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Trabalhos do Herói do Cotidiano

Foto: (Albari Rosa/ Gazeta do Povo)
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Foto: (Albari Rosa/ Gazeta do Povo)

Somos heróis do cotidiano, mas geralmente achamos que os outros é que são felizes e especiais. Tendemos a achar que nosso universo, vida e trabalho são coisa pouca, não tem valor ou graça.

Pois é o contrário. Herói não é aquela criatura inventada que está nas revistas ou no cinema, mas somos nós, criaturas de verdade, que a cada hora do dia construímos nossa vida aprendendo a lidar com graus cada vez maiores de complexidade.

Em cada momento, no trabalho ou em casa, estamos lidando com tarefas difíceis e que nos aprimoram dia a dia. Como o Hércules da mitologia nós também temos nossos “Trabalhos”. São dúzias de Trabalhos do Cotidiano e agora convido você a conhecer doze deles.

1) O impulso e o “tamanho da encrenca” – impulso e entusiasmo são matérias-primas básicas para qualquer de nossas ações. Porém, temos que aprender a dosá-los, caso contrário, poderemos assumir coisas que estão além da nossa capacidade naquele momento ou delegar a quem não consegue dar conta. Cada um deve ter a medida do que é ou não capaz de fazer. E ter essa medida não significa perder o entusiasmo!

2) Desejo entendido é desejo atendido – a vontade é nosso motor, sem vontade e desejo nós nem saímos da cama para recomeçar a cada dia… Mas, se não temos clareza de nossos desejos e sonhos, não temos como trabalhar para realizá-los. E eles podem ser desviados para coisas que não importam de fato. O herói sabe o quê e para que deseja.

3) Orientar-se para saber escolher – a dor e a delícia destes tempos são a quantidade de opções que temos, o que torna ainda mais difícil o ato de escolher. O herói sabe que escolher é privilégio e não problema, por isso não delega a outros as suas escolhas. Ele busca informações e faz o  reconhecimento dos ambientes onde está, para saber escolher o que é melhor para ele e sua comunidade.

4) O tempo e a intuição – o tempo se acelera e aumenta a necessidade de agir com rapidez. Quando não temos a possibilidade de juntar dados, analisar com calma e aí agir, nossa aliada é a intuição que permite percepção, conclusão e decisão rápidas. Intuição é resultado do exercício cotidiano de juntar dados e analisar, pensando o que pode acontecer e como podemos reagir. Mas é também exercitar a percepção: sem sensibilidade para o que você e os outros sentem não existe intuição.

5) Diferentes mas não desiguais – falando de sensibilidade em relação ao outro, o herói do cotidiano sabe que é especial, que não existem dois seres humanos iguais. Mas sabe também que somos todos especiais, cada um em sua diferença. E que essas diferenças são mais solução do que problema, principalmente se soubermos que somos diferentes, mas não desiguais, pois temos os mesmos direitos.

6) Entendendo o contexto – toda situação está inserida em um contexto. Ela se origina em comportamentos passados e provoca comportamentos futuros. Sem a percepção deste contexto fica difícil entender e escolher a melhor maneira de agir. Nós, heróis, procuramos sempre enxergar as coisas em perspectiva, dando o distanciamento necessário para ter uma visão abrangente.

7) A técnica adequada para cada situação – cada coisa tem sua técnica adequada – um como que serve para aquele o quê. Por isso é perigoso achar que existem fórmulas mágicas que servem para qualquer coisa. O melhor é estudar bem cada situação para ver qual a solução e lembrar que é o contrário: em time que está ganhando a gente mexe sim, senão ele para de ganhar….

8) Não desperdiçar forças – priorizar o que merece ou não nossa energia é fundamental, senão damos murro em ponta de faca. E, além disso, existem oponentes que se fortalecem com nossa força e nos deixam cada vez mais fracos. Com jogo de cintura estes oponentes não nos derrubam e podemos, como nas artes marciais, fazer com que sejam derrubados por sua própria força. Por isso, o herói do cotidiano alia clareza de propósitos a flexibilidade.

9) Pegar no pesado, “pegando leve” – já que nosso dia a dia exige muito e cada vez mais, o segredo está em “pegar leve” para dar conta do pesado. Pegar leve é encarar as coisas com humor; é ver o que de fato é importante; é saber que sério não é sinônimo de sisudo; que crítica é algo que constrói e não destrói. É lembrar que só o que é leve sobe. E nós queremos subir, não é?

10) Medo: aquilo que devemos temer – não existe pior conselheiro do que o medo. O medo paralisa, provoca julgamento e preconceitos, separa ao invés de unir. O medo impede a ousadia, essa ferramenta tão essencial hoje em dia. Medo de errar, experimentar e se expressar? Caia fora desta, herói do cotidiano, e não tenha medo de crises, pois crise significa tanto perigo quanto oportunidade.

11) Fluxo do velho, adubo do novo – cada coisa tem seu tempo e é importante que o velho possa fluir para dar espaço ao novo. É no contato entre velho e novo que a renovação acontece. É do encontro entre tradição e modernidade que surge a inovação e é de novos usos para o que é antigo que surge a, tão importante, reciclagem. Se o velho não é usado como fertilizante para o novo, pode obstruir e retardar processos.

12) Relação de Interdependência – a conquista da independência foi fundamental para nossa história pessoal e coletiva, porém, agora evoluímos mais um passo. Percebemos que existimos em vários níveis de interdependência: nossa natureza e a Natureza que habitamos, nosso trabalho e o de nossa equipe, nossa vida e de nossa empresa, nossa satisfação e a satisfação de nosso cliente. Tudo isso existe de forma interdependente e nos traz de volta aquela velha e preciosa máxima: fazer para o outro o que gostaríamos que fizessem por nós.

Nós, heróis do cotidiano, sabemos que para que a harmonia e prosperidade que desejamos e merecemos seja uma realidade, é preciso que ela comece em nossa vida, maneira de trabalhar, na maneira de conduzir nosso dia a dia. Nosso cotidiano é nosso reino, é o lugar onde escolhas e decisões acontecem e, portanto, é aí que podemos ter pequenos gestos que provocam grandes mudanças.

Somos heróis, escolhemos.

*Texto originalmente publicado na Revista ABN AMRO n.5, em agosto de 2005.

*Artigo escrito por Lala Deheinzelin, pioneira da economia criativa no Brasil e autora do livro Desejável Mundo Novo – disponível para download. Lala também é coordenadora da primeira pós-graduação em Economia Criativa e Colaborativa, pela ESPM e Núcleo Educacional de Economia Criativa/IBQP e colabora de forma voluntária no blog Giro Sustentável.

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