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Terça-feira, 09/02/2010

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Sintonia Musical

Quem faz o blog
Enviado por ANTÔNIO MARIANO JÚNIOR, 17/07/2008 às 03:39


Maristela Martins/Divulgação

Maristela Martins/Divulgação / CANTORA, COMPOSITORA, POETA E ATRIZ, BEATRIZ AZEVEDO PÕE NA RODA “ALEGRIA”, DISCO QUE DIALOGA COM O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO, TROPICALISMO E ATÉ MANGUE BEAT<br />
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CANTORA, COMPOSITORA, POETA E ATRIZ, BEATRIZ AZEVEDO PÕE NA RODA “ALEGRIA”, DISCO QUE DIALOGA COM O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO, TROPICALISMO E ATÉ MANGUE BEAT


Beatriz Azevedo conjuga como poucos o verbo devorar. Antropofágica, apreciou Elza Soares e Billie Holiday dançando um samba de gafieira intitulado “Não é da conta de ninguém”, faixa que serve como respiradouro a quem, em seta, mergulhar no terceiro projeto musical da cantora, compositora, atriz e poeta paulistana. Mulher inteligente!

“Alegria” sugere simplicidade, coisinhas momentâneas, né? Qual o quê! O conteúdo requer ouvidos tais para compreender como Beatriz apanhou ritmos brasileiros (maxixe, coco, embolada, frevo, maracatu, samba) e os reordenou de acordo com suas necessidades artísticas. Que remetem ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, ao Tropicalismo e até mesmo ao mangue beat e suas saídas sonoras interessantes que muitos ainda teimam em chamar de movimento - não é!

Beatriz conecta música e literatura. Fornece pistas através de “devorações”, apêndices atrelados às letras do encarte riquíssimo concebido por Gringo Cárdia – quem mais, né? No universo inventivo - vibrações, talvez – a artista faz roçar Cesaria Évora (“e a língua que a gente quase entende”) com Beethoven e o poeta Schiller; Piazzola, Hilda Hilst, Villa Lobos e Tom Waits; Henri Salvador e Genet; ou mesmo Mitra por Brasileiros, filhos do sol. Então, tá!

“Alegria” é conceitual e autoral. A faixa-título provém da parceria de Beatriz Azevedo com Vinicius Cantuária, um maxixe pouco ortodoxo que conta com a participação do cantor, compositor e instrumentista radicado há 20 anos em Nova York. Cristóvão Bastos é o diretor musical do disco.

Tom Zé dá voz na maliciosa “Pelo buraco”, feita especialmente para ele cantar. Dos modernistas Raul Bopp e Oswald de Andrade, Beatriz musicou, respectivamente, os poemas “Coco de Pagu” e “Relicário”. Da memória afetiva, devorou “Speak Love” (Kurt Weill –Ogden Nash). Outra língua: “Savoir par coeur”, um samba cheio de bossa em que a Henri Salvador toma à frente. Composição de Beatriz.

Da própria lavra, destacam-se “Circo” e suas intrincadas “amarrações” (seu coração de ioiô/vai e volta/ girando na corda/e se um dia ele for/e se a corda arrebentar/como é que eu vou ficar?) e “Rede” (eu caí na rede da paixão/ tão por acaso tão de repente/ e eu nunca fico só no raso/ eu vaso amor feito torrente).


Reprodução

Reprodução / CONCEITUAL E AUTORAL, ÁLBUM AGRUPA RITMOS BRASILEIROS COMO MAXIXE, COCO, EMBOLADA, SAMBA : BREVES EXPERIMENTALISMOS COM PARTICIPAÇÕES DE TOM ZÉ E VINICIUS CANTUÁRIA<br />
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CONCEITUAL E AUTORAL, ÁLBUM AGRUPA RITMOS BRASILEIROS COMO MAXIXE, COCO, EMBOLADA, SAMBA : BREVES EXPERIMENTALISMOS COM PARTICIPAÇÕES DE TOM ZÉ E VINICIUS CANTUÁRIA


A devoração de “Rede”: “Partido alto carioca com a mitologia das serpentes simbolizando sabedoria e cura. As serpentes que protegeram a meditação de Buda em sete espirais, O encantador de serpentes precisa dançar com sua flauta – a cobra é surda. Não é o som que encanta, e sim, o movimento. Auto-devoração, oroboros”. Então...

A música é uma das manifestações artísticas de Beatriz Azevedo. Palavras: são dela os livros “Peripatético”, “Idade da pedra” e “Tudo quanto arde”. Multifacetada, Beatriz é graduada em Artes Cênicas e passou uma temporada em Barcelona estudando dramaturgia.

Como atriz, atuou em espetáculos do genial Zé Celso Martinez Corrêa. O diretor, aliás, participou de “Bum bum do poeta” (2000), primeiro disco da cantora. Adriana Calcanhotto também. Em seguida, veio “Mapa-múndi – samba and poetry”, produzido por Ale Siqueira.

Atualmente, Beatriz se expande com “Alegria”, álbum afeito a inteligências possíveis. A seguir um pouco das palavras dessa artista audaz.

O conceito de “Alegria” é abrangente. Há particularidades necessárias para sacar e melhor devorar o disco?

Acredito que toda obra de arte sempre pode ser absorvida, devorada; pode ser instigante ou desafiadora, em várias perspectivas, em vários ângulos. E acredito também que o ouvinte/leitor/espectador é muito importante neste processo, tanto quanto o artista. Paulo Leminski dizia que o poema só se completa com o leitor. Por isso meu trabalho procura ser aberto, tanto musicalmente como poeticamente, e convida o público para uma viagem, para uma experiência. Não precisa passaporte, nem ser PHD em arte, nem nenhum requerimento especial: basta estar aberto e se entregar, mergulhar. Só não curte a alegria, não se diverte, quem fica muito travado, observando "de fora" a brincadeira. É claro que quem conhece muitas das "pistas" que eu dou no encarte do CD, quem tem uma perspectiva cultural mais ampla, quem está conectado em arte e cultura, vai saborear mais, desfrutar com todos os seus sentidos e usar a inteligência para relacionar com os referenciais culturais de que dispõe. Mas no final, arte é como vinho: se você conhece aquele universo, pode desfrutar o sabor, o aroma, a cor, o timbre, tudo, reconhecendo cada qualidade e por isso se interessando mais. Mas se você não é enólogo, pode se divertir muito também, se deliciar com Baco, sem saber se aquela safra é a tal ou não, e vai dançar com Dionísio de um jeito ou do outro, que no final é o que interessa! Arte é para todo mundo!

A palavra “alegria” tem que peso?

Alegria é leve!!! Como disse Drummond, "seus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que a mão de uma criança".

O disco dialoga com o “Manifesto Antropofágico”, as tais devorações, ecos cabíveis ao Tropicalismo e vibrações subliminares do mangue beat. Qual postura você se propõe artisticamente?

Minha postura é sempre viva, atenta, aberta, dialogando com o mundo. Percebo na cultura brasileira uma riqueza incrível, e particularmente nestes "movimentos" citados acima, eu me identifico com a capacidade de
de serem brasileiros e universais ao mesmo tempo. E sei que estamos sempre em movimento, evoluindo, por isso eu devoro tudo isso e mais um pouco, mas não me filio a nenhum destes "ismos", nem gosto de trabalhos atuais que ficam tentando reproduzir os Mutantes, ou serem os novos Tropicalistas, acho que isso não tem o menor sentido. Tom Zé, Oswald, Caetano, Chico Science, todos estes artistas foram geniais porque estavam vivos e presentes no seu tempo. Para mim não tem o menor sentido tentar "refazer" as obras deles. Eu crio as minhas coisas hoje, dialogando com o mundo hoje, e da mesma forma que devorei tudo de bom que eles fizeram também devoro Mathew Herbert, Sacha Waltz, Pole, Matthew Barney, artistas contemporâneos que também estão recriando o mundo à sua maneira.


Imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/autoria não informada

Imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/autoria não informada / BEATRIZ E ZÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA, COM QUEM TRABALHOU EM ALGUNS  ESPETÁCULOS TEATRAIS: ATRIZ POR FORMAÇÃO, POETA POR IMPULSO PRIMORDIALBEATRIZ E ZÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA, COM QUEM TRABALHOU EM ALGUNS ESPETÁCULOS TEATRAIS: ATRIZ POR FORMAÇÃO, POETA POR IMPULSO PRIMORDIAL
A música brasileira é antropofágica desde há tempos. O álbum parece explicitar isso através da fusão de ritmos e construções melódicas sinuosas, além da literariedade. Experimentalismos, digamos assim?

Experimentar é fundamental! Mas é preciso dizer que no meu CD “Alegria” a experimentação é livre, mas saborosa! Ou seja, é uma música que faz dançar, que emociona que diverte, que inspira. Digo isso porque eu gosto de música assim, e tenho ouvido tanto do público como da crítica especializada, este retorno: "que bom, seu CD é muito rico e vivo, é inteligente sem ser "intelectual", toca o corpo, a cabeça e o coração". Mais ou menos assim, resumindo o retorno que tenho recebido das pessoas. Minha alegria é enorme, porque parece que conseguimos realizar o que queríamos! Nunca quis fazer um "cd cabeça", sabe? Ou aquele tipo de música em que o instrumentista tem orgasmos com seu próprio virtuosismo, mas o público acha tudo um saco! Nunca gostei de gente assim... aquele tipo "gueto", ou "clubinho fechado" em que só entram os “eleitos” de Harvard, ou só os mais “mudérnos” da última onda, ou só isso ou só aquilo. Gosto de arte viva e aberta, conectada com as pessoas, para todos os públicos.

Artista multifacetada (cantora, compositora, poeta, atriz) sugere expansão. Pergunta: o que você sabe fazer de melhor?

Expandir! Não ficar acomodada! Se acho que estou sabendo demais de uma coisa, é sinal que preciso direcionar minha atenção para algo que possa me desafiar a aprender novas coisas. E depois retornarei à atividade anterior, trazendo novas experiências e vendo o que era conhecido com novos olhos.

A velha discussão: letra de música não é poesia, mas muitas poesias podem ser musicadas. O que tem a dizer sobre isso?
O que é música? O que é poesia? Quem vai dizer o que vale e o que não vale? O que pode ou o que não pode? E quem seguir estas regras, ou quaisquer modelos e limitações, não é artista. A arte mora na curva... Exatamente de onde não se espera, surge a surpresa! Para mim é tão vasto e infinito como perguntar: o que é Deus? O que é a vida? O que é a morte? Não tenho respostas prontas. Por isso resolvi dedicar a minha vida à música e à poesia, para a cada dia questioná-las na prática, sem limites. Sem hierarquias que não acrescentam nada à experiência humana, só atravancam! E, sobretudo, quero viver minha vida com música e poesia!


imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/ autoria não informada

imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/ autoria não informada / <br />
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BEATRIZ AZEVEDO: “SE ACHO QUE ESTOU SABENDO DEMAIS DE UMA COISA, É SINAL QUE PRECISO DIRECIONAR MINHA ATENÇÃO PARA ALGO QUE POSSA ME DESAFIAR A APRENDER NOVAS COISAS”  <br />

BEATRIZ AZEVEDO: “SE ACHO QUE ESTOU SABENDO DEMAIS DE UMA COISA, É SINAL QUE PRECISO DIRECIONAR MINHA ATENÇÃO PARA ALGO QUE POSSA ME DESAFIAR A APRENDER NOVAS COISAS”


Interesses minuciosos sobre a artista podem ser devorados no site www.beatrizazevedo.com.br

Este é um espaço público de debate de idéias. A Rede Paranaense de Comunicação (RPC) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
ancora
Comentários
Antônio Mariano Júnior | 24/07/2008 | 06:39

Muitíssimo obrigado,Cláudio! Salve! Bem-vindo sempre ao blog.

claudio | 22/07/2008 | 18:17

Grande Antonio Mariano: Gostaria primeiramente de parabenizá-lo pela entrevista com Beatriz Azevedo e ao mesmo tempo agradecê-lo por nos proporcionar momentos tão agradáveis. Suas entrevistas, sempre com muita propriedade, nos revela a harmonia e a cumplicidade da interprete com aquilo que ela se propõe a fazer. Fantástico..Parabéns mais uma vez pelo seu excelente trabalho. Grande abraço claudio

Marisa Olavo - Londres | 20/07/2008 | 01:41

Mais uma vez comento sobre este trabalho e a pessoa maravilhosa que voce Antonio Mariano, atraves deste jornal que cresce em qualidade dia-a-dia,trouxe ao nosso conhecimento, Beatriz Azevedo. Luz,Melodias, Sabedoria, Qualidade, ALEGRIA, MUITA LUZ. Bravo.

marcelo | 19/07/2008 | 20:01

papo cabeça.

rodrigo | 17/07/2008 | 20:48

Mariano eu DEVOREI a Beatriz!

Masa Olavo- London | 17/07/2008 | 20:11

Deus! Valeu ler esta reportagem e que valha este trabalho o melhor pra uma artista, tao jovem e cheia de ensinamentos. Obrigada Mariano por divulgar isto...... o que voce sabe fazer de melhor.....Expandir.Nao ficar acomodada...." eNSINAMENTO PROFUNDO E, FELIZ DAQUELE QUE PERCEBE ISSO A TEMPO....DE SER FELIZ.

Ferdinando | 17/07/2008 | 17:34

Eu confesso que não conhecia o trabalho da Beatriz Azevedo mas pela entrevista ela se mostrou muito rica de informações culturais. Acessando o site dela pude saber mais um pouco desta artista multi-facetada que precisa ser valorizada também pelas idéias que comunga.

ancora

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