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Debussy ou Ravel: qual o mais importante?

Na virada do século XIX para o século XX a França possui uma quantidade fantástica de grandes criadores musicais:  Camille Saint-Saëns (1835- 1921), Gabriel Fauré (1845-1924), Albert Roussel (1869-1937), Jules Massenet (1842-1912) e Erik Satie (1866-1925) são alguns deles. No entanto dois “gigantes” se destacam em meio a tantos gênios: Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937). Os dois compositores muitas vezes são confundidos como se fossem iguais, e acaba surgindo a eterna e duvidosa questão: qual dos dois é mais importante, mais essencial?

Temperamentos

Uma diferença marcante entre os dois compositores está no contraste pessoal: Debussy era temperamental, adorava uma disputa, e seus relacionamentos amorosos eram cercados de paixões incontroláveis e de separações ruidosas. Exatamente ao contrário, Ravel era um homem extremamente discreto, falava baixo, vivia só, e suas relações amorosas, se existiram, ficam no eterno limbo da dúvida, pois em sua época um homem que se apaixonava por outro homem não era assunto nem para uma carta das mais pessoais. De forma muito discreta se diz que houve um relacionamento íntimo entre Ravel e o pianista espanhol Ricardo Viñes (1875-1943), mas o que é certo é que não há nenhuma especulação a respeito de uma mulher ter alguma vez chamado a atenção do compositor. Ravel era mais moldável que Debussy e neste ponto é relevante lembrarmos que Ravel orquestrou duas obras para piano de Debussy (Sarabanda da  Suíte “Pour le piano” e Dança (“Tarantella Styrene”) mas Debussy nunca fez este tipo de reverência a uma composição de Ravel.

Cena do ballet Daphnis et Chloé pintada por Chagall (Imagem da Christie´s)

Se Debussy, treze anos mais velho que Ravel, teve, quando jovem, enorme influência de consagrados compositores franceses como Gounod e Massenet, só vai mesmo adquirir um estilo próprio relativamente tarde. Ele foi capaz de escrever obras primas como as Cantatas “O filho pródigo” (L’enfant Prodigue -1884) e “A donzela abençoada” (La damoiselle élue – 1887) num estilo bem de acordo com os ditames (a primeira das cantatas citadas lhe valeu o cobiçado Prêmio de Roma). Um estilo característico só será francamente perceptível nas obras escritas a partir de 1890, quando tinha 28 anos de idade. Já Ravel nunca se amoldou ao estilo consagrado, e se houve alguma influência de mestres mais velhos, esta se deu a partir de Gabriel Fauré, seu professor mais importante. Impressionante ver que o estilo de Ravel já estava completamente amadurecido aos 20 anos de idade. Prova disso são composições geniais como “Menueto antigo” para piano (1895) e a estonteante Sonata póstuma em lá menor para violino e piano (1897). Diferente de Debussy, que escrevia quase compulsivamente, Ravel compôs pouco, mas desafio alguém achar uma obra fraca do compositor: com exceção das cantatas que ele escreveu para o Prêmio de Roma, que ele próprio rejeitava, todas as suas composições são obras primas. Por falar em Prêmio de Roma, o fato dele não ter sido o ganhador em 1905 fez com que a honraria perdesse a importância que tinha até aquele ano.

Influências mútuas

Ravel e Debussy não eram muito próximos e nunca foram amigos (não há nenhuma foto dos dois juntos, só montagens). Mas não há dúvida alguma que um influenciou consideravelmente o outro. A primorosa arte de orquestrador de Ravel foi decididamente influenciada por obras de Debussy como “Prelúdio à tarde de um fauno” (Prélude à l’après-midi d’un faune – 1894) e Três noturnos para orquestra e coro feminino (1899). Se a orquestração de Debussy é fantástica, abrindo inúmeros caminhos novos, Ravel a aperfeiçoou acentuadamente. A orquestração de Ravel é um paradigma ainda maior do que a de Debussy, mesmo tendo sido influenciado pelos procedimentos deste último. Considero as orquestrações do Ballet “Daphnis et Chloé” (1912) e a orquestração que ele realizou de uma composição sua para piano “Uma embarcação sobre o oceano” (Une barque sur l’ócean – 1905 – 0rquestrada em 1907) como as mais engenhosas e perfeitas de todas as orquestrações da primeira metade do século XX. Debussy teve uma enorme relevância por ter modificado os esquemas harmônicos tradicionais, utilizando modos antigos, escalas exóticas (tons inteiros e pentatônica) e neste aspecto ele é de extrema importância por seu pioneirismo. No entanto Ravel vai ainda mais longe. Em seu ciclo para piano “Espelhos” (Miroirs- 1905) ele se utiliza de uma harmonia muito mais complexa do que Debussy utilizou até então, especialmente na primeira peça do ciclo, Noctuelles (Mariposas noturnas). Vemos então Debussy sendo influenciado por Ravel em obras como seus Prelúdios para piano (1913) ou mesmo no Ballet “Jogos” (Jeux – 1913). Um realmente influencia o outro.

O bailarino russo Nijinsky atuando no Ballet “Jeux” de Debussy

Quem é o mais relevante?

Disputa inútil? Poderíamos dizer que Ravel nunca compôs algo tão genial como a obra prima orquestral “O mar” (La mer – 1905) de Debussy. Mas poderíamos retrucar que nunca Debussy escreveu algo com 50 minutos de música com tamanha coerência como “Daphnis et Chloé” de Ravel. Poderíamos dizer que Ravel nunca escreveu algo tão original para piano como “L’isle joyeuse” (A Ilha alegre – 1904), mas poderíamos retrucar que Debussy nunca escreveu algo tão assombroso para o instrumento como “Gaspard de la nuit” (1908). Não há realmente como comparar a importância dos dois. Ravel e Debussy formam uma unidade dentro de um universo de contrastes. Deixar de reconhecer os avanços harmônicos de Debussy é tão injusto quanto deixar de reconhecer harmonias ainda mais avançadas de Ravel (“Três poemas de Mallarmé”). Debussy tem levado a fama de um inovador em termos harmônicos, de forma e de orquestrador, fama muito merecida. Mas Ravel, por seu infalível bom gosto, e sua vanguardista modernidade sempre moldada na discrição, é um mestre que tem importância equivalente em termos de ensinamentos para a posteridade. Os dois deixaram um legado preciosíssimo e meu pensamento, convivendo há décadas com inúmeras obras dos dois, é que ambos são tão relevantes e essenciais. Na minha visão Ravel é tão grande e importante quanto Debussy e vice-versa.