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O constrangedor silêncio da direita brasileira diante do racismo em Charlottesville

Vítima de crime em Charlottesville. Foto: Chip Somodevilla/AFP.
Vítima de crime em Charlottesville. Foto: Chip Somodevilla/AFP.

É triste ver a reação de uma certa direita brasileira à violência racista na Virginia, em Charlottesville, e à pífia resposta de Donald Trump. Alguns tentaram simplesmente negar o óbvio, enquanto a maioria resolveu permanecer num silêncio cúmplice. Difícil saber o que é pior.

Antes do resto: evidente que há na direita, no Brasil e no mundo, gente que se solidariza com as vítimas desse tipo de violência racial. Os verdadeiros liberais, por exemplo, jamais compactuam com esse tipo de crime. Assim como conservadores que não pretendem que todo mundo que se diga igualmente conservador seja santo e digno de defesa em todos os momentos.

Assim como há uma esquerda democrática e outra que acha que vale até defender Maduro, há na direita gente que acha que a democracia vem antes da ideologia; e há essa “nova direita”, defensora de Bolsonaros e de uma reação agressiva aos direitos humanos, que acha que vale qualquer coisa para se impor. É dessa que se fala aqui.

Aos fatos

Os fatos do tumulto nos Estados Unidos são bastante claros. Uma estátua do general Lee, símbolo da luta dos Confederados contra a União, foi retirada da vista do público. Grupos racistas, que veem na Confederação (que queria manter a escravidão dos negros) um símbolo importante, protestaram.

Houve participação de vários grupos, inclusive de gente encapuzada no melhor estilo Ku Klux Klan. Inclusive com cartazes de apoio a Trump. Manifestantes que são contra o racismo protestaram. Houve confusão, que degenerou em violência. E, por fim, um maluco racista jogou seu carro contra um outro carro e matou uma mulher, além de ferir mais um monte de gente.

Silêncio constrangedor

Vale a pena dar uma olhada nas redes sociais do pessoal que fica procurando qualquer pelo em ovo para falar da violência da esquerda e ver o constrangedor silêncio sobre o tema. Os liberais que veem o país símbolo do liberalismo ser ameaçado por grupos de ódio e silenciam para que não se corra o risco de falar mal de sua ideologia.

Silenciar diante do perigo que os grupos racistas representam para o liberalismo é ser tudo, menos liberal. É ser cúmplice de um ataque à liberdade de pensamento, de um ataque aos direitos mais básicos e das garantias essenciais para que uma democracia funcione. O silêncio diante de Charlottesville marca a ferro os falsos liberais que se recusam em proteger a democracia.

Viva Trump!

O silêncio é estratégico daqueles que tentaram negar que o crescimento de Donald Trump era o símbolo do crescimento do ódio nos Estados Unidos. Mesmo depois de ele receber apoio de líderes da Ku Klux Klan, de grupos supremacistas brancos e de nacionalistas brancos estarem a seu lado. Trump era vítima de um complô de quem queria rotular a direita como algo mau, diziam.

Agora, quando racistas de fato começam a se exibir pelas ruas de capuz e a matar pessoas fica evidente que o presidente tem uma enorme cumplicidade com eles. Preferiu dizer que a culpa pela violência era “de todos os lados”. O que evidentemente é uma fraude intelectual e um desrespeito aos negros que, além de sofrer violências diárias no país, foram vítimas de mais essa manifestação bárbara.

Não foi à toa que os líderes racistas consideraram os comentários de Trump “muito positivos”. Nem é à toa que continuam prestando seu apoio ao presidente. Mas é espantoso como os supostos “liberais” veem essa aliança como algo que não deve ser questionado.

O silêncio sobre Chartlottesville é para a direita o mesmo que o silêncio sobre Maduro é para a esquerda.

Botar a culpa em outro

Mas houve quem tentasse uma manobra ousada. Houve defesas a Donald Trump, dizendo que, sim, a culpa é de todos. A culpa é também dos liberais que “dividiram o país” – como se os Estados Unidos não fossem divididos antes de Obama; como se não tivesse havido escravidão, Jim Crow, segregação; como se o racismo não fosse uma marca histórica do país.

E ainda existiu a tentativa mais lamentável, feita por exemplo pelo dublê de astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho, de dizer que tudo não passou de uma armação, já que nenhum conservador teria a ganhar com aquela manifestação. Não é evidente que se tratou de uma manobra da esquerda? Uma pergunta que deveria fazer qualquer um dos seguidores desse mestre da direita nacional a corar de vergonha.

Não fosse pela miséria intelectual, que fosse pela podridão moral de ver um fato como esse e reagir não com base na solidariedade humana, e sim em preconceitos ideológicos.

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