Assinaturas Classificados
Seções
Anteriores
Publicidade

História Cultural

Quem faz o blog
Seções
Caldeirão de Ideias
Conheça
Crítica Cultural
Grandes Artistas
Livros Clássicos
Livros Recém Lançados
Novidades
Trabalhos Acadêmicos
Enviado por André Egg, 14/09/14 4:09:36 PM

Eu já tinha feito propaganda deste concerto na minha página pessoal, tanto por ser um repertório muito interessante com um ótimo regente convidado, como pelo fato de que eu estava encarregado da palestra pré-concerto.

Agora, faço aqui um comentário sobre o concerto, e aproveito para colocar as anotações que fiz para a palestra. Com a vantagem de que aqui posso colocar links e vídeos.

Sobre o concerto:

A interpretação dirigida por Stefan Geiger confirmou a ótima expectativa que já criamos em torno do seu trabalho, graças às grandes atuações que teve na cidade em anos recentes, como neste concerto.

Geiger programou obras difíceis. O Concerto em ré de Stravinski já esteve no repertório da orquestra, mas as peças de Antheil e Adams eram novidade para os músicos. Conversando com alguns após os concertos, soube o período de ensaios antes da chegada do maestro havia quase que chegado a um impasse. As qualidades de grande ensaiador de Geiger foram reveladas, quando ele dissolveu as complexidades técnicas e colocou os músicos no encontro da música superando as dificuldades de preparação.

O resultado ficou visível para quem foi ao concerto (não tanta gente quanto merecia o programa, infelizmente – tivemos ocupação de cerca de um terço da Capela Santa Maria): as três obras foram executadas com muita energia, deram grande resultado, e revelaram uma interpretação detalhista e ao mesmo tempo empolgante. Geiger demonstrou que sabe empolgar os músicos para um projeto tão difícil. Especialmente o Shaker Loops, chegava a consumir a energia dos músicos a um nível assustador.

Saí dos dois concertos com a certeza de ter visto a nossa Orquestra de Câmara em um de seus grandes momentos, em ótima forma para um conjunto que está comemorando seus 40 anos.

As anotações da minha palestra – um enfoque sobre as obras e os compositores:

Stravinski (1882-1971) – Concerto em Ré (1946)

O concerto foi encomendado em 1946 para a celebração do 20º aniversário da Orquestra de Câmara de Basel (Suíça). Stravinski o compôs em Hollywood, onde morava, entre janeiro e agosto. A estreia foi em 27 de janeiro de 1947.

Basel tinha cerca de 180 mil habitantes em 1950 (não muito diferente da população de hoje), e é um município que funciona como polo de uma região que abrange 3 países, mais de 200 municípios e cerca de 800 mil habitantes atuais. Nesta época, Stravinsky era um dos compositores mais caros para se encomendar uma obra, e dividia com Schoenberg o título de compositor mais importante vivo. Isso me chamou à atenção para comparações com o tamanho de Curitiba e a baixa pretensão de relevância que a gente tem dado pra nossa orquestra.

É uma obra curta, de cerca de 12 minutos, que usa melodias agradáveis e ritmos mais ou menos regulares, tratados em um emaranhado harmônico razoavelmente complexo, talvez politonal. A orquestra de câmara é tratada com vigor, e demonstra força e peso talvez característicos de Stravinsky.

Partitura em gravação podem ser encontrados aqui.

Em relação ao conjunto da obra do  compositor, está no período normalmente chamado de neoclássico, um termo muito problemático para abranger tudo o que Stravinsky fez entre Pulcinella (1920) e The Rake’s Progress (1951). O conceito de neoclassicismo talvez faça sentido em contraste com a chamada “fase russa”, de Pássaro de fogo e Sagração da Primavera, diferenciando-se claramente também da opção pela música serial na década de 1950.

George Antheil (1900-1959) – Serenata para orquestra de cordas (1948)

A obra dura cerca de 15 minutos.  O segundo movimento talvez seja uma das páginas mais belas da música norte-americana.

Esta obra soa provavelmente muito mais neoclássica que a obra de Stravinsky escrita cerca de um ano antes. Porque Antheil tinha sido um compositor muito ousado na década de 1920, quando viveu e trabalhou na Europa e produziu o Ballet Mecanique. Esta peça foi escrita para o filme conceitual de Fernand Leger e Dudley Murphy, lançado em 1924. A instrumentação da versão final (concluída em 1935) tem 4 pianos, 2 xilofones, tímpano, glockenspiel, percussões “normais”, 2 sirenes elétricas e 2 motores de avião. Feita de repetições insistentes de ritmos frenéticos e acumulação de ruídos, num claro paralelo com a ousada técnica de recorte e montagem das imagens, tornando-se numa das mais ousadas peças musicais escritas na primeira metade do século XX (partitura e gravação desta peça aqui, um vídeo ao final do post).

O terceiro movimento da Serenata chega a ser escandalosamente tonal, de ritmo dançante e orquestração viva e linear. As notas de programa comparam o trecho a uma dança camponesa escrita por Shostakovich, então no auge de seu período realismo socialista.

Partitura não encontrei, mas tem uma gravação da obra aqui.

John Adams (1947) – Shaker Loops (1978/83)

A peça inteira tem cerca de 24 minutos de duração.  Foi escrita originalmente para septeto em 1978, e logo em 1983 revisada para uma versão que comportava tanto o septeto como a orquestra de cordas completa. A inspiração inicial para a peça (e para as ideias musicais) foi a dança frenética em êxtase da seita ultra radical dos “shaking quacres” surgida na Inglaterra do século XVIII.

Pintura representando um momento do culto dos Shaker Quacres

Pintura representando um momento do culto dos Shaker Quacres

O primeiro movimento – Shaking and trembling começa com um pulso constante surgindo nos violinos, e algumas notas sendo atacadas nas violas e violoncelos, que aos poucos vão somando eventos e acrescentando elementos até descambar num frêmito ritualístico digno dos antigos Quacres. Neste sentido, a peça seria uma versão minimalista de ritual protestante anglo-saxão, mais ou menos paralelo ao ritual pagão que Stravinsky usou para abalar o mundo da música com Sagração da Primavera em 1913.

No final do 1º movimento, um pouco de quietude mística após ser atingido o auge do êxtase físico. Esse caráter mais intimista anuncia a virada que leva ao segundo movimento – Hymning slew, algo como uma brusca mudança de estado, da dança frenética para a contrição e o cântico de hinos.

O terceiro movimento, Loops and verses não tem separação clara, assim como a passagem para o último movimento Final shaking não é identificada pela audição.

A estréia da peça foi em 8 de dezembro de 1978, pelo Conjunto de Música Nova do Conservatório de San Francisco, regido pelo compositor.

Partitura e gravação da obra estão disponíveis aqui.

Sobre os compositores:

John Adams vem ganhando importância, e é considerado um dos maiores compositores do minimalismo norte-americano, ao lado de Terry Riley e Steve Reich. Shaker Loops talvez seja a melhor “obra de entrada” para a linguagem do minimalismo, justamente por equilibrar tão bem a riqueza e o interesse rítmicos com as repetições insistentes que marcam a linguagem (e que às vezes a tornam indesejável para alguns ouvintes). Mas sua obra mais importante parece ser a ópera Nixon in China.

Ele teve sua formação musical toda na Nova Inglaterra, região nordeste dos EUA, onde nasceu e cresceu, e da qual pode ser considerado um herdeiro de sua vigorosa tradição cultural e intelectual. Seu mestrado em Harvard em 1972 consta que tenha sido a primeira vez que uma composição musical foi aceita como tese nos EUA (prática hoje comum). Após a conclusão do curso assumiu o cargo no Conservatório de San Francisco, cujo Conjunto de Música Nova foi a principal ferramenta de trabalho de Adams.

Adams ganhou o prêmio Pulitzer em 2003, e uma de suas últimas obras foi o oratório O evangelho de acordo com a outra Maria, estreado pela Filarmônica de Los Angeles com regência de Gustavo Dudamel.

George Antheil nasceu no interior de New Jersey, de uma família de imigrantes alemães. Seu pai tinha uma sapataria. Em sua autobiografia escrita em 1945, ele conta que era tão fanático por música que sua mãe o mandou para uma chácara, tentando fazer o menino ficar longe do piano. Ele diz que deu um jeito de fazer chegar um, encomendado em uma loja.

Na adolescência ele viajou para a Filadélfia, para ter aulas com Sternberg, um aluno de Liszt. Em 1919 mudou-se para Nova York para estudar com Ernest Bloch. Ali tomou contato com o círculo modernista da cidade, e conseguiu uma patrocinadora que passou a pagar-lhe um salário que o permitiu dedicar-se ao estudo do piano e à composição. Em 1922 ele se mudou para a Europa trabalhando como concertista. Morou em Berlim inicialmente, onde conheceu seu ídolo Stravinsky, que o aconselhou a mudar-se para Paris.

Chegado à cidade em 1923, ele logo se afiliou ao círculo modernista formado por gente como Satie, Ezra Pound, James Joyce, Ernst Hemingway. Foi convidado para realizar o concerto de abertura da temporada do prestigioso Balés Suecos, ocasião para a qual programou as obras que tinha composto nos EUA, como Sonata do avião (Airplane sonata – um vídeo desta obra ao final do post), Sonata Selvagem e Mecanismos. Conta-se que o concerto causou a maior confusão, terminando com gente presa, e que foi o maior escândalo desde a estreia da Sagração da primavera 10 anos antes. Além da satisfação de Antheil com a reação do público, o concerto tinha vários músicos e artistas famosos na plateia, e rendeu elogios de Satie e Milhaud.

No final da década de 1920 ele se mudou novamente para a Alemanha, mas com as dificuldades causadas para a música moderna com a ascensão do nazismo, voltou aos EUA em 1933. Suas obras não foram bem recebidas em Nova York, mas ele se ligou ao círculo modernista capitaneado por Aaron Copland. Em 1936 ele se mudou para Hollywood, tornando-se principalmente um compositor de música para cinema, o que o levou a adotar uma estética composicional bem mais conservadora.

Igor Stravinsky dispensa apresentações. Teve sua formação na Rússia, onde a vida musical era muito desenvolvida desde o século XIX, e se mudou para Paris, onde trabalhou principalmente para a companhia Os balés russos de Diaghilev. Fez várias obras importantes e reconhecidas, mas provavelmente sua Sagração da primavera, estreada com escândalo em 1913, tenha sido a obra mais influente de todos os tempos.

Com Pulcinella, em 1920, deu uma guinada para uma linguagem mais conservadora, o que lhe valeu a pecha de neoclássico, e o desprezo de teóricos como Schoenberg e Adorno. Apesar de não ter feito mais nenhuma obra que causasse tanta ruptura como a Sagração, continuou produzindo obras ousadas e muito marcantes. As saídas que encontrou para a crise da tradição musical do século XIX foram de grande influência para muitos compositores do século XX – mergulho na tradição musical pré-moderna do leste europeu, uma volta irônica aos clássicos do passado, pesquisa e utilização da música popular norte-americana em linguagem modernista (ragtime), uso consistente do ritmo, o uso do que Paul Griffiths chamou de “tonalismo entre aspas” – expressão que pode incluir também a solução do politonalismo, muito empregada por ele.

O vídeo do Ballet Mechanique de Antheil está no endereço abaixo:

www.youtube.com/watch?v=ZTdlnE4Vy2c

O vídeo de Airplane sonata de Antheil está no endereço abaixo:

www.youtube.com/watch?v=J4on2sedCNg

Aproveite para curtir a página do blog no Facebook

Ou assine o feed de RSS

Enviado por André Egg, 31/07/14 11:53:36 PM
Capa do livro de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes

Capa do livro de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes

Tempos atrás fiz um balanço aqui no blog dos lançamentos que trataram da história em torno do golpe de 1964, que fez 50 anos na virada de março para abril:

50 anos do golpe e algumas boas leituras

Entre os livros lançados, certamente um dos bons foi o do professor Marcos Napolitano, que fiz resenha aqui no blog:

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

O livro do Napolitano aproveitou o ensejo para fazer uma interessante avaliação histórica das origens do golpe, partindo para uma visão panorâmica do Regime Militar entre 1964 e 85, com destaque para a vida cultural, a repressão dos militares e a resistência dos intelectuais e da sociedade civil, entrando também nos delicados temas referentes à memória do Regime.

Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes fizeram o caminho para trás. Em seu livro, 1964 é o ponto de chegada. A história começa com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, acompanha as peripécias da rede da legalidade (que garantiu a posse do vice-presidente constitucional), as dificuldades para montar o gabinete parlamentarista, a instabilidade política do governo João Goulart, pressionado entre os radicalismos de direita e de esquerda.

A todo o momento os autores enfatizam o caráter aberto das decisões com que se deparavam os atores. Ressaltam o perigo das teleologias, ou do que uma professora minha chamava de “prever o passado” (a profª. Ana Maria Burmester, de cujas aulas no mestrado em história da UFPR sinto muita saudade). Destacam a tentação de considerar que os caminhos já estavam traçados. Em contraposição a isso, os autores procuram destacar as possibilidades que se abriam, as opções diversas, e uma especulação saudável sobre prováveis rumos caso as decisões fossem outras.

Mesmo com todo este cuidado metodológico, a gente termina a leitura do livro com uma sensação muito agonizante de que os caminhos escolhidos pelos agentes históricos fizeram do golpe uma coisa realmente inevitável.

Os radicalismos de direita e a cultura golpista enraizada na política brasileira foram fatores importantes. Mas eles estavam ali desde sempre – ninguém podia se surpreender com isso. A novidade talvez fosse o forte interesse dos EUA em apoiar um golpe contra Jango, por diversos fatores muito bem explicados no livro. Mas apesar de a ameaça militar norte-americana ter tido alguma influência no equilíbrio das forças internas, o livro demonstra que isso não foi um fator decisivo. Teria sido possível o governo João Goulart se sustentar, e o consenso em torno da via democrática tinha se demonstrado suficientemente forte desde o apoio de Lot à posse de Juscelino, e principalmente no episódio após a renúncia de Jânio.

A maioria da opinião pública, da imprensa, dos partidos e lideranças políticas, dos empresários e mesmo do comando militar tinham se mostrado favoráveis à legalidade e à constituição. E talvez a principal qualidade do livro seja contar, em riqueza de detalhes e cuidadosa pesquisa (artigos de imprensa e depoimentos, principalmente), como João Goulart deixou de ser o homem a ser defendido pelas forças democráticas e passou a ser percebido como uma ameaça à ordem constitucional.

Parece que a história caminhava mais rápido naqueles tempos, pois tudo se precipitou em meses. A renúncia de Jânio, a defesa de Jango como presidente constitucional, a articulação do parlamentarismo, a montagem do primeiro gabinete, o desmonte deste e a montagem de vários outros, as eleições de 62 e o crescimento vertiginoso do PTB (especialmente sua ala esquerda), o plebiscito do presidencialismo, a radicalização das ações da esquerda democrática (esqueçam o papo de ameaça de revolução armada realizada por uma esquerda marxista, isso não estava nem perto do horizonte) em comícios e greves, o golpe. Tudo nos 2 anos e meio entre agosto de 1961 e março de 1964.

Na magistral resenha que fez de outro dos livros saídos na onda dos 50 anos do golpe, Celso Barros levanta a hipótese (pouco investigada), de que a existência de chapas não casadas de presidente e vice teriam sido um fator de grande desestabilização. Ou seja, o fato de que as pessoas podiam votar no Jânio e num vice de outro partido (no caso Jango, que seria o vice do Marechal Lott). Aliás, tanto em 1955 quanto em 1960 Jango conseguiu o feito de, como vice, ter mais votos que o presidente eleito (JK na primeira vez).

Realmente Jânio Quadros contava com isso quando renunciou, esperando que houvesse um clamor para impedir a posse do vice, o que o faria voltar com amplos poderes, dissolvendo o Congresso. Setores militares realmente tentaram impedir a posse do vice, mas sem devolver a presidência a Jânio. O Congresso, por sua vez, aceitou rapidamente a renúncia do presidente, mas não aceitou que os militares controlassem o novo governo, e foi fundamental na garantia da posse do presidente constitucional.

Essa confusão toda de 1961 causou problemas sérios para a possibilidade de formar um governo estável, mas  creio que Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes demonstram que as possibilidades eram múltiplas – a crise da renúncia de Jânio não levava imediatamente ao golpe de 1964, mas havia um amplo leque de possibilidades.

O fator que provavelmente foi mais decisivo não foi a confusão do voto separado para presidente e vice, mas a meu ver, ressalta da leitura do livro o fator terrivelmente desestabilizador que foi a inexistência de um candidato natural à sucessão de João Goulart em seu próprio partido. Neste caso, o impedimento da reeleição foi um fator negativo, pois Jango não poderia concorrer a um próximo mandato (embora estivesse manobrando para alterar esta legislação e isso fosse percebido como golpismo). Foi mais negativo o fato de que o principal líder da esquerda democrática – Leonel Brizola, não podia se candidatar por ser casado com a irmã de João Goulart. Por este fator, o ex-governador do Rio Grande do Sul, líder da rede da legalidade e  deputado proporcionalmente mais votado da história mas eleições de 62 (só que pelo Rio de Janeiro) – simplesmente não podia ser candidato, e acabou sendo um dos atores mais radicais, pressionando sempre contra uma composição de forças com os setores políticos moderados. Foi em grande parte o radicalismo de Brizola que dinamitou a aliança do PTB com o PSD (o que equivaleria nos dias de hoje ao PT tentar governar sem o PMDB – nossa política não mudou muito desde aquela época, só trocaram as letrinhas das siglas partidárias).

Além do radicalismo de Brizola, outros potenciais candidatos à sucessão de Jango também pagaram pra ver o “quanto pior melhor”: Ademar de Barros, governador de São Paulo – estado cujo empresariado foi decisivo no apoio ao golpe e depois ao Regime Militar; Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, que já tinha planejado um golpe para o qual teria o apoio militar dos EUA, com a operação Brother Sam; Carlos Lacerda, o histérico governador da Guanabara (e publisher do jornal Tribuna da Imprensa) – que tinha o apelido de “demolidor de presidentes”.

Compondo o quadro dos radicalismos inconsequentes à direita a à esquerda, havia também o líder das ligas camponesas Francisco Julião, eleito deputado federal, e que articulou apoio financeiro e armamentos vindos de Cuba para preparar uma guerrilha, mas cuja trama foi desarticulada pela polícia brasileira e descoberta pela CIA por um erro diplomático de Jango (o presidente fez a gentileza de devolver as armas a Fidel, e o avião foi descoberto quando teve problemas mecânicos na Bolívia).

O mais inconsequente politicamente foi mesmo o Jango. O próprio presidente não apoiava os vários gabinetes que formou no período parlamentarista, já interessado em passar o presidencialismo via plebiscito. Também jogou com o apoio das massas, afinal este tinha sido seu grande trunfo político dos tempos em que foi Ministro do Trabalho no último governo Vargas e vice-presidente de JK.

Mas como presidente esta estratégia tinha poucas possibilidades de dar bom resultado. Os autores mostram como a opção de anistiar sargentos e marinheiros revoltosos, atender sindicalistas e grevistas, fazer reforma agrária por decreto (quando ela vinha sendo discutida no congresso com apoio de todos os setores políticos) e discursar pessoalmente num mega comício no Rio de Janeiro – tudo isso somou para uma mudança radical de percepção política. De presidente constitucional cujo mandato devia ser defendido pelas forças democráticas em 1961, Jango rapidamente converteu-se numa ameaça, num presidente interessado em minar as instituições para perpetuar-se no poder com apoio dos setores radicais do PTB (e também com a ala moderada dos comunistas, que ficaram com PCB – o chamado “partidão”, de Luis Carlos Prestes).

Não custa enfatizar novamente: não existia uma ameaça de golpe comunista que pudesse preocupar os vários setores da sociedade que começaram a apoiar a derrubada do presidente. O medo era mesmo de que o presidente se apoiasse em forças como os sindicatos, os sargentos, líderes como Brizola, Arraes e Julião, e com isso se perpetuasse no poder realizando as prometidas reformas de base sem composição política com os setores conservadores.

A grande ilusão era a possibilidade de um rápido golpe preventivo, tanto que candidatos às eleições de 1965 foram favoráveis ao golpe na primeira hora (JK, Ademar de Barros, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto). Que os militares iriam implantar já nos primeiros dias uma violência desmedida contra as esquerdas, e que iam alijar os principais líderes de todos os matizes políticos – inclusive os pré-candidatos mencionados acima – para ficar no poder por 21 anos era uma coisa que realmente ninguém previa.

Além da detalhada descrição histórica e das excelentes avaliações que este livro nos traz, ele acaba nos levando a uma grande lição, que fica gritando nas páginas que nos descortinam este mundo do turbulento governo Jango.

Com a democracia não se brinca. Se ela não for cuidadosamente mantida em equilíbrio, as consequências são terrivelmente nefastas para todos.

Enviado por André Egg, 26/07/14 8:36:12 PM
Chico Buarque em show de 2012 em São Paulo

Chico Buarque em show de 2012 em São Paulo

Chico Buarque completou 70 anos no último dia 19 de junho. Merceria um baita post num blog como esse, afinal é um dos personagens mais importantes da cultura brasileira e causou vários marcos significativos na nossa história.

Mas o blog anda tendo severas dificuldades para escrever textos profundos nestes dias. Então faço um post preguiçoso, e deixo só alguns links:

Participei junto com o amigo Fabio Poletto no programa Passado e presente da ÓTV, que teve como tema a obra do compositor. Foi ao ar esta semana, dura 25 minutos, e continua disponível no acervo da emissora neste link:

http://www.otv.tv.br/programa/passado-e-presente/a-arte-de-chico-buarque-de-holanda/

Os principais álbuns mencionados no programa, para ouvir em streaming:

Chico (2011)

Almanaque (1981)

Sinal Fechado (1974)

Construção (1971)

Chico Buarque de Hollanda (1966)

Outro dia eu aproveitei uma promoção de aniversário e comprei as principais obras do Chico romancista em versão Kindle. Ainda estão com preço que vale a pena.

Tem um momento da entrevista em que menciono um texto do Lorenzo Mammi sobre o LP como forma de arte. Eu escrevi sobre isso aqui no blog.

E não tem livro melhor para entender o momento histórico em que o Chico se fez, do que o Seguindo a canção do Marcos Napolitano. Esgotado, tem uma versão revisada pelo próprio autor disponível aqui.

Para homenagear o aniversário do agora Velho Chico, nada melhor que um mergulho em suas canções e em seus livros.

Enviado por André Egg, 27/05/14 9:30:25 PM
O maestro Marcio Steuernagel ensaiando a Filarmônica UFPR para o concerto

O maestro Marcio Steuernagel ensaiando a Filarmônica UFPR para o concerto

Na última sexta (dia 23) e sábado (24 de maio) a Orquestra Filarmônica da UFPR fez o concerto “Música em tempo de guerra – concerto memorial do centenário da Primeira Guerra Mundial”. A foto acima, de Jonathan Campos para a Gazeta do Povo, foi feita para ilustrar a reportagem de Rafael Costa, que saiu no jornal na última quinta-feira. Ali já tem uma ótima explicação do que seria o concerto. Eu fui assistir, e deixo aqui minhas impressões.

Foi um concerto “histórico”, em muitos sentidos do termo.

Em primeiro lugar pela concepção de todo o espetáculo. Um tema importantíssimo (que me parece está sendo pouco lembrado), definidor dos rumos da geopolítica mundial, e um marco de ruptura e do sepultamento daquele otimismo burguês e liberal que tinha marcado o fim do século XIX. A guerra de 1914-1919, ou também conhecida como Primeira Guerra Mundial (por mundial entende-se as principais potências europeias envolvidas em um mesmo conflito) marcou o fim da ilusão de que o mundo evoluía: como países de cultura tão desenvolvida, de luxo tão refinado, de sabedoria tão científica, eram capazes de mandar seus jovens para tamanha carnificina?

Não seria exagero dizer que o mundo artístico já vinha captando esta ruína, afinal, os primeiros anos do século XX foram de notável ruptura estética, e parte deste movimento foi captado pelo repertório do concerto, dentro dos limites possíveis. A primeira peça, The unanswered question, de Charels Ives, talvez seja um bom exemplo desta ruptura, ou deste momento de criação de instabilidades. Considera-se que tenha sido escrita em 1908, mas sofreu uma revisão significativa pelo compositor na década de 1930, e foi estreada apenas em 1946. Nas primeiras décadas do século, Ives tinha acabado de se formar em composição e viveu um longo período de reclusão sobre o qual pouco se sabe (escrevi sobre ele neste outro texto, num blog antigo).

A obra apresenta uma escrita bastante avançada para as cordas, que sustentam uma massa sonora meio informe, formada por notas longas, meio prenúncio de coisas que gente como Ligeti faria muito depois. Em meio a isso, o trompete insiste com uma “pergunta” que as cordas jamais respondem:

Trecho do trompete: a "pergunta" que não recebe resposta

Trecho do trompete: a “pergunta” que não recebe resposta

As outras peças do programa não eram tão incisivas testemunhas de uma ruptura estética como essa de Ives. Mas não foi só nesse sentido que o concerto foi histórico.

Foi histórico também pela ótima concepção performática. Cada vez mais fica evidente que concertos que têm apenas uma boa sequência de músicas são fadados à mesmice, mesmo numa cidade com pouca oportunidade de ouvir boa música de concerto como Curitiba.A concepção do programa, por Harry Crowl e Márcio Steuernagel resultou em um concerto multimídia, onde além da escolha de um tema pertinente e da ótima seleção das obras musicais, ainda tivemos projeção de fotos, filmes e cartas da época da guerra, formando uma experiência completa.

Não apenas as fotos e cartas proporcionam uma boa “contextualização” das músicas. É muito mais do que isso. As projeções foram concebidas como interação estética com as obras musicais. Talvez isso isso tenha dado tão certo devido às referências de Harry Crowl e Márcio Steuernagel como compositores de vocação multimidiática – no sentido de que são compositores que gostam de compor sobre motivos literários, sobre temas cinematográficos, sobre paisagens, sobre pinturas, e outros diversos estímulos não musicais.

Quem já trabalha criativamente com impulsos visuais e literários como disparadores de ideias musicais, se mostrou também muito hábil em selecionar as projeções de modo a complementar a experiência musical propriamente dita, se é que realmente algum dia já foi possível uma experiência musical pura como a proposta por certo ideal iluminista de cultura. Ou seja, quero dizer, a maioria das vezes os concertos já são mesmo uma experiência multimídia, com toda a teatralidade das roupas e do gestual do maestro, dos solistas e dos músicos. Neste concerto esse aspecto perdeu relevância, dando lugar a uma concepção cênica mais global.

Por exemplo, na peça de Charles Ives, o espaço cênico do teatro foi explorado para enriquecer a experiência musical. O conjunto de madeiras, tratado pelo compositor como um ensamble separado do conjunto das cordas, aparece no fundo da plateia – e realmente os músicos só vão para os lugares designados no momento preciso de sua intervenção. No caso do trompete com sua insistente e irrespondível pergunta, isso fica ainda mais acentuado. Como seja sempre o mesmo trecho musical que o instrumento recita, ele faz isso com aparições em diversos lugares, com o trompetista locomovendo-se em partes do palco e da plateia. Assim, mais do que uma pergunta-tema musical, pode-se pensar em perguntar onde está o trompete, uma vez que a emissão sonora se desloca pelo espaço do teatro.

A experiência multimídia foi potencializada também pelo fato de o concerto não ter sido enunciado na forma de números musicais estanques. Não havia aplauso entre uma música e outra, porque a orquestra não dava nem tempo da gente respirar. Não que tenha havido um continuum indiferenciado entre as obras, porque a concepção do concerto privilegiou contrastes estilísticos entre as obras. Por exemplo, da obra de Ives passou-se a uma Dança Romena de Bártok, com um forte contraste entre as notas longas das cordas na primeira peça e o evidente caráter rítmico da segunda obra.

"Paradeira" nas cordas, na obra de Ives

“Paradeira” nas cordas, na obra de Ives

A terceira peça foi a Pavane pour une infante défunte de Ravel, peça de grande lirismo e melodia comovente, que é matizada pelo início das projeções no telão, com fotos de feridos de guerra e de destroços.

Na sequência, uma peça chocante: a Paráfrase sobre os hinos das nações aliadas, de Glazunov, uma obra de evidente propaganda, glorificadora da vitória das nações consideradas “do lado certo” no conflito (cuja justificativa ideológica sempre consistiu em identificar grupos de nações postados em posições seguras entre o bem e o mal). Ou seja, a obra foi escrita com a intenção de corroborar as justificativas da guerra: venceremos porque somos os bons, ou o bem, combatendo os maus, ou o mal (Glazunov escreveu a peça em 1916, durante a invasão alemã da Rússia). Esse ufanismo é chocante se pensarmos que o Czar e o Kaiser estavam disputando a hegemonia imperial sobre os povos eslavos, e foi contrastado por um longo silêncio no concerto, onde foram projetadas imagens da época da guerra. Era como se os organizadores do concerto quisessem nos dar, depois das injeções musicais de patriotismo planejadas por Glazunov, um antídoto eficaz – “vejam, é a morte e a destruição, não há pátria que valha isso”.

E aí Harry Crowl e Márcio Steuernagel remetem ao grupo dos gigantes intelectuais que criaram, na mesma época da guerra, uma longa tradição de engajamento pacifista. Especialmente na França, se havia compositores que se alistavam e alimentavam com suas carnes o conflito (Ravel, Vaugham-Williams e Strauss, para ficar apenas nos que estavam no programa do concerto), diversos intelectuais importantes disseram aos quatro ventos que essa guerra não era dos trabalhadores, dos homens comuns – era uma guerra dos imperadores e dos empresários predadores, e seria uma burrice alimentá-la.

Os anos de intenso conflito armado, crise, fome, destruição, morticínio em massa, prisões arbitrárias, suspensão de direitos, que marcaram o período 1914-1945 terminaram por deixar evidente o quanto aquele tipo de ideologia de guerra era perigoso para a humanidade.

E nesse clima intelectual é que saímos do torpor provocado pelo filme mudo para entrarmos com Janácek em uma Dança Morávia. E depois seguimos pela Rakastava de Sibelius, uma bela peça, que emoldura as emoções das cartas trocadas entre um soldado e sua filha, seguida de The lark ascending de Vaugham-Williams com o solo de violino de Ricardo Molter – e a projeção das cartas trocadas entre um soldado e sua noiva.

E para finalizar, depois de tocar obras de compositores dos países “do bem”, vem uma obra do bad boy Richard Strauss. Que a obra mais contundente do concerto, por sua harmonia expressionista, seja de um compositor alemão – traz aquele brutal mal-estar que nos lembra o paradoxo de que a nação que deu Bach, Beethoven, Schubert, Brahms e os maiores clássicos da música seria a mesma que nos daria Hitler, os expurgos nacional-socialistas, as SS e os campos de concentração.

Ou seja, é preciso desconfiar de toda beleza musical, afinal, os acordes mais belos justificariam as maiores atrocidades em nome da civilização: aquela mesma civilização que precisava empilhar cadáveres para continuar tomando chá em louças finas e ouvindo quartetos de cordas.

Mas, sobretudo, esse concerto foi histórico por mostrar até onde pode ir um trabalho com músicos amadores. Márcio Steuernagel extraiu da orquestra o melhor sentido da palavra – músicos que tocam pelo amor à música, uma vez que a remuneração que recebem não é adequada ao esforço de trabalho exigido. Assim, a Filarmônica da UFPR cumpre brilhantemente a função de uma orquestra universitária: dar à vida musical da cidade aquele tom de pesquisa estética e inovação cultural que deve marcar toda a produção das universidades, ao mesmo tempo em que proporciona complemento da formação e experiência musical significativa para os jovens músicos que integram o conjunto.

Márcio Steuernagel está de parabéns pela continuidade do trabalho altamente relevante à frente do conjunto, assim como juntamente com Harry Crowl, merece destaque pela concepção do concerto. Foi certamente um momento histórico para quem assistiu.

Enviado por André Egg, 20/04/14 10:58:26 PM
Foto do primeiro concerto da Camerata no Teatro Paiol (Acervo Ingrid Müller Serafim/FCC)

Foto do primeiro concerto da Camerata no Teatro Paiol (Acervo Ingrid Müller Serafim/FCC)

A Gazeta do Povo trouxe hoje uma ótima matéria do Rafael Costa sobre os 40 anos da Camerata. Outro dia já tinha saído no blog Falando de música, vizinho aqui do portal, um texto do maestro Osvaldo Colarusso, a propósito do concerto comemorativo realizado em fins de março.

Ambos, a matéria da reportagem e o texto do maestro no blog, trouxeram importantes informações sobre a relevância do conjunto musical para a vida da cidade. Difícil eu dizer mais coisa útil nesse aspecto. Reforço, então, o que já está nos dois links apontados acima, tentando somar alguma coisa, e depois explico porque a comemoração é boa, mas também temos motivos de preocupação.

Do lado positivo, ou seja, o que temos para comemorar dos 40 anos:

A Camerata deixou uma marca na vida local e na cultura nacional por seu pioneirismo e pela qualidade de seu trabalho. Já fez viagens para apresentar-se em outros lugares do Brasil e fora do país (acho que mais recente foi a participação em uma programação coral na Alemanha, apresentando obras sacras de compositores brasileiros). Fez gravações numa época em que isso era bem mais difícil do que hoje, e participou ativamente tanto no processo de apresentar grandes obras do repertório antigo, clássico e moderno para o público Curibano, como no de fomentar e preservar a música brasileira.

Também estão apontados nos dois textos linkados acima a importância capital da Camerata na formação de algumas gerações de ouvintes e de músicos em Curitiba. Ressalta-se neste aspecto o papel crucial que os integrantes da Camerata tiveram na criação da Oficina de Música de Curitiba, na época em que nem o conjunto nem o festival tinham apoio da prefeitura. Ou seja, os músicos fizeram tudo com “a cara e a coragem”. Eles até mesmo fizeram mutirão para limpar o Solar do Barão a fim de que estivesse em condições de receber professores e alunos do curso que idealizaram em 1983 – talvez inspirados no sucesso dos Festivais de Música do Paraná das décadas anteriores, onde a própria Camerata foi formada.

Acho que não dá pra escrever a história do movimento da música antiga no Brasil sem falar da Camerata, um dos primeiros grupos dedicados ao repertório do Renascimento e do Barroco em nosso país.

Nesse sentido, foi muito justa a homenagem ao maestro Roberto de Regina, que viveu muitos anos na ponte-aérea Rio-Curitiba para dirigir o grupo, com um trabalho que foi especialmente significativo para o coro. Também a incansável Ingrid Müller Serafim que tocou cravo e fez a direção administrativa do grupo por muitos anos, também sendo a principal dirigente executiva da Oficina de Música na sua melhor fase (quando os interesses da prefeitura se voltaram para o Festival de Teatro, e a Oficina passou a ser esvaziada na gestão dos dois Cássios – o Taniguchi na prefeitura e o Chameki na FCC – isso só pode ser feito com o afastamento de “Dona Ingrid” das funções que exerceu com esmero por tantos anos). Não menos justa foi a homenagem a Walter Hoerner, violinista que estava no grupo quando de sua fundação, e passou os últimos 40 anos nas estantes, estando ainda incansável na ativa.

Talvez devêssemos ter homenageado também o maestro Lutero Rodrigues, cujo trabalho com a orquestra colocou o conjunto entre os principais grupos camerísticos do país e fez um trabalho notável na execução de compositores brasileiros. Posso testemunhar a importância que os concertos da Orquestra de Câmera com o maestro nos anos 1990 tiveram papel fundamental na minha formação – eu não teria me tornado um pesquisador interessado no modernismo musical brasileiro se não tivesse tido a oportunidade de ouvir o repertório ao vivo em ótimas execuções. Vale lembrar que Lutero Rodrigues também foi o diretor musical nos melhores anos da Oficina.

Fora isso tudo, dizer que um grupo completa 40 anos em atividade é muita coisa num país como o Brasil. As coisas por aqui são todas muito recentes, muita coisa antiga e pioneira foi descontinuada. Por exemplo, uma cidade como São Paulo não teve conjunto musical estável senão já na década de 1940, quando se efetivou a Orquestra do Teatro Municipal a partir das experiências descontínuas da Sociedade de Conceros Sinfônicos nos anos 1920 e 1930. O Rio de Janeiro, que tem tradição orquestral desde 1808, teve uma história de descontinuidades e reviravoltas. Primeiro foi a chegada da Real Capela de Lisboa, junto com a família real, que esteve ativa (interrompida no período da Regência – 1831-1843) até a proclamação da República. Depois foi a Sociedade de Concertos Sinfônicos mantida por Francisco Braga desde a virada do século até o início dos anos 1930. E finalmente a criação da Orquestra Sinfônica Brasileira em 1941, depois da inspiradora passagem da NBC Simphony de Toscanini pela América do Sul. Ou seja, dizer que a Camerata funciona sem interrupções desde 1974 é o bastante para dizer que o grupo é uma das coisas mais importantes do país.

Mas também tem a parte ruim, por isso o Lamento do título, brincando com as formas musicais do Barroco que a Camerata fez tanto para divulgar na capital dos pinheirais.

E a parte ruim é basicamente que nós curitibanos, incluindo nisso a população da cidade em geral, os órgãos de imprensa e o poder público, não damos o devido respeito e importância ao conjunto, que só começou e durou esse tempo todo porque os músicos tem a incrível qualidade da teimosia.

Para dar um exemplo disso, basta sabermos que o primeiro concerto da temporada 2014 foi justamente o comemorativo informado pelo Maestro Osvaldo Colarusso no texto que linkei acima. O maestro fez a palestra pré-concerto, e tivemos segundo ele uma grande execução da Missa Lord Nelson de Haydn (que eu infelizmente não vi). Tivemos ali tudo que se espera: bom regente, bons solistas convidados, bom palestrante, uma grande obra bem executada, bom público, homenagens históricas, presença do prefeito.

Aí deveríamos ter o segundo concerto nos últimos dias 11 e 12 de abril, com obras de Richard Strauss, Villa-Lobos e Dvorak. O palestrante seria este que vos escreve. Mas, qual não foi minha surpresa ao saber que o concerto foi cancelado. Adivinhem? Por falta de verba!

Uma no cravo, outra na ferradura.

Se pensarmos que a Camerata é o único grupo vocal profissional em atividade no estado do Paraná, veremos que o nosso estado é mesmo uma grande “roça”, um lugar retrógrado onde atividades artísticas e culturais são consideradas “frescura” e coisa dispensável pelos cowboys que fazem a nossa riqueza econômica e o mando político. Some-se a isso o fato de que o outro grupo estável que temos no estado (mas mantido por outro ente – o governo estadual, e não o municipal) acaba de jogar fora os três anos de trabalho de um ótimo maestro também por falta de apoio institucional (basicamente cancelamento de concertos por falta de verba, como já discuti neste texto aqui no blog).

Ou seja, temos um grupo com a importância da Camerata, seu peso histórico na cidade e no país, mas não lhe damos o devido valor. Temos uma programação tímida porque não dispomos de verba. Entenda o verbo “dispor” não no sentido de existência da verba, mas no sentido de decidir aplicá-la em uma coisa ou em outra. O que a Camerata consome por ano em recursos dá pra asfaltar uns poucos metros de rua, ou seja, nosso problema não é a falta de recursos, é a falta de visão mesmo.

Enquanto os governantes continuarem tendo razão pra pensar que podem desrespeitar um conjunto como a Camerata porque afinal, “isso não dá voto mesmo”, continuaremos a ter bem menos do que podemos de nosso conjunto. Acredito que nós, cidadãos, classe musical e imprensa precisamos deixar um pouco mais claro a importância que essas coisas têm para a cidade. Se afinal, vivemos num país onde falta visão administrativa para entender o poder multiplicador do investimento em serviços culturais, vamos bater panela na rua pra chamar a atenção dos responsáveis.

Aí, talvez daqui a 40 anos a gente possa voltar pra comemorar que o grupo ainda estará ativo, que terá gravado vários discos, que terá fomentado o repertório encomendando obras significativas, que terá colaborado para manter o patrimônio musical do país, que terá fomentado a produção local, que terá recebido os melhores regentes e solistas convidados, que terá se articulado com o sistema educacional da cidade, que terá participado de um programa mais ambicioso de formação de ouvintes e de formação de jovens músicos, etc. Tudo coisa que a Camerata tem plena condição técnica de fazer (e o faz muito mais do que poderia) – desde que lhe dediquemos um orçamento adequado, e um planejamento estratégico.

Não é tão difícil.

Aproveito para colocar aqui os links para os textos que escrevi nos últimos anos sobre a programação anual da Camerata e sobre seus concertos, em ordem do mais recente para o mais antigo:

A abertura da Oficina de Música 2014

Alexandre Brasolim e a Orquestra de Câmara de Curitiba: Karayev, Brasolim, Copland e Janácek

O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

Rodrigo de Carvalho e a Orquestra de Câmara de Curitiba: Lutoslawski, Jolivet, Nino Rota e Shostakovich

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

Ópera de bolso em Curitiba – Menotti, Rossini e Puccini

Coro da Camerata Antiqua de Curitiba – Distler, Grieg, Kverno, Alfven, Mäntyjärvi sob regência de Fernando Swiech

O concerto da Orquestra de Câmara de Curitiba (Bach, Cameron, Guarnieri, Bottesini e Van der Roost)

Orquestra de Câmara de Curitiba e Daniel Migliavacca

Enviado por André Egg, 01/04/14 11:17:47 AM

Aos 50 anos do golpe muita coisa ainda precisa ser escrita sobre 1964 e o Regime Militar ali implantado. Não vai ser com um post de blog ou com um tuíte que a gente vai resolver essa grande pendência histórica.

Entretanto, uma “data comemorativa” como essa ajuda a provocar maior debate sobre um tema que está atravessado na garganta do Brasil. Na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, portanto há 50 anos, caía sem resistir o presidente constitucional do Brasil – João Goulart.

O país não tinha nada próximo de uma tradição democrática a zelar, mas o golpe vinha interromper uma experiência muito frutífera de democratização no período 1945-1964. Havia grande instabilidade institucional, mas os governos Vargas (1951-54), Kubischek (1956-60) e  João Goulart (1961-64) foram responsáveis por grandes avanços na inclusão das massas urbanas na política e na economia.

Pode-se resumir o golpe como uma reação das elites oligárquicas à perda de influência decorrente do período democrático. A isso se somou a cultura golpista da oposição (com farto apoio entre os oficiais militares) contra a esquerda trabalhista que governou a maior parte do período democrático. E mais um complicador: a Guerra Fria e o interesse norte-americano em apoiar regimes anti-comunistas (o medo de uma nova Sierra Maestra falava mais alto que a razão no planejamento norte americano). Este último fator teria sido decisivo para João Goulart entregar o governo sem resistência – o poderio militar norte americano mergulharia o país numa tragédia militar em caso de resistência.

O golpe e o regime por ele implantado foram definidores dos rumos de um Brasil excludente, violento e corrupto. As possibilidades de avanço social foram abortadas, a concentração econômica aumentou e ninguém esteve seguro diante do poder fardado. Por outro lado, o desenvolvimento econômico foi acelerado, mas de forma desequilibrada: o “milagre econômico” do início dos anos 1960 resultou na grave crise de estagnação econômica, desemprego e hiperinflação dos anos 1980 e 90.

Por essa e por outras, acertar as contas com esse passado autoritário é chave para o Brasil tomar o rumo do desenvolvimento justo e equilibrado. Um país melhor para nossos filhos e netos exige a revisão do legado deixado por nossos pais e avós.

Por isso, o blog faz hoje um reforço e uma lembrança, seguidos por uma pequena lista de leituras recomendadas para quem quer mergulhar na história do golpe e do Regime Militar.

Aqui na Gazeta, a semana está marcada por uma série de reportagens, que pode ser acessada aqui.

Muita coisa deve estar saindo na imprensa, e haja fôlego para acompanhar tudo. Mas suspeito que o especial da revista Carta Capital deva ser o que saiu de melhor.

Na internet também muita gente boa escrevendo sobre o assunto, e dificilmente alguém resumirá melhor o cenário histórico envolvido no golpe do que o prof. Maurício Santoro neste post.

Além dos textos rápidos de imprensa escrita e internet, uma ótima notícia que o aniversário do golpe nos traz são os lançamentos editoriais. Muito historiador fera, que trabalhou anos nos arquivos e compilou grande quantidade de documentos, dando o correto enfoque metodológico, acabou recebendo espaço nas grandes editoras e lançando livros indispensáveis para pensar o golpe e o Regime Militar. Não devo saber de todos, mas faço aqui minha listinha dos que acho obrigatórios. Como a maioria está saindo por agora, ainda não deu tempo de ler – coisa que a gente vai ter de fazer nos próximos dias (ou meses, pela quantidade de coisa boa).

Capa do livro publicado pela Contexto

Capa do livro publicado pela Contexto

O que saiu mais cedo eu já li – o livro do professor Marcos Napolitano, da FFLCH-USP. Indispensável e obrigatório, pelas avaliações amplas e pelos capítulos sobre a cultura e a resistência ao regime, temas que ele conhece melhor do que ninguém. Uma resenha deste livro já apareceu aqui neste blog. Tem nas livrarias e tem também em Kindle.

Livro de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes lançado pela Record

Este livro eu acabei de receber, mas ainda não li. Provavelmente vou fazer resenha dele em breve. Os dois autores são grandes autoridades em história política brasileira. Representam, digamos assim, uma tradição historiográfica carioca. Jorge Ferreira estabeleceu sua reputação autoral com a super biografia de Jango, que conta muito bem a história do golpe. O livro sobre Jango já recebeu resenha minha aqui na Gazeta. Até onde sei, este aí não saiu em versão digital, só nas livrarias.

A Zahar também fez vários lançamentos importantes:

Capa do livro coletivo sobre o Regime Militar

Capa do livro coletivo sobre o Regime Militar

O principal deles é uma grande avaliação coletiva do Regime Militar, com textos escritos por vários especialistas. A organização do livro ficou a cargo de três professores que dispensam comentários. Marcelo Ridenti, da UNICAMP, Rodrigo Patto, da UFMG e Daniel Aarão Reis Filho, da UFF. Aqui na página da editora tem sumário e mais informações. Tem versão Kindle.

O livro de Daniel Aarão Reis Filho

O livro de Daniel Aarão Reis Filho

De Daniel Aarão Reis Filhos a Zahar também lançou este livro cuja capa aparece acima. Uma tentativa de fazer uma interpretação mais abrangente do Regime Militar e de sua resistência de esquerda dentro de uma longa tradição brasileira. Na página da editora, mais informações e o sumário. Também está disponível em Kindle.

Livro de Rodrigo Patto

Livro de Rodrigo Patto

Mas talvez o mais interessante de todos os lançamentos seja este livro de Rodrigo Patto, professor da UFMG. As diversas ações institucionais do Regime Militar deixaram sérias consequências para o Brasil de hoje, com um entulho autoritário do qual a gente vai tendo muita dificuldade de se livrar. Talvez um dos principais motivos seja o poder que as universidades possuem de reproduzir ad infinitum o modelo legado pelas intervenções dos presidentes-generais. Rodrigo Patto mergulha neste processo, num livro que me parece que vai ajudar a repensar muita coisa. Mais informações na página da editora. E também possui versão Kindle.

Provavelmente é desconhecimento meu, por não serem áreas com as quais trabalho, mas estão faltando os lançamentos que discutam outros aspectos cruciais do nosso legado autoritário. Eu gostaria muito de ler estudos especializados sob o Regime Militar e seu legado sob os seguintes aspectos (mas aí talvez não fosse tão interessante para as editoras do ponto de vista comercial):

* Economia: nosso sistema tributário kafkeano e  regressivo (pune quem trabalha e quem produz), e nossa estrutura cartorial feita de criar dificuldades para vender facilidades ou favorecer os amigos do poder – tudo isso foi um legado construído cuidadosamente pelo Regime Militar, e a gente nem passou perto de resolver esta questão. É hoje um entrave seríssimo para o desenvolvimento do Brasil;

* Polícia: ainda vivemos sob os coturnos da Polícia Militar, uma coisa que só o Brasil tem, e que foi desenhada para uso de mão pesada sobre os descontentes com a política oficial. Esse lado talvez dê pouco glamour porque as principais vítimas cotidianas são os pobres da periferia. Mas talvez em tempos de protestos, rolezinhos, massacres e quetais a gente consiga começar uma discussão mais séria deste tema;

* Judiciário: um sistema ineficiente, lento e caro, dominado por poucas famílias, que serve para a garantia de privilégios e é totalmente inútil para proteger os direitos das pessoas comuns. Esse é o grande legado do Regime Militar que a gente também está longe de desmontar. Some-se com a nossa tradição portuguesa de longa duração, e temos uma barafunda de leis que faz o paraíso dos bacharéis em direito e o terror das pessoas simples.

Então é isso. 50 anos que custaram muito a passar. Ou melhor, não passaram. Porque se a gente não acertar as contas com esse passado, continuamos com ele como se fosse uma pedra no pescoço puxando a gente para o fundo.

Boas leituras!

Enviado por André Egg, 21/03/14 8:28:18 PM

O maestro português Osvaldo Ferreira veio para Curitiba em 2011 para assumir a Orquestra Sinfônica do Paraná como regente titular. Ele já tinha vindo à cidade outras vezes pois era diretor artístico da Oficina de Música de Curitiba.

Sua chegada definitiva como maestro radicado na capital paranaense vinha na esteira da mudança de governo. Tinha saído o governador Roberto Requião, que durante os 8 anos de seus dois mandatos tinha transformado a nossa orquestra numa pálida sombra do que já tinha sido nos seus melhores momentos.

Não que nossa orquestra tivesse sido já alguma coisa perto de uma grande orquestra. Mas tinha sido uma orquestra boa, que cumpria seu papel de corpo estável em um estado de segunda linha na federação brasileira (mais ou menos populoso e rico, embora muito atrás de São Paulo, Rio e Minas – ou mesmo Rio Grande do Sul e Bahia, em cacife financeiro e político e tradição cultural). Pelo menos é a impressão que se tinha dos tempos de sua fundação no governo José Richa, e uma continuidade mantida a duras penas nos governos Alvaro Dias e no primeiro Requião (1991-94). Naqueles tempos a orquestra tinha boa programação, a regência era muito bem desincumbida pelo titular Alceo Bocchino e pelo assistente Osvaldo Colarusso, e chegamos a ter apresentações frequentes de balé e ópera.

Neste blog já escrevi um pouco sobre nossa orquestra por ocasião do seu 27º aniversário:

Os 27 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná

Nos 16 anos entre o fim do primeiro Requião, a passagem por JaimeLerner (1995-2002) e a segunda era Requião (2003-2010) a orquestra foi passando por uma longa e agônica decadência, marcada pela falta de programação fixa, e em muitos momentos a falta de um regente regular. Mais ou menos pela mesma época a Camerata Antiqua de Curitiba também acabou abandonando a figura do regente fixo, sem que isso resultasse em prejuízo para a orquestra (para o coro é outra conversa) – pois a programação era mantida com ensaiadores locais e regentes convidados.

O fato é que não ficaram grandes lembranças da Orquestra Sinfônica do Paraná no período em que o nosso estado oscilou entre entre o liberal Jaime Lerner e o esquerdista Roberto Requião (4 mandatos, dois seguidos de cada um, entre 1995 e 2010). Isso prova que a boa gestão da cultura não esteve em nenhum dos extremos da nossa polarização político ideológica de província.

Quando o Osvaldo Ferreira chegou, encontrou um grupo desmoralizado, no sentido de que tinha bons músicos, mas cujo trabalho não era respeitado profissionalmente, artisticamente nem financeiramente. Some-se o fato de as relações entre os músicos e o maestro também não tinham um bom histórico, pois foram desavenças entre um corpo estável e um maestro idem que levaram ao afastamento de Osvaldo Colarusso para outras funções no Estado, uma vez que a orquestra chegouao ponto de recusar-se a tocar com ele no pódio.

A missão não era coisa simples. Em primeiro lugar, é preciso pensar no confronto de mentalidades políticas e culturais que seria sofrido pelo novo maestro. Osvaldo Ferreira vem de um país pequeno da Europa, um continente onde a vida sinfônica é muito mais significativa do que deste lado do Atlântico. Afinal, Portugal é comparável ao estado do Paraná em população e extensão territorial, mas possui mais de uma dezena de boas orquestras muito ativas. A programação sinfônica de Lisboa, por exemplo, só tem comparação, no Brasil, com São Paulo ou Rio de Janeiro – e é uma capital com cerca de 700 mil habitantes.

Ou seja, além da dificuldade de se aculturar em um país e uma cidade muito diferentes (dizem que a língua é a mesma, mas as diferenças são grandes até neste aspecto – basta lembrar que o candidato José Serra não entendia as perguntas dos repórteres quando saía do seu estado natal nas eleições de 2010), tinha a abissal diferença do valor cultural que têm as orquestras lá e cá. Imagino que talvez haja alguma diferença, aí já não tão grande, entre o nível técnico dos músicos.

Superando estas dificuldades todas, Osvaldo Ferreira se impôs desde logo pela qualidade do seu trabalho, e ganhou para si e para a orquestra o respeito que tal aparato merece em uma cidade ou estado que se prezem.

Eu assisti com muito prazer o primeiro concerto, e publiquei uma crítica no blog que eu mantinha na época:

A estréia de Osvaldo Ferreira com a Sinfônica do Paraná: Guarnieri, Tchaikovsky, Beethoven

Pra resumir a história pra quem não tiver paciência de seguir todos os links que eu vou colocar neste texto, o concerto mereceu destaque positivo pela escolha da Abertura Festiva de Camargo Guarnieri, uma peça brasileira moderna mais recente, e os clássicos Concerto para violino de Tchaikovski e Terceira sinfonia de Beethoven. Além de inteligente escolha de repertório, Osvaldo Ferreira revelou imediatamente sua capacidade como ensaiador, sua técnica de regência, sua cultura musical. E mais do que isso, mostrou que os músicos estavam com ele.

Osvaldo Ferreira ensaiando concerto inicial da temporada 2012 (foto Priscila Forone/Gazeta do Povo)

Mas melhor ainda que o concerto em si, foi sair do Guaíra levando um caderno da programação anual da orquestra. Uma coisa que eu acho que nunca tinha tido, pelo menos eu não me lembro. A Camerata já fazia isso em Curitiba faz um tempinho. Orquestras importantes em outros lugares do Brasil e do mundo fazem isso normalmente, ou melhor, é difícil explicar pra alguém acostumado com vida sinfônica como uma orquestra pode não ter programação anual.

Pois é, a OSP não tinha. E Osvaldo Ferreira fez uma bem rápido. E era muito boa. Ao menos era o melhor que se podia fazer com as condições que se apresentavam na ocasião e o histórico recente da vida cultural paranaense. (Agora estou em dúvida se a programação saiu mesmo no primeiro concerto ou foi depois. Acho que foi depois, pois eu publiquei só em julho meu comentário, que estava num blog antigo, depois foi republicado em outro)

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Pra mim o destaque ficava por conta do equilíbrio entre compositores brasileiros (sempre presentes), música europeia do século XX (quase sempre presente), bons solistas e maestros convidados, e ótimo repertório clássico. Ficavam faltando as coisas que dependiam de programação mais antecipada, melhor capacidade técnica da orquestra e da equipe do Teatro Guaíra e maiores recursos. Por exemplo, faltavam estreias e/ou encomendas de obras, faltavam as grandes obras mais ousadas do repertório, e faltava sobretudo ópera e balé.

Nada que se pudesse culpar o maestro. E veio o segundo concerto, que eu também assisti e escrevi crítica, desta vez publicada na Gazeta do Povo e complementada no meu blog, por causa da falta de espaço para textos mais desenvolvidos no jornal impresso.

Um concerto de altos e baixos

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: Dottori, Schumann e Tchaikovisky

Pra resumir a história, a peça do Dottori foi muito boa, e mereceu uma menção especial por ser coisa bem recente de um compositor que mora na cidade. A gente precisava (e continua precisando) ver a orquestra fazer mais isso. Também foi ótima a sinfonia do Tchaikovsky, mas foi meio atrapalhada a escolha e a execução do concerto do Schumann. Ainda não sei se quem escolheu a peça foi o maestro ou a solista, mas ela é difícil de sair bem, tanto pela dificuldade técnica para o pianista, para o entrosamento do conjunto e, principalmente por não ser bem resolvida em termos de orquestração.

Depois disso, não vi mais nenhum concerto regido pelo Osvaldo Ferreira no ano. Só vi a OSP com outros maestros, provando que foram muito boas as escolhas do diretor artístico, tanto de repertório como de convidados.

E então veio o anúncio da programação da segunda temporada da OSP com Osvaldo Ferreira à frente. Seria a primeira que o maestro teria preparado com suficiente antecedência, mas continuaria marcada pelas mesmas dificuldades que a equipe do Guaíra e o Governo do Estado pareciam não ter mesmo interesse político em resolver. Continuou sendo uma temporada limitada por uma série de ausências e falta de recursos, embora parecesse que as coisas estavam melhorando de algum modo, com o anúncio de ao menos dois programas mais ousados em termos de produção: a Sinfonia nº 2 de Mahler e a Sagração da Primavera de Stravinski.

A seguir, o texto que escrevi na época, sobre a programação, e a matéria feita pela Gazeta do Povo:

A temporada 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Progredindo dentro de velhas limitações

Conversando com o repórter Rafael Costa, da Gazeta do Povo, sobre a temporada 2012 (foto Jonathan Campos/Gazeta do Povo)

A realização da Sagração seria realmente um grande feito, talvez dos maiores da história da OSP e do Balé Guaíra. Mas a ótima execução da Sinfonia Ressurreição de Mahler ficaria um pouco eclipsada pela polêmica em torno do uso de um coro de voluntários para realizar a obra. Apesar de ser muito bom o engajamento de um coro da comunidade numa realização artística desta envergadura, a questão é que o Teatro Guaíra deveria ter um coro profissional e não tem. Nem pretende ter. Com isso, o maestro teve que se virar com o que podia, melindrando bastante todo o pessoal que se mobiliza faz tempo para que o estado tome vergonha e crie um corpo estável, não nos moldes do antigo Coro do Teatro Guaíra, que era feito sob relações financeiras e trabalhistas muito precárias.

Mas vejam o que escrevi na época sobre o concerto de Páscoa:

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: a Sinfonia nº 2 de Mahler

Um pouco depois de um concerto tão intenso veio outro bem mais leve. E apesar de eu reclamar um pouco de coisas mais leves, talvez seja uma grande sabedoria do maestro equilibrar-se assim entre os vários tipos possíveis de público. Afinal, ele não trabalhava apenas para o ouvinte mais especializado e empolgado com a vanguarda (meu caso), mas tinha que atender aos interesses de uma população muito mais vasta que paga os impostos.

Escrevi uma crítica também sobre este outro concerto:

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná com Fábio Zanon: Krieger, Rodrigo e Debussy

Neste ano também teve muita coisa que não assisti, e depois veio a tão esperada Sagração. Saiu a seguinte matéria na Gazeta do Povo:

Um ritual pagão em pleno Guaíra

Osvaldo Ferreira no fosso, ensaiando a orquestra para a Sagração da Primavera, com coreografia de Olga Roriz (foto Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

E foi assim a crítica que escrevi:

A Sagração da Primavera de Olga Roriz com o Balé Guaíra e a Sinfônica do Paraná

Pra resumir bem a coisa – foi uma das grandes experiências estéticas da minha vida ouvir esta peça ao vivo (eu já tinha ouvido muito em gravações) – numa ótima execução.

Eu não fiz crítica de mais nenhum concerto regido pelo maestro neste ano. Mas teve outras coisas que mereceram destaque na programação: o maior espaço para atuação do regente assistente, Márcio Steuernagel, que comandou uma programação de clássicos mais leves apresentados em igrejas, e que também regeu um concerto inteiro só de compositores curitibanos contemporâneos (Maurício Dottori, Harry Crowl de Flíblio Ferreira de Souza). Esse concerto foi no Teatro da Reitoria, e foi outro dos grandes momentos da OSP (exceto pela peça do Flíblio, que ganhou o concurso de composição em 2011 e que até hoje eu não sei se tem problemas de escrita como o Schumann do Concerto para piano ou se é só má vontade da orquestra com a linguagem muito complexa da escrita instrumental).

Além disso, merece destaque especial a altíssima qualidade da programação infantil desenvolvida (assisti alguns concertos desses com a família, e descobri que o Osvaldo Ferreira é ótimo com os figurinos também).

Foi ainda um momento muito mágico a música do filme de Lotte Reiniger, mas esta foi com regente convidado.

Outro destaque do ano de 2012 foi que a OSP chegou a ser notada pela mídia especializada de alcance nacional. A nossa orquestra foi mencionada numa reportagem da revista Concerto sobre a subida recente do nível da vida sinfônica no país, e a Orquestra Sinfônica do Paraná apareceu entre as orquestras notáveis do país, sendo Osvaldo Ferreira um dos entrevistados. Na ocasião ele ousou colocar a orquestra num nível talvez maior do que ela realmente estivesse, e eu comentei isso um pouco neste texto:

Orquestra Sinfônica do Paraná é uma das 5 melhores do Brasil?

O fim do ano de 2012 começou a revelar um pouco dos gravíssimos problemas que começariam a ficar frequentes na administração do Teatro Guaíra, e que acabariam culminando com a saída do maestro Osvaldo Ferreira ao final do ano seguinte.

Sem explicações, foi cancelada a vinda do compositor Penderecki, que estava programado para reger o último concerto do ano, que previa, entre outras obras ousadas, a estreia de uma peça que estaria sendo escrita por Márcio Steuernagel. Se tivesse acontecido conforme o programado, teria sido provavelmente o músico mais importante do mundo a pisar a nossa cidade, e certamente seria outro momento para entrar para a história da OSP.

Ao contrário, foi o começo de uma história de desencontros, que acabou com a impossibilidade de continuidade da ótima parceria Osvaldo Ferreira / OSP.

Em 2013 a coisa foi ficando bem pior, com mais notícia ruim ao longo do ano. A primeira coisa foi que o Teatro Guaíra nem se deu ao trabalho de imprimir um caderno de programação, e sequer tinha uma divulgação minimamente decente no site. O público ficou sabendo das coisas pelo esforço pessoal do maestro, e a programação saiu em matéria do jornal Gazeta do Povo:

A temporada 2013 da OSP

Esta matéria teve algumas opiniões minhas, dadas em conversa com o repórter Rafael Costa, que aliás, fez sempre boas matérias sobre a orquestra durante todo o período de Osvaldo Ferreira. Em linhas gerais, o que eu disse pra reportagem foi que a programação era pior que a dos anos anteriores, e demonstrava nitidamente a falta de investimento financeiro – condição necessária para uma programação melhor. Era mais ou menos como se o Governo estivesse dizendo que não concordava com esse negócio de ter uma das 5 melhores orquestras do Brasil, que isso era coisa de um maestro metido a querer colocar Curitiba e o Paraná onde nunca pretenderam ficar.

O descaso da direção do Teatro Guaíra com a divulgação da programação talvez já significasse que eles tinham intenção mesmo de “dar o bolo” no público da orquestra. Ou talvez eles não concordassem com as coisas que o maestro pretendia, porque realizar programação sinfônica gasta dinheiro, e o Governo do Paraná tem dinheiro pra outras coisas mas não pra isso. (Na verdade ficou sem dinheiro pra quase tudo que importa em 2013, como mostraram fartamente diversas reportagens do jornal.)

Um dos motivos do atropelamento com a divulgação da programação foi que o Teatro Guaíra esperou ver que datas ia alugar o teatro para formaturas para só depois confirmar a programação que estava definida havia meses. Imagina os regentes e solistas convidados esperando pra fechar agenda por causa de um motivo desses. Sim, o negócio é esse mesmo que você está entendendo – o Governo do Paraná decidiu que era mais importante alugar o principal teatro do estado para formaturas do que reservá-lo para a programação da orquestra estadual.

Quando ficou evidente que a orquestra estava ficando para escanteio em sua própria casa, começou-se a discutir a reforma de outro espaço para servir de sede. Comentei o assunto neste texto:

O Centro de Convenções de Curitiba resolve o problema da Orquestra Sinfônica do Paraná?

O Governo do Estado abortou dessa ideia assim que soube quanto custaria a reforma. E olha que em nenhum momento se pensou em nada parecido com uma “Sala São Paulo”.

Mas antes desse imbroglio a orquestra já tinha feito um ótimo concerto que marcou novamente um grande momento da história. Foi o concerto em homenagem aos 85 anos de Edino Krieger, que foi convidado e esteve presente. No que dependia do maestro e dos músicos, a orquestra seguia marcando a história da Curitiba com grandes momentos. Esse foi o texto que escrevi logo após o concerto:

Homenagem aos 85 anos de Edino Krieger: Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná

Em 2013 eu fiz aquilo que sempre tentei fazer nos anos recentes: assim que saiu divulgada a programação, eu anotei na minha agenda (do google e do celular, que as de papel não consigo usar faz muito tempo) os concertos que pretendia assistir e escrever crítica. Não tenho tempo de ver tudo por excesso de atividades profissionais (este blog mesmo é feito no pouco tempo livre que aparece) então seleciono sempre as coisas que prometem ser mais marcantes. Em geral aquelas obras que a gente precisa ouvir ao vivo um dia na vida, ou coisa nova que a gente quer saber se vale a pena. No mais, o repertório batido já é coisa que a gente está muito bem servido num mundo com onipresença de música gravada em tudo que é lado.

Alguns concertos que eu queria ter visto eu perdi por culpa minha mesmo. Mas quando foi chegando outubro e eu vi que conseguiria ir na data prevista pro Requiem de Verdi, fui conferir os horários na programação da Gazeta ou no site do Guaíra e não tinha nada não. Não tinha nada mesmo. Nem concerto nem explicação nenhuma sobre seu cancelamento. Do mesmo modo foram cancelados sem aviso ou explicação os dois concertos previstos para dezembro. A única explicação que a gente pode imaginar é que o dinheiro acabou antes do ano, e a programação foi pras cucuias.

Acreditem se quiser, ainda tem gente que tentou colar a culpa no maestro, do tipo “ele gastou dinheiro demais em um concerto só, depois não sobrava nada pros outros” -  o que é um absurdo total porque estamos falando de uma programação divulgada no início do ano. Quer dizer – se o pessoal do Guaíra soubesse do que acontece nos seus próprios domínios, já devia ter dito em 2012 pro maestro que não dava pra fazer os concertos que ele pediu.

Se isso acontecesse, provavelmente o maestro teria saído antes, sem passar a vergonha de ver a programação cancelada com ele ainda levando a culpa que foi de gente que estava mais acima.

Essas questões todas foram bem investigadas pela reportagem da Gazeta do Povo, que conversou com pessoas que conhecem a orquestra e deram boas opiniões em duas matérias. Uma por ocasião da saída do maestro, no final do ano passado, outra no anúncio do primeiro concerto deste ano:

Fim de ano com mudanças à vista

Um ano de transição

Em 2014 a orquestra começou sem regente fixo, mas com o anúncio de uma programação mínima que promete manter a coisa mais ou menos funcionando. Algumas coisas não podem ser boas sem regente fixo e direção artística competente: especialmente a parte que depende do trabalho contínuo para melhorar. Isso significa que em 2014 a OSP está condenada a uma certa estagnação, embora nada disso dê pra perceber ainda, e a gente não saiba pra onde a coisa vai caminhar em 2015.

Tudo que se tem por enquanto é que há uma comissão de notáveis que não está deixando a programação ficar vergonhosa, e vem escolhendo os melhores convidados possíveis. A prioridade vai para os regentes radicados no Brasil, por motivos financeiros, mas nisso aí não há nenhuma queda de qualidade pois os nomes anunciados são muito bons. O primeiro concerto já aconteceu e foi um grande sucesso do ponto de vista musical.

O Concerto para flauta de Nielsen é uma obra muito interessante e foi muito bem feita. O Concerto para orquestra do Bártok é uma obra do nível da Sagração tocada em 2012 (sem o balé). A execução foi excelente, e alguém que olhe para o desempenho da orquestra só por este concerto vai dizer que está tudo uma maravilha.

Mas a OSP já provou, ao longo de sua história, que artisticamente sabe sobreviver ao descaso que lhe devotamos como público e como governo. Está muito acima disso.

E o que vai ser daqui pra frente não sabemos, mas nunca se apagarão as marcas das 3 temporadas com o Osvaldo Ferreira. Ele nos deu um vislumbre de programação séria e bem organizada, deu estabilidade e consistência artística ao conjunto que dirigiu, interagiu muito bem com a cidade e com a imprensa – e saiu daqui sem ter recebido o reconhecimento que mereceria pelo trabalho que realizou.

O concerto que, podemos dizer, marcou sua despedida como residente de nossa cidade, não foi com a Orquestra Sinfônica do Paraná, e sim com a orquestra de alunos da Oficina de Música de Curitiba que ele dirigiu (dirigiu ambos, o festival e a orquestra dos alunos). Não poderia ser uma despedida melhor, realizando com perfeição (mesmo com um conjunto amador) a peça sinfônica brasileira mais importante de todas (e certamente de difícil execução). Eu escrevi sobre esse concerto:

O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

Faço deste post minha homenagem e meu agradecimento ao maestro pelos serviços prestados em nossas terras. Ele nos deixou uma marca indelével, e a esperança de que possamos tê-lo trabalhando aqui no futuro, e da próxima vez em condições mais dignas. Se isso não puder ocorrer, certamente outros colherão resultados das sementes que ele aqui lançou, que ficarão por muito tempo.

Enviado por André Egg, 06/03/14 3:53:16 PM
Capa do livro (divulgação / Editora Paulus)

Capa do livro (divulgação / Editora Paulus)

O livro de Xabier Basurko foi publicado pela primeira vez em 1964, em meio à agitação intelectual do Concílio Vaticano II e interligado ao fortíssimo movimento de reforma litúrgica. A tradução para o português veio só agora em 2005, por uma série dedicada à música e à liturgia pela editora Paulus.

A tradução é muito bem vinda, porque se trata de assunto sobre o qual há muita carência de estudos, especialmente em português e em catálogo. Por exemplo, há outros autores que vieram tratando disso com profundidade pela mesma época que o Basurko, mas é tudo coisa difícil de encontrar hoje em dia. Por exemplo, tem o ótimo Adoração na igreja primitiva de Ralph Martin, que felizmente recebeu uma nova edição em 2012 – mas é um livro que só trata de liturgia, culto e Escrituras, quase nada de música diretamente (a não ser sobre aspectos de seu uso no culto). Tem ainda The sacred bridge e La foi et le culte dois outros estudos essenciais da mesma época do trabalho do Basurko (ele que ele usou e cita na sua bibliografia) que continuam sem tradução para o português e sem novas edições nas línguas em que foram escritos.

Para a gente ter uma ideia da importância destes estudos, basta dizer que o aggiornamento posto em prática pelo Concílio Vaticano II foi provavelmente a maior guinada já dada pela igreja romana em seus muitos séculos de existência. É comparável ao nível das mudanças que o Papa Francisco vem pondo em prática, sob alguns aspectos, mas sob outros foi coisa muito mais profunda. Basta que se diga que a igreja aboliu a obrigatoriedade do culto e dos cânticos em latim, coisa que a igreja manteve por 1500 anos durante os quais o latim já não era uma língua falada no cotidiano, mas apenas uma língua de sábios e a língua da liturgia. Permitir o canto e o culto em vernáculo (na língua local de cada fiel) é uma coisa que os protestantes já tinham adotado como primeira medida no século XVI, e que a igreja romana ainda segurou por mais 450 anos – e que talvez seja o principal fator de aproximação entre a igreja e o fiel comum.

O fato de que o latim tenha se mantido por tanto tempo diz muito sobre o formato elitista adotado pela igreja romana. A volta ocorrida na direção do povo na década de 1960 (quando a igreja saía em frangalhos depois do papel vergonhoso dos cristãos no apoio ao nazismo) tornava necessário um estudo como o produzido por Basurko. Nos primeiros séculos os cristãos tinham sido uma seita perseguida, tanto dentro do judaísmo (de onde saiu) como no contexto das práticas religiosas do Império Romano. Para estas comunidades minoritárias e perseguidas, o canto comunitário era fator essencial de identidade e sobrevivência. Tanto quanto as Escrituras ou até mais (como bem demonstra o Ralph Martin no livro linkado acima, muita coisa que entrou para o cânone do Novo Testamento foi cantada nos cultos muito antes de ganhar forma escrita) – os cânticos eram fator de coesão e sustentação da fé.

Se depois a Igreja se tornou uma instituição ligada ao poder imperial e à elite aristocrática, a música litúrgica perverteu-se nos seus usos intelectualizados e refinados e afastou-se do povo por vários séculos. Até o ponto em que a tentativa de um resgate da ligação com o homem comum provoca uma corrida às fontes do cristianismo primitivo.

E isso é tudo que o Basurko faz no seu ótimo livro (na verdade uma tese de doutorado publicada em livro). Ele passa o pente fino em toda a literatura patrística, com enfoque privilegiado em Agostinho e algum acento mais forte em Crisóstomo, e encontra ali todas as recomendações e reflexões sobre os usos do canto na vida da igreja. Com isso, o Basurko consegue fazer um panorama do canto litúrgico entre os primeiros cristãos a partir da única documentação existente.

Não é possível fazer muito mais pelo fato de que simplesmente não existe documentação musical propriamente dita (não existiam partituras) – e poucos documentos sobreviveram. O testemunho dos homens que formaram a ortodoxia da fé que se institucionalizaria pelos próximos milênios acaba sendo uma fonte rica para conhecer as práticas musicais dos primeiros 4 séculos de cristianismo.

São pistas que eu estou seguindo por que preciso conversar sobre isso nas minhas aulas. E são os ecos de uma reflexão que marcou um período muito importante de renovação das tradições cristãs numa época em que não estava dado como se faria a entrada em novos aspectos da modernidade. Nas décadas seguintes ao trabalho de Basurko ou Cullman, a igreja romana e os vários ramos protestantes iriam enfrentar um mergulho nos novos meios de circulação – a indústria fonográfica e, depois, a televisão e a internet. A música cristã nunca mais seria a mesma, e as tentativas de acompanhar as rápidas transformações mantendo alguma ligação com a tradição histórica acabariam sendo tragadas no torvelinho do uso mercantil das canções religiosas.

Para o bem e para o mal, a busca das origens da música cristã ficou mesmo como um olhar idílico para o passado, ao qual era impossível voltar mesmo que como inspiração. Afinal, depois de tantos séculos segurando a participação dos fiéis no culto, alguma hora a represa ia “estourar”.

Enviado por André Egg, 23/02/14 11:38:27 AM

Na edição de fevereiro da Revista Piauí saiu um texto importantíssimo do prof. Lorenzo Mammi intitulado “A era do disco”. O subtítulo “O LP não foi apenas um suporte, mas uma forma artística” indica a tese principal do texto, mas ele vai muito além disso.

No formato de um texto de revista, o artigo é curto e muito denso. A erudição do autor recupera várias questões relacionadas a forma e conteúdo, suporte e mensagem, mercadoria e obra de arte. Mammi parte da história do livro, ou melhor, do texto escrito e seus suportes, para estabelecer uma base de comparação com o fonograma, a princípio considerado como suporte, mas, como demonstra Mammi em defesa de seu argumento, essencialmente uma forma de arte que transformou totalmente a maneira como a música é produzida e veiculada.

Lorenzo Mammi (divulgação - Editora Cia. das Letras)

Lorenzo Mammi (divulgação – Editora Cia. das Letras)

Já estou aqui preocupado em como faço para xerocar o formato de página grande da Piauí, pois certamente quero tornar este texto uma referência obrigatória para meus alunos de História da Música. A gente já discute a questão do fonograma a partir de dois textos muito interessantes: o capítulo “Máquinas infernais: como as gravações mudaram a história da música”, do livro Escuta só, de Alex Ross e o capítulo inicial do livro Maestros, obras-primas e loucuras, de Norman Lebrecht. No texto do Alex Ross, uma reflexão sobre a história das tecnologias de gravação e a maneira como os músicos e os ouvintes se relacionaram com o fonograma. No texto do Lebrecht, uma história do surgimento da indústria fonográfica e as primeiras gravações que transformaram a música em um produto vendável. Além destes dois textos, eu fiz um post com imagens históricas. Falta ainda eu trabalhar melhor o livro do Humberto Franceschi sobre a Casa Edison, rico em imagens e documentos históricos (mas sem uma reflexão mais aprofundada).

O texto de Lorenzo Mammi trata a questão por outros aspectos. Grandes insights sobre a maneira como era a relação entre música como som e partitura como suporte, e a fruição nas salas de concerto, e a maneira como isso mudou a partir do disco de 78 rotações e sua articulação com a rádio difusão. A grande consequência foi a hipertrofia da canção como forma privilegiada:

Houve um “século da canção” (para retomar o título de um livro de Luiz Tatit) por que houve um século do disco.

Mas o foco do texto é a era de ouro do LP, entre meados da década de 1950 até o final da década de 1970. A invenção de uma tecnologia capaz de ir além dos 3 minutos de gravação permitiu uma nova relação com a tradição clássica, novas escutas que permitiram uma nova vanguarda (da geração de Boulez e Stockhausen), e principalmente novas formas de música popular.

Foi nessa época e por esses meios, muito mais do que pelas vanguardas do começo do século XX, que a música contemporânea alcançou sua plena autonomia em relação à tradição clássico romântica, quanto a recursos, formas e modalidades de escuta. Foi dessa época, provavelmente, a melhor música erudita do século. Mas é dessa época também o melhor jazz, do bebop ao free; quase todo o rock relevante, de Elvis Presley aos Clash; a bossa nova e o auge da MPB; Janis Joplin e Maria Callas; a melhor Ella Fitzgerald e o melhor Frank Sinatra. E, num lugar que é só deles, são dessa época os Beatles.

Para Mammi, os primeiros músicos a usarem de forma consistente o novo formato foram Miles Davis, com Kind of Blue e John Coltrane, com A love supreme. Mas não há dúvida de que o auge da concentração de criatividade e talento proporcionada pela indústria do LP foi representada pelo disco Sargent Peppers, dos Beatles, do qual Mammi faz uma interessantíssima análise estética.

Como não podia deixar de ser, o texto inclui um lamento sobre o fim das formas de escuta e de sociabilidade construídas em torno do LP (Mammi é da geração que viveu isso no seu auge, pois ele é de 1957), refletindo sobre a diluição do potencial artístico que está contida na migração para o CD e depois para o streaming na internet. Em última instância, o autor considera que a democratização das tecnologias de gravação e circulação possibilitam uma pulverização da produção de boa qualidade e uma consequente diluição do significado social do que é produzido. Trocando em miúdos, em toda esquina pode ter alguém produzindo coisas de altíssimo nível, mas a inexistência de uma concentração de recursos numa indústria dominante torna inviável o surgimento de novos músicos com a relevância dos Beatles.

Para Mammi, ainda está em aberto o ressurgimento do vinil como suporte, afinal existem correntes minoritárias mas significativas que ainda insistem em usar este suporte para novas produções.

Eu ainda estou em dúvida sobre a pertinência das análises que ele faz sobre a cena contemporânea, afinal, fica difícil separar sua capacidade de análise da contaminação pelo evidente saudosismo que ele traz pela era de ouro do LP. Entretanto, se as previsões catastróficas sobre a contemporaneidade e o futuro que se desenha são questionáveis, a avaliação histórica do papel central do LP na cultura do século XX é simplesmente incontornável.

Enviado por André Egg, 16/02/14 3:16:12 PM
Capa do livro publicado pela Contexto

Capa do livro publicado pela Contexto

Acabou de ser lançado o que deverá ser por muitos anos o melhor estudo sobre a história do Regime Militar brasileiro. O autor, Marcos Napolitano, pode ter uma visão privilegiada do assunto por causa da sua trajetória como pesquisador: começou a carreira acadêmica (mestrado) estudando os movimentos populares do final dos anos 1970 que combateram o Regime Militar; seguiu fazendo o doutorado sobre a Música Popular entre 1959-69, pelo eixo engajamento/indústria cultural; continuou a trajetória pesquisando a cultura da resistência ao Regime nos anos 1970 (Música Popular, cinema e imprensa alternativa).

Com essa trajetória, Napolitano se tornou um historiador privilegiado para abordar a cultura brasileira nos anos em que o país viveu sob os generais. Por isso, nem preciso dizer que o livro tem no seu ponto forte justamente uma visão abrangente da cultura nos anos 1960-70, principalmente seus setores mais dinâmicos: música popular, teatro e cinema. Sob esta ótica, o livro tem dois capítulos muito interessantes, que já vão entrar para as bibliografias de História da Música Brasileira (e do cinema, teatro e cultura em geral) – começando pela minha. “No entanto é preciso cantar: a cultura entre 1964 e 1968″ e “A primavera nos dentes: a vida cultural sob o AI-5″. (Abra aqui o sumário completo, do sítio da editora).

Marcos Napolitano (divulgação / Editora Contexto)

Marcos Napolitano (divulgação / Editora Contexto)

Se você abriu o sumário no link acima, você viu que o livro tem uma visão privilegiada sobre a cultura no Regime Militar, até por ser a principal área de trabalho do autor como pesquisador. Mas o livro não é só isso. Tem ainda um capítulo bem importante sobre as “letras em rebeldia” – abordando os escritores e intelectuais (e refletindo sobre porque o governo militar ter ficado tão completamente isolado entre a intelectualidade, que se tornou consensualmente de oposição ao Regime) e  com uma interessante visão da imprensa alternativa (a única que se manteve com independência em relação ao Regime – apoiado desde a primeira hora pelos grandes jornais).

Se o que eu achei mais interessante foi o panorama cultural do Regime Militar, o livro tem outras partes mais pedagógicas. Ele é uma visão ampla e bem fundamentada das causas que levaram ao golpe de 1964, com a necessária avaliação do governo Jango (1º capítulo). Essa parte se tornou tanto mais necessária quanto mais o governo Jango foi sendo avaliado de forma bastante parcial, tanto à esquerda (que o considerava vacilante e conivente com a direita) quanto à direita (que passou uma visão de um governo incompetente com um presidente imoral – bêbado e mulherengo). O trabalho de reavaliação deve seus créditos ao livro do Jorge Ferreira (que resenhei aqui para a Gazeta), amplamente usado como referência pelo Napolitano, somado a alguns outros trabalhos de pesquisa documental.

Aliás, esse é o grande mérito do livro do professor da USP. Tem coisas que o Napolitano conhece porque pesquisou direto, como já mencionei acima, e tem coisas que ele mobiliza uma série de estudos acadêmicos profundos e recentes. Ou seja, o livro não é mera opinião sobre o Regime Militar, mas é uma grande recensão do que tem de melhor na pesquisa recente – grande parte em teses e dissertações não publicadas. Ou seja, quando você quiser opinião sobre o Regime, poderá encontrar dezenas de livros já publicados ou que sairão este ano em que o golpe completa meio século. Se você quiser uma síntese abrangente do que a academia tem descoberto a partir da pesquisa documental, vai ter que recorrer sempre ao livro do Napolitano, e isso é o que ele tem de mais fundamental.

Entre o capítulo sobre Jango e o capítulo sobre a cultura 1964-68, tem dois capítulos em que Napolitano reavalia a conjuntura política que levou ao golpe. Primeiro a questão de uma “tradição” golpista já bem arraigada na política brasileira, que remetia aos golpes de 1945 (para tirar Getúlio antes das eleições), de 1954 (que levou ao suicídio de Vargas), de 1955 (que garantiu a posse de JK). Mais do que eleições livres, o ensaio democrático que o Brasil teve entre 1945-64 foi caracterizado por golpes e contragolpes. De modo que os principais atores (especialmente a oligarquia e os “liberais”) não imaginava uma atuação política prescindindo das quarteladas e das viradas de mesa. Isso contrastou com o crescimento vigoroso da atuação das massas urbanas na cena política, algo inaceitável para os setores acostumados a mandar no Brasil desde os tempos do Império. Ou seja, Napolitano analisa o golpe como uma aliança civil/militar contra o reformismo trabalhista, travestida em discurso anti comunista que levou ao absurdo de propagar a ideia de um golpe “saneador” em prol de uma democracia (que evitasse a participação direta das classes populares).

Este tipo de análise se tornou urgente, à medida em que os anos recentes viram um crescimento assustador do revisionismo que propõe que o golpe foi necessário para evitar uma ditadura comunista, fator que se soma ao anti petismo doentio que a gente vê com tanta facilidade em colunistas na imprensa e em opiniões avulsas nas redes sociais. Em relação a isso, o livro tem um capítulo inteiro para discutir a visão de que tenha ocorrido uma fase “liberal” do regime sob Castelo Branco, o que ocorre no capítulo sobre a “ditabranda”. O mesmo tema vem costurado com o capítulo final, onde Napolitano discute a memória do Regime, os problemas da transição para a nossa (parcial) redemocratização e a questão da Comissão da Verdade. (Um pouco dessa discussão já apareceu aqui neste blog, neste post.)

O capítulo sobre os “anos de chumbo” após o AI-5 traz uma necessária revisão da história dos grupos que aderiram à luta armada e uma avaliação do período mais negro da repressão. O fechamento do Regime não vem apresentado como uma “reação” à militância esquerdista, mas como um projeto próprio dos militares, que desde o início do Regime se afastaram dos aliados civis (como Carlos Lacerda, o político que apoiava mais entusiasticamente um golpe contra Jango) para implantar um projeto radical de modernização conservadora. Neste sentido, o autor confronta o discurso de que houvesse qualquer diferença substancial entre alguma “linha dura” dentro dos quartéis que estivesse sabotando e “golpeando por dentro”. A linha dura fazia parte do projeto principal, e levava a conta do serviço sujo, mas sempre esteve submetida à hierarquia pela qual os militares tanto prezam.

Por essa linha vai também a análise do governo Geisel e do período de abertura. Napolitano questiona a noção de que Geisel tenha sido o general que distendeu o Regime, lembrando, por exemplo, que o pior período da censura à imprensa (Estadão e Veja) ocorreu na transição para ou durante o governo Geisel. Do mesmo modo, foi o início do governo Geisel o período que somou o maior número de desaparecidos. Mais ainda, foi o período em que a tortura e as execuções nos porões do Regime se voltaram contra a oposição pacífica. O PCB, partido aliancista que nunca apoiou ou participou da luta armada, foi considerado “culpado” pela vitória do MDB nas eleições legislativas de 1975, e sofreu uma brutal repressão, com o assassinato de todos os seus principais líderes.

O ponto alto do livro, pra mim, é a necessária ligação com uma herança maldita do Regime Militar, que até hoje sustentamos. Por exemplo, os índices assustadores de violência são apontados por Napolitano como uma consequência direta dos vários tipos de violência capitaneada pelo Estado contra seus cidadãos a partir do Regime: a violência policial direta (com a criação da PM que até hoje não foi democratizada) e a violência institucional indireta que foi provocada nos bolsões de pobreza desassistida que foram construídos na periferia dos grandes centros. Sem falar na sempiterna exclusão dos camponeses (trabalhadores rurais) que continuam tratados a bala pela jagunçada impunemente até hoje.

O ponto fraco do livro parece ser o capítulo sobre o milagre econômico. Ali eu senti falta do uso de uma bibliografia mais consistente com os estudos mais recentes dos departamentos e/ou revistas especializadas de economia. Os estudos utilizados por Napolitano vieram concentrados entre a própria produção crítica da intelectualidade de esquerda logo após o Regime, ou dos estudos das áreas de Ciência Política, Sociologia e História. Me parece que a crítica ao milagre ganharia muita substância com os próprios trabalhos dos economistas ortodoxos, afinal, não é apenas sob a ótica da esquerda que o milagre econômico foi desastroso. As consequências de uma economia concentrada, do viés industrialista, do intervencionismo autoritário e da tributação e da burocracia kafkeanas são sentidos até hoje, quando temos dificuldade intensa em nos livrarmos do entulho autoritário que vamos levando por inércia.

E o livro nos dá boas pistas sobre o que seja talvez o principal motivo pelo qual não conseguimos nos livrar dos piores defeitos institucionais e políticos que herdamos do Regime Militar (nossa legislação sobre partidos políticos, por exemplo, feita para que o governo sempre obtenha fácil apoio e seja impossível construir consensos transformadores pela oposição, além de uma notável impermeabilidade a pressões populares).

Napolitano faz uma crítica severa do processo de abertura. Por um lado, houve o projeto da transição controlada, operada por Geisel e Figueiredo, que investiu numa institucionalização estruturante dos projetos dos militares. Mas houve também o problema estratégico das oposições: todo mundo estava tão preocupado em sair do mundo sufocante da repressão e garantir espaços de respiração na política institucional, que os canais oferecidos pelo Regime em seu processo de transição foram aceitos meio sem questionamento. Houve mais preocupação em garantir a possibilidade de se eleger depois que as eleições voltassem a ser livres do que em passar a limpo o período ditatorial. Esse paradoxo se tornou ainda mais agudo à medida em que desde Fernando Henrique Cardoso o Brasil vem sendo governado pelos principais opositores do Regime Militar, e mesmo assim nada avançou na punição aos crimes cometidos nem no estabelecimento da verdade documental sobre o Regime. Praticamente a única reparação que o Brasil fez foi a indenização pecuniária de parte das vítimas do Regime. E é por isso que um movimento como o #DesarquivandoBr é tão necessário (veja também a ótima série de textos sobre o assunto produzidos pelo jurista Pádua Fernandes em seu blog).

Quer dizer, o livro é um grande lançamento, não só por ser uma História do Regime Militar solidamente construída, aproveitando o mote dos 50 anos do golpe de 1964. Mais do que isso, o livro faz uma necessária reflexão política, e coloca o dedo em feridas que estão abertas. 50 anos não é tempo demais pra gente deixar tanta coisa grave sem uma solução definitiva?

Páginas1234
Este é um espaço público de debate de idéias. A Gazeta do Povo não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
«

Onde e quando quiser

Tenha a Gazeta do Povo a sua disposição com o Plano Completo de assinatura.

Nele, você recebe o jornal em casa, tem acesso a todo conteúdo do site no computador, no smartphone e faz o download das edições da Gazeta no tablet. Tudo por apenas R$ 49,90 por mês no plano anual.

SAIBA MAIS

Passaporte para o digital

Só o assinante Gazeta do Povo Digital tem acesso exclusivo ao conteúdo do site, sem nenhum custo adicional ou limite.

Navegue com seu celular ou baixe todas as edições no tablet - um novo jeito de ler jornal onde você estiver.

CLIQUE E FAÇA PARTE DESSE NOVO MUNDO

»
publicidade