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Blog Francisco Escorsim

“Ele estava exibindo a camisa do Lula, e isso é inadmissível”

Foto: Andrew Rusk/Wikimedia Commons
Foto: Andrew Rusk/Wikimedia Commons

“Na sexta-feira passada, dia 27, houve uma grande confusão na Universidade Federal de Pernambuco. Desde que foi anunciada a exibição de um filme sobre Paulo Freire, militantes de direita se insurgiram rasgando todos os cartazes do filme espalhados no câmpus da universidade e decidiram marcar para o mesmo local, dia e horário a exibição do filme sobre o contragolpe de 64 como forma de protesto.

Segundo consta de um site do Partido da Causa Empreendedora, a exibição do filme sobre Paulo Freire ‘é claramente mais uma afronta à direita’. Um dos organizadores do protesto explicou: ‘Nós achamos uma afronta colocar um filme de uma pessoa da extrema-esquerda dentro da universidade. Mas fomos contra censurar ou interromper a atividade deles, e a forma que encontramos de nos contrapor foi realizar uma atividade paralela’.

Embora fosse previsível o surgimento de confrontos, não havia seguranças. Quando o filme sobre Paulo Freire chegava ao fim, os militantes vieram até próximo da saída do evento, bloqueando uma das passagens com gritos de ordem como ‘1, 2, 3, 4, 5, mil, lugar de comunista é na ponta do fuzil’. Em resposta à provocação, algumas pessoas que saíam da exibição gritaram palavras de ordem em sentido contrário. Os ânimos se acirraram e as agressões começaram logo depois de um dos militantes empurrar um rapaz que vestia uma camiseta com a imagem do ex-presidente Lula. Ao ser perguntado do motivo da agressão, respondeu: ‘eu empurrei ele porque ele estava exibindo a camisa do Lula, e isso é inadmissível aqui nessa universidade’.

Apenas dois funcionários da universidade estavam presentes e tentaram, sem sucesso, conter o tumulto que acabou com várias pessoas feridas. A polícia não foi acionada, ninguém foi preso e não houve danos patrimoniais. Depois de encerrado o confronto, a reportagem ouviu alguns dos envolvidos. Um dos militantes colocou em dúvida o interesse pelo filme: ‘Eu acredito que esse evento que tá tendo é um evento comprado’. Um estudante de História que preferiu não se identificar denunciou: ‘O evento tem suas problemáticas, mas ainda assim deveria ser permitido. O problema é que o público-alvo inclui comunistas e supremacistas negros’.”

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Se o leitor acompanha o noticiário, já sabe que essa confusão realmente aconteceu na UFPE, mas de forma inversa ao relatado acima. Inverta as posições de direita e esquerda e substitua Paulo Freire por Olavo de Carvalho, Partido da Causa Empreendedora por Partido da Causa Operária, Lula por Bolsonaro, comunistas por neonazistas e supremacistas negros por supremacistas brancos e terá um relato fiel do que realmente aconteceu na sexta-feira passada.

Por que fiz essas inversões e substituições? Para demonstrar como extremistas de direita e esquerda são irmãos siameses. As falas dos extremistas revelam tudo sobre eles. No caso, são de esquerda, mas, como se pode ver, não é nada difícil imaginar alguns de direita fazendo o mesmo com sinal trocado. Se o exemplo imaginado não basta, então fique com um da realidade que vai além da crítica e boicote legítimo para a tentativa de proibição pura e simples de alguém da esquerda promover algum evento seu. Refiro-me à reação de alguns direitistas à vinda ao Brasil da principal promotora intelectual da ideologia de gênero, Judtih Butler.

Há uma petição pedindo aos organizadores que cancelem sua palestra no evento programado para os dias 7 a 9 de novembro, em São Paulo. Nesta petição lê-se: “Não podemos permitir que a promotora dessa ideologia nefasta promova em nosso país suas ideias absurdas, que têm por objetivo acelerar o processo de corrupção e fragmentação da sociedade”. Concordo que essa ideologia é nefasta, a ideia é absurda e tem por objetivo corromper a família e a sociedade, como já está fazendo, e isso tem de ser combatido. O pedido de cancelamento, portanto, é perfeitamente legítimo como forma de pressão. Assim como era legítima a reclamação esquerdista contra a exibição do filme de Olavo de Carvalho. O choro ainda é livre.

Entretanto, o que se revela nessa petição é um desejo e convocação que vai além disso: “Judith Butler não é bem-vinda no Brasil! (…) Sua presença em nosso país num simpósio comunista, pago com o dinheiro de uma fundação internacional, não é desejada pela esmagadora maioria da população nacional”. Reparou como é uma “fala” muito semelhante à daquele esquerdista em relação ao rapaz com a camiseta do Bolsonaro? Se para este é inadmissível alguém dentro da universidade com camiseta do Bolsonaro, para aqueles é inadmissível a presença no país dessa senhora.

A petição, na verdade, está convocando para mais do que assiná-la, mas para que não se permita que ela promova suas ideias nefastas no país – e são nefastas, repito. Ora, impedir que ela promova essas ideias é impedi-la de falar, impedir a publicação de seus livros. É desejo de censura escancarada, ainda que numa roupagem maquiadinha para parecer ambígua. Mas não, a censura é conclusão inescapável dessa convocação. Logo, se aparecer um bando de exaltados agindo no dia do evento exatamente como os esquerdistas no evento da UFPE, estarão fazendo o que, senão justamente “não permitir” que ela fale?

O engraçado nisso tudo é que essas reações toscas apenas promovem mais ainda os eventos e ideias que querem combater. Eu nem sequer saberia da vinda dessa senhora, por exemplo, se não fosse o griteiro histérico na bolha direitista. Eu nem sequer saberia da exibição do filme sobre Olavo de Carvalho na UFPE se não fosse a truculência esquerdista. Se os esquerdistas tivessem apenas ficado na exibição de um filme contrário, como fizeram, teriam marcado sua posição e pronto. Ao apelarem à violência, perderam qualquer posição, tornando-se caso de polícia. Já os direitistas deveriam aproveitar a oportunidade para fazer um contraevento nas mesmas datas do evento paulista. Marcariam posição igualmente e pronto. Aliás, só isso também. Porque as ideias da senhora Judith Butler não serão combatidas jamais com a proibição da vinda dela para o país, tampouco a impedindo de falar. Só serão combatidas quando refutadas, inclusive ao ponto da humilhação, porque o ridículo exige ser humilhado e nada mais ridículo do que a ideologia de gênero.

Como é ridículo todo extremismo que, por definição, é imune a apelos de bom senso, mas não à humilhação pela zoeira. Por isso o melhor remédio é um “meme” como este que fizeram sobre a briga na UFPE, em que colocaram como trilha sonora a música do seriado A Grande Família. Acrescente prints dessa petição citada e posts de direitistas e esquerdistas sobre ambos os eventos e verá como são realmente uma família muito unida e também muito ouriçada: