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O futebol da contracapa: uma etnografia da Suburbana em Curitiba

Capa do livro publicado pela Editora Máquina de Escrever

Depois que a História como disciplina abandonou aquela posição tradicional a respeito dos eventos políticos, das personalidades importantes, e das fontes escritas, uma gama de novos assuntos tornou-se alvo dos pesquisadores.

O futebol não poderia deixar de interessar, como tema de pesquisas em História e Ciências Sociais. Mas, dentro do assunto futebol, com uma ampla gama de possibilidades de abordagens para os estudiosos e curiosos, o assunto mais tradicional seria o futebol profissional, seus grandes clubes e os grandes jogadores, campeonatos e partidas memoráveis. Não é isso que está no livro escrito por Allan de Paula Oliveira, Hélder Cyrelli de Souza e João Castelo Branco. Allan é historiador, músico e antropólogo, professor da UNIOESTE. Hélder é historiador e professor do Colégio Militar e João é fotógrafo e cineasta.

Esta interessante equipe interdisciplinar fez um profundo mergulho na parte menos glamourizada do futebol na capital paranaense: o campeonato amador conhecido como Suburbana. Por ocasião do lançamento, já saíram dois ótimos textos, um no caderno de esportes da Gazeta e outro no blog Baixa Gastronomia. Tentando não repetir o que já escreveram, seguem minhas impressões de leitura.

O livro foi resultado de ampla pesquisa, financiada pelo edital do Mecenato da Fundação Cultural de Curitiba. Tem uma parte bibliográfica, quer dizer, os autores leram muitos estudos sobre futebol – mas o legal do livro é que ele é para o público “normal” e não o acadêmico. Isso significa que eles não fazem notas de rodapé, citações nem bibliografia ao final, o que estaria mais para os estádios padrão FIFA do que para os alambrados da suburbana. Mas, para quem quer se aprofundar no assunto, ou saber de onde vêm certas ideias, as coisas estão indicadas convenientemente, e temos à mão a ajuda do google.

Tem outra parte antropológica, que é a do mergulho no universo da suburbana. Os autores assistiram ao campeonato de 2010, vencido pelo Santa Quitéria depois de um jejum de 23 anos. Comeram pão com bife nas lanchonetes, entrevistaram jogadores, árbitros, radialistas, técnicos, e conversaram com os grandes especialistas no assunto. Fotografaram muito – é isso é aliás o maior mérito do livro. Tem muita foto, com uma poesia visual de fazer jus à grandeza dos heróis cotidianos que fazem do futebol um jeito simples e incrível de vida.

O livro faz um mergulho preciso na história do futebol, na relação entre profissionalismo e amadorismo, nos sentidos sociais e culturais do futebol amador, e, principalmente, é um libelo pela importância da Suburbana como patrimônio cultural imaterial da cidade. São os clubes amadores que testemunham os muitos jeitos de ser em Curitiba, e promovem uma circulação pela cidade para além dos espaços glamourizados do discurso oficial, do urbanismo “capital de primeiro mundo”, que tem sua face no futebol burocrático das competições profissionais e dos discursos de jogador após o jogo – tipo “tentamos fazer o que o professor mandou”.

Então o livro é tudo isso: uma história do futebol amador em Curitiba, uma história dos clubes que fazem este campeonato tão simbólico da vida cotidiana nos bairros da cidade, uma antropologia do campeonato e de seus personagens, uma amostra de como as pessoas dão sentido às coisas através de um simples jogo, uma defesa da diversidade de ser e viver em Curitiba. E sobretudo, muitas fotos, bonitas fotos.

É um livro para ser lido por quem gosta de futebol e por quem é curioso por entender um pouco de Curitiba. E é também um grande convite a que mais pesquisadores mergulhem neste universo e mais livros sejam escritos.

Eu até fiquei com vontade de acompanhar a suburbana, e já teria time para torcer – o Combate Barreirinha, maior vitorioso nos tempos em que comecei a ouvir falar da existência deste mítico campeonato. Nos 12 títulos disputados entre 1996 e 2007 o Combate só não chegou à final em 1999 e 2002. Nos outros 10 campeonatos, foi campeão 6 vezes, e 4 vezes vice-campeão.

Veja também, aqui no blog, outros textos relacionados:

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP (com participação do Allan Oliveira em uma das mesas)

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

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