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Enviado por Marcio Antonio Campos, 08/01/2009 às 15:13

Quem foi à exposição do Darwin na Universidade Positivo e prestou atenção ao videozinho que é mostrado perto do fim da mostra vai reconhecer o autor da resposta de hoje à big question da Fundação John Templeton. O ensaio deste biólogo evolucionista é considerado por alguns amigos meus como o melhor da série, e não é difícil entender o motivo.

Kenneth Miller: é claro que não


Arquivo Brown University

Arquivo Brown University / Kenneth Miller não poupa críticas a criacionistas e adeptos do Design Inteligente.Kenneth Miller não poupa críticas a criacionistas e adeptos do Design Inteligente.
Como acabei de explicar acima, Kenneth Miller é um evolucionista, e o fato de ele crer em Deus não significa que ele poupará criacionistas e adeptos do Design Inteligente em seu texto. "Para ser ameaçado pela ciência, Deus teria de ser um substituto para a ignorância humana. Esse é o Deus dos criacionistas, do movimento do Design Inteligente, daqueles que buscam Deus na escuridão", afirma – Miller inclusive publicou, há alguns anos, um artigo em que pretende comprovar o erro do conceito de complexidade irredutível, uma das bases do Design Inteligente. Mas o mesmo argumento que o biólogo usa para rechaçar o criacionismo e o DI serve também para rebater os que pretendem negar Deus por meio da ciência.

O centro da tese de Miller é que devemos buscar Deus não por meio daquilo que não sabemos, ou não conseguimos explicar, mas justamente pelo que conhecemos. "Se Deus é real, precisamos encontrá-Lo em algum outro lugar – na luz brilhante do conhecimento humano, espiritual e científico. E que luz!", exclama. Miller diz que, graças à ciência, sabemos que estamos inseridos em um universo borbulhante de potencial criativo. E faz sentido perguntar o porquê de o universo ser assim. "Para a pessoa de fé, Deus é a resposta a essa questão", diz.

Miller dedicará boa parte do seu texto a desmontar as teses de ateus como Richard Dawkins e Daniel Dennett (o biólogo não menciona nomes, mas a quem mais ele poderia se referir ao falar de "brilhantes"?), para quem a religião e Deus não passam de muletas para gente fraca, que não suporta "as terríveis realidades reveladas pela ciência". Uma constatação necessária, diz Miller, é que o cientista também vive de fé. "Fé no fato de que o mundo é inteligível, e que há uma lógica na realidade que a mente humana pode explorar e compreender", descreve o biólogo. E o cientista, além de acreditar nisso, crê também que vale a pena o esforço para compreender essa lógica.

Dito isto, Miller segue para o que eu considero um dos melhores trechos do ensaio, ao explicar o grande erro dos ateus: "assumir que Deus é natural, e assim dentro da esfera do que a ciência pode pesquisar e testar. Ao fazer de Deus uma parte comum do mundo natural, e ao falhar em encontrá-Lo lá, eles concluem que Deus não existe. Mas Deus não é, nem pode ser parte da natureza; ele é a razão de a natureza existir, o motivo pelo qual as coisas são. Ele é a resposta para a existência, e não parte da existência em si."

E Miller continua lembrando que, para quem rejeita Deus, as leis da natureza existem apenas, digamos, "porque sim". O ateu abre mão de se perguntar os motivos da existência de um universo tão organizado, e cai na ingenuidade de achar que a vida é autoexplicativa. Quando comentei os ensaios de Victor Stenger e Michael Shermer, mostrei como certas posições ateístas acabam exigindo mais fé do que as crenças de um deísta. Até mesmo a afirmação de que Deus não existe implica em ter alguma fé (no caso, fé na inexistência de Deus). E, a julgar pelas mensagens dos ônibus londrinos, não parece uma fé tão sólida. Ou a publicidade diria apenas "There is no God", em vez de "There’s probably no God", concordam?

A consequência desse abrir mão é que o teísta se torna uma pessoa mais curiosa que um ateu, "porque ele busca uma explicação que é mais profunda do que aquilo que a ciência pode dar, uma explicação que inclui a ciência, mas vai além ao procurar a razão última pela qual a lógica da ciência funciona tão bem. A hipótese de Deus não vem de uma rejeição à ciência, mas de uma curiosidade penetrante que se pergunta por que a ciência é possível, e por que as leis da natureza estão aí para serem descobertas por nós", diz Miller.

O ponto central da argumentação de Miller está exposto acima, mas ele não para por aí. Para quem aponta as diferentes visões de Deus, de acordo com as diferentes religiões, o biólogo explica que algo semelhante ocorre com a ciência, já que há teorias que se contradizem. Se a ciência, mesmo com erros, desonestidades e fraudes, não deve ser jogada fora, por que fazer isso com a religião, sujeita às mesmas limitações humanas?

------

Kenneth Miller tem uma página no site da Brown University, onde leciona, mantém outro site com o colega Joe Levine, com quem escreveu um livro didático para o ensino médio, e ainda tem um site para seu livro Finding Darwin's God.

Este é um espaço público de debate de idéias. A Rede Paranaense de Comunicação (RPC) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
ancora
Comentários
Bia | 04/02/2009 | 23:35

"Ausencia de evidencia não é evidencia de ausencia" (Carl Sagan). Não temos provas da existencia de Deus, mas essa falta de provas não prova Sua inexistencia. Ha pouco tempo li um livro muito interessante sobre Ciencia e Religiao: "Variedades da Experiencia Cientifia - uma visão pessoal da busca por Deus" (publicação postuma de Carl Sagan)... é muito bom!!!!

Paulo | 11/01/2009 | 09:53

Ao Celito Medeiros. O "Big Bang", com caráter inflacionário, é a teoria científica que melhor explica as feições astronômicas observadas e suas implicações. Esta teoria propõe que toda a matéria e energia do Universo estavam concentrados em um ponto e que houve uma expansão súbita de massa e energia ("explosão") há cerca de 14 bilhões de anos AP. Isto não é produto de combustão, que ocorre na presença de oxigênio, mesmo porque ainda não existiam átomos deste elemento químico.

Mauricio | 09/01/2009 | 09:28

Se a filosofia não pode ser “enquadrada” como ciência, deve ser elevada a “mãe” dela! Todas as ciências, nasceram de sua acepção etimológica de “amor ao saber”, inerente a todos nós, seres humanos. Pois todos nós somos capazes de propormos grandes questões a respeito da vida e fazer a investigação crítica e racional de seus princípios fundamentais. Compartilho a opinião do Fabiano.

Costa | 08/01/2009 | 22:12

Vi num comentário abaixo que a Filosofia é enquadrada como "ciência". Só se for por similaridade às ditas ciências sociais e humanas, e ainda assim é 'forçar a amizade".

Lampedusa | 08/01/2009 | 20:37

Não percebi aonde está a contradição no uso do conceito "fé" na argumentação de Miller.

Adriano | 08/01/2009 | 19:49

Fabiano, o que o Philippe (e o Prof. Miller) está dizendo é que as ciências naturais se preocupam em estudar "como" as coisas que existem funcionam, mas não "por quê" as coisas existem. Em outras palavras, as questões que importam às ciências não são as mesmas que importam aos teístas, de forma que os dois conhecimentos não se anulam ou repelem. Pelo contrário, podem (e devem) se complementar.

Fabiano | 08/01/2009 | 17:51

Continuando do post anterior... Eu creio, por exemplo, que essa "inteligencia" (a qual prefiro denominar "complexidade") do universo se explica por fatores combinatórios quimicos e físicos possíveis pela matemática. Muitos preferem simplesmente dizer que essa complexidade é Deus. Tudo é uma questão de pontos de vista. Afinal, diante de tanta grandiosidade e vastidão de possibilidades, quem não se sentiria sob uma entidade praticamente divina?

Fabiano | 08/01/2009 | 17:43

Philippe, peço desculpas por que realmente posso estar escrevendo besteiras a respeito do pensamento do Prof. Miller, pois só pude ler pouca coisa do material escrito por ele. Discordo que deus está naquilo que a ciência não se propõe a explicar. Isso para mim seria resumir a ciência em si a Biologia, Física e Química, esquecendo ciências humanas como a Psicologia, Filosofia, Sociologia, etc. Mas aí muitas vezes recaímos no dilema da fé.

Philippe | 08/01/2009 | 17:32

Fabiano, Miller faz uma crítica a esta afirmação que você associa a ele. Para Miller, Deus não deve ser usado para preencher lacunas, mas deve explicar aquilo que a ciência não se propõe a fazer. A ciência tenta explicar e encontrar relações entre fenômenos naturais, mas nunca encontrar um sentido em toda esta "inteligência" do universo.

Fabiano | 08/01/2009 | 17:03

Além disso, em outro ponto de seu texto, o Professor confunde dois termos: fé e crença em Deus. Eu posso perfeitamente ter fé em muitas coisas (e realmente o tenho, como a fé na ciência em si) e não necessariamente ter que acreditar em deus. Outro equívoco do ensaio.

Fabiano | 08/01/2009 | 16:59

Discordo de vários pontos no texto. Ao dizer, por exemplo, que "Se Deus é real, precisamos encontrá-Lo em algum outro lugar – na luz brilhante do conhecimento humano, espiritual e científico. E que luz!" mas em outro ponto logo na frase seguinte se contradiz, dizendo "Para a pessoa de fé, Deus é a resposta a essa questão". Ou seja, "se não há resposta para o que procura, Deus é suficiente", caindo em um pensamento recorrente da Idade das Trevas do pensamento humano.

Philippe | 08/01/2009 | 16:51

Só faltou dizer que ele é católico.

Philippe | 08/01/2009 | 16:48

Sem dúvida o melhor da série!

Celito Medeiros | 08/01/2009 | 16:34

A respeito das considerações sobre a Ciência e a Religião, no que diz respeito à Criação ou Evolução deste Universo, de fato são assuntos complexos que para emitir opinião, há que compreender os dois lados da questão. Se a Teoria do 'Big Bang' é tida como a explosão que deu início a este Universo Físico, há que explicar o que explodiu, se nada existia para explodir. Por outro lado, explosão só é possível na presença de oxigênio e não se propaga no vácuo. Mas poderia ter uma terceira hipótese.

ancora

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