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Salve a mocidade

(Foto editada de Valter Campanato/ABr)
(Foto editada de Valter Campanato/ABr)
(Foto editada de Valter Campanato/ABr)

(Foto editada de Valter Campanato/ABr)

Ando colecionando jovens. Explico. De uns tempos para cá – vai ver que por obra e graça das coincidências com as quais a vida nos brinda – dei de conhecer uma moçada sangue bom. São universitários ou recém-formados, não necessariamente da área da comunicação, superocupados – inclusive ocupados em fazer diferença no mundo, com perdão ao lugar comum. A expressão é essa mesma.

A série começou com os meninos do projeto Curitiba Space – Thomas Renan Lampe e Paulo Henrique Borges. O que propõem é uma barbada: um e outro são promotores da experiência urbana, expressão estilosa que na ação deles se traduz em “viver a cidade”. Pois eles vivem. Depois relatam o que viveram. Por fim, postam o resultado na internet, informando a quem queira fazer o mesmo. Não tomem o que fazem por coisa do outro mundo: esses guris andam em praças, conversam com gente comum, descem do ônibus um ponto antes do final.

Depois foi a vez de conhecer o Guilherme, Yuri e a turma que forma o coletivo Ambience. Na escala da evolução da juventude, são primos irmãos da turma do Curitiba Space. Tem lá suas vidas, nas engenharias e nas ciências sociais. Nos horários de ócio – justo os melhores – se embrenham pelas comunidades populares de Curitiba e produzem vídeos. O que querem em particular? Nada que caiba numa caixinha – sabem que devem cruzar fronteiras e ver o que tem do outro lado. É isso.

Para fechar a lista, dias desses ouvi por uma hora, mais ou menos, as ideias de Bruno Volpi, jovem líder do Impact Hub Curitiba, uma espécie de escritório criativo, balcão de ideias, usina de pensamento, incubadora… O que Bruno e sua trupe fazem é reunir gente que queira empreender, mas sem aquelas megalomanias que tornam o mundo um inferno de metas inatingíveis e ansiedade máxima. Assim como ocorreu com os demais, ouvi-lo equivale a rezar um Credo – “um credo na juventude”.

A esses todos, some-se o educador e advogado Gehad Hajar, que com amigos tão jovens quanto ele criou a Editora Guairacá, uma casa publicadora de histórias do Paraná. Vê-los revirando com paixão a memória dos velhos – como se fossem reedições de Ecléa Bosi, uma pioneira no gênero entre nós – lava a alma, como se dizia.

Tudo isso, nem é preciso dizer, tem a ver com a educação. Esses jovens vivazes passaram pelos bancos escolares. E vingaram, diríamos. Mas não é só isso que interessa dizer. Se me permitem, nós professores tendemos um “cadinho” à desvalorização da mocidade. Às vezes, o fazemos sem nos dar conta, dizendo que no nosso tempo era melhor ou que antigamente havia gente mais politizada. Já hoje…

Penso que é preciso se policiar – travar a língua quando essa fala mecânica estiver pronta para sair. Há um bocado de injustiça no endeusamento do passado. É como se disséssemos que só os tempos idos foram bons. Que quem nasceu nos dias atuais, ora, levou azar. Faz algum sentido, reconheçamos, “algum”. O tempo em que éramos jovens foi o melhor, é evidente, porque aos 20 anos tudo é ótimo. A questão é que – parafraseando uma fala de Carlos Heitor Cony – não faz o menor sentido ignorarmos que um novo Proust, um novo Einstein, um Martin Luther King estão pintando por aí.

Em se tratando de gente que trabalha em sala de aula, como você e eu, a responsabilidade nessa prosa é ainda maior – a gente sabe, por experiência, que a vida se reinventa. Por que negar? Talvez a insistência em dizer que o mundo ficou pior seja reflexo condicionado. Virou senso comum. Mas tudo o que há no mundo e no homem sempre existiu. Havia inveja e ignomínia, pequenez e falta de honra, sei lá, em 1876.

Já assistiu a Meia-Noite em Paris, o delicioso filme de Woody Allen? Se não, veja. O personagem central, um escritor, queria voltar para os anos 1920, pois os “anos loucos”, esses sim é que foram bons. A garota por quem se apaixona ao ser transportado no tempo, por sua vez, o carrega para o final do século 19, a Belle Époque, uma época sem dúvida muito melhor. A mensagem está dada.

Diferenças devem haver. Fossem todas as décadas iguais, que vantagem Maria leva, que fraude seria a máquina do tempo… Eis o ponto. O tempo nos trouxe até aqui, esses dias difíceis. Talvez por isso os achemos menos interessantes. Melhor correr e acertar os ponteiros do relógio. Antes que seja tarde.

>> José Carlos Fernandes é jornalista da Gazeta do Povo e professor do curso de Jornalismo da UFPR.

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