Terça-feira, 09/02/2010
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A primeira vez que vi alguma menção a Steno foi quando li Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods Jr. Uma nota de rodapé citava uma biografia de Steno, chamada The seashell on the mountaintop (Penguin, 2004), escrita por Alan Cutler. É o livro que eu recomendo hoje aos leitores do blog, aproveitando que depois de amanhã se comemora o dia do geólogo.
Steno (ou Niels Stensen, como foi batizado em sua Dinamarca natal) fez fama em toda a Europa na segunda metade do século 17 como um dos maiores anatomistas do continente. Manejava um bisturi como poucos, e foi nessa condição que ele chegou a Florença e encontrou um lugar na corte do grão-duque da Toscana, Ferdinando II de Médici. Antes mesmo de se tornar famoso, fez descobertas que ainda hoje levam seu nome, e também viu o que a inveja científica pode fazer, quando seu ex-mestre tentou levar o crédito por esses achados. Como anatomista, Steno tinha seu futuro garantido, mas um acontecimento incomum mudou completamente a direção de sua vida.
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Nicolau Steno passou de anatomista de renome internacional a fundador da Geologia.O tema intrigou Steno, que passou a pesquisar como objetos sólidos podiam ser encontrados dentro de outros sólidos. Isso valia tanto para fósseis, conchas, glossopetrae, até para inteiras camadas de pedra. Como resultado de suas pesquisas, Steno abriu a ostra do mundo. Não com a espada, como o personagem de As alegres comadres de Windsor (citado por Cutler), mas com a cabeça. Chamá-lo de fundador da Geologia não é exagero nenhum. Sua obra De solido intra solidum naturaliter contento dissertationis prodromus ("Discurso prévio a uma dissertação sobre um corpo sólido contido naturalmente num sólido", de 1669) lança as bases do estudo da terra. Diante de várias camadas de rocha, como saber quais vieram antes? Como essas camadas se formaram? Steno dará a explicação. Das diversas áreas em que a Geologia se dividiu com o tempo, as que mais se beneficiarão de seu trabalho serão a estratigrafia e a cristalografia.
Gabriel Bouys/AFP
O Grand Canyon é provavelmente o lugar do mundo onde melhor se pode entender, pela observação, as teorias de Steno.A biografia escrita por Cutler, no entanto, não se limita aos feitos científicos de Steno. Ela também ressalta a religiosidade do cientista. Criado como luterano, e convertido à Igreja Católica durante seu tempo na Itália, Steno via a presença de Deus na racionalidade do mundo, e seu trabalho como cientista, ao desvendar essa racionalidade, revelava os mecanismos divinos. E, em 1675, Steno foi ordenado padre, tornando-se bispo apenas dois anos depois. Ao entrar no sacerdócio, Steno abandonou as pesquisas científicas. Embora muitos possam ver nisso um sinal de incompatibilidade entre ciência e fé, Cutler esclarece que essa foi uma decisão pessoal de Steno. Era parte de sua personalidade não conseguir se dedicar com profundidade a duas coisas ao mesmo tempo. Mas Steno nunca rejeitou sua ciência, e Cutler conta casos de homilias em que Steno usava comparações científicas para explicar realidades espirituais. O jesuíta Atanásio Kircher tentou convencê-lo, sem sucesso, a continuar seu trabalho geológico – Kircher, aliás, é um dos coadjuvantes mais interessantes do livro. Hoje sabemos que muitas das teorias desse jesuíta alemão estavam erradas, mas é impossível desconsiderar a união entre ciência e religião quando vemos um padre movido pela curiosidade científica descendo a cratera do Vesúvio logo após uma erupção, segurado apenas por uma corda, para ver o que havia dentro da cratera do vulcão.
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Nicolau Steno foi enviado para o norte da Europa como bispo em terra de missão. Seu território incluía a Dinamarca, seu país natal.------
Eu comprei meu exemplar de The seashell on the mountaintop na Amazon; parece que a livraria não tem mais a obra no estoque. Mas na Barnes & Noble custa US$ 15.
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Outros livros que já saíram no blog
O mundo assombrado pelos demônios (Carl Sagan)
Pilares do tempo - Ciência e religião na plenitude da vida (Stephen Jay Gould)
Galileu - Pelo copernicanismo e pela Igreja (Annibale Fantoli)
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Marcio, provavelmente você conhece esse assunto, mas, caso não, entre no site: http://paleobiology.si.edu/burgess/index.html É só um apritivo de um dos assuntos mais interessantes que existem sobre a evolução das espécies. É tão bizarro, que nem parece ciência, mas é paleontologia pura. S.J. Gould me iniciou no assunto. Abs. Parabéns pelo Blog. Fábio
aarbiomusic | 30/05/2009 | 11:43Lembro meus professores de Paleonto e Geologia falando das contribuições desse homem para a ciência! Realmente bem boa a dica! Inclusive para saber quais foram os motivos, que segundo Cutler, levaram o luterano converter-se à igreja romana.
Pedro Ravazzano | 29/05/2009 | 10:06Márcio, Excelente artigo. A "descoberta" de Beato Nicolau Steno foi uma das melhores coisas da semana, hehehe. Pena que em português não haja publicações sobre a sua vida e obra! Ele merecia uma ampla divulgação. Abraços, Pedro Ravazzano http://acarajeconservador.blogspot.com/
Helder de Godoy | 29/05/2009 | 10:02Achei excelente a "reportagem" sobre o livro de Steno. Sou geólogo e aprendi na escola sobre Steno mas nunca tinha ouvido falar que ele era sacerdote.Parabéns.
Marcio Antonio Campos | 28/05/2009 | 22:18Se eu entregar tudo aqui, a coisa perde a graça; a ideia de eu recomendar um livro no blog é que vocês procurem lê-lo :-)
? | 28/05/2009 | 18:27Tá. E de onde vem as conchas e os dentes de tuburão no alto da montanha?
Julio Cesar Pereira | 28/05/2009 | 17:08Existem cientistas que apesar da importância de seu trabalho e descobertas foram esquecidos. O Serviço Mundial da BBC de Londres transmitiu uma série chamada "The Secret Scientists" onde tenta resgatar cientistas de origem árabes que viveram numa época de esplendor enquanto a Europa vivia o auge da Idade das Trevas. O site é www.bbc.co.uk/worldservice
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