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Pesquisa: Mães de autistas têm nível de estresse de soldado em combate

Colagem de acervo pessoal
Colagem de acervo pessoal

“Minha amiga querida que tem filho que não é autista, quando olhar minhas olheiras não diga “ah… Mas lá em casa é igual!”. Não é, não. Entendo que você quer ser empática, mas a realidade é que você não tem que levar seu filho para um monte de terapias, não fica o tempo inteiro policiando suas intervenções com ele e tenho certeza que dorme mais de 4 horas por dia! Não estou reclamando! Amo ser mãe do meu filho, mas pelo amor de Deus, cara amiga, entenda quando eu digo eu não posso ir tomar café hoje, que esqueci de ligar no seu aniversário, e que não estou interessada em participar do clube do livro.  E a você, meu querido marido, não me venha dizer que pai sente a mesma coisa que mãe! E vai todo mundo para…”. Quem nunca? Mãe de autista que nunca falou isso pelo menos já pensou, não é?

Colagem de acervo pessoal

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E olha aí, a gente tem até razão de pensar assim. Um estudo feito pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA) revelou que mães de crianças e adultos no Espectro do Autismo experimentam um estresse crônico e comparável a soldados em combate. Fadiga, interrupção de suas tarefas, privação de sono… Tudo com o foco em atender a nossos filhos. E vejam que a maneira que mulheres reagem a seus filhos autistas é diferente da que homens reagem a seus filhos autistas.

Dra. Martine Delfos, psicóloga holandesa famozérrima, define as diferenças de como homem e mulher se comportam diante do autismo. Segundo a cientista, o acúmulo de testosterona no nível sanguíneo masculino, impulsiona os homens à ação. Já nas mulheres (mães), o acúmulo é de adrenalina. Adrenalina, às vezes, é imprescindível, mas não podemos esquecer que é ligada ao estresse. Diante dessa adrenalina, as mulheres têm a tendência de internalização da dor e preocupação. Por outro lado, ocorre uma hiperatividade cerebral em que a mulher fica constantemente buscando soluções, saídas, a intervenção perfeita.

Claro que cada mãe é única e até o balanço hormonal de cada mulher é único e, portanto, reagimos de maneiras diferentes. Mas fato é que nós somos as mais afetadas pelo estresse de exercício de uma maternidade que exige mais cuidados. Mulheres que têm filhos autistas podem ter problemas de coração e respiração. Dores de cabeça, tonturas, problemas de concentração, visão nublada e taquicardia são problemas frequentes. Suuuper me identifiquei.

É preciso cuidar muito com a somatização: temos que agir para que evitar que esse estresse se transforme em problemas de saúde graves. E nós não podemos ficar doentes porque nossos filhos precisam da gente (e, por essa simples frase, já entendemos o que é um soldado em combate).

E que fique claro que eu jamais trocaria ter, viver, cuidar, amar ou participar da vida da Gabriela por nada nesse mundo. Isso não tem a ver com amor. Precisamos separar essas coisas! Mães de autistas têm motivos SIM para estar mais cansadas e estressadas e isso não tem nada a ver com amar estar com seu filho ou cuidar do seu filho. É necessário reconhecer os prazeres e desprazeres de ser mãe e ser mãe de autista sem tabu ou medos. Amar é uma coisa, que não tem qualquer relação com estar cansada. Temos que falar e explicitar nosso cansaço até para que quem estiver à nossa volta nos compreenda melhor, e é nosso direito fazer isso sem sermos julgadas.

Somos sim corajosas porque enfrentamos o que está depois do medo: afinal, o maior medo de uma mãe é descobrir que seu filho tem algum problema de saúde, ainda mais quando há questões crônicas que necessitarão de tratamento continuado. Ter um filho autista é incrível por nos trazer vivências únicas. Mas, por outro lado, é cansativo SIM! E nosso cansaço deve ser compreendido e respeitado.

É por isso que precisamos do apoio de todos à nossa volta. Maridos: uma massagem no fim do dia é bem-vinda (e se você está cansado, lembre-se que tem ao seu lado um soldado combatente de guerra precisando muito que os pés sejam massageados levemente; recomendo óleo de amêndoas, incenso, uma música de fundo, e o direito de dormir até mais tarde uma vez por semana). Amigos: parem de esperar que a gente ligue para vocês, e apareçam em nossa casa trazendo um bolo e um café, para uma conversa (e, mais importante, tenham paciência quanto interrompermos a conversa para atender a nossos filhos).

Grande abraço!

 
 
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