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Blog Francisco Escorsim

Netflixizando a realidade

Foto: Divulgação
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“Doente de virose fica difícil sair do apartamento. É hora de olhar pela Netflix e garimpar algo que preste!” Se minha última semana fosse um filme e estivesse na Netflix, a chamada seria mais ou menos assim. Passei alguns dias de cama, largado horas diante da televisão, especialmente dessa nossa cornucópia moderna de tranqueiras. Ainda que com espasmos de energia tenha conseguido trabalhar um pouco e ler mais que o habitual, a Netflix foi a rainha do meu tempo. Mais do meu tempo em busca de algo bom para assistir do que assistindo, é verdade.

Sei que há justificativas inúmeras para a empresa não poder fornecer tudo que gostaria e estar sendo forçada a investir alto em produções próprias (muitas de qualidade duvidosa), mas não é possível que não se consiga umas coisinhas melhores por aí, especialmente filmes antigos. E por antigos não me refiro aos “clássicos” tiro-porrada-e-bomba dos anos 80, mas a obras mais significativas, como Taxi Driver, que até esteve disponível um tempo (não sei se ainda está). Não à toa existem vários grupos em redes sociais garimpando coisas boas na Netflix para ajudar a perdermos menos tempo procurando. E há verdadeiras pérolas “escondidas” no meio do entulho, como o documentário The Birth of Saké, por exemplo.

Mas talvez nem seja assim. Talvez seja apenas impressão de que é difícil achar algo que preste ali. Estive cá a pensar com meus remédios que talvez sejam as classificações e descrições o maior problema: são tranqueirizadoras até do que não é tranqueira. A começar pelas categorias que inventam, leiam o que me apareceu como recomendação: “Séries teens sobre melhores amigas”. A razão para tal recomendação só Renè Guenón explicaria, mas isso é o de menos. O intrigante mesmo é que a primeira indicada foi Sherlock. Hein? Pois é, vai entender. Outra esquisitice: “Filmes realistas de ação e aventura” e indicam Onde está Segunda? e O Livro de Eli, duas distopias.

Mas as descrições das obras são piores. Desmotivadoras, na maioria das vezes, apesar de involuntariamente hilárias em alguns casos, como a do clássico de Hitchcock Janela Indiscreta: “De perna quebrada fica difícil sair do apartamento. É hora de olhar pela janela e lutar contra o crime!” Eu ri e me inspirei, como podem notar. A de Arizona Nunca Mais, comédia cult de 1987 dos irmãos Coen, com Nicholas Cage e Holly Hunter, é descrita assim: “Criar um filho já não é fácil. Mas sequestrar um bebê e driblar caçadores de recompensa é mais complicado ainda!” Não diga? Será? Acho que preciso assistir para descobrir. Mais uma e paro, prometo. Scarface, na refilmagem de Brian de Palma, com Al Pacino, ganhou chamada mais inusitada: “Um traficante de drogas cubano irascível mata e bufa até chegar ao topo. Uma vida épica merece uma queda épica”. Como assistir sem procurar o bufar, como?

Sim, fica divertido quando você começa a achar graça e desiste de se orientar por ali. E, como tive tempo de sobra, fiquei a imaginar como seria se a imprensa netflixizasse a realidade. Já pensou no caso do rapaz do passe livre para ejacular em ônibus? “Masturbar-se no ônibus já não é fácil. Mas tirar de ejaculação um tarado desses é mais complicado ainda!” E as gravações novas do Joesley Safadão? “Ele tungou a República como ninguém e pagou um preço bem barato por isso. Agora ele entregou mais fitas comprometedoras de políticos de alto escalão. O que a PGR lhe dará como prêmio desta vez?”

E não é difícil também imaginar como seria a netlifixização da manipulação ordinária dos fatos que vemos todo santo dia em todo canto do jornalismo dito “não fake”. Por exemplo, a notícia da morte dos dez integrantes de uma quadrilha, fortemente armados, contida pela polícia de São Paulo no domingo passado: “Eles nasceram e cresceram na opressão. Até que um dia se tornaram suspeitos de crimes, foram perseguidos e dizimados pela polícia, sem chance de defesa. Conheça a história de Miojo e Sassá, duas das vítimas da barbárie policial”. Mas o que mais pede uma netflixização falseante é a Coreia do Norte e seu tirano, Kim Jong-un: “Um presidente irascível mata e bufa até chegar ao topo. Uma vida épica merece uma queda épica. Embora a paz seja sempre possível e a única saída, Donald Trump promete guerra para conter a Coreia do Norte. Segundo especialistas, o presidente americano está colocando o mundo todo em risco”.

Mas não pensem estou a reclamar da Netflix. Não estou, não. Quero mais é agradecer. Não fosse por ela estaria assistindo ao Encontro, da Fátima Bernardes. Já pensou que terrível? Ia sair dessa doença querendo abraçar árvore, virar vadia, votar no Luciano Huck, essas coisas. A Netflix também é toda “encontrada”, é verdade, está repleta dessa bobajada politicamente correta, mas ao menos não tem só isso. Assista a Onde está Segunda?, por exemplo, e entenderá o que estou dizendo.

Enfim, terminei a coluna, mas não de convalescer. Vou rever o clássico The Italian Job, uma das novidades da semana anunciadas por lá, com aquela chamada que só a Netflix consegue criar: “Um bando de ladrões está de olho em um carregamento de ouro. O plano é maluco, mas eles também não regulam muito bem”. Ainda chegará o dia em que escolherei um filme só por essas chamadas.