Antes de entrar no assunto do post, um aviso: este blogueiro aproveitará merecidas férias no mês de março, e estará de volta no dia da mentira. Enquanto eu descanso, haverá eventos interessantes no campo da ciência e religião, especialmente um congresso sobre Darwin organizado pelo Vaticano. Quando eu voltar, espero poder recuperar esses eventos para vocês. Já garanto que durante as férias pretendo ler alguns livros que serão comentados depois na seção Para sua biblioteca. Enquanto isso, divirtam-se com o material que já foi publicado até agora!
Finalmente encerramos a série de respostas à big question da Fundação John Templeton – série essa que deu início ao blog, lá em setembro do ano passado. O autor do último ensaio é um biólogo norte-americano que atualmente dá aulas no Canadá.
Stuart Kauffman – Não, mas apenas se...
Arquivo Universidade de Calgary
Stuart Kauffman quer "reinventar o sagrado".O problema de termos respostas meio repetidas é que os comentários ficam repetitivos também. Eu já afirmei aqui antes que é muito fácil construir um Deus do jeito que desejamos – seja para acabar com ele depois, seja para O adotarmos. E isso não é privilégio de gente de ciência: muitas pessoas que se dizem religiosas preferem construir para si um Deus do jeitinho que elas querem, mesmo que ele seja frontalmente contrário ao que sua religião prega. De preferência um Deus que feche os olhos às bobagens que cometemos, para que não precisemos sequer nos arrepender do mal que fazemos (eis um tema interessante para os cristãos que começaram a Quaresma anteontem). Bento XVI, no começo de seu livro Jesus de Nazaré, diz que as tentativas de criar um "Jesus histórico" dizem mais sobre os autores dessas tentativas que sobre o próprio Cristo. Basta ver que teólogos da libertação, por exemplo, inventaram (o verbo é proposital) um Jesus mais parecido com um Che Guevara que com o filho de Deus. Então, se até gente que se diz religiosa faz isso, não surpreende que os demais também façam. Agora, se isso é coerente ou não, é outra história...
Falando em inventar, o bordão de Kauffman é "reinventar o sagrado" – título de um de seus livros recentes. Ele mesmo afirma que a expressão é nitroglicerina pura, pois significa que o sagrado é inventado. "Quantos deuses adoramos ao longo dos séculos? Somos nós que dizemos a nossos deuses o que é sagrado, e não o contrário", afirma, deixando a entender que a religião é uma construção puramente humana. Mas não poderíamos dizer algo parecido da ciência? Quantas teorias científicas, cosmologias, visões de mundo vieram e foram derrubadas por outras... claro que nesse campo a ciência tem uma vantagem: desde o aparecimento do método experimental as novas teorias podem ser testadas, retestadas, comprovadas ou refutadas. Já a veracidade de uma religião não pode ser comprovada em laboratório, mas o que C.S. Lewis faz em Mero Cristianismo a respeito da divindade de Jesus não deixa de ser uma tentativa de demonstração.
Para Kauffman, essa reinvenção seria um gigantesco passo para a humanidade (como diria Neil Armstrong): assumir a responsabilidade pelo que consideramos sagrado. "Não queremos voltar a nenhuma forma de religião que exige que abandonemos a verdade do mundo real", afirma. Mas quem disse que para isso é preciso acabar com a religião como ela é hoje? Isso é tomar o fenômeno do fundamentalismo como medida para julgar a religião como um todo.
O biólogo afirma que essa reinvenção também exigirá uma mudança de postura por parte da ciência. Se o desenvolvimento desse universo incessantemente criativo (e de cuja criatividade participamos) não pode ser previsto, "a razão, a máxima virtude do nosso querido Iluminismo, não é suficiente para guiar nossas vidas. (...) E, diante do que só podemos chamar de Mistério, precisamos de um meio de orientar nossas vidas. Que nós realmente vivamos diante do desconhecido é uma raiz da necessidade ancestral da humanidade de ter um Deus sobrenatural", diz.
Mas o Deus que temos hoje, principalmente o judaico-cristão, é limitado demais para Kauffman. Um Deus que cria o universo e tudo que há nele para nosso benefício é algo muito conveniente para nós. Para o biólogo, nossas vidas teriam muito mais sentido como parte do desenvolvimento de todo o universo. Estaríamos mais propensos a nos maravilharmos, a sermos gratos e a cuidar do que existe à nossa volta. E mais: "Se Deus é a criatividade no universo, não somos feitos à imagem de Deus; nós mesmos somos Deus. Agora podemos assumir responsabilidade por nós mesmos e nosso mundo", comenta Kauffman perto do fim do ensaio. Mas onde está a incompatibilidade entre crer num Deus pessoal, sobrenatural, e assumir essas responsabilidades, ou o senso de que devemos cuidar da criação? O fatalismo não é característica de toda religião – em muitas crenças, somos responsáveis pelo nosso destino, inclusive na vida após a morte. Da mesma forma, há quem argumente que, ao ver o homem como ponto culminante e senhor da criação, algumas religiões dão aval a coisas como a destruição do meio ambiente. Já adianto que, pelo menos no Cristianismo, não é assim que a banda toca, pois diz o Gênesis que Deus colocou o homem no jardim para que cuidasse dele. Mas é certo que a discussão não para por aí: inclusive é uma das pautas que pretendo aprofundar ao longo deste ano.
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Para saber mais sobre Stuart Kauffman:
Wikipedia
Entrevista a Steve Paulson, do Salon.com
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Agora que a série acabou, seguem os links para os comentários a todos os ensaios anteriores:
Parte 1: Steven Pinker
Parte 2: cardeal Christoph Schönborn
Parte 3: William Phillips
Parte 4: Pervez Hoodbhoy
Parte 5: Mary Midgley
Parte 6: Robert Sapolsky
Parte 7: Christopher Hitchens
Parte 8: Keith Ward
Parte 9: Victor Stenger
Parte 10: Jerome Groopman
Parte 11: Michael Shermer
Parte 12: Kenneth Miller
Quem foi à exposição do Darwin na Universidade Positivo e prestou atenção ao videozinho que é mostrado perto do fim da mostra vai reconhecer o autor da resposta de hoje à big question da Fundação John Templeton. O ensaio deste biólogo evolucionista é considerado por alguns amigos meus como o melhor da série, e não é difícil entender o motivo.
Kenneth Miller: é claro que não
Arquivo Brown University
Kenneth Miller não poupa críticas a criacionistas e adeptos do Design Inteligente.O centro da tese de Miller é que devemos buscar Deus não por meio daquilo que não sabemos, ou não conseguimos explicar, mas justamente pelo que conhecemos. "Se Deus é real, precisamos encontrá-Lo em algum outro lugar – na luz brilhante do conhecimento humano, espiritual e científico. E que luz!", exclama. Miller diz que, graças à ciência, sabemos que estamos inseridos em um universo borbulhante de potencial criativo. E faz sentido perguntar o porquê de o universo ser assim. "Para a pessoa de fé, Deus é a resposta a essa questão", diz.
Miller dedicará boa parte do seu texto a desmontar as teses de ateus como Richard Dawkins e Daniel Dennett (o biólogo não menciona nomes, mas a quem mais ele poderia se referir ao falar de "brilhantes"?), para quem a religião e Deus não passam de muletas para gente fraca, que não suporta "as terríveis realidades reveladas pela ciência". Uma constatação necessária, diz Miller, é que o cientista também vive de fé. "Fé no fato de que o mundo é inteligível, e que há uma lógica na realidade que a mente humana pode explorar e compreender", descreve o biólogo. E o cientista, além de acreditar nisso, crê também que vale a pena o esforço para compreender essa lógica.
Dito isto, Miller segue para o que eu considero um dos melhores trechos do ensaio, ao explicar o grande erro dos ateus: "assumir que Deus é natural, e assim dentro da esfera do que a ciência pode pesquisar e testar. Ao fazer de Deus uma parte comum do mundo natural, e ao falhar em encontrá-Lo lá, eles concluem que Deus não existe. Mas Deus não é, nem pode ser parte da natureza; ele é a razão de a natureza existir, o motivo pelo qual as coisas são. Ele é a resposta para a existência, e não parte da existência em si."
E Miller continua lembrando que, para quem rejeita Deus, as leis da natureza existem apenas, digamos, "porque sim". O ateu abre mão de se perguntar os motivos da existência de um universo tão organizado, e cai na ingenuidade de achar que a vida é autoexplicativa. Quando comentei os ensaios de Victor Stenger e Michael Shermer, mostrei como certas posições ateístas acabam exigindo mais fé do que as crenças de um deísta. Até mesmo a afirmação de que Deus não existe implica em ter alguma fé (no caso, fé na inexistência de Deus). E, a julgar pelas mensagens dos ônibus londrinos, não parece uma fé tão sólida. Ou a publicidade diria apenas "There is no God", em vez de "There’s probably no God", concordam?
A consequência desse abrir mão é que o teísta se torna uma pessoa mais curiosa que um ateu, "porque ele busca uma explicação que é mais profunda do que aquilo que a ciência pode dar, uma explicação que inclui a ciência, mas vai além ao procurar a razão última pela qual a lógica da ciência funciona tão bem. A hipótese de Deus não vem de uma rejeição à ciência, mas de uma curiosidade penetrante que se pergunta por que a ciência é possível, e por que as leis da natureza estão aí para serem descobertas por nós", diz Miller.
O ponto central da argumentação de Miller está exposto acima, mas ele não para por aí. Para quem aponta as diferentes visões de Deus, de acordo com as diferentes religiões, o biólogo explica que algo semelhante ocorre com a ciência, já que há teorias que se contradizem. Se a ciência, mesmo com erros, desonestidades e fraudes, não deve ser jogada fora, por que fazer isso com a religião, sujeita às mesmas limitações humanas?
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Kenneth Miller tem uma página no site da Brown University, onde leciona, mantém outro site com o colega Joe Levine, com quem escreveu um livro didático para o ensino médio, e ainda tem um site para seu livro Finding Darwin's God.
Tenho de admitir que, quando li a resposta de Victor Stenger à big question da Fundação John Templeton, achei que não podia encontrar mais nada tão, digamos, estranho. Mas eu estava enganado.
Michael Shermer – depende
Shermer é o fundador da Skeptics Society, que eu já mencionei aqui no blog, e é editor da revista Skeptic. Então, vamos ver o que ele quer dizer com esse "depende". Para Shermer, a resposta varia de acordo com a ênfase que se coloca, ou em crença, ou em Deus. A crença, diz ele, não fica obsoleta por causa da ciência: 4 em cada 10 cientistas norte-americanos crêem em Deus, e em 2005 uma pesquisa demonstrou que 68% dos protestantes e 69% dos católicos nos Estados Unidos aceitavam a evolução. Então não será nisso que Shermer gastará seu arsenal.
www.michaelshermer.com
Michael Shermer, fundador da Skeptics Society, diz que não poderíamos diferenciar Deus de um alienígena muito inteligente.O raciocínio de Shermer é o seguinte: devido ao tamanho do universo, e à nossa atual tecnologia, se um dia fizermos contato com algum ET, ele será inevitavelmente mais inteligente que nós, pois terá chegado mais perto de nós do que nós teríamos chegado perto dele. E, considerando os avanços da ciência humana, em 50 anos conseguimos um poder, por exemplo, sobre nossos genes que era inimaginável. Se mostrássemos a um homem de 1950 um rato com uma orelha humana nas costas, ele jamais acreditaria que "fomos nós" que fizemos aquilo. Pois bem: imaginemos um alien que estivesse 50 mil anos à nossa frente em desenvolvimento tecnológico. Que coisas ele não seria capaz de fazer, e que seriam inexplicáveis para nós? E 50 mil anos nem seriam tanta coisa assim. E se o extraterrestre estivesse, sei lá, 1 milhão de anos à nossa frente? Ele não poderia criar estrelas, quem sabe um universo inteiro? "Como chamaríamos uma inteligência capaz de criar um universo, estrelas, planetas, e vida? Se nós conhecêssemos a ciência e a tecnologia envolvidas, chamaríamos de inteligência extraterrestre; se não conhecêssemos, chamaríamos de Deus", conclui. Ou seja, os deuses eram mesmo astronautas...
O problema de Shermer é o mesmo que eu já havia apontado lá no primeiro ensaio, do Steven Pinker: cria-se um Deus ao seu modo para que se possa espancá-lo convenientemente. De fato, as propriedades do Deus judaico-cristão (é inevitável pensar que estejamos falando desse Deus) incluem aquelas citadas pelo editor da Skeptic; mas não se resumem àquilo. Para ser Deus, por exemplo, Ele tem de ser eterno e ser causa primeira de todas as coisas; mas o super-alien de Shermer não é nada disso, como ele mesmo diz: "o único Deus que a ciência poderia descobrir seria um ser natural, uma entidade que existe no espaço e no tempo, e é limitada pelas leis da natureza." A questão é que um ser assim simplesmente não pode ser Deus! Shermer continua, talvez sem perceber o tiro no pé: "um Deus sobrenatural seria tão totalmente um Outro que ciência nenhuma poderia conhecê-Lo." Essa frase faz muito sentido – e talvez por isso mesmo ela derrube todo o resto do ensaio. Ninguém está presumindo que Deus seja "captável em laboratório". Pelo menos não os crentes sensatos. Deus efetivamente é sobrenatural. Então, se tal Deus não pode ser conhecido pela ciência, conseqüentemente também não pode ser negado por ela; assim, a ciência, no fim das contas, não poderia tornar Deus obsoleto. Bem o contrário do que Shermer diz.
Quando os espanhóis desembarcaram no Novo Mundo, os povos pré-colombianos também acharam que aqueles caras que vinham do mar num negócio enorme de madeira eram deuses. Pode ter demorado um pouco, mas os índios descobriram que não era bem assim. Por que seria diferente com o super-alien de Shermer?
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Além da Skeptics Society, Shermer também tem um site oficial.
Antes de entrarmos no assunto desse post, algumas notícias curtinhas:
O debate sobre o criacionismo nas escolas, que eu comentei na segunda-feira, continua rolando solto. Confesso que deixei escapar o texto do Maurício Tuffani publicado domingo no Laudas Críticas (observação: por que nessas horas todo mundo, eu inclusive, recorre ao teto da Sistina?), em que ele comenta os dois artigos do Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, publicados sábado (não dou o link porque são apenas para assinantes). Recomendo vivamente a leitura do Tuffani.
Agora todos vocês podem ler apenas os textos que escrevi sobre as respostas da Templeton. Logo abaixo do cabeçalho do blog você encontra, em "Seções", a pergunta "A ciência torna obsoleta a crença em Deus?". Clique lá e você verá todos os textos publicados até o momento sobre esse assunto.
Ontem foi dia de amigo secreto da redação; a Carol Olinda me deu O mundo assombrado pelos demônios, do Carl Sagan (estava na minha wish list). Além disso, a editora Loyola me mandou Galileu: pelo copernicanismo e pela Igreja. Assim que eu ler cada um deles, contarei minhas impressões no blog.
Mas agora vamos ao que interessa.
Entramos na contagem regressiva para o fim dos comentários às respostas que 13 personalidades deram à pergunta da Fundação John Templeton. Depois dessa, só faltarão três. A próxima resposta é a de um médico judeu, professor de Harvard e autor de vários livros, alguns deles transformados em séries de televisão.
Jerome Groopman: não, de forma alguma
Ao longo de todo o seu ensaio, Groopman gira em torno de uma idéia central, que poderíamos resumir de forma muito irreverente no já famoso "cada um no seu quadrado": religião e ciência cuidam de coisas diferentes, e por isso não é necessário que uma contradiga a outra. Não deixa de ser a teoria dos "magistérios não-sobrepostos" de Stephen Jay Gould.
www.jeromegroopman.com
Jerome Groopman diz que ciência e religião atuam em esferas diferentes.O problema, diz o médico, está nos extremos: o fundamentalismo, substantivo freqüentemente associado apenas à religião, está dos dois lados. Groopman admite que há, sim, pessoas religiosas que querem impor suas práticas religiosas ao mundo. Ele cita os casos dos Estados Unidos e do Oriente Médio, onde os wahabitas pretendem impor a lei islâmica sobre a lei civil. Mas, por outro lado, os fundamentalistas ateus são rápidos em rotular como ingênuas, infantis e neuróticas as pessoas que têm alguma religião. Na raiz disso tudo, aponta Groopman, está o medo da diversidade.
O médico ainda faz um desafio aos ateus. Diz que mesmo um cientista crente, como ele, pode ter dúvidas, mas que essas dúvidas não deixam de ser uma base para a fé, citando um teólogo protestante. Groopman diz que "os ateus deveriam, de vez em quando, questionar sua descrença em Deus, já que ela não é questão de prova, mas de crença subjetiva da parte de cada um". Eu incluiria os agnósticos nesse desafio. Que me desculpem os que se definem assim, mas minha tendência é ver agnósticos como, na prática, ateus. Nunca conheci um agnóstico que, declarando que o homem não é capaz de afirmar com certeza se Deus existe ou não (é o que define o agnóstico, certo?), optasse por viver como se Deus existisse.
Embora essa tese exposta por Groopman seja bastante conciliatória, e satisfaça os que se preocupam com a aparente "guerra" entre ciência e religião, eu particularmente acho que não é suficiente. Para mim, ciência e religião podem e devem interagir e cooperar, e não apenas manter uma espécie de convivência pacífica morando em apartamentos diferentes onde cada um faz o que quiser. Mas ela de fato responde à pergunta, e Groopman finalizará dizendo que "a ciência não ameaça a religião, e a fé não precisa rejeitar a ciência. Nenhuma delas se tornará obsoleta".
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O site oficial de Jerome Groopman tem tudo o que você precisa saber sobre ele. Biografia, informações sobre os livros, programas de televisão, e até um blog, que teve sua última atualização em 2007.
"Lampedusa" me pergunta se parei com as respostas da fundação John Templeton. Agora que eu vi, foram quase dois meses sem comentar nenhum ensaio! Muita coisa ao mesmo tempo... mas vamos até o fim, agora com a nona resposta, de mais um ateu militante.
Victor Stenger: sim
American Atheists / www.americanatheist.org
Stenger acredita que o universo pode ter surgido do nada.Stenger é físico e astrônomo, e é por essa linha que ele vai raciocinar, embora comece o ensaio falando de William Paley e Charles Darwin. Na parte que interessa, Stenger diz que, antes do século XX, acreditava-se que a mera existência de matéria no universo era prova de que havia um criador. Afinal, de onde vinha a matéria? Mas, diz o físico, Einstein mostrou que a matéria podia vir da energia. O que não ajuda muito a causa ateísta, pois de onde veio a energia?
A resposta de Stenger: "Essa questão permaneceu sem resposta por quase um século até que observações precisas com telescópios determinaram que há um balanço exato entre a energia positiva da matéria e a energia negativa da gravidade. Então, não foi necessária energia para produzir o universo. O universo pode ter surgido do nada."
Se você achou que "o universo pode ter surgido do nada" é uma afirmação esquisita, não está sozinho. Agora, convenhamos: se Stenger realmente aposta suas fichas nisso, eu admito que ele é um sujeito que tem mais fé que eu ou que qualquer crente. Afinal, embora não haja evidência laboratorial de que Deus criou o universo (como também não há evidência laboratorial de que o universo surgiu do nada), pelo menos nós temos alguns argumentos filosóficos para defender uma criação. Stenger não tem nem mesmo a filosofia como apoio: é fé em seu estado puro! No capítulo 11 de A Verdade sobre o Cristianismo, Dinesh d'Souza bate em Stenger citando o cético David Hume: "Nunca defendi uma proposição tão absurda quanto a de que qualquer coisa pode surgir sem uma causa", escreveu o filósofo escocês em uma carta.
Reprodução
O livro mais recente de Stenger é God: The Failed Hypothesis.------
Mais sobre Victor Stenger:
Site oficial
Wikipedia
O autor da oitava resposta à Big Question da Fundação John Templeton é o segundo membro do clero a responder, seguindo o cardeal Christoph Schönborn. Mas, desta vez, trata-se de um pastor da Igreja Anglicana.
Keith Ward: não
Keith Ward é pastor da Igreja Anglicana e filósofo.Mas primeiro será preciso definir Deus. Ward vai pelo mínimo, digamos, "aceitável": um ser não-físico, dotado de consciência, inteligência e sabedoria, criador do universo. A mera existência de um ser assim nega todas as ideologias materialistas, e mais: "alguns fatos sobre o universo (no mínimo o fato de ele existir como é hoje) devem ser tais que não possam ser explicados apenas pelas leis causais da Física". O lance é saber se a realidade é mesmo dessa forma.
Para Comte e os positivistas, explica Ward, a ciência tornaria a crença em Deus obsoleta pois ela eliminaria qualquer possibilidade de seres ou causas espirituais. Mas a mecânica quântica, afirma o filósofo, derrubaria Comte, validando a afirmação de Kant, para quem nossos sentidos só revelam a realidade do modo como ela se mostra a nós. "A realidade em si é bem diferente, acessível apenas por meio de descrições matemáticas que são gradativamente removidas da observação ou da imaginação pictórica", diz Ward. A era em que tudo estava confinado em um espaço-tempo parece ter ficado para trás, continua.
Uma sutileza interessante que Ward traz é a seguinte: se Deus é um ser não-físico que atua no universo de maneiras não-físicas, a ciência não conseguirá "detectar Deus" porque seu modo de atuação não é exatamente sujeito a leis (embora Ele seja considerado o autor das leis físicas e químicas), mensurável, previsível ou observável.
E o filósofo acrescenta que muitos que se opõem à idéia de uma criação inteligente (Ward ressalta que isso é diferente de "design inteligente") admite que as leis, circunstâncias e variáveis que levaram ao desenvolvimento do universo e, em especial, do nosso planeta são tão reguladas que parecem ter sido feitas justamente para favorecer o surgimento de vida inteligente. "A hipótese de criação inteligente é boa porque faz a existência de vida inteligente muito mais provável do que se essa vida fosse produto de um processo cego que poderia muito bem ter ocorrido de outra forma", diz, acrescentando logo após que isso é mais filosofia do que ciência propriamente dita – o que, penso eu, não invalida de jeito nenhum o raciocínio.
Ward conclui que não é a ciência que torna a crença em Deus obsoleta, e sim uma interpretação materialista do mundo. A constatação científica moderna de que há uma "beleza matemática" na natureza, diz, sugere uma "inteligência cósmica". E, assim, na verdade a ciência tornaria certo tipo de crença em Deus mais plausível, e não obsoleta.
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Mais sobre Keith Ward
Wikipedia
Perfil no Gresham College
Perfil na Universidade de Oxford
Chegamos à metade das respostas à Big Question da Fundação John Templeton, agora com a personalidade provavelmente mais conhecida dentre os 13 que escreveram ensaios sobre o tema. Afinal, esse jornalista e crítico literário é um dos mais famosos ateus militantes do momento!
Christopher Hitchens: Não, mas deveria
Christopher Hitchens é autor de "Deus não é Grande"Mas Hitchens acha que o homem nunca teria adotado o monoteísmo se soubéssemos de algumas coisas, como o fato de a galáxia de Andrômeda estar em rota de colisão com a Via Láctea, ou o fato de a espécie humana ter estado à beira da extinção. Meu colega diz que só isso tornaria patética a idéia de que nossa presença no universo é parte de um plano. Para ele, que raio de criação é essa em que o resultado final é absolutamente nada, e em que o ser humano passaria 200 mil anos ralando por conta própria para só haver uma revelação divina uns 3 mil anos atrás?
Esse é um raciocínio que desconsidera de antemão – e o próprio Hitchens afirma isso no ensaio – qualquer resposta que um crente possa dar. Quer dizer, falo dos monoteístas, para quem a história da humanidade é linear, tem começo, meio e fim, e tudo com uma finalidade (conhecemos outras religiões que adotam uma visão mais cíclica da existência). É verdade que, aqui, nós, os que acreditam, ficamos meio que num beco sem saída. Nós sabemos que existe um plano, que ele se cumprirá, mas enquanto estivermos por aqui não entenderemos bem (todos) os porquês. Como diz São Paulo na primeira carta aos Coríntios, só vamos entender a coisa toda "do lado de lá".
Hitchens ressalta que a religião não pode se basear apenas na existência de um Primeiro Motor, e basta. De fato, seria uma religião bem pobre – no primeiro ensaio que comentamos, Steven Pinker dizia que limitar-se a ser a causa final de todas as coisas seria um papel muito abstrato para uma divindade. Hitchens continua: "a fé precisa acreditar em orações atendidas, moralidade divinamente ordenada, garantia celeste para circuncisão, milagres e o que mais você quiser". Depois ele diz que as ciências exatas têm explicado aquilo que costumava ser misterioso, e nos trouxeram hipóteses que são tão boas quanto, ou melhores que as respostas que a religião oferece. Pelo visto, esse raciocínio, o do "Deus das lacunas", é comum aos ateus: também foi usado por Pinker, mas refutado pelo cardeal Schönborn.
Hitchens vai insistir na "religião como explicação do mundo" e dizer que o problema com a religião é ser a primeira e pior tentativa de explicação. "É o jeito que achamos de conseguir respostas antes que houvesse evidência. Pertence à aterrorizada infância da nossa espécie, antes que aprendêssemos sobre germes e pudéssemos explicar terremotos", diz. Mas qualquer um que tenha religião sabe que ela não é só isso. Talvez nem seja principalmente isso.
Provavelmente sabendo disso (que religião não é só explicação do mundo), Hitchens acrescenta que a divindade está na origem do totalitarismo. Não é à toa que o subtítulo do seu livro é "como a religião envenena tudo". Nesse caso é preciso dar a mesma resposta à crítica de Robert Sapolsky: os piores totalitarismos que tivemos na história da humanidade foram... ateus.
O que Hitchens deixa para o final é a explicação da sua resposta. Por que a ciência deveria, mas não consegue tornar a crença em Deus obsoleta? "É por causa disso [das explicações insuficientes, do "totalitarismo"] que se desejaria que a ciência e o humanismo tornassem a fé obsoleta, ainda que constatemos, infelizmente, que enquanto permanecermos como primatas inseguros continuaremos com medo de quebrar a corrente." Quer dizer, não abandonamos a religião porque somos um bando de medrosos. E olha que foi justamente Jesus que disse às pessoas para que não tivessem medo...
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Para saber mais sobre Christopher Hitchens:
O longo verbete em inglês na Wikipedia traz suas opiniões sobre uma infinidade de assuntos, bem como links para outros verbetes sobre algumas de suas obras.
A sexta resposta à Big Question da Fundação John Templeton é outra que pode dar uma enganada no leitor (assim como a de Pervez Hoodbhoy). Seu autor é ateu, nascido em uma família de judeus ortodoxos. Neuroendocrinologista, hoje ele dá aulas na Universidade Stanford, e já virou até nome de música composta por uma banda hardcore britânica.
Robert Sapolsky: não
Divulgação / Stanford University
O neuroendocrinologista Robert Sapolsky.Sapolsky defende que a ciência não é um processo em que se busca a Verdade (com maiúscula), embora ele (felizmente) não seja do grupo pós-moderno que defende a inexistência de verdades objetivas. Elas existem, sim, e volta e meia os cientistas precisam abandonar certas teorias justamente por causa disso. Mas Sapolsky diz que não faz sentido que religião e ciência briguem para "ver quem tem a verdade mais verdadeira". Para ele, a coisa não é por aí.
Uma abordagem mais sensata seria ver quem dá às pessoas mais possibilidade de mudar o desfecho de um processo. E aí, para Sapolsky, a ciência goleia. Diz ele que, diante de uma criança doente, dar antibiótico funciona muito melhor que ficar rezando em volta do pequeno. E funciona mesmo – lembremo-nos da citação que fiz no texto do Hoodbhoy, sobre agir como se tudo dependesse de nós e rezar como se tudo dependesse de Deus. O que Sapolsky não diz, ou não deixa claro, é se as duas atitudes são excludentes. Para um ateu, imagino que sim. Para quem crê, certamente não são.
Outra pergunta que Sapolsky faz: qual dos dois, religião ou ciência, é melhor para a sociedade? "Nesse campo, não há dúvidas sobre qual delas produziu mais dano historicamente (e ainda hoje)". Para bom entendedor... claro, Sapolsky enumera as barbaridades cometidas pela ciência, mas diz que elas são pouco perto do que a religião fez no mundo. "O argumento de que gente como Torquemada são aberrações da religiosidade não faz sentido; eles são a única conseqüência lógica de algumas facetas da religiosidade. Dá para tingir o oceano com o sangue derramado pelas mãos da religião". Ah, seu Sapolsky... se ele quer partir para a comparação, eu deveria lembrá-lo de que o sangue derramado pelas mãos do ateísmo apenas no século XX é que bate de longe o sangue derramado por pretextos religiosos nos últimos 20 séculos, e quiçá até além.
Sapolsky ainda diz que a religião não é útil sequer do ponto de vista do "conforto". Para ele, não adianta nada um conforto causado por uma crença que... causa ansiedade. Ele não diz, mas eu imagino do que ele fala: toda essa coisa "repressiva" do pecado, da culpa, do inferno, não é?
Mas, então, se a coisa é desse jeito, qual a utilidade da religião? Diz Sapolsky que ela não se torna obsoleta porque produz êxtase. Não é um arrebatamento daqueles que a gente vê em Os Irmãos Cara-de-Pau, ou no grupo de oração carismático mais próximo, ou as experiências místicas vividas por uma Santa Catarina de Sena, ou uma Santa Teresa de Ávila (o que me lembra aquela escultura genial do Bernini), e sim um sentimento bom de ajudar, de fazer a coisa certa. Ciência não produz êxtase a não ser em alguns casos raros, segundo o cientista. E, acrescenta, "o mundo não seria um lugar melhor se não houvesse êxtase, mas seria se não houvesse religião". Soa contraditório, pois se a religião é quem providencia o êxtase, se ela fosse suprimida o êxtase iria pelo ralo junto. A não ser que haja outras fontes, fora da religião, que fornecessem o êxtase de que Sapolsky fala (lembremos que não é aquele "ooooohhhh" que uma sonata do Mozart ou um golaço do Pelé poderiam causar). Mas Sapolsky não diz nem se existem essas fontes alternativas, muito menos quais poderiam ser essas fontes.
(Editado em 2 de outubro) De qualquer maneira, eu fiquei com uma pulga atrás da orelha: Sapolsky diz que, por um lado, a religião providencia êxtase. Mas, por outro, causa "dano histórico"* (passado e presente). Parece que, como em Love and Marriage, "you can't have one without the other". Se as pessoas pudessem escolher entre ter ambos (êxtase e "dano histórico") ou não ter nenhum, qual seria a escolha?
* sempre coloco "dano histórico" entre aspas porque, obviamente, discordo da análise de Sapolsky.
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Para saber mais sobre Robert Sapolsky:
Perfil no site da Stanford University
Wikipedia
A única mulher a responder à Big Question da Fundação John Templeton é um exemplo de que nunca é tarde para correr atrás daquilo que se quer: filósofa, ela só publicou seu primeiro livro quando já era quase sexagenária, e comprou briga com ninguém menos que Richard Dawkins, um ícone do ateísmo militante!
Mary Midgley: É claro que não
Mary Midgley lançou seu primeiro livro aos 59 anos.Visão de mundo, para Midgley, é um conjunto de afirmações essenciais que nós nem sempre percebemos conscientemente, mas que usamos o tempo todo para resolver nossos conflitos internos. A crença ou descrença em Deus é uma dessas afirmações que fazem parte da visão de mundo de cada um. Não é uma opinião científica, mas até aí muitas outras afirmações que compõem nossa visão de mundo também não são, e ela dá exemplos: que outras pessoas são seres pensantes, e não robôs; que elas têm pensamentos e sentimentos parecidos com os nossos; que a maior parte do que elas dizem é verdade; que a natureza como um todo continuará se comportando da mesma forma com que tem se comportado até agora. Muito disso envolve fé (não no sentido religioso da palavra). "Nós confiamos no mundo à nossa volta, e em sua relação conosco. Essa crença – essa fé – não é irracional. É, de fato, o fundamento da nossa racionalidade. Se começássemos a duvidar da veracidade ou da consciência alheia, ou da regularidade da natureza, não perderíamos apenas a ciência, mas também a sanidade", argumenta.
E, assim, Midgley chega à sua versão do suposto antagonismo entre ciência e religião: um choque entre visões de mundo, especialmente a baseada no cientificismo, que vem ganhando adeptos no Ocidente. As visões de mundo religiosas podem se diferenciar em vários aspectos, mas se unem ao colocar o ser humano dentro de um contexto maior. O cientificismo busca, diz Midgley, procurar o sentido da vida na própria ciência. "É essa reivindicação do monopólio do significado, mais que alguma doutrina científica em particular, que faz ciência e religião parecerem adversários atualmente", afirma.
A seguir, Midgley faz uma descrição de como a visão de mundo científica foi se alterando com o tempo, inclusive graças a "profetas" como Comte, Marx e Freud, até Karl Popper sacudir a Filosofia da Ciência com suas teorias. Para o mundo físico continuava tudo bem, mas não para a Psicologia, até que o Behaviorismo tentou dar uma resposta, que Midgley rejeita.
Para os behavioristas, diz a filósofa, a Psicologia deve lidar apenas com o comportamento exterior observável, deixando de lado a questão da consciência. O problema, para Midgley, é que isso acabaria com algumas daquelas idéias que ela considera básicas: que os outros, "por dentro", são como nós. A conseqüência seria a confusão generalizada devido à impossibilidade de comunicação entre as pessoas.
Diz Midgley que, embora o behaviorismo tenha perdido espaço a ponto de se poder voltar a falar em consciência hoje, algumas teses continuam populares (e aqui ela aproveita para dar outra alfinetada em Dawkins). Para a filósofa, "continuamos inclinados a achar que qualquer discussão que não seja sobre verdades literais a respeito do mundo físico é anti-científica".
Qual a conclusão de Midgley? Parece ser muito coerente com a comparação feita por ela uma vez, segundo a qual a Filosofia é como o encanamento: você só presta atenção quando algo começa a dar errado – os filósofos percebem as crises e sugerem meios de lidar com elas. Nesse sentido, ela sugere que usemos essa crise em específico (o aparente embate entre ciência e religião) para, se for o caso, refazer nossas visões de mundo para que elas tenham sentido.
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O verbete sobre Mary Midgley na Wikipedia está repleto de links para artigos de sua autoria, perfis publicados na imprensa, um resumo do quebra-pau com Richard Dawkins e resenhas de suas obras.
A quarta resposta à "Big Question" da Fundação John Templeton também vem de um físico, mas quase do outro lado do mundo, do Paquistão:
Pervez Amirali Hoodbhoy: Não necessariamente.
Pervez Hoodbhoy é autor de "Islam and Science: Religious Orthodoxy and the Battle for Rationality"Vejamos: a divindade, para começar, precisa aderir estritamente às leis da natureza. Não pode sair por aí subvertendo tudo, sacudindo ou inundando a Terra só porque alguém (ainda que seja um número considerável de pessoas) pediu. Até aí, parece muito razoável, pois, se acreditamos que Deus criou as leis da natureza, é de se supor que Ele resolva deixá-las responsáveis pelas coisas que acontecem – o que nos remete à resposta do cardeal Schönborn, mais abaixo neste blog. A coisa começa a entortar quando Hoodbhoy afirma que essa divindade não pode sequer realizar prodígios: "conhecedora da Microbiologia e da Fisiologia, não pode curar leprosos mergulhando-os em rios, ou devolver pessoas sem um arranhão depois de serem devoradas por um grande peixe. Viagem a velocidades maiores que a da luz também estão fora de questão, mesmo para profetas ou mensageiros especiais", diz. Dá para ver que Hoodbhoy conhece a Bíblia, ao menos no que se refere aos leprosos e ao profeta Jonas. Mas esse Deus, em vez de ser senhor das leis naturais, está mais para seu escravo.
A divindade do físico, na verdade, em vez de ser a criadora daquelas leis que a ciência tenta desvendar, parece ser uma grande cientista, que apenas conhece melhor essas leis do que qualquer pesquisador humano. E, ainda por cima, esse Deus, além de não poder ser onipotente, também não pode ser onisciente. "Onisciência e ciência não combinam", diz Hoodbhoy. E ele se justifica com a ausência total de previsibilidade da mecânica quântica, aquela que Einstein rejeitou afirmando que "Deus não joga dados". Mas então, se as leis da natureza estão praticamente acima desse Deus, que precisa conhecê-las bem (em vez de governá-las) para fazer seu trabalho – e ainda por cima não pode conhecer tudo – e segui-las estritamente, o que sobra de atributo divino a essa divindade? Não seria melhor começar a adorar as próprias leis da natureza de uma vez e colocar esse Deus de lado?
Hoodbhoy é consciente de que pode haver objeções a essa idéia de um Deus que, como o homem, está preso a regras. "Mas se dispensarmos essa exigência essencial, então sobrará muito pouco. Razão e evidência perderiam o sentido e seriam substituídos por tradição, autoridade e revelação. Seria errado para nós dizer que 2 mais 2 são 5, mas não para Deus. Séculos de progresso humano virariam pó", afirma. Aqui eu acho que se faz necessária uma distinção entre impossível e absurdo. Absurdo é aquilo que, em essência, não pode ser feito (do contrário, não seria absurdo). Deus não pode criar quadrados redondos, ou, para usar um exemplo de um amigo meu, não pode criar uma pedra tão pesada que Ele não possa levantar. Mais um exemplo:
www.laerte.com.br / Reprodução autorizada

A tirinha é engraçada (eu sou fã das tirinhas de Deus do Laerte), mas filosoficamente falando mostra um absurdo. Então: um Deus mais, digamos, "tradicional", faz o impossível (impossível para nós, ressalte-se), mas não o absurdo. Ele não pode fazer 2+2=5, não pode deixar de existir, mas pode curar leprosos. E o fato de não poder fazer absurdos não limita sua onipotência.
Hoodbhoy ainda lembra que, hoje, as pessoas acreditam em Deus, mas tomam antibiótico quando ficam doentes. Que, nas companhias aéreas muçulmanas, se começa um vôo fazendo uma oração, mas ainda assim todo mundo aperta o cinto. "O Deus medieval da religião clássica perdeu reputação e terreno", diz. Bom, mais ou menos. Tomar antibiótico e usar cinto de segurança não significa confiar menos em Deus. O contrário – não se medicar ou não se prevenir achando que Deus vai segurar as pontas em caso de imprevisto – é que seria tentá-Lo. Atribui-se a Santo Inácio de Loyola a frase segundo a qual devemos rezar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós.
O físico conclui dizendo que Nietzsche errou ao dizer que Deus estava morto. E que muitos cientistas conseguiram conciliar fé e ciência (o original na minha versão impressa diz "faith and belief", mas acho que se trata de um erro) "encontrando um Deus adequado, ou vestindo um Deus tradicional de modo apropriado". Tudo bem, mas será que essa divindade "adequada", ou "modificada", continua sendo uma divindade?
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Mais sobre Pervez Hoodbhoy:
Biografia na Wikipedia
Artigos no Chowk.com
Artigos na Prospect Magazine
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