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Enviado por André Egg, 01/04/14 11:17:47 AM

Aos 50 anos do golpe muita coisa ainda precisa ser escrita sobre 1964 e o Regime Militar ali implantado. Não vai ser com um post de blog ou com um tuíte que a gente vai resolver essa grande pendência histórica.

Entretanto, uma “data comemorativa” como essa ajuda a provocar maior debate sobre um tema que está atravessado na garganta do Brasil. Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, portanto há 50 anos, caía sem resistir o presidente constitucional do Brasil – João Goulart.

O país não tinha nada próximo de uma tradição democrática a zelar, mas o golpe vinha interromper uma experiência muito frutífera de democratização no período 1945-1964. Havia grande instabilidade institucional, mas os governos Vargas (1951-54), Kubischek (1956-60) e  João Goulart (1961-64) foram responsáveis por grandes avanços na inclusão das massas urbanas na política e na economia.

Pode-se resumir o golpe como uma reação das elites oligárquicas à perda de influência decorrente do período democrático. A isso se somou a cultura golpista da oposição (com farto apoio entre os oficiais militares) contra a esquerda trabalhista que governou a maior parte do período democrático. E mais um complicador: a Guerra Fria e o interesse norte-americano em apoiar regimes anti-comunistas (o medo de uma nova Sierra Maestra falava mais alto que a razão no planejamento norte americano). Este último fator teria sido decisivo para João Goulart entregar o governo sem resistência – o poderio militar norte americano mergulharia o país numa tragédia militar em caso de resistência.

O golpe e o regime por ele implantado foram definidores dos rumos de um Brasil excludente, violento e corrupto. As possibilidades de avanço social foram abortadas, a concentração econômica aumentou e ninguém esteve seguro diante do poder fardado. Por outro lado, o desenvolvimento econômico foi acelerado, mas de forma desequilibrada: o “milagre econômico” do início dos anos 1960 resultou na grave crise de estagnação econômica, desemprego e hiperinflação dos anos 1980 e 90.

Por essa e por outras, acertar as contas com esse passado autoritário é chave para o Brasil tomar o rumo do desenvolvimento justo e equilibrado. Um país melhor para nossos filhos e netos exige a revisão do legado deixado por nossos pais e avós.

Por isso, o blog faz hoje um reforço e uma lembrança, seguidos por uma pequena lista de leituras recomendadas para quem quer mergulhar na história do golpe e do Regime Militar.

Aqui na Gazeta, a semana está marcada por uma série de reportagens, que pode ser acessada aqui.

Muita coisa deve estar saindo na imprensa, e haja fôlego para acompanhar tudo. Mas suspeito que o especial da revista Carta Capital deva ser o que saiu de melhor.

Na internet também muita gente boa escrevendo sobre o assunto, e dificilmente alguém resumirá melhor o cenário histórico envolvido no golpe do que o prof. Maurício Santoro neste post.

Além dos textos rápidos de imprensa escrita e internet, uma ótima notícia que o aniversário do golpe nos traz são os lançamentos editoriais. Muito historiador fera, que trabalhou anos nos arquivos e compilou grande quantidade de documentos, dando o correto enfoque metodológico, acabou recebendo espaço nas grandes editoras e lançando livros indispensáveis para pensar o golpe e o Regime Militar. Não devo saber de todos, mas faço aqui minha listinha dos que acho obrigatórios. Como a maioria está saindo por agora, ainda não deu tempo de ler – coisa que a gente vai ter de fazer nos próximos dias (ou meses, pela quantidade de coisa boa).

Capa do livro publicado pela Contexto

Capa do livro publicado pela Contexto

O que saiu mais cedo eu já li – o livro do professor Marcos Napolitano, da FFLCH-USP. Indispensável e obrigatório, pelas avaliações amplas e pelos capítulos sobre a cultura e a resistência ao regime, temas que ele conhece melhor do que ninguém. Uma resenha deste livro já apareceu aqui neste blog. Tem nas livrarias e tem também em Kindle.

Livro de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes lançado pela Record

Este livro eu acabei de receber, mas ainda não li. Provavelmente vou fazer resenha dele em breve. Os dois autores são grandes autoridades em história política brasileira. Representam, digamos assim, uma tradição historiográfica carioca. Jorge Ferreira estabeleceu sua reputação autoral com a super biografia de Jango, que conta muito bem a história do golpe. O livro sobre Jango já recebeu resenha minha aqui na Gazeta. Até onde sei, este aí não saiu em versão digital, só nas livrarias.

A Zahar também fez vários lançamentos importantes:

Capa do livro coletivo sobre o Regime Militar

Capa do livro coletivo sobre o Regime Militar

O principal deles é uma grande avaliação coletiva do Regime Militar, com textos escritos por vários especialistas. A organização do livro ficou a cargo de três professores que dispensam comentários. Marcelo Ridenti, da UNICAMP, Rodrigo Patto, da UFMG e Daniel Aarão Reis Filho, da UFF. Aqui na página da editora tem sumário e mais informações. Tem versão Kindle.

O livro de Daniel Aarão Reis Filho

O livro de Daniel Aarão Reis Filho

De Daniel Aarão Reis Filhos a Zahar também lançou este livro cuja capa aparece acima. Uma tentativa de fazer uma interpretação mais abrangente do Regime Militar e de sua resistência de esquerda dentro de uma longa tradição brasileira. Na página da editora, mais informações e o sumário. Também está disponível em Kindle.

Livro de Rodrigo Patto

Livro de Rodrigo Patto

Mas talvez o mais interessante de todos os lançamentos seja este livro de Rodrigo Patto, professor da UFMG. As diversas ações institucionais do Regime Militar deixaram sérias consequências para o Brasil de hoje, com um entulho autoritário do qual a gente vai tendo muita dificuldade de se livrar. Talvez um dos principais motivos seja o poder que as universidades possuem de reproduzir ad infinitum o modelo legado pelas intervenções dos presidentes-generais. Rodrigo Patto mergulha neste processo, num livro que me parece que vai ajudar a repensar muita coisa. Mais informações na página da editora. E também possui versão Kindle.

Provavelmente é desconhecimento meu, por não serem áreas com as quais trabalho, mas estão faltando os lançamentos que discutam outros aspectos cruciais do nosso legado autoritário. Eu gostaria muito de ler estudos especializados sob o Regime Militar e seu legado sob os seguintes aspectos (mas aí talvez não fosse tão interessante para as editoras do ponto de vista comercial):

* Economia: nosso sistema tributário kafkeano e  regressivo (pune quem trabalha e quem produz), e nossa estrutura cartorial feita de criar dificuldades para vender facilidades ou favorecer os amigos do poder – tudo isso foi um legado construído cuidadosamente pelo Regime Militar, e a gente nem passou perto de resolver esta questão. É hoje um entrave seríssimo para o desenvolvimento do Brasil;

* Polícia: ainda vivemos sob os coturnos da Polícia Militar, uma coisa que só o Brasil tem, e que foi desenhada para uso de mão pesada sobre os descontentes com a política oficial. Esse lado talvez dê pouco glamour porque as principais vítimas cotidianas são os pobres da periferia. Mas talvez em tempos de protestos, rolezinhos, massacres e quetais a gente consiga começar uma discussão mais séria deste tema;

* Judiciário: um sistema ineficiente, lento e caro, dominado por poucas famílias, que serve para a garantia de privilégios e é totalmente inútil para proteger os direitos das pessoas comuns. Esse é o grande legado do Regime Militar que a gente também está longe de desmontar. Some-se com a nossa tradição portuguesa de longa duração, e temos uma barafunda de leis que faz o paraíso dos bacharéis em direito e o terror das pessoas simples.

Então é isso. 50 anos que custaram muito a passar. Ou melhor, não passaram. Porque se a gente não acertar as contas com esse passado, continuamos com ele como se fosse uma pedra no pescoço puxando a gente para o fundo.

Boas leituras!

Enviado por André Egg, 21/03/14 8:28:18 PM

O maestro português Osvaldo Ferreira veio para Curitiba em 2011 para assumir a Orquestra Sinfônica do Paraná como regente titular. Ele já tinha vindo à cidade outras vezes pois era diretor artístico da Oficina de Música de Curitiba.

Sua chegada definitiva como maestro radicado na capital paranaense vinha na esteira da mudança de governo. Tinha saído o governador Roberto Requião, que durante os 8 anos de seus dois mandatos tinha transformado a nossa orquestra numa pálida sombra do que já tinha sido nos seus melhores momentos.

Não que nossa orquestra tivesse sido já alguma coisa perto de uma grande orquestra. Mas tinha sido uma orquestra boa, que cumpria seu papel de corpo estável em um estado de segunda linha na federação brasileira (mais ou menos populoso e rico, embora muito atrás de São Paulo, Rio e Minas – ou mesmo Rio Grande do Sul e Bahia, em cacife financeiro e político e tradição cultural). Pelo menos é a impressão que se tinha dos tempos de sua fundação no governo José Richa, e uma continuidade mantida a duras penas nos governos Alvaro Dias e no primeiro Requião (1991-94). Naqueles tempos a orquestra tinha boa programação, a regência era muito bem desincumbida pelo titular Alceo Bocchino e pelo assistente Osvaldo Colarusso, e chegamos a ter apresentações frequentes de balé e ópera.

Neste blog já escrevi um pouco sobre nossa orquestra por ocasião do seu 27º aniversário:

Os 27 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná

Nos 16 anos entre o fim do primeiro Requião, a passagem por JaimeLerner (1995-2002) e a segunda era Requião (2003-2010) a orquestra foi passando por uma longa e agônica decadência, marcada pela falta de programação fixa, e em muitos momentos a falta de um regente regular. Mais ou menos pela mesma época a Camerata Antiqua de Curitiba também acabou abandonando a figura do regente fixo, sem que isso resultasse em prejuízo para a orquestra (para o coro é outra conversa) – pois a programação era mantida com ensaiadores locais e regentes convidados.

O fato é que não ficaram grandes lembranças da Orquestra Sinfônica do Paraná no período em que o nosso estado oscilou entre entre o liberal Jaime Lerner e o esquerdista Roberto Requião (4 mandatos, dois seguidos de cada um, entre 1995 e 2010). Isso prova que a boa gestão da cultura não esteve em nenhum dos extremos da nossa polarização político ideológica de província.

Quando o Osvaldo Ferreira chegou, encontrou um grupo desmoralizado, no sentido de que tinha bons músicos, mas cujo trabalho não era respeitado profissionalmente, artisticamente nem financeiramente. Some-se o fato de as relações entre os músicos e o maestro também não tinham um bom histórico, pois foram desavenças entre um corpo estável e um maestro idem que levaram ao afastamento de Osvaldo Colarusso para outras funções no Estado, uma vez que a orquestra chegouao ponto de recusar-se a tocar com ele no pódio.

A missão não era coisa simples. Em primeiro lugar, é preciso pensar no confronto de mentalidades políticas e culturais que seria sofrido pelo novo maestro. Osvaldo Ferreira vem de um país pequeno da Europa, um continente onde a vida sinfônica é muito mais significativa do que deste lado do Atlântico. Afinal, Portugal é comparável ao estado do Paraná em população e extensão territorial, mas possui mais de uma dezena de boas orquestras muito ativas. A programação sinfônica de Lisboa, por exemplo, só tem comparação, no Brasil, com São Paulo ou Rio de Janeiro – e é uma capital com cerca de 700 mil habitantes.

Ou seja, além da dificuldade de se aculturar em um país e uma cidade muito diferentes (dizem que a língua é a mesma, mas as diferenças são grandes até neste aspecto – basta lembrar que o candidato José Serra não entendia as perguntas dos repórteres quando saía do seu estado natal nas eleições de 2010), tinha a abissal diferença do valor cultural que têm as orquestras lá e cá. Imagino que talvez haja alguma diferença, aí já não tão grande, entre o nível técnico dos músicos.

Superando estas dificuldades todas, Osvaldo Ferreira se impôs desde logo pela qualidade do seu trabalho, e ganhou para si e para a orquestra o respeito que tal aparato merece em uma cidade ou estado que se prezem.

Eu assisti com muito prazer o primeiro concerto, e publiquei uma crítica no blog que eu mantinha na época:

A estréia de Osvaldo Ferreira com a Sinfônica do Paraná: Guarnieri, Tchaikovsky, Beethoven

Pra resumir a história pra quem não tiver paciência de seguir todos os links que eu vou colocar neste texto, o concerto mereceu destaque positivo pela escolha da Abertura Festiva de Camargo Guarnieri, uma peça brasileira moderna mais recente, e os clássicos Concerto para violino de Tchaikovski e Terceira sinfonia de Beethoven. Além de inteligente escolha de repertório, Osvaldo Ferreira revelou imediatamente sua capacidade como ensaiador, sua técnica de regência, sua cultura musical. E mais do que isso, mostrou que os músicos estavam com ele.

Osvaldo Ferreira ensaiando concerto inicial da temporada 2012 (foto Priscila Forone/Gazeta do Povo)

Mas melhor ainda que o concerto em si, foi sair do Guaíra levando um caderno da programação anual da orquestra. Uma coisa que eu acho que nunca tinha tido, pelo menos eu não me lembro. A Camerata já fazia isso em Curitiba faz um tempinho. Orquestras importantes em outros lugares do Brasil e do mundo fazem isso normalmente, ou melhor, é difícil explicar pra alguém acostumado com vida sinfônica como uma orquestra pode não ter programação anual.

Pois é, a OSP não tinha. E Osvaldo Ferreira fez uma bem rápido. E era muito boa. Ao menos era o melhor que se podia fazer com as condições que se apresentavam na ocasião e o histórico recente da vida cultural paranaense. (Agora estou em dúvida se a programação saiu mesmo no primeiro concerto ou foi depois. Acho que foi depois, pois eu publiquei só em julho meu comentário, que estava num blog antigo, depois foi republicado em outro)

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Pra mim o destaque ficava por conta do equilíbrio entre compositores brasileiros (sempre presentes), música europeia do século XX (quase sempre presente), bons solistas e maestros convidados, e ótimo repertório clássico. Ficavam faltando as coisas que dependiam de programação mais antecipada, melhor capacidade técnica da orquestra e da equipe do Teatro Guaíra e maiores recursos. Por exemplo, faltavam estreias e/ou encomendas de obras, faltavam as grandes obras mais ousadas do repertório, e faltava sobretudo ópera e balé.

Nada que se pudesse culpar o maestro. E veio o segundo concerto, que eu também assisti e escrevi crítica, desta vez publicada na Gazeta do Povo e complementada no meu blog, por causa da falta de espaço para textos mais desenvolvidos no jornal impresso.

Um concerto de altos e baixos

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: Dottori, Schumann e Tchaikovisky

Pra resumir a história, a peça do Dottori foi muito boa, e mereceu uma menção especial por ser coisa bem recente de um compositor que mora na cidade. A gente precisava (e continua precisando) ver a orquestra fazer mais isso. Também foi ótima a sinfonia do Tchaikovsky, mas foi meio atrapalhada a escolha e a execução do concerto do Schumann. Ainda não sei se quem escolheu a peça foi o maestro ou a solista, mas ela é difícil de sair bem, tanto pela dificuldade técnica para o pianista, para o entrosamento do conjunto e, principalmente por não ser bem resolvida em termos de orquestração.

Depois disso, não vi mais nenhum concerto regido pelo Osvaldo Ferreira no ano. Só vi a OSP com outros maestros, provando que foram muito boas as escolhas do diretor artístico, tanto de repertório como de convidados.

E então veio o anúncio da programação da segunda temporada da OSP com Osvaldo Ferreira à frente. Seria a primeira que o maestro teria preparado com suficiente antecedência, mas continuaria marcada pelas mesmas dificuldades que a equipe do Guaíra e o Governo do Estado pareciam não ter mesmo interesse político em resolver. Continuou sendo uma temporada limitada por uma série de ausências e falta de recursos, embora parecesse que as coisas estavam melhorando de algum modo, com o anúncio de ao menos dois programas mais ousados em termos de produção: a Sinfonia nº 2 de Mahler e a Sagração da Primavera de Stravinski.

A seguir, o texto que escrevi na época, sobre a programação, e a matéria feita pela Gazeta do Povo:

A temporada 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Progredindo dentro de velhas limitações

Conversando com o repórter Rafael Costa, da Gazeta do Povo, sobre a temporada 2012 (foto Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

A realização da Sagração seria realmente um grande feito, talvez dos maiores da história da OSP e do Balé Guaíra. Mas a ótima execução da Sinfonia Ressurreição de Mahler ficaria um pouco eclipsada pela polêmica em torno do uso de um coro de voluntários para realizar a obra. Apesar de ser muito bom o engajamento de um coro da comunidade numa realização artística desta envergadura, a questão é que o Teatro Guaíra deveria ter um coro profissional e não tem. Nem pretende ter. Com isso, o maestro teve que se virar com o que podia, melindrando bastante todo o pessoal que se mobiliza faz tempo para que o estado tome vergonha e crie um corpo estável, não nos moldes do antigo Coro do Teatro Guaíra, que era feito sob relações financeiras e trabalhistas muito precárias.

Mas vejam o que escrevi na época sobre o concerto de Páscoa:

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: a Sinfonia nº 2 de Mahler

Um pouco depois de um concerto tão intenso veio outro bem mais leve. E apesar de eu reclamar um pouco de coisas mais leves, talvez seja uma grande sabedoria do maestro equilibrar-se assim entre os vários tipos possíveis de público. Afinal, ele não trabalhava apenas para o ouvinte mais especializado e empolgado com a vanguarda (meu caso), mas tinha que atender aos interesses de uma população muito mais vasta que paga os impostos.

Escrevi uma crítica também sobre este outro concerto:

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná com Fábio Zanon: Krieger, Rodrigo e Debussy

Neste ano também teve muita coisa que não assisti, e depois veio a tão esperada Sagração. Saiu a seguinte matéria na Gazeta do Povo:

Um ritual pagão em pleno Guaíra

Osvaldo Ferreira no fosso, ensaiando a orquestra para a Sagração da Primavera, com coreografia de Olga Roriz (foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

E foi assim a crítica que escrevi:

A Sagração da Primavera de Olga Roriz com o Balé Guaíra e a Sinfônica do Paraná

Pra resumir bem a coisa – foi uma das grandes experiências estéticas da minha vida ouvir esta peça ao vivo (eu já tinha ouvido muito em gravações) – numa ótima execução.

Eu não fiz crítica de mais nenhum concerto regido pelo maestro neste ano. Mas teve outras coisas que mereceram destaque na programação: o maior espaço para atuação do regente assistente, Márcio Steuernagel, que comandou uma programação de clássicos mais leves apresentados em igrejas, e que também regeu um concerto inteiro só de compositores curitibanos contemporâneos (Maurício Dottori, Harry Crowl de Flíblio Ferreira de Souza). Esse concerto foi no Teatro da Reitoria, e foi outro dos grandes momentos da OSP (exceto pela peça do Flíblio, que ganhou o concurso de composição em 2011 e que até hoje eu não sei se tem problemas de escrita como o Schumann do Concerto para piano ou se é só má vontade da orquestra com a linguagem muito complexa da escrita instrumental).

Além disso, merece destaque especial a altíssima qualidade da programação infantil desenvolvida (assisti alguns concertos desses com a família, e descobri que o Osvaldo Ferreira é ótimo com os figurinos também).

Foi ainda um momento muito mágico a música do filme de Lotte Reiniger, mas esta foi com regente convidado.

Outro destaque do ano de 2012 foi que a OSP chegou a ser notada pela mídia especializada de alcance nacional. A nossa orquestra foi mencionada numa reportagem da revista Concerto sobre a subida recente do nível da vida sinfônica no país, e a Orquestra Sinfônica do Paraná apareceu entre as orquestras notáveis do país, sendo Osvaldo Ferreira um dos entrevistados. Na ocasião ele ousou colocar a orquestra num nível talvez maior do que ela realmente estivesse, e eu comentei isso um pouco neste texto:

Orquestra Sinfônica do Paraná é uma das 5 melhores do Brasil?

O fim do ano de 2012 começou a revelar um pouco dos gravíssimos problemas que começariam a ficar frequentes na administração do Teatro Guaíra, e que acabariam culminando com a saída do maestro Osvaldo Ferreira ao final do ano seguinte.

Sem explicações, foi cancelada a vinda do compositor Penderecki, que estava programado para reger o último concerto do ano, que previa, entre outras obras ousadas, a estreia de uma peça que estaria sendo escrita por Márcio Steuernagel. Se tivesse acontecido conforme o programado, teria sido provavelmente o músico mais importante do mundo a pisar a nossa cidade, e certamente seria outro momento para entrar para a história da OSP.

Ao contrário, foi o começo de uma história de desencontros, que acabou com a impossibilidade de continuidade da ótima parceria Osvaldo Ferreira / OSP.

Em 2013 a coisa foi ficando bem pior, com mais notícia ruim ao longo do ano. A primeira coisa foi que o Teatro Guaíra nem se deu ao trabalho de imprimir um caderno de programação, e sequer tinha uma divulgação minimamente decente no site. O público ficou sabendo das coisas pelo esforço pessoal do maestro, e a programação saiu em matéria do jornal Gazeta do Povo:

A temporada 2013 da OSP

Esta matéria teve algumas opiniões minhas, dadas em conversa com o repórter Rafael Costa, que aliás, fez sempre boas matérias sobre a orquestra durante todo o período de Osvaldo Ferreira. Em linhas gerais, o que eu disse pra reportagem foi que a programação era pior que a dos anos anteriores, e demonstrava nitidamente a falta de investimento financeiro – condição necessária para uma programação melhor. Era mais ou menos como se o Governo estivesse dizendo que não concordava com esse negócio de ter uma das 5 melhores orquestras do Brasil, que isso era coisa de um maestro metido a querer colocar Curitiba e o Paraná onde nunca pretenderam ficar.

O descaso da direção do Teatro Guaíra com a divulgação da programação talvez já significasse que eles tinham intenção mesmo de “dar o bolo” no público da orquestra. Ou talvez eles não concordassem com as coisas que o maestro pretendia, porque realizar programação sinfônica gasta dinheiro, e o Governo do Paraná tem dinheiro pra outras coisas mas não pra isso. (Na verdade ficou sem dinheiro pra quase tudo que importa em 2013, como mostraram fartamente diversas reportagens do jornal.)

Um dos motivos do atropelamento com a divulgação da programação foi que o Teatro Guaíra esperou ver que datas ia alugar o teatro para formaturas para só depois confirmar a programação que estava definida havia meses. Imagina os regentes e solistas convidados esperando pra fechar agenda por causa de um motivo desses. Sim, o negócio é esse mesmo que você está entendendo – o Governo do Paraná decidiu que era mais importante alugar o principal teatro do estado para formaturas do que reservá-lo para a programação da orquestra estadual.

Quando ficou evidente que a orquestra estava ficando para escanteio em sua própria casa, começou-se a discutir a reforma de outro espaço para servir de sede. Comentei o assunto neste texto:

O Centro de Convenções de Curitiba resolve o problema da Orquestra Sinfônica do Paraná?

O Governo do Estado abortou dessa ideia assim que soube quanto custaria a reforma. E olha que em nenhum momento se pensou em nada parecido com uma “Sala São Paulo”.

Mas antes desse imbroglio a orquestra já tinha feito um ótimo concerto que marcou novamente um grande momento da história. Foi o concerto em homenagem aos 85 anos de Edino Krieger, que foi convidado e esteve presente. No que dependia do maestro e dos músicos, a orquestra seguia marcando a história da Curitiba com grandes momentos. Esse foi o texto que escrevi logo após o concerto:

Homenagem aos 85 anos de Edino Krieger: Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná

Em 2013 eu fiz aquilo que sempre tentei fazer nos anos recentes: assim que saiu divulgada a programação, eu anotei na minha agenda (do google e do celular, que as de papel não consigo usar faz muito tempo) os concertos que pretendia assistir e escrever crítica. Não tenho tempo de ver tudo por excesso de atividades profissionais (este blog mesmo é feito no pouco tempo livre que aparece) então seleciono sempre as coisas que prometem ser mais marcantes. Em geral aquelas obras que a gente precisa ouvir ao vivo um dia na vida, ou coisa nova que a gente quer saber se vale a pena. No mais, o repertório batido já é coisa que a gente está muito bem servido num mundo com onipresença de música gravada em tudo que é lado.

Alguns concertos que eu queria ter visto eu perdi por culpa minha mesmo. Mas quando foi chegando outubro e eu vi que conseguiria ir na data prevista pro Requiem de Verdi, fui conferir os horários na programação da Gazeta ou no site do Guaíra e não tinha nada não. Não tinha nada mesmo. Nem concerto nem explicação nenhuma sobre seu cancelamento. Do mesmo modo foram cancelados sem aviso ou explicação os dois concertos previstos para dezembro. A única explicação que a gente pode imaginar é que o dinheiro acabou antes do ano, e a programação foi pras cucuias.

Acreditem se quiser, ainda tem gente que tentou colar a culpa no maestro, do tipo “ele gastou dinheiro demais em um concerto só, depois não sobrava nada pros outros” -  o que é um absurdo total porque estamos falando de uma programação divulgada no início do ano. Quer dizer – se o pessoal do Guaíra soubesse do que acontece nos seus próprios domínios, já devia ter dito em 2012 pro maestro que não dava pra fazer os concertos que ele pediu.

Se isso acontecesse, provavelmente o maestro teria saído antes, sem passar a vergonha de ver a programação cancelada com ele ainda levando a culpa que foi de gente que estava mais acima.

Essas questões todas foram bem investigadas pela reportagem da Gazeta do Povo, que conversou com pessoas que conhecem a orquestra e deram boas opiniões em duas matérias. Uma por ocasião da saída do maestro, no final do ano passado, outra no anúncio do primeiro concerto deste ano:

Fim de ano com mudanças à vista

Um ano de transição

Em 2014 a orquestra começou sem regente fixo, mas com o anúncio de uma programação mínima que promete manter a coisa mais ou menos funcionando. Algumas coisas não podem ser boas sem regente fixo e direção artística competente: especialmente a parte que depende do trabalho contínuo para melhorar. Isso significa que em 2014 a OSP está condenada a uma certa estagnação, embora nada disso dê pra perceber ainda, e a gente não saiba pra onde a coisa vai caminhar em 2015.

Tudo que se tem por enquanto é que há uma comissão de notáveis que não está deixando a programação ficar vergonhosa, e vem escolhendo os melhores convidados possíveis. A prioridade vai para os regentes radicados no Brasil, por motivos financeiros, mas nisso aí não há nenhuma queda de qualidade pois os nomes anunciados são muito bons. O primeiro concerto já aconteceu e foi um grande sucesso do ponto de vista musical.

O Concerto para flauta de Nielsen é uma obra muito interessante e foi muito bem feita. O Concerto para orquestra do Bártok é uma obra do nível da Sagração tocada em 2012 (sem o balé). A execução foi excelente, e alguém que olhe para o desempenho da orquestra só por este concerto vai dizer que está tudo uma maravilha.

Mas a OSP já provou, ao longo de sua história, que artisticamente sabe sobreviver ao descaso que lhe devotamos como público e como governo. Está muito acima disso.

E o que vai ser daqui pra frente não sabemos, mas nunca se apagarão as marcas das 3 temporadas com o Osvaldo Ferreira. Ele nos deu um vislumbre de programação séria e bem organizada, deu estabilidade e consistência artística ao conjunto que dirigiu, interagiu muito bem com a cidade e com a imprensa – e saiu daqui sem ter recebido o reconhecimento que mereceria pelo trabalho que realizou.

O concerto que, podemos dizer, marcou sua despedida como residente de nossa cidade, não foi com a Orquestra Sinfônica do Paraná, e sim com a orquestra de alunos da Oficina de Música de Curitiba que ele dirigiu (dirigiu ambos, o festival e a orquestra dos alunos). Não poderia ser uma despedida melhor, realizando com perfeição (mesmo com um conjunto amador) a peça sinfônica brasileira mais importante de todas (e certamente de difícil execução). Eu escrevi sobre esse concerto:

O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

Faço deste post minha homenagem e meu agradecimento ao maestro pelos serviços prestados em nossas terras. Ele nos deixou uma marca indelével, e a esperança de que possamos tê-lo trabalhando aqui no futuro, e da próxima vez em condições mais dignas. Se isso não puder ocorrer, certamente outros colherão resultados das sementes que ele aqui lançou, que ficarão por muito tempo.

Enviado por André Egg, 06/03/14 3:53:16 PM
Capa do livro (divulgação / Editora Paulus)

Capa do livro (divulgação / Editora Paulus)

O livro de Xabier Basurko foi publicado pela primeira vez em 1964, em meio à agitação intelectual do Concílio Vaticano II e interligado ao fortíssimo movimento de reforma litúrgica. A tradução para o português veio só agora em 2005, por uma série dedicada à música e à liturgia pela editora Paulus.

A tradução é muito bem vinda, porque se trata de assunto sobre o qual há muita carência de estudos, especialmente em português e em catálogo. Por exemplo, há outros autores que vieram tratando disso com profundidade pela mesma época que o Basurko, mas é tudo coisa difícil de encontrar hoje em dia. Por exemplo, tem o ótimo Adoração na igreja primitiva de Ralph Martin, que felizmente recebeu uma nova edição em 2012 – mas é um livro que só trata de liturgia, culto e Escrituras, quase nada de música diretamente (a não ser sobre aspectos de seu uso no culto). Tem ainda The sacred bridge e La foi et le culte dois outros estudos essenciais da mesma época do trabalho do Basurko (ele que ele usou e cita na sua bibliografia) que continuam sem tradução para o português e sem novas edições nas línguas em que foram escritos.

Para a gente ter uma ideia da importância destes estudos, basta dizer que o aggiornamento posto em prática pelo Concílio Vaticano II foi provavelmente a maior guinada já dada pela igreja romana em seus muitos séculos de existência. É comparável ao nível das mudanças que o Papa Francisco vem pondo em prática, sob alguns aspectos, mas sob outros foi coisa muito mais profunda. Basta que se diga que a igreja aboliu a obrigatoriedade do culto e dos cânticos em latim, coisa que a igreja manteve por 1500 anos durante os quais o latim já não era uma língua falada no cotidiano, mas apenas uma língua de sábios e a língua da liturgia. Permitir o canto e o culto em vernáculo (na língua local de cada fiel) é uma coisa que os protestantes já tinham adotado como primeira medida no século XVI, e que a igreja romana ainda segurou por mais 450 anos – e que talvez seja o principal fator de aproximação entre a igreja e o fiel comum.

O fato de que o latim tenha se mantido por tanto tempo diz muito sobre o formato elitista adotado pela igreja romana. A volta ocorrida na direção do povo na década de 1960 (quando a igreja saía em frangalhos depois do papel vergonhoso dos cristãos no apoio ao nazismo) tornava necessário um estudo como o produzido por Basurko. Nos primeiros séculos os cristãos tinham sido uma seita perseguida, tanto dentro do judaísmo (de onde saiu) como no contexto das práticas religiosas do Império Romano. Para estas comunidades minoritárias e perseguidas, o canto comunitário era fator essencial de identidade e sobrevivência. Tanto quanto as Escrituras ou até mais (como bem demonstra o Ralph Martin no livro linkado acima, muita coisa que entrou para o cânone do Novo Testamento foi cantada nos cultos muito antes de ganhar forma escrita) – os cânticos eram fator de coesão e sustentação da fé.

Se depois a Igreja se tornou uma instituição ligada ao poder imperial e à elite aristocrática, a música litúrgica perverteu-se nos seus usos intelectualizados e refinados e afastou-se do povo por vários séculos. Até o ponto em que a tentativa de um resgate da ligação com o homem comum provoca uma corrida às fontes do cristianismo primitivo.

E isso é tudo que o Basurko faz no seu ótimo livro (na verdade uma tese de doutorado publicada em livro). Ele passa o pente fino em toda a literatura patrística, com enfoque privilegiado em Agostinho e algum acento mais forte em Crisóstomo, e encontra ali todas as recomendações e reflexões sobre os usos do canto na vida da igreja. Com isso, o Basurko consegue fazer um panorama do canto litúrgico entre os primeiros cristãos a partir da única documentação existente.

Não é possível fazer muito mais pelo fato de que simplesmente não existe documentação musical propriamente dita (não existiam partituras) – e poucos documentos sobreviveram. O testemunho dos homens que formaram a ortodoxia da fé que se institucionalizaria pelos próximos milênios acaba sendo uma fonte rica para conhecer as práticas musicais dos primeiros 4 séculos de cristianismo.

São pistas que eu estou seguindo por que preciso conversar sobre isso nas minhas aulas. E são os ecos de uma reflexão que marcou um período muito importante de renovação das tradições cristãs numa época em que não estava dado como se faria a entrada em novos aspectos da modernidade. Nas décadas seguintes ao trabalho de Basurko ou Cullman, a igreja romana e os vários ramos protestantes iriam enfrentar um mergulho nos novos meios de circulação – a indústria fonográfica e, depois, a televisão e a internet. A música cristã nunca mais seria a mesma, e as tentativas de acompanhar as rápidas transformações mantendo alguma ligação com a tradição histórica acabariam sendo tragadas no torvelinho do uso mercantil das canções religiosas.

Para o bem e para o mal, a busca das origens da música cristã ficou mesmo como um olhar idílico para o passado, ao qual era impossível voltar mesmo que como inspiração. Afinal, depois de tantos séculos segurando a participação dos fiéis no culto, alguma hora a represa ia “estourar”.

Enviado por André Egg, 23/02/14 11:38:27 AM

Na edição de fevereiro da Revista Piauí saiu um texto importantíssimo do prof. Lorenzo Mammi intitulado “A era do disco”. O subtítulo “O LP não foi apenas um suporte, mas uma forma artística” indica a tese principal do texto, mas ele vai muito além disso.

No formato de um texto de revista, o artigo é curto e muito denso. A erudição do autor recupera várias questões relacionadas a forma e conteúdo, suporte e mensagem, mercadoria e obra de arte. Mammi parte da história do livro, ou melhor, do texto escrito e seus suportes, para estabelecer uma base de comparação com o fonograma, a princípio considerado como suporte, mas, como demonstra Mammi em defesa de seu argumento, essencialmente uma forma de arte que transformou totalmente a maneira como a música é produzida e veiculada.

Lorenzo Mammi (divulgação - Editora Cia. das Letras)

Lorenzo Mammi (divulgação – Editora Cia. das Letras)

Já estou aqui preocupado em como faço para xerocar o formato de página grande da Piauí, pois certamente quero tornar este texto uma referência obrigatória para meus alunos de História da Música. A gente já discute a questão do fonograma a partir de dois textos muito interessantes: o capítulo “Máquinas infernais: como as gravações mudaram a história da música”, do livro Escuta só, de Alex Ross e o capítulo inicial do livro Maestros, obras-primas e loucuras, de Norman Lebrecht. No texto do Alex Ross, uma reflexão sobre a história das tecnologias de gravação e a maneira como os músicos e os ouvintes se relacionaram com o fonograma. No texto do Lebrecht, uma história do surgimento da indústria fonográfica e as primeiras gravações que transformaram a música em um produto vendável. Além destes dois textos, eu fiz um post com imagens históricas. Falta ainda eu trabalhar melhor o livro do Humberto Franceschi sobre a Casa Edison, rico em imagens e documentos históricos (mas sem uma reflexão mais aprofundada).

O texto de Lorenzo Mammi trata a questão por outros aspectos. Grandes insights sobre a maneira como era a relação entre música como som e partitura como suporte, e a fruição nas salas de concerto, e a maneira como isso mudou a partir do disco de 78 rotações e sua articulação com a rádio difusão. A grande consequência foi a hipertrofia da canção como forma privilegiada:

Houve um “século da canção” (para retomar o título de um livro de Luiz Tatit) por que houve um século do disco.

Mas o foco do texto é a era de ouro do LP, entre meados da década de 1950 até o final da década de 1970. A invenção de uma tecnologia capaz de ir além dos 3 minutos de gravação permitiu uma nova relação com a tradição clássica, novas escutas que permitiram uma nova vanguarda (da geração de Boulez e Stockhausen), e principalmente novas formas de música popular.

Foi nessa época e por esses meios, muito mais do que pelas vanguardas do começo do século XX, que a música contemporânea alcançou sua plena autonomia em relação à tradição clássico romântica, quanto a recursos, formas e modalidades de escuta. Foi dessa época, provavelmente, a melhor música erudita do século. Mas é dessa época também o melhor jazz, do bebop ao free; quase todo o rock relevante, de Elvis Presley aos Clash; a bossa nova e o auge da MPB; Janis Joplin e Maria Callas; a melhor Ella Fitzgerald e o melhor Frank Sinatra. E, num lugar que é só deles, são dessa época os Beatles.

Para Mammi, os primeiros músicos a usarem de forma consistente o novo formato foram Miles Davis, com Kind of Blue e John Coltrane, com A love supreme. Mas não há dúvida de que o auge da concentração de criatividade e talento proporcionada pela indústria do LP foi representada pelo disco Sargent Peppers, dos Beatles, do qual Mammi faz uma interessantíssima análise estética.

Como não podia deixar de ser, o texto inclui um lamento sobre o fim das formas de escuta e de sociabilidade construídas em torno do LP (Mammi é da geração que viveu isso no seu auge, pois ele é de 1957), refletindo sobre a diluição do potencial artístico que está contida na migração para o CD e depois para o streaming na internet. Em última instância, o autor considera que a democratização das tecnologias de gravação e circulação possibilitam uma pulverização da produção de boa qualidade e uma consequente diluição do significado social do que é produzido. Trocando em miúdos, em toda esquina pode ter alguém produzindo coisas de altíssimo nível, mas a inexistência de uma concentração de recursos numa indústria dominante torna inviável o surgimento de novos músicos com a relevância dos Beatles.

Para Mammi, ainda está em aberto o ressurgimento do vinil como suporte, afinal existem correntes minoritárias mas significativas que ainda insistem em usar este suporte para novas produções.

Eu ainda estou em dúvida sobre a pertinência das análises que ele faz sobre a cena contemporânea, afinal, fica difícil separar sua capacidade de análise da contaminação pelo evidente saudosismo que ele traz pela era de ouro do LP. Entretanto, se as previsões catastróficas sobre a contemporaneidade e o futuro que se desenha são questionáveis, a avaliação histórica do papel central do LP na cultura do século XX é simplesmente incontornável.

Enviado por André Egg, 16/02/14 3:16:12 PM
Capa do livro publicado pela Contexto

Capa do livro publicado pela Contexto

Acabou de ser lançado o que deverá ser por muitos anos o melhor estudo sobre a história do Regime Militar brasileiro. O autor, Marcos Napolitano, pode ter uma visão privilegiada do assunto por causa da sua trajetória como pesquisador: começou a carreira acadêmica (mestrado) estudando os movimentos populares do final dos anos 1970 que combateram o Regime Militar; seguiu fazendo o doutorado sobre a Música Popular entre 1959-69, pelo eixo engajamento/indústria cultural; continuou a trajetória pesquisando a cultura da resistência ao Regime nos anos 1970 (Música Popular, cinema e imprensa alternativa).

Com essa trajetória, Napolitano se tornou um historiador privilegiado para abordar a cultura brasileira nos anos em que o país viveu sob os generais. Por isso, nem preciso dizer que o livro tem no seu ponto forte justamente uma visão abrangente da cultura nos anos 1960-70, principalmente seus setores mais dinâmicos: música popular, teatro e cinema. Sob esta ótica, o livro tem dois capítulos muito interessantes, que já vão entrar para as bibliografias de História da Música Brasileira (e do cinema, teatro e cultura em geral) – começando pela minha. “No entanto é preciso cantar: a cultura entre 1964 e 1968″ e “A primavera nos dentes: a vida cultural sob o AI-5″. (Abra aqui o sumário completo, do sítio da editora).

Marcos Napolitano (divulgação / Editora Contexto)

Marcos Napolitano (divulgação / Editora Contexto)

Se você abriu o sumário no link acima, você viu que o livro tem uma visão privilegiada sobre a cultura no Regime Militar, até por ser a principal área de trabalho do autor como pesquisador. Mas o livro não é só isso. Tem ainda um capítulo bem importante sobre as “letras em rebeldia” – abordando os escritores e intelectuais (e refletindo sobre porque o governo militar ter ficado tão completamente isolado entre a intelectualidade, que se tornou consensualmente de oposição ao Regime) e  com uma interessante visão da imprensa alternativa (a única que se manteve com independência em relação ao Regime – apoiado desde a primeira hora pelos grandes jornais).

Se o que eu achei mais interessante foi o panorama cultural do Regime Militar, o livro tem outras partes mais pedagógicas. Ele é uma visão ampla e bem fundamentada das causas que levaram ao golpe de 1964, com a necessária avaliação do governo Jango (1º capítulo). Essa parte se tornou tanto mais necessária quanto mais o governo Jango foi sendo avaliado de forma bastante parcial, tanto à esquerda (que o considerava vacilante e conivente com a direita) quanto à direita (que passou uma visão de um governo incompetente com um presidente imoral – bêbado e mulherengo). O trabalho de reavaliação deve seus créditos ao livro do Jorge Ferreira (que resenhei aqui para a Gazeta), amplamente usado como referência pelo Napolitano, somado a alguns outros trabalhos de pesquisa documental.

Aliás, esse é o grande mérito do livro do professor da USP. Tem coisas que o Napolitano conhece porque pesquisou direto, como já mencionei acima, e tem coisas que ele mobiliza uma série de estudos acadêmicos profundos e recentes. Ou seja, o livro não é mera opinião sobre o Regime Militar, mas é uma grande recensão do que tem de melhor na pesquisa recente – grande parte em teses e dissertações não publicadas. Ou seja, quando você quiser opinião sobre o Regime, poderá encontrar dezenas de livros já publicados ou que sairão este ano em que o golpe completa meio século. Se você quiser uma síntese abrangente do que a academia tem descoberto a partir da pesquisa documental, vai ter que recorrer sempre ao livro do Napolitano, e isso é o que ele tem de mais fundamental.

Entre o capítulo sobre Jango e o capítulo sobre a cultura 1964-68, tem dois capítulos em que Napolitano reavalia a conjuntura política que levou ao golpe. Primeiro a questão de uma “tradição” golpista já bem arraigada na política brasileira, que remetia aos golpes de 1945 (para tirar Getúlio antes das eleições), de 1954 (que levou ao suicídio de Vargas), de 1955 (que garantiu a posse de JK). Mais do que eleições livres, o ensaio democrático que o Brasil teve entre 1945-64 foi caracterizado por golpes e contragolpes. De modo que os principais atores (especialmente a oligarquia e os “liberais”) não imaginava uma atuação política prescindindo das quarteladas e das viradas de mesa. Isso contrastou com o crescimento vigoroso da atuação das massas urbanas na cena política, algo inaceitável para os setores acostumados a mandar no Brasil desde os tempos do Império. Ou seja, Napolitano analisa o golpe como uma aliança civil/militar contra o reformismo trabalhista, travestida em discurso anti comunista que levou ao absurdo de propagar a ideia de um golpe “saneador” em prol de uma democracia (que evitasse a participação direta das classes populares).

Este tipo de análise se tornou urgente, à medida em que os anos recentes viram um crescimento assustador do revisionismo que propõe que o golpe foi necessário para evitar uma ditadura comunista, fator que se soma ao anti petismo doentio que a gente vê com tanta facilidade em colunistas na imprensa e em opiniões avulsas nas redes sociais. Em relação a isso, o livro tem um capítulo inteiro para discutir a visão de que tenha ocorrido uma fase “liberal” do regime sob Castelo Branco, o que ocorre no capítulo sobre a “ditabranda”. O mesmo tema vem costurado com o capítulo final, onde Napolitano discute a memória do Regime, os problemas da transição para a nossa (parcial) redemocratização e a questão da Comissão da Verdade. (Um pouco dessa discussão já apareceu aqui neste blog, neste post.)

O capítulo sobre os “anos de chumbo” após o AI-5 traz uma necessária revisão da história dos grupos que aderiram à luta armada e uma avaliação do período mais negro da repressão. O fechamento do Regime não vem apresentado como uma “reação” à militância esquerdista, mas como um projeto próprio dos militares, que desde o início do Regime se afastaram dos aliados civis (como Carlos Lacerda, o político que apoiava mais entusiasticamente um golpe contra Jango) para implantar um projeto radical de modernização conservadora. Neste sentido, o autor confronta o discurso de que houvesse qualquer diferença substancial entre alguma “linha dura” dentro dos quartéis que estivesse sabotando e “golpeando por dentro”. A linha dura fazia parte do projeto principal, e levava a conta do serviço sujo, mas sempre esteve submetida à hierarquia pela qual os militares tanto prezam.

Por essa linha vai também a análise do governo Geisel e do período de abertura. Napolitano questiona a noção de que Geisel tenha sido o general que distendeu o Regime, lembrando, por exemplo, que o pior período da censura à imprensa (Estadão e Veja) ocorreu na transição para ou durante o governo Geisel. Do mesmo modo, foi o início do governo Geisel o período que somou o maior número de desaparecidos. Mais ainda, foi o período em que a tortura e as execuções nos porões do Regime se voltaram contra a oposição pacífica. O PCB, partido aliancista que nunca apoiou ou participou da luta armada, foi considerado “culpado” pela vitória do MDB nas eleições legislativas de 1975, e sofreu uma brutal repressão, com o assassinato de todos os seus principais líderes.

O ponto alto do livro, pra mim, é a necessária ligação com uma herança maldita do Regime Militar, que até hoje sustentamos. Por exemplo, os índices assustadores de violência são apontados por Napolitano como uma consequência direta dos vários tipos de violência capitaneada pelo Estado contra seus cidadãos a partir do Regime: a violência policial direta (com a criação da PM que até hoje não foi democratizada) e a violência institucional indireta que foi provocada nos bolsões de pobreza desassistida que foram construídos na periferia dos grandes centros. Sem falar na sempiterna exclusão dos camponeses (trabalhadores rurais) que continuam tratados a bala pela jagunçada impunemente até hoje.

O ponto fraco do livro parece ser o capítulo sobre o milagre econômico. Ali eu senti falta do uso de uma bibliografia mais consistente com os estudos mais recentes dos departamentos e/ou revistas especializadas de economia. Os estudos utilizados por Napolitano vieram concentrados entre a própria produção crítica da intelectualidade de esquerda logo após o Regime, ou dos estudos das áreas de Ciência Política, Sociologia e História. Me parece que a crítica ao milagre ganharia muita substância com os próprios trabalhos dos economistas ortodoxos, afinal, não é apenas sob a ótica da esquerda que o milagre econômico foi desastroso. As consequências de uma economia concentrada, do viés industrialista, do intervencionismo autoritário e da tributação e da burocracia kafkeanas são sentidos até hoje, quando temos dificuldade intensa em nos livrarmos do entulho autoritário que vamos levando por inércia.

E o livro nos dá boas pistas sobre o que seja talvez o principal motivo pelo qual não conseguimos nos livrar dos piores defeitos institucionais e políticos que herdamos do Regime Militar (nossa legislação sobre partidos políticos, por exemplo, feita para que o governo sempre obtenha fácil apoio e seja impossível construir consensos transformadores pela oposição, além de uma notável impermeabilidade a pressões populares).

Napolitano faz uma crítica severa do processo de abertura. Por um lado, houve o projeto da transição controlada, operada por Geisel e Figueiredo, que investiu numa institucionalização estruturante dos projetos dos militares. Mas houve também o problema estratégico das oposições: todo mundo estava tão preocupado em sair do mundo sufocante da repressão e garantir espaços de respiração na política institucional, que os canais oferecidos pelo Regime em seu processo de transição foram aceitos meio sem questionamento. Houve mais preocupação em garantir a possibilidade de se eleger depois que as eleições voltassem a ser livres do que em passar a limpo o período ditatorial. Esse paradoxo se tornou ainda mais agudo à medida em que desde Fernando Henrique Cardoso o Brasil vem sendo governado pelos principais opositores do Regime Militar, e mesmo assim nada avançou na punição aos crimes cometidos nem no estabelecimento da verdade documental sobre o Regime. Praticamente a única reparação que o Brasil fez foi a indenização pecuniária de parte das vítimas do Regime. E é por isso que um movimento como o #DesarquivandoBr é tão necessário (veja também a ótima série de textos sobre o assunto produzidos pelo jurista Pádua Fernandes em seu blog).

Quer dizer, o livro é um grande lançamento, não só por ser uma História do Regime Militar solidamente construída, aproveitando o mote dos 50 anos do golpe de 1964. Mais do que isso, o livro faz uma necessária reflexão política, e coloca o dedo em feridas que estão abertas. 50 anos não é tempo demais pra gente deixar tanta coisa grave sem uma solução definitiva?

Enviado por André Egg, 02/02/14 9:39:54 PM

Agora que já estamos com 2014 a pleno vapor, fevereiro, falta uma semana para começarem as aulas, é um bom momento para dar o início das atividades neste blog em 2014.

Quem tentou acompanhar esta página nos anos anteriores percebeu que o blog ficou mais tempo parado do que ativo. A coisa começou em agosto de 2011, ou seja, estamos completando 30 meses de atividades e este é o 27º post. Isso dá uma média de menos de um texto por mês. É uma média bem baixa para blogs.

Em parte isso acontece porque a proposta do blog nunca foi muito movimentada. A ideia ao fazer um blog com o título História Cultural no portal de um jornal do porte da Gazeta do Povo sempre foi escrever com seriedade e profundidade sobre temas de história na tangencia com temas da cultura. Embora esses dois temas e suas interações sejam bem amplos, a capacidade de um blogueiro de acompanhar lançamentos de livros, eventos acadêmicos ou temas atuais sobre estes assuntos é bastante limitada, principalmente quando o blog não é sua atividade profissional.

Neste caso, a proposta e o objetivo com o blog foi e é manter uma periodicidade quinzenal, às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos.

Se até agora o blog não atingiu este objetivo na maior parte do tempo, o motivo pode ser creditado ao excesso de atividades do blogueiro. Quando cheguei ao portal da Gazeta do Povo em 2011 eu tinha acabado de terminar o doutorado. Estava empolgado com as possibilidades de ter tempo sobrando para novas atividades, afinal o meu curso tinha acontecido em meio ao trabalho como professor e ao cuidado com uma família de dois filhos pequenos.

Acabei descobrindo que fazer o doutorado não era a coisa mais puxada que eu teria na vida. Depois que gente tem o título começam a aparecer uma série de outros convites e novas responsabilidades. Demora pra gente aprender a selecionar o realmente é mais importante e dedicar de forma adequada às atividades mais significativas.

Não que eu tenha feito muita besteira nestes últimos anos. Mas certamente foi besteira tentar fazer tanta coisa ao mesmo tempo.

Entre março de 2011 e dezembro último fui coordenador do Curso de Bacharelado em Música Popular da antiga FAP, agora UNESPAR. Um cargo que significa uma intensa atividade burocrática e uma grande quantidade de horas perdidas em reuniões de todos os tipos. Ao mesmo tempo, continuavam as atividades de professor de História da Música, intercaladas com as orientações dos alunos nos trabalhos acadêmicos, Iniciação Científica e TCC.

Também tinha o projeto de pesquisa ao qual eu dedico parte do meu tempo como atividade remunerada. No período entre julho de 2011 a junho de 2013 a pesquisa foi sobre Mário de Andrade como crítico do Diário Nacional. Alguns resultados dessa pesquisa saíram publicados, outros ainda darão frutos no futuro próximo. Talvez o principal texto acessível na web seja este aqui.

Quem clicou no link acima abriu uma versão em pdf do texto incluído nos Anais do Congresso do Grupo de Pesquisa em Música, História e Política, outra das atividades às quais me dediquei neste meio tempo. O material completo que resultou do congresso está aqui. Foi produzida uma versão impressa de poucos exemplares, com financiamento da Fundação Araucária. Organizar o evento, realizá-lo, editar e imprimir os Anais foram coisas que duraram entre novembro de 2011 e junho de 2013. Coisas da burocracia kafkeana que assola nossas universidades de modo geral, a administração pública do Paraná em particular e, principalmente, a antiga FAP agora UNESPAR.

Além disso, ainda trabalhei como membro da Comissão do Mecenato da Fundação Cultural de Curitiba, entre setembro de 2012 e setembro de 2013 – avaliando projetos encaminhados à principal modalidade da Lei de Incentivo à Cultura do Município.

Ainda sobrou um tempinho para manter um blog pessoal, que em 2011 era mantido no portal O Pensador Selvagem com o nome de Um drible nas certezas. Em 2012 a página pessoal ganhou endereço próprio em andreegg.org, ainda ativa para assuntos variados e materiais de aula. Mantive parcamente uma colaboração no Amálgama, coisa que também ficou bastante prejudicada.

Para 2014 decidi encaminhar a vida pessoal para a dedicação às aulas, às orientações de alunos e à pesquisa (agora ampliada para o tema do músico como intelectual no modernismo, a partir da atividade crítica de Mário de Andrade). Fora isso, sobrará pouco tempo para outras atividades. Entre elas, está a de escrever textos acadêmicos (que ao contrário dos blogs, demoram anos entre a escrita e a publicação).

E, continuará como atividade prioritária a de escrever de forma mais leve e curta nos blogs, intercalando assuntos de gosto pessoal e materiais de aula na página pessoal, e textos sobre História aqui neste blog. A ideia é manter uma periodicidade um pouco melhor em 2014, chegando ao objetivo de ser quinzenal na maior parte do tempo. Os temas continuarão sendo os eventos acadêmicos que o blogueiro puder acompanhar, pesquisas recentes, livros recém-lançados, clássicos da área de estudos, polêmicas atuais.

O que mantém firme este propósito é a importância geral deste espaço. Como jornal, a Gazeta do Povo tem nadado contra a maré e vem se tornando um jornal cada vez mais relevante numa época em que os principais jornais do país andam se esforçando para perder importância frente às mudanças do mundo. E acho que a Gazeta tem chegado a um ótimo equilíbrio entre impresso, site e mobile. Aliás, desde novembro tenho lido o jornal no tablet, e é realmente uma experiência bastante satisfatória.

Além disso, a repercussão particular dos poucos textos que foram produzidos aqui, motiva a continuar escrevendo. Aproveitando o ensejo, fica aqui a dica para quem perdeu: abaixo uma lista com os 10 textos mais acessados do blog desde o seu início.

Boa leitura a todos e um ótimo 2014 para nós.

História e música: os anos 60 – minha palestra no IFPR

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Ateísmo em discussão

A importância da música nova

Curitiba pode ter música popular?

Os 30 anos do Conservatório Villa-Lobos: uma homenagem a Valdomiro e Jane

O Jesus de Saramago

O 10º texto mais lido foi justamente o texto de apresentação do blog:

A História Cultural e o blog

E a versão anterior do perfil do blogueiro era este texto:

Entre a história, a música e a teologia: o perfil do blogueiro

 

Enviado por André Egg, 16/11/13 2:55:53 PM

Outro dia escrevi um texto sobre o estado atual dos estudos sobre Carlos Gomes nos departamentos acadêmicos:

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Acontece que o portal da CAPES que permite busca nos resumos estava fora do ar. Descobri que o motivo é que eles estavam desenvolvendo um novo software muito mais poderoso e funcional. Já está na ativa novamente, por enquanto somente com os dados de trabalhos de 2005 pra cá. Os mais antigos ainda estão em processo de inserção. Mas para efeitos de atualização da pesquisa, o recorte pelos últimos 9 anos já é bem suficiente.

E descobri mais alguns trabalhos interessantes.

Primeiro, minha surpresa em saber que o trabalho mais completo sobre a ópera Il Guarany foi feito aqui mesmo em Curitiba. É a dissertação de Olga Sofia Freitas Silva, orientada por Maurício Dottori. Disponível em pdf aqui.

Tem ainda a dissertação de Denise Inácio sobre ópera e representação histórica em Carlos Gomes, defendida em história na UNICAMP – pode baixar aqui.

Tem ainda uma interessantíssima tese de doutorado mais musicológica sobre o naipe de trompete nos trechos sinfônicos do compositor. Também da UNICAMP, de autoria de Paulo Ronqui e disponível aqui.

Ainda é pouco, mas é preciso fazer jus a esse pessoal que está pesquisando assunto tão importante.

Enviado por André Egg, 03/11/13 5:16:42 PM

Uma coisa bem difícil é estabelecer o lugar dos compositores na História da Música. Dizem que leis e salsichas são coisas que a gente evitaria consumir se soubesse como são feitas, e eu acho que é bem pertinente incluir aí a reputação histórica dos compositores.

Talvez a gente possa dizer que primeiro um compositor precisa ter sua obra apresentada e obter alguma empatia do público. Some-se os regentes e músicos que decidem incluir as obras nos concertos, os críticos que escrevem sobre música na imprensa, e logo se tem o estabelecimento das reputações. Vêm em seguida os compositores das gerações seguintes, que escolhem os modelos a serem reverenciados, e os professores de conservatório que definem a fixação de um repertório a ser aprendido por novas gerações de músicos.

Depois de todas essas camadas de reputação vêm os livros de História da Música, com seu canon de compositores e obras, seu panteão de gênios a serem venerados como objeto de culto dessa religião que é a “cultura” ou a arte.

Acrescente-se nessa receita a questão geopolítica: países que assumem uma posição central no mundo têm postura privilegiada na hora de disseminar suas visões de passado, embora seja difícil determinar quem é o ovo e quem é a galinha e muito menos saber quem vem primeiro: se um país hegemônico politicamente consegue impor melhor sua visão cultural ou se um país mais aceito culturalmente tem maior facilidade de assumir uma hegemonia política e econômica.

De qualquer modo, não há dúvida que a entrada nos livros de História da Música fica muito mais fácil se um compositor for de sobrenome alemão. Um pouco abaixo na lista das probabilidades vêm os franceses, e descendo mais um degrau vem os italianos. Deixo pra você calcular quantos degraus precisa descer para descobrir as possibilidades de um compositor sinfônico brasileiro colocar seu nome nos livros de História da Música (para a canção e a música pop a coisa muda muito de figura). Especialmente porque até hoje a gente continua no Brasil fazendo orquestras e teatros para tocar o repertório europeu oitocentista, o repertório de ensino de instrumento também tem essa predominância e, se por acaso a gente for ler algum livro de história da música (existem poucos em português), será com certeza um livro traduzido, normalmente do mercado literário anglo-saxão.

Mas porque essa reflexão sobre como se faz história da música e com quais critérios se incluem compositores na lista dos importantes? É que o maestro Osvaldo Colarusso, que faz o blog Falando de música, meu vizinho aqui no portal, escreveu um post fundamental apontando para o fato de que Carlos Gomes tem sido miseravelmente lembrado mais como nome de praça que como compositor.

Eu fui aluno do maestro Colarusso, e tenho a maior estima e admiração pelo trabalho dele. Entretanto, cada vez que um de nós escreve sobre música, acaba saindo alguma discussão no Facebook. Quem não conhece a gente pode achar que estamos brigando, mas não é o caso. Nossas diferenças de opinião sobre a vida musical são bastante marcadas pelas posições que assumimos – ele como regente e profundo conhecedor do repertório e das melhores gravações, eu como historiador, crítico e professor universitário.

Eu bem que concordo com tudo o que o Colarusso escreveu lá, porque realmente é bem estúpido que o Brasil não cultive uma memória cultural digna. Entretanto, quero apontar uma diferença que me parece importante: há o mercado de concertos, formado por músicos, regentes, orquestras, etc, que sempre foi problemático no Brasil e vai ficando cada vez pior, e há o meio acadêmico formado por universidades e centros de pesquisa, que sempre foi problemático mas vem num processo de consolidação crescente.

Nesse esclerosado meio musical que forma o mercado de concertos, tem absoluta razão o maestro Osvaldo Colarusso: Carlos Gomes está injustamente esquecido. Já no precário mas ascendente meio acadêmico, há mais interesse pela obra de Carlos Gomes e por tudo que o músico representa em termos de memória, de patrimônio e de história do nosso país.

Calros Gomes aos 46 anos - Museu Histórico Nacional

Calros Gomes aos 46 anos – Museu Histórico Nacional

Aliás, os livros de História da Música Brasileira sempre deram lugar de destaque para o compositor. Sendo o maior caso de sucesso internacional de compositor brasileiro (que só seria repetido 50 anos depois por Villa-Lobos), era natural que Carlos Gomes fosse visto como herói nacional. Apesar de os modernistas terem defendido a necessidade de superação do modelo operista italiano do século XIX (que foi naturalmente seguido por Carlos Gomes por ser importante em sua época, mas não valia mais como padrão para a geração de Villa-Lobos), não dá pra dizer que eles jogaram o compositor pra escanteio, afinal, o principal livro de História da Música Brasileira produzido por um intelectual modernista foi o 150 anos de música no Brasil, de Luiz Heitor Correa de Azevedo. Publicado pela José Olimpio em 1956, o livro tratava do período 1800-1950, e foi muito influente para as gerações seguintes. Por exemplo, José Maria Neves, que foi professor da UNIRIO por décadas e que escreveu o Música contemporânea brasileira, foi muito influenciado por Luiz Heitor, que o assessorou nas pesquisas em Paris e compôs a banca da teses de doutoramento na Sorbonne que virou livro. Também o História da música no Brasil de Vasco Mariz, surgido pela primeira vez em 1982, era baseado quase que totalmente nas pesquisas de Luiz Heitor, fazendo avançar com o conhecimento pessoal de Vasco Mariz dos compositores e de seus trabalhos para além da década de 1940.

Um jeito interessante de medir a reputação dos compositores nacionais é olhar esses manuais tradicionais e medir a importância dada a cada compositor. Compositores considerados importantes são mencionados em maior espaço. Compositores considerados fundamentais são colocados como espinhas dorsais da história da música pátria, ganhando capítulos individuais. Neste sentido, pode-se ver que a coisa caminha por uma trilha José Maurício – Carlos Gomes – Villa-Lobos, com diferenças na avaliação do que acontece depois de 1940. Luiz Heitor conhecia bem a música de Camargo Guarnieri, e Vasco Mariz foi o primeiro a encontrar valor no trabalho de Guerra Peixe e Claudio Santoro, principalmente após a virada ao nacionalismo folclorista ocorrida por volta de 1948. José Maria Neves foi o primeiro a reconhecer a importância e o valor da experiência dodecafônica do Grupo Música Viva no início da década de 1940.

O fato é que todos estes autores dão a Carlos Gomes um papel histórico central. Não seria por causa deles que o compositor ficaria esquecido.

O problema é que esses manuais saíram de moda. Não tem hoje nenhum autor com disposição de escrever essas grandes sínteses históricas (na verdade hoje estão saindo livros como esses dedicados à música popular brasileira, que os modernistas excluíam como assunto tratável) – ou, se tiver, não tem editora publicando.

Por isso, quem dá aulas de História da Música Brasileira na faculdade de música, como é o meu caso, acaba tendo que optar entre duas soluções que são longe do ideal. A primeira seria continuar adotando Vasco Mariz e José Maria Neves, livros que estão nas bibliotecas e que, no caso do Vasco Mariz, continua sendo editado em novas revisões. A segunda seria dizer aos alunos que não há livro ideal para tratar do assunto em geral, e indicar estudos monográficos sobre temas específicos. O segundo é o caminho mais difícil, mas a resposta mais honesta.

Seguindo por esse rumo, Carlos Gomes é um dos temas que vem sendo bastante estudado na academia, como não poderia deixar de ser. Afinal, para um estudante brasileiro que está procurando temas de pesquisa para iniciação científica, mestrado ou doutorado, fica evidente que há pouco que se possa contribuir de original estudando, por exemplo, a música de Mozart ou Beethoven, tanto pela distância dos documentos disponíveis (que estão na Europa ou nos EUA) quanto pelo fato de que os assuntos da tradição europeia já tem décadas de estudos consolidados com absurdo nível de profundidade. Aí o estudante olha para os compositores brasileiros mencionados nos livros e descobre que sobre eles há um tudo por fazer: aprofundar o conhecimento da biografia, estabelecer catálogos, fazer edições críticas de obras (várias das quais dadas como perdidas ou em manuscritos), fazer estudos analíticos, executar e/ou gravar as obras (muitas das quais inéditas há décadas), avaliar a fortuna crítica na imprensa, descobrir as implicações políticas das atividades desenvolvidas, etc.

Por aí a gente chega a um pequeno mapa dos estudos sobre o compositor, feitos nos departamentos acadêmicos, alguns chegando à edição em livro, outros permanecendo exclusivamente nos volumes encadernados nas bibliotecas ou nos pdf das fabulosas bibliotecas digitais universitárias. Nota-se um certo descompasso entre o que o compositor significa no mundo das orquestras, concertos, revistas vendidas em bancas, lojas de partitura, conservatórios, etc (um circuito que nunca foi tão forte no Brasil e que está minguando a olhos vistos) e o que ele representa nos departamentos universitários que vêm assumindo cada vez mais o papel de produzir e fomentar atividades culturais e musicais.

A principal biografia de Carlos Gomes é sem dúvida a que foi escrita por Lorenzo Mammi para a coleção Folha Explica. (Procurando agora vejo que ele está esgotado, mas ainda aparece no site da coleção.) É um livro bem curto, com uma excelente síntese biográfica baseada nos melhores estudos existentes (o livro foi escrito em 2001) e, principalmente, uma avaliação consistente do papel do compositor. Lorenzo Mammi afirma que Il Guarany foi a primeira tentativa de sintetizar o Brasil em uma obra de concerto, o que o faz atribuir-lhe o peso de obra que inaugura a música brasileira. Mammi faz uma interpretação muito interessante sobre a formação de Carlos Gomes, sua consagração e sua relação com a cultura brasileira de então, levando à superação daquelas interpretações que faziam ver o compositor como um operista italiano de segunda, que o acusavam de não saber orquestrar, ou de não ter aprendido direito o contraponto.

Assim, mais do que um grande melodista, Mammi traz a visão de um compositor bastante moderno para seu tempo, profundamente antenado com a cultura brasileira que estava se formando, e como tendo superado de forma impressionante todas as dificuldades de obter uma formação musical no Brasil do século XIX.

Esse assunto da formação do compositor leva ao estudo de Lenita Nogueira, Maneco músico: pai e mestre de Carlos Gomes, publicado em 1997 em edição do autor (que eu comprei em sebo). Este estudo liga Carlos Gomes à profunda tradição pré monarquia portuguesa, investigada primeiro por Curt Lange e ainda pouco conhecida por nós.

Também sobre a formação do compositor, coisas muito interessantes estão na dissertação de Janaína Girotto da Silva sobre o Conservatório Imperial (pdf aqui). Tratando sobre a formação dos primeiros alunos a receberem medalha do conservatório e ganharem bolsa para estudos na Europa – Henrique Alves de Mesquita e Carlos Gomes, a autora demonstra que ambos aprenderam pouco ou nada no Conservatório, vinham de formação prática principalmente, ou de aulas particulares. Essa autora faz um interessante estudo da correspondência de Carlos Gomes durante seu período de estudo em Milão, e discute muito bem a questão da sua dificuldade com o contraponto.

Aí voltamos ao Lorenzo Mammi, que argumenta que o compositor formou sua linguagem no que havia de mais moderno em meados do século XIX: danças de salão, música militar e modinhas (exatamente o tipo de repertório que os livros de História da Música costumam descartar como de importância menor diante da tradição sinfônica clássica). Ou seja, o contraponto não servia mesmo para o tipo de coisa que o Carlos Gomes queria fazer, e não seria justo cobrar isso dele.

Outro autor que estuda a fundo a questão da técnica composicional do Carlos Gomes, e ajuda a repensar o valor estético da sua produção é o Marcos Pupo Nogueira, que fez sua tese de doutorado sobre os trechos sinfônicos das óperas para demonstrar que Carlos Gomes era um compositor de vocação sinfônica que só conseguia se expressar pela ópera porque era o único tipo de produção que tinha circulação tanto no Brasil como na Itália. Marcos Nogueira demonstra o conhecimento que Carlos Gomes tinha das principais questões estéticas da época, inclusive da música de Verdi e Wagner. Este estudo saiu publicado em livro com o título Muito além do melodrama, e continua em catálogo.

Há também o estudo de Lutero Rodrigues, mencionado no texto de Osvaldo Colarusso, que é resultado de sua tese de doutorado (aqui no sítio da editora). Vale destacar que Lutero Rodrigues é um maestro de fundamental importância para a difusão da música brasileira. Durante seu período como regente da Orquestra de Câmara de Curitiba nos anos 1990 posso dizer que formei todo meu gosto por música brasileira orquestral, completado principalmente pelas gravações em disco da Orquestra de Câmara de Blumenau com regência de Norton Morozowicz. É sintomático que um maestro como Lutero Rodrigues (que também têm trabalhos fundamentais sobre Camargo Guarnieri) tenha transitado do mercado de concertos para a vida acadêmica, atuando há vários anos como professor da UNESP.

O portal de teses da CAPES está fora do ar há várias semanas (suspeito que tenha sido desativado) o que me impede de fazer afirmações sobre teses referentes ao compositor no momento. Uma pesquisa em alguns portais de universidades não me trouxe muita coisa, mas já valeu pela descoberta da vigorosa tese do Marcos Virmond sobre o Condor e o pensamento composicional de Carlos Gomes (defendida em 2007, mas que eu não conhecia) – pode baixar aqui. Ele foi orientando da Lenita Nogueira na UNICAMP.

Falta ainda uma última questão para pensar: qual o lugar dos compositores brasileiros na História da Música de uma maneira mais abrangente? Já debati muito isso com o maestro Osvaldo Colarusso em suas aulas e cursos, quando eu era muito mais nacionalista do que agora e ele me parecia muito mais favorável aos clássicos europeus. Hoje parece que nossas posições são bem mais próximas.

O assunto é bastante complexo, mas acho que posso fazer um resumo grosseiro do que penso: a consagração de compositores e sua reputação histórica fazem parte de amplos processos geopolíticos. (Pode-se dizer que lidei bastante com isso em minhas pesquisas sobre Guerra Peixe e o grupo Música Viva ou Camargo Guarnieri e o modernismo – veja aqui os links para baixar os trabalhos). Ou seja, o lugar de Carlos Gomes na História da Música não é o que poderia ser porque nosso meio acadêmico tem alguma atenção para ele (não o bastante) mas é pouco consolidado. Por outro lado, o mercado de concertos é bem precário no Brasil, e é ligado de maneira doentia aos clássicos europeus. Como quase tudo no Brasil não temos visão estratégica e planejamento geopolítico – por isso continuamos a reboque. Não seria de se esperar que o reconhecimento de nossos compositores viesse de fora do Brasil, mas por ironia foi sempre isso que aconteceu: Carlos Gomes não teria sido o que foi se não fizesse sucesso em Milão, Villa-Lobos seria ninguém se não tivesse sido reconhecido em Paris e Camargo Guarnieri teria morrido de fome no Brasil se não tivesse sido valorizado nos EUA no âmbito da política de Boa Vizinhança.

Tá mais que na hora de o Brasil acordar para essas coisas, mas, como sempre, isso vai depender do trabalho meu e seu, de cada um de nós. Não há como fugir.

P.S.: Completei a pesquisa mais tarde, e as informações adicionais estão aqui:

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

Enviado por André Egg, 22/10/13 10:42:14 AM
Banda Black Cherry em apresentação na FAP (em primeiro plano o guitarrista Ruan de Castro faz seu solo)

Banda Black Cherry em apresentação na FAP (em primeiro plano o guitarrista Ruan de Castro faz seu solo)

Em 2003 a Faculdade de Artes do Paraná (FAP) iniciava sua primeira turma do curso de Bacharelado em Música Popular. O início do novo curso era uma ousadia que beirava à imprudência. A FAP tinha acabado de passar pela pior fase de sua história, tendo ficado sem sede e chegando a realizar suas aulas na rua para chamar a atenção da sociedade para seu problema.

Na área de música, a tradicional instituição cuja fundação remonta ao surgimento do Conservatório de Antonio Melillo no início do século XX possuía apenas o curso de Licenciatura em Educação Artística com habilitação em música. A “Educação Artística” foi um dos tristes legados do regime militar no nosso sistema educacional. E pela mesma época que iria surgir o curso de Bacharelado em Música Popular, a FAP também reformulava sua Licenciatura, voltando a contar com o curso específico de Licenciatura em Música.

O grande problema: além da estrutura física precária (que já avançou muito nestes 10 anos mas continua com severos problemas), a FAP contava apenas com um reduzido corpo de professores ligados ao curso de Educação Artística. O mesmo pequeno grupo de professores teria que dar conta dos dois novos cursos – a Licenciatura em Música e o Bacharelado em Música Popular.

Idealizado e projetado pelos professores Sérgio Deslandes e Drausio Fonseca, o curso de Bacharelado em Música Popular surgia como uma iniciativa pioneira, num país em que os departamentos de música universitários são excessivamente ligados à tradição clássica oitocentista europeia. Pelo que me consta, existiam no momento apenas dois cursos superiores de mesmo teor, na UNIRIO e na UNICAMP. Hoje a iniciativa já vem sendo ampliada para outras universidades, como a UFMG e a UFRGS, que abriram cursos superiores de Música Popular em anos recentes.

Após a aprovação e criação do curso, vinha o desafio de colocá-lo em pé, fazê-lo funcionar, mesmo com os graves problemas de estrutura. Quem encarou o desafio por mais tempo foi a professora Maria Aparecida Zanatta, que coordenou o curso por longos anos, em sua fase mais difícil, enfrentando inclusive o desafio da reforma curricular e da renovação de reconhecimento aprovada em 2009.

O que faz a grandeza deste curso é, certamente, o trabalho que vem sendo realizado por seus egressos. Se por um lado os graves problemas estruturais (falta de professores com perfil profissional na área do curso, falta de salas adequadas, falta de equipamentos) faziam as dificuldades de funcionamento do curso, por outro lado o Bacharelado em Música Popular era uma oportunidade para que vários músicos muito bons que já atuavam profissionalmente pudessem ingressar nos estudos de nível superior, pois pela primeira vez era possível prestar um vestibular específico, sem a necessidade de preparar um repertório, digamos, de sonatas de Beethoven para passar no vestibular.

Então lá estavam os bateristas, guitarristas, contrabaixistas, violeiros e tantos outros músicos cuja entrada nos departamentos de música era sempre difícil. E ao entrarem na FAP, eles demonstraram o quanto podiam fazer se tivessem mais esta oportunidade, de complementar sua formação e alcançar um estudo mais formal em alguns aspectos.

Por isso, quando a professora Rosemari Brack propôs este ano ao colegiado de curso que fosse organizada uma semana de atividades comemorativas, sua ideia foi de buscar os egressos do curso, para que voltassem e compartilhassem com os alunos atuais sua experiência profissional. O evento aconteceu nos dias 8 a 10 de outubro.

E ficou evidente que o que esse curso mais tem é egresso de qualidade. Alguns, poucos mas bastante representativos, vieram participar do evento que foi mais ou menos assim:

Como abertura fizemos uma mesa-redonda com dois professores atuais do curso, eu e a profª Laize Guazina. Somando-se a nós, o prof. Vicente Ribeiro. O assunto era A música popular na academia. Vicente Ribeiro foi um dos grandes músicos que trouxe sua fantástica experiência profissional e musical para vir receber um diploma de Bacharel em Música Popular da FAP. Ele já tinha o curso quase completo de Composição e Regência da UNIRIO, mas terminou a formação na FAP, onde também já foi professor substituto. Nem preciso dizer aqui a importância do trabalho dele como arranjador, regente e produtor musical, bem como professor de harmonia e arranjo. Seu trabalho já é bem reconhecido em Curitiba, no Rio de Janeiro e no Brasil todo, e hoje ele vem transitando para os estudos acadêmicos, fazendo mestrado em música na UFPR e contribuindo muito para consolidar os estudos da música popular. Minha fala nesta mesa eu transcrevi aqui em meu blog pessoal.

Logo em seguida aconteceu o show Voluptuous IGG com a banda Black Cherry. Aqui no blog da banda tem muita coisa interessante, inclusive músicas para ouvir. Mas nada como vê-los ao vivo. Entre os integrantes, a professora Marilia Giller, que cuida da parte de piano, harmonia e improvisação no curso, e que vem fazendo interessantíssimas pesquisas sobre jazz bands em Curitiba na primeira metade do século XX. Ela também foi diplomada pelo curso entre as primeiras turmas. Na guitarra, fotografado num dos momentos mais inspirados do show na imagem que ilustra este post, está Ruan de Castro, egresso da primeira turma do curso que está trabalhando bastante com vários grupos musicais, e coordena o projeto de Orquestra de Música Popular da FAP.

Para fechar a programação do dia, o clarinetista Zeca Moraes, também da primeira turma do curso, apresentou a conferência “As relações metafóricas entre música, poesia e imagem”, tema de sua pesquisa de mestrado realizada na UNICAMP. Zeca Moraes foi classificado em primeiro lugar nacional no ENADE 2006, o que lhe valeu a bolsa de mestrado como prêmio. Em sua conferência, foram mostrados os trabalhos que realizou com fotografias que representaram metaforicamente as relações entre poesia e música num ciclo de canções de Goethe/Schubert. Também foi muito interessante um outro trabalho que ele apresentou – um audiovisual construído com o movimento solo de clarinete do Quarteto para o fim dos tempos de Messiaen com fotos do campo de concentração que os nazistas construíram em Weimar, a terra de Goethe. Estava ali, na conferência de Zeca Moraes uma das grandes linhas que marcaram o evento – a multidisciplinaridade que envolve o fazer artístico contemporâneo, no caso, articulando música, fotografia e audiovisual.

No segundo dia as atividades se iniciaram com a mesa redonda “Processos criativos em Música Popular” com os professores Alvaro Borges e Marilia Giller. Neste evento ficou patente que não existe outro caminho para o aprendizado consistente de música, senão o investimento nos processos criativos. Estavam ali novamente as fronteiras entre linguagens – música e processos computacionais ou tecnológicos (a linha desenvolvida pelo professor Alvaro Borges) e música e artes visuais, pois ficou evidente nas composições de Marilia Giller a ligação criativa com os processos que a grande pianista também desenvolve como pintora.

Depois veio o show Ócios do ofício com o grupo Fole baixo lounge. Mais sobre o espetáculo aqui na página do grupo. Também estava ali a questão das fronteiras: música instrumental e música eletrônica, música e literatura. Marcelo Pereria, o contrabaixista e difusor de eletrônica, é egresso da primeira turma do curso, que vem trabalhando em vários conjuntos de importância para a cidade, como a Orquestra à base de sopro, o Maria Faceira orquestra de gafieira, o Baque solto e o trabalho mais autoral do Fole Baixo que começou em duo e agora foi ampliado para trio.

Fechando o dia, a palestra do professor Márcio Mattana, do curso de Bacharelado em Artes Cênicas da FAP, que falou sobre “A música ao vivo e o músico como performer”. Mattana é outro que veio demonstrar como as fronteiras estão aí para serem atravessadas. Trabalhando sempre na intersecção entre teatro e literatura, teatro e música e literatura e música, Mattana é compositor e cantor de destaque na cena curitibana, para além do seu trabalho de altíssimo nível na área de teatro.

No último dia, as atividades começaram com a apresentação da turma do primeiro ano do Bacharelado em Música Popular, que apresentou o trabalho autoral nas composições de Josimar Artigas, Daniele Cordoni e Paula Back. Tudo em arranjos da própria turma, num conjunto de vozes, violão, baixolão e percussão. O trabalho faz parte de uma disciplina do curso – Prática de Música em Conjunto, ministrada para esta turma pela professora Marilia Giller.

Tivemos então mais um egresso, o prof. Alonso Figueroa, com a conferência “Viva o Som”, na qual tratou da formação do músico, habilidades necessárias no desenvolvimento da carreira e, principalmente, o trabalho com música eletrônica abordando alguns equipamentos, softwares de edição e exemplificando com seu trabalho criativo em diversas produções. Boa parte delas podem ser ouvidas aqui na página do músico no soundcloud.

E o grande encerramento foi com o show Desejo canibal com Helena Sofia e a Música Perturbada Brasileira, um trabalho autoral de Helena Sofia que se articula entre voz, violão, acordeon e um trio de rock (guitarra, baixo e bateria) resultando numa interessantíssima fusão. Mais informações sobre o trabalho, que está para sair em CD, aqui na página do grupo no Facebook.

Os eventos mostraram que a tradição da música popular brasileira continua forte no que tem de melhor e pior: a precariedade institucional, que deve ser vista como um problema grave a ser superado, mas que vem nos forçando a encontrar soluções criativas ousadas e originais, criando gerações de músicos que sobrevivem na fronteira e no não-lugar, criando, exatamente por isso, uma música contemporânea original e altamente significativa.

Enviado por André Egg, 20/07/13 8:00:22 AM

Capa do livro publicado pela Editora Máquina de Escrever

Depois que a História como disciplina abandonou aquela posição tradicional a respeito dos eventos políticos, das personalidades importantes, e das fontes escritas, uma gama de novos assuntos tornou-se alvo dos pesquisadores.

O futebol não poderia deixar de interessar, como tema de pesquisas em História e Ciências Sociais. Mas, dentro do assunto futebol, com uma ampla gama de possibilidades de abordagens para os estudiosos e curiosos, o assunto mais tradicional seria o futebol profissional, seus grandes clubes e os grandes jogadores, campeonatos e partidas memoráveis. Não é isso que está no livro escrito por Allan de Paula Oliveira, Hélder Cyrelli de Souza e João Castelo Branco. Allan é historiador, músico e antropólogo, professor da UNIOESTE. Hélder é historiador e professor do Colégio Militar e João é fotógrafo e cineasta.

Esta interessante equipe interdisciplinar fez um profundo mergulho na parte menos glamourizada do futebol na capital paranaense: o campeonato amador conhecido como Suburbana. Por ocasião do lançamento, já saíram dois ótimos textos, um no caderno de esportes da Gazeta e outro no blog Baixa Gastronomia. Tentando não repetir o que já escreveram, seguem minhas impressões de leitura.

O livro foi resultado de ampla pesquisa, financiada pelo edital do Mecenato da Fundação Cultural de Curitiba. Tem uma parte bibliográfica, quer dizer, os autores leram muitos estudos sobre futebol – mas o legal do livro é que ele é para o público “normal” e não o acadêmico. Isso significa que eles não fazem notas de rodapé, citações nem bibliografia ao final, o que estaria mais para os estádios padrão FIFA do que para os alambrados da suburbana. Mas, para quem quer se aprofundar no assunto, ou saber de onde vêm certas ideias, as coisas estão indicadas convenientemente, e temos à mão a ajuda do google.

Tem outra parte antropológica, que é a do mergulho no universo da suburbana. Os autores assistiram ao campeonato de 2010, vencido pelo Santa Quitéria depois de um jejum de 23 anos. Comeram pão com bife nas lanchonetes, entrevistaram jogadores, árbitros, radialistas, técnicos, e conversaram com os grandes especialistas no assunto. Fotografaram muito – é isso é aliás o maior mérito do livro. Tem muita foto, com uma poesia visual de fazer jus à grandeza dos heróis cotidianos que fazem do futebol um jeito simples e incrível de vida.

O livro faz um mergulho preciso na história do futebol, na relação entre profissionalismo e amadorismo, nos sentidos sociais e culturais do futebol amador, e, principalmente, é um libelo pela importância da Suburbana como patrimônio cultural imaterial da cidade. São os clubes amadores que testemunham os muitos jeitos de ser em Curitiba, e promovem uma circulação pela cidade para além dos espaços glamourizados do discurso oficial, do urbanismo “capital de primeiro mundo”, que tem sua face no futebol burocrático das competições profissionais e dos discursos de jogador após o jogo – tipo “tentamos fazer o que o professor mandou”.

Então o livro é tudo isso: uma história do futebol amador em Curitiba, uma história dos clubes que fazem este campeonato tão simbólico da vida cotidiana nos bairros da cidade, uma antropologia do campeonato e de seus personagens, uma amostra de como as pessoas dão sentido às coisas através de um simples jogo, uma defesa da diversidade de ser e viver em Curitiba. E sobretudo, muitas fotos, bonitas fotos.

É um livro para ser lido por quem gosta de futebol e por quem é curioso por entender um pouco de Curitiba. E é também um grande convite a que mais pesquisadores mergulhem neste universo e mais livros sejam escritos.

Eu até fiquei com vontade de acompanhar a suburbana, e já teria time para torcer – o Combate Barreirinha, maior vitorioso nos tempos em que comecei a ouvir falar da existência deste mítico campeonato. Nos 12 títulos disputados entre 1996 e 2007 o Combate só não chegou à final em 1999 e 2002. Nos outros 10 campeonatos, foi campeão 6 vezes, e 4 vezes vice-campeão.

Veja também, aqui no blog, outros textos relacionados:

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP (com participação do Allan Oliveira em uma das mesas)

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

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