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Movimento Curitiba, a negra

(Arte: Felipe Lima)
(Arte: Felipe Lima)

Curitiba é “a fria”, como tripudiou o pernambucano Fernando Pessoa Ferreira, nos idos dos anos 1960, ao bater o pó das chinelas e se despedir do lugar que, curto e grosso, odiou. Tolo esse Pessoa. Cidade de verdade tem caras e bocas, vai de zero a mil, muito doida, muito santa, muito puta. Curitiba, por exemplo, também “é negra”, de uma forma só dela, como tem mostrado uma leva de respeitáveis pesquisadores.

Talvez seja cedo para dizer, mas os estudos sobre negritude na divisa tida como a mais alemã do Brasil (perdão aí, Blumenau e redondezas), a segunda maior colônia polonesa do mundo – depois de Chicago, nos Estados Unidos –, e logo, “branca de neve”, já configuram um movimento cívico-intelectual-do-balacobaco, capaz de botar fogo na paróquia, como há muito não se via.

A lista de quem tem se ocupado do tema é longa e constitui uma realeza. Difícil citar nomes. Permitam uns chutes. Começa, lá atrás, com a historiadora decana Márcia Graf, decodificadora da onipresença do termo “morenos” em tantos documentos antigos, um eufemismo para negros. Chega a quem seria o primeiro médico negro formado pela UFPR, Nizan Pereira Almeida, ocupado de mostrar as migalhas que foram dadas a sua gente. Seu campo de interesse: a educação pós-Lei Áurea. De resto, Nizan é o melhor papo possível sobre revoltas negras do Brasil Colonial e no espetacular Djalma Santos, como não.

No meio do caminho entre Graf e Nizan, passa uma carreata de notáveis. Há acadêmicos, como a historiadora Joseli Nunes Mendonça, da UFPR; ou não. Há no time jovens cheios de apetite diante dos achados em arquivos, associações, cúrias, porões, álbuns de família… Não desprezam depoimentos, dados por quem está com um fio de memória. Pensar que até há pouco tempo a história dos negros jazia lá, numa reserva de fungos. Jazia. Agora anda debaixo do braço de gente como o descendente de árabes Gehad Ismail Hajar – que investiga a biografia esquecida do negro Turíbio, que viveu na segunda metade do século 19. Era um tipo – batia matraca em procissão, fazia ponto na Igreja dos Pretos de São Benedito. Ah, ensinava sua turma a ler e a escrever.

Basta dizer que apenas em torno do advogado e pesquisador Thiago Hoshino – um “japa” e pouco mais que um guri – se agregam uma dezena de curiosos que nos deixam boquiabertos com suas teses, dissertações e artigos. Nenhum deles tem compromisso com a pose de quem almeja o Nobel. Fazem o que se deve fazer – mostram sem preguiça e empáfia o que estava à espera de ser mostrado, sobre uma questão que, digamos, mexe no eixo da Terra. Hoshino, por exemplo, leu atas e mais atas da Sociedade Operária 13 de Maio, uma das primeiras do Brasil, fundada, creiam, ainda em 1888. O que achou tinha de ser ensinado na escola – tarefa que o historiador Fabiano Stoiev se ocupa de cumprir. Por aí vai.

Para entender o estado da arte, é preciso pôr para correr algumas mentiras que viraram verdades, tão repetidas. O Paraná teve escravidão, quilombo, negros fugidos, senhores envenenados ao pé da lareira, à sombra dos pinheirais. Teve resistência – e nada mais urgente do que deixar de molho as afirmações de gente grande como Romário Martins e Wilson Martins, mas que derraparam ao tratar da escravidão. Nesse quesito, reservem-lhes os rodapés.

O período escravocrata no estado teve uma cartografia própria e não adianta compará-la a uma novelinha de época, como se tivesse ocorrido debaixo das românticas saias de sinhazinhas. Lucélia Santos não era nascida. Havia negros cuidando de gado, de fazendas, com arma na cintura, dando passos livres pelos matos, ainda que não o fossem. Mais. Há indícios de que parte dos escravos e dos forros estava organizada em sociedades, antecipando-se à canetada da Princesa Isabel. Pode-se encontrá-los na origem da Sociedade Operária, ainda antes da Abolição. Recorrendo às “caixas de socorro”, nutrida pelos que lhes financiavam a alforria. Nas barbas da misteriosa confraria abolicionista Ultimatum. Alguns chegavam a exercer profissões liberais. Esse rio é do tamanho de um oceano.

Nossos negros tinham até uma santa, não reconhecida pela Igreja – a mártir (mas não virgem) Maria Bueno, retratada em santinhos, e pouco a pouco clareada e levada para os terrenos de umbanda, onde descansa em paz. Quem sabe muito sobre a dama, entre outros, é um potiguar, o antiquarista Edvan Ramos da Silva, radicado por aqui. Seu olhar distante não se contentou com versões bocejantes sobre uma Maria amásia de um soldado, lavadeira, morta em um crime passional. O forasteiro se coçou e descobriu uma mulher cultuada em irmandades dos pretos, objeto de uma liturgia ainda em vias de ser desvendada, apagada em documentos sonegados por quem devia servir de espelho.

Além de garantir pasto para futuros pesquisadores, a turma que estuda os negros tem se colocado no limite eletrizante entre a história e o jornalismo – como alguns dos pesquisadores gostam de frisar. Impõe-se no cardápio, por exemplo, a presença das professoras negras em salas de aula, no miolo do século 20. Para dizer o mínimo, é curioso que numa cidade que demorou a assimilar os homens e mulheres de cor houvesse professoras negras, lecionando para crianças que associavam a pele escura às domésticas, apenas. Em palavras simples de caboclo – tem um sentido.

É certo que a palavra “moreno” e “morena” veio em socorro dos que não queriam significar. Servia para clarear homens e mulheres que se desgarraram dos lugares a eles reservados. Basta pensar no futebol. O jornalista Levi Mulford, historiador diletante desse esporte, resiste em apontar os primeiros negros a atuarem nos times locais, num tempo em que jogar bola era sinônimo de status, um sinal de que a fase aguda da imigração e da pobreza tinha sido vencida.

Em sua casa na Vista Alegre, Levi guarda o maior e mais impressionante acervo sobre as agremiações da capital. Arquiva cartas amareladas a ele enviadas por jogadores da suburbana – escritas de próprio punho, décadas atrás –, fotos das equipes, e o que mais se possa imaginar. A quantidade de atletas negros – ou pardos – salta da coleção de fotos antigas, indicando que há outro capítulo a ser escrito. Em tempo. Ainda se espera resposta sobre quem é o negro de terno e gravata, cujo retrato oval e emoldurado reina na galeria de fotos da vetusta Sociedade Ypiranga F.C., na Água Verde, lado a lado com Gabardos e Parolins.

As aleivosias do esporte se repetem na educação, mas não de todo. É fato que centenas de piás e gurias passaram pela batuta da professora Maria Nicolas, autora de A alma das ruas, nome de escola no Portão, dramaturga, poeta, pesquisadora e negra. A primeira engenheira negra formada no Brasil, Enedina Alves Marques (especialidade de Sandro Fernandes e de Jorge Santana), antes foi professorinha graduada pelo Instituto de Educação do Paraná. Lecionou em Rio Negro e nos Campos Gerais. Ponha-se na conta a professora Olga dos Santos, mãe do craque Amauri dos Santos, um dos negros pioneiros nos campos do Atlético. Mulher de letras, marcou a outrora vila operária de Santa Quitéria. Mais? Terezinha do Nascimento, que fez carreira no Colégio Estadual Lysímaco Ferreira da Costa, e cuja elegância ofuscava as primeiras damas do Batel.

Urge engordar essa lista. Mas se foram cinco ou dez professoras negras, nem sempre importa. Sabe-se que o que se deu com elas foi uma daquelas revoluções da vida privada. Essas mulheres chegaram ao giz e à lousa por meio da escola pública e do concurso público. Não fosse assim, sabe-se lá. É de pensar – e romantizar – o que ensinaram em sala, para além do bê-á-bá.

Confira o arquivo de colunas de José Carlos Fernandes publicadas na Gazeta do Povo até junho de 2017.