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Enviado por Marcio Antonio Campos, 10/06/2012 às 08:07


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Quando o primeiro parágrafo do primeiro capítulo de um livro traz um samba do crioulo doido como "no ano 325, depois que o imperador Constantino adotou o cristianismo como religião oficial do Estado" (e repete o erro na cronologia final), aparece a tentação de largar por ali mesmo. Ainda mais quando é algo escrito por um historiador – só para deixar claro: quem fez do Cristianismo religião oficial do Império Romano foi Teodósio, só que em 380. Constantino apenas aboliu as perseguições aos cristãos, mas foi em 313. Como é que 325 apareceu na história? Provavelmente por ser o ano do Concílio de Niceia. Mas O Sinal (Paralela, 2012, 477 p.; meu exemplar foi cortesia da editora) é aquele livro sobre o Santo Sudário que apareceu na capa da Veja. Relevei a salada inicial para ver o que o historiador da arte Thomas de Wesselow tinha a dizer.

O livro tem até trailer!, confiram aí:

Vou passar rapidamente pela primeira e segunda partes do livro. No começo, o autor tenta convencer o leitor de que a noção de uma ressurreição física de Cristo já seria algo quase minoritário entre os cristãos (p. 20-22) e dá uma breve pincelada sobre a história do Sudário. Depois, o autor explica como os judeus entendiam a ressurreição (o que, convenhamos, é interessante como panorama histórico, mas se torna praticamente irrelevante caso a ressurreição de Cristo tenha sido um evento totalmente diferente do entendimento da época) e arrisca sua interpretação dos textos de são Paulo sobre o tema. Na esteira do apóstolo, Wesselow considera a ressurreição o fato central para o surgimento do Cristianismo, e nesse sentido nega as teorias de que a Igreja surgiu aos poucos, sem um evento catalisador (p. 21). Mas o historiador diz que essa ressurreição não ocorreu da maneira como estamos acostumados a vê-la. É aí que entra o Sudário.


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Reprodução / Apesar de ter sido submetido a uma série de testes, o Sudário segue um mistério, já que ainda não se sabe o que formou a imagem; a hipótese mais promissora só foi testada em pedaços pequenos de tecido.Apesar de ter sido submetido a uma série de testes, o Sudário segue um mistério, já que ainda não se sabe o que formou a imagem; a hipótese mais promissora só foi testada em pedaços pequenos de tecido.
A Parte III do livro (p. 107-203) é a que nos interessa, do ponto de vista da intersecção entre ciência e fé. Wesselow faz uma extensa recapitulação de todas as pesquisas científicas sobre o Sudário, desde a famosa fotografia de Secondo Pia até as tentativas de replicar o pano. O capítulo 9, por exemplo, é dedicado ao estudo do linho, explicando o que há de tão sensacional em características como a tridimensionalidade da imagem. Algumas páginas são dedicadas à questão das manchas no pano – são sangue mesmo ou algum outro pigmento? Wesselow mostra que as pesquisas indicam a existência de sangue (a controvérsia entre Heller e Adler, de um lado, e McCrone, de outro, é resumida nas páginas 148 a 150). Aliás, na questão das manchas Wesselow dá uma contribuição interessante, como historiador da arte, ao lembrar que não existe absolutamente nada na Idade Média "pintado com sangue" (e nem faria sentido, já que naquela época não havia testes que pudessem "desmascarar" o artista; um pintor medieval que desejasse forjar um Sudário teria usado tinta mesmo, e não sangue). O mesmo capítulo ainda trata das pesquisas sobre o tecido, que, por seu tipo de costura, o colocam como produzido na Antiguidade, e não na Idade Média. E cita um estudo de Ray Rogers, que, analisando as concentrações de vanilina no pano, concluiu que ele jamais poderia ter a idade que o exame de carbono-14 atribuiu ao Sudário – na verdade, é bem mais antigo (p. 126).

O capítulo 10 descreve os padrões das manchas de sangue, comparando-as com o que conhecemos hoje a respeito de instrumentos romanos de tortura e explicando o que cada mancha evidencia sobre a morte do homem do Sudário. Novamente o fato de Wesselow ser um historiador da arte ajuda, pois ele mostra como a iconografia medieval oferece visões bem diferentes da crucifixão em relação ao que se observa no Sudário; não apenas na velha discussão "pregos nas mãos ou nos pulsos", mas até em relação ao fluxo do sangue nos braços de Cristo, oferecendo novos argumentos contra a hipótese de falsificação medieval. Os costumes funerários dos judeus, descritos pelo autor, também ajudam a entender a falta de sangue em algumas regiões do pano. O capítulo seguinte trata da imagem do homem do Sudário. Wesselow conclui que nenhum artista medieval poderia ter feito a imagem, porque esse não era nem de longe o padrão usado na época para representar Cristo. Sobram as teorias de formação da imagem por outros meios; é aqui que Wesselow descreve algumas tentativas recentes de copiar o Sudário e onde elas falham, tanto por omitir características do Sudário quanto por exigir tecnologia ou conhecimento inexistentes na Idade Média (confira uma lista das réplicas recentes e em que elas batem ou não com o Sudário). A partir da imagem, Wesselow faz uma descrição de como estaria disposto o corpo do homem sepultado ao ser coberto pelo pano.

No capítulo 12, Wesselow entra em terreno desconfortável para os céticos. Aparentemente, o Sudário realmente é o pano que envolveu Jesus. Mas ainda falta explicar como a imagem teria se formado. Aqui vemos as teorias mais fantásticas, como as que envolvem radiação. Mas o autor endossa uma hipótese bem mais simples, a da vaporografia, sugerida por um dos primeiros estudiosos do Sudário, Paul Vignon, descartada pelo Sturp e retomada por um dos membros do time, Ray Rogers (p. 167-174). Para Rogers (e Anna Arnoldi, coautora de um artigo científico publicado em 2003), a imagem do pano surgiu graças a uma reação de Maillard entre aminoácidos emanados do cadáver de Cristo e carboidratos presentes no linho. O próprio Rogers, no entanto, ressaltou que seriam necessários mais testes para comprovar a hipótese.

A datação por carbono-14 é o tema de todo o capítulo 13. O autor argumenta que, por mais que céticos usem o exame como "ponto final, e não se fala mais nisso", a prova definitiva de que o Sudário é falso, é preciso andar bem devagar com o andor porque nesse caso o santo definitivamente é de barro, e bem frágil. Wesselow começa dizendo que, sim, datações por carbono-14 podem errar, e dá exemplos bem bizarros (p. 177), como o do mamute do ano 3600 a.C. Além disso, há o constante problema da contaminação. A seguir, o livro narra como ocorreu o exame no Sudário: as negociações, a extração das amostras, todas as quebras do Protocolo de Turim (algumas delas, inclusive, comprometem seriamente a confiabilidade do exame – querem um exemplo? Por meia hora, as amostras não ficaram sob a vista de ninguém além do cardeal Ballestrero, arcebispo de Turim, e de Michael Tite, do Museu Britânico. Não dá pra desconfiar?), e o anúncio dos resultados, que Wesselow rejeita. Para ele, há três possibilidades: contaminação, remendo – a tese da "tecelagem francesa" de Sue Benford e Joe Marino (p. 184-185), que comentei quando saiu o livro – ou fraude. O fato é que a data apontada pelo carbono-14 não bate com nenhuma das outras evidências, científicas ou históricas, sobre o Sudário. Wesselow diz que isso acontece com alguma frequência e, nesses casos, adivinhem?, quem costuma rodar é o carbono-14.

O capítulo final da Parte III é uma recapitulação das evidências históricas (e não mais laboratoriais) da existência do Sudário antes de seu aparecimento na França, no século 14. O autor adere à hipótese de Ian Wilson de que o Sudário é o Mandylion de Edessa, pano que mostrava o rosto de Cristo e era venerado nessa cidade da Ásia Menor até ser levado a Constantinopla, do qual teria saído durante o saque da Quarta Cruzada, em 1204, quando foi parar na França. Aqui, Wesselow invoca, em favor do Sudário, uma imagem do Códice Pray (1192-1195) em que o desenho do pano que envolve Cristo é absurdamente fiel ao Sudário – inclusive com os conjuntos de furinhos de atiçador que danificaram o Sudário real. Ao lado de outras características do desenho (como furos dos pregos nos pulsos e mãos sem polegares), o desenho é uma prova poderosa da existência do Sudário antes das datas apontadas pelo carbono-14. Claro, quem aceita apenas provas obtidas em laboratório pode torcer o nariz, mas qual é a chance de que um desenho do século 12 descrevesse um objeto saído apenas da imaginação do artista, quando toda a arte medieval apontava para outra direção? Aliás, Wesselow aproveita a ocasião para mostrar por que a alegação do bispo Pierre d'Arcis (aquele que disse que seu antecessor tinha conhecido o "autor do Sudário") não merece confiança.


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Reprodução / Duas imagens do Códice Pray são uma evidência forte de que o Sudário era conhecido desde o século 12, ou seja, antes das datas estabelecidas pelo exame de carbono-14 para a confecção do pano.Duas imagens do Códice Pray são uma evidência forte de que o Sudário era conhecido desde o século 12, ou seja, antes das datas estabelecidas pelo exame de carbono-14 para a confecção do pano.

Até aí, vai tudo bem. Os problemas começam depois que Wesselow admite que o Sudário é não apenas uma mortalha que cobriu um judeu morto no século 1.º, mas o pano fúnebre do próprio Jesus Cristo. Como entender, então, a ressurreição? Agnóstico, Wesselow descarta de imediato a hipótese de que Jesus tenha fisicamente ressurgido dos mortos (porque vai contra suas convicções mais profundas, como admite na página 208); mas a alternativa que ele apresenta, convenhamos, é de lascar, e parte do princípio de que o destino do corpo morto de Cristo é irrelevante (p. 237).

Vejamos o que aconteceu na manhã da Páscoa, segundo Wesselow (p. 261): as mulheres foram à tumba, rolaram a pedra e encontraram tudo do jeito como haviam deixado na Sexta-Feira Santa – inclusive o corpo morto de Jesus. Para ungir o corpo (coisa que não tiveram tempo de fazer logo após a morte na cruz), tiraram a parte de cima do Sudário e viram, no pano, a imagem do Cristo de frente. Largaram tudo lá e foram procurar os apóstolos, que aí, sim, teriam recolhido e levado o Sudário (e deixado Jesus lá no sepulcro). E a coisa só piora. Na visão de Wesselow, apesar de os seguidores de Jesus o terem visto ressuscitar pelo menos três pessoas (trazendo-as fisicamente da morte para a vida), eles não se incomodam em largar o corpo do seu mestre apodrecendo na tumba enquanto, no melhor estilo animista, veem e festejam o pano como o próprio Jesus Ressuscitado – Wesselow se limita a dizer que o caso de Jesus é "diferente" da ressurreição de Lázaro, por exemplo, mas sua argumentação é pouco convincente (só para deixar claro: sim, é diferente dos casos de Lázaro, do jovem de Naim e da filha de Jairo, mas não como Wesselow defende; uma explicação simples, mas direta do que consiste o "corpo glorificado" de Cristo está no Catecismo da Igreja Católica; confiram os pontos 640 a 646, especialmente o 645).

O autor passa a analisar os relatos do Novo Testamento segundo esse paradigma. Os dois anjos que aparecem em alguns textos anunciando a ressurreição às mulheres? São os dois lados (frente e verso) do Sudário. As ocasiões em que os apóstolos interagem com Jesus (nem todas, como veremos)? São, na verdade, encontros com o pano sagrado. A conversão de são Paulo? Foi motivada por uma visão do Sudário em Damasco (Wesselow diz que o pano era irresistível o suficiente para transformar um perseguidor feroz de cristãos em apóstolo, mas pelo jeito não foi assim tão avassalador para o próprio autor, que viu o pano em Turim, mas segue agnóstico). A "aparição a 500 pessoas" descrita por são Paulo? Uma exibição pública do Sudário no Templo, em Jerusalém. A regra não declarada de Wesselow é: o relato X pode ser torcido o suficiente para encaixar na sua teoria? Então tudo bem. O relato Y não se encaixa? Então é descartado sem cerimônia, como ficção acrescentada posteriormente nos textos sagrados, afirma. A tumba vazia, os episódios dos discípulos de Emaús, de Jesus comendo peixe, da ascensão na montanha, de Paulo caindo do cavalo na estrada, nada disso ocorreu, diz o historiador. Com seu critério, Wesselow introduz uma esquizofrenia séria nos Evangelhos: literalmente ao lado de versículos historicamente precisos (os que se encaixam na sua teoria) há invenções bizarras (os episódios não explicáveis pela tese do Sudário como o próprio ressuscitado).


Reprodução autorizada / www.thebricktestament.com

Reprodução autorizada / www.thebricktestament.com / Nada de anjos rolando pedras ou anunciando a Ressurreição, diz Wesselow; a realidade é feita de pano.Nada de anjos rolando pedras ou anunciando a Ressurreição, diz Wesselow; a realidade é feita de pano.

Como dizem no Facebook, "véi na boa", é preciso ter mais fé para acreditar que as coisas ocorreram como Wesselow as descreve do que para crer numa ressurreição física de Cristo.

Logo de cara há duas dificuldades básicas com essa "abordagem Bombril" do Sudário. A primeira é científica. O sangue coagulado, como sabemos, gruda no pano. Se as mulheres tivessem removido o Sudário com o corpo de Jesus ainda dentro dele, o "desgrudamento" alteraria o tecido. "[Os cientistas] reconhecem também inequivocamente uma das maiores maravilhas do Sudário: o cadáver, descolando-se dele, deixou-o intacto, sem a mínima alteração de suas fibras, sem arrancá-las nem modificar os traços de sangue entre o corpo e o tecido. O que é impossível acontecer com um corpo comum, sujeito às leis comuns da natureza. Um cadáver coberto de chagas não poderia jamais ser retirado do pano que o continha sem alterar o pano e os sinais nele deixados pelo sangue e pelas feridas", afirmou Arnaud-Aaron Upinsky (que escreveu sobre o tema, mas não era membro do Sturp). Wesselow não menciona este detalhe no capítulo sobre o sangue no Sudário.

O segundo problema é histórico. Se era tão claro para os primeiros cristãos que o Jesus Ressuscitado era o Sudário, e não um ser físico, como os "segundos cristãos" passaram tão rapidamente a crer na ressurreição física de Cristo a ponto de ela aparecer até nos Evangelhos, com os relatos que Wesselow considera ficção pura? O historiador arrisca algumas respostas, que passam pela frequência menor da exposição do Sudário a partir de sua transferência para Edessa e pela repressão à Igreja em Jerusalém (p. 355). Mas uma mudança tão drástica, e em tão pouco tempo, sobre um tema fundamental para a fé cristã é improvável. A eventual destruição da Igreja em Jerusalém não explica nada. Pedro e Paulo, por exemplo, que saberiam que o ressuscitado era o Sudário, rodaram a Ásia Menor e chegaram até Roma, portanto uma suposta noção de que não havia um Jesus físico ressurgido dos mortos não estava confinada à Palestina. Wesselow ainda diz que o entendimento "físico" da ressurreição se tornou majoritário à medida que o Cristianismo se espalhava, mas para essa versão figurar nos Evangelhos isso teria ocorrido ainda durante a vida dos líderes originais da Igreja. Difícil imaginar que eles não condenariam uma tal deturpação dos fatos que eles mesmos presenciaram.

(Aliás, falando em Evangelhos, o livro todo é permeado por uma verdadeira salada sobre as identidades dos autores dos livros do Novo Testamento, quem escreveu o quê, e quando. Se o leitor quiser informações bem mais embasadas, recomendo a edição do Novo Testamento preparada pela Universidade de Navarra; existe uma versão publicada em Portugal.)

Nem todas as alegações de Wesselow são tão fantasiosas. Considero bem provável que, ao encontrar a tumba vazia, os apóstolos tenham recolhido o Sudário e feito dele um objeto de veneração. A ideia de que Saulo de Tarso tenha sido enviado a Damasco com o objetivo de destruir o Sudário (p. 328-329), embora nova para mim, também é plausível. Mas, no geral, O Sinal parece uma tentativa de desacreditar a ressurreição de Cristo, só que da maneira mais inusitada que já vi – com uma defesa sólida da autenticidade do Santo Sudário. É significativo que o último parágrafo do livro cite o teólogo protestante Rudolf Bultmann, um dos mais conhecidos entre os que negam a ressurreição. No fim, as cerca de 100 páginas da Parte III realmente valem a pena. Mas o resto? Só para quem curte ficção.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 22/02/2012 às 15:38


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O naturalista britânico Thomas Henry Huxley se descreveu uma vez como "o buldogue de Darwin", por sua atuação em defesa da teoria da evolução e de seu formulador. Ele também foi o responsável por cunhar o termo "agnóstico" para designar aqueles que dizem não haver elementos para afirmar ou negar de forma irrefutável a existência de Deus (esse modo de pensar, obviamente, é bem mais antigo; o crédito de Huxley foi ter criado a palavra). Especialmente conhecido por seu debate com o anglicano Samuel Wilberforce em 1860, Huxley escreveu sobre ciência e religião e três de seus textos foram publicados pela Editora Unesp sob o título Escritos sobre ciência e religião (R$ 25). É um livro curtinho, para ler em um dia. Um fio que liga os três textos apresentados é a defesa das ciências naturais, com a qual ninguém pode deixar de concordar. Mas não posso considerar válidas todas as suas conclusões, como a apologia ao cientificismo e a ideia de que a ciência é inimiga do sobrenatural.

Depois de uma breve introdução sobre a vida e as ideias de Huxley, o livro começa com Sobre a conveniência de se aperfeiçoar o conhecimento natural, uma conferência apresentada em 1866. O ano marcava o bicentenário de um grande incêndio que devastou Londres; um ano antes do fogo, a peste havia aterrorizado os londrinos. Huxley compara as atitudes das pessoas diante das duas tragédias: resignação diante da doença, vista como um castigo divino; e revolta com o incêndio, com a procura incessante por culpados. Nos dois séculos seguintes, nenhuma das duas calamidades se repetiu, mas não porque os londrinos estivessem rezando mais ou porque os grupos subversivos tinham sido derrotados, e sim graças ao avanço das ciências, personificado na Royal Society, fundada algumas décadas antes dos dois desastres.

Então, o que faz o mundo avançar é o desenvolvimento da ciência, e não as inutilidades dos escolásticos, diz Huxley; ele critica os detratores da ciência, que, segundo o autor, a veem não como a "verdadeira mãe da humanidade", mas como uma fada-madrinha cuja única tarefa é propiciar confortos e avanços supérfluos. Para Huxley, o conhecimento natural, ao procurar erigir as leis do bem-estar, foi levado à descoberta de leis de conduta e a estabelecer os fundamentos de uma nova moralidade (p. 44).


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Reprodução / Huxley foi o criador do termo Huxley foi o criador do termo "agnóstico", para designar quem diz não ser possível provar a existência ou a não existência de Deus.
A seguir, o autor diz que os rudimentos das ciências foram lançados assim que o homem passou a usar sua inteligência para perceber algumas coisas básicas. Da consciência de sua limitação, surgiu o sentimento religioso, afirma Huxley. A busca por inovações tecnológicas (descobrir a melhor época para plantar, ou como trazer água de um lugar para outro) impulsionou o conhecimento científico; astrônomos e biólogos mostraram o lugar da Terra e do homem dentro do universo. A religião também passou por mudanças: se a religião do presente difere da do passado, isso se deve ao fato de que a teologia do presente tornou-se mais científica que a do passado, diz Huxley. Quanto à "nova moralidade", o autor afirma que ela se baseia na rejeição da submissão à autoridade, na "justificação pela verificação". Huxley prevê que, à medida que essas ideias se espalharem, a humanidade descobrirá que não há senão um tipo de conhecimento e não mais que um método para adquiri-lo. Estamos diante de uma defesa pura e simples do cientificismo, e aí me vejo obrigado a lembrar a aula que tive com Ian Hutchinson em Cambridge, em julho do ano passado, quando ouvi dele uma refutação ao cientificismo. Também é impossível não lembrar do debate entre Lennox e Dawkins e a famosa pergunta sobre o "comprovação científica" do amor da esposa.


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Divulgação / No filme No filme "Criação", que conta episódios da vida de Darwin, Thomas Huxley foi interpretado por Toby Jones.

O natural e o sobrenatural é o mais longo dos textos do livro e foi extraído da obra Questões controversas, de 1892. Huxley começa dizendo que o homem assumiu assumiu como certa a existência de um mundo "natural", sujeito a leis, e um "sobrenatural", independente dessas leis, com entidades superiores e poderosas; e que, se alguma dessas esferas precisa ser negligenciada por algum motivo, seria a da natureza. Mas esse comportamento, diz Huxley, não compensa, porque o homem sempre lucrou ao dar atenção à natureza, especialmente com o desenvolvimento das artes e das ciências; enquanto isso, a atenção ao sobrenatural levou a um sem número de religiões. Para o autor, existe uma competição entre essas duas realidades, e quanto mais voltamos no tempo, mais percebemos uma preponderância do sobrenatural, que vem minguando e dando espaço ao natural. Se isso indica progresso ou decadência da humanidade, Huxley se abstém de dizer; mas faz questão de mostrar que a diferença existe. A "questão controversa" de seu tempo, afirma, é até onde vai esse processo. O que me parece é que Huxley simplesmente associa "religião" a superstição; concordo plenamente que o avanço da ciência reduz a superstição (essa foi uma das primeiras coisas que apareceram no blog); mas a religião em si não participa de um jogo de soma zero com a ciência, em que um precisa se retrair para que o outro avance.


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Reprodução / O apelido O apelido "buldogue de Darwin" foi criado pelo próprio Huxley.
A seguir, Huxley gasta algumas páginas em uma crítica especial ao protestantismo, que, na sua opinião, se propunha a "libertar a razão", mas não fez mais que substituir os mestres. O autor também aponta as contradições do princípio da Sola Scriptura, afirmando que ele não tem mais sustentação que o da infalibilidade papal (definida pelo Concílio Vaticano I duas décadas antes do texto de Huxley), e contrapõe as atitudes dos primeiros reformadores à de Erasmo de Rotterdam, que o autor considera um "Voltaire ecumênico". Huxley segue descrevendo uma "insurreição cética" na primeira metade do século 17 e uma reação sobrenaturalista, caracterizada principalmente por uma adesão irrestrita a uma interpretação totalmente literal da Bíblia; Huxley cita não apenas os sermões que ouvia na infância como também uma declaração assinada por 38 clérigos anglicanos em 1891, defendendo a literalidade completa; ele diz acreditar que o documento seja, em parte, uma reação a um avanço do naturalismo dentro do próprio clero anglicano, que já não creem em uma criação em seis dias de 24 horas ou em um dilúvio universal.

Huxley critica, e acertadamente na minha opinião, a associação entre aceitação do sentido literal de toda a Bíblia e fé no sobrenatural, como se a segunda exigisse a primeira; cita santo Agostinho, que tinha sua própria interpretação da criação (e isso é um dos fatores que abala o argumento de "apelo à Antiguidade" dos 38 clérigos anglicanos). Mas Huxley também afirma que "as forças remanescentes de sobrenaturalismo" (todas elas, literalistas ou não) enfrentam "um inimigo cujos poderes apenas começam a se manifestar e cujas forças, ganhando alento ano a ano, cercam-nas por todos os lados": a ciência, que estaria estendendo seu método às alegações relativas ao mundo sobrenatural. No entanto, Huxley não faz muito mais que alegar que a ciência comprova a impossibilidade de um dilúvio universal e mostra que o processo de surgimento do mundo levou muito mais que seis dias de 24 horas; ora, com isso muitas pessoas religiosas (a maioria, diria eu) concordam, e Huxley parece ver nisso mera manipulação de "reconciliadores modernos". É verdade que existe o argumento segundo o qual se as afirmações x e y das Escrituras são incorretas, por que as demais não seriam? Argumento que obviamente ignora toda a análise literária dos gêneros usados na Bíblia.

"A fraseologia do sobrenaturalismo pode continuar nos lábios dos homens, mas na prática eles são naturalistas", alega Huxley, citando exemplos, uns mais esdrúxulos que outros, como se o conhecimento científico atual excluísse totalmente o recurso à oração. Mas ele atesta pelo menos uma limitação da ciência em relação ao sobrenatural: ela não leva à negação da existência de qualquer sobrenatureza, mas simplesmente à negação da validade de evidência aduzida em favor desta ou daquela forma existente de sobrenaturalismo. A ciência não tem como comprovar a inexistência da divindade, e por isso Huxley defende a "confissão agnóstica" como a única posição possível para pessoas que se recusam a dizer que sabem aquilo que estão bem cientes de que não sabem. É certamente uma posição bem diferente do ateísmo que afirma explicitamente e categoricamente não haver Deus.

O terceiro texto, Ciência e cultura, é o que menos tem a ver com o nosso tema: um discurso proferido em 1880, na inauguração de uma faculdade que hoje é parte da Universidade de Birmingham. Huxley faz a defesa do ensino das ciências no ambiente universitário, contra aqueles para quem o ensino superior deveria se dedicar exclusivamente a uma formação clássica (quando muito, incluindo a literatura moderna). Huxley não chega a dizer que os estudos clássicos ou a literatura em inglês, francês ou alemão sejam inúteis, mas que a importância dada a eles, na comparação com a prioridade dada às ciências, é exagerada.

Neste discurso, a religião só entra em cena quando Huxley faz um histórico da educação. Referindo-se ao que parece ser a Alta Idade Média, afirma que nossos ancestrais aprendiam que toda a existência material não seria senão uma grosseira e insignificante mancha na bela face do mundo espiritual, e que a natureza era, para todos os propósitos e para todas as intenções, local de recreio do demônio; aprendiam que a Terra era o centro do universo visível e o homem, o cerne das coisas terrestres; e mais especialmente inculcado era que o curso da natureza não tinha ordem fixa, mas que poderia ser, e constantemente foi, alterado pela agência de inumeráveis seres espirituais, bons e maus, conforme acionados pelos feitos e pelas preces dos homens. (p. 127) Nada mais falso. Algumas frases se aplicam, no máximo, a maniqueus e cátaros; de resto, como lembra Thomas Woods em sua série de vídeos, devemos especialmente ao Cristianismo a noção de um universo ordenado, com leis que podem ser conhecidas e descritas pelo homem. O trecho citado inclusive parece contradizer o que o próprio Huxley disse no discurso de 1866: Duvido que o mais grosseiro dos adoradores de fetiches tenha jamais imaginado que uma pedra contivesse um deus que a fizesse cair, ou que uma fruta contivesse um deus que a levasse a ter um sabor doce. Em relação a questões como essas, não se pode questionar que a humanidade, desde o início, assumiu posições estritamente positivas e científicas (p. 47). O Cristianismo não suprimiu essa percepção; ele a reforçou. Uma pena que, para exaltar a ciência, Huxley tenha resolvido pintar um quadro distorcido dos demais tipos de conhecimento.

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Hoje os cristãos começam a Quaresma, tempo de penitência. Os católicos entre 14 e 59 anos estão, inclusive, obrigados ao jejum nesta quarta-feira: podem fazer uma refeição completa, normalmente o almoço; as outras duas refeições devem ser frugais: somadas, não podem dar uma refeição completa (alguns fazem jejuns mais rigorosos, mas não é a obrigação). Hoje também se faz abstinência de carne. Parece que cientistas descobriram que o sacrifício no estômago é compensado no cérebro.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 30/12/2011 às 13:43

Não conheço muito da história do bem-aventurado cardeal Newman, fora o fato de ele ter sido clérigo anglicano antes de se converter e entrar na Igreja Católica. Mas, enquanto estava no México, achei na livraria da Universidade Panamericana um pequeno volume, Cristianismo y Ciencias en la universidad, de sua autoria (Eunsa, 2011, 113 páginas). É um livrinho curto, que o leitor pode matar tranquilamente em uma tarde (é bem menor que o The God particle, que eu tinha planejado ler no recesso de Natal, mas não consegui), e que reúne três conferências direcionadas a estudantes da Universidade Católica da Irlanda, que Newman ajudou a fundar e da qual foi reitor por alguns anos. Até por isso, pressupõe-se que sua audiência seja formada apenas por católicos, o que ajuda a matizar algumas das declarações do então padre Newman.


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Reprodução / O cardeal Newman, retratado por Sir John Everett Millais: paixão pelo ambiente universitário.O cardeal Newman, retratado por Sir John Everett Millais: paixão pelo ambiente universitário.


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A primeira conferência, "Cristianismo e ciência médica", é de 4 de novembro de 1858 e direcionada aos estudantes de Medicina da universidade. Uma das primeiras coisas que o reitor diz aos alunos é que a saúde do corpo, da qual se ocupa o médico, não é o fim último da existência. Newman cita o exemplo hipotético de uma religiosa que cuida de doentes durante uma epidemia. Os médicos a avisam que, se permanecer no local, acabará doente também ela e morrerá, mas a religiosa insiste (é a mesma situação pela qual passaria são Damião de Molokai). Não é que os médicos estivessem errados, diz Newman; é que a verdade a respeito da saúde da religiosa está, de certo modo, subordinada à sua missão.

Newman também pede aos estudantes que não caiam em duas tentações: uma é a de se concentrar apenas em sua profissão e descartar outros tipos de conhecimento; é preciso ver além da Medicina, ver o homem como mais que um aglomerado de funções fisiológicas em nada diferentes das que realizam os demais animais. A outra tentação é a de ceder ao materialismo, já que, enquanto as descobertas científicas são feitas de evidências, a moral e a religião, em comparação, se assemelham a "sombras e contornos". "Que lânguida é a iluminação que [a consciência] projeta e que fraca sua influência comparada com a convicção que trazem a vista e o tato, que são o fundamento da ciência física", afirma Newman. Ao convidar os estudantes a recusar o materialismo, o reitor ainda afirma que o médico católico é uma ponte entre ciência e fé.

A segunda conferência, "Cristianismo e pesquisa científica", foi escrita em novembro de 1855, mas nunca chegou a ser lida. Dirigia-se aos estudantes da Faculdade de Ciências, e logo no início Newman se propõe a criticar "o desnecessário antagonismo que às vezes existe entre os teólogos e os cultivadores das ciências em geral". Um tema recorrente ao longo do livro é o próprio conceito de universidade, não como um amontoado de faculdades isoladas, mas como o local por excelência onde se adquire um conhecimento "universal", amplo, sem que cada profissional fique "bitolado" em sua área de atuação. Infelizmente isso vem se perdendo hoje. Como diz o professor Carlos Ramalhete, colunista da Gazeta, hoje o advogado já não entende o que diz o engenheiro, que por sua vez é incapaz de compreender o médico, e por aí vai. Não estamos falando do jargão próprio de cada profissão, mas do próprio modo de pensar, dos pressupostos de cada área. O que Newman defende é o papel da Filosofia como eixo comum entre os diferentes conhecimentos.

Segundo o reitor, o cientista cristão não deve se alarmar ao perceber que há "diferenças de tom" (e não "uma dificuldade inexplicável, uma contradição assombrosa, muito menos uma contradição em relação a fatos reais") entre a Revelação e a Natureza. O que parece contraditório na verdade não o é, diz Newman, para quem as coisas que parecem estranhas à imaginação não o são à razão. "O que crê na Revelação com a fé absoluta que é patrimôno do católico não é uma criatura nervosa que se assusta com qualquer barulho repentino e que se sente tomada pelo pânico ante qualquer situação estranha o inédita que se lhe apresente. Não tem temor algum (a própria ideia lhe faz rir) de que por qualquer outro método científico se possa descobrir algo que contradiga qualquer dos dogmas da religião", afirma Newman. Ele segue falando sobre a "segurança inamovível de que se há algo que parece ser provado por um astrônomo, um geólogo, um cronólogo, um historiador ou um etnólogo contra os dogmas da fé, ao fim isso resultará: ou não ter sido realmente provado; ou não ser contraditório; ou não ser contraditório com nada que tenha sido verdadeiramente revelado, e sim com algo que foi confundido com a Revelação". O reitor cita dois exemplos: o do heliocentrismo e o da aceitação da filosofia de Aristóteles.

Por fim, Newman faz uma defesa ardorosa da liberdade de pesquisa, e afirma que os dogmas católicos não são obstáculos a essa liberdade, assim como as leis físicas não são obstáculos ao movimento do corpo. Também critica os teólogos que, "com uma impaciência nervosa com a possibilidade de as Escrituras não se encaixarem com a última especulação da moda, se empenham em publicar comentários geológicos ou etnológicos que logo precisam ser alterados ou até mesmo retirados antes da publicação devido aos avanços da ciência, essa mesma que tão temerariamente utilizam para auxiliar as Escrituras". E adverte (ao mesmo tempo tranquilizando) os teólogos de que, ainda que a ciência cometa erros, eles são temporários e benéficos, à medida que, "no fim das contas, o único efeito do erro é promover a verdade". Confiar na soberania da verdade ajuda a não se inquietar com novidades científicas.

O texto que encerra o livro é "Cristianismo e Física", conferência lida em 17 de dezembro de 1855. Nela, Newman diz querer demonstrar que não há antagonismo entre Física e Teologia e explicar por que, apesar disso, tantas pessoas acreditam nessa incompatibilidade. Mas, antes disso, ele alerta a audiência para não cair nos extremos de rejeitar a ciência em nome de uma certa "pureza de fé", nem de desprezar a religião em nome dos "avanços da ciência" (um aviso que segue atual, acrescento).

Newman passa a explicar as diferenças entre Física e Teologia de uma maneira que faz pensar nos Magistérios Não Interferentes de Stephen Jay Gould. A Física, diz o reitor, é a "Filosofia da matéria", lida com os fenômenos, as leis da natureza. Mas o espiritual escapa completamente ao escopo da Física. Um físico que também tem fé religiosa manifesta uma opinião pessoal, não "de cientista", porque a Física "não diz absolutamente nada" sobre as realidades sobrenaturais. O físico lida com fatos e leis; o teólogo, com razões e com o Autor das leis. É verdade, diz Newman, que as Escrituras também fazem afirmações sobre o mundo físico; mas a Igreja sempre se absteve de dar uma interpretação definitiva para essas passagens bíblicas, que admitem tantas interpretações que seria impossível uma descoberta física contradizer todas elas. Assim, a Teologia não tem nada a temer em relação à Física, argumenta o reitor.

Assim, os desentendimentos entre Física e Teologia ocorrem não por causa dos campos de estudo, mas devido ao fato de que uns resolveram impor seu método aos outros. A Física, diz Newman, é empírica e indutiva, vai ordenando e analisando uma massa de informações que se oferece ao cientista, para chegar a novas verdades; a Teologia é dedutiva, trabalha com a Revelação. Na descrição do reitor, "desde a época dos Apóstolos até o fim do mundo não se pode agregar nenhuma verdade estritamente nova à informação teológica que foi inspirada aos Apóstolos para que a guardassem. Naturalmente, é possível fazer inúmeras deduções partindo da doutrina original. Mas, como as conclusões já estavam nas premissas, tais deduções não são, para falar com propriedade, adições."

A seguir, Newman dá exemplos de intromissões. O primeiro deles ocorre quando religiosos, baseados em suas interpretações da Bíblia, tentam fazer afirmações taxativas sobre como o mundo é, como foi ou como deverá ser. O reitor cita profecias milenaristas e a controvérsia do heliocentrismo para ilustrar esse tipo de situação. Depois disso, o reitor passa a criticar as tentativas de aplicar o método indutivo à Escritura, à história eclesiástica e ao mundo natural para tirar daí conclusões teológicas. Newman ataca de forma especial a chamada "Teologia Natural", que não por coincidência é o nome do livro de William Paley que introduz a metáfora do relojoeiro. Quatro anos antes de Darwin publicar A origem das espécies, Newman argumenta que "colocar o peso da prova principal [da existência de Deus] exclusivamente no argumento de um Desenho que o universo proporciona" é muito cômodo. O sacerdote reconhece que a Teologia Natural (ou Teologia Física, como a chama Newman) tem lá seus méritos, mas aponta que Paley não trouxe nada de novo. "O raciocínio com que Sócrates, diante de Xenofonte, rebateu o pequeno ateu Aristodemo é exatamente o mesmo raciocínio da Teologia Natural de Paley", diz, citando Thomas Macauley.

Newman vai além: levada às últimas consequências, a Teologia Física ajudaria a combater o Cristianismo. O reitor a chama de uma "verdade falsa", já que é meia verdade. Ela considera apenas três atributos divinos, o Poder, a Bondade e a Sabedoria, colocando peso demais no Poder e peso de menos na Bondade. Fora isso, não diz absolutamente nada sobre o Cristianismo, os demais atributos divinos, a consciência ou a Providência divina; ao colocar ênfase excessiva nas leis da natureza, desconsidera a sua suspensão (o milagre, que é "a própria essência da ideia de uma Revelação"). "O Deus da Teologia Física pode, com muita facilidade, chegar a ser um mero ídolo", afirma Newman. Ao tirar de Deus a possibilidade de suspender as leis que Ele mesmo criou, a Teologia Física diminui Deus, conclui o sacerdote.

Feliz 2012!
Como este é o último post do ano, quero desejar aos leitores do blog um feliz 2012! Aos mais apreensivos com o que o ano reserva, uma pequena historinha: ao visitar a loja do Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México (aliás, o museu é parada obrigatória para quem for à capital mexicana), vi que as agendas de 2012 vendidas lá iam até 31 de dezembro. Então, se os próprios mexicanos não estão botando fé no fim do mundo, não seremos nós que vamos nos preocupar...

Premiado!
No dia 17 o Tubo de Ensaio recebeu, pela segunda vez seguida, o prêmio Top Blog como melhor blog profissional de religião do ano, pelo voto dos internautas. Gostaria de agradecer a todos os que votaram no blog e fizeram propaganda!

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 29/12/2010 às 12:50

De volta do recesso de Natal (já estou liberando os comentários mais recentes), queria publicar aqui uma resenha que escrevi para a edição 5 da revista Dicta&Contradicta. Como já foi lançada a edição 6, o conteúdo completo da revista anterior se torna público (embora ainda não tenha saído no site da revista), e com isso posso dividir o meu texto com aqueles que já não tiveram a oportunidade de lê-lo na Dicta 5.

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No meio da década de 90, Carl Sagan lamentava, nos capítulos finais de O mundo assombrado pelos demônios, que o incentivo à ciência nos Estados Unidos estava em queda livre: o destaque nos os veículos de comunicação era pífio, e a falta de estímulo nas escolas era generalizada, com direito à ridicularização daqueles estudantes que demonstrassem um pouco mais de interesse no assunto (fico imaginando o que Sagan pensaria se conhecesse a realidade brasileira). O astrônomo antecipava que, naquele ritmo, os Estados Unidos deixariam de estar na vanguarda científica em algumas décadas. Quase 15 anos depois, Chris Mooney e Sheril Kirshenbaum se propõem a continuar onde Sagan havia parado. Em Unscientific America, eles mostram que a situação descrita pelo falecido autor de Cosmos não mudou, mas oferecem sua versão para as causas e possíveis soluções.

A proposta da dupla é simples: enquanto todos ainda se espantam com pesquisas segundo as quais apenas uma pequena parcela da população sabe conceitos básicos de Física ou Química, poucos percebem que o maior problema é a falta de conexão entre a ciência e o resto da sociedade. Obviamente seria melhor que 3 em cada 4 pessoas soubessem que um elétron é menor que um átomo, mas ter um povo analfabeto cientificamente não é tão ruim quanto ter um povo que desconhece ou desconsidera a importância da ciência. O que está sumindo é aquela noção do sujeito que mora na casa de pau-a-pique e não sabe ler nem escrever, mas faz questão de mandar o filho à escola porque sabe que a educação é importante. Mooney e Kirshenbaum usam os exemplos da revolta popular com o "rebaixamento" de Plutão e a paranoia criada em torno ao Grande Colisor de Hádrons para mostrar que o relacionamento do norte-americano com a ciência é igual à relação do brasileiro com seus atletas olímpicos: passamos quatro anos sem ter noção do que eles andam fazendo. Então, na cerimônia de abertura ficamos sabendo que um é campeão mundial, e que outro lidera o ranking de sua modalidade, mas quando voltam para casa sem medalhas, ou com um mero bronze, apontamos o dedo e dizemos que "amarelaram".

Obviamente nem sempre foi assim. Numa introdução histórica, os autores contam a ascensão e queda do prestígio dos cientistas nos Estados Unidos. No pós-Segunda Guerra Mundial, os homens de jaleco eram astros. A União Soviética botou o Sputnik no espaço e a corrida espacial foi o auge da excitação popular (e em Washington) sobre o trabalho científico. Mas tudo veio ladeira abaixo quando a geração paz-e-amor entrou em cena e começou a questionar a "ciência má", que destruía o meio ambiente e visava o lucro; e quando a ciência "pura e simples" passou a ser questionada em nome do pragmatismo segundo o qual a pesquisa devia "servir para alguma coisa". E então, nos anos 80, surgiu o fenômeno Carl Sagan. Seria a última oportunidade para a ciência recuperar seu prestígio, mas a chance foi pelo ralo não só porque o governo Reagan lhe era hostil, mas porque os próprios cientistas lhe deram as costas, graças a um misto de desprezo e inveja.


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Divulgação / Para Mooney e Kirshenbaum, a ciência perdeu contato com a sociedade em quatro aspectos importantes.Para Mooney e Kirshenbaum, a ciência perdeu contato com a sociedade em quatro aspectos importantes.
Os capítulos que descrevem as quatro pontes destruídas entre a ciência e a sociedade são o coração do livro. Mooney e Kirshenbaum mostram, por exemplo, como o fato de ciência e política viverem de realidades completamente diferentes distanciou esses dois mundos – o cientista busca a verdade sobre o mundo e o homem, e o político depende daquilo que pode não ser necessariamente verdadeiro, mas é popular. Enquanto isso, jornais e emissoras de televisão dedicam cada vez menos espaço à ciência, apesar dos tempos interessantes em que vivemos, com avanços na biotecnologia e na neurociência, e as respostas urgentes exigidas por crises como a das mudanças climáticas. Mas, enquanto o jornalismo vive de episódios e resultados, boa parte do processo científico é monótono – e isso não é notícia. Acrescente-se o dogma jornalístico da "imparcialidade" e temos no noticiário, por exemplo, uma minoria de cientistas que nega a relação entre o vírus HIV e a Aids. O que deveria ser uma ajuda na procura do jornalista pela verdade virou muleta de jornalista preguiçoso: basta dar "os dois lados", e o leitor que se vire para saber quem tem razão. Já o mundo do entretenimento perdeu contato com a ciência de diversas maneiras: no modo como cientistas são retratados (normalmente como doidos, nerds ou arrogantes), na ausência completa de verossimilhança científica – implicar com som e fogo no espaço em Guerra nas Estrelas é bobagem, mas é legítimo apontar as falhas grosseiras de O dia depois de amanhã – ou na noção de que consultores científicos em filmes só servem como estraga-prazeres.

O trecho mais polêmico de Unscientific America, no entanto, é o capítulo sobre o suposto antagonismo entre ciência e religião. Mooney e Kirshenbaum botaram o dedo na ferida ao mostrar o desserviço que os sumos-sacerdotes do Novo Ateísmo, a maioria deles cientistas, prestam à ciência quando forçam as pessoas a escolher entre sua fé e a adesão às descobertas científicas. Afinal, entre ser ignorante cientificamente e arriscar a vida eterna, a maioria das pessoas religiosas preferirá a ignorância. Do outro lado do oceano, os ingleses do Theos Institute descobriram a mesma coisa: Richard Dawkins tanto insistiu na ligação entre evolução e ateísmo que os britânicos acreditaram. Resultado: aumentou o número de criacionistas. Após a publicação de Unscientific America, blogueiros como o cientista PZ Myers não economizaram nos ataques. "Acomodacionista" (aquele que defende a convivência entre ciência e fé) virou o termo – ou o insulto, dependendo do ponto de vista – da moda, aplicado até aos não religiosos, caso dos próprios Mooney e Kirshenbaum, ou do agnóstico Michael Shermer.

Os autores dizem que, apesar de fazer esse diagnóstico da realidade norte-americana, não pretendiam sair apontando o dedo e buscando culpados. Mas, pela própria natureza do trabalho, isso é impossível, e Mooney e Kirshenbaum parecem muito à vontade para demonizar George W. Bush e o Partido Republicano como um todo; eles não perdem uma chance para mencionar uma "guerra à ciência" travada pelo ex-presidente. Os cientistas, no entanto, não escapam: eles se deixam levar pela hýbris, acreditando que a ciência é capaz de explicar tudo; se trancam nos laboratórios, pensando que se sujariam ao lidar com políticos; se regozijam com a complexidade de seu trabalho, criticando quem se disponha a traduzi-lo para facilitar o entendimento do leitor comum; e, claro, botam a culpa em todos os outros, menos neles próprios. A solução, aponta a dupla, não está em formar mais cientistas, pelo menos não do modo como eles têm sido formados. A nova demanda é por cientistas que saibam transitar nesses mundos com os quais a ciência perdeu contato.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/06/2010 às 10:34


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Reprodução / A resenha que você vai ler agora foi publicada originalmente na edição 4 da revista Dicta&Contradicta.A resenha que você vai ler agora foi publicada originalmente na edição 4 da revista Dicta&Contradicta.
Com o lançamento, na semana passada, da quinta edição da revista Dicta&Contradicta, é padrão dos editores colocar on-line todo o conteúdo da edição anterior, e o número 4 (de dezembro de 2009) tem uma resenha de livro escrita por mim. Como a versão integral on-line da Dicta 4 ainda não está disponível, os editores me autorizaram a já publicar, aqui no Tubo, o texto que escrevi para a revista. Confiram:

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No começo de 2009, enquanto aguardava a divulgação do resultado do vestibular da Universidade Federal do Paraná, fiz um teste: abordei alguns vestibulandos e perguntei o que eles tinham aprendido sobre Galileu Galilei no ensino médio ou no cursinho. Apenas um adolescente se lembrava de algo: que o italiano tinha sido perseguido por afirmar que a Terra era redonda. Desde então não faço mais esse tipo de enquete, até porque a Harvard University Press lançou uma coletânea abrangente das respostas que inevitavelmente sairão da boca de vestibulandos, professores, jornalistas e "intelectuais": é Galileo goes to jail and other myths on science and religion, organizado por Ronald Numbers.

A relação entre ciência e religião é um dos temas mais importantes do século 21, ao menos na metrópole, onde a cada ano são lançados inúmeros livros sobre o assunto e organizam-se debates televisivos em universidades envolvendo gente como Michael Shermer, Dinesh D’Souza, Richard Dawkins e John Lennox (basta procurar no YouTube). Por aqui, o mercado editorial ignora solenemente autores como Karl Giberson, Kenneth Miller, Ian Barbour e John Polkinghorne (apenas um livro de cada um desses dois últimos autores recebeu edição brasileira), enquanto publica a rodo as obras de ateístas militantes, fazendo à sensatez uma única concessão ao ter lançado A linguagem de Deus, de Francis Collins. Como consequência, por pouco ler e muito repetir, o cérebro dos "formadores de opinião" secou a ponto de perpetuar irrefletidamente os mitos do livro de Numbers, apesar das evidências contrárias – que não são poucas.


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Divulgação / O livro tem 25 ensaios, cada um derrubando um mito envolvendo ciência e religião. Metade dos autores é formada por ateus ou agnósticos.O livro tem 25 ensaios, cada um derrubando um mito envolvendo ciência e religião. Metade dos autores é formada por ateus ou agnósticos.
Os 25 ensaios – escritos por 12 ateus ou agnósticos, 5 protestantes tradicionais, 2 protestantes pentecostais, 1 católico, 1 judeu, 1 muçulmano, 1 budista e 2 autores com "um lado espiritual independente de religiões", como dizem no orkut – estão ordenados cronologicamente, iniciando com o surgimento do Cristianismo e terminando com os debates sobre o criacionismo e a secularização da cultura ocidental moderna. Isso significa que o desfile de cérebros parte de Agostinho, com o seu De Genesi ad litteram, e passa por Avicena, Giordano Bruno, Copérnico, Descartes (descrito como "o mais incompreendido dos filósofos"), Newton, até chegar a Darwin (nada menos que 9 dos 25 mitos abordam a teoria da evolução) e Einstein – sem falar, claro, de Galileu, a cujo respeito foi lançado, também este ano (nota: a resenha foi publicada originalmente em 2009), um livro muito completo sobre seu processo inquisitorial: Galileu, pelo copernicanismo e pela Igreja, de Annibale Fantoli.

O objetivo do livro não é defender nenhuma religião em especial – sequer tenta defender a religião em si: um dos ensaios questiona a "lenda piedosa" sobre uma suposta reconversão de um Darwin moribundo, e outro desmente a crença de Einstein em um Deus pessoal. O capítulo 9 diminui o impacto do Cristianismo na construção da ciência moderna, mas recorrendo a um espantalho: não consta que Rodney Stark, Stanley Jaki ou Thomas Woods considerem o cristianismo a única base da ciência moderna, desprezando as contribuições clássicas, judaicas ou islâmicas. Ainda assim, no fim das contas a religião sai ganhando nesse trabalho de desconstrução, mas apenas porque na maioria das lendas os vilões andam de batina e não de jaleco branco.

Alguns mitos, à primeira vista, parecem simplórios demais para merecer ensaios no livro. Os cristãos medievais acreditavam que a Terra era plana? Mas Stephen Jay Gould já não tinha dedicado um trecho de seu Pilares do tempo, na década passada, para desmentir essa ideia? Pois Lesley Cormack, autora do texto sobre a "Terra plana", mostra que, no mesmo ano em que Gould publicava sua obra sobre ciência e religião, eram lançados livros didáticos de ensino médio nos Estados Unidos reforçando a lenda – que, a julgar pela resposta do vestibulando da UFPR, segue firme e forte. Aliás, todos os capítulos têm como epígrafes textos que deram origem ou que mantêm viva a mitologia. Assim, vemos que em 2006 há quem ainda afirme que os calvinistas escoceses se opunham à anestesia durante o parto porque ela contrariava a determinação divina de Gênesis 3,16, ou que a Igreja Católica havia proibido a dissecação de cadáveres.

Entre os criadores de mitos, no entanto, os mais citados no livro editado por Numbers são os norte-americanos Andrew Dickson White e John William Draper, autores de A history of the warfare of science with theology and Christendom (1896) e History of the conflict between religion and science (1874) respectivamente. Podemos dizer que são os pais do conflito entre fé e ciência. A invenção – ou reinterpretação – dos fatos feita por White e Draper continua tão popular que só é possível concluir que seus discípulos, defensores modernos da guerra entre ciência e religião, os Hitchens, Dennetts e Dawkins da vida, podem até pensar que estão levando seus leitores ao século 21, mas na verdade estão é mantendo todo mundo preso no século 19.

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Eu comprei meu exemplar de Galileo goes to jail na Amazon. O preço atual é US$ 18,45.

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Para conferir outras resenhas de livros publicadas no Tubo, clique no link "Para sua biblioteca", logo abaixo do cabeçalho do blog.


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O Tubo de Ensaio se inscreveu tardiamente no prêmio TopBlog 2010. Como não havia categoria de ciência, estou concorrendo na categoria Blogs profissionais/Religião. Para votar, é só clicar no selo ao lado. Não precisa de cadastro: na hora de votar você coloca seu nome e e-mail, e depois recebe uma mensagem com um link para validar seu voto.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/02/2010 às 13:02

A maioria, ou pelo menos boa parte dos cristãos está agora celebrando a Quaresma, um tempo de 40 dias que antecede a Semana Santa e tem ênfase especial na penitência e na mudança de vida. É verdade que, em algumas paróquias, as pessoas só percebem que estão na Quaresma porque está escrito no folheto e porque o padre usa roxo, já que os instrumentos musicais seguem à toda, assim como a bateção de palmas – anteontem mesmo estive numa missa dessas. Mas, para quem está disposto a viver esse período de forma mais séria, existem várias coletâneas de meditações nas livrarias ou na internet. Uma delas é o assunto dessa resenha, e aqui faço um mea culpa: esse texto devia estar no Tubo há uma semana, mas só agora consegui tempo para finalizar a leitura.


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Reprodução / Feito para ser lido ao longo da Quaresma, Feito para ser lido ao longo da Quaresma, "Um cientista lê a Bíblia" também pode ser lido de uma vez só.
Pela própria natureza do livro, Um cientista lê a Bíblia é dirigido aos cristãos. Não sei se um ateu tiraria o mesmo proveito dele. Seu autor, John Polkinghorne, é um dos maiores nomes no debate atual sobre a relação entre ciência e religião. Físico cuja especialidade é a Física de partículas, ele também é clérigo anglicano, ordenado em 1982. Um cientista lê a Bíblia (edições Loyola, 159 p., apenas R$ 9 na Saraiva) é de 1996. Como eu já tive a chance de mencionar, é uma coletânea de meditações para cada dia da Quaresma – não foi feito para ser lido de uma tacada só, embora não seja longo (os textos para cada dia têm duas ou três páginas) e possa ser lido de uma vez, como eu fiz. Os textos têm todos uma mesma estrutura: começam com algum trecho bíblico, seguem com a reflexão do autor e terminam com uma oração curta.

Embora esse não seja propriamente um livro sobre ciência e fé como os que têm sido resenhados aqui no blog, em muitos pontos Polkinghorne ressalta as semelhanças entre uma e outra. Logo na introdução, por exemplo, o autor diz que, assim como o cientista busca a verdade sobre o mundo pela evidência científica, a Bíblia também é, por assim dizer, a "evidência" sobre Deus e sobre Cristo. "Há uma concepção atual estranha de que fé é uma questão de fechar os olhos, cerrar os dentes e acreditar em coisas impossíveis, porque alguma autoridade inquestionável diz que é preciso fazer isso. De forma alguma! O salto da fé é um salto para a luz, não para a escuridão. Envolve o compromisso com o que compreendemos, para que possamos aprender e compreender mais", diz Polkinghorne (itálico do autor). Na meditação do sábado após a Quarta-Feira de Cinzas, o autor lembra a primeira carta de São Paulo aos tessalonicenses, em que recomenda examinar tudo e conservar o que é bom. Mais uma vez Polkinghorne diz que a busca pela verdade é um componente essencial na religião – é curioso como algumas pessoas se mostram chocadas quando uma religião ou uma igreja pretende ser a única verdadeira, mas essa é uma pretensão perfeitamente válida, até porque é impossível que duas religiões que digam coisas opostas sejam igualmente verdadeiras. Mas, enquanto o cientista faz todo tipo de experiência para comprovar sua teoria, na religião não se "testa" Deus. O mesmo vale para os relacionamentos humanos (Cervantes já sabia, basta lembrarmos da história do "curioso impertinente", no Dom Quixote). Ainda assim, o que une o cientista e o religioso é a sede de entender o mundo. Também é interessante a semelhança que Polkinghorne vê entre os Evangelhos e a pesquisa científica (não vou entregar tudo aqui, já que o objetivo de uma resenha é levar vocês a ler o livro).


Wikipedia Commons/Jack1956

Wikipedia Commons/Jack1956 / John Polkinghorne é um dos principais nomes da atualidade no debate sobre a relação entre ciência e religião.John Polkinghorne é um dos principais nomes da atualidade no debate sobre a relação entre ciência e religião.
Os dias entre o início da Quaresma e o primeiro domingo são dedicados a temas mais ou menos variados (em um dos textos, descobrimos por que Tolstoi é infinitamente superior a Manoel Carlos), mas as semanas seguintes são dedicadas a temas específicos: Criação, Realidade, Busca, Oração e Sofrimento, até chegar à Semana Santa. Na semana dedicada à Criação, é impossível escapar dos comentários sobre o texto do Gênesis e a evolução. Polkinghorne afirma que o propósito dos relatos da criação não é ser científico (do contrário não teríamos como escapar da contradição entre os dois relatos), mas explicar o porquê das coisas. Usando o exemplo da lareira ("o fogo queima na lareira porque processos físicos e químicos atuam na madeira" e "o fogo queima na lareira porque estou recebendo amigos" não são explicações incompatíveis entre si), o autor diz que não é preciso escolher entre o Big Bang e o "faça-se a luz". Ao comentar a evolução, Polkinghorne diz que Deus poderia ter feito o mundo todo pronto, mas preferiu criar um mundo que faz a si mesmo. Quando o autor do Gênesis diz que o homem foi formado "do pó da terra", estabelece uma continuidade entre a natureza e o ser humano. Polkinghorne mostra pistas de Deus na beleza das equações matemáticas que regem o universo – é um trecho com o qual eu me identifico. Eu não sei ver beleza em equações (detestava Trigonometria na escola técnica), mas adoro Van Gogh e Mozart. Nem todo mundo me acompanha na admiração por um quadro ou uma composição musical, assim como para mim passa batida a beleza existente em outros aspectos da vida, que os demais reconhecem muito melhor que eu. E o autor encerra a semana com considerações sobre propósito e acaso – este último, diz Polkinghorne, está longe de ser negativo: é "o espaço de manobra que Deus concedeu às suas criaturas ao permitir que fossem elas mesmas", afirma.

Na sequência da obra, o autor aborda temas como o maravilhamento diante das coisas do mundo, a diferença entre senso moral e senso cultural (sim, é possível ser uma pessoa boa sem ter religião nenhuma, mas como se nega a existência de certos padrões morais universais a todas as culturas?), a função da Teologia Natural, o emprobrecimento causado pelo Iluminismo na cabeça das pessoas ao desvalorizar o entendimento subjetivo e a experiência pessoal. Mas um capítulo que eu gostaria de comentar é o da semana dedicada ao Sofrimento, já que andamos discutindo o assunto aqui, por causa do Haiti. Polkinghorne se baseia especialmente nos Salmos e se pergunta: por que, no terremoto de 1755, Lisboa foi devastada justamente num Dia de Todos os Santos, quando milhares de pessoas estavam em igrejas que desabaram, matando os fiéis? "O que Deus estava fazendo com o terremoto em Lisboa? Acho que a resposta é que Ele estava deixando a crosta terrestre se comportar de acordo com a sua natureza", diz o autor. Um Deus que não é "tirano nem mágico" permite que o mundo criado por Ele possa se desenvolver sozinho. Mas o salmista fica perplexo não apenas com os desastres naturais: ele percebe que coisas más ocorrem com pessoas boas. Pior ainda: coisas boas acontecem a pessoas más – que nadam "em mar de contentamentos", como escreveu Camões. Nós também experimentamos essa perplexidade em vários níveis quando vemos desde autênticos cachorros atraírem o interesse das melhores garotas até mensaleiros sendo reeleitos. Como se resolve isso? Não basta nos consolarmos pensando que na vida eterna as coisas se encaixarão nos seus devidos lugares: se fosse assim, Nietzsche teria razão ao chamar o Cristianismo de religião de escravos conformados. Mas a resposta de Polkinghorne ao filósofo do século 19 eu deixo para vocês descobrirem ao ler o livro.

Ainda estamos no começo da Quaresma. Aos leitores cristãos, eu recomendo que procurem o livro e, depois de recuperar o tempo perdido, comecem a seguir as meditações dia após dia. Garanto que será um período de muitos frutos.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 27/11/2009 às 15:44


Mike Rozulek

Mike Rozulek /
Eu tenho grande apreço por cientistas que se dispõem a explicar ao leitor comum assuntos às vezes muito complicados. Melhor ainda quando o fazem com um texto elegante e gostoso de ler, como no caso do neurologista Oliver Sacks. Entre os brasileiros, o time ainda é pequeno; acho que o maior craque no elenco seria Marcelo Gleiser. Agora, o biólogo Sandro de Souza quer um vaguinha no elenco, e por isso lançou A goleada de Darwin (Record, 221 p. O meu exemplar é cortesia da editora, e o preço mais em conta é o da Fnac), com o objetivo de explicar a teoria da evolução e a controvérsia com o criacionismo. Pelo título do livro, vocês já entenderam por que essa resenha começou com metáforas futebolísticas, que o autor, são-paulino (gosto não se discute, só se lamenta), também emprega em sua obra. Minha opinião é a de que ele passou pela peneira, mas não sei se tem bola suficiente para sair jogando como titular. E é com a resenha desse livro que encerramos o especial Darwin do Tubo de Ensaio.

Primeiro, vamos aos pontos fortes do livro: os três capítulos dedicados a narrar os "gols de Darwin" explicam direitinho a quem não é familiarizado os conceitos de seleção natural, de ascendência comum, como a genética se relaciona com a teoria da evolução, o que o registro fóssil mostra sobre as espécies que já se foram e sua ligação com as atuais. Os biólogos saberão me dizer se nesse ponto Sandro joga como a Holanda de 74 ou o Brasil de 82, de forma genial, ou se está mais para a Alemanha de 90 e o Brasil de 94, sem brilhantismo, mas com eficiência. Eu, pelo menos, me dei por satisfeito, e o uso de infografias ajuda a compreender melhor os mecanismos evolutivos. Ou seja, para quem quer saber o que é a evolução e como ela funciona, o livro é bom, vale o ingresso.


Divulgação

Divulgação / "A goleada de Darwin" alterna lampejos dignos de Garrincha com alguns momentos Júnior Baiano.
O problema é que, antes de chegar aos capítulos 3, 4 e 5, a torcida e os comentaristas já tinham motivos para se impacientar um pouco com Sandro. Afinal, se quando fala estritamente de ciência o autor manda bem, na hora de colocar a religião no assunto o meio de campo desanda. No capítulo 2, por exemplo, o autor dá a escalação do time criacionista: criacionistas de Terra plana, de Terra jovem, de Terra antiga, pessoal do Design Inteligente... e por último vem uma tal "evolução teística": pessoas que aceitam a evolução, mas mantêm Deus como agente causal. Esperem um pouco: colocar essa turma no time dos criacionistas é querer escalar jogador com documentação irregular, porque não tem nada de criacionismo nessa "evolução teística". A não ser que o autor tenha alargado demais o conceito de "criacionismo" a ponto de englobar nele todo mundo que acredite num Deus criador – o problema é que isso não tem respaldo na bibliografia sobre evolução e criacionismo. É mais ou menos como querer convocar o Lugano para a seleção brasileira porque um dia o Uruguai fez parte do território do Brasil. E Sandro insiste na bola fora na página 131: "A grande maioria dos criacionistas, mesmo aqueles que acreditam na evolução e tentam conciliar a fé com a ciência, ainda postula um tratamento diferente para a espécie humana."

Mas tem coisa pior. O autor cita na página 22 o biólogo Ernst Mayr, segundo o qual "Darwin desafiou com A origem das espécies os quatro pilares do dogma cristão, a saber:" Antes de continuar, devo dizer ao autor (porque ao Mayr não dá mais, ele morreu em 2005) que os pilares do dogma cristão não têm nada a ver com os quatro itens que serão enumerados abaixo. Mas continuemos, Mayr em itálico e depois meus comentários:


Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Daniel Castellano/Gazeta do Povo / Pois é, amiga torcedora, esse Mayr pisou na bola...Pois é, amiga torcedora, esse Mayr pisou na bola...
1. A crença em um mundo constante: acreditava-se em 1859 que o mundo refletia o planeta Terra da época da criação. Bom, em 1859 a interpretação corrente do texto bíblico via o relato da criação como alegoria. Como já tivemos a oportunidade de mostrar aqui ao longo da semana, o literalismo total em relação a Gênesis 1 e 2 é um fenômeno do século 20.

2. A crença em um criador: era praticamente consensual a crença na existência de um criador, cuja ação gerava tanto o mundo físico como o natural. As espécies sob essa ótica eram imutáveis e foram criadas pelo criador. Onde raios a evolução desmente a crença em um criador? Se o próprio Darwin dizia o contrário... a evolução traz uma nova compreensão sobre os mecanismos da criação, mas nunca se propôs a derrubar a própria noção de criação.

3. A crença de que haveria propósito tanto no mundo físico quanto no natural. A evolução, como teoria científica, não faz esse tipo de afirmação metafísica. A existência ou não de propósito no mundo está fora do alcance da ciência. Há evolucionistas que dizer haver propósito (como vimos o Giberson falando), e outros para quem só existe o acaso cego (como os ateus militantes). Mas nenhuma das duas afirmações é científica, e sim filosófica.

4. A crença em uma posição diferenciada do homem entre os organismos vivos. Se Mayr soubesse que a "imagem e semelhança" vêm de atributos espirituais, e não físicos, veria que a evolução não tira esse status especial do ser humano.

E, por essa coleção de jogadas, Ernst Mayr é o bola murcha dessa semana.

Também dei pela falta de The Genesis flood quando Sandro contou a história do criacionismo. Henry Morris é até citado no livro, mas sua obra não. E foi justamente ela que botou fogo na partida, lá na década de 60. E não julgo que o Design Inteligente seja um "gol impedido de Deus", pois está mais para gol impedido de gente que acha que pode contar com Deus no seu time...

Eu ainda cito como melhores momentos o capítulo 8, que descreve o movimento criacionista no Brasil; e o capítulo final, em que o autor defende a possibilidade de ser "devoto" e "darwinista" ao mesmo tempo (eu concordo, mas então que tal tirar os "teístas evolucionistas" do time criacionista?). E, como lance de efeito – daqueles que deixam a gente meio impressionado, mas não servem pra nada –, a frase idiota do Carlos Minc, na época deputado e hoje ministro, para quem o ensino do criacionismo "é o caminho de volta à Idade Média, com o risco de se incentivar as crianças a queimar os livros de Darwin" (p. 156). Se o Minc soubesse que na Idade Média não existia criacionismo, e que foi justamente nessa época em que se lançaram as bases da revolução científica...

O meu exemplar do livro é da primeira edição (apesar de só estar sendo resenhado agora, recebi logo após o lançamento); merecia uma revisão mais cuidadosa, pois tem vários nomes grafados incorretamente, como os do professor John Scopes ("Scope"), do ator Spencer Tracy ("Track"), do biólogo Kenneth Miller ("Keneth Muller", inclusive na bibliografia), do filósofo William Dembski ("Dembsky") e do senador Rick Santorum ("Rich"). Espero que tenham sido corrigidos nas edições seguintes; falhas no gramado podem até não atrapalhar o jogo, mas deixam uma impressão ruim. Além disso, e talvez mais importante que a questão dos nomes, tenho a sensação de que, na maioria das vezes em que se empregou no livro o termo "descendência", na verdade o que se queria dizer era "ascendência"; afinal, o macaco e o homem têm ascendência, e não descendência comum. É uma tremenda diferença.

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Então, caros leitores, o especial Darwin termina hoje. Espero sinceramente que tenha agradado e que as pessoas que descobriram o Tubo de Ensaio ao longo dessa semana continuem acompanhando o blog e participando das discussões na caixa de comentários. Depois desse pequeno tour de force, o ritmo de atualizações volta ao normal, duas ou três por semana.

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Não é porque o especial Darwin acabou que você vai parar de seguir o Tubo de Ensaio no Twitter, certo? Aliás, hoje é dia de #FF!

Enviado por Marcio Antonio Campos, 23/11/2009 às 09:52


Mike Rozulek

Mike Rozulek /
Amanhã faz exatamente 150 anos que A origem das espécies, de Charles Darwin, foi lançado. Esse livro afetou a humanidade como poucas outras obras ao longo da história, e para muitos se tornou sinônimo da incompatibilidade entre ciência e religião. Felizmente, de uns tempos para cá alguns cientistas competentes em seus campos, e que são pessoas religiosas, passaram a construir uma meio-termo, defendendo Darwin dos ataques de fundamentalistas religiosos e defendendo a religião dos ataques de fundamentalistas científicos. Karl Giberson, presidente da Fundação BioLogos, é um desses autores. Cristão evangélico, Ph.D. em Física, professor universitário, Giberson lançou Saving Darwin (HarperOne, 248 p. Meu exemplar foi comprado na Amazon) e veremos que não foi sem razão que o Washington Post considerou a obra como um dos melhores livros de 2008. É com a resenha de Saving Darwin que o Tubo de Ensaio abre a semana dedicada a Charles Darwin e aos 150 anos de seu livro.

Como não podia deixar de ser, Darwin é o personagem principal do capítulo inicial do livro. O Darwin de verdade, e não as lendas criadas em torno dele, seja a história piedosa de uma reconversão no leito de morte e rejeição de sua teoria, seja a do sujeito que tinha como objetivo de vida "matar Deus". O verdadeiro Charles Darwin, a bordo do Beagle, viu que o paradigma que explicava a vida na Terra tinha suas falhas (curiosamente, esse paradigma, o de William Paley, era muito parecido com o Design Inteligente que temos hoje), e trabalhou em cima disso. O resultado todos nós sabemos, mas o que escapa de muita gente é que a teoria da evolução, na verdade, acomoda Deus melhor do que a opção existente até então.


Divulgação

Divulgação / "Saving Darwin" é um dos livros que promove a compatibilidade entre fé e evolucionismo.
Darwin se incomodava ao ver o que identificava como sinais de crueldade na natureza: gatos que torturavam ratos antes de comê-los, ou vespas cujas larvas eram programadas para se alimentar dos órgãos internos de seu hospedeiro na ordem exata para fazê-lo viver o máximo possível enquanto era devorado. Ele também identificava algumas coisas fora do lugar: na América do Sul, Darwin viu emas e se perguntava qual era o ponto de uma ave que não voava. Se Deus fez tudo isso exatamente desse jeito, além de cruel, Ele seria um mau designer. Agora, se gatos torturadores, vespas e emas eram produto da seleção natural e não da vontade direta divina, Deus podia permanecer como o autor das leis naturais, que de vez em quando resultam em algo sublime, e de vez em quando levam a "falhas de design".

"Ah, mas Darwin não virou agnóstico?" Sim, virou. Mas Giberson mostra que o agnosticismo do naturalista não era consequência nem causa de sua teoria da evolução. Para começar, Darwin tinha sérios problemas com o conceito de inferno – ainda mais porque seu pai morreu sem acreditar em Deus. Admitir que um familiar esteja no castigo eterno é duro para qualquer um, e com Darwin não foi diferente. A reação é bem humana: diante de uma crença incômoda, é mais fácil mudar de crença que mudar de vida. A gota d'água foi a morte de sua filha Annie, aos 11 anos. Era inaceitável para Darwin que o Deus bíblico, que não deixava um pardal cair do céu sem Sua permissão, deixasse a menina morrer. E a fé do naturalista se foi junto com Annie.

No capítulo seguinte, vemos a repercussão das ideias de Darwin nos meios religiosos. Uma repercussão quase nula, aliás: as pessoas mais religiosas da virada do século 19 para o século 20 não estavam muito alarmadas com A origem das espécies. O perigo vinha da Vida de Jesus escrita por David Strauss em 1835. Milagres, a veracidade da Bíblia e a própria existência de Jesus foram questionados, numa prévia do que fariam no século 20 em nome do "Jesus histórico". Foi para reagir a Strauss que protestantes norte-americanos lançaram o movimento fundamentalista, assim chamado por causa de The fundamentals, uma coleção abrangente de coisas que os cristãos deviam aceitar para serem bons fiéis. Darwin passou por esse teste. Havia poucas críticas ao evolucionismo em The fundamentals, mas nem sinal de criacionismo de Terra jovem – que em 1909 era defendido apenas por uma pequena seita, os adventistas do sétimo dia, e isso por causa não da Bíblia propriamente dita, mas de visões da fundadora do grupo.


Allison Stillwell

Allison Stillwell / Parece incrível, mas é esse tipo de vespa que está no centro de um debate sobre Deus e design na natureza.Parece incrível, mas é esse tipo de vespa que está no centro de um debate sobre Deus e design na natureza.
No livro, Giberson descreve como a oposição a Darwin ganhou corpo, começando com o famoso processo Scopes (ou "processo do macaco"), que foi narrado por um jornalista narcisista e preconceituoso, e virou peça de teatro e filme. Vemos todas as tentativas legais de bloquear o ensino da evolução e, depois, garantir tempo igual em sala de aula ao criacionismo ou ao Design Inteligente. Descobrimos como o criacionismo da Terra jovem, que estava confinado aos círculos adventistas no início do século 20, se tornou a crença padrão dos fundamentalistas atuais a partir da década de 60, graças a Henry Morris e John Whitcomb: eles deram roupagem mais científica a uma quase desconhecida obra antievolução dos anos 20 e o resultado, The Genesis flood, disparou uma onda de literalismo bíblico nos Estados Unidos. É curioso notar que a contestação a Darwin não usou a Biologia, e sim a Geologia. Outra observação interessante de Giberson: pelos próprios critérios, Morris e Whitcomb falharam, pois pretendiam que sua ciência da criação fosse levada a sério pela comunidade científica, o que não aconteceu. Mesmo assim, o criacionismo decolou. O Design Inteligente, que Giberson classifica como uma espécie de reciclagem do criacionismo, ganhou um capítulo em que o autor comenta: como cristão, ele até gostaria que o DI fosse verdade – quem não gostaria? Um Deus designer, que cria maravilhas biológicas... mas logo a seguir Giberson expõe os buracos científicos e teológicos do DI, com direito ao retorno do "Deus cruel", que desenhou o engenhoso e aterrorizante sistema de alimentação das larvas das vespas icneumônides...

Para mim, existem dois capítulos que constituem pontos-chave do livro. Um deles é o terceiro. Nele vejo uma explicação para grande parte da rejeição atual ao evolucionismo ao descrever os "dark companions" de Darwin, que todo criacionista adora lembrar. "A eugenia e o nazismo se basearam em Darwin", dizem. Giberson enumera os expoentes daquilo que se convencionou chamar de "darwinismo social": desde Francis Galton, primo de Darwin, que sugeriu às famílias "boas" que tivessem mais filhos, até os nazistas, inspirados por Ernst Haeckel (que era contemporâneo de Darwin, e não de Hitler), com a Solução Final e a eliminação dos inaptos. No meio disso, esterilizações forçadas nos Estados Unidos e outras crueldades. Mas, enquanto a eugenia já existia muito antes de Darwin, Giberson aponta outro aspecto fundamental: a teoria da evolução é descritiva, não propositiva; ela diz o que acontece na natureza, e não o que deveria acontecer – e muito menos o que o homem ou a sociedade deveriam fazer. Em A origem das espécies não há juízo de valor, ao contrário do "darwinismo social", que pode ser social, mas não é darwinismo. O problema é que, depois de tanta propaganda criacionista associando Darwin a Hitler, explicar que focinho de porco não é tomada ficou quase impossível. E aí, sejamos honestos, quem quer aderir a uma teoria que serviu de base para tanta atrocidade?


Reprodução

Reprodução / Até Os Simpsons já fizeram sátira ao criacionismo.Até Os Simpsons já fizeram sátira ao criacionismo.
O outro capítulo que compõe a essência do livro é o sétimo. Nele, Giberson descreve como a disputa sobre a teoria da evolução já deixou, há muito tempo, de ser uma controvérsia científica, na qual o importante é descobrir a verdade sobre a natureza, para se tornar uma guerra cultural, na qual a realidade pouco importa e o objetivo é apenas desmoralizar ou esmagar o adversário. Isso aconteceu justamente quando começaram a colocar Deus no meio da discussão: no cenário evolucionista, há espaço para Ele? E, se existe, qual é esse papel? Não ajudou muito o fato de a associação norte-americana de professores de Biologia ter definido evolução como um processo "impessoal, imprevisível e não-supervisionado", extrapolando um pouco o que os cientistas sabem sobre o assunto. Como é possível afirmar taxativamente que não existe um propósito ou um direcionamento no processo? O resultado é que o evolucionismo se tornou praticamente uma religião em si, que cresce à medida que seus "sacerdotes" massacram as outras religiões. Para eles, a evolução explica tudo (leia-se "tudo mesmo"): a moralidade, o altruísmo, até mesmo a religiosidade, o estupro e o infanticídio. Para um outro grupo, Darwin causou a Primeira Guerra Mundial, a depressão da década de 30, a eugenia nazista. Dawkins e companhia dizem que Darwin tornou Deus inútil; criacionistas alegam que Darwin trabalhava para o diabo. Não surpreende que o combate seja sangrento, e que o cerne da questão (afinal, Darwin tinha razão em sua teoria biológica?) tenha ficado de lado. É algo que qualquer blogueiro experimenta quando seus leitores passam a se agredir na caixa de comentários por todo tipo de assunto, menos o conteúdo que o blogueiro tinha escrito.

Após uma pequena introdução sobre como a evolução levou Karl Popper a abrir uma exceção na sua descrição de "teoria científica" como algo necessariamente falseável, Giberson dedica o capítulo 8 a uma explicação altamente convincente das cinco grandes evidências a favor de Darwin: o registro fóssil (Giberson não falou de Nicolau Steno, mas permitam-me recordar a importância desse bem-aventurado católico nesse ponto), a Biogeografia, a Anatomia comparada, as semelhanças no desenvolvimento das espécies, e Bioquímica/Fisiologia comparadas. Até aí, o leitor se pergunta: a leitura está muito boa, mas e a promessa do subtítulo? Até agora, o autor não explicou "como ser cristão e acreditar na evolução". Isso fica para a conclusão do livro, Pilgrim's Progress (o nome é inspirado na obra religiosa homônima do século 17, de John Bunyan). Deus, diz Giberson, é o autor da natureza, mas não cuida dos detalhes. Gatos cruéis e a morte terrível dos hospedeiros de larvas não levam o dedo divino. E, talvez até mais importante, o homem não é um "acidente" da evolução. Há propósito e significado no processo, que Giberson descreve como "expressão da criatividade divina, embora em um modo que não possa ser capturado pela visão científica do mundo". Que apenas dois tipos de objetos físicos (quarks e léptons) e quatro forças (gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca) tenham dado origem a tudo é um testemunho dessa criatividade.

É uma pena que Saving Darwin ainda não tenha uma tradução para o português. A guerra cultural em torno do evolucionismo está chegando ao Brasil, mobilizando defensores e detratores da teoria. Eu particularmente discordo de algumas elocubrações teológicas de Giberson no livro (o que provavelmente se deve ao fato de eu ser católico e ele, protestante), mas o valor dessa obra como construtora de uma ponte sólida entre fé cristã e adesão ao evolucionismo é inegável.

Amanhã no Tubo de Ensaio: confira uma entrevista exclusiva com Karl Giberson, o autor de Saving Darwin.

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 28/05/2009 às 16:13


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Perguntem a qualquer estudante universitário sobre os nomes da grande revolução científica que começou no século 17 e foi a responsável por grande parte da compreensão atual que temos sobre o universo, nosso planeta e nós mesmos. As personalidades irão se repetindo: Galileu, Kepler, Newton, Mendel, Darwin... quase ninguém lembrará o nome de Nicolau Steno. A não ser que você seja geólogo ou tenha estudado Anatomia na faculdade de Medicina, Enfermagem ou algum outro curso da área de saúde, é muito possível que nunca tenha ouvido falar dele; Steno é o (como dizem os americanos) unsung hero dessa revolução.

A primeira vez que vi alguma menção a Steno foi quando li Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods Jr. Uma nota de rodapé citava uma biografia de Steno, chamada The seashell on the mountaintop (Penguin, 2004), escrita por Alan Cutler. É o livro que eu recomendo hoje aos leitores do blog, aproveitando que depois de amanhã se comemora o dia do geólogo.

Steno (ou Niels Stensen, como foi batizado em sua Dinamarca natal) fez fama em toda a Europa na segunda metade do século 17 como um dos maiores anatomistas do continente. Manejava um bisturi como poucos, e foi nessa condição que ele chegou a Florença e encontrou um lugar na corte do grão-duque da Toscana, Ferdinando II de Médici. Antes mesmo de se tornar famoso, fez descobertas que ainda hoje levam seu nome, e também viu o que a inveja científica pode fazer, quando seu ex-mestre tentou levar o crédito por esses achados. Como anatomista, Steno tinha seu futuro garantido, mas um acontecimento incomum mudou completamente a direção de sua vida.


Reprodução

Reprodução / Nicolau Steno passou de anatomista de renome internacional a fundador da Geologia.Nicolau Steno passou de anatomista de renome internacional a fundador da Geologia.
Um tubarão gigantesco foi capturado no litoral da Toscana e o grão-duque pediu que a cabeça fosse enviada a Florença, para ser dissecada por Steno. O anatomista percebeu a enorme semelhança entre os dentes do tubarão e as glossopetrae ("línguas de pedra"), que eram encontradas às vezes no alto de montanhas e tinham, acreditava-se, propriedades medicinais. Aliás, não apenas glossopetrae eram encontradas na altitude, mas também conchas e outros objetos que remetiam a animais marinhos. Steno não foi o primeiro a se perguntar o que realmente eram essas coisas, e como elas iam parar lá em cima; antes dele, muitos já tinham pensado nisso e oferecido suas respostas. Para uns, eram apenas pedras com formatos idênticos aos de conchas e dentes de tubarão; para outros, eram efetivamente objetos marinhos, e aí as teorias variavam ainda mais: foram deixados lá pelo Dilúvio, caíram do espaço, surgiram por geração espontânea...

O tema intrigou Steno, que passou a pesquisar como objetos sólidos podiam ser encontrados dentro de outros sólidos. Isso valia tanto para fósseis, conchas, glossopetrae, até para inteiras camadas de pedra. Como resultado de suas pesquisas, Steno abriu a ostra do mundo. Não com a espada, como o personagem de As alegres comadres de Windsor (citado por Cutler), mas com a cabeça. Chamá-lo de fundador da Geologia não é exagero nenhum. Sua obra De solido intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus ("Discurso prévio a uma dissertação sobre um corpo sólido contido naturalmente num sólido", de 1669) lança as bases do estudo da terra. Diante de várias camadas de rocha, como saber quais vieram antes? Como essas camadas se formaram? Steno dará a explicação. Das diversas áreas em que a Geologia se dividiu com o tempo, as que mais se beneficiarão de seu trabalho serão a estratigrafia e a cristalografia.


Gabriel Bouys/AFP

Gabriel Bouys/AFP / O Grand Canyon é provavelmente o lugar do mundo onde melhor se pode entender, pela observação, as teorias de Steno.O Grand Canyon é provavelmente o lugar do mundo onde melhor se pode entender, pela observação, as teorias de Steno.
Antes de Steno, o heliocentrismo já tinha redesenhado o universo, colocando a Terra girando ao redor do Sol. Agora o anatomista e geólogo dinamarquês colocava a própria Terra sob uma nova perspectiva: sua história podia ser contada analisando-se as camadas de rocha superpostas. Cutler afirma que, antes de Steno, acreditava-se que os homens podiam contar sua história recorrendo a documentos antigos, mas ninguém imaginava que o planeta tivesse uma cronologia. O cálculo do arcebispo anglicano James Ussher, para quem o mundo tinha sido criado em 4004 a.C., era amplamente aceito. Steno nunca estabeleceu datas para as diferentes camadas de rocha; ele se limitou a apontar os meios de saber a cronologia relativa das camadas. Mas é indiscutível que seu trabalho lançou as bases para que, no futuro, os cientistas descobrissem que o planeta tinha muito mais de 6 mil anos.

A biografia escrita por Cutler, no entanto, não se limita aos feitos científicos de Steno. Ela também ressalta a religiosidade do cientista. Criado como luterano, e convertido à Igreja Católica durante seu tempo na Itália, Steno via a presença de Deus na racionalidade do mundo, e seu trabalho como cientista, ao desvendar essa racionalidade, revelava os mecanismos divinos. E, em 1675, Steno foi ordenado padre, tornando-se bispo apenas dois anos depois. Ao entrar no sacerdócio, Steno abandonou as pesquisas científicas. Embora muitos possam ver nisso um sinal de incompatibilidade entre ciência e fé, Cutler esclarece que essa foi uma decisão pessoal de Steno. Era parte de sua personalidade não conseguir se dedicar com profundidade a duas coisas ao mesmo tempo. Mas Steno nunca rejeitou sua ciência, e Cutler conta casos de homilias em que Steno usava comparações científicas para explicar realidades espirituais. O jesuíta Atanásio Kircher tentou convencê-lo, sem sucesso, a continuar seu trabalho geológico – Kircher, aliás, é um dos coadjuvantes mais interessantes do livro. Hoje sabemos que muitas das teorias desse jesuíta alemão estavam erradas, mas é impossível desconsiderar a união entre ciência e religião quando vemos um padre movido pela curiosidade científica descendo a cratera do Vesúvio logo após uma erupção, segurado apenas por uma corda, para ver o que havia dentro da cratera do vulcão.


Reprodução

Reprodução / Nicolau Steno foi enviado para o norte da Europa como bispo em terra de missão. Seu território incluía a Dinamarca, seu país natal.Nicolau Steno foi enviado para o norte da Europa como bispo em terra de missão. Seu território incluía a Dinamarca, seu país natal.
The seashell on the mountaintop, no entanto, não termina com a morte de Steno, ocorrida em 1686. Especialmente na Inglaterra, a discussão sobre a origem das conchas encontradas em montanhas corria solta. A obra de Steno entrou em cena graças a outro coadjuvante curioso do livro de Cutler: John Woodward, um médico de personalidade intratável – e chegado em um plágio. Demorou um pouco, mas Steno conseguiu o pleno reconhecimento de seu gênio científico. E, em 1988, veio "o maior reconhecimento que ele teria desejado", nas palavras de Cutler: o Papa João Paulo II o beatificou. Na homilia, o pontífice afirmou: toda a vida de Nicolau Steno foi uma incansável peregrinação à procura da verdade, a científica e a religiosa, na convicção de que cada descoberta, ainda que modesta, constitui um passo adiante na direção da verdade absoluta, na direção daquele Deus de quem todo o universo depende.

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Eu comprei meu exemplar de The seashell on the mountaintop na Amazon; parece que a livraria não tem mais a obra no estoque. Mas na Barnes & Noble custa US$ 15.

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Outros livros que já saíram no blog
O mundo assombrado pelos demônios (Carl Sagan)
Pilares do tempo - Ciência e religião na plenitude da vida (Stephen Jay Gould)
Galileu - Pelo copernicanismo e pela Igreja (Annibale Fantoli)

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Enviado por Marcio Antonio Campos, 07/05/2009 às 18:56


Reprodução

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Eu me lembro muito vagamente de quando a Globo exibiu a minissérie Cosmos nas manhãs de domingo. E, da série propriamente dita, não lembro absolutamente nada. Mas guardei o nome de Carl Sagan. Nunca havia lido nada dele até começar este blog, e no amigo secreto aqui da redação, ano passado, pedi como uma das opções O mundo assombrado pelos demônios (Companhia das Letras, 2006), que a Carol Olinda gentilmente conseguiu para mim.

A proposta do livro é clara: combater a superstição e a pseudociência, coisas como astrologia e Nova Era. Eu acho ótimo. Tenho casos na família de gente que foi vítima de curandeiros midiáticos (no fim das contas, vítima foi a família inteira, não apenas a pessoa em questão). Por exemplo, Sagan passará vários capítulos do livro derrubando relatos de abdução e coisas parecidas. Como astrônomo, está na área que mais domina.

Naquilo a que Sagan se propõe, demolir a superstição e a pseudociência, o livro é ótimo. Mas como se define superstição? Por exemplo, para um ateu, qualquer manifestação religiosa é superstição; para um adepto de determinada religião, as manifestações religiosas dos outros são superstição. Sagan vai pelo primeiro caminho, e ali ele se enrosca um pouco, como veremos.

Logo em um dos primeiros capítulos (o 2, para ser mais preciso), Sagan proclamará a superioridade da ciência sobre a religião. A ciência, diz ele, tem peer review (embora alguns escândalos recentes tenham abalado a confiança nesse sistema) e admite seus erros. O físico tem laboratório; já o metafísico não tem. O problema desse argumento é que o conhecimento religioso não é da mesma natureza do conhecimento científico. As afirmações do conhecimento religioso não podem mesmo ser comprovadas cientificamente. Elas dependem, sim, de argumento de autoridade, mas sem desrespeitar a lógica.


Divulgação / Nasa/JPL

Divulgação / Nasa/JPL / Sagan criou um Sagan criou um "kit de detecção de mentiras" em seu livro, mas caiu em algumas das armadilhas que denuncia.
Começo falando do argumento de autoridade porque ele estará presente no "kit de detecção de mentiras" exposto no capítulo 12. É um dos pontos altos do livro. O argumento de autoridade é o tipo de coisa que Sagan condena. E de fato, na ciência não se deve usá-lo mesmo. Dom Sérgio Braschi me disse que um dos méritos de Galileu foi justamente derrubar o predomínio do argumento de autoridade na esfera científica. Só que o próprio Sagan acaba caindo, ao longo do livro, em várias das armadilhas retóricas que denuncia.

Em alguns pontos do livro, por exemplo, encontram-se expressões como "se você fica doente, você pode usar antibiótico, ou chamar o curandeiro". Isso é ou não é uma falsa dicotomia? O fato de haver quem rejeite a ciência numa hora dessas não significa que recorrer à ciência e ter uma crença religiosa sejam coisas incompatíveis. Um outro truque retórico denunciado por Sagan é o da "evidência suprimida ou meia-verdade", que o autor comete quando se refere às curas observadas no santuário francês de Lourdes (p. 268-269). Sagan usa os números para demonstrar que, estatisticamente, é mais fácil ser curado espontaneamente de câncer ficando em casa do que indo a Lourdes. Bom, não se discute com números. Mas conheço relatos de tumores que somem subitamente. Os três casos comprovados de Lourdes tinham essa característica? Sagan não diz. E os outros casos de cura, envolvem que tipo de doença? Sagan não diz (a título de curiosidade, quem quiser pode ler uma entrevista com um médico que trabalha em Lourdes). Em vez disso, Sagan pergunta: "se a reza funciona, por que Deus não consegue curar o câncer ou repor um membro amputado?" Bom, sobre membros amputados, é fartamente documentado o caso de Calanda, uma cidade de Aragão, na Espanha. Em 1640, um tal Miguel Juan Pellicer teve restituída a perna direita, que havia sido amputada em 1637, com gangrena. Pellicer chegou a se encontrar com o rei Felipe IV. Existe um livro em português sobre o assunto.

No mesmo capítulo em que fala de Lourdes, Sagan conta a deliciosa história de Carlos, uma entidade que, digamos, "baixava" em uma outra pessoa, trazendo revelações do além. A moral da história (é muito boa para eu contar aqui, leiam o livro) é "chequem as informações". Lembram daquele hoax sobre a banda Rouge ser satânica? Ou da entrevista fictícia da J.K. Rowling que rodou a net como se fosse verdadeira? Muita gente teria evitado fazer papel de palhaço se tivesse verificado direito. Mas então por que Sagan não checou as fontes sobre o número de mortes na Inquisição, que ele estima em "talvez milhões" na página 147? Ele escreveu O mundo assombrado pelos demônios mais ou menos na mesma época em que Henry Kamen tinha publicado seus livros sobre a Inquisição. Também não custava checar as fontes da afirmação sobre a "heresia da terra redonda" (página 366), já que não consta que a Igreja alguma vez tenha condenado essa proposição.

Dois capítulos que mostram um certo desconhecimento de Sagan sobre a religião são o 7 e o 8. No capítulo 7, Sagan critica (e com razão) a histeria provocada pelos relatos de possessões demoníacas nos séculos passados. Mas, convenhamos, do jeito que o texto está escrito parece que a coloridíssima demonologia medieval persiste até hoje (ou seja, o autor recorre ao "espantalho")! OK, temos essas lamentáveis "sessões de descarrego" televisivas, mas o tempo dos íncubos e súcubos se foi há muito. Inclusive, pelo menos no que diz respeito ao catolicismo, é muito difícil que se ateste uma possessão. O ceticismo do padre Karras, de O Exorcista (meu filme de terror preferido), é a regra. Além disso, vale lembrar que, naquele tempo em que as pessoas tinham medo de ficarem grávidas de diabinhos, elas acreditavam em coisas bem esdrúxulas também do ponto de vista científico. Se a ciência não estava desenvolvida, por que a surpresa ao constatar tais crenças?

(um adendo: aos que se interessam pelo tema, confiram o texto de um jornalista que acompanhou uma sessão de exorcismo feita pelo padre espanhol Jose Antonio Fortea)


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Reprodução / "Íncubo", pintura de 1870. Sagan devia saber que esse tipo de demonologia está obsoleto há muito tempo.

O capítulo 8 fala das aparições (dentro do contexto maior das experiências com alienígenas). Sagan faz um bocado de perguntas sobre os motivos e o conteúdo das aparições que simplesmente não têm resposta fácil. Por que Nossa Senhora não avisa os chefões, em vez de gente simples? Por que os recados são tão prosaicos, do tipo "rezem o terço"? É efetivamente o tipo de coisa que não entenderemos nessa vida (já consigo ouvir gente me mandando reler a página 245, mas o que se pode fazer? É assim mesmo...). E é curioso ver como Sagan descarta de antemão as experiências de aparições como produto da mente (e novamente recorrendo ao truque da evidência suprimida quando, ao falar de Fátima, se concentra no conteúdo das mensagens e omite os sinais que a acompanharam, como o chamado "milagre do Sol"), enquanto conta, em outro ponto do livro, como quase foi execrado ao sugerir que uma certa pesquisa científica se mantivesse aberta à hipótese de haver vida extraterrestre.

E, por último, como um comentarista do blog já citou aqui em outra ocasião, temos o interessante capítulo 10 do livro, com a história do dragão na garagem. Mas ninguém reparou como a conclusão que Sagan tira da história bate de frente com o "ausência de evidência não é evidência de ausência" (p. 245 e 257), aliás também já citado aqui por outro comentarista do blog?

Não me entendam mal: eu sinceramente gostei do livro e recomendo a leitura. Inclusive já comprei outras obras de Sagan, e fiquei curioso para ver Cosmos. A defesa que ele faz, nos capítulos finais, do ensino e da valorização da ciência nas escolas e entre a criançada é comovente, e eu concordo inteiramente com ela. Mas percebi, ao longo do texto, falhas e incoerências que achei por bem comentar. Não vejo problema nenhum em ser cético a respeito de experiências religiosas, mas gostaria que a crítica fosse melhor embasada em vez de, por exemplo, recorrer à demonologia medieval como se ela estivesse em vigor ainda hoje, para mencionar apenas um dos truques retóricos que Sagan acertadamente condena, mas que também comete.

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Várias livrarias, reais e virtuais, têm o livro em estoque. Os preços vão de R$ 19,20 a R$ 27,50.

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Outros livros que já saíram no blog
Pilares do tempo - Ciência e religião na plenitude da vida (Stephen Jay Gould)
Galileu - Pelo copernicanismo e pela Igreja (Annibale Fantoli)

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