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Blog Alexandre Borges
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A questão nunca é a questão

Ciro Gomes, numa palestra na Faculdade de Direito da USP no Largo São Francisco na última quinta, deu mais uma demonstração de sua sofisticação intelectual e riqueza vocabular.

Segundo nota de repúdio publicada por alguns alunos, o presidenciável se referiu a João Dória Jr. como “um viado com areia no c*” (leia a matéria da Veja sobre a polêmica aqui). A assessoria de imprensa de Ciro Gomes negou o ocorrido e não há registro em áudio ou vídeo, portanto temos apenas versões conflitantes sobre o que realmente aconteceu.

“Eu pego um viado cheio de areia no c…, que nem o João Doria, e encho de porrada“.

Agora imagine se outro presidenciável, Jair Bolsonaro, proferisse a mesma frase. Pense no tsunami de hashtags e comentários indignados, colunas de jornal, comentários de analistas e até a reação de outros deputados ou do Ministério Público. No mínimo, seria acusado de preconceito contra gays e incapaz de concorrer à presidência. Como é Ciro Gomes, uma das opções da esquerda para 2018, vira apenas notinhas de jornal e vida que segue, é tudo creditado à proverbial verborragia do coronel.

Quando Lula disse que Pelotas era um “polo exportador de viados“, silêncio. Quando falou das “companheiras de grelo duro”, as feministas “se dividiram” (leia aqui). Sobre Clara Ant, numa conversa grampeada com Dilma Rousseff, disse: “A Clara estava dormindo sozinha quando entraram cinco homens lá dentro. Ela pensou que era um presente de Deus, e era a Polícia Federal.” A “presidenta” riu. Qualquer um que tenha alguma intimidade com o meio político brasileiro sabe como Lula se refere em conversas particulares a mulheres e gays.

Nunca caia no conto dos autodeclarados “justiceiros sociais”, ou “cafetões de minorias“, como batizados num artigo publicado na Gazeta do Povo em 2014. Lembrando o que disse um membro do SDS (Students for a Democratic Society), movimento estudantil comunista que liderou a renovação da esquerda americana no final da década de 60, “the issue is never the issue, the issue is always the revolution”, ou “a questão nunca é a questão, a questão é sempre a revolução” numa tradução livre.

A geração Woodstock, jovens radicais que odiavam a América com o mesmo fervor que amavam Fidel Castro, Mao e Ho Chi Minh e que hoje está no poder, abraçou o pós-modernismo e a idéia de que não há verdade objetiva, apenas versões que dependem das idéias (e preconceitos) do observador. Como não poderiam ficar no vazio niilista de que não há verdade e, portanto, não há nada a fazer, preencheram o vácuo ideológico com o velho marxismo e sua análise das estruturas de poder. Em vez da busca da verdade, apenas a busca de “opressores” e “oprimidos” dentro da ótica marxista, fabricando narrativas que sirvam ao objetivo revolucionário de transformação do mundo.

Se você quiser entender como pensa a esquerda pós-modernista que comanda a indústria cultural, as universidades e o jornalismo, com raras e honrosas exceções, essa turma que tem a indignação seletiva e a perseguição à liberdade de expressão como parte essencial de sua estratégia política, leia o ótimo “Explicando o Pós-Modernismo”, do filósofo canadense Stephen Hicks, publicado no Brasil pela editora Callis.

O pós-modernismo ajuda a explicar a atual irracionalidade do debate político ocidental e o surrealismo de certas reações aos acontecimentos do dia a dia, que acabam sendo lidos de maneira totalmente distinta dependendo da agenda ideológica que se quer empurrar goela abaixo do leitor. É o que explica as manchetes que descrevem atentados de terroristas islâmicos como “Caminhão atropela pessoas” ou que trataram Donald Trump como “machista” quando sua concorrente é casada com um predador sexual de verdade.

Mais do que uma disputa ideológica, o que está em questão hoje no mundo é a prevalência ou não da busca da verdade dos fatos na política, na economia, nas universidades e no jornalismo. Com o vale-tudo ideológico do “politicamente correto”, um eufemismo para mentira com objetivo político, não há qualquer esperança para a democracia liberal como se conhece no Ocidente, o regime mais livre e próspero já testado na história da humanidade.