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Blog Alexandre Borges

O.J. Simpson, Lula e a justiça pós-moderna

Separe um tempo e veja O Povo contra O. J. Simpson, primeira temporada da série American Crime Story disponível no Netflix. Você não vai se arrepender.

A série reconstrói com rara competência o “julgamento do século”, evento que parou os EUA em meados dos anos 90 criando uma experiência hipnotizante sobre um dos pontos de inflexão da história recente. É talvez o primeiro e mais icônico julgamento pós-modernista em que o que menos importava era decidir se o réu cometeu ou não o crime.

O Povo contra O. J. Simpson venceu os principais prêmios que concorreu como o Emmy e o Globo de Ouro e é mais uma prova de que a televisão cada vez mais toma o lugar do cinema em criatividade, originalidade e qualidade de produção audiovisual. A série é irretocável, uma obra-prima cujo único erro inexplicável é a escolha de um nada convincente Cuba Gooding Jr. para o papel principal. O desempenho e a semelhança física do resto do elenco com os personagens reais são de tirar o fôlego.

Orenthal James Simpson, um dos grandes astros do esporte de todos os tempos, matou a facadas em 12 de junho de 1994 a ex-esposa Nicole Brown. O crime aconteceu na porta da casa dela após anos de abusos, assédio e agressões brutais. O ex-atleta, uma das maiores celebridades do país, acabou inocentado num julgamento transformado em circo midiático e político no qual sua responsabilidade pelas mortes foi colocada em segundo plano. No mesmo episódio, o amigo de Nicole e provável amante Ron Goldman acabou morto também.

Alguns dos mais caros advogados que o dinheiro pode comprar foram contratados para fazer o impossível: absolver O. J. Simpson de um crime com tantas provas de sua autoria que é difícil imaginar um homicídio com mais evidências apontando para a culpa do réu que este. Some-se ao uso pioneiro de provas de DNA na perícia o histórico de agressões, perseguição a qualquer novo namorado de Nicole e a incapacidade do astro de aceitar o fim da relação. A lembrança deste julgamento serve de reflexão para um mundo cada vez mais mergulhado na pós-verdade e na politização de tudo em nome da “justiça social”.

Para entender o contexto político-social da época, é preciso voltar um pouco no tempo, mais precisamente em março de 1991 quando o taxista negro Rodney King (1965-2012) foi brutalmente espancado por policiais brancos de Los Angeles sob a acusação de dirigir em alta velocidade. Não havia internet como conhecemos hoje, os celulares estavam nascendo e câmeras de vídeo eram um luxo para poucos, por isso flagrantes em vídeo de agressões policiais não eram comuns, mesmo que habituais na vida real.

O vídeo do linchamento de King, gravado por uma testemunha, tomou conta do noticiário. Um ano depois, a absolvição dos policiais envolvidos gerou uma das maiores ondas de protestos violentos da história americana. Depois de três dias de ataques, Los Angeles estava em chamas e com prejuízos avaliados em mais de US$ 1 bilhão. Ao final, 58 mortos, 2.800 feridos e mais de 3.000 estabelecimentos comerciais depredados, saqueados ou incendiados. A segunda maior cidade dos EUA estava traumatizada, amedrontada e atônita.

Los Angeles ainda não havia se recuperado quando um dos seus moradores mais amados e ilustres, um negro californiano que chegou ao topo do sucesso e da fama, é acusado de matar a própria mãe dos seus filhos, uma modelo bem mais jovem. branca e loira. Todas as evidências apontavam para O. J. Simpson como único responsável pelo esfaqueamento de Nicole Brown e Ron Goldman. Um dos maiores ícones da comunidade negra americana estava prestes a cair.

É neste instante que entram em cena um “time dos sonhos” de advogados, inicialmente liderados por Robert Shapiro e depois por Johnnie Cochran, advogado-celebridade engajado na causa dos direitos civis e defensor, entre outros, de Rosa Parks, Michael Jackson e Snoop Dogg. Shapiro e Cochran tomaram a decisão que mudaria o rumo do julgamento: o uso sem escrúpulos do race card, o discurso racialista que iria politizar a decisão, inflamar o público e livrar o autor de um duplo homicídio da cadeia.

Num momento que resume a série, Johnnie Cochran diz aos outros advogado de Simpson que “provas não vencem no final. Jurados seguem a narrativa que faz mais sentido. Estamos aqui para contar uma história. Nosso trabalho é contar uma história melhor que o outro lado.” Não é uma guerra de fatos, provas e evidências, é uma guerra de narrativas.

 

“Provas não vencem no final.
Jurados seguem a narrativa que faz mais sentido.
Estamos aqui para contar uma história. Nosso trabalho é contar uma história melhor que o outro lado.”

 

 

Simpson nunca havia sido um ativista das causas de direitos civis, muito pelo contrário. Ele evitava ao máximo declarações políticas e ainda dizia que não era preto ou branco, era um americano de sucesso e queria ser visto como tal. Impossível não lembrar de Wilson Simonal e da má vontade da intelligentsia com o cantor mais popular do Brasil no final dos anos 60 por conta da sua distância dos movimentos políticos, o que gerava acusações de “alienado” e de serviçal do regime e da “Casa Grande”.

Como ídolo do país, Simpson era também cobrado pelos líderes dos movimentos negros mas nunca se identificou com eles, até que a instrumentalização do discurso político de cunho racialista foi visto como oportunidade para a criação de uma narrativa em que o negro de sucesso havia sido incriminado injustamente pela polícia racista da cidade.

O julgamento de Simpson passou a ser o julgamento da polícia de Los Angeles e das tensões raciais do país, numa reviravolta que só seus lendários advogados poderiam conseguir. O réu resistiu no início, mas acabou aceitando a estratégia e o resultado você já sabe qual foi. Simpson só foi condenado pelas mortes de Nicole e Ron num processo civil movido meses depois.

Depois de ver a série da Netflix, tente assistir também o estupendo documentário criado pela ESPN O. J. Simpson Made In America, vencedor do Oscar da categoria neste ano. É um complemento importante para clarear algumas informações pouco exploradas pela série da Netflix, naturalmente mais preocupada com entreter o público do que propriamente dar um quadro geral de todos os fatos envolvidos. O trabalho monumental realizado em O. J. Simpson Made In America não deixa dúvidas da culpa de Simpson pelo assassinato da mãe de seus filhos e do companheiro.

Morta aos 35 anos na porta de casa, com os filhos pequenos do lado de dentro dormindo, Nicole Brown não teve a justiça que merecia e até hoje ninguém foi responsabilizado criminalmente por seu assassinato, assim como Ron Goldman. As vítimas, lembrando a antropologia da violência desenvolvida por René Girard, foram dadas em sacrifício e serviram como bodes expiatórios para uma cidade dividida e conflagrada pelo oportunismo político de ativistas e advogados.

O Povo contra O. J. Simpson não é apenas entretenimento de primeira qualidade, é também um registro histórico assustador de como vidas humanas podem ser menosprezadas em nome de narrativas políticas ou interesses dos mais mesquinhos e imorais, como a absolvição de um homicida covarde e brutal.

O mundo pós-modernista, em que narrativas valem mais que a busca da verdade objetiva dos fatos, começa com discursos filosóficos aparentemente inofensivos e de interesse meramente acadêmico, mas idéias têm consequências e, neste caso, desaguam na absolvição de um assassino. O.J. Simpson escapou da justiça criminal naquele momento, mas desde 2008 está preso, cumprindo pena por assalto, sequestro e formação de quadrilha.

A luta por boas causas, quando aparelhada e instrumentalizada politicamente, acaba sempre em barbárie. As mortes de Nicole e Ron não acabaram com as tensões sociais, muito menos serviram para evitar o aparecimento ou o fortalecimento de radicais como Al Sharpton, Jesse Jackson, Louis Farrakhan, Eric Holder, Barack Obama, do Black Lives Matter e do terrorismo urbano recente em cidades como Baltimore e Ferguson que sequestraram as bandeiras legítimas do reverendo Martin Luther King Jr. .

O Brasil precisa aprender com a experiência do caso O. J. Simpson para não permitir nunca, sob qualquer pretexto, que a Operação Lava Jato e o julgamento de Lula sejam transformados num carnaval de narrativas políticas em que as provas se tornam menos importantes que os discursos ou supostas e alegadas “consequências”.

Uma justiça politizada e aparelhada é tudo menos justiça.

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