Terça-feira, 16/03/2010
MURILO MEIRELLES/DIVULGAÇÃO
MARIA BETHÂNIA É TEMA DE CONGRESSO BRASILEIRO, QUE ACONTECE ENTRE OS DIAS 4 E 6 DE FEVEREIRO, EM SALVADOR. JORNALISTA, ATOR E DRAMATURGO PARANAENSE É UM DOS CONFERENCISTASHavia de ser na Bahia. Mais precisamente no Teatro Martim Gonçalves, em Salvador, onde a homenageada, ainda adolescente, assistia às aulas de artes cênicas. “Foi um dos primeiros lugares que ela freqüentou em Salvador e isso, decididamente, moldou sua trajetória”, diz Neide de Jesus, organizadora do Congresso Brasileiro sobre o canto e a arte de Maria Bethânia em 45 anos de palco. Ela preside a Associação Cultural Rosa dos Ventos Bahia, que agrega mais de 1,6 mil integrantes do Brasil e do exterior.
O evento acontece entre os dias 4 e 5 de fevereiro na capital baiana e no dia 6, em Santo Amaro da Purificação, terra natal de Maria Bethânia Viana Telles Velloso. A extensa programação inclui desde conferências até uma oficina de cordel. O jornalista, ator e dramaturgo Renato Forin Jr. é o único representante do Paraná. Ele ira abordar “O show Rosa-dos-Ventos: desvendando o processo de significação implícito no espetáculo musical de protesto” , monografia premiada e que irá transformar-se em livro-reportagem.
“Não há nada parecido com a voz de Bethânia; não há nada semelhante à sua maneira de fazer arte. Ela agrega, em disco, em palco, tudo o que é brasileiro, que já passou de português, de negro, de índio. Sua voz é um movimento revelador do Brasil real, nu, que adentra o século 21 arrastando os méritos da miscigenação e os deméritos da desigualdade”, analisa Forin.
O jornalista conta que encontra dificuldades em encaixar suas pesquisas a respeito da estética de Maria Bethânia nos círculos acadêmicos em função de posturas nada flexíveis como a exigência de metodologias e sistematizações específicas. “Como enquadrar em categorias rígidas uma forma de arte inaugurada por Bethânia e que se situa na fronteira do teatro, literatura, do canto, do arranjo instrumental e das manifestações figurativas?”, questiona.
Pioneirismo - O Congresso Brasileiro direcionado ao universo quase mítico da intérprete foi idealizado há pelo menos um ano e tem caráter inédito, ao menos no Brasil. Oficialmente, Maria Bethânia comemora 45 anos de carreira no dia 13 de fevereiro deste ano “Sabemos do pioneirismo, mas não é esse o objetivo que buscamos. O congresso vem para analisar a provocar reflexões sob a luz da ciência. Queremos que acrescente algo de bom às pessoas”, diz Neide. São esperadas 191 pessoas de várias partes do País. Há poucas vagas disponíveis. O congresso tem como apoiadores a gravadora Biscoito Fino, Studio R, Pérola Negra e Alguras Comunicação.
Bethânia já adiantou que não irá ao congresso. Tem lá seus motivos. Isso, na opinião de Neide de Jesus, não será empecilho. “Será um prazer se ela aparecer, mas vamos discutir o trabalho artístico e não dissecar a artista. Bethânia confia em nosso trabalho e nos disse que ficou comovida com a realização do congresso”, conta. Jaime Além, violinista e maestro da cantora, é um dos participantes do congresso. Portanto, surpresas podem acontecer. É esperar para ver. E , talvez, ouvir.
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Espaço aberto
Algo a dizer sobre a trejetória de Maria Bethânia?
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** Senhores leitores, peço licença para me ausentar durante 10 dias. Volto com novidades.
EMIR PENNA/DIVULGAÇÃO
A INTÉRPRETE MARANHAENSE RITA RIBEIRO LANÇA CD E DVD “TECNOMACUMBA –A TEMPO E AO VIVO” EM QUE FUNDE CLÁSSICOS DA MPB, PONTOS AFROS E BEATS ELETRÔNICOS: PROJETO CONSISTENTEEla até pensou em colocar um ponto final. Acreditava ter encerrado um ciclo e coisa e tal. Ledo engano! Os admiradores não deixariam um projeto tão complexo sair de cena assim, sem mais nem menos. Depois de seis anos de circulação pelo Brasil – com público estimado em 300 mil pessoas – a cantora e compositora Rita Ribeiro coloca pra girar o CD e DVD “Tecnomacumba – a tempo e ao vivo”.
Há reverências e deferências através da fusão de clássicos da MPB, beats eletrônicos e pontos de candomblé e umbanda. Trata-se de uma intervenção cultural em que a religiosidade afro é tratada de forma respeitosa, mas com sotaque moderno. Há de despertar o interesse em iniciados, iniciantes e, principalmente, em quem vê algo vigoroso num trabalho pop, dançante, pulsante. Há muita verdade na voz e no entorno de Rita.
“Tecnomacumba – a tempo e ao vivo” foi viabilizado com recursos da Petrobras - via edital - e tem parceria com a ManaXica (selo da artista), o Canal Brasil e a gravadora Biscoito Fino, responsável pela distribuição. As gravações ocorreram no dia 3 de julho de 2009 na Viva Rio, casa de espetáculos carioca. Espaço lotado. “Percebi mais intensamente o carinho e a cumplicidade do público com o projeto, que cada vez caminha mais independente”, analisa a intérprete maranhense.
O repertório ganhou breves adições em relação ao álbum de estúdio, de 2006: “Moça bonita” (Jair Amorim – Ewaldo Gouveia, sucesso de Ângela Maria), “Xangô, o vencedor” (Rui Maurity – José Jorge –J.B. de Carvalho) e “Cocada” (Antônio Vieira – Pedro Giusti), com saudações respectivas à Pomba Gira, a Xangô e aos Erês. “Divino”, de Rita em parceria com Zeca Baleiro, abre o DVD – no disco foi excluída.
Todas as faixas saúdam os orixás ou entidades como “Oração ao Tempo” (Caetano Veloso), “Babá Alapalá” (Gilberto Gil), “Rainha do mar” (Dorival Caymmi), “É D´Oxum (Gerônimo – Vevé Calazans) ou mesmo “Coisa da antiga” (Wilson Moreira – Nei Lopes, extraída do universo musical de Clara Nunes e com citação aos Pretos Velhos). Ou mesmo os caboclos da linha de Oxossi, em “Cavaleiro de Aruanda” (Tony Osanah) ou “Jurema” (Domínio Público).
Há primeiramente os cumprimentos às divindades. Dentro dos conceitos estéticos do projeto, Rita Ribeiro quase reproduz o xirê, encadeamento de pontos e batuques realizados em festas do candomblé. Pela ordem hierárquica, Exu abre os trabalhos e Oxalá encerra, no caso com um remix do Dj Mam.
Os pontos e rezas foram colhidos nas vertentes afros como a Casa Mina-Jeje, do Maranhão, e nas roças de candomblé e umbanda de Pernambuco, Rio de Janeiro, além da ajuda de amigos e artistas próximos à religiosidade africana. É o caso de Maria Bethânia, ilustre convidada do CD e DVD na faixa “Iansã” (Caetano Veloso - Gilberto Gil). O mano Veloso se rende em bem traçadas linhas traçadas na apresentação de “Tecnomacumba...”
CD E DVD FORAM GRAVADOS EM JULHO DE 2009, NO RIO DE JANEIRO, E CONTA COM A PARTICIPAÇÃO DE MARIA BETHÂNIAA banda a que se refere o compositor baiano chama-se Cavaleiros de Araunda e é composta por Israel Dantas (co-diretor do espetáculo, guitarrista e violonista), Alexandre Katatau (contrabaixo e vocais), Lúcio Vieira (bateria e programação eletrônica), Paulo He-Man (percussão), e Pedro Milman (teclados e vocais).
Transe coletivo - Conceitualmente, Rita parece evocar uma espécie de transe coletivo em que o religioso e o profano se manifestam distintamente. Ou seja, as bases sólidas advindas dos polidos rituais afros dos terreiros – sem os pertinentes toques dos atabaques, por exemplo – são esteticamente adaptadas às pistas de dança para onde “Tecnomacumba” é, a rigor, endereçado.
Bonito ver a platéia cantando alguns pontos e celebrando, em meio às eletrônicas levadas, as tradições afro difundidas sobretudo pela oralidade. Eis uma das importâncias de “Tecnomacumba – a tempo e ao vivo” concebido por uma filha de Iansã e que, no entanto, não se atrela a uma só fé.
“Sou universalista ecumênica. Freqüento terreiros, gosto do budismo e sou devota de Santa Rita e Santo Antônio. Eu prefiro dizer que minha religião é a música. É pra ela que eu bato cabeça”, explica a artista. O registro audiovisual – com direito a depoimentos de gente grande como Ney Matogrosso, Beth Carvalho, Margareth Menezes, Bethânia, Alcione, entre outros – demonstra o porquê de o verbo vibrar ser muito bem conjugado por todos. Indistintamente. Saravá!
ALEXANDRE MOREIRA/DIVULGAÇÃO
APESAR DE FREQÜENTAR TERREIROS DE CANBOMBLÉ E UMBADA, RITA RIBEIRO ASSIM DEFINE SUA RELIGIOSIDADE: “ SOU UNIVERSALISTA ECUMÊNICA. PREFIRO DIZER QUE MINHA RELIGIÃO É A MÚSICA”(Sub) urbano coração - Com o caminho pavimentado, “Tecnomacumba – a tempo e ao vivo” deverá circular ainda mais em território brasileiro e até no exterior – a artista fez alguns contatos e o espetáculo deverá aportar em alguns países no final do ano. Paralelamente, a cantora e compositora vem esboçando um novo projeto, o “(Sub) urbano coração”.
“Quero algo mais intimista em que a voz fique um pouco mais à frente através de canções românticas e baladas”, explica. O formato será voz e violão, ou “variações de cordas” como prefere a intérprete maranhense. O repertório ainda não está definido, mas entre as canções inéditas estão “Deus dará” (Zeca baleiro) e “Feliz com meu bem” (Jaime Alem).
Entre as releituras aparecem “Agora” (Verônica Sabino), “Nua” (Ana Carolina) e “Aceito seu coração” (Puruca), sucesso de Roberto Carlos de 1969. As gravações do disco devem começar em abril com lançamento previsto ainda para este semestre. Tudo, no entanto, vai depender dos sempre bem-vindos patrocínios, os quais Rita ainda está à cata.
Mais informações sobre a cantora clique aqui
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ESPAÇO ABERTO
Algo a dizer sobre Rita Ribeiro e/ou o projeto "Tecnomacumba - a tempo e ao vivo" ?
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Reprodução
GENIAL E GENIOSA, ELIS REGINA DEIXOU UM LEGADO MUSICAL IRREPREENSÍVEL: HÁ 28 ANOS, O BRASIL PERDIA A IMENSA INTÉRPRETE, QUE TINHA COMO CARACTERÍSTICA LANÇAR NOVOS AUTORES. EM MARÇO DESTE ANO ELA FARIA 65 ANOS DE IDADE.Não havia dormido direito por conta da ansiedade. É que naquele 19 de janeiro de 1982 sairia o resultado do vestibular. Acordei com minha mãe me chamando para almoçar. Antes da primeira garfada, um plantão da Globo dava detalhes de como seria o funeral de Elis Regina. “Elis morreu?”, nos perguntamos.
Sobrou comida nos pratos naquele almoço. O silêncio e a indignação de meu pai e minha mãe. Overdose de cocaína e álcool, dizia o repórter. Cocaína era muito forte para uma cidade do interior com seus pouco mais de 10 mil habitantes. Meus pais lamentaram muito e foram dar aulas. A vida precisava ser ensinada.
Tinha eu 17 anos. Lastimei ouvindo dois discos. Um compacto duplo com “Dois pra lá, dois pra cá”, “Mestre sala dos mares” (lado A, ambas de João Bosco e Aldir Blanc); ”Amor até o fim” (Gilberto Gil) e “Na batucada da vida” (Ary Barroso- Luiz Peixoto) – o lado que mais gostava. “Essa mulher”, de 1979, também entrou na roda. Demoravam os discos de Elis para chegar em Tupi Paulista. Dona Clarice da Pop,às vezes, me ouvia e colocava na banca um ou outro disco do primeiro escalão da MPB. Havia um comprador, ao menos.
Cinco horas da tarde, telefonei para a Universidade Estadual de Londrina. Havia passado em Comunicação Social – antes era assim, a partir do quinto período optava-se por Jornalismo ou Relações Públicas. Sou jornalista graduado, a despeito do ministro criador de jagunços e do faraós embalsamados.
Elis Regina. Nunca tive o privilégio de vê-la ao vivo e em cores. Tenho todos os discos - ouço sempre o lado B: “Valsa rancho” (Chico Buarque- Francis Hime), “Bolero de satã” (Guinga – Paulo César Pinheiro),” Ou Bola ou búlica”, “Violeta de Belford Roxo” (ambas de (João Bosco-Aldir Blanc), “Meio termo” (Lourenço Baeta – Cacaso). Algumas mais. “Noves fora”(Fagner – Belchior), que eu adoro porque “já rezei pro meu santo, na serra do Canindé, que me dê um homem grande”. Há sempre uma intenção nova no cantar dessa mulher. “Ela”, o álbum “pop”. Maravilha!
Lado A. Cansei de ir a shows tributos. Insistem nas mesmas teclas e cordas. Há boas vontades, mas tudo é cover ou fake. Se mocinhas cantantes e seus músicos amestrados não fizerem algo diferenciado no palco tudo torna-se caça-níquel - “Como nossos pais” (Belchior), por exemplo, é linda, mas deu o que tinha que dar. “O bêbado e o equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc) – sim, eu sei do contexto histórico – é só para aquela parcelinha que diz “amar” Elis cantando essa música. Pobres.
Os fatos: há 28 anos Elis Regina morria. No dia 17 de março deste ano faria 65 anos. Muitos já falaram dela. Escreveram maravilhas merecidas. Incríveis! Eu entendo Elis pela voz. Inclusive pela voz dos grandes. Zeca Correa Leite, meu queridíssimo amigo e jornalista, certo dia me mostrou uma fita cassete com a gravação do show “Falso Brilhante”. Feita em Curitiba. Áudio não é dos melhores – parece que o gravador foi colocado rente ao palco. Elis cantava “Glória, glória, aleluia” no ato, na redenção. Fiquei abismado diante da grandeza. Zeca me explicou o porquê. Preciosidade.
Ele lembra de uma entrevista feita no dia 13 de setembro de 1981. Curitiba, turnê de “Trem Azul”. A conversa ia animada, mas Elis precisava se trocar para entrar em cena. Disse que voltaria outra vez a Curitiba pra conversar mais e tomar cerveja na periferia, “em copo americano”. “Quando ela morreu chorei muito e disse que o convite para a cerveja iria continuar”, diz o jornalista.
Outra voz tamanha é de Marta Santos, há mais 40 anos a grande cantora de música de qualidade em Londrina – faz falta nos parcos palcos locais. Ela foi apresentada a Elis por Lena Mariano (radicada nos EUA atualmente), irmã de César Camargo Mariano. Lena e Marta chegaram a cantar juntas no folclórico bar “Cantinho”. Aliás, a família Santos é composta por músicos fantásticos: a também cantora Márcia e o violonista e arranjador Marcos Santos
A primeira vez que Marta e Elis se conversaram foi durante a apresentação do show “Essa mulher”, em Londrina, no extinto e boêmio bar “Sereno”. O derradeiro encontro, na turnê “Trem azul”, aconteceu num restaurante oriental. Conversaram sobre música e filhos.
“Na primeira vez, Elis me passou uma impressão de mulher muito segura. Na outra, dizia estar cansada. Inconformada, desgostosa mesmo. Bebeu muito naquele dia.”, diz. “Mas sempre me lembrarei dela como uma artista autêntica. Tão autêntica que não conseguiram “fabricar” ninguém parecida”, complementa. Qual música a cantora londrinense mais gosta? “Dá o tom, o nome da música e o primeiro acorde que a letra vem”.
Elis tinha Ângela Maria como referência maior. Amava a Sapoti de amor maior. Fafá dedicou terceiro disco à Ângela e Elis por serem suas referências maiores. Elis reverbera em tom maior em Leila Pinheiro. Rosinha Passos diz pra o mundo inteiro – literalmente – que Elis é a maior cantora do Brasil. Elis está em muitas.
Elis se dizia a maior cantora de sua época. Quando insegura, alternava Gal ou Bethânia em segundo lugar. Foi a maior. É uma das maiores do mundo. Ia atrás de gente nova e boa. Sabia sacar o que de bom havia. Milton e Gil e Bosco e Blanc os preferidos. Jobim-açu não conta porque depois do que “fizeram” juntos, num disco, só por Deus. O legado musical é irrepreensível. A voz, a extensão, a inflexão. Tudo nela é superior.
Elis dura. Ainda bem!
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Espaço aberto
* Alguém tem alguma história (conversa, encontro, música, disco, show) relacionada a Elis Regina para contar?
* Na sua opinião, qual compositor da geração atual Elis teria gravado se estivesse viva? Você conseguiria fazer uma pequena relação de canções que gostaria de ouvir na voz dela?
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RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL
COMPLEXA CANTORA E COMPOSITORA, ANGELA RO RO MANTÉM LIRISMO, INTELIGÊNCIA E IRREVERÊNCIA AOS 30 ANOS DE CARREIRA E 60 DE IDADE: “NÃO FICO EMBRIAGADA DE VAIDADES PORQUE MEU NARCISISMO É CHEIO DE AUTOCRÍTICAS EM PROL DO AUTOCONHECIMENTO”É sempre muito prazeroso entrevistar Angela Ro Ro. A empatia se estabelece rapidamente graças à inteligência, sensibilidade, irreverência e à amabilidade com que trata seu interlocutor – há sempre um “meu amor” a permear as frases.
Melhor de tudo: ela nunca se esquiva de indagações por mais indelicadas que possam parecer, embora a respostas possam ser ácidas e, não raras as vezes, desconcertantes.
Duas datas redondas cercam a cantora e compositora carioca, uma das mais complexas artistas da Música Popular Brasileira: os 30 anos de lançamento do primeiro disco e os 60 anos de idade completados no dia 5 de dezembro.
O álbum, gravado entre julho e agosto de 1979, só chegou ao mercado praticamente em janeiro do ano seguinte por um motivo especial: a gravadora segurou para que Maria Bethânia, grande vendedora na época, pudesse ter exclusividade no registro de “Gota de sangue”, incluída no disco “Mel”. A faixa conta com o piano de Ro Ro.
Quanto à idade, a artista parece não dar muito peso. Brinca com as décadas. Faz chacota. “É uma pequena falta de delicadeza falar sobre idade com uma dama, como diria a eterna cinquentona Danuza Leão”, afirma, entre gostosas gargalhadas. Insisto um pouco mais: “Que falta de elegância com uma dama. Quero ser longeva. Sou muito ambiciosa porque minha meta é viver feliz”, rebate.
Então, tá! A discografia de Angela Maria Diniz Gonçalves é composta por 11 discos – o mais recente, de 2006, é uma compilação ao vivo de seus hits – e um DVD. Está de bom tamanho para Angela Ro Ro, apelido advindo da risada forte e rouca e cuja obra é influenciada pelo jazz, blues e rock envoltos em brasilidade.
Ela compôs clássicos como “Amor, meu grande amor”, “Não há cabeça”, “Fogueira”, “Só nos resta viver” e também fincou hits alheios como “Simples carinho” (João Donato – Abel Silva). Ney Matogrosso e Marina Lima foram os primeiros a gravá-la. Bethânia veio na seqüência e deu visibilidade a uma autora intensa. Como intérprete, Ro Ro sempre é visceral. Arrepiante.
A trajetória foi marcada por algumas passagens polêmicas envolvendo, por exemplo, a cantora Zizi Possi. O assunto foi explorado à exaustão pela mídia sensacionalista. Tornou-se, principalmente na década de 80, um alvo fácil para a indústria de fofocas de uma artista que nunca escondeu sua orientação sexual, mas negou-se a ser porta-voz oficial dos homossexuais. Ela só queria – e ainda quer – ser livre para cantar, compor, viver. Amar!. “Fui muito maltratada pela segurança pública”, resume.
Há coisa de dez anos, deixou de lado, nas palavras dela, o “kit suicídio” – álcool, drogas e tabaco – emagreceu quase 50 quilos, enfim deu outro sentido à sua vida. Em 2000, retornou aos discos (“Acertei no milênio”) depois de sete anos de afastamento, comandou um delicioso programa de entrevista, “Escândalo”, veiculado pelo Canal Brasil. A mudança de hábito, digamos assim, não lhe tirou em nada o vigor. Ao contrário: Ro Ro continuou afiada. No palco, baladas de amor são intercaladas com tiradas espirituosas. Uma artista em paz com a vida.
A seguir, trechos da entrevista que Angela Ro Ro concedeu ao blog Sintonia Musical em que fala do seu percurso artístico, do projeto para um novo disco inédito, das novas parcerias com Ana Carolina e Sandra de Sá e também do sonho em montar um show com a cantora Zizi Possi.
Trinta anos de carreira e 60 anos de idade. Você parou para pensar bem nas datas redondas?
(risos) Claro que sim, mas não necessariamente nos 60 anos de idade. Eu procuro me desvincular disso. Quando fiz 50 anos comemorei durante uns cinco anos seguidos. Noves fora, mesmo num mundo pós-moderno, acho uma falta de delicadeza falar sobre idade com uma dama, como diria a maravilhosa e eterna cinquentona Danuza Leão. (gargalhada)
Então, tá! Vou perguntar assim: 30 anos de carreira fonográfica renderam 11 discos. Está de bom tamanho?
Ah, eu estou achando bom. Se deixar eu me torno baiana, né? Não estou difamando a Bahia porque lá se trabalha. Mas é aquela coisa meio Dorival Caymmi, que demorava uns 10 anos para compor uma música... Ele é maravilhoso. Acontece que eu sou um pouco lenta para fazer algumas coisas. Hoje em dia, um pouco menos. Hoje demoro um pouco, mas quando desando eu não paro. Onze discos e um DVD em 30 anos. Estou achando uma boa frequência, entende?
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL
COM UMA OBRA RICA DE INFLUÊNCIAS, A TRAJETÓRIA DE RO RO FOI MARCADA POR ALGUNS ATROPELOS NA VIDA PESSOAL. HÁ DEZ ANOS ELA ABANDONOU VÍCIOS E PERDEU 50 QUILOS. “EU JÁ BEBI MUITO! ENJOA! E ALÉM DE TUDO VOCÊ SE TORNA UM ALVO FÁCIL PARA OS OUTROS PORQUE ALMA DE BÊBADO NÃO TEM DONO”Entendo sim, tenho seus discos. Eu a considero muito importante.
É? Que bom, isso é paixão.
Tem projeto pra disco novo?
Estou pensando... Estou sem gravadora, mas em breve pretendo fazer um disco novo. Não quero fazer um disco de 30 anos de carreira porque tenho o “Ao Vivo” (lançado em 2006) que é correlato à data. Quero um disco inédito com parcerias novas que estou fazendo com Frejat, Sandra de Sá, Ana Carolina...
Tem uma frase sua que é bacana, do mais recente disco em estúdio: “Bebendo água pra lubrificar”. Isso traduz ainda atual fase?
Traduz sim. Fui a um coquetel que a Globo me convidou – com Jayme Monjardim, muito simpático e filho da Maysa; o Manoel Carlos maravilhoso, um monte de gente bacana – para o lançamento do DVD Maysa. Fui ao Copacabana Palace. O que você perguntou mesmo?
(risos) Sobre tomar água para lubrificar...
Ah, sim. Fui e falei com quem estava comigo: “Gente, não sei se vou encontrar facilmente o meu drinque”. Lá tinha de tudo e eu pedi um copo d´água. O garçom demorou um pouco, sabe? E foi me oferecendo tudo quanto é batida com suco natural e tudo maravilhoso e eu recusando. A água demorou um pouco.
(gargalhada) Deve ser um prenúncio da escassez da água no mundo...
(gargalhada) Não, é?! Eu já bebi muito! Enjoa! Você tem ressaca, vomita, a pressão arterial sobe; você escorrega e cai. Ai! E além de tudo você se torna um alvo fácil para os outros porque alma de bêbado não tem dono. Eu acho que sou uma pessoa alcoólatra porque se eu começar a beber posso vir a não parar e isso não vai me fazer bem. Então, deduzo que isso seja alcoolismo. E pra ser sincera eu descobri que não gosto de beber.
Você é uma mulher de grandes amores?
Ah, eu sou! Eu amo muito! Sou capaz de amar uma pedra e nunca ter coleção de pedras. Com animais chego às raias da paixão - sempre “houveram” e “hão” alguns que competem, no bom sentido, com as melhores paixões e amores que tive na vida.
Você viveu tudo o que está escrito nas suas músicas? Há letras contundentes...
No início da década de 80, eu havia sido muito maltratada pela segurança pública – e olha que hoje em dia a gente já não sabe quem é bandido e quem é polícia. Mas naquela época, as pessoas preferiam fazer uma lenda viva em carne viva da Angela Ro Ro.
Você contribuiu um pouco ou não?
Ninguém contribui quando é espancado... A resposta, obviamente, é: não contribui, Mariano. Essa é a minha resposta. Sei que você como homem não precisaria fazer esse tipo de pergunta para mim.
Não perguntei para insultá-la...
Não, meu amor. Eu sei do seu caráter jornalístico. Mas sei que como pessoa, como homem, você não faria uma pergunta dessa para mim.
Ok! Você foi parar na revista “Caras” e com um título assim: “Ro Ro renasce do narcisismo”. Nossa, hein?!
Ah, a revista Caras é alegre, pra cima, feita de muitas fotos. Fui muito bem recebida. Foi ótimo o título, leve. Agora, o narcisismo, no sentido do mitológico da palavra, está associado à recuperação da minha saúde de dez anos para cá, à vontade de viver. Isso tudo se deve ao fato de eu me olhar. Eu me olho! Mas não fico embriagada de vaidades. Meu narcisismo é cheio de autocríticas em prol do autoconhecimento. Se você não se conhece, não quer se olhar, você regride. Eu sou da seguinte lei: “Encara-te a ti mesmo”, que vem de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Tá vendo, eu dou cacetada pra tudo que é lado. E eu só fiz o ginásio. (gargalhada)
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL
INTÉRPRETE VISCERAL, RO RO TEM UMA DISCOGRAFIA COMPOSTA POR 11 TÍTULOS E UM DVD. NO PALCO, A ARTISTA SEDUZ PLATEIAS COM BALADAS PUNGENTES E TIRADAS ESPIRITUOSAS: ELA SE RECUSOU A GRAVAR “MALANDRAGEM”, QUE ESTOUROU COM CÁSSIA ELLERVocê não é meramente intuitiva. Ou seja, apenas “acha” isso ou aquilo sobre determinados assuntos...
Na realidade, meu amor, aos 60 anos, por mais inculta que possa ser, sou muito observadora, atenta e interessada na vida. Eu presto atenção em tudo. Acho que Sócrates, o jogador, é importante para nós e Sócrates, filósofo da antiga Grécia, é muito importante também. O tipo de futebol que o Doutor Sócrates jogava para mim era mais ou menos a mesma narrativa filosófica de Sócrates, o pensador. “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o outro”, que era uma forma Pré-cristã de quando Cristo dizia “Ame ao seu próximo como a si mesmo”. É a mesma onda.
É?
O grande doutor Sócrates ficava de olho no jogo do adversário e, assim, antecipando e fazendo as jogadas corretas. Então, para mim, eu misturo tudo: Ronald Golias, Dercy Gonçalves, Annie Besant, Papa Borja e suas loucuras, torcida do flamengo, Carlos Drummond de Andrade e seus contos eróticos, as frases puras do grande garanhão Vinicius de Moraes... Eu presto atenção a tudo! Nasci na era da televisão, mas mesmo quando em criança eu ficava atenta ao teatro rebolado. Minha experiência maior é ficar atenta à vida, que é fantástica.
Você se enxerga artisticamente em algumas pessoas? Alguém seguiu sua escola musical?
Não sei lhe dizer... Que eu tenha visto alguma coisa minha em alguém, eu não sei... Por Deus do céu, não estou encolhendo...
Cássia Eller não?
(enfática) Nãããããoooooo! Na-na-não!!!!!
É verdade que era pra você ter gravado “Malandragem” em vez da Cássia?
É sim! Eu estava com o repertório do disco fechado. O Cazuza era tipo meu irmão mais novo. Ele e o Frejat me mandaram uma fita cassete com a música e eu pensei: “linda guitarra, uma beleza a harmonia, mas não vou ficar com ela não”. Telefonei pro Cazuza e disse: “Você tá maluco? Eu com 30 e poucos anos e cantar que sou uma garotinha esperando o ônibus da escola?”. Ele blasfemou e disse que iria entregar para... Só na cabeça dele, que achava que era um desafeto eterno. Tempos depois, ouvi a música no carro e disse: “camarada, que voz é essa”. Era a Cássia.
Não quero ser indelicado, mas o desafeto continua?
Desafeto com quem?
Com a Zizi Possi.
Com a Zizi Possi? Não há o menor desafeto. Eu tive uma profunda tristeza da gente. Ela e eu fomos vítimas de manipulações, de más línguas. As pessoas foram muito maliciosas. Muita maldade, muita truculência física e psicológica contra mim. Eu nunca bati em ninguém, muito menos na Zizi e ela sabe disso. Eu acho a Zizi uma pessoa muito bacana. Nunca mais fizemos amizade. Ela tem uma filha linda que canta tão bem quanto ela. Zizi é uma grande artista. Pena que nunca mais fizemos amizade porque eu poderia pedir dinheiro emprestado a ela, né?
Você não ficou rica com a música Ro Ro?
Tô rica nada, só se for de experiências. Falando sério: não tenho nada contra a Zizi, de coração. Inclusive um dos meus planos é não deixar a vida passar sem tentar fazer um show: Zizi Possi e eu.
Olha só...
É. Ela cantando algumas coisas minhas dela e eu vice-versa. Essa ideia me persegue desde os anos 90. Nunca me dirigi a ela para saber a opinião. Mas em algum momento eu gostaria de consultar a Zizi ou a produção dela para saber a disponibilidade e o interesse dela para compartilharmos o mesmo palco. Seria um show que o público dela e o meu público iriam amar. Imagina ela cantando “Só nos resta viver”, que eu fiz depois de ”Meu amigo, meu herói”? Tá vendo como não coleciono desafetos? Vamos ver se alguém convence dona Zizi.
Você uma mulher feliz?
Olha, sou sim!
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL

Reprodução
DIRA PAES CANTOU, DANÇOU E ATÉ ROUBOU A CENA NO ESPECIAL DE FIM DE ANO DE ROBERTO CARLOS: MOMENTO DE DESCONTRAÇÃO NO TRADICIONAL PROGRAMA DE FIM DE ANOA morena fogosa chegou à boca de cena sob fortes aplausos. Não antes de receber um galanteio do anfitrião. “Sou noveleiro apaixonado e eu fiquei apaixonado por ela”, disse Roberto Carlos ao anunciar a atriz Dira Paes, a Norminha, personagem popularizada em “Caminho das Índias”. Eis o motivo de ela ser uma das participantes do especial de fim de ano do cantor e compositor – aclamado “rei” por muitos - exibido na sexta-feira (dia 25.12.2009) pela Rede Globo. Edição correta.
Com caras e bocas, Dira injetou descontração e graça no tradicional e quase sempre óbvio programa e até fez Roberto sair um pouco do script - ou alguém acredita que ele seja um poço de espontaneidade quando fala ao público? Na pele de Norminha até ofereceu o famoso copo de leite. “Qual música do meu repertório você gosta?”, indagou RC. “Se fosse a Norminha escolheria `Cama e Mesa´”, respondeu a atriz.
A despeito de ser uma atriz, Dira mostrou firmeza ao interpretar o sucesso de 1981. Dançaram e cantaram. Roberto incluiu fragmento de “Você não vale nada”, tema da personagem. Chegou a brincar com o nome da banda sergipana, que emplacou esse forrozinho, dizendo que preferia que se chamasse Calcinha Azul. O “rei” , ao que parece, aprendeu a fazer graça consigo mesmo.
Dira Paes é uma excelente atriz. Premiada. Tem a cara do cinema nacional, embora tenha conseguido projeção nacional na TV. Um intérprete com recursos vastos faz, inclusive, sisudos estremecerem. Assim aconteceu com Roberto Carlos.
Outros três convidados: Ana Carolina, Daniel e o grupo sergipano Calcinha Preta. Os dois primeiros estavam mais nervosos que reverentes. A primeira atacou com a já desgastada balada “Encostar na sua” e petrificada duetou em “Como vai você”. Que coisa... O segundo resgatou “Estou apaixonado” (versão menor do sucesso de Donato e Estefano respectivamente) e junto com RC cantou a religiosa “Quando eu quero falar com Deus”. É...
Já o grupo de forró veio com o carro-chefe “Você não vale nada” e uma versão interessante de “Eu amo demais” (lançada oficialmente em 1976). “Nunca pensei que fosse ouvir essa música nessa pegada”, confessou Roberto.
No mais, o repertório do show é cantado de trás pra frente por milhões. E adianta falar que falta ousadia? É pedrada na certa dos fãs mais radicais. RC não pode mudar. É proibido mudar! Mesmo sabendo que tudo, mas tudo mesmo que ele cantar será bem aceito. Bacana o resgate de “Do fundo do meu coração”. Ah, sim: “Emoções” abriu a noitada degravação realizada no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.
Então... Ano que vem tem mais, né?
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Espaço aberto:
* O que acharam da participação de Dira Paes no especial de RC?
* Gostaram do especial? Quais músicas faltaram no repertório?
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RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL

Em busca de sonhos, entro e saio de lojas. Esbarro em multidões e pacotes. Aquele disco natalino da Simone – infalível - tocando, tocando, tocando e... ai, para! A árvore de natal com suas bolas brilhantes, a neve de espuma – que país é esse? O papai Noel, com imensas manchas de suor na roupa de cetim barato, tira fotos e dá balas às crianças.
Juntam-se notas fiscais, que serão trocadas por cupons para concorrer a um carrão dos sonhos- isolado por cordões vermelhos. Um laço desse tamanho sobre o automóvel - vermelho, claro!
Luiza é prática: enfiou os pés no sapato de salto deu uma volta, gostou, levou, “vamos?”. Tem só 13 anos e quer ficar mais bonita que a mulher que se anuncia dentro dela.
Permito-me à pieguice. Observo a sacada do prédio ao lado as luzes piscando: “Feliz Natal”. O “F” do feliz está falhando, precisa trocar. Toda a noite dou uma olhada. São azuis e vermelhas as luzes. Também tenho meus sonhos de consumo. Tenho sonhos subjetivos. Queria tanto parir alguns deles pro conta própria. Os próprios quereres.
Então é Natal – ai, a música da Simone, meu Deus!!! Nem árvore montei, faz tempo que abandonei essa prática. Será por isso que alguns dos meus sonhos não vieram até hoje? Quero meus sonhos empacotados, sim senhor! Quero ver Dada fora desse mundo estranho e sem céu – que droga de vida escolheu.
Com Maria converso muito, uma intimidade tremenda de minha parte. Com José, saúdo, dou oi de longe. Há tempos não coloco o meu Menino na manjedoura.
Sonhos, sonhos são. Espero que num dia 25 de dezembro de um dos próximos anos eu possa acordar de manhã e abrir todos os meus sonhos empacotados. Rasgar o papel e deixar apenas as fitas multicoloridas como lembranças de um natal feliz. Eu sei aguardar.
Sonhos felizes de Natal a todos!
Espaço aberto
* Quais sonhos você gostaria de desembrulhar neste Natal?
* Qual sonho você ganhou e tornou-se mais marcante?
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL
PRESTES A COMPLETAR 40 ANOS DE CARREIRA, EMÍLIO SANTIAGO ASSOCIA A LONGEVIDADE ARTÍSTICA À AUTONOMIA ESTABELECIDA DESDE OS TEMPOS DE CALOURO: “NUNCA FIQUEI REFÉM DE SUCESSO OU DE AUTORIDADES DAS GRAVADORAS; EU CONSTRUÍ MINHA CARREIRA COMO QUIS”No início da terceira canção, alguém da plateia gritou em alto e bom som: “Saigon!”. “Já?”, surpreendeu-se Emílio Santiago, que viria a interpretar seu hit maior só no final do show ocorrido em Ibiporã, distante 14 quilômetros de Londrina.
Até o corinho se formar, o artista apresentou um repertório extenso e volumoso composto por canções por ele consagradas, releituras de clássicos e uma e outra inédita (do mais recente álbum, “De um jeito diferente”).
Todas as canções ganham formas elegantes na voz viril desse carioca, que está prestes a comemorar 40 anos de trajetória em 2010. Graves e agudos aveludados estiveram à disposição de “O melhor das aquarelas”. O espetáculo, apresentado no Cine-Teatro Pe. José Zanelli, apenas para convidados, marcou o lançamento do Royal Boulevard Residence & Resort, da Teixeira Holzmann Empreendimentos Imobiliários.
Acompanhado de um time enxuto, mas coeso de músicos, Emílio Santiago empreendeu uma viagem sonora através de refinada seleção de músicas como “Desenho de Giz” (João Bosco – Abel Silva), “Beijo Partido” (Toninho Horta), “Fato consumado” (Djavan), “O que é amar” (Johnny Alf) ou mesmo a pouco difundida “Última forma”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. "Flamboyant“ (Paulo César Feital- Jota Maranhão) foi um dos destaques. Bela!
Ah, sim, “Perfume Siamês” (Altay Velloso – Paulo Feital) e “Verdade Chinesa” (Carlos Colla – Gilson) não poderiam faltar. Afinal, são provenientes das “Aquarelas”, série de sete discos gravados entre 1988 e 1995 pela Som Livre.
As miscelâneas musicais conferiram boas vendagens e, sobretudo, prestígio maior a Emílio Vitalino Santiago, 63 anos. Claro, bom dinheiro também! O projeto “Aquarela brasileira” foi idealizado por Heleno Oliveira e Roberto Menescal.
“Saigon” - que viria a se transformar na sua “Conceição”, conforme ele mesmo reconhece – seria gravada apenas no “Aquarela 2”, de 1989. E olha que Cláudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão compuseram a obra especialmente para Emílio. “Estava sem gravadora quando me entregaram”, confessa. Coube a Beth Carvalho fazer o primeiro registro, em 1988, seguida por Leny Andrade. Mas o vozeirão de Emílio foi determinante para a popularização da canção.
Com uma discografia composta por 29 títulos – um compacto, inclusive -, o artista carioca nunca abriu mão de escolher o que quer cantar. A autonomia exigia por ele vem desde os tempos em que participou e chegou às finais de um concurso de calouros promovido por Flávio Cavalcanti, no início da década de 70.
Emílio atuou como crooner em casas noturnas e participou de festivais universitários quando estudou Direito. “Acho que o Brasil ganhou um bom cantor”, diz humorado.
Para comemorar as quatro décadas de caminhar artístico, Emílio Santiago pretende lançar um novo disco e fazer shows pelo Brasil e exterior no ano que vem – ele não quis adiantar nada sobre o assunto.
No entanto, não esconde a satisfação de ser recebido críticas excelentes do jornalista Stephen Holden, do The New York Times, que o chamou de “Nat King Cole brasileiro”, entre outras reverências, por conta da temporada na Birbland, mítica casa de jazz . “Foi a consagração para mim”, avisa.
A seguir, trechos da entrevista que Emílio Santiago concedeu ao blog Sintonia Musical.
“Saigon” é sua “Conceição”? Você já ousou não cantá-la em algum show?
É a minha “Conceição”, sem dúvida! Nunca consegui deixar de cantá-la em show, até já tentei. Mas acho bacana porque todo cantor tem que ter pelo menos uma música que marque sua trajetória musical. “Saigon” é a minha canção!
Foram sete Aquarelas, muito sucesso e coisa e tal. Chegou algum momento em que você disse: “já deu, gente!”. Ou seja, queria parar mas houve algum tipo de pressão para continuar?
Não, não. Não houve pressão nenhuma. Vendi milhões de discos, ganhei muito dinheiro com as Aquarelas. Consegui muitas coisas, enfim, no Brasil e lá fora com esses discos. Eu apenas cheguei e disse: “gente, chega, já foram sete aquarelas, são suficientes”. E fui fazer outros projetos musicais.
Precisaram vir as “Aquarelas” para você finalmente ter o reconhecimento popular merecido, não?
Olha, minha carreira em disco é muito interessante. Eu lancei tanta gente: Jorge Aragão, por exemplo. Fui o primeiro a gravar “Bananeira”, a primeira parceria de João Donato e Gilberto Gil. Aliás, essa música tem uma história interessante. Eu estava em estúdio e eu perguntei: “Donato, não vai ter nenhuma música sua no disco?”. Ele disse que havia mandando uma música para o Gil colocar letra. Dias depois voltou com uma música chamada “Bananeira”. Estranhei o nome (risos), aquele negócio de “bananeira não sei, bananeira sei lá”. Gravei e hoje a música é um sucesso mundial.
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL

Primeiramente por Cauby Peixoto, que na minha opinião é a maior cantor do mundo. Depois vem João Gilberto com aquela voz deste tamainho. Eu procuro seguir os dois, de uma forma ou de outra. Procuro usar as duas técnicas, que vem a ser a escola do Tony Bennett, um dos melhores cantores do mundo, que uma hora canta pra fora e em outras canta bem pianinho.
Em algum momento de sua carreira você precisou fazer concessões para continuar cantando?
Não. Eu nunca cantei nada que não quisesse cantar. O Cauby, que é meu amigo e meu ídolo maior, disse uma vez para mim que quem escolhia as músicas para ele cantar o De Veras (Edson Collaço Veras, empresário). Comigo não! Desde quando eu era calouro eu só cantava o que queria. E isso vem desde o final do concurso do programa Flávio Cavalcanti, que tinha o Erlon Chaves (1933 – 1974) como regente.
Que honra!
Pois é! O Erlon me perguntou o que eu iria cantar no Teatro Municipal. Eu respondi: “Chiclete com banana” (Gordurinha/Almira Castilho) E ele: O que? Eu repeti. Ele hesitou um pouco, mas falei para fazer o arranjo porque seria aquela música e pronto. Fui e cantei do meu jeito. Nunca fiquei refém de sucesso, de autoridades de gravadoras. Eu até sofri um pouco pois sabia de comentários de dentro da gravadora dando conta que eu era muito soberbo, muito metido. Nada disso, apenas nunca abri mão do meu repertório e, por isso, talvez seja um cantor brasileiro que construiu a carreira como queria.
Já dá para fazer um balanço aos 40 anos de trajetória?
Só sei que hoje em dia eu posso dizer se quero ou não cantar isso, se vou fazer show aqui ou lá. Pra conseguir tudo isso evidentemente alguém tem que ter cantado muitas boas canções senão estaria completando 40 anos de carreira.
Você é muito reservado, quase não se sabe muito da sua vida pessoal. Você vive enclausurado, Emílio?
(gargalhada). Não, não fico enclausurado. Só que enquanto as pessoas vão para capas das revistas ou às badalações eu pego um avião, vou à Paris, visito museus ou a Nova York ouvir jazz, ver musicais na Broadway. Minha badalação é essa.
O Brasil está bem das pernas?
Politicamente não. É uma vergonha, né? Antigamente era tudo por debaixo do pano e agora a gente vê quem é ou quem são as pessoas que colocamos no poder. Precisamos prestar atenção a esses acontecimentos para não cairmos novamente em arapucas.
Temos duas mulheres candidatas à Presidência da República: Dilma Rousseff e Marina Silva. Qual das duas te anima mais?
Marina, é lógico! Por mim ela já ganhou.
RENATO FORIN JR/ ARQUIVO PESSOAL
EMÍLIO SANTIAGO POPULARIZOU-SE COM A SÉRIE “AQUARELA BRASILEIRA”, QUE RENDEU SETE DISCOS. A CONSAGRAÇÃO VEIO NO INÍCIO DESTE ANO QUANDO UM CRÍTICO DO THE NEW YORK TIMES O CONSIDEROU O “NAT KING COLE BRASILEIRO”.SILMARA MONTES/ARQUIVO PESSOAL
MARIA BETHÂNIA COMOVEU O PÚBLICO CURITIBANO COM “AMOR, FESTA, DEVOÇÃO”: ESPETÁCULO COM ROTEIRO BEM AMARRADO E NOTADAMENTE PERCUSSIVO EM QUE A CELEBRAÇÃO SOBREPÔS-SE À CARGA DRAMÁTICAEla estava num contentamento que dava gosto ver e ouvir. Pudera, o público que lotou o Teatro Guairá, em Curitiba, no último sábado (05.12.09 foi generoso ao se deixar levar do começo ao fim em “Amor, festa, devoção”, espetáculo com o qual Maria Bethânia comemora 45 anos de pisar descalço nos palcos. Ponta dos pés.
Mais que palmas, assovios grossos, corinhos, gritinhos e declarações de amor – até pedidos de casamento recebeu em cena aberta – houve explícita aprovação ao roteiro delicado e, sobretudo, convidativo delineado com Fauzi Arap, o mestre primeiro dela.
A narrativa muitas vezes abriu-se ao silêncio, à reflexão. Ao agrupamento sensorial de cada um. Jorro forte. Cada um sabe como tratar intimamente os graves e os metais de Bethânia – seja em prosa (“Quem fala de mim tem paixão”, frase final de “Olho de lince”, texto de Waly Salomão) ou música (“Vida”, Chico Buarque, agora em camadas perfiladas de voz). Sinais iniciais.
“Amor, festa, devoção” se desenvolveu sob o signo da alegria, da forte vontade de causar encantamento nas pessoas de forma direta. Sem conceitos fortemente intrincados, os espectadores viram sua estrela brilhar mais próxima da terra. Leve Maria. Dançou demais, brincou demais no palco, gargalhou gostoso quando uma voz de volume espesso lhe enviou a primeira proposta de amor.
O acento percussivo – nada desvairado – envolveu o repertório com 35 canções dando, inclusive, contornos mais incisivos a algumas extraídas de “Tua”, o disco com canções de amor sábio. Jaime Além assegurando harmonias em violões e viola. Ah, a percussão de Marco Lobo e Reginaldo Vargas... O show. A base. A festa.
Os olhares se convergem para Bethânia. É natural! Mesmo com gestos recorrentes e a direção bem (demais até, digamos) familiar de Bia Lessa (há propostas novas?), ela mantém a postura incomparável. Um intérprete de porte nunca decepciona. E Maria é a maior de todas. Queiram os modernos aos montes ou não!
Bethânia afagou a plateia com cadência e dolência – o ritmo é tudo na vida de um espectador. Reciclou clássicos: “Explode coração” (Gonzaguinha), cantada a capela, tão cabível ao espetáculo quanto imprescindível a alguns fãs. Alto lá: Não há facilitações. “Amor, festa e devoção” não se inclina aos comuns demais da conta.
Há contrapartidas, isso sim. Se Bethânia oferece momentos gozosos, ela consegue silenciar todo o teatro para que todos ouçam e apreendam o que de novo, belo e intimista tem a apresentar. Se no bloco aberto e fechado com “Saudade dela” (Roberto Mendes - Nizaldo Costa), homenagem a Dona Edith do Prato, há convite para se dançar e cantar, a sequencia vem intensa e intimista com “Saudade” (Moska-Chico César).
“Queixa” (Caetano Veloso), interpretada de maneira suave ao violão, busca vozes. “Você perdeu” (Marcio Valverde - Nélio Rosa), do atual repertório, vem pungente e instala-se no refrão – “foi você quem se perdeu de mim, foi você quem se perdeu, foi você quem perdeu, você perdeu”. Há um sertão nos harpejos da viola. Um luar esquecido.
Urbanidade volátil. Uma asa parada no ar, o drama de Gisberta, a brejeirice cavada nas mercadorias de Zezé di Camargo e na frase da duplinha Bruno & Marrone – “do jeito que você me olha, vai dar namoro”. Tudo pacificado ao modo de uma inocente Maria ou na Bethânia religiosa que dedica os vermelhos à Santa Bárbara, oiá com bracelete no pulso direito. Ouro no esquerdo.
Comovente a interpretação de “Não identificado”, a canção preferida de seu pai. “Eu sempre imaginei que ele ouvia, se comovia e dedicava silencioso a minha mãe. Comigo acontece parecido, mas Deus me deu voz. E assim faço ecoar no tempo o nosso amor por ela. Amor, festa, devoção. Ensinamentos dela para bem viver”, diz Bethânia. “Meu canto é teu, minha senhora”, arremata batendo no peito. Daí em diante é desnecessário esmiuçar o espetáculo. O público, antes mesmo do amor nominal, já havia jogado o coração no palco.
Bethânia maximiza fatos. Eu creio em fatos. Nas rosas vermelhas de 45 mil pétalas. “Você gostou?”, perguntou ela no camarim. Gesticulei, busquei adjetivos novos, não achei: “Amei, Maria”. Inscrevi novamente a palavra devoção no nome dela.
“Amor, festa, devoção” é para se guardar no escaninho da alma. Quem foi diz: “lindo”. Quem foi diz: “belo”. Fico com Zeca Corrêa Leite: “maravilhoso, menino!”. Zeca sabe de tudo o mais! E a vida o que é diga lá, meu irmão?!
SILMARA MONTES/ARQUIVO PESSOAL
LEVE, MAS INCISIVA, BETHÂNIA ESTABELECEU EMPATIACOM OS ESPECTADORES ATRAVÉS DE CANÇÕES ANTOLÓGICAS, BREVES TEXTOS E TEMAS DOS DOIS NOVOS DISCOS: ENCANTAMENTO
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* E no saguão do Guaíra encontro a moça bonita, que orgulhosamente registrou Maria Bethânia com amor, festa e devoção. Pedi fotos. Silmara, obrigado pela confiança.
* Etel Frota, dona de “Sete trovas”: prazer imenso sentar-me ao seu lado. Maria levantou-se para aplaudi-la, no camarim. Bravo!
* Joana, João, Marcelo, Anna, Valéria, Marilda, Cibele e “...” por terem comentado no post anterior: quem viu, sabe o que fala!
* Solange Bronzatti, minha amiga: Dona Maria, não é mesmo?
* Mais, quero mais. Londrina, 08.12.09/ 6h15/ 45 anos.
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MAYRA BERNARDINA - INÉS ANTICH/ DIVULGAÇÃO
Pés descalços, Maria vai às rosas. Vermelhas. Pétalas e mantos encarnados à disposição da senhora de longos cabelos e voz de sinônimos tantos, que leva neste sábado (dia 5 de dezembro)- ao Teatro Guaíra de Curitiba - “Amor, festa, devoção”. Título do novo espetáculo, a significância dos esforços empreendidos em 45 anos de caminhada – há tantas informações contidas neste percurso!
“Amor, festa, devoção” se desenvolve em clima sereno.Intimista, melhor dizendo. Menos ou mais enfática, Bethânia há de produzir faíscas pois assim rosa Claríssima verbalizou e conjugou. Desde então, Maria virou estrela – não a condição, a metáfora. Sendo assim, o espetáculo abre-se mais a espaços e silêncios para Maria Bethânia abordar o Brasil interiorano, urbano quando muito e solar por extensão. Religioso nos sussurros das preces ou nos folguedos.
“Minha voz é tua, minha senhora”, dirá Bethânia em determinado momento do espetáculo. “Amor, festa, devoção” é dedicado a Dona Canô, centenária matriarca da Bahia. “São palavras que me dão norte e que têm como subtexto a fé, a esperança e a caridade, características fortes em minha mãe”, declarou Bethânia no material de divulgação. “Isso explica a energia e o seu espírito para com a vida, os seus 102 anos... Tudo isso são aprendizados para mim. Só agora consigo traduzir em música, intenção e gesto tudo que ela representa para mim”, complementa.
O maestro Jaime Alem, claro, estará ao lado dela empunhando violões, viola e guitarra. Sob a regência: Jorge Helder (baixo e violão), Carlos Cesar (bateria e percussão), Marco Lobo e Reginaldo Vargas (percussão) e Vitor Gonçalves (piano, acordeom e violão). Bia Lessa novamente na direção. Desta vez, a iluminação ficou por conta de Lauro Escorel. Quadros com fotos de Anna Mariana estarão pelo cenário mostrando fachadas de casas populares do interior nordestino.
O roteiro – alinhavado com Fauzi Arap – contém 35 canções. Isso se nenhuma se desfolhou no meio do caminho. Ainda consta, no repertório de cena, “Pronta pra cantar” (Caetano Veloso) ? Bethânia ainda lê algumas outras ou a memória já abarcou “Linha de caboclo”? Há de incidir Bruno e Marrone (“Vai dar namoro”) no universo de Zezé di Camargo? Haverá compreensão – informação – por parte da plateia para “Balada de Gisberta”, do cantor e compositor português Pedro Abrunhosa, precedida por “Drama” é uma homenagem à travesti brasileira Gisberta (ou Gisberto Sauce Neto) assassinada por um grupo de adolescentes em terras lusitanas, em 2006. Emocionante!
A intérprete baiana vai sussurrar “Queixa” ao pé do ouvido de quem interessar possa? Quais canções advindas de “Tua” e “Encanteria”, discos do amor e da fé, respectivamente, lançados recentemente, já estão na boca e no coração das pessoas? “Você perdeu” (Márcio Valverde – Nélio Rosa), eis uma das possíveis empatias. Três textos, dois dela e um de Waly Salomão – “Olhos de lince”.
Há muitas cores e luzes em torno dela. Eu sei, sabemos. Mas há quem saiba mais da rosa e até ofertou um ramalhete de trezentas e tantas pétalas a ela. Fará falta. Muita! Há de virar estrela de todas figuras de linguagem - eu vejo na tela ou sobre as madeiras sagradas. Em meio aos vermelhos concedidos, Maria há de celebrar o ato da rosa eterna. Ave, Maria!
ALEXANDRE DURÃO/ DIVULGAÇÃO
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* Algo a dizer sobre Maria Bethânia? Alguém assistiu ao show? Espaço aberto
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SERVIÇO
*Amor, festa, devoção – espetáculo com Maria Bethânia, em Curitiba. Produção: Verinha Walflor. Mais informações clique aqui
GABI M.O./ DIVULGAÇÃO
COMPOSTA POR MÚSICOS EXPRESSIVOS DA CENA GAÚCHA, A BANDA REALIDADE PARALELA PÕE NA RODA O PRIMEIRO CD COM CLÁSSICOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS: INQUIETANTE DESCONSTRUÇÃO SONORA FORMADA PELA FUSÃO DO ELETRÔNICO COM O ACÚSTICONomes: Vanessa Longoni (cantora), Angelo Primon (viola caipira e violão), Luke Faro (bateria e percussão) e Marcelo Corsetti (guitarra). Quarteto potente. Referências na cena gaúcha, cada um dos integrantes possuem bons metros quadrados de ocupação. Incensados.
Por conta das conjunções musicais construíram a Realidade Paralela. Uma banda cuja sonoridade estilhaça formalidades e sinaliza conceitos estéticos interessantíssimos. Cruzamento do acústico e tecnológico.
Ok, muitos fazem isso, se dão bem e coisa e tal. No caso da banda Realidade Paralela o diferencial está no contraste de timbragens, no modo de preencher canções, na assinatura legível de quem quer fazer – e faz – algo agradável sem recorrer a clichês.
O primeiro CD – independente, com tiragem inicial de mil cópias – está na roda e agrupa canções aparentemente distantes, mas que no todo passam por um processo de reformatação. De desconstrução. São clássicos nacionais e internacionais ou mesmo um mantra hindu. Assim: Vinicius e Edu convivem com Bono Vox, a nova bossa com solavancos nordestinos.
Que nome dar? Classificações são necessárias? Se alguns acham necessário rotular, o quarteto faz MPeB. Ou seja, Música das Pessoas de um Brasil nas palavras de Vanessa Longoni. “O álbum é livre! Música livre para livre pensar e sentir. Respeitamos nossos ouvintes, deixamos seus arquétipos internos definirem a intensidade da sua degustação sonora”, diz a intérprete com recursos admiráveis e inteligência musical concedida a poucos.
Sim, a Realidade Paralela tem boa voz. Tem também levada roqueiro por conta da guitarra incisiva de Marcelo Corsetti em consonância com as cordas acústicas de Angelo Primon, que vai também à rabeca e ao sitar. A efervescência se dá também nas baquetas de Luke Faro – encadeamento de ritmos vários. Os três provêm da banda Terratrônix com trabalho calcado nas experimentações tecnológicas e acústicas., Todos do Realidade Paralela vêm de trabalhos distinto e, no entanto, há tempos se entreolham.
O primeiro batismo da banda aconteceu em novembro do ano passado, na Feira do Livro de Porto Alegre. Repertório testado e aprovado, o disco. Nove faixas. Apenas uma inédita, a confessional “Perfume, pente, pensamento” (Vanessa Longoni e Richard Serraria) em levada de bossa. Bacana!
A pungente feitura de “Arrastão” (Edu Lobo -Vinicius de Moraes) vem sob o signo da modernidade. Da atualização.O hino riponga “Aquarius” (eternizado pelo 5th dimension) vem no balanço de um possível ijexá. Boa sacada!
“All because of you” (U2) tem lá seus encantos, mas nada tanto assim. Recaem sobre “Atirador” (Lula Queiroga) e “Luz da nobreza” (Pedro Luis – Zé Renato) argumentos suficientes para se ter o disco da Realidade Paralela.
Se bem que “Gírias do norte” (Jacinto Silva-Onildo Almeida), atravessada por rock pesado e dos bons,também contenha fortes motivações para se atentar à destreza e à pluralidade do respeitável quarteto.
A seguir, trechos da entrevista que a cantora Vanessa Longoni concedeu ao blog Sintonia musical.
CD lançado como fica a trajetória da banda? Permanece ou depois do projeto cada um volta ao próprio espaço?
A banda começou de forma totalmente leve. Assim têm sido as dinâmicas de comunicação interna, com as pessoas que se aproximaram e com o público em geral. Entendemos que, de forma natural, os desdobramentos deste encontro sejam por horas ilimitadas. Existe sempre uma realidade paralela a tudo que acontece ou que fazemos. Portanto estamos sempre acontecendo paralelamente e juntos.
site realidadeparalela.com.br/autoria não informada

Há uma reformatação de canções nas searas acústicas e elétricas. Esse expediente é bastante utilizado. Portanto, quais nuances diferenciadas vocês buscam? As experimentações como proposta estética seriam a principal assinatura do Realidade Paralela?
Sim. Começamos por duas liberdades básicas: a de termos a instrumentação que formamos com guitarras pirotecnológicas, violas caipiras, violões, rabecas, afinações não convencionais, uma bateria tocada com requintes estratosféricos de polirritmia e interpretações viscerais da nossa bruxinha Longoni; a outra liberdade que nos outorgamos é a de tocar as músicas que gostamos ou gostaríamos de tocar. A junção destas duas coisas aliadas à química interpretativa na performance ao vivo torna o som do grupo uma digital, uma personalidade ímpar pela diversidade.
Há canções aparentemente distantes, de mantra hindu a U2. Bem como nuances sonoras que vão desde o ijexá até Bossa Nova, sem perder a pegada roqueira. A narrativa é fragmentada, digamos assim. A costura, o possível conceito estaria no estofo?
Nós temos, pessoalmente, motivos muito claros para entender que fazemos música com arte. Explicamos: a arte é tudo aquilo que transforma, que choca pela beleza ou pela feiura, pela simplicidade ou pela complexidade. Pelo choque de paradigmas. Isso é o que causamos em algumas pessoas, pois a música que construímos consegue sentido em gêneros opostos, se podemos dizer assim. Consegue sonoridade não tendo uma formação instrumental convencional.
A pergunta que nos fazemos é: até que ponto nós como ouvintes ou fazedores de música estamos cristalizados em conceitos estáticos iniciais sobre estática, gênero, formação instrumental, emoções e sentimentos? A resposta para nós pode parecer emergir da simplicidade do divertimento.
Um CD de inéditas demoraria mais para as pessoas compreenderem qual é a de vocês?
Sinceramente achamos que não. Só entendemos isso como parte de um processo de auto-conhecimento do grupo. Este CD de estreia tomou esta configuração por situações particulares, mas não podemos perder de foco que a maioria destes arranjos soa como que uma composição do grupo também. Entendemos a composição como um processo em vários sentidos.
Descortinou-se para a Realidade Paralela, em primeiro plano, a reinvenção das músicas que registramos neste CD, possivelmente a composição em forma de canção tenderá a ganhar espaço nos movimentos criativos futuros do grupo.
Aliás, o disco sai de forma independente. Houve busca por gravadoras ou a independência foi planejada para ter autonomia musical?
Estamos abertos a todas as parcerias que respeitem nossa maneira de fazer música. Acho que até mesmo as gravadoras mais tradicionais do sistema "grandes vendagens, baita negócio" tenderiam a não ter uma visão de interferência artística no trabalho que fazemos.
Para concluir, o que dizer da cena gaúcha? Como vão vocês?
A cena existe, desorientada, mas existe. Bom, nem sabemos se existe orientação. É diversificada, porém alguns estilos que são sucesso do sudeste para cima não vigoram por aqui. Isso talvez nos dê uma sensação de identidade. Temos projetos individuais como pesquisas, lançamentos de CD e DVD,mas nosso foco é a divulgação deste novo trabalho - Realidade Paralela - que tem nos dado muito prazer.
site realidadeparalela.com.br/autoria não informada
NO DISCO, LANÇADO DE FORMA INDEPENDENTE, O QUARTETO MESCLA VINICIUS DE MORAES E BONO VOX, MANTRA HINDU E HINO HIPPIE, GUITARRAS E VIOLA CAIPIRA, ALÉM DE POLIRRITIMIA: EFERVESCÊNCIAMais informações sobre a banda Realidade Paralela clique www.realidadeparalela.com.br e www.myspace.com/realidadeparalelars
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