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Sexta-feira, 12/03/2010

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Tubo de Ensaio

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/03/2010 às 16:41

Como estou preparando um material especial para publicar no Tubo na próxima semana, o tempo anda curto, mas não queria deixar passar a sexta-feira em branco, então mostro para vocês o trabalho do Carlos Ruas, que faz o site Um sábado qualquer.

E especialmente hoje a tirinha serve como um RIP para o Glauco (embora, honestamente, eu prefira muito mais o Laerte, principalmente as tirinhas de Deus).


Carlos Ruas / Reprodução autorizada

Carlos Ruas / Reprodução autorizada /

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Hoje é dia de dar Follow Friday no Tubo de Ensaio!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 09/03/2010 às 12:20


Jerry Friedman/Wikimedia Commons

Jerry Friedman/Wikimedia Commons / Provavelmente a flor mutante é a alaranjada; antes da engenharia genética, esse tipo de coisa só podia acontecer por mero acaso.Provavelmente a flor mutante é a alaranjada; antes da engenharia genética, esse tipo de coisa só podia acontecer por mero acaso.
Um estudo publicado em janeiro de 2010 na revista Psychological Science caiu na minha mão há algumas semanas e lida com questões interessantes a respeito do acaso. Como sabemos, o acaso e a aleatoriedade têm um papel importante em processos evolutivos, por exemplo nas mutações genéticas que vão levar ao surgimento de novas variedades animais e vegetais. E existem interpretações muito diferentes sobre o que isso significa: para o ateísmo militante, esta é uma "evidência" da inexistência de Deus. Mas não faz muito tempo vimos aqui o John Polkinghorne afirmar que o acaso é uma coisa boa, é um "espaço de manobra" concedido por Deus à criação para que possa se desenvolver sem precisar que Ele fique o tempo todo intervindo. Por outro lado, felizmente nem tudo no mundo é governado pelo acaso: o universo tem suas leis físicas, químicas e biológicas, e é justamente sua existência que permite o trabalho da ciência. Se tudo fosse aleatório, o que os cientistas seriam capazes de concluir sobre a natureza?

A pesquisa, feita por três psicólogos da universidade canadense de Waterloo, é curtinha: o PDF tem 4 páginas, mas apenas 2 trazem conteúdo de verdade. Participantes foram convocados para um estudo, pensando que se tratava de uma pesquisa sobre percepção de cores (o verdadeiro objetivo do estudo não podia ser revelado para evitar influência na hora de colher as respostas que realmente interessavam). Todos eles tomaram uma pílula que não tinha efeito nenhum; metade do grupo foi informada disso, e a outra metade pensava que o "remédio" causava uma ligeira ansiedade. Cada um desses grupos foi novamente dividido em dois. Os participantes passaram por um exercício de "montar frases": enquanto uns lidavam com palavras "negativas", outros tinham de fazer frases com palavras associadas à noção de acaso ou de aleatoriedade. Por fim, todos eles tiveram de responder se acreditavam que o mundo era governado por algum tipo de ordem sobrenatural, como Deus ou carma.

Como resultado, um dos quatro grupos (aquele exposto a palavras ligadas a "acaso" e que sabia estar tomando apenas placebo) apresentou uma tendência maior a acreditar em uma ordem sobrenatural no universo. Os outros três grupos tiveram números semelhantes, com tendências menores à crença – inclusive o grupo exposto a palavras de "acaso", mas que foi informado sobre supostos efeitos colaterais da pílula.

O que isso quer dizer? Segundo os autores, quanto mais se fala no papel do acaso nos processos naturais (ou "caos", como diz Aaron Kay, um dos pesquisadores), mais as pessoas se apegarão à noção de algum ser ou entidade que bote ordem no mundo. Seria uma espécie de refúgio contra uma suposta noção de que as coisas estão fora de controle. A conclusão tem um quê de ironia – assim como o fato, reportado na Inglaterra, de a pregação de Dawkins e companhia associando evolução a ateísmo levar ao aumento no número de criacionistas.

Mas, antes que alguém se apresse e diga "viram? Fé não passa de subterfúgio para quem não quer encarar a realidade", Kay afirma que suas conclusões não se aplicariam somente a pessoas religiosas. "Deus não é o único sistema de crença em que as pessoas podem se apoiar com esse propósito. Uma defesa mais intensa de sistemas políticos, filiação a grupos sociais, e até a percepção ilusória de padrões podem ocorrer após a tomada de consciência sobre o papel do acaso. Embora eu acredite que a crença em Deus tenha muitas vantagens sobre outros meios, mais seculares, de 'controle compensatório', certamente existe a possibilidade, para aqueles que não inclinados a crer em Deus, como os ateus, que a perceção da aleatoriedade possa direcioná-los a essas alternativas seculares", diz o psicólogo. Lendo isso, eu me pergunto se não estaria aí parte do encanto que, por exemplo, o marxismo exerce sobre as pessoas, ao propor que os processos históricos levarão inevitavelmente a uma direção (no caso, a utopia socialista). Não deixa de ser uma tentativa de encontrar ordem no mundo, mas prescindindo de Deus.

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Atualização em 12/3: depois que publiquei o texto, me ocorreu um questionamento: seria possível que, por causa de uma dessas coincidências incríveis da vida, o grupo que sabia estar tomando placebo e foi exposto a palavras de aleatoriedade já fosse naturalmente mais inclinado à religiosidade que os outros três grupos, influenciando o resultado final da sondagem? Entrei em contato com o professor Key, que me enviou a seguinte resposta:

A resposta curta é que partimos do pressuposto de que a seleção aleatória dos pesquisados garantirá um nível equivalente de "religiosidade crônica" entre os quatro grupos. De fato, existe um número infinito de variáveis que poderíamos controlar para ter certeza de que não havia esse tipo de influência, mas a seleção aleatória é normalmente vista como um "grande equalizador", balanceando essas diferenças individuais em relação a certos aspectos. Dito isso, também é possível fazer uma pré-medição de algumas variáveis para que a seleção aleatória seja ainda mais eficiente. Mas, em uma experiência como essa, medir a religiosidade das pessoas antes da pesquisa seria problemático, pois os participantes estariam tentados a responder as perguntas de acordo com as respostas que elas haviam dado na pré-seleção. As pessoas não gostam de perceber que suas atitudes são maleáveis, então perguntar a mesma questão duas vezes, ou apresentar perguntas similares antes e durante o estudo não seria conveniente. Além disso, em outros de nossos estudos, nós controlamos estatisticamente a religiosidade da amostra pesquisada e ela não interferiu com os resultados.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 05/03/2010 às 22:28

Essas questões do tipo "e se...?" normalmente são mero chutômetro. "Se minha avó não tivesse morrido, estava viva até hoje", como diz um parente meu. Mas hoje o blog da Fundação BioLogos publicou uma reflexão interessante. É a segunda parte de The Theological Dilemma of Evolution, de Gordon Glover, autor de Beyond the firmament: understanding science and creation. E a pergunta que ele se faz é justamente essa do título do meu post. E se Darwin entendeu tudo errado, ou inventou tudo aquilo? E se a evolução realmente nunca aconteceu, e os criacionistas estão certos? Quais as implicações teológicas disso?

O raciocínio inicial é o mesmo que Urbano VIII apresentou a Galileu (e que o astrônomo florentino resolveu colocar na boca do personagem mais tonto de seu Diálogo): Deus, sendo Todo-Poderoso, poderia ter feito o universo do jeito que bem entendesse. Acho que nenhum crente faria uma objeção a isso. Glover dá o exemplo das uvas. Deus pode transformar água em vinho usando apenas Sua vontade, e consta que pelo menos uma vez Ele fez isso.


Reprodução

Reprodução / "Bodas de Caná", do flamengo Gerard David. Consta que o vinho era dos melhores, mas não exigiu nenhuma uva excepcional.

Mas é justamente porque esse tipo de coisa não ocorre todo dia que a transformação de água em vinho dessa maneira é considerada um milagre. Normalmente, você precisa de uvas (e do tipo certo), tempo para fermentar, e por aí vai. É um processo natural, sujeito a leis, verificável em laboratório e nas vinícolas (assunto interessante para uma noite de sexta, não?). E, assim como o vinho, o mundo todo parece regulado por esses processos. Para surgir algo novo, é necessária uma matéria pré-existente e relações de causa e efeito, como as que levam os meninos a terem cromossomos Y exatamente iguais ao de seus pais, e todos nós a termos mitocôndrias exatamente iguais às de nossas mães.

A evolução por seleção natural é um desses processos. Existem várias evidências que apontam não apenas para a veracidade dos processos evolucionários, mas também para um Big Bang, um universo de 13 bilhões de anos, uma Terra de mais ou menos 4,5 bilhões de anos... o que indicaria que os criacionistas de Terra jovem estão todos errados, a não ser que...

... a não ser que Deus usasse Sua onipotência para ter criado o universo em seis dias de 24 horas, os animais todos individualmente da maneira como são hoje, e, para completar o trabalho, ainda tivesse feito tudo parecer como se a história da criação fosse diferente. Ou seja, a coluna geológica aponta para um planeta velho, mas a realidade seria um planeta de 6 mil anos. As espécies apenas pareceriam ter evoluído, mas na verdade aquele monte de fósseis não passaria de pistas falsas plantadas por Deus para nos levar a pensar de outro modo.

Poderia ter sido assim? Dizer que não é negar a onipotência divina. Mas aceitar uma ideia dessas traz uma série de problemas teológicos. A Bíblia está cheia de passagens segundo as quais a criação revela a grandeza do Criador. "É a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor", diz o livro da Sabedoria (13,5). Mas, se Deus tivesse feito o mundo de uma forma e nos levado a concluir que ele foi feito de outra, "a grandeza e a beleza das criaturas" não nos daria nenhuma pista sobre o Criador.

E por que Deus faria isso? Para realçar a importância da fé? Mas, como diz João Paulo II, são duas as asas que levam o homem ao conhecimento da verdade: a fé e a razão. Se a ciência só nos levasse a pistas falsas sobre o universo, a razão humana se tornaria inútil. Além do mais, e nisso todo cristão concordará comigo, Deus é a suma verdade. Sendo assim, Ele não poderia enganar os homens.

Assim, em poucos parágrafos conseguimos reunir uma série de objeções teológicas nada inofensivas para o caso de a evolução apenas parecer ser verdadeira, mas não o sê-lo. Essa hipótese poderia ser uma saída para um criacionista de Terra jovem que não rejeitasse a evidência biológica e geológica, mas, como podemos ver, também leva a um beco sem saída.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 04/03/2010 às 17:43


Reprodução

Reprodução / Apesar de ter participado do processo de Galileu, não se pode dizer que São Roberto Bellarmino fosse adversário da ciência; pelo contrário, pois ele dizia que, se uma descoberta científica fosse oposta à Bíblia, provavelmente era nossa interpretação da Bíblia que estaria errada.Apesar de ter participado do processo de Galileu, não se pode dizer que São Roberto Bellarmino fosse adversário da ciência; pelo contrário, pois ele dizia que, se uma descoberta científica fosse oposta à Bíblia, provavelmente era nossa interpretação da Bíblia que estaria errada.
Li hoje um texto publicado ontem no Huffington Post que me chamou a atenção. Michael Zimmerman, Ph.D. em Ecologia, tem participado da discussão sobre criação e evolução por décadas, e no artigo ele pede uma redefinição do debate sobre as teorias de Darwin. Para Zimmerman, não se trata de um embate entre ciência e religião. Se fosse assim, estariam os clérigos todos entrincheirados de um lado, e os cientistas todos entrincheirados de outro. Mas há muitos clérigos e pessoas religiosas que aceitam sem problemas a evolução. "Ciência x religião" seria, então, uma abordagem simplista demais. O que Zimmerman alega é que essa questão, em vez de opor ciência e fé, coloca de lados opostos visões diferentes da religião. Uma leitura 100% literal da Bíblia contra outra que aceita a possibilidade de alegorias. Uma mentalidade que, na linha de São Roberto Bellarmino, não descarta as descobertas científicas e busca o significado correto dos textos sagrados a partir dessas descobertas contra uma mentalidade que parte de uma conclusão para só então buscar evidências que apontem para aquela direção.

A argumentação de Zimmerman faz todo o sentido, e não chega a ser novidade. Um leitor deste blog comentou comigo uma vez que o processo de Galileu ocorreu mais ou menos nesses mesmos moldes. Não era uma teoria religiosa contra uma teoria científica, e sim uma polêmica escriturística, sobre a interpretação de certas passagens da Bíblia. Prometo aprofundar esse assunto quando eu conseguir ler o volume lançado pela editora da Unesp com as famosas cartas de Galileu que o levaram a ser processado pela Inquisição. Mas, voltando ao artigo de Zimmerman, ele cita o Clergy Letter Project, organizado por ele próprio, e que já recebeu, até hoje, quase 12,5 mil assinaturas de padres, pastores e outros clérigos cristãos. A iniciativa teve tanto sucesso que surgiu uma versão para rabinos (quase 500 assinaturas) e outra para os unitaristas-universalistas (pouco mais de 200 assinaturas). Em seu artigo, Zimmerman afirma: "Diferentes como são, eles têm três coisas em comum: todos aderem firmemente à sua religião, tendo dedicado boa parte de suas vidas a entender e promover o Cristianismo; todos reconhecem o papel central da evolução, defendem que ela seja ensinada nas escolas e entendem que ela não oferece ameaça à fé; e todos têm sido impiedosamente atacados, por causa de suas crenças, por aqueles para quem a única visão de religião que importa é a sua." De fato, parece que os signatários têm levado mais chumbo dos fundamentalistas religiosos que dos fundamentalistas cientificistas.

Vejam só a íntegra da carta:
Dentro da comunidade de cristãos existem áreas de desacordo e debate, incluindo a maneira correta de interpretar a Sagrada Escritura. Enquanto praticamente todos os cristãos levam a Bíblia a sério e a adotam como autoridade em assuntos de fé e moral, a esmagadora maioria deles não lê a Bíblia literalmente como se faria com um livro de ciências. Muitas das queridas histórias encontradas na Bíblia – a Criação, Adão e Eva, a Arca de Noé – trazem verdades eternas sobre Deus, os seres humanos e a adequada relação entre o Criador e a criação, expressadas na única forma pela qual essas verdades seriam capazes de ser transmitidas de geração em geração. A verdade religiosa é de uma ordem diferente da verdade científica. Seu propósito não é fornecer informação científica, mas transformar corações.

Nós, abaixo assinados, clérigos cristãos de várias denominações diferentes, acreditamos que as eternas verdades da Bíblia e as descobertas da ciência moderna podem coexistir pacificamente. Acreditamos que a teoria da evolução é uma verdade científica basilar, que passou por rigoroso exame e na qual se baseia muito do conhecimento e dos avanços humanos. Rejeitar essa verdade ou tratá-la como "uma teoria a mais no meio de outras" é deliberadamente abraçar a ignorância científica e transmiti-la às nossas crianças. Acreditamos que entre os grandes dons de Deus está uma mente humana capaz de pensar criticamente, e a falha ao empregar corretamente esse dom é uma negação da vontade do Criador. Defender que o plano salvífico de Deus para a humanidade dispensa o uso integral dessa faculdade da razão é limitar Deus, é um ato de arrogância. Nós pedimos às autoridades educacionais para que preservem a integridade do currículo escolar de Ciências reafirmando o ensino da teoria da evolução como componente central do conhecimento humano. Pedimos que a ciência permaneça sendo ciência e a religião continue sendo religião. Diferentes, mas complementares, formas de verdade.


Arquivo pessoal

Arquivo pessoal / Márcio Pie, da UFPR, é Ph.D. e consultor do Clergy Letter Project.Márcio Pie, da UFPR, é Ph.D. e consultor do Clergy Letter Project.
Mas não só religiosos participam do Clergy Letter Project: cientistas de 30 países também assinaram como consultores. E o único brasileiro é daqui, de Curitiba. O professor Márcio Roberto Pie dá aulas na pós-graduação em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Paraná e comanda pesquisas no Laboratório de Dinâmica Evolutiva e Sistemas Complexos. "Eu soube da iniciativa pela American Scientific Affiliation (um grupo de cientistas cristãos nos Estados Unidos) e procurei o dr. Zimmerman para aderir ao projeto", conta o pesquisador, que pertence à igreja dos Irmãos Menonitas. "Boa parte dos cientistas cristãos não vê a menor incompatibilidade entre sua fé e a teoria de Darwin", acrescenta Pie.

Ele compara a intensidade da controvérsia envolvendo a evolução no Brasil e nos Estados Unidos. "Lá os criacionistas têm tentado, inclusive por meios legais, chegar diretamente ao público leigo por meio das escolas, tentando alterar os currículos de Ciências. Aqui essa discussão é muito mais suave, e a animosidade apareceu quando os ateus militantes começaram a fazer mais barulho", explica. Pie rejeita totalmente a associação entre evolução e ateísmo. "Assim como os criacionistas fazem uma caricatura dos pontos de vista opostos, os ateus militantes fazem o mesmo. Eles empregam uma falácia lógica absurda, pois a Metafísica não faz parte do escopo das ciências naturais. Usar a ciência para provar ou negar a existência de Deus é abusar da ciência", defende.

O professor da UFPR conta que às vezes alunos e colegas se surpreendem ao saber que ele é evolucionista e cristão. "É uma pena, porque isso significa que muita gente já comprou essa ideia de que ciência e religião são adversárias. O que eu faço é mostrar subsídios para eliminar essa dicotomia e promover uma discussão que seja produtiva sem a necessidade de recorrer a falácias", afirma.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/03/2010 às 19:25

Quando eu era adolescente, lá no século passado, fui convocado para integrar a equipe de xadrez da cidade onde cresci (São José dos Campos, SP) em uma edição dos Jogos Abertos do Interior. Como atletas, podíamos entrar em qualquer competição como espectadores, e uma noite dessas resolvemos ver o time de basquete do Leite Moça, que tinha Paula, Hortência, Karina, enfim, um timaço. Elas jogaram contra um time de Guarulhos, e o resultado foi alguma coisa do tipo 192 a 30. Já neste século, em 2006 trabalhei como voluntário nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, na Itália, e (dessa vez pagando ingresso) vi o time de hóquei feminino do Canadá massacrar as italianas por 16 a 0. Era a maior goleada da história olímpica até algumas semanas atrás, quando as mesmas canadenses fizeram 18 a 0 na Eslováquia, em Vancouver.

Essa breve sessão "recordar é viver" sobre massacres esportivos serve para introduzir uma outra goleada, dessa vez ocorrida no Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, mês passado. Conta o The Guardian que, por 241 votos a 2, foi aprovada uma moção declarando que a ciência e a religião são compatíveis. Obviamente os problemas causados por fundamentalistas religiosos e cientificistas não são resolvidos na base da canetada: não é porque o Sínodo votou assim que todo anglicano britânico vai, de repente, abraçar essa ideia. A votação é mais uma mensagem aos fiéis, o que não dispensa o trabalho valioso de anglicanos como os reverendos John Polkinghorne, sobre quem falamos um pouco no mês passado, e Keith Ward.


Hans Musil / Wikimedia Commons

Hans Musil / Wikimedia Commons / A catedral de Canterbury, sé do arcebispo primaz da Comunhão Anglicana.A catedral de Canterbury, sé do arcebispo primaz da Comunhão Anglicana.

Em Curitiba existe uma diocese anglicana, embora a relação com a Igreja da Inglaterra não seja de subordinação. Na verdade, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) é uma província da Comunhão Anglicana, da qual a Igreja da Inglaterra também faz parte. O arcebispo de Cantuária, embora seja o primaz de toda a Comunhão Anglicana, não tem poder sobre nenhum anglicano fora de sua diocese (ao contrário do Papa em relação aos católicos). Mesmo assim, a decisão do Sínodo Geral foi bem recebida por aqui. O reverendo Luiz Caetano Grecco Teixeira é presbítero da diocese anglicana do Rio de Janeiro, além de ser formado em Física e Matemática, com pós-graduação em Estatística. "Minha conversão não afetou a relação que tenho com a ciência. Dentro de mim há um diálogo muito rico entre a minha fé e a minha formação científica. Não tenho nenhuma dificuldade em crer na Bíblia como revelação de Deus e ter no conhecimento científico uma forma de compreender o mundo e o universo", afirma, ressaltando que suas declarações são todas opiniões pessoais, e não da IEAB. O bispo anglicano de Curitiba, dom Naudal Gomes, concorda. "O conhecimento – em todas as suas áreas e ciências – é dom de Deus e, como tal, deve contribuir para uma melhor compreensão da vida, do mundo, de nós mesmos e nossas relações, o que nos fortalecerá ainda mais em nossa fé e nossa coerência no ser e viver o Cristianismo", diz.

Os anglicanos em geral, pelo menos no Brasil, na América do Norte, na Europa e na Oceania, diz o reverendo Caetano, não costumam ver problemas ou incompatibilidade na relação entre ciência e fé. Segundo o presbítero, a decisão do Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, portanto, refletiria a visão da maioria dos fiéis. "Evidentemente há fundamentalistas entre anglicanos no mundo todo. Pessoas que fazem do texto bíblico um absoluto por si mesmo, sem margem a interpretações, análises de hermenêutica ou das demais ciências bíblicas. Mas, digo isso com certeza, o fundamentalismo não é uma posição majoritária entre os anglicanos em todo o mundo", esclarece. Nisso parece haver uma diferenciação em relação a outras denominações protestantes, em que o fundamentalismo é a posição hegemônica, como já tivemos a oportunidade de ver aqui no Tubo.

Diz o reverendo Caetano que a questão do criacionismo é o tópico mais "quente" entre os anglicanos fundamentalistas, mas mesmo quem acredita haver compatibilidade entre ciência e fé também encontra temas que merecem discussão. "O que há, dentro da igreja, é uma reflexão sobre a questão ética no uso do conhecimento científico. Discutimos, por exemplo, as questões ambientais, desde o aquecimento global até as experiências e comércio de transgênicos; questões sobre o uso de conhecimentos tradicionais, como a medicina indígena, como patrimônio patenteado por multinacionais da industria farmacêutica; e questões macroeconômicas", descreve.

Para quem quiser conferir, o site da Igreja da Inglaterra colocou no ar dois papers, um da diocese de Manchester e outro do dr. Philip Giddins, sobre a moção aprovada no Sínodo Geral.

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Pouca gente participou até agora do desafio do Tubo de Ensaio, confiram no post abaixo deste.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 01/03/2010 às 16:53

Uma sugestão do Breno Baldrati, editor aqui da Gazeta do Povo e blogueiro relapso:


Divulgação / www.michaelshermer.com

Divulgação / www.michaelshermer.com / Michael Shermer está na minha lista tríplice.Michael Shermer está na minha lista tríplice.
Ontem, Andrew Brown, blogueiro do The Guardian, propôs um tipo de desafio que achei interessante: "cite três pessoas, de preferência contemporâneas, que você realmente acredite serem mais inteligentes, com melhor educação/cultura e mais honestas que você, mas que discordam de você sobre Deus. Ateus devem mencionar crentes, e vice-versa." Pelas regras, não é necessário que a pessoa seja conhecida, embora fosse melhor assim, até para que os outros possam pesquisar sobre seu trabalho. Só não entendi por que Brown fez duas listas, uma de ateus/agnósticos e uma de crentes.

O post original de Brown já tem mais de 200 comentários, mas ainda não os vi, inclusive para não ser influenciado. Então, segue a minha lista, que obviamente tem ateus/agnósticos, dois deles vivos e um falecido não faz muitos anos: Stephen Jay Gould, Michael Shermer e Mary Midgley.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/02/2010 às 12:11

Este vídeo que eu estou trazendo hoje aqui no Tubo, produzido pela Fundação BioLogos, oferece uma perspectiva interessante para entendermos os motivos pelos quais tantos defendem haver um conflito, ou uma incompatibilidade entre ciência e fé. Segundo o fundador do Trinity Forum, Os Guinness, o "conflito" entre ciência e religião, ou a tentativa de estabelecer na opinião pública a noção de que existe esse conflito, é apenas parte de um embate maior, de uma guerra cultural.

No entanto, Guinness traça uma diferença entre a Europa e os Estados Unidos. Aliás, o conceito de "guerra cultural" na Europa é muito mais antigo, datando pelo menos do século 19, com Bismarck (que pode ser considerado o autor do termo), embora eu tenha a impressão de que podemos traçar suas origens no Iluminismo e na Revolução Francesa. Já nos Estados Unidos, afirma Guinness, os ataques à religião são muito mais recentes em comparação com a Europa, e só começaram a ocorrer de 40 anos para cá, no contexto das discussões sobre a influência da religião na vida pública, especialmente após a ascensão da "direita religiosa" (religious right), que para muitos atingiu seu ponto culminante nos dois mandatos de George W. Bush. De certa maneira, diz Guinness, a direita religiosa ajudou a criar o Novo Ateísmo, como se ele fosse uma reação à tentativa da direita religiosa de "dominar" os Estados Unidos. Eu particularmente tenho minhas dúvidas quanto a isso. De fato, o Novo Ateísmo veio depois da direita religiosa, mas pode ser que estejamos caindo numa falácia de post hoc ergo propter hoc (se A aconteceu depois de B, então A aconteceu por causa de B).

O tal "conflito" entre ciência e fé, continua Guinness, só foi entrar na história quando se percebeu que os fundamentalistas associados à direita religiosa tinham um conhecimento científico medíocre. Aí, efetivamente, os religiosos entregaram o ouro ao bandido. E o que houve a seguir, embora Guinness apenas mencione o fato de passagem, é que o Novo Ateísmo construiu um espantalho para poder bater nele à vontade. Já que mencionamos uma falácia, lembremo-nos do kit de detecção criado por Carl Sagan: "espantalho" é a falácia de criar uma caricatura de uma certa posição, instituição, entidade, etc., que se torna muito mais fácil de atacar. Você passa a impressão de estar destruindo aquela posição quando está destruindo apenas a caricatura. O que o Novo Ateísmo faz é mostrar fundamentalistas religiosos americanos "tentando instalar uma teocracia na América" (é o que dizem), fundamentalistas islâmicos explodindo coisas por aí, e dizem "viram? Religião é isso". Com Deus não é diferente: cria-se uma caricatura de Deus, do tipo "Deus é só uma explicação para as coisas que não entendemos na natureza".

Da mesma forma, cria-se uma caricatura da relação entre ciência e fé, dizendo "vejam esse povo que acha que a Terra tem 6 mil anos e foi criada em seis dias de 24 horas, e esses outros que, em vez de levar o filho ao médico, ficam rezando esperando que ele melhore. Estão vendo como ciência e religião são inimigas?". Mas a religião é mais que fundamentalismo, Deus é bem mais complexo que esse "Deus das lacunas" (contra o qual eu também me coloco, aliás), e os exemplos extremos (embora, admito, numerosos) estão muito longe de refletir como a maioria das pessoas religiosas encara a ciência. Mas, como bater em espantalho é fácil...

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/02/2010 às 13:02

A maioria, ou pelo menos boa parte dos cristãos está agora celebrando a Quaresma, um tempo de 40 dias que antecede a Semana Santa e tem ênfase especial na penitência e na mudança de vida. É verdade que, em algumas paróquias, as pessoas só percebem que estão na Quaresma porque está escrito no folheto e porque o padre usa roxo, já que os instrumentos musicais seguem à toda, assim como a bateção de palmas – anteontem mesmo estive numa missa dessas. Mas, para quem está disposto a viver esse período de forma mais séria, existem várias coletâneas de meditações nas livrarias ou na internet. Uma delas é o assunto dessa resenha, e aqui faço um mea culpa: esse texto devia estar no Tubo há uma semana, mas só agora consegui tempo para finalizar a leitura.


Reprodução

Reprodução / Feito para ser lido ao longo da Quaresma, Feito para ser lido ao longo da Quaresma, "Um cientista lê a Bíblia" também pode ser lido de uma vez só.
Pela própria natureza do livro, Um cientista lê a Bíblia é dirigido aos cristãos. Não sei se um ateu tiraria o mesmo proveito dele. Seu autor, John Polkinghorne, é um dos maiores nomes no debate atual sobre a relação entre ciência e religião. Físico cuja especialidade é a Física de partículas, ele também é clérigo anglicano, ordenado em 1982. Um cientista lê a Bíblia (edições Loyola, 159 p., apenas R$ 9 na Saraiva) é de 1996. Como eu já tive a chance de mencionar, é uma coletânea de meditações para cada dia da Quaresma – não foi feito para ser lido de uma tacada só, embora não seja longo (os textos para cada dia têm duas ou três páginas) e possa ser lido de uma vez, como eu fiz. Os textos têm todos uma mesma estrutura: começam com algum trecho bíblico, seguem com a reflexão do autor e terminam com uma oração curta.

Embora esse não seja propriamente um livro sobre ciência e fé como os que têm sido resenhados aqui no blog, em muitos pontos Polkinghorne ressalta as semelhanças entre uma e outra. Logo na introdução, por exemplo, o autor diz que, assim como o cientista busca a verdade sobre o mundo pela evidência científica, a Bíblia também é, por assim dizer, a "evidência" sobre Deus e sobre Cristo. "Há uma concepção atual estranha de que fé é uma questão de fechar os olhos, cerrar os dentes e acreditar em coisas impossíveis, porque alguma autoridade inquestionável diz que é preciso fazer isso. De forma alguma! O salto da fé é um salto para a luz, não para a escuridão. Envolve o compromisso com o que compreendemos, para que possamos aprender e compreender mais", diz Polkinghorne (itálico do autor). Na meditação do sábado após a Quarta-Feira de Cinzas, o autor lembra a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses, em que recomenda examinar tudo e conservar o que é bom. Mais uma vez Polkinghorne diz que a busca pela verdade é um componente essencial na religião – é curioso como algumas pessoas se mostram chocadas quando uma religião ou uma igreja pretende ser a única verdadeira, mas essa é uma pretensão perfeitamente válida, até porque é impossível que duas religiões que digam coisas opostas sejam igualmente verdadeiras. Mas, enquanto o cientista faz todo tipo de experiência para comprovar sua teoria, na religião não se "testa" Deus. O mesmo vale para os relacionamentos humanos (Cervantes já sabia, basta lembrarmos da história do "curioso impertinente", no Dom Quixote). Ainda assim, o que une o cientista e o religioso é a sede de entender o mundo. Também é interessante a semelhança que Polkinghorne vê entre os Evangelhos e a pesquisa científica (não vou entregar tudo aqui, já que o objetivo de uma resenha é levar vocês a ler o livro).


Wikipedia Commons/Jack1956

Wikipedia Commons/Jack1956 / John Polkinghorne é um dos principais nomes da atualidade no debate sobre a relação entre ciência e religião.John Polkinghorne é um dos principais nomes da atualidade no debate sobre a relação entre ciência e religião.
Os dias entre o início da Quaresma e o primeiro domingo são dedicados a temas mais ou menos variados (em um dos textos, descobrimos por que Tolstoi é infinitamente superior a Manoel Carlos), mas as semanas seguintes são dedicadas a temas específicos: Criação, Realidade, Busca, Oração e Sofrimento, até chegar à Semana Santa. Na semana dedicada à Criação, é impossível escapar dos comentários sobre o texto do Gênesis e a evolução. Polkinghorne afirma que o propósito dos relatos da criação não é ser científico (do contrário não teríamos como escapar da contradição entre os dois relatos), mas explicar o porquê das coisas. Usando o exemplo da lareira ("o fogo queima na lareira porque processos físicos e químicos atuam na madeira" e "o fogo queima na lareira porque estou recebendo amigos" não são explicações incompatíveis entre si), o autor diz que não é preciso escolher entre o Big Bang e o "faça-se a luz". Ao comentar a evolução, Polkinghorne diz que Deus poderia ter feito o mundo todo pronto, mas preferiu criar um mundo que faz a si mesmo. Quando o autor do Gênesis diz que o homem foi formado "do pó da terra", estabelece uma continuidade entre a natureza e o ser humano. Polkinghorne mostra pistas de Deus na beleza das equações matemáticas que regem o universo – é um trecho com o qual eu me identifico. Eu não sei ver beleza em equações (detestava Trigonometria na escola técnica), mas adoro Van Gogh e Mozart. Nem todo mundo me acompanha na admiração por um quadro ou uma composição musical, assim como para mim passa batida a beleza existente em outros aspectos da vida, que os demais reconhecem muito melhor que eu. E o autor encerra a semana com considerações sobre propósito e acaso – este último, diz Polkinghorne, está longe de ser negativo: é "o espaço de manobra que Deus concedeu às suas criaturas ao permitir que fossem elas mesmas", afirma.

Na sequência da obra, o autor aborda temas como o maravilhamento diante das coisas do mundo, a diferença entre senso moral e senso cultural (sim, é possível ser uma pessoa boa sem ter religião nenhuma, mas como se nega a existência de certos padrões morais universais a todas as culturas?), a função da Teologia Natural, o emprobrecimento causado pelo Iluminismo na cabeça das pessoas ao desvalorizar o entendimento subjetivo e a experiência pessoal. Mas um capítulo que eu gostaria de comentar é o da semana dedicada ao Sofrimento, já que andamos discutindo o assunto aqui, por causa do Haiti. Polkinghorne se baseia especialmente nos Salmos e se pergunta: por que, no terremoto de 1755, Lisboa foi devastada justamente num Dia de Todos os Santos, quando milhares de pessoas estavam em igrejas que desabaram, matando os fiéis? "O que Deus estava fazendo com o terremoto em Lisboa? Acho que a resposta é que Ele estava deixando a crosta terrestre se comportar de acordo com a sua natureza", diz o autor. Um Deus que não é "tirano nem mágico" permite que o mundo criado por Ele possa se desenvolver sozinho. Mas o salmista fica perplexo não apenas com os desastres naturais: ele percebe que coisas más ocorrem com pessoas boas. Pior ainda: coisas boas acontecem a pessoas más – que nadam "em mar de contentamentos", como escreveu Camões. Nós também experimentamos essa perplexidade em vários níveis quando vemos desde autênticos cachorros atraírem o interesse das melhores garotas até mensaleiros sendo reeleitos. Como se resolve isso? Não basta nos consolarmos pensando que na vida eterna as coisas se encaixarão nos seus devidos lugares: se fosse assim, Nietzsche teria razão ao chamar o Cristianismo de religião de escravos conformados. Mas a resposta de Polkinghorne ao filósofo do século 19 eu deixo para vocês descobrirem ao ler o livro.

Ainda estamos no começo da Quaresma. Aos leitores cristãos, eu recomendo que procurem o livro e, depois de recuperar o tempo perdido, comecem a seguir as meditações dia após dia. Garanto que será um período de muitos frutos.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/02/2010 às 16:11

De volta do nosso recesso de carnaval (recesso ao menos para a maioria de vocês; eu estava de plantão), preparei um material especial para os leitores do Tubo, como prometido. Quem acompanha o blog desde novembro deve estar lembrado de um estudo que publiquei naquela semana especial sobre Darwin, em que o pastor e teólogo Bruce Waltke apresentava a outros teólogos evangélicos norte-americanos uma série de possíveis objeções à teoria da evolução, e pedia aos entrevistados que indicassem se concordavam ou não com aquela determinada afirmação. Algumas dessas objeções já conhecemos de cor e salteado, como a questão da idade do planeta. Mas a terceira delas me chamou especialmente a atenção. Traduzo aqui para vocês:

Leituras tradicionais de Gênesis 3,17-20 e Romanos 8,20-22 levam alguns evangélicos à convicção de que toda morte e corrupção são o resultado do pecado humano. Robert R. Gonzales Jr., decano e professor de Estudos Bíblicos do Seminário Batista Reformado de Easley (Carolina do Sul), em uma polêmica com Francis Collins, escreve: "Paulo, seguindo o ensinamento do Gênesis e do resto do Antigo Testamento, acreditava que o pecado humano tinha consequêncas ecológicas". Assim, a terceira barreira da sondagem seria: A sentença divina de morte e corrupção na criação, em conexão com o pecado de Adão, não pode ser harmonizada com a teoria da criação pelos processos de evolução.

Antes de mais nada, duas coisas: "criação pelos processos de evolução" significa apenas que os cristãos creem que Deus é o criador do universo, pois o tirou do nada. Não tem nada a ver com o criacionismo atual. Já os trechos da Bíblia citados são os seguintes: E disse em seguida ao homem: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar." Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes. (Gênesis 3,17-20), e Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. (Romanos 8,20-22)

É uma objeção que levanta questões interessantes. Se a morte só entrou no mundo após o pecado original, haveria animais predadores antes disso? E catástrofes naturais, como as que por exemplo levaram à extinção dos dinossauros? De fato, determinada interpretação desses (e de outros) textos bíblicos levaria a uma impossibilidade "temporal" da evolução, pois se os processos de seleção natural só pudessem ser "disparados" após o pecado original, não haveria tempo suficiente para as espécies se diversificarem como enunciado por Darwin. Por isso, procurei um padre católico e dois professores protestantes para saber deles se esta objeção realmente faz sentido.


Subhadip Mukherjee/Stock.xchng

Subhadip Mukherjee/Stock.xchng / O predador mais apto sobrevive. Cenas como essa eram possíveis antes do pecado original?O predador mais apto sobrevive. Cenas como essa eram possíveis antes do pecado original?

O padre Celso Nogueira, dos Legionários de Cristo e especialista em ciência e religião, diz que uma leitura fundamentalista da Bíblia sequer poderia ser considerada "literal", já que não respeitaria a intenção do autor humano: passar uma mensagem teológica, e não biológica (até já conversamos sobre isso a propósito do Dilúvio). Ele afirma que a Igreja Católica não compartilha desse tipo de interpretação. "No Gênesis os animais só começam a se matar depois que Caim mata Abel. Aqui é preciso ler comparando com o anterior. Adão e Eva se dão conta de que estão nus só após o pecado original. Antes não viam isso? Claro que viam, mas sua nudez não significava ameaça de ser cobiçado como objeto; só passa a ser assim depois do pecado. De modo similar, antes os animais se matavam, mas a aparente 'crueldade' da natureza não significava uma tentação para o homem", afirma o padre. De fato, até santo Tomás de Aquino já tinha escrito sobre o assunto na Suma Teológica (I, q.96, a.1, ad.2, tradução livre minha, com negrito também meu):


Gilberto Yamamoto

Gilberto Yamamoto / Séculos antes de nós, Tomás de Aquino também se perguntou sobre o que faziam os animais carnívoros antes do pecado original.Séculos antes de nós, Tomás de Aquino também se perguntou sobre o que faziam os animais carnívoros antes do pecado original.
Alguns sustentam que os animais selvagens e carnívoros, no estado de inocência, eram mansos com o homem e com outros animais. Mas isso se opõe à razão, porque o pecado não mudou a natureza dos animais, como se os que agora são carnívoros, como leões e falcões, fossem até então herbívoros. A Glosa do Venerável Beda a Gênesis 1,30 não diz que a erva e os troncos fossem dados como alimento a todos os animais e aves, mas apenas a alguns. Então, havia discórdia entre os animais. Mas isso não limitava o domínio do homem, como tampouco limita agora o domínio de Deus, cuja Providência dirige tudo. Desta Providência o homem era executor, como acontece agora com alguns animais domésticos, como quando ele alimenta com galinhas o falcão treinado.

O professor Agemir de Carvalho Dias, pastor presbiteriano e docente da Faculdade Evangélica do Paraná, diz que de um ponto de vista mais "liberal" essa discussão sequer existiria, ou seria totalmente irrelevante. Então, ele topa jogar o jogo com as regras dos fundamentalistas. "Lendo a Bíblia como eles leem, há respaldo bíblico (literal) para entendermos que os animais não agiriam de forma agressiva ou que não haveria catástrofes naturais antes da queda? Certamente não. A descrição que temos na Bíblia depois da criação é de que o mundo era sem forma e vazio (Gn 1,2), que traduz uma expressão idiomática do hebraico com o sentido mais ou menos de 'caos'. No processo de criação Deus vai colocando ordem no caos, e mesmo depois de constituído o Jardim do Éden a criação não está completa, pois Deus ainda diz: 'não é bom que o homem viva sozinho' (Gn 2,18). O segundo motivo é que na própria descrição do jardim do Éden já temos a distinção entre animais selvagens e domésticos", afirma.

Tanto para o padre Celso quanto para o professor Uipirangi Câmara, doutor em Ciências da Religião que dá aulas na Faculdade Teológica Batista do Paraná, um ponto central nessa discussão é definir qual seria essa "morte" que entrou no mundo apenas após o pecado original. "Com a queda de Adão, vem o mal espiritual, não a morte física", afirma. O professor Dias acrescenta: "a morte que entrou no mundo com Adão é entendida em geral como sendo o afastamento do homem de Deus – é uma morte espiritual, no sentido de que o acesso a Deus está fechado e só poderá ser restaurado pela fé." O padre Celso diz que os conceitos de "morte" e "vida" do Antigo Testamento vão além da concepção biológica. O homem, explica o sacerdote, tem uma alma imortal. "A alma (princípio vital) dos animais não é espiritual, é puramente material. Pelo contrário, a alma humana é espiritual, portanto não sujeita à morte, pois o que é imaterial não se divide em partes e portanto não se pode decompor. Como o ser humano é uma unidade de corpo e alma, a morte é uma violência a esta unidade. Mas esse não é o caso nos animais", esclarece.

Os professores Câmara e Dias, no entanto, lembram que, ao contrário do caso católico, em que existe uma interpretação, digamos, "unificada" ou "oficial", dada pelo Magistério da Igreja, mesmo dentro das igrejas a que eles pertencem (Batista e Presbiteriana respectivamente) não existe consenso – e muito menos entre diferentes tradições protestantes. Eles ressaltam que sua opinião é meramente pessoal e acreditam que, dependendo da comunidade, apenas uma minoria pensa como eles. Por isso não se poderia falar em uma "Teologia protestante", mas em várias Teologias, de acordo com os diferentes grupos.

Até aqui, já é possível chegar a uma conclusão: não procede, segundo o padre Celso e os professores Câmara e Dias, a ideia de que a evolução proposta por Darwin seria impossível, já que antes do pecado original não haveria morte e corrupção. "Essa ilação que se faz para rejeitar, em nome da Bíblia, uma teoria científica é abusiva", diz o padre Celso. Então, aquelas imagens que vemos no Animal Planet e assemelhados, de perseguições empolgantes em que às vezes os coelhos ou cervos dão um olé nos felinos (e às vezes viram comida de leopardo), existiam, sim, antes do pecado original. "As imagens do Gênesis tratam da relação do homem com Deus, com seu semelhante e com o mundo. Nada dizem do status dos animais e das plantas em si", acrescenta o padre Celso.


Reprodução

Reprodução / A visão de Hieronymus Bosch para o jardim do Éden: era para o homem ser o jardineiro, mas ele acabou subvertendo tudo.A visão de Hieronymus Bosch para o jardim do Éden: era para o homem ser o jardineiro, mas ele acabou subvertendo tudo.
Mas ainda podemos avançar na discussão. Os três entrevistados parecem concordar com Robert Gonzales quando ele menciona "consequências ecológicas" do pecado original. "O fato de um bicho comer outro faz parte da ordem determinada por Deus para a natureza. Mas o pecado original causou uma desarmonia na criação, uma desordem na maneira como o homem se relaciona com a natureza. Ele tinha a responsabilidade original de cuidar de tudo", diz o professor Câmara, da Faculdade Teológica Batista do Paraná. O padre Celso continua a explicação: "o homem rompe sua relação harmônica com Deus quando quer 'conhecer' (em sentido bíblico, possuir), 'o bem e o mal', semitismo que indica todas as coisas. A cobiça produz a desarmonia, primeiro com Deus, gerando a desconfiança; depois, com o semelhante (perceberam que estavam nus e seus corpos se tornaram objeto de cobiça); e, por fim, com a natureza, pois a cobiça faz do homem um explorador da criação, não mais seu 'jardineiro'; e a criação responde com hostilidade a isso."

O professor Dias, da Faculdade Evangélica, traz exemplos da desarmonia entre homem e natureza usando o consumo e produção de energia. "O homem cria desordem quando ele acumula energia. A desigualdade é um exemplo, a epidemia de obesidade é outro. Já uma situação de ordenação divina ocorre quando Deus alimenta o povo no deserto após a saída do Egito: os israelitas recebem maná suficiente apenas para um dia – se eles acumulassem para outro dia, o alimento apodrecia. O ano sabático é outro exemplo: no sétimo ano não se pode plantar nem colher, deve-se deixar a terra descansar. O que se pressupõe é que o homem viveria em uma situação de equilíbrio com a natureza, mas esse equilíbrio foi rompido", afirma. O pecado, diz o professor, perturbou o que seria um "equilíbrio simbiótico" entre o homem e a natureza. "O homem, para sobreviver, precisa dominar a natureza, o que leva à alienação do homem e à destruição da natureza. É assim que podemos interpretar o apóstolo Paulo quando ele diz que a vitória sobre o pecado em Cristo restaura a esperança desse equilíbrio", completa Dias, remetendo a um dos textos bíblicos citados lá no começo. Mas esse tema, da relação do homem com a natureza (a real e a ideal, segundo o Cristianismo), já é um outro assunto igualmente fascinante, ao qual pretendo voltar aqui no Tubo.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/02/2010 às 11:10

Para encerrar essa corrida semana pré-feriadão de carnaval, mais um vídeo da Fundação BioLogos para os leitores do Tubo. Nele, o professor Jeff Schloss, do Westmont College na Califória, comenta duas razões básicas que levam muitos protestantes fundamenalistas norte-americanos a rejeitar a evolução.

O que eu considero interessante nesse trecho curtinho do professor Schloss é que nenhuma dessas duas razões surge da teoria de Darwin em si. Embora a segunda razão seja considerada a mais complexa pelo professor Schloss, queria comentar especialmente a primeira delas, que tem origem em uma determinada interpretação literal da Bíblia, tema que inclusive temos discutido na caixa de comentários do post sobre o Deus das lacunas, publicado na semana passada. Reforço o que eu disse lá (até porque nem todo mundo tem paciência de rodar por cerca de 80 comentários): como o autor sagrado (estou me referindo ao indivíduo que escreveu o Gênesis sob inspiração divina) poderia ter usado uma linguagem cientificamente correta, se nem ele, nem o seu "público leitor" tinham esse conhecimento? Relatos como o da criação precisavam ser, e foram, escritos em uma linguagem compreensível e que permitia ao leitor entender o que aconteceu e conhecer as duas grandes verdades religiosas contidas no texto: Deus é o criador do universo, e o homem tem um papel especial nesta criação por ser imagem e semelhança de Deus.

A segunda razão que leva fundamentalistas a rejeitar a evolução vem, por outr lado, de interpretações da teoria de Darwin, aquelas segundo as quais o processo evolucionário dispensaria uma entidade sobrenatural. Schloss segue dizendo mais ou menos o que já tenho comentado aqui: que o Deus cristão não é um criador que "sai de férias" depois do Big Bang, mas um ser que intervém na história do homem; e que a evolução, mesmo com a aleatoriedade das mutações, por exemplo, não exclui de todo a noção de um propósito por trás do processo. Claro, aí já saímos da ciência, pois propósito não tem como ser comprovado ou negado em laboratório, mas a visão filosófica é compatível com a teoria biológica, como aliás já vimos aqui na entrevista do Karl Giberson.

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Na semana que vem, com um pouco mais de calma, teremos mais material sobre Bíblia e evolução. Continuem acompanhando.

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