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Encenações de Paixões de Bach mostram a atualidade do sofrimento de Cristo

Voltando a falar sobre as Paixões de Bach (no último texto – veja aqui-  tratei da acessibilidade da Paixão Segundo Mateus tentada pela Camerata Antiqua de Curitiba) estas obras, que não foram concebidas para serem encenadas, receberam nos últimos anos, especialmente na Alemanha, um tratamento cênico que provocou uma certa celeuma e ao mesmo tempo um enorme sucesso, atraindo para estas obras do século XVIII, com forte apelo religioso, uma plateia jovem e renovada. As duas encenações, bem diferentes, colocam de forma clara a atualidade do sofrimento de Cristo.

Hamburgo 2016 – A paixão de Cristo no sofrimento dos dias de hoje

Na semana santa de 2016 foi apresentada em Hamburgo, Alemanha, uma versão cênica da Paixão Segundo  Mateus de Bach, em um enorme espaço alternativo, a “Deichtorhallen”. A direção musical foi do maestro Kent Nagano (aquele que foi enxotado de Curitiba – veja o texto aqui) e a encenação foi do italiano Romeo Castelucci. O coro já é bem emblemático: cantores muito jovens que formam um excelente conjunto vocal, patrocinado pela montadora de automóveis AUDI. A orquestra é da ópera de Hamburgo. Num asséptico ambiente branco (até as partituras tinham uma capa branca) desfilam ações típicas dos dias de hoje, desde a destruição de um enorme pinheiro até o pedaço de uma cerca de arame farpado receber em cena uma eletrólise e se transformar numa coroa de espinhos. Faxineiros e policiais verdadeiros, enfermeiras autênticas e até lutadores de Luta Greco-romana aparecem em cena. No momento da crucificação dezenas de pessoas humildes, todas identificadas com nome e idade, entre elas muitos imigrantes (com certeza o mulato Joaquim Silva é um brasileiro) tentam manter-se suportando seu próprio corpo numa haste, compartilhando o sofrimento de Jesus.

Cena final da encenação de Hamburgo: pernas decepadas de um operário do porto

A parte final é muito comovente: um trabalhador do porto de Hamburgo que teve suas duas pernas amputadas num acidente de trabalho, retira suas próteses e expõe, com altivez, sua condição. As três horas de duração da obra são executadas sem intervalo, num nível de concentração fora do comum. Por mais discutível que seja o procedimento fica a sensação de que a Paixão de Cristo, através da música de Bach, é atemporal. Existe até o momento o vídeo deste espetáculo no youtube. Veja aqui .

Músicos e cantores em alto envolvimento na “ritualização” de Peter Sellars

 

Berlim, Nova York, Londres – a partir de 2010 – Peter Sellars “ritualiza” a Paixão segundo  Mateus junto à Filarmônica de Berlim

 

O diretor de teatro americano Peter Sellars realizou a partir de 2010 encenações, que ele chamou de “ritualizações”, das duas Paixões que Bach nos legou, a segundo  João e segundo  Mateus. Ao contrário da encenação de Hamburgo não há ninguém em cena além dos próprios músicos e cantores, e as referências cênicas são todas atemporais. O coro e os solistas cantam de memória pois movimentam-se de forma contínua durante toda a apresentação. Atendo-se à Paixão segundo Mateus vemos que Sellars dá destaque a sentimentos bem atuais: solidão, sofrimento, morte, traição. Pela concepção dele na Paixão segundo  Mateus, no início Jesus já está morto, tornando-se uma presença na memória, sobretudo do Evangelista, uma lembrança muito triste e dolorosa. Certos instrumentistas também se movem e tocam seus solos de memória junto aos cantores.

“Ritualização” da Paixão Segundo João

 

Na encenação da Paixão segundo João o personagem de Maria Madalena é evidenciado como uma humilde mulher, e a grande cantora Magdalena Kozena (esposa do maestro, Sir Simon Rattle) que deixa claro este envolvimento com a personagem, por estar grávida num dos anos da montagem, deu um aspecto ainda mais humano à tristeza do sofrimento de Cristo. Um elenco estelar liderado pelo Jesus do barítono Christian Gerhaher e pelo evangelista de Mark Padmore tornam a encenação da Paixão Segundo  Mateus um marco musical e dramático. A encenação da Paixão segundo João não fica trás em termos de qualidade e intensidade. A isso se soma a qualidade dos músicos da Filarmônica de Berlim e o envolvimento do maestro Simon Rattlle. Obrigatório. Para assistir estes espetáculos é necessário comprar o DVD no site da Filarmônica de Berlim (https://www.berliner-philharmoniker-recordings.com/special-easter-offer-passion.html) por U$ 69,00 mais o envio. Alguns trechos você pode ver no youtube. Escolhi este aqui.