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Terça-feira, 09/02/2010

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Tubo de Ensaio

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 03/02/2010 às 19:04


Reprodução

Reprodução / "A criação dos animais", de Tintoretto: dizer "foi Deus que fez" diante de perguntas sem resposta científica sobre o mundo natural até pode ser cômodo, mas não ajuda nem a ciência, nem a religião.

Quando o tema é ciência e religião, um dos livros que tem causado mais debates nos Estados Unidos atualmente é Signature in the cell, de Stephen Meyer, um defensor do Design Inteligente. O livro foi mencionado de passagem por Karl Giberson na entrevista que ele deu ao Tubo em novembro do ano passado.

Desde o seu lançamento, houve uma série de resenhas, que por sua vez levaram a réplicas e tréplicas, tanto do autor como dos autores das resenhas e das pessoas citadas no livro ou nos textos que se seguiram. Uma resposta em particular, publicada em 12 de janeiro no blog da Fundação BioLogos, me chamou a atenção. Nela, o prêmio Nobel de Medicina de 2009, Jack Szostak, fala da busca pelas respostas sobre a origem da vida. Esse é um dos temas em que se costuma apelar para o "Deus das lacunas", aquela divindade que aparece para preencher os espaços quando a ciência ainda não consegue dar uma explicação convincente para certo processo natural. Confiram um trecho do seu texto, em tradução livre minha:

O fato é que existem muitas etapas que anda não entendemos no caminho que vai dos elementos químicos até o surgimento da vida. Para mim, e acredito que também para você, essas etapas devem ser reveladas por questões científicas que devem ser respondidas usando o método científico. É difícil para mim entender como se usam lacunas na nossa compreensão para servir de base ou apoio para qualquer tipo de crença religiosa. À medida que essas lacunas vão sendo preenchidas, a base daquela crença desapareceria. Por que alguém basearia suas convicções religiosas em uma base tão frágil?

À medida que a ciência avança e nosso entendimento cresce, as religiões devem ou se adaptar à mudança ou entrar em uma espiral de negação, como fazem os criacionistas de Terra jovem ou os movimentos de Design Inteligente. Concordo com você que esse tipo de negação é perigoso; negar a realidade é extremamente ruim para o futuro de nosso país (e do mundo). O fato de muitas pessoas buscarem liderança moral em pessoas que deliberadamente negam a realidade é assustador.

Embora Szostak não acredite na compatibilidade entre ciência e fé, o biólogo não podia ter sido mais feliz na sua avaliação sobre o "Deus das lacunas": ele não só é perigoso para a ciência, como também é perigoso para a própria fé. Perigoso para a ciência porque desestimula as pessoas a buscar a verdadeira resposta às questões sobre o universo em que vivemos; perigoso para a religião porque não se pode basear uma fé nesse tipo de ignorância. Afinal, o processo é exatamente o descrito por Szostak: se as pessoas têm um Deus que só "entra em ação" quando a ciência não tem resposta para algo, esse Deus desaparece à medida que as respostas científicas aparecerem. Em resumo, a busca por Deus é totalmente legítima e meritória; só não é nos buracos que vamos encontrá-Lo.

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Aproveito para lembrar que amanhã este blogueiro estará no programa Escola da Fé, da TV Canção Nova, falando sobre ciência e religião, cobertura da Igreja Católica na imprensa e outros assuntos. Ao vivo, às 20h30.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 02/02/2010 às 16:41

Quando se fala em "diálogo entre ciência e religião", muita gente coloca ênfase demais nos termos "ciência" e "religião", e se esquece um pouco do... diálogo. O fato é que muita gente que se diz interessada nesse debate só quer falar, mas não quer ouvir, especialmente por causa do preconceito – seja contra a ciência, seja contra a religião. Na semana passada li sobre dois eventos realizados nos Estados Unidos em que os palestrantes ressaltaram justamente esse aspecto do tema: para se estabelecer um diálogo mínimo, é preciso levar em consideração o que as pessoas têm a dizer, em vez de desprezar antecipadamente o discurso alheio com afirmações do tipo "mas isso não está na Bíblia" ou "religião é apenas um monte de mitos idiotas".

Em um evento de um dia na Primeira Igreja Batista de Austin (Texas), dirigido aos membros daquela comunidade, o professor de Teologia Barry Harvey foi logo de cara dando um exemplo de situação em que se rejeita a ciência sem sequer prestar atenção nas evidências: o caso da idade do universo. Se você diz que ele tem 13 bilhões de anos, seu interlocutor vai dizer "não é assim que esta na Bíblia" e nem vai querer saber o que mais você tem a explicar sobre o assunto. Assim realmente não tem como haver diálogo. "Na maioria das vezes, isso gera mais calor do que luz", disse Harvey sobre o "diálogo" entre ciência e fé. Gostei da analogia.


Reprodução

Reprodução / Detalhe de uma das tapeçarias de Beauvais, em que um astrônomo jesuíta faz uma explicação ao imperador chinês Kangxi. A importância dos jesuítas para a Astronomia é um exemplo da conciliação entre ciência e fé.Detalhe de uma das tapeçarias de Beauvais, em que um astrônomo jesuíta faz uma explicação ao imperador chinês Kangxi. A importância dos jesuítas para a Astronomia é um exemplo da conciliação entre ciência e fé.
"Acho que as pessoas estão ansiosas por serem tratadas como gente que tem cérebro", disse um dos pastores da Primeira Igreja Batista, Roger Paynter. De fato. Certos setores mais exaltados do ateísmo militante gostam de pensar que o sujeito tem mesmo que ser muito burro, ou idiota, para ter uma religião (não que isso vá ajudar a causa ateísta a ganhar mais adeptos, acrescento. No máximo serve como terapia de grupo, do tipo "vejam como somos esclarecidos" enquanto se dá tapinhas nas costas uns dos outros). Mas, da parte dos crentes, também é preciso agir como gente que tem cérebro – desconsiderar evidência científica porque contradiz uma determinada interpretação bíblica não ajuda muito na busca pela verdade sobre o mundo.

Já um outro evento, na Universidade Drury, foi dirigido a um público mais amplo, mas teve o mesmo objetivo. O fundador do Centro de Teologia e Ciências Naturais em Berkeley (Califórnia), Robert John Russell, pediu por um diálogo mais respeitoso entre ciência e religião. Russell é pastor da United Church of Christ e doutor em Física. Ele se colocou contra a dicotomia entre criação e evolução (suponho que nesse caso "criação" não seja a mesma coisa que "criacionismo" – é possível compatibilizar a evolução proposta por Darwin com a noção de que o universo foi criado por Deus, mas não com as teorias criacionistas), e basta dar uma olhada na repercussão entre o público para ver que ali também havia gente que quer ser tratada como quem tem cérebro. Um dos participantes, por exemplo, queria entender melhor a teoria do Big Bang (proposta por um padre, nunca é demais lembrar) e saber como ela se harmoniza com as crenças religiosas. Outros manifestaram seu desejo de harmonizar as duas formas de conhecimento e rejeitaram a noção de que "ou se está de um lado, ou de outro", como se fosse obrigatório escolher entre ciência e fé.

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Aproveito para lembrar que depois de amanhã este blogueiro estará no programa Escola da Fé, da TV Canção Nova, falando sobre ciência e religião, cobertura da Igreja Católica na imprensa e outros assuntos. Ao vivo, às 20h30.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 29/01/2010 às 15:53

Já faz tempo que não publico aqui uma tirinha do Laerte. Então, para relaxar nesta sexta-feira, vai uma especialmente para os leitores céticos do Tubo:


Reprodução autorizada / www.laerte.com.br

Reprodução autorizada / www.laerte.com.br /

Aproveitando a oportunidade, um aviso para quem se interessa por Bioética (que, como sabemos, é um ponto de intersecção entre ciência e fé). A PUCPR abriu inscrições para a pós-graduação lato sensu (especialização) em Bioética. As aulas começam em 16 de abril e são quinzenais, sempre nas noites de sexta e manhãs e tardes de sábado. O curso é pago em 18 parcelas de R$ 245. Em 2009 eu me inscrevi, mas infelizmente não houve matrículas suficientes para fechar turma, e a especialização foi transformada em curso de aprofundamento. Esse ano, infelizmente, não poderei fazer o curso por conflito de horário com o trabalho.

Agora, se houver leitores na região de Rio de Janeiro e Niterói, a Arquidiocese de Niterói promove a seguinte jornada de Bioética:


Divulgação

Divulgação /

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Aproveito para lembrar que no dia 4 de fevereiro este blogueiro estará no programa Escola da Fé, da TV Canção Nova, falando sobre ciência e religião, cobertura da Igreja Católica na imprensa e outros assuntos. Ao vivo, às 20h30.

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Hoje é dia de dar Follow Friday no Tubo de Ensaio!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 26/01/2010 às 16:05


Victor Iglesias / stock.xchng

Victor Iglesias / stock.xchng / A criançada precisa ter estímulo para se interessar por ciência, mas não custa nada lembrar que fé religiosa e curiosidade científica são compatíveis.A criançada precisa ter estímulo para se interessar por ciência, mas não custa nada lembrar que fé religiosa e curiosidade científica são compatíveis.
Tanto no prefácio quanto nos capítulos finais de O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan relata uma série de memórias pessoais sobre como seus pais foram importantes para que o jovem Sagan seguisse a carreira científica, levando-o a museus e feiras, e incentivando a sua curiosidade. O autor lamenta profundamente que hoje não exista quase nenhum incentivo para que as crianças e jovens se interessem por ciência: a televisão aberta trata o assunto superficialmente, aqueles que demonstram algum gosto pelo assunto são logo rotulados de nerds e as escolas só fazem a coisa ser minimamente interessante na época das feiras de ciência. Eu me solidarizo com Sagan e acho ridículo que haja tão pouco estímulo para as crianças gostarem de ciência. Eu ainda não tenho filhos, mas quando tiver, ficaria orgulhoso se algum deles resolvesse ser cientista. Enquanto isso, brinco de dinossauros quando encontro meu sobrinho de 4 anos.

Por outro lado, vemos o ateísmo militante defendendo que os pais não tenham o direito de educar seus filhos na religião. Eles consideram isso praticamente um abuso (é a palavra usada por Dawkins em Deus, um delírio; Christopher Hitchens fala em mutilação da vida psicológica e física das crianças). Diante disso, fico pensando o que diriam esses autores e seus seguidores em relação à ideia de ensinar às crianças a compatibilidade entre ciência e fé. É justamente disso que trata um artigo escrito por Shelley Emling no Huffington Post, semana passada. Em Can a science-minded child be raised religious?, ela divide um pouco de sua angústia ao ver que, enquanto ela tem sucesso em mostrar essa compatibilidade aos adultos, seus dois filhos parecem não dar muita bola para a religião, embora adorem a ciência.

Ainda assim, Shelley mantém as esperanças, e eu acho que ela está no caminho certo: mostrar que ciência e religião respondem a tipos diferentes de perguntas, e que por isso não são excludentes. Mas não se pode forçar nada a entrar na cabeça de alguém. Os pais podem dar o melhor de si explicando, dando exemplo – vale para tudo: comportamento no trânsito, ética de trabalho, e também no caso da ciência e da fé. Mas, assim como o filho de um motorista exemplar pode virar um irresponsável ao volante, também pode acontecer, sim, que apesar do esforço dos pais em mostrar às crianças que ciência e fé não são excludentes, elas acabem se tornando fundamentalistas, de qualquer um dos lados (que rejeitam a religião em nome da ciência, ou que rejeitam a ciência em nome da religião). O que serve de consolo é que, na maioria dos casos, a fruta não cai longe da árvore.

E então, como educar as crianças para compreender e extrair o melhor tanto da religião quanto da ciência?

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Aproveito para lembrar que no dia 4 de fevereiro este blogueiro estará no programa Escola da Fé, da TV Canção Nova, falando sobre ciência e religião, cobertura da Igreja Católica na imprensa e outros assuntos. Ao vivo, às 20h30.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/01/2010 às 14:31


Divulgação / 1001 Inventions

Divulgação / 1001 Inventions / O Relógio do Elefante foi desenvolvido no século 13 por Al-Jazari.O Relógio do Elefante foi desenvolvido no século 13 por Al-Jazari.
Vocês devem ser lembrar de quando trouxe para o Tubo alguns vídeos de Thomas Woods mostrando como a Igreja Católica ajudou a construir a civilização ocidental, lançando as bases para a revolução científica que ocorreria nos séculos 17 e 18, especialmente. Agora, uma iniciativa surgida na Europa pretende mostrar a contribuição muçulmana para o desenvolvimento da ciência. No Times londrino de anteontem, Ehsan Masood conta que a exposição 1001 Invenções está chegando à capital britânica.

A exposição revela que, entre os séculos 8 e 15, o auge da expansão islâmica no mundo, grandes avanços ocorreram em várias áreas da ciência e tecnologia. Masood argumenta que, embora nem todos os cientistas e inventores daquela época fossem muçulmanos convictos, a religião esteve por trás de muitos avanços, e cita como exemplo a Astronomia: mesquitas contratavam astrônomos para elaborar tabelas precisas com os horários das preces. E, claro, não se pode deixar de mencionar o trabalho do matemático Musa al-Khwarizmi, que é considerado o fundador da Álgebra como a conhecemos hoje. Parte do trabalho de al-Khwarizmi servia para calcular as heranças de acordo com a lei islâmica.

O único perigo quando se pretende lembrar a contribuição de uma determinada religião para o progresso científico é tentar diminuir ou ignorar as contribuições alheias. É um assunto tratado no livro Galileo goes to jail and other myths about science and religion, que resenhei recentemente para a revista Dicta&Contradicta. O vídeo que segue abaixo, embora muito interessante, comete esse pecadinho ao deixar subentendido que, enquanto a ciência islâmica florescia, o Ocidente parecia regredir a níveis enormes de ignorância coletiva, o que já sabemos não ser verdade, inclusive pelo que nos mostra Thomas Woods (que, por sua vez, também comete esse erro em alguns de seus vídeos, em relação ao mundo islâmico). Mesmo assim, vale a pena conhecer um pouco da elaborada engenharia islâmica medieval:

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 21/01/2010 às 17:36


Griszka Niewiadomski / Stock.xchng

Griszka Niewiadomski / Stock.xchng /

O jornal The Jewish Week, dirigido à comunidade judaica norte-americana, publicou anteontem uma entrevista curta com o professor de Física Natan Aviezer, autor de dois livros sobre ciência e judaísmo. Ele esteve em Nova York para uma palestra, ocasião em que respondeu a algumas perguntas sobre a conciliação entre as descobertas científicas e a fé judaica. É sempre bom ver pessoas de diversas confissões religiosas rejeitando a noção de conflito entre religião e ciência.

Por algum motivo de formatação do site, as perguntas estão grudadas nas respostas imediatamente anteriores (pelo menos aqui no meu computador), mas não é difícil acompanhar o raciocínio do físico. Ele reforça o que eu já comentei aqui em outras: que a religião precisa ser grata à ciência por remover dela os elementos de superstição (embora não use exatamente essas palavras): "A ciência se tornou uma ferramenta importante para entendermos várias passagens [da Torá] que antigamente eram enigmáticas e impossíveis de compreender", afirma.

Mas um outro trecho da entrevista me deixou intrigado. Falando sobre a literalidade do Gênesis, Aviezer diz: "Por muito tempo se pensou que não se pode criar alguma coisa do nada. Agora, a ciência percebeu que isso não é verdade", ele diz, para citar logo depois o Big Bang. Que Deus tenha tirado o universo do nada é algo que praticamente toda pessoa religiosa aceita; mas isso pressupõe que houvesse algo (no caso, Alguém) para esse ato criativo. Agora, como a ciência possa ter comprovado que se cria algo a partir do nada, aí eu não sei. Aliás, mesmo a teoria do Big Bang não diz que o universo surgiu do nada, e sim de um ponto ínfimo que concentrava toda a matéria e a energia do universo.

Também foi interessante descobrir que um rabino foi chamado de herege por colegas ortodoxos ao dizer que o mundo tinha mais de 5.770 anos. Mas o físico lembra que Maimônides, já no século 12, lançou a interpretação não literal dos "seis dias" da criação, mais ou menos como santo Agostinho fez, do lado cristão, em seu tratado A interpretação literal do Gênesis. Gostei de saber; agora fiquei curioso para ler o Guia dos Perplexos.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 19/01/2010 às 17:38

Post interessante hoje no blog Intersections, dos escritores Chris Mooney e Sheril Kirshenbaum, coautores de Unscientific America, livro que está na minha lista de coisas que lerei em breve. O texto é dirigido principalmente a quem gosta de dizer em altos brados que religião e ciência são totalmente incompatíveis. O que Mooney diz é: se você quer que as pessoas deem valor à ciência, deveria ter mais cuidado com o que diz.

Os Estados Unidos estão coalhados de entidades científicas; no Brasil, parece que o mais próximo que temos disso é a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Mooney se pergunta que posição essas entidades deveriam tomar no debate sobre a relação entre ciência e fé. Os ateístas militantes dizem que essas organizações deveriam silenciar completamente, afinal ciência e religião não se misturam, e uma organização científica não tem nada a dizer sobre religião.

Mas Mooney diz que essa posição é contraproducente. No longo prazo, ela inclusive fará mal à ciência. O blogueiro explica o porquê: inevitavelmente, cientistas e professores de ciências terão de lidar, mais cedo ou mais tarde, com pessoas religiosas. E essas pessoas religiosas provavelmente já ouviram, em alguma ocasião, os Dawkins da vida dizerem, por exemplo, que a teoria da evolução é incompatível com a fé religiosa, ou que a ciência em geral leva ao ateísmo.

Essa atitude força uma polarização: ou você está com a ciência, ou você está com a religião. Só que a experiência comprova uma coisa: entre ser burro ou ser herege, qualquer um que tenha uma religião preferirá ser burro. Se forem forçadas a escolher entre as descobertas da ciência e o que diz a sua fé, sem possibilidade de conciliação entre ambas, as pessoas tendem a ficar com o que diz a sua fé. "E daí se todo mundo ri de mim quando eu digo que a Terra tem 6 mil anos? Pelo menos eu não vou pro inferno", pensa o camarada. Agora, imaginem milhões de pessoas fazendo isso: é um golpe mortal na comunidade científica. Então, um primeiro conselho aos cientistas ateus seria evitar a polarização: inevitavelmente a ciência sairá perdendo. Ninguém devia ser forçado a escolher entre ser burro ou ser herege.


Joel Mozart

Joel Mozart / A existência de cientistas e religiosos que conciliam ciência e fé é um fato e não deveria ser ignorado.A existência de cientistas e religiosos que conciliam ciência e fé é um fato e não deveria ser ignorado.
O que fazer, então? Mooney apresenta uma saída. Você pode até acreditar em tese que ciência e religião sejam incompatíveis; mas não pode negar que existem muitas pessoas, tanto no campo da ciência quanto da religião, que defendem essa compatibilidade. Isso é fato. Então é o que as organizações de cientistas devem fazer: em vez de não falar nada sobre o assunto, podem simplesmente mostrar que sim, há pessoas que conseguem aceitar a evolução e ser bons cristãos; que vão à igreja e pesquisam o Big Bang; e por aí vai. Só isso já bastaria para remover um bloqueio que impede pessoas religiosas de abraçar as descobertas científicas.

É uma posição pragmática? Sim, é. A maioria dos ateus militantes prefere ser, digamos, "autêntica", partindo para o confronto aberto e estimulando a polarização. Mas essas pessoas deviam se perguntar o que, afinal, vem em primeiro lugar: promover a ciência ou destruir a religião? Quem prioriza o avanço da ciência deveria, segundo Mooney, botar a agressividade de lado e adotar esse pragmatismo que, no longo prazo, será altamente benéfico para a ciência.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 15/01/2010 às 17:10


Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil

Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil  / Haitianos procuram abrigo em Porto Príncipe: cônsul no Brasil inventou explicação sobrenatural para a tragédia.Haitianos procuram abrigo em Porto Príncipe: cônsul no Brasil inventou explicação sobrenatural para a tragédia.
A essa hora quase todo mundo já viu as lamentáveis (para não usar palavra pior) afirmações racistas do cônsul haitiano no Brasil, para quem o terremoto que devastou Porto Príncipe tem ligação com as práticas religiosas haitianas. A imbecilidade alheia, no entanto, permite que analisemos uma das questões que todos costumam fazer em horas de tragédias como essas: por que essas coisas acontecem?

Já vi algumas pessoas esgrimindo versículos bíblicos (especialmente aqueles em que Jesus diz que não cai um fio de nossos cabelos sem permissão de Deus) como se Deus ficasse numa nuvem apontando o dedo para as pessoas e para os lugares, dizendo "você aí, câncer de pulmão"; "aquela outra lá, gravidez"; "cidade tal, enchente"; "aquele outro lugar ali, poço de petróleo". Com uma Bíblia mal lida em mãos, é fácil sucumbir à tentação de ver vontade divina em fenômenos naturais. Mas a verdade é que a ciência explica exatamente como as pessoas engravidam ou desenvolvem câncer de pulmão; ou enchentes e terremotos acontecem.

Por ocasião do terremoto no Haiti, o astrônomo Salman Hameed recuperou um texto escrito há alguns anos, quando um tremor devastou o norte do Paquistão, matando 100 mil pessoas. Em Nature and natural disasters, Hameed diz que a explicação divina para essas catástrofes era a usual até a ciência nos dar uma explicação para os fenômenos naturais, e que um acontecimento vital para essa mudança de mentalidade foi o terremoto de Lisboa, no século 18. Ainda assim, alguns estudiosos muçulmanos, em pleno século 21, ainda atribuíam causas sobrenaturais ao terremoto do Paquistão (e eu acrescento que eles não estão sozinhos: o arcebispo emérito de Nova Orleans, Philip Hannan, disse que o furacão Katrina era um castigo à imoralidade da população da cidade).

Há uns tempos, um comentarista me perguntou sobre a contribuição da ciência para a religião, e aproveito a oportunidade para dar a resposta que não dei naquela oportunidade: como diz o cardeal Schönborn, a ciência "purifica" a religião, removendo dela o que é superstição. Eu diria que a ciência ensina o crente a dar a Deus o que é de Deus e dar a Darwin, a Einstein, a Newton e a Mendel o que é de Darwin, de Einstein, de Newton e de Mendel. Por isso as pessoas religiosas deveriam respeitar a ciência: ela também os ajuda a prestar um culto correto.

Hameed continua abordando o extremo oposto aos que querem ver a vontade divina em tudo, e cita um outro pesquisador muçulmano para quem, se os desastres são realmente "aleatórios", então não há nada além desse mundinho, e bem podemos cruzar os braços e esperar a morte chegar. Hameed condena essa falta de esperança e mostra que "há alegria em descobrir o funcionamento da natureza". O blogueiro lembra que conhecer os mecanismos naturais, longe de abalar nossa esperança, deveria reforçá-la ao incentivar a pesquisa de maneiras para salvar mais pessoas. E conclui dizendo que isso só será possível quando pararmos de procurar explicações sobrenaturais para fenômenos naturais. Uma lição que não só os muçulmanos citados no texto de Hameed precisam aprender.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 14/01/2010 às 16:25

Graças ao trabalho com o Tubo de Ensaio, este blogueiro já foi aos Estados Unidos para o congresso da Religion Newswriters Association; já colaborou com uma resenha para a revista Dicta&Contradicta; e agora foi convidado pelo professor Felipe Aquino, apresentador do programa Escola da Fé na TV Canção Nova, para falar sobre ciência e religião e sobre a cobertura religiosa feita pela imprensa. Então, anotem aí: será no dia 4 de fevereiro, às 20h30, na TV Canção Nova.

Quem acompanha o blog faz algum tempo já conhece o trabalho do professor Felipe: eu coloquei aqui no Tubo a íntegra do programa que ele fez com o padre Paulo Ricardo, também sobre ciência e fé. Aliás, esta não foi a única ocasião em que o professor Felipe tratou do tema: em setembro do ano passado, ele recebeu o astrônomo Alexandre Zabot; segue um trecho do programa:

Se você gostou, a entrevista com o Alexandre Zabot será reprisada hoje à noite na TV Canção Nova.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 12/01/2010 às 16:43


Divulgação

Divulgação / Um dos dez químicos mais citados em trabalhos científicos na última década, Jim Tour não faz segredo de sua fé.Um dos dez químicos mais citados em trabalhos científicos na última década, Jim Tour não faz segredo de sua fé.

Entre a população em geral, há religiosos que levam sua fé a sério, há gente que diz ter religião, embora ela não tenha tanta relevância na vida dessas pessoas, e há os que não têm religião. Entre os cientistas não é diferente, como aliás já mostramos aqui, inclusive com pesquisas. Eu sempre acho interessante quando se publica algum perfil de cientista que leva sua fé a sério, e na semana passada o Houston Chronicle publicou uma reportagem sobre o químico Jim Tour.

Independentemente de sua fé, Tour parece ser uma pessoa que mereceria mesmo um perfil: ele atua na região coberta pelo jornal e, na última década, esteve entre os 10 autores mais citados em trabalhos científicos na área de Química em todo o mundo, especialmente graças a seu trabalho com nanotecnologia. De fato, o perfil escrito por Eric Berger (corretamente) dá mais ênfase às conquistas de Tour como cientista que ao fato de ele também ser uma pessoa religiosa. Mas ficamos sabendo que Tour é um judeu messiânico que lê a Bíblia diariamente, atribui parte do seu sucesso à sua fé e não age como alguém que precisa ficar demonstrando 24 horas por dia que é um devoto.

"Ah, mas olha só, ele não aceita a macroevolução", alguém vai observar. De fato. Mas pelo perfil não parece que essa rejeição derive de alguma crença religiosa. Ele não diz que "a evolução contraria a Bíblia", por exemplo; diz apenas que não consegue entender como se processa a macroevolução. Não duvido que, se um dia ele encontrar uma explicação convicente, mude de ideia a respeito. Nada melhor que ler suas próprias palavras, em um texto sobre criação e evolução. É um ótimo atestado de honestidade intelectual: Tour começa dizendo que não se considera especialista no assunto, e por isso não se acha qualificado para entrar no debate público sobre o assunto, inclusive pedindo às pessoas que não o convidem para falar sobre evolução em eventos, e avisa os jornalistas que ele provavelmente não tem nada de profundo a dizer sobre a controvérsia. Tour se limita a expor suas dúvidas a respeito não só da teoria de Darwin, mas das "alternativas" (como o criacionismo e o Design Inteligente), e apresenta uma bela exposição sobre a natureza como maneira de provar (ou não) a existência de Deus. Então, finalizo o post com algumas palavras de Tour:

Não teria sido maravilhoso se, quando os cientistas conseguiram as primeiras imagens de DNA em resolução molecular, ele tivesse formado, sozinho, as palavras hebraicas para "o Deus dos céus e da terra esteve aqui"? Mas isso não aconteceu, e ainda que tivesse acontecido, haveria céticos duvidando disso. Então, Deus parece usar a natureza como uma pista, mas não como uma solução, para que continuemos a buscá-Lo.

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