Terça-feira, 09/02/2010
Maristela Martins/Divulgação
CANTORA, COMPOSITORA, POETA E ATRIZ, BEATRIZ AZEVEDO PÕE NA RODA “ALEGRIA”, DISCO QUE DIALOGA COM O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO, TROPICALISMO E ATÉ MANGUE BEATBeatriz Azevedo conjuga como poucos o verbo devorar. Antropofágica, apreciou Elza Soares e Billie Holiday dançando um samba de gafieira intitulado “Não é da conta de ninguém”, faixa que serve como respiradouro a quem, em seta, mergulhar no terceiro projeto musical da cantora, compositora, atriz e poeta paulistana. Mulher inteligente!
“Alegria” sugere simplicidade, coisinhas momentâneas, né? Qual o quê! O conteúdo requer ouvidos tais para compreender como Beatriz apanhou ritmos brasileiros (maxixe, coco, embolada, frevo, maracatu, samba) e os reordenou de acordo com suas necessidades artísticas. Que remetem ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade, ao Tropicalismo e até mesmo ao mangue beat e suas saídas sonoras interessantes que muitos ainda teimam em chamar de movimento - não é!
Beatriz conecta música e literatura. Fornece pistas através de “devorações”, apêndices atrelados às letras do encarte riquíssimo concebido por Gringo Cárdia – quem mais, né? No universo inventivo - vibrações, talvez – a artista faz roçar Cesaria Évora (“e a língua que a gente quase entende”) com Beethoven e o poeta Schiller; Piazzola, Hilda Hilst, Villa Lobos e Tom Waits; Henri Salvador e Genet; ou mesmo Mitra por Brasileiros, filhos do sol. Então, tá!
“Alegria” é conceitual e autoral. A faixa-título provém da parceria de Beatriz Azevedo com Vinicius Cantuária, um maxixe pouco ortodoxo que conta com a participação do cantor, compositor e instrumentista radicado há 20 anos em Nova York. Cristóvão Bastos é o diretor musical do disco.
Tom Zé dá voz na maliciosa “Pelo buraco”, feita especialmente para ele cantar. Dos modernistas Raul Bopp e Oswald de Andrade, Beatriz musicou, respectivamente, os poemas “Coco de Pagu” e “Relicário”. Da memória afetiva, devorou “Speak Love” (Kurt Weill –Ogden Nash). Outra língua: “Savoir par coeur”, um samba cheio de bossa em que a Henri Salvador toma à frente. Composição de Beatriz.
Da própria lavra, destacam-se “Circo” e suas intrincadas “amarrações” (seu coração de ioiô/vai e volta/ girando na corda/e se um dia ele for/e se a corda arrebentar/como é que eu vou ficar?) e “Rede” (eu caí na rede da paixão/ tão por acaso tão de repente/ e eu nunca fico só no raso/ eu vaso amor feito torrente).
Reprodução
CONCEITUAL E AUTORAL, ÁLBUM AGRUPA RITMOS BRASILEIROS COMO MAXIXE, COCO, EMBOLADA, SAMBA : BREVES EXPERIMENTALISMOS COM PARTICIPAÇÕES DE TOM ZÉ E VINICIUS CANTUÁRIAA música é uma das manifestações artísticas de Beatriz Azevedo. Palavras: são dela os livros “Peripatético”, “Idade da pedra” e “Tudo quanto arde”. Multifacetada, Beatriz é graduada em Artes Cênicas e passou uma temporada em Barcelona estudando dramaturgia.
Como atriz, atuou em espetáculos do genial Zé Celso Martinez Corrêa. O diretor, aliás, participou de “Bum bum do poeta” (2000), primeiro disco da cantora. Adriana Calcanhotto também. Em seguida, veio “Mapa-múndi – samba and poetry”, produzido por Ale Siqueira.
Atualmente, Beatriz se expande com “Alegria”, álbum afeito a inteligências possíveis. A seguir um pouco das palavras dessa artista audaz.
O conceito de “Alegria” é abrangente. Há particularidades necessárias para sacar e melhor devorar o disco?
Acredito que toda obra de arte sempre pode ser absorvida, devorada; pode ser instigante ou desafiadora, em várias perspectivas, em vários ângulos. E acredito também que o ouvinte/leitor/espectador é muito importante neste processo, tanto quanto o artista. Paulo Leminski dizia que o poema só se completa com o leitor. Por isso meu trabalho procura ser aberto, tanto musicalmente como poeticamente, e convida o público para uma viagem, para uma experiência. Não precisa passaporte, nem ser PHD em arte, nem nenhum requerimento especial: basta estar aberto e se entregar, mergulhar. Só não curte a alegria, não se diverte, quem fica muito travado, observando "de fora" a brincadeira. É claro que quem conhece muitas das "pistas" que eu dou no encarte do CD, quem tem uma perspectiva cultural mais ampla, quem está conectado em arte e cultura, vai saborear mais, desfrutar com todos os seus sentidos e usar a inteligência para relacionar com os referenciais culturais de que dispõe. Mas no final, arte é como vinho: se você conhece aquele universo, pode desfrutar o sabor, o aroma, a cor, o timbre, tudo, reconhecendo cada qualidade e por isso se interessando mais. Mas se você não é enólogo, pode se divertir muito também, se deliciar com Baco, sem saber se aquela safra é a tal ou não, e vai dançar com Dionísio de um jeito ou do outro, que no final é o que interessa! Arte é para todo mundo!
A palavra “alegria” tem que peso?
Alegria é leve!!! Como disse Drummond, "seus ombros suportam o mundo, e ele não pesa mais que a mão de uma criança".
O disco dialoga com o “Manifesto Antropofágico”, as tais devorações, ecos cabíveis ao Tropicalismo e vibrações subliminares do mangue beat. Qual postura você se propõe artisticamente?
Minha postura é sempre viva, atenta, aberta, dialogando com o mundo. Percebo na cultura brasileira uma riqueza incrível, e particularmente nestes "movimentos" citados acima, eu me identifico com a capacidade de
de serem brasileiros e universais ao mesmo tempo. E sei que estamos sempre em movimento, evoluindo, por isso eu devoro tudo isso e mais um pouco, mas não me filio a nenhum destes "ismos", nem gosto de trabalhos atuais que ficam tentando reproduzir os Mutantes, ou serem os novos Tropicalistas, acho que isso não tem o menor sentido. Tom Zé, Oswald, Caetano, Chico Science, todos estes artistas foram geniais porque estavam vivos e presentes no seu tempo. Para mim não tem o menor sentido tentar "refazer" as obras deles. Eu crio as minhas coisas hoje, dialogando com o mundo hoje, e da mesma forma que devorei tudo de bom que eles fizeram também devoro Mathew Herbert, Sacha Waltz, Pole, Matthew Barney, artistas contemporâneos que também estão recriando o mundo à sua maneira.
Imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/autoria não informada
BEATRIZ E ZÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA, COM QUEM TRABALHOU EM ALGUNS ESPETÁCULOS TEATRAIS: ATRIZ POR FORMAÇÃO, POETA POR IMPULSO PRIMORDIALArtista multifacetada (cantora, compositora, poeta, atriz) sugere expansão. Pergunta: o que você sabe fazer de melhor?
Expandir! Não ficar acomodada! Se acho que estou sabendo demais de uma coisa, é sinal que preciso direcionar minha atenção para algo que possa me desafiar a aprender novas coisas. E depois retornarei à atividade anterior, trazendo novas experiências e vendo o que era conhecido com novos olhos.
A velha discussão: letra de música não é poesia, mas muitas poesias podem ser musicadas. O que tem a dizer sobre isso?
O que é música? O que é poesia? Quem vai dizer o que vale e o que não vale? O que pode ou o que não pode? E quem seguir estas regras, ou quaisquer modelos e limitações, não é artista. A arte mora na curva... Exatamente de onde não se espera, surge a surpresa! Para mim é tão vasto e infinito como perguntar: o que é Deus? O que é a vida? O que é a morte? Não tenho respostas prontas. Por isso resolvi dedicar a minha vida à música e à poesia, para a cada dia questioná-las na prática, sem limites. Sem hierarquias que não acrescentam nada à experiência humana, só atravancam! E, sobretudo, quero viver minha vida com música e poesia!
imagem extraída do site www.beatrizazevedo.com.br/ autoria não informada

Interesses minuciosos sobre a artista podem ser devorados no site www.beatrizazevedo.com.br
Muitíssimo obrigado,Cláudio! Salve! Bem-vindo sempre ao blog.
claudio | 22/07/2008 | 18:17Grande Antonio Mariano: Gostaria primeiramente de parabenizá-lo pela entrevista com Beatriz Azevedo e ao mesmo tempo agradecê-lo por nos proporcionar momentos tão agradáveis. Suas entrevistas, sempre com muita propriedade, nos revela a harmonia e a cumplicidade da interprete com aquilo que ela se propõe a fazer. Fantástico..Parabéns mais uma vez pelo seu excelente trabalho. Grande abraço claudio
Marisa Olavo - Londres | 20/07/2008 | 01:41Mais uma vez comento sobre este trabalho e a pessoa maravilhosa que voce Antonio Mariano, atraves deste jornal que cresce em qualidade dia-a-dia,trouxe ao nosso conhecimento, Beatriz Azevedo. Luz,Melodias, Sabedoria, Qualidade, ALEGRIA, MUITA LUZ. Bravo.
marcelo | 19/07/2008 | 20:01papo cabeça.
rodrigo | 17/07/2008 | 20:48Mariano eu DEVOREI a Beatriz!
Masa Olavo- London | 17/07/2008 | 20:11Deus! Valeu ler esta reportagem e que valha este trabalho o melhor pra uma artista, tao jovem e cheia de ensinamentos. Obrigada Mariano por divulgar isto...... o que voce sabe fazer de melhor.....Expandir.Nao ficar acomodada...." eNSINAMENTO PROFUNDO E, FELIZ DAQUELE QUE PERCEBE ISSO A TEMPO....DE SER FELIZ.
Ferdinando | 17/07/2008 | 17:34Eu confesso que não conhecia o trabalho da Beatriz Azevedo mas pela entrevista ela se mostrou muito rica de informações culturais. Acessando o site dela pude saber mais um pouco desta artista multi-facetada que precisa ser valorizada também pelas idéias que comunga.
ATUALIZADOhá 3h
Ney repetirá seu feito de 2008?
ATUALIZADOhá 12h
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