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É melhor já ir se acostumando com o pior

The Danger of Eating Mice - Cham - Old Book Illustrations (OBI)
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Jair Bolsonaro, candidato-sensação do conservadorismo nacional, há poucos dias concedeu entrevista à Mariana Godoy, da Rede TV. Lá pelas tantas, a jornalista perguntou a ele o que pensava sobre a economia do país. Jair Bolsonaro respondeu muito tranquilamente que isso ele deixava para a “equipe econômica”. Nem mais uma palavra. Finito.

Os entusiastas de sua campanha correram a justificar: presidente nenhum precisa saber pormenores técnicos; presidentes não são economistas, médicos ou engenheiros; presidentes doutros partidos e governos acabaram com a economia; por fim: Dilma não sabia nem somar dois mais dois.

E não é que o “fator Rousseff” virou mesmo argumento? Para quem vota em Bolsonaro é um disparate, um abuso, um acinte que esperemos dele conhecimentos que ela nunca teve. Se ela não sabia, não se pode exigir que ele saiba. Se ela foi eleita montada em ignorância, ele pode ser eleito cavalgando desconhecimentos.

Gostaria sinceramente de sentir essa paixão. Não consigo. Nem mesmo compreendo.

O país está no buraco, está no buraco do buraco, por causa de políticas econômicas desastrosas de alguém que não parecia saber rimar lé com cré; portanto, a incrível solução é dar chance para que outro, que demonstra não saber mais, possa fazer o mesmo?

Não quero acreditar que Dilma Rousseff com seus defeitos, sua incompetência clamorosa, sua inabilidade politica – Dilma Rousseff em sua melhor forma, enfim – tenha se tornado a régua. Ao que parece, em vez de esperarmos que o próximo postulante ao cargo seja melhor, muito melhor do que ela, justificamos a incompetência de um diante da incompetência da outra.

É evidente que não se espera de um candidato que pormenorize os problemas econômicos. Espera-se, no entanto, que demonstre ter visão mais clara, abrangente, ainda que eivada de platitudes, do que vem a ser a política econômica de um país. O eleitor de Bolsonaro não votará em sua equipe econômica. Votará em Bolsonaro.

Que ele dissesse todos os clichês do liberalismo: carga tributária, livre mercado, meritocracia, burocracia. Era isso, pelo menos isso, o que se esperava dele e de qualquer outro. Assisti a uma entrevista do Dr Rey e ele parece ter mais o que dizer do que Bolsonaro. Isso não é exatamente um elogio ao Dr Rey.

E Jair Bolsonaro não é novato: há quase trinta anos milita nas casas legislativas sem que ninguém saiba, com segurança, o que tem feito. Digo: o que tem feito além de bravatas, de frases de efeito, de retórica fácil.

Afinal de contas, se tenho mesmo de já ir me acostumando com o novo presidente, acredito que ele também deveria já ir se acostumando com as complexidades, os rigores, as expectativas do cargo a que aspira. Para dizer a verdade, já deveria ter se acostumado com alguma coisa melhor do que bravatas, frases de efeito, retórica fácil.

Do mito à superstição é um pulo.