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A explosão da voz das domésticas: página com histórias de abuso vira sucesso estrondoso no Facebook

Nesta quarta-feira, a internet recebeu um relato sobre uma empregada doméstica que trabalhava em Quatro Barras, na região de Curitiba. A moça conta que estava na casa de uma família rica (“milionária”, diz ela) e que não davam a menor condição sequer de ela cuidar dos filhos, em função da carga horária e do modo como a viam.

“O pior foi momento q minha filha de 4 anos na época, chegou com irmão de 1 aninho nos braços todo cheio de coco e chorando e me dizendo ‘mamãe não consigo trocar fralda dele'”. Ela conta que a patroa viu e nem disse: vá cuidar do teu filho. A obrigação era cuidar das visitas, da casa. “Não tinha direito de ser mãe enquanto eles tavam lá”, diz.

Graças à historiadora Joyce Fernandes, a cada três horas, um relato novo como esse aparece no Facebook. E corre o mundo, com três, quatro mil curtidas. Às vezes mais. No total, são 114 mil pessoas que assinaram a página para receber as novas histórias. Para ouvir a voz que sai das cozinhas, dos quartos de empregada, dos cubículos nos fundos das casas de família do país.

O primeiro post, duas semanas atrás, contava um caso vivido pela própria Joyce quando ela trabalhava como empregada. A patroa mandou que ela levasse talheres e que não comesse junto com a família.

O post foi escrito quase por acaso. “Eu estava fazendo almoço e pensei nas coisas que tinha passado. Resolvi escrever e criei uma hashtag”, diz ela. A tag era #euempregadadomestica

Em pouco tempo, a postagem correu o país. De um lado, sendo lida. De outro, inspirando muita gente a contar as suas próprias histórias. Era como se a porta do quarto que isolava as empregadas tivesse sido repentinamente aberta e todos os apelos que elas desejavam fazer subitamente vazassem para o resto da casa.

“Já recebi quatro mil relatos”, diz ela. Histórias de abuso, de maus-tratos, de racismo. De gente que não aceita comer com as diaristas. Que paga mal. Que não paga, que trata como lixo, que se acha superior.

Ela conta que também há espaço para relatos positivos. E a própria Joyce fez questão de contar sobre a única família que a recebeu bem em sua casa. “Ela via que eu sempre demorava mais para limpar a prateleira dos livros porque estava lendo o Olga. Aí me incentivou a ler, conversava comigo”, diz.

Agora, Joyce se vira como pode para fazer os posts entrarem – para não decepcionar quem precisa dela para fazer com que suas histórias não caiam no esquecimento. “Tem uma ferramenta legal no Facebook que programa os posts. Deixo um para cada três horas”, ela conta. Assim, enquanto ela dá aulas, as histórias vão surgindo.

A página “Eu Empregada Doméstica” surgiu no mesmo dia da primeira postagem, por causa do sucesso. E agora o projeto já migra para outras plataformas. Joyce pensa em um livro. E ainda encaixa na sua rotina entrevistas – até mesmo para a BBC britânica e jornais franceses.

No caso dela, a vida de doméstica acabou. Ela usou as diárias para pagar o primeiro ano da faculdade de história, na PUC de Santos. Depois, conseguiu um estágio. Hoje é professora e rapper. E conta histórias de suas irmãs de profissão.

E mesmo longe do serviço doméstico, ainda vive o preconceito – o racismo por causa da cor de sua pele. “Fizeram uma entrevista comigo no G1. Teve tanto comentário racista que tiveram que bloquear os comentários”, conta ela.

Poeta, além de dar voz aos outros, ela dá voz à sua própria experiência. Como num poema sobre a vida de doméstica.

“Por favor, moço
Me dê uma chance
O Sr. não irá se arrepender
E ele me disse
Tudo bem.
A senhora vire a esquerda
Entre naquele quartinho apertado
Que a vassoura está a sua espera

Seja bem vinda”

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