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Julgamento dos 12 da Rotam mostrará como Brasil vê mortes causadas pela PM

Fila para entrar no júri. Foto: Gerson Klaina.
Fila para entrar no júri. Foto: Gerson Klaina.

O julgamento dos 12 policiais da Rotam acusados de executar cinco criminosos em 2009 pode ser um marco no modo como se encara a PM por estes lados do planeta. O júri, que começou nesta quarta, vai mostrar até onde estamos dispostos a permitir que a polícia vá.

O caso dos 12 da Rotam talvez tenha sido o único em muito tempo em que as próprias autoridades admitiram que parecia haver crime. O secretário de segurança da época, Luiz Fernando Delazari, afirmou com todas as letras que o indício era de comportamento “de bandido, não de polícia”.

Os PMs foram presos porque o GPS da viatura apontou que, ao contrário do que eles diziam, os baleados não foram levados direto do ponto em que a polícia os pegou para o hospital. Houve uma estranha parada, em um estranho lugar: um matagal no Santa Cândida.

Certezas e dúvidas

Alguns fatos parecem mais ou menos estabelecidos. Os cinco mortos de fato estavam praticando crimes. Pelo que se diz, andavam barbarizando há alguns dias quando foram pegos. Também não se discute que até o momento em que o carro deles bateu a PM estava certa: perseguiu quem devia perseguir.

A partir daí é que as versões mudam. A história contada pelos policiais é a mesma de sempre. Houve confronto, iniciado pelo outro lado. Os cinco atiraram e a polícia – como é de seu direito – revidou. Foram todos baleados e levados imediatamente ao Cajuru. Por um tempo, acreditou-se piamente, como sempre se faz nesses casos.

Leia mais: Após caçada, assaltantes que atropelaram PM morrem a tiros

O GPS estragou tudo (e não parece coincidência o fato de lofo em seguida as viaturas terem deixado de ser rastreadas pela PM). A parada no Santa Cândida não pode ter sido para comprar pão. O que os policiais estariam fazendo com cinco baleados em um lugar desconhecido antes de levá-los ao Cajuru?

A retirada de feridos do local do “confronto” é uma estratégia conhecida para evitar a inspeção do IML, obrigatória quando os baleados morrem no local. Às vezes fica mais fácil de acreditar. Às vezes fica mais difícil. Quando cinco pessoas morrem exatamente entre a cena dos tiros e o hospital, fica difícil.

O advogado dos 12, Cláudio Dalledone, diz que houve sim confronto e que não há dúvida de que eles agiram dentro da lei, em legítima defesa. Dalledone é um dos mais experientes advogados criminalistas do Paraná, e um dos melhores. Nunca diria nada diferente.

Qual é a mensagem?

No entanto, nos vários depoimentos filmados em apoio aos réus, fica clara uma mensagem mais soturna. A de que, mesmo que tenham agido fora dos estritos limites legais, os 12 da Rotam agiram dentro de uma lógica aceitável, até admirável: quem entra no crime, sabe o risco; quem atira em PM, sabe que vai morrer.

Em vários momentos os apoiadores dos acusados dizem que condenar os policiais seria o equivalente a enfraquecer as forças de segurança; seria mandar uma mensagem errada para os criminosos e para a sociedade. Qual mensagem? A de que a PM está de mãos atadas. Pela lei.

O júri composto por apenas sete pessoas não terá a responsabilidade de representar a população toda. Mas deixará mais ou menos claro como pensamos sobre tudo isso. Estamos dispostos a dar carta branca à PM? Os policiais deveriam ter carta branca? Até que ponto?

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