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Do campo da Educação para os Campos Gerais do Paraná, pela conservação da vida na Escarpa Devoniana

Brunno Covello/Gazeta do Povo/Arquivo

O fluxo da vida é um processo dinâmico significativamente afetado pelas contingências da transformação social. Mas nem todo mundo quer seguir marchando ao ritmo da velha corneta do progresso. Há indícios de sobra pelos ares de que o progresso cansa, dá tosse e trará sede. Os movimentos sociais pela conservação da natureza correspondem, cada qual a seu modo, a um desejo de superação, algo que aponta para uma nova direção. A criança que o diga. A ciência que o teste. A educação que o sustente. E a arte que o impulsione.

Que venham as novas gerações a nos desafiar ecologicamente, porque essa a qual pertencemos zombou dos rios, dos mares, das matas e dos campos. E que venham logo, e nos desmatem por dentro, antes que soltemos os bois ou plantemos pinus e soja por cima de todos os seus sonhos. Que desordenem todas as nossas tradicionais expectativas de progredir irresponsavelmente, que solapem o típico egoísmo político e econômico que extingue na canetada centenas de espécies vegetais e animais. Que deflagrem um estado, um governador, uma câmara de deputados a zombar da vida em nome da fantasia do progresso. Será que ainda diremos a vocês, novas gerações, à revelia de todas as atrofias que já promovemos, que tudo foi importante, cada pinus plantado, cada grão de soja colhido, cada miligrama de agrotóxico engolido, cada deputado eleito?

Importante é aquilo que importa pois o que não importa não tem importância nenhuma. Corre nas mídias locais do Paraná, e em breve correrá nas nacionais e mundiais, a notícia de que nossos deputados votarão um projeto de lei que visa diminuir a área de preservação ambiental da Escarpa Devoniana paranaense, essa explosão de biodiversidade, esse encontro de distintos biomas, que é assim chamado porque as rochas que o sustentam possuem 400 milhões de anos. Já o mandato dos deputados que sustentamos possui apenas 4 anos. E os estragos de uma votação na assembleia legislativa podem comprometer a vida pelos próximos milhares.

Resta pouco do que havia de campos naturais, cerrado e floresta na região, que já foi amplamente devastada ao longo da história, sobretudo nos últimos 20 anos, com a expansão desordenada e, em alguns casos, ilegal do agronegócio. O patrimônio natural que ainda resiste precisa ser preservado: os rios nos lajeados, as grandes cachoeiras, os cânions, as furnas, os capões cobertos de araucária, os campos, a rica diversidade de espécies vegetais e animais, os tamanduás, lobos-guarás e suçuaranas que por lá padecem.

Espie por detrás desta equivocada iniciativa do governo do estado e de seus deputados. Aviste a sorrateira tentativa de favorecer o setor madeireiro e os produtores de soja em detrimento de um conjunto muito mais amplo de garantias e salvaguardas. O projeto de lei prevê a diminuição de dois terços da área de preservação. Dos 392 mil hectares pertencentes a APA, restarão apenas 126 mil hectares protegidos. Pelas vielas da política, fala-se também na estratégia velada de anistiar os crimes ambientais cometidos mais recentemente pela expansão do agronegócio no interior da unidade de conservação. Vastas áreas úmidas foram drenadas para a produção de soja, o que reduz significativamente o fluxo de água das encostas na direção dos rios, movimento essencial nos períodos de estiagem. A disponibilidade de água se reduz também com a drenagem para a pecuária e com o reflorestamento de pinus, pois o consumo de água de uma árvore grande é muito maior do que das vegetações naturais dos campos, o que seca o solo, impedindo que ele acumule água e redistribua, fenômeno essencial à conclusão de um ciclo vital que favorece diretamente as nossas vidas.

Estamos falando da água. A mesma que está em nós. Nós, que abrimos as torneiras de casa dezenas de vezes ao dia e recebemos nas mãos a água que agora está em vias de secar. Nós que, em razão de progressos como os do agronegócio, obrigaremos nossos netos e bisnetos a conviver com a escassez desse bem tão essencial. Frear a velha marcha do progresso e, ainda assim, seguir inovando, é o sentimento geral que nos afeta e que agora terá de nos por em movimento. Pense o que será dos que estão por vir nas próximas décadas se, por exemplo, não inovarmos na gestão dos recursos naturais e na conservação do que ainda resta de biodiversidade a nossa volta? Teremos de revolucionar as formas de consumo e de produção industrial nos próximos 30 anos para ao menos tentar minimizar os danos do colapso ambiental à vista, esse drama existencial que se tornou consenso entre cientistas que estudam o aquecimento global. Não dá para continuar fazendo o que sempre fizemos. Daqui para frente, inovaremos menos pelo fato de que queremos mais, e mais pela incontestável revelação de que precisamos de menos.

O projeto que será votado nos próximos meses na assembleia legislativa do Paraná é uma afronta à sociedade paranaense, um golpe na biodiversidade brasileira. Além disso, não leva em conta a redução de ICMS ecológico que afetará os municípios integrantes da APA, esvazia a discussão sobre o seu potencial turístico, desconsidera os trabalhos técnicos já divulgados por órgãos oficiais como a UFPR, a UEPG, a Embrapa, o IAP, o ITCG e o próprio conselho gestor da APA. Por essas razões, o projeto revela a visão atrofiada dos deputados quanto ao significado de uma unidade de conservação e confirma mais uma vez a quem estes senhores estão a serviço. É preciso pressionar estes homens, despertá-los do sono profundo do retrocesso, fazê-los perceber o tamanho da tragédia ambiental na qual estão se envolvendo. Eles terão de perceber que, neste caso, ao atender os interesses localizados do agronegócio, estão passando o rodo em cima dos interesses gerais do conjunto da sociedade.

Às vezes chego a fantasiar se o choque de um banho gelado de cachoeira, num desses grotões de estupenda beleza da Escarpa Devoniana, não seria magicamente suficiente para fazê-los acordar. Ou talvez levá-los à sala de aula de uma escola, sentá-los em meio à roda de alunos e fazê-los ouvir uma criança falar sobre conservação da natureza, esse tema que não só é parte do conteúdo escolar, como também integra as bases de uma formação ética e os fundamentos de nosso caráter. Ingenuamente, às vezes, chego a pensar que estes sérios senhores mudariam de opinião, tocados pela novidade, convertidos pela afetividade de uma criança ou rendidos de amor pelos Véus da Noiva e suas estupendas e cristalinas quedas por entre os grotões da Escarpa.

Um contato mais físico com as belezas naturais da região ou uma aproximação mais íntima com a sensibilidade infantil poderiam até ajudar a amolecer nossos corações já enrijecidos pelas marcas de um desenvolvimentismo desmedido. Mas, para além disso, é urgente reunir forças sociais e gerar uma pressão do tamanho do mundo na assembleia legislativa do Paraná, de modo a impedir a aprovação dessa lei. Muitos setores já se organizam e uma batalha de ideias está posta. Precisamos sensibilizar a totalidade dos paranaenses, em especial os educadores, que presam pela educação ambiental e podem contribuir com este debate.

Antes de finalizar, quero compartilhar uma experiência. Alguns anos atrás, em meio a um projeto de educação ambiental em uma escola de Curitiba (Trilhas), fui extraordinariamente tocado pela visão que as crianças desenvolveram sobre a conservação ambiental da Escarpa Devoniana paranaense. A influência delas resultou numa música que reúne uma parte de suas opiniões e desejos de preservação. Aqui pela Parabolé, já circulamos o Estado do Paraná cantando esta e outras canções que integram nossos projetos. Como inspiração à luta que terá de ser travada em defesa da Escarpa Devoniana, deixo aqui os versos da canção que fiz com as crianças da escola em meio a sonhos de um Paraná melhor:

Tal qual estouro de tropa
Dos velhos tempos tropeiros
O meu coração galopa
Procurando outros roteiros

Vai parar em Itaiacoca
Desce o Buraco do Padre
Vila Velha é sempre nova
Eu quero que nunca acabe

Seriemas e bugios
Pacas e Tamanduás
Araucárias, marmeleiros
Cactos e Jerivás

Muito antes dos tropeiros
Índios Tupi-guarani
Habitavam o grande cânion
Entre Castro e Tibagi

Nos campos gerais eu vou,
Vou te encontrar
Indo pro Guartelá
Eu vou (2x)

Rio Jaguariaíva corre
Eu também quero correr
Ele vai de encontro à queda
Eu de encontro a você

Campo cerrado e floresta
Já não dá para arriscar
É preciso cuidar bem
Do que resta no Paraná

Nos campos gerais eu vou,
Vou te encontrar
Indo pro Guartelá
Eu vou (2x)

*Artigo escrito por Nélio Spréa. Doutorando e Mestre em Educação pela UFPR – Universidade Federal do Paraná. Graduado em música pela FAP – Faculdade de Artes do Paraná. Palestrante, escritor e diretor da Parabolé Educação e Cultura. A Parabolé colabora voluntariamente com o Instituto GRPCOM no blog Educação e Mídia.

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