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O especialista

Divulgação Forbes

O especialista vê e vai longe no seu domínio particular, mas não sabe o que acontece às suas costas e não perde tempo averiguando os estragos que causou com suas realizações em outros âmbitos da existência alheios ao seu. Esse ser unidimensional pode ser ao mesmo tempo um grande especialista e um inculto, porque seus conhecimentos, ao invés de conectá-lo com os demais, o isolam em uma especialidade que é apenas uma pequena célula no vasto domínio do saber.

Quem diz isso é o escritor peruano Mario Vargas Llosa, na conferência “Breve discurso sobre a cultura”, proferida em Porto Alegre e agora – viva! – publicada em livro, dentro da caprichadíssima série Fronteiras do Pensamento, da Arquipélago Editorial.

É certo que, no ensino superior, o aluno terá que fazer escolhas mais específicas em seu caminho profissional, em contraponto à educação básica, que, como o próprio nome diz, dará base ao indivíduo em todos os campos do saber, das ciências exatas às biológicas às humanas às literaturas, etc.

Existe uma certa lógica nesse raciocínio, afinal precisamos de especialistas para a complexidade dos desafios contemporâneos (se leio a lista de cursos da época em que fiz vestibular e a comparo com a oferta de hoje, posso ter uma boa noção do que estou dizendo. O cardápio é imenso). E que estes especialistas tenham passado pela educação básica a fim de terem arregimentado para suas vidas um punhado de conceitos de outras áreas, também parece sensato. Legal um médico ter estudado Literatura (com sorte, tornou-se um leitor); legal um historiador entender sobre evolução e alguns rigores importantes da pesquisa científica em Biologia. E por aí vai.

Divulgação ForbesNo entanto, eu não sei se é possível hoje em dia termos alguém nos moldes do homem barroco/renascentista. Exemplo fácil: um sujeito como Leonardo da Vinci, por exemplo, destacou-se “como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico” (espero sinceramente que ter citado a Wikipédia não faça a professora me dar zero).

Nesse movimento pendular entre a especialização extrema e o passeio pelos vários campos do saber, como o ensino escolar se posiciona?

Acredito que a escola não tem dado conta de servir como “base” sólida para as cada vez mais imbricadas contexturas intelectuais e humanas. É o caso de ficarmos entre as duas alternativas angustiantes: de um lado, saber muito sobre pouco e, de outro, saber pouco sobre muito? (depois de escolhido um caminho, resta ficar olhando para o outro extremo, com frustração e ressentimento). Leonardo da Vinci nos mostrou, porém, que não havia apenas estas duas alternativas, uma vez que ele conseguiu saber muito sobre muito. Seria maldade de minha parte dizer que o aluno contemporâneo sabe pouco sobre pouco? Seria ainda mais maldade afirmar que o professor contemporâneo sabe pouco sobre pouco? Temos condições contextuais de produzir um homem como da Vinci no século XXI? Afinal, nós temos muito mais informações disponíveis do que ele tinha nos séculos XV e XVI. Coitado do barbudo: não sabia quase nada do que nós sabemos hoje. Se ele ao menos tivesse uma internet de alta velocidade…

Dito tudo isso, não estou muito certo a respeito do sucesso do modelão “aulas de 50 minutos” para proporcionar o diálogo entre as diferentes áreas do saber. Isso mais parece criar um engavetamento de especialismos. Afinal, não entendo a costura possível entre uma aula de Estequiometria, em Química – que não terminou porque bateu o sinal – e uma outra sobre o Arcadismo Brasileiro, que estava no meio da leitura de um fragmento de Marília de Dirceu quando o sinal bateu de novo e o professor de Biologia chegou falando dos blastômeros que mal conseguiram aumentar em sua progressão geométrica porque já era hora de entender a Independência do Brasil, sendo Dom Pedro interrompido pelo sinal do recreio (ufa, 20 minutos de respiro para falar das coisas da vida), etc.

A perpetuação desse paradigma me parece menos uma questão de “em time que está ganhando não se mexe” e mais uma inabilidade nossa em exercitar formatos mais ousados, costurando as áreas do saber e conectando-os à vida do indivíduo e de sua coletividade. Bonito isso, não? Vou até repetir: “conectar os conhecimentos à vida do indivíduo e de sua coletividade”. Mas isso nem uma rima é, quanto mais uma solução. Então o discurso nosso é bonito (precisamos fazer isso, fazer aquilo), mas continuamos no “siga o modelo” das aulas de 50 minutos.

Por falar em 50 minutos, o meu espaço acabou. Que pena. Bem agora que eu ia dar a solução para todos os problemas.

>> Cezar Tridapalli é coordenador de Midiaeducação do Colégio Medianeira, instituição de ensino associada ao Sinepe/PR (Sindicato das Escolas Particulares do Paraná)

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