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Enviado por Marcio Antonio Campos, 18/12/2008 às 12:07

Tenho de admitir que, quando li a resposta de Victor Stenger à big question da Fundação John Templeton, achei que não podia encontrar mais nada tão, digamos, estranho. Mas eu estava enganado.

Michael Shermer – depende

Shermer é o fundador da Skeptics Society, que eu já mencionei aqui no blog, e é editor da revista Skeptic. Então, vamos ver o que ele quer dizer com esse "depende". Para Shermer, a resposta varia de acordo com a ênfase que se coloca, ou em crença, ou em Deus. A crença, diz ele, não fica obsoleta por causa da ciência: 4 em cada 10 cientistas norte-americanos crêem em Deus, e em 2005 uma pesquisa demonstrou que 68% dos protestantes e 69% dos católicos nos Estados Unidos aceitavam a evolução. Então não será nisso que Shermer gastará seu arsenal.


www.michaelshermer.com

www.michaelshermer.com / Michael Shermer, fundador da Skeptics Society, diz que não poderíamos diferenciar Deus de um alienígena muito inteligente.Michael Shermer, fundador da Skeptics Society, diz que não poderíamos diferenciar Deus de um alienígena muito inteligente.
Diz ele que a ciência não torna a crença em Deus obsoleta, mas que torna o próprio Deus obsoleto (está lá, na última frase do ensaio). Só que, para isso, é preciso levar a ciência às últimas conseqüências. "A maioria das religiões ocidentais descreve Deus como onisciente e onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis [de fato, esse é um artigo do Credo niceno-constantinopolitano], um Designer Inteligente capaz de construir o universo, a Terra, a vida, e nós", afirma Shermer. Pois bem: então, o que chamamos de "Deus" poderia muito bem ser... um alienígena extremamente poderoso e inteligente! Shermer até elabora uma "lei" à qual dá seu nome, segundo a qual não seria possível diferenciar "Deus" de qualquer inteligência extraterrestre suficientemente avançada.

O raciocínio de Shermer é o seguinte: devido ao tamanho do universo, e à nossa atual tecnologia, se um dia fizermos contato com algum ET, ele será inevitavelmente mais inteligente que nós, pois terá chegado mais perto de nós do que nós teríamos chegado perto dele. E, considerando os avanços da ciência humana, em 50 anos conseguimos um poder, por exemplo, sobre nossos genes que era inimaginável. Se mostrássemos a um homem de 1950 um rato com uma orelha humana nas costas, ele jamais acreditaria que "fomos nós" que fizemos aquilo. Pois bem: imaginemos um alien que estivesse 50 mil anos à nossa frente em desenvolvimento tecnológico. Que coisas ele não seria capaz de fazer, e que seriam inexplicáveis para nós? E 50 mil anos nem seriam tanta coisa assim. E se o extraterrestre estivesse, sei lá, 1 milhão de anos à nossa frente? Ele não poderia criar estrelas, quem sabe um universo inteiro? "Como chamaríamos uma inteligência capaz de criar um universo, estrelas, planetas, e vida? Se nós conhecêssemos a ciência e a tecnologia envolvidas, chamaríamos de inteligência extraterrestre; se não conhecêssemos, chamaríamos de Deus", conclui. Ou seja, os deuses eram mesmo astronautas...

O problema de Shermer é o mesmo que eu já havia apontado lá no primeiro ensaio, do Steven Pinker: cria-se um Deus ao seu modo para que se possa espancá-lo convenientemente. De fato, as propriedades do Deus judaico-cristão (é inevitável pensar que estejamos falando desse Deus) incluem aquelas citadas pelo editor da Skeptic; mas não se resumem àquilo. Para ser Deus, por exemplo, Ele tem de ser eterno e ser causa primeira de todas as coisas; mas o super-alien de Shermer não é nada disso, como ele mesmo diz: "o único Deus que a ciência poderia descobrir seria um ser natural, uma entidade que existe no espaço e no tempo, e é limitada pelas leis da natureza." A questão é que um ser assim simplesmente não pode ser Deus! Shermer continua, talvez sem perceber o tiro no pé: "um Deus sobrenatural seria tão totalmente um Outro que ciência nenhuma poderia conhecê-Lo." Essa frase faz muito sentido – e talvez por isso mesmo ela derrube todo o resto do ensaio. Ninguém está presumindo que Deus seja "captável em laboratório". Pelo menos não os crentes sensatos. Deus efetivamente é sobrenatural. Então, se tal Deus não pode ser conhecido pela ciência, conseqüentemente também não pode ser negado por ela; assim, a ciência, no fim das contas, não poderia tornar Deus obsoleto. Bem o contrário do que Shermer diz.

Quando os espanhóis desembarcaram no Novo Mundo, os povos pré-colombianos também acharam que aqueles caras que vinham do mar num negócio enorme de madeira eram deuses. Pode ter demorado um pouco, mas os índios descobriram que não era bem assim. Por que seria diferente com o super-alien de Shermer?

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Além da Skeptics Society, Shermer também tem um site oficial.

Este é um espaço público de debate de idéias. A Rede Paranaense de Comunicação (RPC) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
ancora
Comentários
Luiz Lima | 20/02/2009 | 15:36

Shermer ironicamente reedita a tese do DEUS-ET. Isso explica então porque ELE recentemente parou de causar dilúvios e "parar" o sol a seu bel prazer com sua tecnologia digamos, "trekie" . Soem as trombetas dá pra disfarçar bem os "fasers". ELE recentemente passou a respeitar a diretriz primeira do não inervencionismo em seres menos desenvolvidos, afim de se evitar os inevitáveis parodoxos temporais que davam audiência e o que fazer.

Marco | 26/12/2008 | 16:04

Lampedusa, pois é exatamente isto que eu gostaria: que você explicasse o seu conceito!

Lampedusa | 21/12/2008 | 00:40

Marco, para tentar responder à sua colocação precisaria saber o que você entende por "Ato Puro de Ser", pois parece-me que não estamos falando do mesmo conceito.

Marco | 20/12/2008 | 13:53

Lampedusa, as suas palavras são bonitas, mas elas também servem para o islã, o ateísmo etc. o "ato puro de ser" serve tb, p.ex., para explicar a nossa existência sem a necessidade de um deus, já que ele não é o "grande arquiteto"...

Lampedusa | 20/12/2008 | 13:11

Marco, quanto à sua pergunta, o que tenho a dizer é que o Deus da tradição judaico-cristã é o Deus que pode ser compreendido da filosofia aristotélica-tomista, isto é, Deus é a causa incausada e o Ato Puro de Ser. Não é o deus representado por muitas das respostas dadas à Templeton (inclusive por alguns crentes): o deus dos deístas iluministas, isto é, uma espécie de "Relojoeiro universal" ou "Grande Arquiteto do universo.

Lampedusa | 20/12/2008 | 13:05

Marco Antes de responder sua pergunta (não me atentei a ela quando li a primeira vez seu post), quero esclarecer que eu não afirmei que os ateus são imorais ou irresponsáveis!

Marco | 20/12/2008 | 03:17

é aplicável às duas coisas, se for o caso. Mas vc não respondeu à pergunta...

Adriano | 20/12/2008 | 01:21

\"Oras bolas, cada ser humano é onisciente, onipotente e onipresente de sua própria vida\" Cuspiram no Freud quando ele contestou isso aí... Enfim, não é o que diz a Psicologia e a própria realidade. Tende a desconsiderar os condicionamentos e, pior ainda, parece extrair do conceito de vida seu aspecto relacional, ou seja, a influência dos outros (e das nossas relações com os outros) em nós mesmos. Péssima teoria.

Lampedusa | 19/12/2008 | 19:29

Marco, Minha intenção foi tão somente esclarecer que o argumento aqui aventado de que a crença em Deus é um fenômeno psicológico assemelhado a uma espécie de "egocentrismo" como afirmou o Thiago no primeiro comentário e elogiado por outros é falacioso e igualmente aplicável ao ateísmo se quisermos manter tal falácia. Ou você apenas concorda que ele é aplicável ao teísmo?

Marco | 19/12/2008 | 16:10

Lampedusa, ser ateísta não é igual a ter soberba, ser irresponsável ou não ter moral. Se você pensa isto e os descreve assim, você está agindo com soberba e a certeza de saber toda a verdade. Você poderia explicar de que deus fala, sem usar floreios lingüísticos, usando explicações inteligíveis?

Lampedusa | 19/12/2008 | 10:56

E, completando o que disse antes, pode-se também usar esse "psicologismo" para explicar o ateísmo: reflexo de uma desmesurada soberba que leva a negar Deus para, de fato, por-se em Seu lugar e não ter limites além dos auto-impostos já que somos ou pretendemos ser "onisciente, onipotente e onipresente de sua própria vida, e detentor de seu próprio destino por meio de suas próprias ações."

Lampedusa | 19/12/2008 | 10:50

Gostei, também, da interpretação do Thiago, mas por outros motivos: ela realmente pode ser usada para compreender a imagem que muitos fazem de Deus e que em nada reflete o conceito de Deus da tradição judaico-cristã. E é esse Deus, criado por auto-referência, que é negado (também por mim) por muitos dos que se dizem ateus. Uma grande parte dos argumentos ateístas dirigem-se a um conceito de Deus que não é, de fato, Deus.

Rosny Aryon Conrad | 19/12/2008 | 10:00

Meu comentário vai em forma de pergunta = Se Deus criou o mundo; água,terra,animais etc.tem tanto poder que faz germinar a semente,faz chover, fêz os rios correrem, a água brotar da terra e tudo mais e diz-se que é tudo perfeito, porquê ele Deus deixa acontecer tantas e tantas catástrofes, enchentes, furacões, tsunamis,guerras, doenças etc. matando milhares e milhares de pessoas inocentes e animais todos os anos se ele é tão poderoso? Eu sou religioso e me esforço acreditar que Deus existe...

Marco | 19/12/2008 | 02:24

o Thiago está certo. Crer em deus nada mais é do que onanismo, nada a ver com 'theos', mas sim com egocentrismo. Uma explicação necessária para si mesmo. Só quando entendermos isto é que deixaremos de empurrar tudo para os 'outros', inclusive a uma figura nominada 'deus'.

Mauricio | 18/12/2008 | 15:13

Gostei da interpretação do thiago - Assim como os deuses gregos e romanos eram carregados de representações das virtudes e fraquezas do Homem, essa forma de interpretar o deus judaico-cristão, que adotamos na nossa era, faz todo o sentido. Ah! Marcio, acho que vc levou o termo "Alien", que Shermer usou muito ao pé-da-letra!

Jonathan Friesen | 18/12/2008 | 14:54

Palmas para o artigo. Evidenciou rapidamente o "conflito" que a ciência criou ao tentar demonstrar que Deus (não) existe. Tentamos tratar de conceitos diferentes sob um mesmo contexto, bem colocada a expressão: "Deus efetivamente é sobrenatural. Então, se tal Deus não pode ser conhecido pela ciência, conseqüentemente também não pode ser negado por ela".

Anonimo | 18/12/2008 | 14:19

Pois os vossos pensamentos não são os meus pensamentos, nem os meus caminhos, os vossos caminhos salmos 55:8-11 Perda de tempo, ficar filosofando sobre oque é Deus. Sabemos(ou não) oque precisamos saber. Devemos estar nos preditos últimos dias, (digo devemos estar porque nunca esteve tanto). mateus 24. Ainda vai piorar muito, antes de melhorar muito, e infelizmente a maioria não vai estar aqui para saber como é a melhor parte, provavelmente nem eu. http://seulink.com.br/TKDOM

thiago | 18/12/2008 | 13:55

algo que sempre me ocorre é que Deus, da maneira que conceituamos e utilizamos, talvez seja uma representação de nós mesmos. Como se estivéssemos falando de nós mesmos, só que em 2ª pessoa. Afinal de contas, a oração é um pedido/desabafo ou seja lá o que for, de nossa própria consciência. Oras bolas, cada ser humano é onisciente, onipotente e onipresente de sua própria vida, e detentor de seu próprio destino por meio de suas próprias ações. O que me faz pensar que crer em Deus é egocentrismo.

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