Gringo Cárdia – quem mais, né? No universo inventivo - vibrações, talvez – a artista faz roçar Cesaria Évora (“e a língua que a gente quase entende”) com Beethoven e o poeta Schiller; Piazzola, Hilda Hilst, Villa Lobos e Tom Waits; Henri Salvador e Genet; ou mesmo Mitra por Brasileiros, filhos do sol. Então, tá!
“Alegria” é conceitual e autoral. A faixa-título provém da parceria de Beatriz Azevedo com Vinicius Cantuária, um maxixe pouco ortodoxo que conta com a participação do cantor, compositor e instrumentista radicado há 20 anos em Nova York. Cristóvão Bastos é o diretor musical do disco.
Tom Zé dá voz na maliciosa “Pelo buraco”, feita especialmente para ele cantar. Dos modernistas Raul Bopp e Oswald de Andrade, Beatriz musicou, respectivamente, os poemas “Coco de Pagu” e “Relicário”. Da memória afetiva, devorou “Speak Love” (Kurt Weill –Ogden Nash). Outra língua: “Savoir par coeur”, um samba cheio de bossa em que a Henri Salvador toma à frente. Composição de Beatriz.
Da própria lavra, destacam-se “Circo” e suas intrincadas “amarrações” (seu coração de ioiô/vai e volta/ girando na corda/e se um dia ele for/e se a corda arrebentar/como é que eu vou ficar?) e “Rede” (eu caí na rede da paixão/ tão por acaso tão de repente/ e eu nunca fico só no raso/ eu vaso amor feito torrente).
Reprodução
CONCEITUAL E AUTORAL, ÁLBUM AGRUPA RITMOS BRASILEIROS COMO MAXIXE, COCO, EMBOLADA, SAMBA : BREVES EXPERIMENTALISMOS COM PARTICIPAÇÕES DE TOM ZÉ E VINICIUS CANTUÁRIAA música é uma das manifestações artísticas de Beatriz Azevedo. Palavras: são dela os livros “Peripatético”, “Idade da pedra” e “Tudo quanto arde”. Multifacetada, Beatriz é graduada em Artes Cênicas e passou uma temporada em Barcelona estudando dramaturgia.
Como atriz, atuou em espetáculos do genial Zé Celso Martinez Corrêa. O diretor, aliás, participou de “Bum bum do poeta” (2000), primeiro disco da cantora. Adriana Calcanhotto também. Em seguida, veio “Mapa-múndi – samba and poetry”, produzido por Ale Siqueira.
Atualmente, Beatriz se expande com “Alegria”, álbum afeito a inteligências possíveis. A seguir um pouco das palavras dessa artista audaz.
O conceito de “Alegria” é abrangente. Há particularidades necessárias para sacar e melhor devorar o disco?
Acredito que toda obra de arte sempre pode ser absorvida, devorada; pode ser instigante ou desafiadora, em várias perspectivas, em vários ângulos. E acredito também que o ouvinte/leitor/espectador é muito importante neste processo, tanto quanto o artista. Paulo Leminski dizia que o poema só se completa com o leitor. Por isso meu trabalho procura ser aberto, tanto musicalmente como poeticamente, e convida o público para uma viagem, para uma experiência. Não precisa passaporte, nem ser PHD em arte, nem nenhum requerimento especial: basta estar aberto e se entregar, mergulhar. Só não curte a alegria, não se diverte, quem fica muito travado, observando "de fora" a brincadeira. É claro que quem conhece muitas das "pistas" que eu dou no encarte do CD, quem tem uma perspectiva cultural mais ampla, quem está conectado em arte e cultura, vai saborear mais, desfrutar com todos os seus sentidos e usar a inteligência para relacionar com os referenciais culturais de que dispõe. Mas no final, arte é como vinho: se você conhece aquele universo, pode desfrutar o sabor, o aroma, a cor, o timbre, tudo, reconhecendo cada qualidade e por isso se interessando mais. Mas se você não é enólogo, pode se divertir muito também, se deliciar com Baco, sem saber se aquela safra é a tal ou não, e vai dançar com Dionísio de um jeito ou do outro, que no final é o que interessa! Arte é para todo mundo!
A palavra “alegria” tem que peso?
Alegria é leve!!! Como disse Drummond, "seus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que a mão de uma criança".
O disco dialoga com o “Manifesto Antropofágico”, as tais devorações, ecos cabíveis ao Tropicalismo e vibrações subliminares do mangue beat. Qual postura você se propõe artisticamente?
Minha postura é sempre viva, atenta, aberta, dialogando com o mundo. Percebo na cultura brasileira uma riqueza incrível, e particularmente nestes "movimentos" citados acima, eu me identifico com a capacidade de
de serem brasileiros e universais ao mesmo tempo. E sei que estamos sempre em movimento, evoluindo, por isso eu devoro tudo isso e mais um pouco, mas não me filio a nenhum destes "ismos", nem gosto de trabalhos atuais que ficam tentando reproduzir os Mutantes, ou serem os novos Tropicalistas, acho que isso não tem o menor sentido. Tom Zé, Oswald, Caetano, Chico Science, todos estes artistas foram geniais porque estavam vivos e presentes no seu tempo. Para mim não tem o menor sentido tentar "refazer" as obras deles. Eu crio as minhas coisas hoje, dialogando com o mundo hoje, e da mesma forma que devorei tudo de bom que eles fizeram também devoro Mathew Herbert, Sacha Waltz, Pole, Matthew Barney, artistas contemporâneos que também estão recriando o mundo à sua maneira.
Imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/autoria não informada
BEATRIZ E ZÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA, COM QUEM TRABALHOU EM ALGUNS ESPETÁCULOS TEATRAIS: ATRIZ POR FORMAÇÃO, POETA POR IMPULSO PRIMORDIALArtista multifacetada (cantora, compositora, poeta, atriz) sugere expansão. Pergunta: o que você sabe fazer de melhor?
Expandir! Não ficar acomodada! Se acho que estou sabendo demais de uma coisa, é sinal que preciso direcionar minha atenção para algo que possa me desafiar a aprender novas coisas. E depois retornarei à atividade anterior, trazendo novas experiências e vendo o que era conhecido com novos olhos.
A velha discussão: letra de música não é poesia, mas muitas poesias podem ser musicadas. O que tem a dizer sobre isso?
O que é música? O que é poesia? Quem vai dizer o que vale e o que não vale? O que pode ou o que não pode? E quem seguir estas regras, ou quaisquer modelos e limitações, não é artista. A arte mora na curva... Exatamente de onde não se espera, surge a surpresa! Para mim é tão vasto e infinito como perguntar: o que é Deus? O que é a vida? O que é a morte? Não tenho respostas prontas. Por isso resolvi dedicar a minha vida à música e à poesia, para a cada dia questioná-las na prática, sem limites. Sem hierarquias que não acrescentam nada à experiência humana, só atravancam! E, sobretudo, quero viver minha vida com música e poesia!
imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/ autoria não informada

Interesses minuciosos sobre a artista podem ser devorados no site www.beatrizazevedo.com.br
Arquivo gentilmente cedido pelo Teatro Guaíra
SEGUNDO PROJETO DE EDU LOBO E CHICO BUARQUE FEITO PARA O BALÉ TEATRO GUAÍRA, DE CURITIBA, “DANÇA DA MEIA-LUA” RETORNA AOS DISCOS VINTE ANOS DEPOIS: ACORDES E POESIA EXPRESSAS NO CORPO DOS BAILARINOSTalvez ele responda quando desentocar-se. Por exigência - a palavra é essa mesma -Edu Lobo não permitiu a inclusão da instrumental “Pas de deux” no relançamento de “Dança da meia-lua”, trilha sonora composta em 1988 para o Balé Teatro Guaíra, de Curitiba.
O disco dispõe-se, via Biscoito fino, com um tema a menos,leve mutilação. Mas o brilhantismo da parceria de Edu Lobo e Chico Buarque é inquestionável nas (agora) 11 faixas de “Dança da meia-lua”.
Grupo Pau Brasil, especialíssima participação. À frente, o pianista Nelson Ayres responsável pela maioria dos arranjos e seus ilustres companheiros de trabalho: Paulo Bellinati (violões, guitarras e cavaquinho, e alguns arranjos, Rodolfo Stroeter ( baixo elétrico e contrabaixo) e Teco Cardoso (sax, flauta e pícolo).
O Pau Brasil imprime sonoridade necessária – orgânica, termo quase gasto atualmente - nas obras de Edu Lobo e Chico Buarque marcadas por meticulosa fusão de acordes e poesia.
“Abertura”, faixa instrumental, é densa, por vezes lúdica, solar. Pau Brasil a toda prova. Boas vindas dadas, Cláudio Nucci (onde anda esse homem, hein?) preenche com falsetes a melodia intricada de Edu e a poética circular de Buarque instaurada em “A Casa de João de Rosa” (Roda Rosa pela casa/ coisa de João/João foi quem ensinou a Rosa/ rolar no chão/ João cheirando aquela Rosa/ Goza de antemão/ E Rosa, amando aquela casa/Rega João”.
Há o grupo Garganta Profunda e vozes sobrepostas em “A permuta dos santos”, paróquias com seus santos fora de lugar, fé desalojada dos beatos. O coisa ruim ronda por canta canto...E uma certa Gal Costa – então vivaz intérprete - duela com o brilhos dos metais em “Frevo diabo”. Isso há vinte anos quando ela não tinha vendido a alma à técnica. Ah, sim, “Dança da meia-lua” foi lançado originalmente pela Som livre.
Leila Pinheiro também integra o elenco. A ela foi concedida “Abandono” – “tentar cobrir meus olhos/pra minh´alma ninguém ver/eu toda a minha vida/soube só lhe pertencer” – em que vai dos graves aos agudos, solfejos melancolicamente alinhavados por saxofone.
Danilo Caymmi - bissexto cantor, grave paterno - vai de “Tororó”. Marcou presença. Os donos da trilha sonora também comparecem. Edu Lobo em duas, nas clássicas “Meio-dia, meia-lua” (“Na ilha de Lia, no Barco de Rosa”, subtítulo excluído e cuja gravação definitiva coube a Vânia Bastos, em “Diversões não eletrônicas”, de 1997 – ouçam, por favor) e “Valsa Brasileira”. Edu é sisudo demais, até para cantar.
Chico! “Tablados”, com contornos sonoros imediatamente associados a Astor Piazzolla e uma letra sagrada, sangrada!: “Lembro da encarnada moça/na iluminação/Encarnada num tablado de encarnado igual/ A boca pintada de sangrado coração/ sendo rosa e fogo/ o bem e o mal(...) para sempre moça quando /o meu amor/precisar e pedir”. A gente até esquece que Buarque mia em vez de cantar.
Os níveis interpretativos oscilam. Porém, Zizi Possi- em 1988 ainda não havia entrado na fase de transição entre a popular e “erudita” cantora atual – é mais contundente na clemente e dolorida “Sol e chuva” (confira letra abaixo)
Blues por quase um triz. Zizi percorre sensivelmente frases musicais e literárias
(confira a letra abaixo). Volumoso no feitio e execução, “Dança da meia-lua” não dá paz aos ânimos.
DUPLA DINÂMICA - “Dança da meia-lua” é a segunda trilha sonora de Edu Lobo e Chico Buarque feita para o Balé Teatro Guaíra, roteiro de Ferreira Gullar. A primeira encomenda foi dada em 1983, “O grande circo místico”, adaptação de Naum Alves de Souza ao poema homônimo do alagoano Jorge de Lima (1893 -1953).
Aplaudiram mais de 200 mil pessoas durante turnê nacional e apresentações em Portugal. O Balé do Guaíra passou definitivamente a ser referência da dança no Brasil.
Alguém que assistiu às montagens pode se pronunciar? Foram bacanas mesmo? E a nova montagem de “O circo...”, em 2002, que tal? Queria ter visto, mas ainda não sabia solar...
Tá, retomando a linha de raciocínio. A dupla Lobo & Buarque fez maravilhas ainda em “O corsário do rei”, espetáculo escrito e dirigido por Augusto Boal, 1985. Tem “Cambaio”, musical com texto e direção de João e Adriana Falcão, de 2000.
Mais ou menos 30 canções surgiram nos encontros de Edu e Chico. Listinha básica: “Beatriz”, “Bancarrota Blues”, “Choro bandido”, “A moça do sonho” (que costurou a narrativa de “Maricotinha ao vivo”, Bethânia, 2002), “Ode aos ratos” (registro pop recente de Ney Matogrosso,“Inclassificáveis”) e a pouco difundida “A mulher de cada porto”, cujo registro de Zizi e Edu (“Corrupião”, 1993) impressiona mais que Gal e chico no registro original.
“O grande circo místico” (ainda em catálogo da gravadora Dubas) forneceu muitas preciosidades (Gilberto cantando “Sobre todas as coisas”...), mas “Dança da meia-lua” tem elegância discreta. Bom isso, viu?
O disco "Dança da meia-lua" pode ser adquirido também através do site www.biscoitofino.com.br
Reprodução
ÁLBUM TEM PARTICIPAÇÃO ATIVA DO GRUPO PAU BRASIL E INTERPRETAÇÕES ELEGANTES COMO A DE ZIZI POSSI: POR EXIGÊNCIA DE EDU LOBO, UM TEMA INSTRUMENTAL FOI EXTRAÍDO DO DISCO RELANÇADO PELA BISCOITO FINOFaixas de “Dança da meia-lua”
*Abertura (instrumental)- Pau Brasil
*Casa de João Rosa - Cláudio Nucci
*A permuta dos santos - Garganta Profunda
* Frevo diabo - Gal Costa
* Meio dia, meia Lua - Edu Lobo
*Abandono - Leila Pinheiro
*Tablados - Chico Buarque
*Tororó - Danilo Caymmi
* Sol e chuva - Zizi Possi
*Valsa brasileira - Edu Lobo
* Dança das máquinas (instrumental) - Pau Brasil
Sol e Chuva
Se esta noite o tempo vai virar
Não me deixes sair sozinha
Pode amanhecer
Tudo fora de lugar
Posso não estar aqui
Nossa vida, o vento esfarrapar
Tua manta não ser a minha
Pode acontecer
Quando o tempo serenar
De eu não me lembrar de ti
Sim
Pode vir uma enxurrada
E carregar tudo o que eu tinha
Sim
Posso até gostar
Deixa eu sair sozinha
É sol e chuva, é penumbra e luz
Meu corpo está gelado e queima
Pode acontecer
Podes vir me procurar
Posso não estar aqui
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