Terça-feira, 09/02/2010
Marcelo Elias
Um show precisa ir além da simples apresentação de músicasComo falar sobre o que você não conhece ou sobre o que acabou de ser apresentado? Decifra-me ou te devoro. O desafio se impõe ao jornalista. Mas não quero aqui ser o jornalista. Quero ser o amigo que você não tem. O cara que fala para você do que você perdeu, ou o cara que divide com você o que compartilharam nesta noite de sexta-feira. Quero falar de uma banda, uma grande banda. Mas como falar de uma banda sobre a qual você não conhece 90%? Mas eu acabei de ouvir esta banda tocar e meu coração manda eu falar para você que ela é uma grande banda. Jon Spencer. Este é um nome que anda me acompanhando há uns 15 anos. Com sua estranheza e sua – desculpem puristas da língua, expelidores de regras – sua surpreendência. Pois esse cara me apanhou pela proximidade com o punk, uma proximidade tardia, pero sincera. E seu mix de influências Blues Explosion. E ele veio para Curitiba, sem o Blues Explosion, mas com o Heavy Trash, da qual eu nunca ouvira falar, mas era ele, o cara que uma vez o Fabiano Camargo tentou me fazer gostar porque era blues. Eu disse que não era blues, mas não consegui explicar porque eu gostava – o Fabiano achava que se fosse blues eu gostaria, porque sabia que eu gosto de blues, mas não era blues, era mais explosion, mais punk, mais outra coisa, que eu nunca soube explicar. Mas sempre persegui porque gostei do inexplicável, gostei do estranhamento. Mas isso é coisa do passado porque o mesmo cara já não é mais o mesmo cara, ou talvez seja, e eu esteja muito mais diferente, embora continue gostando de blues e do Fabiano Camargo. E agora escrevo isso para dizer que continuo gostando do Jon Spencer, mesmo sem o Blues Explosion, e que acabei de ver um dos melhores shows de rock de todos os tempos em lugares pequenos. Pois vou tentar explicar isso a vocês, mesmo sem ter muitas referências pois acabei de ver o show e ainda estou um tanto bêbado com o som e com as Bohêmias, servidas ao ponto no Jockers, local do acontecimento que, para mim, marcou e tornou-se um fato histórico na noite de Curitiba, tão frequentada por mim, mas nem tanto quanto eu gostaria. Primeiro, marquem um nome:
Heavy Trash
Assim como para a maioria que lê estas mal traçadas, nunca tinha ouvido falar até ler a matéria da poderosa Juliana Girardi (essa menina é fera!) sobre a festa que teríamos em Curitiba nesta sexta-feira, no Jockers. Daí, seguem-se os passos habituais, procurar referências na internet, escutar alguma coisa. Mas a referência principal continua sendo Jon Spencer and The Blues Explosion. Uma referência que só diz a você: sim, cara vá ao show! E aquilo que você ouviu passa meio despercebido, um rockabilly legal, mas que não chama a atenção. Mas a voz continuava martelando o cérebro: “vá ao show!”. Na última hora, o amigo Rodrigo Browne garantiu o ingresso. Veio o medo das inúmeras filas do Jockers, único incômodo de um lugar tão legal. Chegar cedo evita filas. Antes das dez estava lá. E vi Jon Spencer e banda jantando fartamente, quando cheguei. Deu vontade de apertar a mão do cara ali mesmo, mas sabem como é, sou curitibano e o cara estava jantando, então só olhei espantado para a quantidade de comida e achei que o show iria demorar pois, se acontecesse logo depois, a banda iria vomitar no palco. Timidamente, saí de perto, o que foi bom pois encontrei Rodrigo e Bárbara e um casal que não revelo o nome porque não fui autorizado e ela, a simpática esposa, reclamando que deu tudo errado no dia e por isso queria ficar louca, aterrorizar, com drogas e rockenroll. O papo corre solto, chega o Digão e pouco falamos porque fiquei conversando com as meninas até a hora do show com Koti e os Penitentes.
Bom show, mas o que veio depois foi uma diferença tão grande que parecia a metrópole impondo-se sobre a província. Desculpe Koti e os Penitentes, pois sei que vocês são bons, mas a diferença foi gritante. Não desanimem com isso, espelhem-se, tirem uma lição. Um show precisa ir além da simples apresentação de músicas. Precisa chacoalhar, extravasar, quebrar tudo, tirar as pessoas do estado médio. É preciso suar muito antes, durante e depois do show. É preciso trabalhar duro e se puder se divertir também, melhor ainda. De qualquer maneira, o primeiro show foi um ótimo “esquenta” para o que viria. Mas como falar sobre o desconhecido?
Quando você conhece um banda, as músicas, a história, é fácil chegar e falar do set list, das surpresas que pintaram, das pequenas falhas que podem ter acontecido. Mas eu não conhecia nada da banda e ainda conheço pouco, escrevendo para vocês logo após o show e escutando o CD que comprei e pedi para Jon e Matt autografarem. Esse são os nomes: Jon Spencer e Matt Verta-Ray. Esta é a dupla, mas não é a banda. A formação é estranha pois tem o Jon em um violão tradicional, com um captador no meio da boca do instrumento. Matt, conhecido mais como baixista, é guitarrista – e dos bons. Há ainda uma outra guitarra que trabalha uma linha parecida com o baixo, alternando-se com a base; mais um baixão acústico típico do rockabilly e a bateria resumida também típica e que por vezes usava apenas um garrafão de vinho já devidamente esvaziado.
À procura de mais uma cerveja acabei ficando em frente ao palco quando o show começou e pude ver, ali na fila do cuspe, toda a energia e o profissionalismo de um dos melhores shows de rock para pequenas platéias que já vi em minha vida. Ainda bem que ouvi aquela vozinha interna que me dizia para ir. O som não é puro, mas também não é sujo. Rockabilly, com punk, com blues, com psichobilly, com heavy, com trash, mas tudo se encaixando e apoiando uma tendência com outra, uma influência dando força para a outra, um trabalho que deve ter sido exaustivo para parecer tão simples e coeso. E um show sem firulas, sem estrelismos, respeitando o público do começo ao fim; sabendo ser preciso sem ser distante, ao contrário, aproximando-se do público a cada música tocada. Quais as músicas? quais as intervenções fora de contexto? Quais os erros? Sorry, periferia, não conhecia as músicas e não tomei nota de nada para ser mais preciso, ou mais profissional, escrevo amadoristicamente para dizer a vocês do show que perderam ou que viram, com olhos e ouvidos semelhantes ou diferentes dos meus. Ali na frente, na boca do palco, perdi uns mil e quinhentos anos para me sentir de novo com a energia adolescente que um bom show de rock pode proporcionar. Só não poguei porque dos meus lados só tinha mulher e eu notei que o show atraía, quase hipnotizava as mulheres, apesar de parecer bem másculo (ou por isso mesmo). Ou elas chegaram mais perto para notar os olhos de Jon, algo que sempre falam, afinal o cara, dizem elas, é bonitão. E ele sabe como dominar um palco, uma platéia, mesmo que 90% nem conheça a banda e uns 70% conheça apenas ele. No final, em vez de bis, fez um segundo ato completo, como disse o Abonico. Nada de tocar apenas uma música, foram várias, com direito a descida do palco e caminhada pela platéia. Sensacional! Muito muito bom! Bom mesmo, com mais uma exclamação! Agora escuto o disco que comprei ao final, autografado e tudo, mas não é tão bom. Nunca mais vou ver um show pequeno de rock tão bom quanto este – até o próximo acontecer. Agora torço para que as fotos cheguem a tempo de mostrar para vocês um outro olhar. Manda as fotos aí, Marcelo Elias, o e-mail do blog é blogsobretudorpc@gmail.com.
Ah, sim, não podemos deixar de dizer que a inciativa foi show foi o primeiro de muitos. A festa, chamada I_CWB, como diz o release enviado à imprensa, "não é um simples festival, ou mesmo um movimento. Formada através da união das produtoras Digital Rock e Maamute, é um estímulo lúdico e urbano. Podem ser festas grandes ou pequenas, mas que perpetuam pelo cotidiano da cidade e seus habitantes. Reverberam pelas ruas, bares, cafés e universidades. Pegam carona em biarticulados e abrem a visão para uma diferente leitura de nossa capital. Pode parecer um plano megalomaníaco (Pinky e Cérebro que nos desculpem), mas essa realidade já existe. Só faltava escancarar...
"Enquanto isso o calendário inicial já está tomando forma, com nomes de peso nas negociações: Gogol Bordello (EUA), Coco Rosie (UK), Sebastien Tellier (FR), Nathan Bell (EUA), Wry (UK) e Robert Pollard, ex-líder do lendário Guided by Voices, dentre outros."
É torcer para ver.
poisé.. não fui e acredito mais nos detratores hahahah. isso apenas pq tenho discos do john spencer em casa e realmente, como você mesmo falou, não é nada demais.
Lucas Eduardo | 22/04/2009 | 13:40o Motorockers dá de dez nesses showzinhos mequetrefis. eles salvaram a noite do show do Motorhead e ninguém disse nada, afff como diria o Aldrin.
Paulinha | 22/04/2009 | 10:44Por isso que eu falo, vocês tem que parar um pouco de ver essas bandinhas mequetréfis tipo poléxia, T.G e ver bandas de verdade de vez em quando... É muita diferença, e olha que eu nem me espantei com o show do Joe spencer.Parece q vc nunca viram banda boa tocar!! quando veem ficam tudo ÓÓÓÓOÓÓÓÓ´!!! QUE MARAVILHA!!!!!
Duda Schwab | 21/04/2009 | 16:37"Precisa chacoalhar, extravasar, quebrar tudo, tirar as pessoas do estado médio." acho que o Luiz Cláudio Oliveira não viu o tanto de gente na frente do palco dançando e se divertindo ao som do Koti e os seus penitentes. Não viu mesmo.
j | 20/04/2009 | 17:54isso não quer dizer q não gostei do koti. foi um show muito bom tb.
j | 20/04/2009 | 17:53acho que sua análise é muito fria. pode ser que a comparação musical entre as bandas que vc fez esteja corrtea. mas pra mim, como leigo, houve uma brutal diferença ente o koti e o heavy trash. e não é só a altura do som, ou pagação de pau pra novaiorquinos. acho que o texto do blog mostra bem: para seu autor ( e para mim tb)foi uma apresentação catartica. e isso é raro acontecer. isso se deve a competencia, energia, dedicação, carisma. não só técnica, mas tb paixão.
Guinski | 20/04/2009 | 17:32Parte 3 Talvez o resenhista precise ver um músico chacoalhar para que ele mesmo possa “sair do estado médio” e dançar. Se você quer agitar e dançar, dance com o som e não espere alguém fazer isso primeiro pra imitar. Sugiro ao jornalista que mude seu pensamento provinciano e avalie uma banda pelo que ela é, pelo seu som e não por sua procedência.
Guinski | 20/04/2009 | 17:30Os Penitentes com sua performance estática, como num filme de Aki Kaurismaki, mostraram que uma banda suar, rebolar e se chacoalhar o quanto quiser que isso não muda o som. O som fala mais alto. O som fala mais alto mesmo quando a casa usa o velho truque covarde de dar um volume mais baixo para as bandas de abertura, como foi o caso.
Guinski | 20/04/2009 | 17:29O único provincianismo está no resenhista, pra ele só o fato de uma banda vir de NYC a torna cosmopolita, mesmo quando ela não toca nada além de rockabilly tradicional e que não acrescenta nada ao que se fazia nos anos 50. Koti e os Penitentes não foi apenas um “ótimo esquenta”, foi um esquenta tão bom que mostrou a gritante diferença entre a inventividade do som dos Penitentes (fruto de trabalho duro e diversão de músicos atuantes) e a falta de criatividade do Heavy Trash.
Biondo | 20/04/2009 | 14:53O cara tem de falar bem para garantir a entrada grátis do próximo show. Só não sei de onde surge a necessidade de se falar bem de algo precisar falar mal de outra coisa. Tricotagem. Eu fui ao show e repito o que disse em outra coluna como o Molotov: Para uma música com mais de 50 anos surpreender exige rfleos lentos dos ouvintes.
Dary Senior | 20/04/2009 | 11:28AHHHH Não gostei, não vo compra! Prefiro T.G! A bandinha do meu filinho!
Molotov | 20/04/2009 | 01:38"EXTRAMENTE" (sic)
Molotov | 20/04/2009 | 01:35vou colar aqui o q usei na outra coluna ... só acho usar o termo "provincia" EXTRAMENTE desnecessario .... pra quem conhece o som rockabilly/psychobilly sabe que não há nada demais no som dos caras. e tem muita gente atualmente dando uma roupagem nova ao estilo, bem melhores por aí. a performance de palco é boa e tudo mais . foi um bom show , não "excepcional". valeu a iniciativa do pessoal trazer, é bom pra galera ficar conhecendo. arriba !
paula | 19/04/2009 | 18:59Ahhh Não!! Eu prefiro T.G e polécsia!! Isso sim são bandasboas!!!! Rsrsrssrsrsrsrsrrsrsrsrsrr!!!!! Ta loco!!!
Lucio Barbeiro | 19/04/2009 | 15:38Lobão, está aí um grande texto feito para uma grande banda. Parabéns por você ter ido ao show e parabéns para a banda por ter recebido um texto tão bom quanto este.
Heros | 19/04/2009 | 13:57Antonio, vc perdeu um grande show sim. Escutei da boca de um ourganger (o ourgang tocou depois do Jon Sapencer) "Fudeu, agora nem tocando pelados"
edu | 19/04/2009 | 11:27grande lobo. grande show abrax
j | 19/04/2009 | 10:51sério pedro? então compartilhe com a gente essa informação. quero assistir mais shows como aquele que vi sexta-feira.
pedro | 19/04/2009 | 09:44Vc estava bebado quando escreveu a coluna??? Pra concordar tem que beber. Tem muita coisa melhor do que o John Spencer no Brasil, no Paraná e em Curitiba.
Heberthy | 19/04/2009 | 02:39Oloko Claudio... depois dessa... só baixando... Surpreendeu.
Marco Sanchotene | 18/04/2009 | 22:52Só posso dizer: eu não fui. Mas fui ao Blues Explosion em Maringá, em 2001! Tá bom...
Marilia | 18/04/2009 | 22:39e eu só soube que ele veio depois do show :(
Guilherme Voitch | 18/04/2009 | 20:46Dá até uma vergonha de escrever qualquer coisa depois disso. Só posso dizer. eu fui.
Zé Luiz | 18/04/2009 | 19:36Jon Spencer tocou em Curitiba e eu não tinha ingresso...
Kotsan | 18/04/2009 | 19:07Isso que é texto rockenroll. Valeu Lobão, continue ouvindo o seu coração
grande show | 18/04/2009 | 16:57Concordo totalmente. Um dos melhores shows que já vi na vida. performance de palco excelente, dá gosto ver um cara tocando com paixão pela música. Queria ver um show desse toda semana! Agora, não sei se foi impressão minha, mas me pareceu que o público demorou um pouco para participar do show.
Cristiano Castilho | 18/04/2009 | 16:21Sensacionais. O show e o post.
Antonio J.S. | 18/04/2009 | 12:20Bom, ou o blogueiro está exagerando, ou perdi um grande show (ou as duas coisas hehehe)
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