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Enviado por admin, 28/03/11 9:00:00 AM

Os super-heróis dos deficientes

Voltei há pouco de uma vivência marcante em Foz do Iguaçu. Passei quatro dias na companhia de 116 pessoas que juntas debatiam, refletiam e eram orientadas por uma equipe de profissionais de diversas áreas para tentar encontrar a resposta para uma pergunta dificílima: qual o propósito da minha vida? Ninguém saiu de lá com a resposta na ponta da língua, mas ficou com pelo menos algumas dicas, percebeu algumas pistas e teve uma chance única de se conhecer um pouco mais.

O mote dessa discussão toda foi a autossuperação. Discutimos profundamente esse conceito e ouvimos histórias surpreendentes de pessoas que experimentaram esse momento em que você transgride a si mesmo. É uma transgressão prazerosa, porque a barreira é imposta pelo próprio autor da audácia. O limite, o medo, a crença de que não é possível e a ideia de que “daqui você não passa” são restrições estabelecidas e confrontadas pela mesma consciência. Somos vigias e bandidos ao mesmo tempo quando nos autossuperamos.

Terry Dodson
Personagens criados por Stan Lee: os poderes heróicos são adversidades na vida deles

Trazendo essa palavra para mais perto de mim e olhando a minha história, comecei a lembrar das vezes que eu ouvi a palavra superação na fala de outras pessoas. Era comum me falarem que minha força de vontade é um exemplo, seja no momento de recuperação de uma cirurgia, ou quando alguém me vê tocando a cadeira pelas gloriosas calçadas curitibanas.

Por mais de uma vez eu ouvi alguém dizer que “tem tanta gente por aí que não tem problema nenhum e não faz nada da vida e você sentado numa cadeira de rodas faz as suas coisas. Essas pessoas deveriam pensar nisso”. Deveriam mesmo, mas não dessa maneira.

Eu acho interessante quando um deficiente tem a chance de falar, numa palestra por exemplo, sobre motivação, superação, persistência e tudo mais. Mas eu também sei que quem ouve ele falando tira a conclusão que aponta sempre pra mesma direção: “Eu reclamo de barriga cheia”. É positivo, mas parcial.

Imagine que a situação da palestra e do reconhecimento é um lado de uma moeda. Vou agora olhar o outro lado.

Por mais de uma vez eu já ouvi alguém dizer que eu mereço ser curado, já fui chamado de coitado e já me ofereceram esmola. Quando comento que eu viajo sozinho, alguns arregalam os olhos e me perguntam “mas você tem coragem?” e eu fico pensando que essa independência realmente espanta. Quando contei que eu havia comprado um apartamento e que quando a obra ficasse pronta eu finalmente sairia da casa dos meus pais, um parente bateu amigavelmente na minha perna e disse que era bobagem, que eu deveria guardar dinheiro e completou com a frase “Se é difícil para mim, imagine para você”.

Paradoxal isso.

Se eu enfrento as adversidades, sou visto como herói. Se eu me entrego a elas, sou vítima de uma infelicidade. A linha é tênue, a visão turva e o conceito capenga. É possível ver isso de uma outra perspectiva, usando os mesmos parâmetros. Quem já ouviu a frase “o limite está na mente”, sabe que ela é muito comum na inclusão. Vou tirá-la desse contexto e propor um outro olhar.

Quero emprestar essa ideia de limite interno para um dependente de álcool, para um viciado em drogas e para uma pessoa que precisa de remédios psiquiátricos controlados para desempenhar atividades diárias. Vou ainda considerar que eles decidiram intimamente mudar o curso de suas vidas, abandonando um vício, ou comprometendo-se com um tratamento. Nessa fase, essas três pessoas conhecem de perto coisas que eu também conheço: dor física, preconceito social, estagnação de espírito e a sensação de ter que enfrentar um monstro impossível de ser visto, mensurado e combatido. Correm o risco de serem abandonados pela família, pelos amigos e têm consciência de que por vezes as pessoas não vão saber lidar com esse momento de virada.

Se eles resolverem levar a cabo a autossuperação que têm dentro de si e enfrentarem suas barreiras, serão vitoriosos numa jornada longa, paulatina, que demanda dedicação e persistência. As conquistas são pequenas, vêm em gotas, e só eles saberão a importância de cada uma delas.

Colocando as características lado a lado, qual a diferença entre eu e eles? E ainda há gente que olha a vitória deles com maus olhos. Polêmico, não?

Pensar que a superação de limites é digna de troféu é uma postura delicada, se focarmos apenas uma pessoa. A saída: começar a encarar a inclusão como uma vitória conjunta. A chance: perceber que se você participa da superação de alguém, você quebra um paradigma em você mesmo.

Como estou ampliando conceitos, quero parar de falar em inclusão e vou passar a falar em renovação. Isso só acontece em rede e mexe com todo mundo. Que tal você levar isso para a sua própria vida e fazer um exercício? Tente se lembrar de todos os momentos em que você se superou e coloque perto desse momento todas as pessoas que fizeram parte dessa conquista. Eu quis ser cobaia disso e vi uma coisa assim:

Leniza Wallbach
O meu mapa de inclusão está cheio de outras pessoas, então a autossuperação só acontece em rede. A diagramação foi gentilmente feita por Leniza Wallbach

As pessoas ao redor das minhas conquistas fazem parte delas e isso vale para qualquer pessoa, independente do contexto.

A inclusão é uma renovação no pensar, no agir,no relativizar e precisa ter seu escopo ampliado. Juntos temos a chance de derrubar preconceitos e estar no mundo de forma mais tolerante e engajada.

Olhando para trás eu não consigo encontrar um momento sequer de conquista em que eu estivesse sozinho. Passo por momentos simples, como a presença do Elias, um funcionário do meu colégio, que me dizia “Não se preocupe, Rafaelzinho. Todos os dias eu estarei aqui para te carregar pela escada, na entrada e na saída da aula” e vou a situações mais complicadas, como viajar sozinho e ficar hospedado num albergue carioca, percebendo que hóspedes e funcionários se mobilizariam para possibilitar a minha estada lá. A conquista nunca foi minha. Mas de todas as pessoas que mesmo por um momento transformaram a maneira que viam o mundo e praticaram uma alternativa.

Deficiente não é vítima nem herói. É uma condição de releitura. Quer fazer parte?

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    Paranaense se torna referência nacional em inclusão - Inclusilhado | 19/07/2013 | 14:52

    [...] Para ler o texto Os super-heróis dos deficientes, clique aqui. [...]

    Cybelle | 23/01/2012 | 00:59

    Conheci hj seu blog, e já fiquei fã!!! parabéns!!!!

    Ji... | 22/05/2011 | 22:48

    Mais uma vez, uma ótima matéria!!! Parabéns, Rafa!

    Manuel Fernando Croskey | 21/04/2011 | 16:46

    Adorei seu blog, e como você escreve! Já era seu fã só de ouvir sua mãe (minha amiga e colega) falar com orgulho de você. Grande abraço! Croskey

    Andrea Koppe | 03/04/2011 | 20:17

    Inspirador como sempre, Rafa! Tenho orgulho de você, não porque é um cadeirante tentando superar a falta de acessibilidade e compreensão desta sociedade que ainda tem muito o que melhorar. Mas sim porque é um ser humano digno de admiração e que tanto ja fez para transformar o mundo em um lugar melhor. Estarei sempre com você, contribuindo para que as suas conquistas sejam também nossas. Parabéns!

    Luciana do Rocio Mallon | 02/04/2011 | 18:35

    Estes dias tenho levado a minha mãe para fazer Radioterapia no Hospital Angelina Caron,lá na sala de espera conversei com um senhor que usava óculos escuros.Só percebi que ele era cego quando ele falou sobre este problema.Além disto o idoso disse que morava sozinho desde os 21 anos e que nunca se sentiu limitado.

    Bianca Cristina Fachinello Miranda | 28/03/2011 | 21:25

    Rafa, como sempre seu texto aborda temas e conceitos surpreendentes, sem falar na forma como você escreve, que é uma delícia. Parabéns!

    Eliete Constante | 28/03/2011 | 21:19

    Excelente texto! Sempre comento q a felicidade de alguém não está em se regozijar da infelicidade d outros...Se partirmos desta lógica, em quem os deficientes mais comprometidos e suas famílias, os miseráveis vão poder se confortar?! É comum q reflexões a respeito de deficiência, terminem com este tipo de pensamento d "eu sou ingrato". O objetivo é bem distante deste, é d entender sim a inclusão como espaço coletivo d novas discussões e práticas, d um novo olhar acerca dos deficientes.

    Elida | 28/03/2011 | 16:09

    Obrigada pelo convite à reflexão, Rafa. O que move essa rede de convívio é a sua força de vontade e a generosidade em deixar que as pessoas aprendam a te ajudar. Foi você quem me ensinou muitas coisas sobre os "bons modos" em lidar com pessoas com deficiência e, por extensão, a lidar com todas as outras pessoas com outras deficiências que não essas sensoriais ou mentais. Um beijo!

    J. Olímpio | 28/03/2011 | 11:43

    Rafael, sua abordagem foi instigante, bem próxima do que sempre achei: ninguém "supera" a sua limitação pessoal, mas convive melhor ou pior com ela. Os outros, nesse contexto, podem contribuir para melhor ou pior. Nunca, porém, acabam tendo a decisão final. Abraço!

    Shenara | 28/03/2011 | 10:55

    É interessante esse convite a releitura que você faz e a ideia de que a superação é de todos e não só do "sujeito" da situação, faz com que todos ao ajudarem, tirem os olhos desse "sujeito" e passem a se analisar também, como uma pessoa que busca aprender, rever conceitos e romper barreiras, afinal, há barreiras psicológicas bem piores que as físicas!

    André | 28/03/2011 | 10:52

    Prezado Rafael, gostei bastante do seu texto. Só diria que realmente as outras pessoas fazem parte das nossas conquistas, mas - sem o pensamento que te mova, a partir da sua mente, a agir - aí não adianta ninguém ajudar. Penso que cada coisa é fundamental: o meu engajamento e a ajuda alheia. A minha postura deve ser a de reconhecer o que os outros fazem por mim, mas - ao mesmo tempo - nunca devo "esperar" que essas ajudas caiam do céu, não devo descuidar do meu engajamento.

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