Terça-feira, 09/02/2010
A seguir, coloco no blog a íntegra da entrevista com o padre George Coyne que está saindo hoje na página semanal de Ciência do caderno Mundo. É verdade que o padre Coyne saiu na Folha outro dia desses, mas quando o Mais! publicou a matéria sobre Galileu, o padre Coyne já havia concordado em dar entrevista ao Tubo de Ensaio. Além disso, os assuntos das duas entrevistas são completamente diferentes. Confiram aí:
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Gilberto Yamamoto

Recentemente, cientistas britânicos conseguiram criar nucleotídeos de RNA em laboratório, um passo inicial no caminho até que se possa criar vida em experiências científicas. Como isso se relaciona à sua teoria sobre o "universo fértil"?
Este trabalho mostra que, embora ainda não saibamos como a vida surgiu no mundo, os cientistas estão obtendo grandes passos na aventura de descobrir e explicar as origens da vida. A fertilidade do universo é algo descoberto pelos cientistas, não é algo criado por eles. O "universo fértil" é a melhor explicação científica para mostrar como o universo evoluiu até ser capaz de providenciar as condições para o surgimento da vida. Ao longo de 14 bilhões de anos, bilhões e bilhões de estrelas nasceram e morreram para dar ao universo a abundância de elementos químicos necessários à vida.
O físico protestante Howard van Till alega que teólogos do início do Cristianismo, como São Basílio (330-379) e Santo Agostinho (354-430), já haviam falado do universo como uma criação sem "buracos" que precisassem ser preenchidos por intervenções divinas diretas. O senhor diria que esses santos chegaram a vislumbrar o "universo fértil"?
Em um certo sentido sim, porque eles efetivamente tiveram a intuição de que Deus criou o universo de forma que não precisasse ficar mexendo nele, podemos dizer assim. Mas obviamente Basílio e Agostinho não tinham como saber a idade do universo, o número de estrelas ou a natureza das reações termonucleares – todos ingredientes do "universo fértil".
Se Deus não é necessário para explicar pontos-chave da história do universo, como o surgimento da vida, o que sobra para Ele fazer no mundo?
Para quem crê em Deus e no fato de que Ele criou o universo, segue-se que Deus continua lidando com a criação, sustentando-a sem interferir nos processos naturais que Ele mesmo designou. Deus é amor, e só isso já é um trabalho em tempo integral. Se você é capaz de entender como dois amantes sustentam um ao outro, é possível começar a compreender como Deus sustenta o universo. Um teólogo poderia aprofundar esta questão, mas minha formação é outra.
As pessoas religiosas acreditam em milagres e na Providência divina, que seriam meios de Deus agir no mundo. Como conciliar essa crença com a visão de um Deus não-interferente?
De fato, Deus opera milagres, dos quais o maior é a ressurreição de Cristo. Então ele interfere no mundo, e também é providente, mas principalmente por meio da própria natureza. Na minha opinião, essas intervenções são muito raras, e compete a Ele, não a nós, decidir quando a Providência age.
Divulgação/Observatório Vaticano
Para o padre Coyne, Deus não pode ser visto como um "Deus de explicação", e sim como um Deus de amor.O senhor é um ferrenho defensor da teoria da evolução. A seleção natural e outros processos evolucionários fazem parte do "universo fértil" que o senhor defende?
O universo fértil é a evolução na escala cosmológica – ou, se você prefere, evolução cosmológica. Já a evolução neodarwiniana ocorre na escala biológica. Temos bons motivos para falar em evolução cosmológica, física, química e biológica, mas não podemos perder de vista o fato de que há uma continuidade na evolução permeando todos os níveis de existência no universo.
Qual a sua opinião sobre o trabalho de escritores-cientistas que associam evolução e ateísmo?
Infelizmente, há cientistas – e muitos deles brilhantes em seu campo de atuação – que extrapolam a ciência para promover uma ideologia. A ciência é completamente neutra em relação a questões que estão fora de sua metodologia, e a "questão Deus" é uma delas.
O senhor é padre e trabalha em uma universidade laica. Como colegas e alunos veem a relação entre ciência e religião?
Nunca vi um colega questionando minhas credenciais científicas por causa de minha fé. Quanto aos alunos e o público em geral, percebo neles uma curiosidade em relação ao cientista que também é padre. É uma curiosidade saudável, que merece uma resposta honesta. E essa resposta é tentar levar essas pessoas a experimentar aquilo que eu experimentei: o êxtase que tanto a pesquisa quanto a fé religiosa proporcionam. Dar exemplo é muito mais importante que falar.
Qual o futuro da relação entre ciência e religião?
Eu sou um otimista. No entanto, existem razões mais que suficientes para ser realista e aceitar que os fundamentalismos são um sério obstáculo ao diálogo.
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Mais Coyne para os leitores
E aqui segue uma "faixa bônus" para quem tirou um tempo e veio conferir a entrevista do padre Coyne no Tubo de Ensaio – uma conversa entre o sacerdote astrônomo e Richard Dawkins, gravada para um DVD do biólogo e escritor britânico. No YouTube ela está dividida em sete partes, mas se eu copiei o link certo vocês poderão ver a entrevista toda na tela aí de baixo (assim que uma parte termina, a outra carrega automaticamente).
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Lampedusa, infelizmente a religião tenta interferir não apenas na parte que ela considera moral, mas também na interpretação de dados científicos, como nas declarações do papa sobre a AIDS na África.
Lampedusa | 10/07/2009 | 16:27Não foram as "realidades" que mudaram , apenas foram compreendidas/descobertas. E como o texto bíblico não é um livro de ciências, mas uma tentativa de fazer entender a origem e o fim da criação usavam termos inteligíveis para o homem comum e, portanto, deve ser, sim, interpretada à luz da realidade conforme se entende e descobre ao longo dos tempos.
Júlio César Pereira | 10/07/2009 | 10:44Os judeus diziam ser o povo escolhido de Deus. Os cristãos quebraramesta barreira étnica mas, a medida que seu credo se expandia também se mostraram excludentes e o mesmo par os muçulmanos. A cada nova descoberta, o mundo se tornara menor e as escrituras interpretadas de modo a se adaptarem às novas realidades. Coyne aqui já admite que Deus falaria também com seres extraterestres. Diferentemente, a Teoria da Evolução estabeleceu o curso para estas mudanças ao invés de seguir a reboque delas.
Lampedusa | 09/07/2009 | 19:08Lauro, quanto a chamar de criacionismo a maneira como Pe. Coyne desenvolve suas teses sobre a origem dos seres, eu diria que isso é correto se atribuir tal termo para todos os que creem que o Universo é uma criação. Mas não me parece justo colocá-lo no mesmo balaio dos que creem na transcriação literal do Gênesis...
Lampedusa | 09/07/2009 | 19:04Quanto à questão dos milagres, creio que é necessário entender o que a Igreja chama de milagre: é aquele fato (a cura de uma doença, p. ex.) que não pode ser explicada pela ciência ocorrida com um paciente que rezava especificamente por essa cura. Já em relação à intromissão da religião em temas como aborto, células-tronco embrionárias, etc temos de ter em conta que a Igreja se manifesta quanto à moralidade de tais atos (que é de sua alçada) e não sobre como conduzir tais fatos cientificamente.
Lampedusa | 09/07/2009 | 17:21Paulo, creio que sejam coisas diferentes. Afirmar que certos fenômenos que antes se atribuia à intervenção divina e hoje a ciência explica eles por causas naturais leva à conclusão de que Deus não existe não é correto. Apenas pode-se concluir que tais fenômenos têm causas naturais.
Paulo | 08/07/2009 | 23:55O padre Coyne está praticando a forma mais recente de criacionismo, semelhante ao do padre Teilhard de Chardin nos idos de 1940 e do biólogo Newton Freire-Maia nos idos de 1980: "deus proveu as condições iniciais e desde então o universo segue o seu curso ainda que sob sua estreita supervisão". Sem dúvida, sua forma mais avançada, muito mais estruturada intelectualmente do que o patético bispo Schoborn e o pitoresco biólogo Tarcísio Vieira, mas ainda assim é criacionismo.
Paulo | 08/07/2009 | 23:30Concordo com o Lauro. Se a hipótese deus não pode ser avaliada pela ciência, como é que as religiões em geral e a igreja católica em particular podem afirmar que a "restauração" de uma perna (sic), o exorcismo de demônios e as manifestações correlatas foram feitas por um deus ou por intermédio dele?
Paulo | 08/07/2009 | 23:23Falar da possível não existência de deus por meio da ciência não é ideologia, mas sim uma conclusão proveniente do conjunto de conhecimentos que permitem explicar, ainda que de modo incompleto, as feições naturais sem a necessidade de um ator sobrenatural. E não há dúvidas que existem outras formas de conhecimento, que não o científico, que admitem a hipótese de existência de um ser sobrenatural, como é o caso da filosofia. Mas isto não quer dizer que seja deus e muito menos o deus cristão.
Lauro | 08/07/2009 | 11:43Lampedusa, e quais seriam esses elementos além dos "materiais" a qual você se refere? E também é interessante notar que geralmente a religião restrige o acesso de "seus assuntos" à ciência (justamente falando que eles não podem ser mensuráveis por ela, por seus padrões), mas gostaria de salientar que a religião sempre entra no campo científico para deixar sua validação, seja falando da criação do universo, células tronco, mente humana, moral, leis, AIDS, etc. Por que o contrário é tão polêmico?
Lampedusa | 07/07/2009 | 20:02Lauro, a "hipótese" Deus -inerente ao conceito de criação - não é passível de aferição pelos métodos científicos, pois estes se restringem a elementos materiais (no sentido amplo do termo, isto é, incluindo energia, força, etc).
Marcio Antonio Campos | 07/07/2009 | 16:54Lauro, acompanhei a passagem do Dawkins pela Flip. O Irinêo Netto, que cobriu o evento para a Gazeta do Povo, talvez faça uma participação especial no Tubo de Ensaio nos próximos dias.
Marcio Monteiro | 07/07/2009 | 13:20Parabéns xará pela bela matéria com este sensacional Pe. George Coyne! Já havia assistido no DISCOVERY um documentário com ele no Observatório do Vaticano. O homem é fera!! São estes sacerdotes que nos fazem ter certeza das palavras imortais de CRISTO sobre a SUA Igreja: ...E as portas do inferno jamais prevalecerão contra ti.
Lauro | 07/07/2009 | 11:44Márcio, está acontecendo a Feira com a presença do Dawkins aqui no Brasil. Como ele é figurinha carimbada dos assuntos discutidos aqui, seria legal dar uma olhada: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=902933&tit=Os-melhores-momentos-da-Flip Tem algumas coisas bem interessantes, inclusive seu lamento quanto a falta de interesse das pessosa por Darwin. Vale a pena. Abraços.
Lauro | 07/07/2009 | 11:39Lampedusa, quando você diz que "Mas o método científico não é a única forma válida de conhecimento para o homem", eu gostaria de saber quais seriam essas outras formas e se elas são tão confiáveis e acessíveis quanto a científica, até para levarmos o debate mais profundamente. Abraços!
Lauro | 07/07/2009 | 11:36Lampedusa, porque "o mundo como criação não é e nem nunca será passível de comprovação científica, pois foge do objeto das ciências"? Não fica uma afirmação um pouco determinista e conclusiva demais? Somente porque a ciência ainda não conseguiu comprovar algo não quer dizer que não pode estudar e algum dia chegar a uma conclusão. E creio que a criação do mundo, do universo é sim objeto das ciências, pois existem vários campos que cobrem todo o espectro do conhecimento.
Lampedusa | 06/07/2009 | 15:54Lauro, quando Dawkins afirma que a Teoria da Evolução e a fé em Deus são incompatíveis ele está fazendo uma afirmação de cunho ideológico e não científica. E entendo que o que o Coyne afirma sobre o mundo como criação não é e nem nunca será passível de comprovação científica, pois foge do objeto das ciências. Mas o método científico não é a única forma válida de conhecimento para o homem. Se entendi corretamente Coyne eu diria que falar que o universo é fértil é o mesmo que dizer que evolui.
Lauro | 06/07/2009 | 12:41O que o comportamento científico mostra é que o pesquisador tem que ficar preparado para que sua hipótese esteja errada, justamente para não adaptar suas descobertas com suas espectativas. O que Coyne falou faz sentido (do ponto de vista religioso), mas não pode ser tomado como uma teoria válida enquanto não tiver o mínimo de comprovação (científica, não religiosa), porque a ciência precisa destas provas e fatos.
Lauro | 06/07/2009 | 12:35Lampedusa, discordo quando diz que "'os Dawkins' tentam falar da não existência de Deus como ciência e não reconhecem que é apenas sua ideologia"; acredito que Dawkins e muitos outros descobriram o ateísmo através da ciência e não eram ateus que buscavam a ciência para fundamentá-la. A ciência responde muitas perguntas que as pessoas anteriormente usavam a religião para obtê-las. Seria uma atitude anti-científica buscar uma teoria que se enquadre com sua ideologia, o que não é o caso de Dawkins.
Lauro | 06/07/2009 | 12:27É interessante reparar como pensa um religioso com formação científica.O universo fértil é algo que nem a ciência ou a religião tem como comprovar (ou concordar) no momento. Quando Coyne diz "Deus continua lidando com a criação, sustentando-a sem interferir nos processos naturais que Ele mesmo designou", fico curioso em saber a opinião de outros religiosos sobre o assunto. Acho que nem outros católicos concordam com isso, sobretudo na parte dos milagres que ele expõe em seguida.
Carlos Eduardo | 06/07/2009 | 10:58Muito boa entrevista. Como diria um velho sábio: "Rezar é falta de fé. Deus sabe bem o que faz."
Lampedusa | 06/07/2009 | 10:46Ah, Márcio, parabéns pela entrevista! Está excelente.
Lampedusa | 06/07/2009 | 10:45Se definirmos ideologia como um conjunto de idéias concatenadas eu concordo que Coyne está, ao colocar o universo como criação, introduzindo ideologia, isto é, afirmando algo fora do campo da ciênca. A diferença entre ele e os "Dawkins da vida" é que ele reconhece e afirma isso, enquanto "os Dawkins" tentam falar da não existência de Deus como ciência e não reconhecem que é apenas sua ideologia.
José Aparecido Fiori | 05/07/2009 | 10:16Se vc partir da premissa de que a vida faz parte de um sistema, e que todo sistema é vida, até o mineral "inanimado", até e poeira do teus restos mortais (memento, tu es pulvis et in pulveris reverteris!), então pode até sintetizar a vida "artificialmente", o que não prescinde a "norma fundamental" de que a vida é matéria e vice-versa, e tudo é eterno, "nada muda, tudo permanece" (Heráclito). E que a temporalidade, ou vamos dizer as teorias e a relatividade, são indícios da eternidade...
Bruno H, | 05/07/2009 | 09:11Ao conseguir sintetizar nucleotídeos de RNA em laboratório, os britânicos conseguiram, na minha opinião, diminuir a força da teoria do universo fértil e não colaborar com ela.
José Aparecido Fiori | 05/07/2009 | 09:05Penso que ao presumir um "universo fértil", ainda que esterilizado pela ciência, o padre não esteja impondo nenhum tipo de ideologia, ainda que ideologia, vista pela ótica da religião. Ele deixou claro "a questão do amor", banalizado hodiernamente, como condicionante primevo da fertilidade.
Paulo | 05/07/2009 | 00:24"Infelizmente, há cientistas – e muitos deles brilhantes em seu campo de atuação – que extrapolam a ciência para promover uma ideologia. A ciência é completamente neutra em relação a questões que estão fora de sua metodologia, e a "questão Deus" é uma delas." Se isto é verdade, então o padre Coyne ao colocar deus como sendo o início do seu "universo fértil" está praticando... ideologia, pois não há evidência material que sustente esta hipótese.
Alexandre Zabot | 04/07/2009 | 17:42Sensacional Marcio! Parabéns!
José Aparecido Fiori | 04/07/2009 | 15:46Na entrevista, o padre Geroge Coyne dá um curso de sabedoria, relacionando a evolução cosmológica à Criação e/ou aos desígnios divinos. E como ele próprio diz, de pouco valeriam as palavras, senão o exemplo que extasia, quer em condições de contemplação pela fé, ou pela ciência. Podíamos até dizer que o universo está grávido de Deus através do amor implícito, que os seres criados podem degustá-lo por analogia: o prazer.
Pedro Ravazzano | 04/07/2009 | 11:29Muito boa a entrevista! Parabéns!
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