Lições sobre organização e minimalismo após um incêndio - Bia Kunze – Garota sem Fio
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Lições sobre organização e minimalismo após um incêndio

Perder a maior parte de suas coisas após um incêndio é um acontecimento devastador na vida de qualquer pessoa. Não desejo isso a ninguém. Desde a época do ocorrido, em maio do ano passado, tenho lidado com sentimentos novos a respeito de minimalismo e consumo. Eu já vinha adotando uma postura mais conservadora a respeito de roupas e maquiagens desde a época em que fiquei com os movimentos limitados, em 2010. Mas uma perda radical e abrupta leva as coisas a um novo patamar.

Então senta, que lá vem história…

No dia que tudo aconteceu, eu estava muito mal de saúde. Saí cedo para ir a uma clínica de infusão fazer uma aplicação de medicamento. Estava chapada de remédios para dor e para dormir. Mal conseguia tomar banho. Quando soube de tudo, fui até minha casa desesperada mas me tiraram de lá logo. Resgatei meus bichinhos de estimação (que se refugiaram no quintal) e os levei até minha mãe. Em seguida, fui levada ao pronto-socorro em choque. Ao chegar lá, lembro de ter ligado para meu médico reumatologista implorando para vê-lo. Demoraram para me sedar e a dor era insuportável. As roupas estavam banhadas de sangue, pois todas as minhas lesões corporais se abriram. Meu médico chegou lá dando voadora em todos, indignado por não terem me dado sequer um medicamento para dor.

Passado o susto inicial, só constatei prejuízos materiais. Vi-me sem boa parte das roupas e sem quaisquer produtos de higiene e cosméticos. Só não fiquei pelada porque as roupas de academia estavam separadas em uma cômoda mais longe. E havia algumas peças íntimas na lavanderia, onde o fogo nem chegou perto. Nos primeiros dias, só andava com roupa de ginástica. Minha mãe salvou um casaco de nylon bem quente que eu adorava e o deixou apresentável. Comprei shampoo, sabonete, desodorante, escovas de cabelo e de dentes, remédios, loções do meu tratamento médico e um cachecol — era inverno.

Alguns dias depois, ainda mal de saúde, voltei até os escombros e, chorando, encontrei meus documentos pessoais todos intactos, apenas um pouco sujinhos de fuligem. Foi emocionante.

Juntei a eles algumas joias, o Mac mini, uma pasta com coisas básicas de papelaria, 2 livros, a impressora, os 2 Kindles, um mini kit de coisas que levo em viagens e fui embora. Teria que passar um bom tempo apenas com aquilo. As janelas estavam estilhaçadas. A TV explodiu. Minha cama e o guarda-roupas se reduziram a coisas impossíveis de se identificar visualmente. O escritório não queimou, mas foi inundado pela água dos bombeiros e muita coisa foi destruída.

Usei um único par de tênis por muitas semanas. Ganhei um tablet novo; trabalhei e estudei apenas com ele e meu smartphone. Juntei tudo o que precisaria até a vida entrar nos eixos, comprei uma mochila para as coisas de trabalho e estudos e uma bolsa de academia para roupas, remédios, cosméticos e itens de higiene.

Por um bom tempo, meu mundo se reduziu a isto…

Era apenas o que eu realmente precisava, e em minhas andanças me sentia tranquila. Pensar no que vou vestir no dia deixou de ser uma preocupação. Tudo combinava com tudo.

Decidi que quando o pesadelo acabasse, adotaria o conceito de armário cápsula, com poucas e boas peças, todas combinando entre si. Ainda estou fazendo adaptações, mas é bom demais me vestir em menos de 2 minutos diariamente.

Preciso de roupa social? Tenho 5 camisas. Comprei 5 calças pretas básicas e 2 jeans. Com sapatos fiz o mesmo. Nada de saltos ou sandálias que se usa de vez em quando. No dia a dia, qualquer camiseta serve. Tenho várias de rock que foram salvas e adicionei umas lisas. Se preciso ser um toque para parecer mais arrumada, coloco um lenço ou acessório. Comprei uma bela jaqueta jeans para repor a que perdi e recuperei uma de couro. Tinha outras 2 de couro com mais de 20 anos e que amava. Talvez recupere, levarei em um especialista em reformas.

Poucas peças e de boa qualidade, este é meu lema.

Depois de muito trabalho, a casa foi ficando habitável outra vez. Enquanto isso, dormíamos na casa dos nossos pais/sogros, em hotéis, no trabalho do marido, no carro, onde desse. Durante o dia, enquanto ele trabalhava, eu perambulada por clínicas, hospitais, bibliotecas e um clube. Trabalhava e estudava em qualquer lugar. Topei trazer o blog para a Gazeta do Povo. Estar ativa outra vez foi fundamental para me reerguer psicologicamente.

Um pouco antes de ir para o Rio, chegaram a cama e o colchão. A essa altura já estávamos em nossa casa no meio das obras, dormindo no chão, com roupas de cama, colchão e cobertores doados. Os gatos eram nossa melhor companhia. Eles não gostaram de passar 2 meses na casa da minha mãe, e ao voltarem, não estranharam a casa em reforma: no mesmo dia mudaram completamente de comportamento! Estavam felizes e nós também. Dormíamos todos juntos, 2 humanos e 6 gatos! Isso nos revigorou muito. Logo fiquei forte e voltei a trabalhar mais e viajar.

Acostumada a viver com pouco, foi bem estranho quando começaram a chegar as caixas com as coisas salvas do incêndio. E mesmo com muitas perdas, ver tanta coisa que não via há meses me deixou pensativa. Céus, para que eu guardava tudo aquilo?

Doei a maior parte das roupas e sapatos salvos, além de bolsas, livros, objetos de decoração, cadernos e papeis. Muitos papeis. Caramba, eu achava que era uma pessoa paperless. Achei cadernos e contas de telefone de 1999!

Achei que teria problemas em me desfazer de livros. Sempre tive. Desta vez foi tranquilo. Mantive apenas os títulos que realmente apreciava.

Sobrou pouca coisa. Fiquei indecisa sobre o que fazer com os objetos selecionados. Ler os livros da Marie Kondo está me ajudando muito no processo. Minha relação com as coisas hoje é calcada na emoção, então para alguns tipos de itens farei uma segunda triagem. Meu guarda-roupas novo é pequeno e mesmo assim tem espaço sobrando.

Com as coisas que gerenciam a vida, foi muito mais fácil. Eu tinha backup de tudo na nuvem. Não senti falta do computador exceto para pouquíssimas tarefas. O que me intrigou foi encontrar um monte de papel de coisas que já estavam digitalizadas. A gaveta de pastas suspensas ficou bem leve, acho o que preciso em segundos.

Vejam só que curioso: tem muita coisa que certamente perdi e não conseguiria listar. Não fazem falta. Tudo o que realmente lembro e dei falta é 10% do volume original.

Há males que vem para bem. É uma nova vida.